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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Brasil/PEC 55 não! Ocupações pedem doações para garantir caravana a Brasília



22/11/2016, União Nacional dos Estudantes –UNE http://www.une.org.br (Brasil)

por Cristiane Tada

UNE abriu cadastro para os interessados em viajar até a capital federal; entidade busca agora recursos para viabilizar o transporte

Já são quase 2 mil pessoas inscritas para a caravana que vai fazer de Brasília a capital das ocupações estudantis no dia da votação da PEC 55 em primeira instância no Senado Federal. São estudantes de universidades federais, estaduais, particulares, Ifes e escolas de todos as regiões do país.

A UNE tem feito um cadastro de interessados em participar para poder estruturar ônibus que sairão de várias cidades brasileiras rumo ao Distrito Federal.

Os estudantes vão pressionar senadores para que não aprovem a mudança na constituição que, além de desvincular recursos para Saúde e Educação, vai congelar os investimentos nas áreas durante 20 anos.

Para viabilizar essa a ida dos estudantes à Brasília, a UNE também realiza uma arrecadação de doações de

quinta-feira, 10 de março de 2016

Brasil/Em defesa de Lula, símbolo de luta e de inclusão social



8 março 2016, CUT Central Única dos Trabalhadores http://cut.org.br (Brasil)

Sindicalistas de todo o mundo estão aderindo à campanha internacional em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançada pela CUT


Escrito por: CUT Nacional

Desde o início da trajetória contra a ditadura militar nos finais dos anos 1970 e pela redemocratização do Brasil, o nome de Luiz Inácio Lula da Silva converteu-se em exemplo de determinação, em símbolo de luta e de justiça para a classe trabalhadora e, sobretudo, para os mais pobres.

Seja no comando das greves históricas, que abalaram os alicerces do regime militar ou no enfrentamento às perseguições e abusos de sua polícia, Lula demonstrou sempre discernimento e serenidade para seguir adiante, impulsionando o melhor de cada um e de todos para a construção de um novo tempo, contribuindo muito na fundação da CUT, do PT e na luta pelas liberdades democráticas.

Os anos se passaram e o líder metalúrgico virou presidente da República, realizando dois governos considerados por todos marcos históricos de crescimento econômico, com valorização do trabalho e distribuição de renda.

Avançando aceleradamente nas melhorias sociais, o PIB brasileiro virou o sétimo do mundo. O aumento real do salário mínimo no governo Lula foi de 53,6%, quando foram gerados mais de 15 milhões de novos empregos formais e retirados 40 milhões de brasileiros da miséria.

Durante seu governo, mais de seis milhões de empregadas domésticas - historicamente marginalizadas em nossa sociedade - passaram a ter

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Moçambique/40 Anos de independência: Alegria e cor na festa da independência

26 Junho, Jornal Noticias http://www.jornalnoticias.co.mz (Maputo)


Cor, luz, música e dança marcaram ontem as cerimónias centrais do quadragésimo aniversário da independência nacional.

O Estádio da Machava, recinto que há 40 anos foi palco da declaração da independência, foi ontem “pequeno” para acolher a moldura humana que acorreu àquele recinto para, num acto simbólico e carregado de muita emoção, celebrar a liberdade, a identidade nacional, a paz e o desenvolvimento.

Mas comecemos do fim. Com o mítico Estádio da Machava esgotado, quatro paraquedistas rasgaram os céus, para o delírio dos milhares de cidadãos que se encontravam ali. Os paraquedistas, dois saltando em paraquedas com as cores da bandeira nacional, foram

segunda-feira, 20 de maio de 2013

PAN-AFRICANISMO E RENASCIMENTO AFRICANO*



18 maio 2013, ODiário.info http://www.odiario.info (Portugal)


Há meio século, a OUA tinha como objectivos fundamentais libertar a África do colonialismo e do apartheid e garantir a unidade continental. Hoje há 54 países africanos independentes e subsiste por resolver a situação da República Árabe Saharauí Democrática, proclamada pela Frente Polisário na ex-colónia espanhola do Sahara Ocidental, entretanto anexada por Marrocos. Os benefícios económicos, sociais, culturais e em todos os domínios que as independências trouxeram aos povos africanos são imensos. Do ponto de vista histórico, a derrota do colonialismo e a libertação nacional de África significam um avanço enorme. Os sacrifícios dos patriotas nas lutas emancipadoras não foram em vão.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Moçambique/35 da independência: Recordar o passado a pensar no futuro

Amanhã Moçambique e o seu povo celebram mais um aniversário da Independência Nacional. Não é uma celebração comum. Passam 35 anos desde que o país foi declarado livre e independente do colonialismo, mudando a partir daí, a 25 de Junho de 1975, o rumo da sua história. Será uma oportunidade para os moçambicanos fazerem a retrospectiva do tempo percorrido, recordando o passado da epopeia libertadora e, ao mesmo tempo, repensar o futuro.

24 junho 2010/Notícias

Porque a dimensão político_histórica do acontecimento há muito ultrapassou as fronteiras nacionais, são esperados na capital do país alguns Chefes de Estado da região, com destaque para Robert Mugabe, do Zimbabwe, e do Botswana, Ian Khama; os monarcas da Swazilândia, Mswati-III, e do Lesotho, Letsie-III.

Também são aguardados na capital os antigos presidentes da África do Sul Thabo Mbeki; do Botswana, Quett Masire; da Tanzania, Benjamim Mkapa; da Namíbia, Sam Nujoma, e das Maurícias, bem como o Primeiro-Ministro da Namíbia; Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal; Presidente da Assembleia Nacional de Angola entre outras individualidades.

Teresa Monteiro, coordenadora do secretariado da Comissão Interministerial para Grandes Eventos Nacionais e Internacionais (CIGENI), garantiu ontem a jornalistas em Maputo que, em termos organizativos, tudo está a postos para que as celebrações dos 35 anos da independência nacional decorram num ambiente festivo, tranquilo e harmonioso.

Estão previstas réplicas dos festejos da efeméride em todas as províncias do país. Segundo o programa, após a deposição de uma coroa de flores no monumento erguido em homenagem aos heróis moçambicanos, o Chefe do Estado, altos dignitários do Estado, convidados estrangeiros, dirigentes governamentais, deputados da Assembleia da República, representantes de partidos políticos, da sociedade civil, autoridades religiosas e comunitárias e populares dirigir-se-ão à Praça da Independência, onde será cantado o Hino Nacional e disparadas 21 salvas de canhão.

Depois deste acto, o Presidente da República passará revista à guarda de honra, após o que receberá a tocha da Chama da Unidade para de seguida acender a pira colocada no local. Estão programados também um desfile civil-militar e orações religiosas.

O momento sublime das celebrações será marcado pelo discurso do Chefe do Estado à Nação. Todos os actos previstos serão antecedidos por momentos culturais, com destaque para a actuação de grupos provenientes de algumas províncias que, entretanto, já se encontram na capital do país.

Após o comício, o Presidente da República vai oferecer, na Ponta Vermelha, uma recepção aos convidados nacionais e estrangeiros. Para colorir a festa, está prevista a realização dum mega-espectáculo na Praça da Independência, no qual perfilarão grupos e nomes sonantes da música moçambicana.

Refira-se que a independência nacional foi proclamada, no Estádio da Machava, em Maputo, a 25 de Junho de 1975 pelo falecido Presidente Samora Machel, em nome de todos os moçambicanos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Moçambique/País alinhado na luta contra pobreza e alterações climáticas

29 de Setembro de 2009/Rádio Moçambique

Moçambique reiterou hoje o empenho do país nos esforços internacionais de luta contra a pobreza e contra os impactos das alterações climáticas, promovendo um desenvolvimento sustentável.

Falando perante a 64ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, Oldemiro Baloi, garantiu também que o país continuará empenhado na integração económica, consolidação da democracia, boa governação e estabilidade política na região onde está integrado, a África Austral.

Oldemiro Baloi citou dois exemplos de instabilidade na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), o Zimbabwe e Madagáscar, afirmando-se preocupado, em relação a este país, com as tentativas de minar o acordo assinado em Maputo (a 09 de Agosto), e condenando "qualquer decisão unilateral que viole o espírito dos acordos" entre os principais líderes políticos malgaches.

Mostrando-se satisfeito com o acordo político no Zimbabwe, que permite ao país prosseguir num ambiente de estabilidade política e social que leve ao diálogo permanente, reconstrução e recuperação económica, o ministro considerou, no entanto, que "os desafios económicos, associados à crise internacional" e às sanções de alguns parceiros internacionais, fazem com que "a obtenção da desejada rápida reconstrução económica" seja "difícil de alcançar".

"Por isso, reiteramos o apelo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral pela retirada de todas as sanções contra o Zimbabwe", disse.

Lembrando que Moçambique terá eleições dentro de um mês, as quartas desde o multipartidarismo, testemunho do "forte desejo político" e empenho numa mais forte democracia no país, Oldemiro Baloi lembrou que Moçambique teve, nos últimos anos, um crescimento económico na ordem dos 7,8 por cento e que a pobreza decresceu de 69,4 por cento em 1997 para 54,1 por cento em 2003.

Como resultado do visível progresso na Educação, Saúde, Água e Saneamento, "esperávamos reduzir a pobreza para 45 por cento até final do corrente ano", disse. "Contudo, a presente crise económica e financeira global constrangeu essa meta", com as mais recentes previsões (FMI) a indicarem que o crescimento deste ano abrandará para os 4,3 por cento, lembrou.

"Neste contexto, o objectivo do governo é assegurar que os efeitos da crise não se agravam e criar condições que nos façam regressar aos aumentos económicos e sociais" atingidos antes da crise, frisou o ministro.

É que, advertiu, "os efeitos combinados da crise alimentar, energética e financeira, os cíclicos desastres naturais, bem como as doenças como a pandemia do HIV/Sida e outras endémicas como a malária e a tuberculose, resultaram em perdas humanas, e afectaram os sectores produtivos".

Moçambique, assegurou Oldemiro Baloi, está empenhado nos esforços internacionais de luta contra a malária mas também no combate às alterações climáticas e na procura de soluções pacíficas para os conflitos em África, como os da República Democrática do Congo, Darfur e Somália, ou o conflito do Médio Oriente.

