Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Brasil/Primaz do Brasil e Arcebispo de Salvador se revolta contra Proposta de Emenda à Constituição 241 (PEC 241)

30 outubro 2016, Brasil 247 http://www.brasil247.com (Brasil)

 


Em uma nota surpreendente, o arcebispo Dom Murilo Krieger, da Arquidiocese de Salvador, não somente faz uma defesa contundente do posicionamento vigoroso da CNBB desta semana contra a PEC 241 (agora PEC 55, no Senado), mas vai além. Diz, por exemplo, que "para o capital mundial, esta PEC é tudo o que ele gostaria de ver aprovado. Os bancos, que já ganharam muito nos últimos anos, vão ganhar ainda mais. Sobrará dinheiro para investirem na imprensa, dizendo que esse sacrifício é mesmo necessário para o bem 'do Brasil'". Dom Murilo pergunta: "Se a PEC 241 é tão boa assim, porque seu conteúdo não foi colocado para a sociedade discutir? Por que foi aprovada pela Câmara Federal tão rapidamente?"
Por Robson Sávio Reis Souza

Estou surpreso com uma nota publicada no Facebook da Arquidiocese de Salvador (abaixo). Nela, Dom Murilo Krieger, primaz do Brasil, não somente faz uma defesa contundente do posicionamento vigoroso da CNBB (desta semana) contra a PEC 241 (agora PEC 55, no Senado), como vai além. Diz, por exemplo, que "para o capital mundial, esta PEC é tudo o que ele gostaria de ver aprovado. Os bancos, que já ganharam muito nos últimos anos, vão ganhar ainda mais. Sobrará dinheiro para investirem na imprensa, dizendo que esse sacrifício é mesmo necessário para o bem "do Brasil".
Dom Murilo pergunta: "Se a PEC 241 é tão boa assim, porque seu conteúdo não foi colocado para a sociedade discutir? Por que foi aprovada pela Câmara Federal tão rapidamente? (Alguém se lembra de outra Proposta de Emenda à Constituição aprovada em tão pouco tempo?...)"
E o arcebispo de Salvador desafia: "chamar de marxista quem pensa diferente de nós é o mesmo que