Reconhecendo o papel da ONU na procura "de respostas sustentáveis para os problemas globais do mundo de hoje", o ministro defendeu a "necessidade urgente" de acelerar as reformas na organização, incluindo a reforma do Conselho de Segurança e a revitalização da Assembleia Geral.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Moçambique/Passam hoje 45 anos do início da luta armada


Guerrilheiros da FRELIMO durante a luta armada. Foto: Noticias

Assinala-se hoje, em todo o país, o 45º aniversário do desencadeamento da Luta Armada de Libertação Nacional. A data coincide com mais um aniversário da criação das Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM), hoje Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM).

25 setembro 2009/Notícias

As celebrações que hoje atingem o seu ponto mais alto com a deposição de coroas de flores nos monumentos erguidos em memoria dos heróis nacionais tiveram o seu início no passado dia 10 de Setembro, num acto orientado pelo Chefe de Estado-Maior General das FADM, Paulino Macarringue.

Segundo este oficial superior, as FADM têm a missão de assegurar de forma permanente a manutenção dos desígnios da paz, de modo a contribuírem para o crescimento social e económico do país, missão que só será possível cumprir se se mantiver a coragem e bravura que sempre caracterizou o Exército moçambicano.

Na ocasião referiu ainda que a celebração desta data constitui um marco incontornável para os moçambicanos, pois reflecte o sentido de determinação do povo na procura da liberdade e da paz.

A ser celebrada sob o lema “Fazer dos 45 anos da criação das Forças Armadas, neste ano de Eduardo Mondlane, uma fonte de inspiração para o prosseguimento da capacitação das FADM” a data vai servir, igualmente, para exaltar a figura do arquitecto da unidade nacional, que inspirado pelo espírito libertador abriu caminho para a construção da moçambicanidade.

“É essa determinação que nos obriga a nós como FADM, a encararmos essa data como momento de reflexão sobre o que fizemos, o que fazemos e que desafios temos para o futuro”, disse Paulino Macaringue, acrescentando que é com base nessa perspectiva que as Forças Armadas têm sabido levar a efeito as suas obrigações quer no plano interno, quer no externo.

Com relação à missão das FADM, Paulino Macaringue explicou que internamente estão a ser desenvolvidas actividades de formação e adestramento visando aprimorar os efectivos como pretensão indispensável para a defesa da pátria e da integridade territorial.

No plano externo e como forma de satisfazer os compromissos internacionais, as FADM encontram-se a participar em diversas missões de apoio à paz como observadores militares.

O programa das comemorações do 25 de Setembro terá como ponto mais alto a deposição de uma coroa de flores no Monumento aos Heróis Moçambicanos, em Chai, província de Cabo Delgado, cerimónia a ter lugar esta manhã.

Refira-se que foi nesta localidade da província de Cabo Delgado que o ex-ministro da Defesa Nacional, Alberto Chipande, deu o primeiro tiro que deu iniciou à luta de libertação nacional a 25 de Setembro de 1964.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Brasil/Nossa América repudia bases navais americanas e golpe em Honduras

23 setembro 2009/Vermelho http//www.vermelho.org.br

Não foram poucas as menções de apoio que marcaram o ato de abertura do 2º Encontro Sindical Nossa América, nesta terça-feira (22), em São Paulo. Cerca de 300 sindicalistas saudaram, por exemplo, o cinquentenário da Revolução Cubana, a integração latino-americana e a resistência dos trabalhadores diante da crise do capitalismo. O que prevaleceu, porém, foram discursos de protesto. Nada esteve mais sob ataque do que o golpe em Honduras e a instalação de bases navais americanas na Colômbia.

“Quero fazer uma grande saudação ao povo hondurenho pela resistência na embaixada brasileira”, disse Wagner Gomes, presidente da anfitriã CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil). “Que golpes assim não se repitam mais em nosso continente”, agregou Wagner, que ― a exemplo do conjunto dos sindicalistas do encontro ― saiu em defesa de Manuel Zelaya, presidente deposto de Honduras em 28 de junho.

“O golpe contra o governo legitimamente eleito em Honduras afeta a estabilidade de nosso continente”, afirmou o cubano Rámon Cardona, secretário para a América Latina da Federação Sindical Mundial (FSM). Ele também criticou a instalação de bases americanas na Colômbia ― uma “violência bélica” à qual o encontro deve “manifestar seu vigoroso repúdio”.

Na opinião do dirigente da FSM, o Nossa América deve seguir a rigor seu lema ― “Frente à crise: integração!” ―, para se consolidar como “um firme e ativo propulsor da integração entre os povos”. Ramón explica: “Compartilhamos histórias, trincheiras e esperanças. Devemos debater as bases mínimas de ação e construir alternativas. Temos de multiplicar ações.”

Debater, sim ― mas o Nossa América “não é um encontro meramente para discussões”. É o que frisa o uruguaio Juan Castillo, do Plenário Intersindical de Trabalhadores (PIT) e da Convenção Nacional dos Trabalhadores (CNT). “O Nossa América não nasceu para competir com nenhuma outra entidade sindical. Nesta jornada de debates tão representativos, temos de elevar nosso papel de classe, construir a maior unidade possível.”

Novos tempos para lutar
Ao enfatizar que a “grave crise” do capitalismo não é só financeira — mas também “política, econômica e moral” —, José Reinaldo de Carvalho, secretário de Relações Internacionais do PCdoB, evocou o fortalecimento da luta pelo socialismo. “Não haverá saída virtuosa para a crise à margem dos trabalhadores. É preciso, mais do que nunca, levara diante a luta pela soberania das nações e pela integração entre os povos”.

Representando a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), o líder comunitário Wanderlei Gomes qualificou o encontro como “um momento para fortalecer a resistência ao projeto neoliberal que tantos males trouxe para os trabalhadores”. Segundo ele, a reação capitalista à crise veio na forma de uma “onda fascista” ― derrotada, no entanto, por uma outra onda, de feições “progressistas e populares”.

Para Socorrro Gomes, presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), uma das “contraofensivas” da direita é a reinstalação da 4ª Frota na América Latina. Socorro rechaçou a proposta de ativação de bases americanas na Colômbia. “São bases do imperialismo estadunidense para travar as mudanças. A América Latina é um continente de paz, e não aceitaremos as bases”, afirmou.

A Revolução Cubana de 1959 ― que completou 50 anos em 1º de janeiro ― foi reverenciada por vários oradores, como João Paulo, da Coordenação Nacional do MST. “Cuba é o exemplo maior de solidariedade aos povos, um farol de lutas”, declarou. Modesto, Salvador Valdés, da Central dos Trabalhadores de Cuba (CTC), falou da “humilde experiência” de seu país. Disse que Cuba só “resistiu, lutou e seguiu firme por causa da unidade” — e concluiu, sob aplausos: “Que venham mais 50 anos!”.

O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário executivo do Ministério de Relações Exteriores, comparou a iniciativa do encontro com a política externa brasileira. Além do combate à crise e da luta “pela reformulação do sistema internacional”, as duas iniciativas pautam a integração latino-americana. “Nossa luta sofre muitas críticas. A crítica da mídia conservadora é uma demonstração das correções de nossos caminhos”, ironizou.

Além de cem delegados brasileiros, o 2º Encontro Nossa América reúne 150 sindicalistas estrangeiros, de 28 países ― sendo 20 deles do continente americano. Pelo menos 83 organizações sindicais estão representadas no encontro, que segue até esta quinta-feira (24), no Hotel Braston.

De São Paulo,
André Cintra

Brasil/CALARAM MAIS UM PROFETA NA AMAZÔNIA

22 setembro 2009/[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
http://www.adital.com.br

Márcia Maria de Oliveira *

Na tarde escaldante deste dia 20 de setembro, milhares de pessoas, entre lágrimas e cantos, deram seu último adeus ao Pe. Ruggero Ruvoletto. O missionário de 52, da Diocese italiana de Pádua fora, covardemente, alvejado por um tiro certeiro, preliminarmente planejado nas rodas de "boca-de-fumo" do crime organizado de um dos bairros mais violentos da periferia da cidade de Manaus.

Na manhã do dia 19 de setembro, seu sangue profético regou o chão da Amazônia. O último gesto corajoso de Pe. Ruggero foi estampado na capa dos jornais da cidade: de joelhos junto de sua simples cama oferecera a Deus, em oração, talvez, seus últimos minutos de vida. Uma vida marcada pela missão corajosa junto aos mais pobres e excluídos da sociedade.

Desde que chegara à Amazônia no início de 2008, Pe. Ruggero iniciou sua caminhada de oblação. Com um histórico missionário de opção evangélica pelos mais pobres e esquecidos do nordeste brasileiro, em Manaus, foi designado a uma região da periferia da cidade. Aqui, encontrou inúmeros agentes de pastoral ansiosos por sua sábia ajuda. Também encontrou muitos desafios pastorais e um silêncio da população com relação à atuação do crime organizado do tráfico de drogas na região.

Sua missão, no início, desenvolveu-se timidamente num processo intenso de visita às famílias, de escuta, de abertura ao novo. Freqüentemente solicitava ajuda, nos nossos "debates sociológicos", para melhor compreender a dinâmica da cidade. Queria conhecer mais sobre os indígenas e ribeirinhos e entender porque continuam migrando, sempre em ordem crescente, para as periferias da cidade. Logo entendeu que a Amazônia vive um histórico de descaso dos poderes públicos nos municípios do interior e centraliza todos os bens e serviços nas capitais, principalmente na cidade de Manaus com seu fantasmagórico projeto de Zona Franca que canaliza todos os recursos federais para uma elite da indústria de montagem. Por isso essa realidade marcada pelo êxodo rural, pelos crimes ambientais, pelos conflitos agrários e pelas ocupações urbanas que indicam o grande déficit de políticas públicas de moradia, educação, emprego e segurança.

Sua presença simpática e acolhedora foi cirando laços de amizade e comprometimento. Sempre preocupado com as questões sociais, sugeriu a organização de um calendário permanente de debate sobre a situação das várias comunidades que atendia na Área Missionária Imaculado Coração de Maria (AMICOM). Sua intuição profética motivou várias iniciativas por parte das lideranças das comunidades e dos movimentos sociais na criação de espaços de formação permanente de lideranças tais como a Escola de Fé e Cidadania que abrange outras áreas. Não era presença somente na AMICOM. Logo passou a acompanhar a organização pastoral de outras áreas missionárias da Zona Norte da cidade. Passou a apoiar os organismos arquidiocesanos ligados à dimensão missionária e às Comunidades Eclesiais de Base.

Com uma prática litúrgica muito sensível e inculturada, fazia das celebrações eucarísticas momentos fortes de celebração da vida, das esperanças e do compromisso evangélico. Nas reflexões com os grupos nas comunidades ou nas famílias, embaixo das árvores, ou nas áreas externas nas pequenas casas, estava sempre atento aos clamores e lamentos das pessoas. Suas palavras davam novo alento e fazia o povo voltar a ter esperança em uma realidade marcada pela violência e pelo descaso das políticas públicas.

Depois de intensas reuniões e debates, juntamente com os agentes de pastoral, elaboraram uma carta-denúncia que foi lida, rezada e reformulada nas várias celebrações comunitárias. Na carta estava contido o clamor do povo que já não suporta mais tanta violência resultante do tráfico de drogas na região. Denunciava o descaso público para com a educação, o transporte coletivo, o abastecimento d’água e tantas outras deficiências por parte dos poderes públicos.

Com a carta-denúncia em mãos, o povo resolveu se pronunciar. Na manhã do dia 15 de agosto as ruas do bairro de Santa Etelvina foram tomadas pelos cantos e frases de protesto. Uma manifestação pacífica de centenas de pessoas cobrando o exercício pleno da cidadania. Esse dia marca o fim do silêncio e do medo histórico que amordaçava os moradores deste bairro. Durante a caminhada, Pe. Ruggero, o homem da palavra, não fez uso dos microfones. Sob um sol de quase 40 graus, acompanhou tudo de forma muito discreta, fotografando e distribuindo panfletos aos transeuntes e curiosos que saíam às portas para ver o povo passar.

Em dado momento, já na metade da manifestação, quando algumas pessoas lhe pediam para se pronunciar aos microfones, se aproximou e disse: "Márcia, estou pensando que é melhor eu não me pronunciar porque já vi passando algumas pessoas ligadas ao tráfico de drogas que vêm me ameaçando e me ‘aconselhando’ a deixar essas denúncias de lado. Eu lhe garanto que não vou deixar a luta porque já não é mais possível ficar calado diante de tanta violência e injustiça. Não agüento mais ouvir tantas mães desesperadas com seus filhos nas drogas sem poder fazer nada. Sei que é arriscado, mas não tenho medo".

Foi uma das últimas conversas que tivemos. Uma semana depois passou rapidamente por minha casa depois da celebração e comentou que estava animado com a repercussão da carta e da manifestação. Novamente afirmou que se sentia ameaçado por pessoas ligadas ao tráfico de drogas do bairro de Santa Etelvina que atuavam também nos bairros visinhos, especialmente no Lagoa Azul. Parecia muito preocupado, mas sempre destemido, reafirmava o compromisso com a causa da justiça. Como sempre fazia, pediu algumas orientações no campo sociológico. Queria entender por que a pouca polícia que atua nos bairros da periferia não inspira a confiança do povo? Por que os assaltos aos ônibus coletivos e residências continuam aumentando e por que o 12º Distrito Policial do Bairro continuava desativado e sem nada que o substituísse? Comentou ainda sobre o alto índice de assassinatos no bairro, quase todos ligados ao tráfico de drogas. Estava muito preocupado, principalmente com os jovens, vítimas das drogas e da prostituição. Ao se despedir toquei no assunto das ameaças. Olhou-me sereno e, sorrindo me disse: "estou tranqüilo. Sei que esse tipo de gente, quando quer matar, não manda recados".

Nas semanas que se passaram continuou se pronunciando sobre a necessidade da organização popular. Mas, parecia mais discreto do que o habitual. Talvez percebera que era preciso ter mais cautela pois estava mexendo numa "caixa preta" que envolve grandes traficantes e gente da polícia.

Após seu assassinato, a polícia trabalha com a suspeita de latrocínio. Pode ser que vão seguir com esta versão para não ter muito trabalho com a investigação. É mais simples afirmar que foi roubo seguido de assassinato. Muitos dos que estavam no velório também acreditam nesta versão. Talvez porque já estão habituados a acreditar em tudo o que a polícia diz, mesmo quando não se tem fundamentos convincentes. Entretanto, várias das milhares de pessoas que lotaram o ginásio de esportes do Santa Etelvina para se despedir do Pe. Ruggero, não acreditam nessa "orquestração". O povo sabe a verdade. Talvez tenha medo de dizer, mas o certo é que sabe que não foi nenhum "ladrãozinho", como afirma a polícia que alvejou o padre. Pode até ser que um ladrãozinho tenha sido contratado para disparar o tiro certeiro. Mas, todos sabem que por traz disso estão os controladores do tráfico que se sentiam incomodados com a atuação do Pe. Ruggero.

Desde que se espalhou a notícia, a comoção tomou conta de todos. Centenas de pessoas, durante todo o dia de sábado estiveram organizando o local do velório, preparando os cartazes de despedida, ensaiando os cantos e o último adeus. A chegada do corpo tomou a todos de grande comoção. Durante toda a noite de sábado e a manhã deste domingo, as comunidades se revezaram para prestar sua última homenagem. Algumas pessoas vinham de longe, trazendo flores dos seus jardins, como é costume na região. Uma adolescente "coroinha" trouxe pétalas vermelhas e espalhou ao redor do caixão. Chorava e falava baixinho com ele certa de que era escutada. Os idosos se aproximavam e o chamavam de "filho querido". Foram inúmeras as demonstrações de carinho e emoção junto ao caixão. Na celebração da oblação, um gesto muito forte: representantes das várias comunidades se aproximaram do caixão no momento do ofertório, o levantaram e o ofereceram ao altar da imolação. Nas falas e nos cartazes o destaque era o clamor por justiça.

Até a hora da despedida, o povo seguiu cantando "se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão!" Todos os momentos de oração e celebração foram marcados por muitos gestos que falavam por si e por cânticos alegres e muito bem cantados seguindo o ritmo das águas dos rios e da sinfonia da floresta e das coisas bonitas da Amazônia.

No início desta manhã, um sinal importante indicava que "a semente que caiu na terra vai logo brotar": Os agentes de pastoral da AMICOM e as lideranças dos movimentos sociais se reuniram logo cedo, ali mesmo, num cantinho do ginásio e formularam um pequeno panfleto exigindo justiça. Deliberaram as tarefas e em poucas horas, o folheto já havia sido digitado, fotocopiado e distribuído a todas as pessoas que estiveram na celebração enquanto alguns jovens saíram pelas ruas do bairro distribuindo-o a todos e convocando para uma manifestação no dia seguinte à missa de sétimo dia. O resumo do folheto afirma que a morte do Pe. Ruggero não será em vão. O último parágrafo é digno de reprodução neste breve ensaio: "Por isso gritamos que chega de violência! Queremos paz e ação enérgica do governo que tem sido incompetente e mentiroso afirmando que, por causa dele, devemos ter orgulho de ser amazonenses".

Resta concluir que o Pe. Ruggero é mais um mártir da Amazônia e que sua luta seguirá na vez e na voz de todos aqueles e aquelas que descobriram que sua esperança está na força da união. Essa gente, ninguém mais segura. Oxalá que o sangue derramado deste profeta regue o chão da Amazônia e produza muitos frutos de justiça.
Manaus, 21 de setembro de 2009.

* Socióloga e Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Coordenadora do Departamento de Educação do Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social - SARES

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sábado, 12 de setembro de 2009

Brasil/DOM HELDER CAMARA E A ESPIRITUALIDADE DO CONFLITO

Carlo Tursi *

10 setembro 2009/Adital http://www.adital.com.br

"Não pensem que eu vim trazer paz à terra...!" (Mt 10,34)
Hoje, somos todos reféns daquilo que agrada às multidões. E nada agrada-lhes mais do que o discurso da "paz". Parece que, depois de três décadas de lutas, manifestações, punhos erguidos, discursos inflamados e palavras de ordem gritadas, a "turma" se cansou e procura agora profetas e sacerdotes (-cantores?) de "fala mansa" que prometem bonança e serenidade, de preferência sem ninguém ter que suar a camisa. "Felizes os mansos" (Mt 5,5) e - sobretudo - os sorridentes, pois o grande público irá escutá-los. Toda palavra mais grossa, discussão mais acalorada, qualquer dissenso ou polêmica são ojerizados; preza-se viver em um ambiente harmônico, tranqüilo e isento de perturbações. Se existem conflitos - e não há como negar sua existência, nem na sociedade, nem na Igreja - , há de se silenciar acerca deles, pois viver um conflito, ainda mais às vistas do público, seria hoje desastroso para a imagem de qualquer instituição ou comunidade. E é assim que mantemos - nos lares, nas igrejas, nas repartições - a fachada da unidade-unanimidade e da paz, varrendo os grandes problemas e conflitos debaixo do famigerado "tapete".

A uma espiritualidade cristã autêntica, porém, esta ânsia por "paz a qualquer preço" sempre pareceu hipócrita. Já a denunciava o profeta bíblico: "Do menor ao maior, são todos aproveitadores, do profeta ao sacerdote, todos enganadores. Sem responsabilidade querem curar a ferida do meu povo, dizendo apenas "Shalom! Shalom!", quando paz não existe!" (Jr 6,13-14). E o próprio Cristo, anunciado como "manso e humilde de coração" na nossa atual mentalidade eclesial, foi, na realidade, um grande polemizador das causas justas, que discutiu com juristas canônicos e sacerdotes, chamando-os de hipócritas, guias cegos e sepulcros caiados (Mt 23). Jesus pegou pesado com ricos ("Ai de vós!") e políticos ("Raposa"), mas também não costumava bajular as multidões que o escutavam ("geração má e adúltera!"). "Não vim trazer a paz, mas a espada", disse ele certa vez. Ou seja, veio para nos forçar a uma tomada de posição: ou a favor ou contra as prioridades do Reinado de Deus - e os seus preferidos.

Esta espiritualidade bíblico-evangélica só pode chocar a mentalidade cristã vigente. Repete-se, em todas as paróquias, o lema da Campanha da Fraternidade ad nauseam ("A paz é fruto da justiça"), mas não se encontra quem queira denunciar as tremendas injustiças e desigualdades que permeiam nosso convívio social brasileiro. Tomar partido? É complicado...! Ninguém quer "pegar (no) pesado", tudo deve ser "light" e facilmente digerível, senão os "fiéis" vão embora...

Dom Helder Camara, cujo centenário de nascimento (1909) comemoramos este ano, exercia-se na espiritualidade cristã autêntica e não fazia concessões ao "gosto" das multidões. No seu já célebre livro "Revolução dentro da Paz" (RJ 1968), o pastor-profeta dizia: "Trata-se de convencer os senhores de hoje a completar a abolição da escravatura, contribuindo, de modo decisivo, não para um amplo movimento filantrópico e assistencialista, mas para um autêntico movimento de promoção humana" (p.79). Sabia da inocuidade de certos discursos eclesiásticos em favor da paz e da justiça, quando desacompanhados de ações concretas no terreno sócio-político: "Se não creio na violência armada, também não chego à ingenuidade de pensar que bastam conselhos fraternos, apelos líricos, para que tombem estruturas sócio-econômicas, como ruíram os muros de Jericó" (p.37).

É esta espiritualidade mais profunda de Dom Helder que não só sabe dar pão aos pobres, mas que pergunta pelas causas da pobreza e que, por conseqüência, aceita ser "perseguida por causa da justiça" (Mt 5,10) que "O GRUPO", aqui em Fortaleza, está querendo relançar ao povo cristão, durante noite de conferência no Colégio Santo Tomás de Aquino, no decurso da SEMANA DOM HELDER CAMARA. A conferência, intitulada "Dom Helder e a espiritualidade do conflito", será proferida por um padre e velho amigo do falecido Dom, João Pubben, no dia 29 de setembro, às 19:00 h, no auditório daquela instituição de ensino. Vamos conferir. Está na hora de avançar para águas mais profundas...

* Teólogo católico e membro da recém-eleita coordenação arquidiocesana de CEBs, em Fortaleza, Ceará

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Brasil/Moradores de rua tacam fogo na revista Veja; veja o vídeo

25 agosto 2009/Vermelho http://www.vermelho.org.br

Vídeo publicado no YouTube mostra moradores de rua em manifestação na Praça da Sé, no Centro de São Paulo, ateando fogo na revista Veja, da editora Abril. A manifestação ocorreu na quinta-feira (19), Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua.

Foi um protesto sobretudo contra a reportagem "Profissionais da esmola", publicada na edição 2.126, da semana passada, da Veja São Paulo, que vem encartada na revista. No texto — que foi a matéria de capa —, a publicação acusa moradores de rua de "se fantasiar com uma roupa surrada" para ganhar "dinheiro fácil".

O fato de o artigo 60º da Lei das Contravenções Penais — que qualificava a mendicância como contravenção — ter sido revogado em 17 de julho é ponto de partida do texto. Em protesto contra o teor manipulatório e generalizador da matéria, cerca de 200 moradores de rua incendiaram páginas da revista.

O ato lembrou também um genocídio que permanece impune. “Entre os dias 19 e 22 de agosto de 2004, 15 pessoas foram violentamente atacadas enquanto dormiam nas ruas do Centro da cidade, sendo que sete delas morreram. Posteriormente, no dia 23 de maio de 2005, uma testemunha do massacre foi morta por policiais militares”, lembra o vídeo. “Organizações e movimentos sociais estão juntos no dia de hoje para denunciar a morosidade, o descaso, a omissão das autoridades na punição dos culpados.”

O vídeo foi publicado pelo perfil "Gira" e inclui a música Esmola, de Duda e Moleque de Rua. Além da revista em chamas, lideranças dos moradores de rua qualificam a publicação de "fascista" e lembram as calúnias da Veja dirigidas ao padre Julio Lancelotti em 2007.

Da Redação, com informações da Rede Brasil Atual

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Timor-Leste/OS QUE VIERAM ANTES DE MIM




Foto: Presidente Nicolau Lobato, morto em combate contra os invasores indonésios

Escrito por: Lukeno Alkatiri
Com a contribuição de: Low Heng Boon

20 agosto 2009/timorlorosaenacao

Este escrito é dedicado à histórica FALINTIL pela sua luta e sacrifício. Eu dedico-o a todos os homens que fizeram parte dessa luta. Eu dedico-o especialmente aos fundadores da FALINTIL (Nicolau Lobato, Mau Lear, Alarico Fernandes e outros), incluindo o único fundador vivo: meu pai, Mari Alkatiri.

Enquanto viajo pelo passado da terra do crocodilo, eu sigo o caminho que deixaram para trás representando a vossa bela e corajosa luta. Eu caminho com ela ou atrás dela mas nunca à sua frente. Porque, ao contrário de alguns, eu não posso suportar a ideia de virar as minhas costas à estória e história que deixastes para nós. Eu tento compreender a raiz da vossa luta durante os anos em que estiveram isolados do resto do mundo, um mundo que levou o seu tempo para vos resgatar e agora esquece quem vocês foram e no que te tornaram.

Eu sigo as vossas gotas de lágrimas e de sangue que tantas vezes alimentaram esta terra. Elas estão ainda aqui, resistindo e não se permitindo a elas próprias secarem. Eu estou consciente de que cada gota revela a narração de um bonito conto. O vosso conto, portanto, nosso conto. Contos de sacrifício, de desespero, e mais importante, gotas de sangue e de lágrimas que são a prova do trilho traçado pelos vossos sonhos e as vossas crenças.

Nesta jornada eu também sigo o som do vosso grito que ainda ecoa do cimo dessas montanhas. Tantas vezes vocês gritaram, esperando que alguém vos ouvisse e pusesse fim à loucura dos vossos inimigos. Tantas vezes eles vos ignoraram, iludindo-se a eles próprios, pensando que os vossos gritos seriam um dia silenciados. Mal eles sabiam que era o seu próprio silêncio, que iria um dia rebentar.

As balas que ainda permanecem intocáveis nos sítios das vossas batalhas representam a existência de uma causa. Perto delas estão alguns dos corpos que deixaram para trás. Os vossos. No entanto, vocês os deixaram sem vida, e apesar da perda que sofreram por testemunhar o seu último suspiro, asseguraram que o seu auto-sacrifício iria manter os nossos ideais vivos. Eles representam as inúmeras vezes que vocês foram forçados a suprimir a tristeza e o luto pela perda de os deixar, mas sempre lembrando que lhes devem a vossa contínua existência.

Antes de eu começar esta jornada interminável, as pessoas falaram-me de vocês. Contaram-me que vocês estavam a lutar, sofrendo, mas mantendo-se implacavelmente vivos para nós. Por essa razão decidi seguir o vosso caminho, ouvir o vosso grito e deixar que o rasto das vossas lágrimas e sangue me guiem para o lugar onde vocês se tornaram para sempre os nossos heróis.

Eu vou apanhar as balas que perfuraram o vosso corpo e mostrá-las ao mundo. Vou deitar-me ao lado dos corpos que deixaram para trás e vou deixar que eles me contem as histórias das suas batalhas. Eles irão dizer-me os seus nomes, então eu terei a certeza de que nunca serão esquecidos. E depois, eu agradeço-lhes pelo seu sacrifício, eles irão ensinar-me como enfrentar as futuras batalhas da luta que está longe de terminar. E eu vou aprender, destas almas eternas, como chorar, sangrar e gritar, quando chegar a minha hora de seguir e continuar a trilha.

Tradução não oficial de Loro Foho


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OS QUE VIERAM DEPOIS DE NÓS

Por António Veríssimo

25 agosto 2009/timorlorosaenacao

TOLERÂNCIA AOS TRAIDORES, HOMENAGEM AOS JOVENS E JUSTOS

Felizmente que a sabedoria dos libertários-anarco-sindicalistas e comunistas me foi transmitida por “tios”, camaradas de meu pai, que me ofereciam “pinhatas”, “esticas”, bolos de arroz e amendoins já descascados, entre outras guloseimas que havia nas tascas e nos cafés de Cacilhas, quando ia assistir às reuniões clandestinas que os antifascistas-antisalazaristas - incluindo ex-elementos da ORA - faziam na sacristia da igreja de Cacilhas, na Cândido dos Reis, e onde fosse possível. Não fora isso e agora estava por aqui a bufar de raiva, intolerante. Talvez capaz de ripostar do mesmo modo de alguns que usam os blogues para esparramar os seus ódios primários e incompreensíveis contra tudo e contra todos. Principalmente contra os que são apontados pelo grande traidor Xanana Gusmão. Traidor à causa timorense de uma sociedade livre e justa, democrática e o mais possível igualitária.

Não se julgue que uso a palavra traidor de ânimo leve. Não é palavra que se use desse modo. Pesei-a devidamente e uso-a com a certeza de a empregar correctamente. Nesta hora já nem lamento a decepção que Xanana representa para mim e para todos que acreditaram nele. Penso que temos de saber aceitar que nem todos os seres têm capacidade de um dia recuperar a honestidade perdida quando começam por trair inúmeros guerrilheiros das Falintil que na montanha davam a vida pela libertação do país. Uma traição de que só o próprio poderá falar um dia que queira, ou Abílio Araújo, ou poucos mais. Poucos dos que conhecem e negociaram a entrega de Xanana ao exército indonésio com a promessa de uma eventual autonomia anos mais tarde, como já é histórico. Se isto não é traição, onde e como poderemos mais usar a palavra com toda a propriedade?

Li as palavras de Lukeno Alkatiri, pelo que sei um jovem de 20 ou talvez poucos mais anos. Acima de tudo um jovem de que a família, os amigos e os pais se devem orgulhar. Orgulho pelos que vieram depois de nós e têm o mérito de querer continuar a nossa luta por um mundo melhor, justo.

No seu “escrito” vislumbro e sinto de modo arrepiante a homenagem aos heróis timorenses, aos conhecidos pelos nomes e aos imensos anónimos. Percebo igualmente a humanidade que o “escrito” comporta e a poesia tocada pela paz que deseja para Timor-Leste. Um texto que é o testemunho do interior de uma pessoa em formação com objectivos inequívocos da herança dos seus antepassados, dos heróis libertadores que ficaram pelo caminho mas que ainda hoje o apontam aos seus discípulos e aos vindouros. Que tem de se cumprir, leve o tempo que levar.

No caso, o “escrito”, como lhe chama, é de Lukeno Alkatiri, mas não só. Diz lá que Low Heng Boon deu o seu contributo. Demonstrando que sabe partilhar e receber sugestões de um amigo. Isso revela alguém honesto e salutarmente modesto para não fazer exclusivamente seu o “escrito” em questão. O mesmo não se passou – certamente que ainda não se passa – com muitas prosas de Xanana Gusmão, sabemos isso.

Não se julgue que é objectivo insano ridicularizar ou desvalorizar Xanana Gusmão porque age e pensa de modo diferente, nada disso. Considere-se antes que não se deve temer a verdade, mas sim fazê-la constar, compreendendo e aceitando que muitos enveredem por direcções diferentes das consideradas correctas e mais justas.

Neste caso, a verdade é que o percurso de Xanana Gusmão tem-se revelado sinuoso ao longo da luta do povo timorense, demonstrando ser o principal instigador de ódios. Ódios que até acabam por se perceber nos comentários do TLN e noutros locais da blogosfera. Ele aponta e as “feras amestradas” seguem-no, melhor, agem por ele e em defesa do indefensável, em defesa da traição permanente que lemos, ouvimos e sabemos de onde vem. Traição que é sentida pelos timorenses e pelo mundo que apoiou e apoia a luta do povo maubere. Agora pela libertação de um regime que semeia atropelos à justiça, às leis vigentes no país, que se propala defensora do povo mas que mantém esse povo na carência enquanto distribui por si e pelos seus fieis colaboradores os bens que a todos pertencem.

No caso do TLN, por mera curiosidade, elaborámos uma consulta à proveniência dos que em comentários destilam esses ódios incontidos ou contra-informação por tudo e por nada. A triste conclusão é a de que vêm especificamente de cinco locais e não mais, sendo que, apesar da “dispersão de identidades”, alguns referem-se à mesma entidade – os próprios entenderão.

Mais palavras e considerações para quê? Não basta isto para percebermos quão desprezíveis estão a ser determinadas pessoas, incluindo certos apoiantes que ladeiam Xanana Gusmão? Porquê esta preocupação? Porquê tanta mesquinhez?

Se acaso o artigo por nós publicado e traduzido por Loro Foho, intitulado OS QUE VIERAM ANTES DE MIM, fosse assinado com um pseudónimo suscitaria tanto ódio? Tanta manifestação de vileza, obviamente gratuita e doentia?

Ripostemos com denúncia mas também com tolerância sábia aos traidores, homenageando os jovens e justos que vieram depois de nós. Ainda os que hão-de vir.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Brasil/Tarso: reconciliação política só vai acontecer quando torturadores forem levados aos tribunais

Flávia Villela, repórter

22 agosto 2009/Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br

Rio de Janeiro - Julgar os torturadores que agiram durante o regime militar não é revanchismo, mas um ato de justiça e respeito aos direitos humanos, disse hoje (22) o ministro da Justiça, Tarso Genro, durante a comemoração dos 30 anos da Lei de Anistia no Brasil.

“Tortura é crime imprescritível e inanistiável. Julgar esses casos representa a continuidade do processo de democratização do país”, disse o ministro em evento realizado no Arquivo Nacional, no Centro do Rio.

Segundo o ministro, levar os torturadores aos tribunais é fundamental para que, aos poucos, os direitos fundamentais e a dignidade humana sejam internalizados pelas instituições e pela sociedade brasileira. “Para que nunca mais haja tortura no país, seja contra presos políticos, seja contra presos comuns que ainda são torturados no Brasil”.

Para Tarso Genro, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve considerar procedente a ação [Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental - ADPF 153] que foi apresentada pelo Ministério Público para responsabilizar civil e penalmente as pessoas que cometeram tortura durante a ditadura.

“Aqueles que alegam que o governo exige o julgamento dos responsáveis por crimes de tortura na época da ditadura no Brasil para desmoralizar o Exército são os mesmos que estiveram a serviço da tortura nesse período”, declarou o ministro sob aplausos de pé de centenas de pessoas que participaram do evento.

A ação contesta a validade do Artigo 1º da Lei da Anistia (6.683/79), que considera como conexos e igualmente perdoados os crimes "de qualquer natureza" relacionados aos crimes comuns praticados por motivação política no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979.

Para o advogado Modesto da Silveira, um dos homenageados por Tarso Genro no evento, crimes de tortura não se enquandram no artigo primeiro da Lei de Anistia. "Tortura não é crime político. Estupro não é crime político nem crime conexo. O que há é uma má interpretação da lei", acredita.

Brasil/Emoção marca evento de 30 anos da Lei da Anistia no país

Flávia Villela, repórter

22 agosto 2009/Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br

Rio de Janeiro - A emoção marcou o encontro que comemorou os 30 anos de anistia no Brasil. O ato público realizado hoje (22) no Arquivo Nacional, no Centro do Rio, durou cerca de cinco horas e reuniu aproximadamente 300 pessoas que de alguma forma estiveram envolvidas com o processo de redemocratização do país. O evento promoveu o reencontro de ex-presos políticos que estavam encarcerados em 22 de agosto de 1979, quando foi criada a Lei de Anistia. Dentre os homenageados, estavam militantes que realizaram uma greve de fome nacional para forçar o Congresso a aprovar uma lei de anistia ampla, geral e irrestrita.

Gilney Amorim Viana era estudante de medicina em Minas Gerais e foi expulso da faculdade em 1969 por ser militante do Partido Comunista Brasileiro. Ele ficou quase dez anos preso e participou da greve de fome, no presídio da Frei Caneca, no Rio. “A greve de fome serviu para denunciar que o projeto de anistia original era parcial e nos excluía, além de ser uma forma de negar a legitimidade da nossa luta contra a ditadura militar.”

O ministro da Justiça, Tarso Genro, participou do evento e enfatizou que anistia não é perdão, mas um pedido de desculpas aqueles que tiveram seus direitos violados pelo regime militar. “Anistia não é esquecimento, é a revelação da verdade da história e promoção da justiça.”

Visivelmente emocionado, Tarso Genro foi aplaudido de pé, ao ser homenageado pela advogada Eny Moreira, uma das fundadoras do Comitê Brasileiro para a Anistia, criado em 2008. “Como dizia meu pai, honradez não se pede nem se agradece, se aplaude,” disse ela ao ministro.

A ex-gerrilheira Marília Guimarães entrou para a clandestinidade, com dois filhos ainda bebês, em 1969. Ela escreveu um dos livros expostos no evento, que relata o sequestro de um avião em que ela participou para fugir da ditadura. “Muitos morreram, mas todos que estão aqui continuam lutando. Este é um momento de muita emoção, pois passados mais de 30 anos, esta homenagem ajuda manter viva a memória desse período e a impulsionar a juventude a seguir lutando por um mundo melhor.”

Durante a solenidade, foi inaugurada uma exposição de fotos sobre a luta pela anistia e lançada a Revista da Anistia Política e Justiça de Transição. A Lei de Anistia beneficiou milhares de pessoas perseguidas pelo regime militar, permitindo a volta dos exilados e a liberdade dos presos políticos.

O advogado Modesto da Silveira, que defendeu milhares de presos políticos durante todo o período de repressão, foi um dos homenageados no encontro e se disse muito emocionado com as exposições de alguns participantes. “Em cada relato, vieram flashes de histórias semelhantes a vários casos que eu tive de defender.”

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Brasil/SEMINÁRIO HOMENAGEIA MEMÓRIA DE FREI TITO DE ALENCAR NOS 35 ANOS DE SUA MORTE

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
14 agosto 2009/http://www.adital.com.br

Barbalha - Adital - Na semana em que completa 35 anos da morte do religioso dominicano, Frei Tito de Alencar Lima, a cidade de Barbalha, na região do Cariri, Ceará, realiza o I Seminário Frei Tito de Alencar: Vida e Obra, em que homenageia a memória do mártir cearense.

O evento será realizado na próxima quarta-feira, 19, no auditório do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade de Barbalha, a partir das 19h. A iniciativa é da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade e conta com Parceria do Instituto Frei Tito, Universidade Regional do Cariri (Urca) e Diocese do Crato (CE).

O seminário é aberto ao público e apresentará palestras e debates. Um dos principais momentos acontece na mesa de debate que relata a vida e a obra do frei dominicano, com as temáticas: Igreja, Família e História. A pedagoga e coordenadora do Instituto Frei Tito, Lúcia Rodrigues Alencar Lima, sobrinha do religioso, é uma das palestrantes.

Símbolo de luta pelos direitos humanos, militando desde a juventude quando ainda era estudante, Frei Tito foi morar na capital pernambucana, Recife, quando assumiu a direção da Juventude Estudantil Católica em 1963. Cinco anos depois, em outubro de 1968, ele foi preso por participar ativamente de um congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna (SP). O frei foi duramente perseguido pelos militares durante o período da ditadura, sendo torturado nos porões da então chamada Operação Bandeirantes.

Entre as freqüentes seções de tortura, Tito relatou em carta tudo o que lhe acontecia, denunciando a crueldade da repressão militar. O documento ficou conhecido mundialmente relatando o que acontecia em território brasileiro. Desde então, Frei Tito ficou marcado como símbolo da luta em defesa dos direitos humanos.

Mas a traumática experiência deixou seqüelas. O religioso sofreu o resto dos seus dias com as lembranças da tortura, que nem um tratamento psiquiátrico conseguiu apagar. Frei Tito foi encontrado morto, suspenso por uma corda amarrada num galho de árvore, em Lyon, na França, em 10 de agosto de 1974.

Informações:
Universidade Regional do Cariri - URCA - www.urca.br
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sábado, 8 de agosto de 2009

EM MEIO À RESSACA DO NEOLIBERALISMO, A PRIMEIRA RESISTÊNCIA NA AMÉRICA CENTRAL

As mobilizações em Honduras contra o golpe civil-militar são um primeiro sinal de revolta das massas na região

27 julho 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Pedro Carrano *

A América Central tem sido um privilegiado laboratório do capitalismo na sua versão neoliberal. O fim do ciclo de ascenso das lutas populares, característico dos anos 1970 e 80, veio carregado de uma ressaca terrível no pequeno continente. Super-exploração de trabalhadores e rebaixamento do horizonte político das organizações de classe são a base que o período anterior forneceu para o atual momento. As mobilizações em Honduras contra o golpe civil-militar são um primeiro sinal de revolta das massas na região, ainda limitado pela falta de uma alternativa popular de poder. Mas a resistência pode representar um novo salto de qualidade nas lutas e nas organizações dos trabalhadores no pequeno istmo.

Fronteiras, na América Central, são formalidades políticas, uma vez que transnacionais e governos imperialistas aplicam políticas a Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador como um todo. No começo dos anos 1990, a região viveu o final dos embates armados, encerrados com os acordos de paz. Na Nicarágua, o governo sandinista conheceu a derrota eleitoral, frente à chantagem do embargo estadunidense. Em El Salvador e Guatemala, as armas da guerrilha popular foram depostas. Honduras não passou imune às lutas deste período, pelo contrário: o fato de ser o centro de operações dos Estados Unidos resultou em muita repressão interna contra a militância, mesmo sem um movimento popular armado como nos países vizinhos.

Em El Salvador, frente ao “empate” militar entre as forças populares e o exército oficial, patrocinado pelos EUA, organizações como a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), analisam que a assinatura dos tratados de paz teve caráter estratégico e foi uma derrota para as oligarquias, uma vez que, naquele país, as eleições viriam a ser desmilitarizadas e abertas. Porém, na década de 1990, tudo passou a ser permitido na América Central, de acordo com a conjuntura mundial. São características deste cenário:

- Super-exploração da mão-de-obra, por meio das fábricas maquiladoras. As maquiladoras são unidades de montagem de mercadorias que se caracterizam pela completa falta de direitos trabalhistas, a coação moral, e os salários que não repõem sequer a força de trabalho;


- Predomínio das transnacionais no campo e o abandono de políticas de produção alimentar interna, com o conseqüente abandono do campo pelos agricultores, rumo aos centros urbanos e ao exterior;

- Migração, aumento da dependência em relação à economia estadunidense. De um lado, o projeto das elites de oferecimento de mão-de-obra abundante, após o abandono do mercado interno. Em troca, as remessas de dólares passam a ser vitais para as elites destes países. A tentativa do Mercomum, ainda durante o período desenvolvimentista dos anos 1950, estava completamente enterrada.

- A violência a serviço do capital e a introdução da cultura das gangues (Maras), trazidas pelos jovens imigrantes deportados dos EUA. O fim das guerras desarma as forças populares organizadas, mas o capital multiplica suas formas de proteção à mercadoria, além de patrocinar a repressão contra o povo, nas periferias;

- Corredores e tratados de livre comércio (TLCs) assinados ou aplicados pela via dos fatos. Em 2006, governos da América Central e República Dominicana assinaram o Tratado de Livre-Comércio entre a região e os EUA (DR-Cafta);

- Privatizações dos serviços sociais e dos recursos naturais. Um exemplo marcante é o avanço de empresas como a canadense Pacific Rim, na extração de ouro na Guatemala e Honduras, atividade altamente destrutiva para o meio-ambiente e comunidades originárias.

Em suma, as oligarquias adotam o modelo importador, deslocam-se para o setor de serviços, favorecidas pelas remessas e pela facilidade do fluxo de capitais. As fábricas maquiladoras são a síntese deste novo projeto das oligarquias: a isenção de impostos para as plantas produtivas faz delas um verdadeiro paraíso fiscal, o que favorece o seu caráter transitório e dificulta a organização de trabalhadores.

A imagem concreta está na cidade de San Salvador, onde parte considerável da força de trabalho é vendida em mercados populares: cerca de quinhentos mil trabalhadores, em 23 mercados da capital, buscam vender toda a sorte de mercadoria, enquanto no campo aumentam as fileiras da migração. Por sua vez, os bancos e os núcleos familiares são dependentes das remessas de estrangeiros em uma proporção que, em Honduras, chega a 16% do PIB. Dos tantos muros erguidos após a queda do Leste Europeu, um deles está na América Central: a fronteira entre Nicarágua e Costa Rica tornou-se um pólo de migração massivo.

Claro que antigas formas de domínio e exploração são mantidas e têm influência política: a empresa bananeira Chiquita, antiga United Fruit Company (o conhecido “octopus” do continente), responsável pela derrocada do governo progressista de Jacobo Arbenz na Guatemala (1954), mudou de nome, mas não de prática, e atualmente teve seus lucros abalados pelas políticas laborais de Mel Zelaya.

Este é o cenário de terra arrasada deixado pelo período de domínio neoliberal e derrota das organizações populares. Hoje, o novo período de crise do capitalismo impõe mudanças estruturais para os países centro-americanos e força um rearranjo das massas populares. De súbito, milhares de migrantes estão de volta para a América Central. Só em 2008, 80 mil salvadorenhos voltaram ao perder o emprego no exterior.

Até onde o golpe de Honduras pode ecoar
A resistência contra o golpe de Estado em Honduras deve abrir um salto no movimento de massas na América Central. Embora neste momento não aponte para a organização de espaços nos quais o programa e as bandeiras populares se configurem como uma alternativa de poder. O retorno de Mel Zelaya é a luta imediata do movimento social, articulado na Frente de Resistência Popular. Embora represente uma derrota para as elites, este objetivo tem se revelado mais difícil do que aparentava. Há cenários nos quais a volta de Zelaya seria possível em troca de moderação. O presidente deposto aceitou o retorno negociado. Mas os golpistas, não. Neste sentido, há uma coesão política forte entre os golpistas, que permanecem intactos mesmo após mais de vinte dias de protestos e toma de ruas, o que reforça a tese de apoio velado dos Estados Unidos.

Dentre os quatro países, em Honduras já havia sinais de reascenso da luta de massas desde 2008, quando três paralisações gerais foram levadas a cabo no país. Na falta de um projeto político e popular, Zelaya encabeçou um processo de transformação a partir de política laborais, tensionado à esquerda pelo ingresso no campo político da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), que ofereceu uma saída para a dependência de petróleo da América Central, que ajudava a alçar o preço da comida às alturas.

Em Honduras, a divisão da política entre liberais e nacionalistas torna o horizonte político mais do que Nicarágua e El Salvador – onde, em linhas gerais, a divisão está mais clara para o povo entre um projeto de esquerda e direita. Em Honduras, até 2005, Zelaya venceu o candidato Pepe Lobo por pequenas nuances no seu projeto. Por sorte, as coisas estão em movimento e a tendência é de abalo na hegemonia dos dois partidos.

A crise política pode alcançar os países vizinhos. Em El Salvador, a vitória de Maurício Funes, da Frente Farabundo Martí, esbarra em um partido unitário e coeso da direita, declaradamente “anti-comunista”: a Arena. Na Nicarágua, por sua vez, as eleições municipais de novembro de 2008 revelaram a fúria do Partido Liberal, que lançou mão de todas as estratégias para isolar o governo do sandinista Daniel Ortega. É consenso entre os movimentos sociais que tampouco o “Orteguismo” representa uma transformação estrutural. Mas isto não oculta a ingerência da embaixada estadunidense naquele episódio, bem como as sanções impostas por EUA e Europa. O Movimento de Renovação ao Sandinismo (MRS), na ânsia de denunciar Ortega, na realidade fez coro nos editoriais das elites, enquanto o povo estava nas ruas revoltado contra os liberais.

Zelaya, Ortega e Funes não traduzem em seus programas um projeto da classe trabalhadora, acumulado na luta dos movimentos sociais e sindicais. Um exemplo recente estava no programa de candidatura de Mauricio Funes, que não trazia as lutas dos atingidos por barragens, um dos principais cenários da luta de classes no pequeno continente. Assim mesmo, na América Central, as oligarquias que controlam o aparelho do Estado não parecem dispostas a ceder nem um milímetro.

Democracia em disputa
As palavras de ordem usadas nos protestos de rua são o retorno de Mel Zelaya à presidência. A reivindicação por democracia, a assembleia constituinte, a participação popular expõem o totalitarismo das elites. A democracia está em disputa neste momento em Honduras e, nestes quatro países, somente as massas urbanas e o campesinato têm a necessidade de exigi-la. No fundo, trata-se do momento de fazer o embate entre a democracia de discurso das elites e a democracia conseqüente exigida pelo povo.

As características da burguesia local não dão qualquer mostra de que ela lutaria nas ruas por uma constituinte. A democracia, neste caso, é bandeira e exigência dos “de baixo”, e têm marcado os processos de Venezuela, Bolívia e Equador. E não apenas: mesmo a Outra Campanha no México - avessa às ações no marco institucional – teve como objetivo inicial formular a proposta de uma nova constituição mexicana.

Novas características estão colocadas na luta atual. Se, na década de 1970, a ala progressista e de base da igreja católica foi decisiva na luta popular, agora em Honduras têm se mostrado vacilante, na figura do cardeal do país – novamente, resultado do refluxo do período anterior. Outra questão: o exercício de unidade entre os movimentos sociais dos diferentes países é um fator fundamental, por meio de organizações como a Alba e Via Campesina. A experiência histórica acumulada comprova que a luta tem que ser articulada em conjunto na América Central e Caribe, apenas desse jeito o imperialismo estadunidense seria golpeado, como defendeu o militante haitiano Didier Dominique em passagem pelo Brasil.

Ainda há um longo caminho para os movimentos sociais centro-americanos, mas a atual tarefa de lutar pela democracia e pela assembleia constituinte deve ser levada a cabo com todas as energias, uma bandeira que as massas populares aspiram e que nunca, na História concreta, conheceram. Uma derrota do retorno de Zelaya, nesta conjuntura de crise, significa o caminho aberto para um maior recuo nos direitos políticos e econômicos dos trabalhadores, em Honduras e noutros países do continente. Golpes são articulados “de fora”, mas só a luta e a conscientização da população dentro do país, no final das contas, pode alterar a correlação de forças.

É certo que a janela para a revolta popular não é aberta pelo mero desejo dos revolucionários. Mas, para os movimentos sociais brasileiros, a tenacidade e também limitação do movimento hondurenho neste momento nos deixam algumas provocações. O fato de vivenciarmos um momento de descenso da luta de massas não significa que não tenhamos que propagandear as bandeiras populares e buscar a construção de um projeto. As jornadas unitárias e as bandeiras levantadas deveriam servir de mote para um trabalho intenso e contínuo de conscientização do povo, lançando mão de diferentes métodos de agitação, para acumular na consciência e identidade de classes, com o objetivo de plantar esta semente de conscientização, que cumprirá seu papel apenas em um período futuro, de salto nas lutas – algo que, claro, não podemos determinar. Equador, Argentina, Bolívia e agora Honduras são exemplos suficientes de que a ação das organizações populares apenas em um momento de crise pode permitir que a revolta popular passe e encontre a todos despreparados, sem uma mínima rede de inserção popular nas cidades e trabalho anterior de base e conscientização.

* Pedro Carrano é Jornailsta do Brasil de Fato

Referências:
DALTON, Roque. Miguel Mármol Los sucesos de 1932 en El Salvador.
EQUIPO MAIZ. La crisis en Estados Unidos, novembro de 2008.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Honduras/POR UMA CONSTITUINTE E O FIM DAS FORÇAS ARMADAS

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

10 julho 2009/http://www.adital.com.br

IHU - Unisinos *

"Estou escrevendo isso enquanto as lágrimas correm pela minha face, choro por meu povo, porque parece que não temos saída", confessa-nos o jesuíta, teólogo e economista estadunidense, Peter Marchetti, que é diretor de pesquisas na Universidade Rafael Landívar, da Guatemala, confiada aos jesuítas, e que residiu por alguns anos em Honduras. Assim, ele explica, na entrevista que concedeu por e-mail, quem é Manuel Zelaya e Roberto Micheletti e qual a representatividade deles para o povo hondurenho. Além disso, Marchetti fala dos Direitos Humanos e sociais em Honduras e sobre a posição da Igreja hondurenha diante do golpe militar dado no dia 28 de junho de 2009. "A situação da maioria do povo pobre piorará devido a uma suspensão do apoio financeiro internacional que será mais efetiva do que o bloqueio comercial", revela o jesuíta.
Peter Marchetti, antes de atuar em Honduras, trabalhou na Nicarágua, nos primeiros anos depois da vitória da revolução sandinista, sempre apoiando as lutas camponesas da América Central.

Confira a entrevista.

IMPASSE PERIGOSO

Antes de responder suas perguntas, quero contextualizar esta entrevista neste momento do início do impasse entre a OEA e o governo hondurenho de fato. Há algum tempo, o presidente Manuel Zelaya e o Presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas, Miguel D’Escoto (1), não puderam aterrissar no Aeroporto Tocontín por ameaças de abrir fogo contra seu avião por parte das forças armadas golpistas. Meia hora antes, o mesmo exército abriu fogo contra manifestantes que apóiam o regresso de Zelaya, deixando dois menores de idade mortos. A Polícia Nacional se ausentou do lugar dos fatos em protesto contra a violência do exército.
Dentro do possível vou deixar que o povo hondurenho fale através das minhas respostas, porque é a única voz capaz de romper o impasse que se iniciou. Começo com uma voz do primeiro dia de protestos em San Pedro Sula (2):
Estou escrevendo isso enquanto as lágrimas correm pela minha face, choro por meu povo, porque parece que não temos saída.
Estive lá e senti o gás na minha garganta e a ardência em meus olhos, vi o desespero das pessoas e a raiva dos jovens que queriam se defender com paus e pedras. Estive lá, senti e vi a maneira como levavam algumas das pessoas que expressavam seu repúdio ao que tem sido feito com nosso país.
Estive lá e me encontrei com a convicção de um povo que, apesar da repressão, está disposto a continuar a batalha para recuperar esta pátria das mãos dos que sempre nos condenaram a viver de forma miserável.
Hoje nos dispersaram, mas não acabaram com a resistência e a luta deste povo que já está farto de tanta injustiça.

IHU On-Line - Como o senhor percebe os recentes fatos ocorridos em Honduras, a partir de seu reconhecido trabalho pelos Direitos Humanos?

Peter Marchetti - Percebo que meus companheiros e companheiras hondurenhas, que fizeram o valente trabalho em favor dos direitos humanos na década de 1990, agora sofrem com o fantasma do imperialismo norte-americano reencarnado no golpe militar de domingo, dia 28 de junho, e estão forjando uma resposta cidadã.
Percebo que os prêmios e reconhecimentos para a luta em favor dos direitos humanos não valem nada se as forças sociais a favor da equidade e da participação democrática não buscarem uma unidade multisetorial e multipartidária a favor de uma assembleia constituinte que Honduras necessita para abolir suas forças armadas e sair do labirinto de elitismos e protagonismos militares, econômicos e políticos.
Percebo que meus amigos e amigas hondurenhos devem responder a estas perguntas a partir do seu posicionamento de luta, não eu, da mesma maneira que eles e elas lutaram a favor dos direitos humanos nos momentos de reconhecimento de meu trabalho mencionado em sua pergunta.

IHU On-Line - Como o senhor vê a situação da cidadania hondurenha neste momento? O que podemos vislumbrar para o povo hondurenho em termos de direitos sociais nessa situação?

Peter Marchetti - Não existem direitos cidadãos em Honduras pós-golpe. Existem "direitos sociais" de se manifestar a favor do golpe castrense. A segurança dos bairros abastados e a esperança dos empresários que podem, com apoio militar, baixar os salários, não preenchem os requisitos de direitos sociais. A única ação cidadã, digna dessa palavra, é a de protesto pacífico e a autodefesa contra a repressão militar. Meus amigos e amigas preveem que a situação piorará.
O ciclo de protesto, repressão e mais protesto é imprevisível em sua escala e há riscos de que as Forças Armadas e o governo de fato manipulam uma invasão fictícia da Nicarágua com apoio da Venezuela para justificar uma campanha de liquidação física da oposição política.
A situação da maioria do povo pobre piorará devido a uma suspensão de apoio financeiro internacional que será mais efetiva do que o bloqueio comercial. Ambos criarão mais insatisfação com a ditadura militar-midiática, obrigando-a a utilizar o terror para que a nova cota de pobreza e o estancamento econômico não se convertam em uma força política incontrolável. Os sinais iniciais de insubordinação da polícia com Zelaya citando Dom Romero, "pedindo e ordenando os militares a não disparar contra o povo" só complica o caso. A única saída dos golpistas é incrementar o medo do povo suficientemente e incrementar a lealdade das forças castrenses para sobreviver o impasse internacional.
Neste contexto, se levantam vozes de muitas organizações com o recrutamento forçoso e ilegal nesta remilitarização pela marcha forçada da sociedade hondurenha. É costume do Exército tanto recrutar gente pobre para que meta medo aos povos em seus próprios lugares de origem dizendo-lhes: "aqui quem manda somos nós; por isso levamos seus filhos, que serão os primeiros a morrer se vocês mexerem um fio de cabelo".

IHU On-Line - Quem são Zelaya e Micheletti? O que eles representam, neste momento, em Honduras?

Peter Marchetti - Internacionalmente: Zelaya e sua volta a Honduras representam a esperança dos governos do mundo de manter o status quo das democracias restringidas latino-americanas impostas no fulgor dos anos neoliberais. Como disse Cristina Fernández Kirchner, presidente da Argentina, "nesta madrugada sequestraram algo a mais do que o presidente: sequestraram a restauração democrática na América Latina."(3)
Micheletti representa a vergonha do desvelamento dessas democracias pouco funcionais. A descrição, por Leticia Salomón, das movimentações de Micheletti para consolidar o apoio dos poderes legislativos e judiciais em uma aliança com os militares é um fiel reflexo do uso de poder cotidiano nos governos centro-americanos. Da mesma maneira, os golpistas só têm estendido o controle sobre o monopólio virtual dos meios de comunicação por parte dos núcleos de poder econômicos centro-americanos, agregando eliminação de penetração de cadeias internacionais e redes de rádios independentes. A verdadeira anomalia em Honduras era a possibilidade de que os cidadãos e cidadãs poderiam votar por mudar o negócio normal da política na América Central e agora estão tomando as ruas para romper o cerco midiático elitista.
Nacionalmente Zelaya e Micheletti são duas figuras do mesmo partido e representam grupos de poder econômico e castas políticas. Eles praticamente são donos do Partido Liberal, ambos têm levantado a bandeira dos discursos populistas, cada qual em seu momento. São figuras representativas da decadência de um partido que perdeu sua definição e sua razão de ser como proposta de construção de cidadania ou de institucionalidade democrática.
Zelaya pode ser uma referência da recuperação do projeto político de vários setores que andam sem referência, ainda que ele mesmo não se veja como um político, mas como um agricultor com oportunidades para participar na conjuntura latino-americana. Até que ponto Zelaya realmente se aproximou de algumas posturas de esquerda e/ou até que ponto sua proximidade a Chávez e à ALBA lhe permitiu aprofundar seu auge populista? São pontos de debate. O que é certo é que, por razões não tão claras, Zelaya ia se afastando de sua base partidária, sem buscar uma maior aliança com a esquerda dentro do país.
Micheletti, acusado de estar por detrás de vários assassinatos e com 14 anos sem movimentação no Parlamento, é um político muitíssimo mais perigoso, mas ao liderar o golpe está agora acabado. Tem uma única vantagem do Partido Liberal: estava no lugar certo e é o bode expiatório adequado. Micheletti poderia representar o vestíbulo para que os ex-presidentes Carlos Flores Facussé, Ricardo Maduro e Rafael Callejas tentem negociar a ressurreição do bipartidarismo hondurenho para 2010.
Micheletti e Zelaya são as antípodas aparentes de um partido onde ninguém manda ou o que manda faz isso na medida em que esse mandato lhe é útil aos seus próprios planos de cúpula, como Carlos Flores Facussé. O golpe de Estado e os dois antípodas aparentes introduzem - talvez pela primeira vez em 40 anos - uma cisão e um debate massivo no interior do Partido Liberal onde já não importa que seus bisavós votaram "vermelho". Mesmo que os líderes do Partido Nacional esperem como gaviões a isca da derrubada do Partido Liberal, há bases nacionalistas protestando contra o regresso dos militares enquanto que os chefes partidários apoiaram o golpe. O golpe representa uma fissura enorme no bipartidarismo e uma oportunidade do povo hondurenho para superá-lo.

IHU On-Line - Quem são Micheletti e Zelaya em termos de apoio eleitoral?

Peter Marchetti - Zelaya poderia ter 30%, Micheletti muito menos e é questionável que o golpe tenha uns 5% de apoio eleitoral. A razão de fundo para o golpe era evitar que o povo votasse fora de um marco bipartidário no contexto do apoio internacional anti-imperialista de Chávez e da administração de Obama, que tenta se distanciar a todo custo do tipo de apoio de Bush à extrema direita latino-americana. O golpe não tem outra razão senão a de separar Honduras da ALBA e criar as condições para a restituição do bipartidarismo elitista garantindo o poder de arquitetos de aliança militar-econômico-midiática.
Zelaya representa o primeiro passo na aposta pela democracia em Honduras, mas as forças sociais e ideológicas que ele representa não são capazes de conseguir uma assembleia constituinte para questionar o bipartidarismo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre a reação dos movimentos sociais ao golpe, tanto em Honduras como na América Latina? Eles têm força e voz para enfrentar o governo de fato?

Peter Marchetti - Esta é a pergunta chave. Não há resposta clara e o grau de resistência ao governo de fato dependerá da capacidade das forças políticas e civis opostas de consolidar uma frente nacional de resistência.
Em primeiro lugar, não se vê coordenação clara entre os setores liberais pró-governo de Zelaya (ministros, prefeitos) com outros atores que se opõem ao governo de fato. Sem este tipo de coordenação não haverá nem força, nem voz para enfrentar cabalmente o governo. O que impede essa coordenação são as velhas disputas entre a Unificação Democrática (UD), movimentos civis com tendências para a democracia radical que se distanciam de todos os partidos, e os setores mais abertos às maiorias dentro do governo de Zelaya. Essas disputas têm sido superadas pela conjuntura do país, mas não nas mentes e corações dos líderes progressistas mais capazes de facilitar a resistência popular.
Em segundo lugar, se vê mais a cara de um movimento social (camponeses, sindicatos e os de sempre) que são os que assumiram a bandeira de resistência ao governo. Não obstante, se soma muito mais gente, particularmente jovens. Parece que pertence ao povo não organizado a tarefa de conduzir os supostos líderes dos movimentos políticos e civis nas lutas prioritárias.
Em terceiro lugar, há muita gente que não se uniu, mas que está consciente do que significa o golpe e que não está de acordo, mas não fala por medo. Sua mobilização pode ser muito positiva, sobretudo se não se cair na armadilha de marchar pelos compromissos contratuais, ou seja, ofertas de vivendas, tratores, etc.
A repressão tem reduzido enormemente a capacidade de resposta, mas isso é dialético porque a repressão leva consigo seu próprio "bumerangue". Não é fácil mobilizar-se quando temos nos submetido ao Exército e às elites políticas, econômicas e religiosas durante décadas e, agora, também estamos submetidos a agências de cooperação que buscam reduzir os movimentos sociais a escritórios de "ajuda". Neste sentido, cada pessoa mobilizada continua sendo um pequeno passo que simboliza um salto gigante.
Os protestos "pela paz" a favor dos militares estão hegemonizados pelos empresários que convidam seus empregados e empregadas a participarem. Estes temem perder seu trabalho na conjuntura da recessão econômica. Os empregados públicos também temem serem despedidos se não marcham "pela paz e a favor da transição".
Estas concentrações pró-golpe, no entanto, recebem energia pela maneira como o clientelismo populista de Zelaya tem criado anticorpos em relação ao seu governo em grandes segmentos do povo não beneficiado. Nem todos que se manifestaram a favor de Micheletti e dos militares foram comprados ou estão com medo. A compreensão de suas razões em apoiar o golpe elitista será crucial no processo de incrementar a resistência ao governo de fato. Soma-se a isto a forte censura dos meios de comunicação e se vê um povo que não tem ideia dos níveis de rejeição do golpe a nível nacional e internacional e do grau de repressão que existe. Além disso, a hierarquia católica, de modo anti-cristão, está ao lado dos golpistas.

IHU On-Line - Qual a opinião da Igreja hondurenha sobre o golpe? Houve medidas e posições perceptíveis por parte dos bispos e do cardeal Maradiaga?

Peter Marchetti - Nos primeiros dias depois do golpe, o cardeal reservou suas opiniões e não dava entrevistas à imprensa com a desculpa: "estou envolvido no diálogo e na negociação para a paz". No entanto, no dia 04 de julho, o cardeal, em cadeia nacional, anunciou o apoio da Conferência Episcopal ao governo de Micheletti e aos golpistas, rejeitando a interferência da OEA e pedindo ao presidente Manuel Zelaya reconsiderar o seu retorno a Honduras, porque "poderia desencadear um banho de sangue".
Não surpreende que o cardeal Rodríguez e a Conferência Episcopal apoie as elites do Partido Liberal, pois ele tem feito isso de maneira quase irrestrita desde que Carlos Flores assumiu a presidência, em 1998. Também esteve perto de negociar com o FMI, o Banco Mundial e o BID a proposta da Iniciativa para os Países Pobres Altamente Endividados (HIPIC, na sigla em inglês), em 1999. Os três presidentes das instituições multilaterais ficaram completamente surpreendidos pela dependência do cardeal nas propostas de Carlos Flores Facussé. O detalhe foi que Facussé havia se convertido num financiador importante da Arquidiocese. Ou seja, ainda que a posição da Igreja Católica tenha sido antidemocrática, opondo-se à democracia hemisférica e a Jesus de Nazaré, seu claro alinhamento com as elites econômicas provavelmente é para conseguir a auto-sustentabilidade financeira da organização eclesial.
A Igreja institucional é parte da sociedade hondurenha com uma série de diferentes interesses e medos justificados com discursos que encobrem e põem uma máscara na sua realidade. É mais um reflexo do problema do que uma solução. Ainda que seja triste para as pessoas que esperam mais da Igreja, seu discurso só justifica e sacraliza as debilidades democráticas da sociedade hondurenha.
A Igreja de base não tem feito grandes pronunciamentos. A diocese do Ocidente fez um pronunciamento contra o golpe, mas foi uma opinião minoritária, sepultada pela Conferência Episcopal. Os jesuitas, três dias antes do golpe, propuseram publicamente que o diálogo era necessário para evitar instabilidade política e social. Sua posição tem sido totalmente contrária à posição da hierarquia católica, particularmente no tipo de diálogo que acham necessário para sair da crise.

IHU On-Line - Que consequências a reforma constitucional desejada por Zelaya e impossibilitada pelo golpe traria para o povo hondurenho? Ela é necessária?

Peter Marchetti - A reforma constitucional é necessária e traria uma nova ordem com mais equidade e democracia. No entanto, não existiam antes do golpe condições apropriadas para implementar a iniciativa. Agora, com a mobilização contra o governo de fato, as condições estão mais claras. Por exemplo, a constituição não estabelece um mecanismo para que um presidente seja impedido de sua funções presidenciais. Sobretudo, as propostas em torno de assegurar a democracia participativa são cruciais, porque têm a ver com a forma de eleger os candidatos aos postos de eleição popular. Talvez agora o façam as elites, mas será uma forma distorcida de democracia.

IHU On-Line - Como se pode reestabelecer a democracia em Honduras? Qual é o papel das Igrejas e das instâncias internacionais nesse sentido?

Peter Marchetti - O papel da Igreja Católica tem sido o de apoiar a paz, que oferece à dominação militar e oligárquica, alinhando-se contra as instâncias internacionais que buscam defender os princípios e procedimentos democráticos em Honduras.
As intenções públicas da OEA , da União Européia e da administração Obama são de apoio ao regresso de Manuel Zelaya como um primeiro passo para uma reconciliação formal e para gerar o clima eleitoral propício para novembro, bem como para promover uma transição democrática com continuidade. Quanto ao modo como este é alcançado, não se descarta a possibilidade de que a OEA tenha uma solução militar ou, pelo menos, a use como "carta na manga" para ameaçar e obrigar as Forças Armadas e o governo hondurenho a que se submetam aos apelos internacionias.
Vários dos golpistas, como Billy Joya, têm uma longa história com a Guerra Suja dos anos 1980, vinculado com a política dos EUA. Existe uma ampla evidência de ações deslegitimizantes por parte dos últimos embaixadores estadunidenses até o governo de Zelaya. E a presença de militares estadunidenses e agentes da CIA por detrás do atual golpe, suscita a dúvida sobre o discurso do presidente Obama. Ou pode ser que Obama e seu Departamento de Estado não saibam o que os poderes ocultos do Pentágono e da CIA estão fazendo.
Veremos nos próximos dias qual será a postura verdadeira da Administração Obama, com que medidas os EUA farão valer sua condenação ao golpe e se podem influenciar a situação. Se atrás da cortina a Administração Obama tem militares e diplomatas que estão apoiando os golpistas, é possível que o povo hondurenho passe pelo caminho chileno, com cinco anos ou mais sem garantias constitucionais ou eleições livres.
Seja como for, uma reconcialização estrutural e um restabelecimento e melhoria da democracia em Honduras passam por outros caminhos que não estão nas mãos das instâncias internacionais, apesar de sua voz unânime contra o golpe e a favor do reestabelecimento de nossa democracia.
A abordagem sem medo de uma nova constituição pode ser um ponto de aproximação e de reconciliação verdadeira, mas hoje, mais do que nunca, temos aprendido que a participação cidadã "light" não nos levará mais além do que legitimar o sistema.
Uma nova constituição aplicável passa por um processo de construção de um partido que una numa só frente os restos do governo de Zelaya, os partidos políticos que rejeitam qualquer pacto com os liberais e nacionalistas, os sindicatos, e os movimentos sociais e cívicos que apostam numa redistribuição do poder e da renda em Honduras. Este tipo de Frente teria que ser muito mais propositiva e incisiva na construção de raízes cidadãs profundas para reestabelecer a democracia em Honduras, construindo relações horizontais com as bases, as quais agora não tem nenhum partido. Qualquer aliança teria que investir muitíssimo na construção política do sujeito cidadão e dos quadros para o governo de cidadãos, para romper a casta política que morde a mão dos que a elegem.
Uma análise profunda do papel das Forças Armadas e sua subordinação ao poder civil é outro ponto de partida. Para que servem as Forças Armadas, criadas a partir da Escola das Américas e das teorias de contra-insurgência e segurança nacional em Honduras? Não basta que cada dia ganhem mais elogios de seus treinadores norte-americanos, não basta que defendam os interesses dos setores poderosos que já não precisam aguentar um presidente populista, não basta que usem armas e treinamento para reprimir um povo que repudia tal ato? Por isso, o caminho é a abolição das Forças Armadas como ponto de luta para construir um partido portador de uma democracia representativa e participativa.
A pergunta é se a conjuntura já está pronta para 1) seguir o caminho da Costa Rica e abolir as Forças Armadas e 2) alcançar um verdadeiro partido popular e democrático que ganhe 30% do eleitorado quando se rompe o impasse da democracia hondurenha. E a resposta se move em torno da capacidade de líderes progressistas de abandonarem seus próprios protagonismos e divisões históricas para poder fazer frente comum às forças anti-democráticas hondurenhas.
Ao terminar de copiar, juntar e ordenar estas reflexões, chegaram as notícias de uma reunião de Manuel Zelaya com Hillary Clinton e da negação da Administração de Obama em receber a delegação representativa dos militares, proprietários e gestores de comunicação social em Honduras. Para qualquer um que tenha vivido o dia-a-dia em Honduras é um show kafkaniano que nos faz acreditar que outro mundo em Honduras é possível.

Notas:
1.- Miguel D’Escoto, ex-ministro das Relações Exteriores da Nicarágua, durante o governo sandinista logo após a vitória no dia 19 de julho de 1979, padre, é o presidente da 63ª sessão da Assembléia Geral da ONU. (Nota da IHU On-Line).
2.- Segunda cidade mais importante de Honduras. (Nota da IHU On-Line).
3.- O entrevistado se refere ao insucesso da volta de Zelaya no domingo passado, pois foi impedido pelo governo golpista. Cristina Kirchner e Rafael Correa aguardavam Zelaya em San Salvador para acompanhá-lo na volta ao seu país. (Nota da IHU On-Line).

* Instituto Humanitas Unisinos

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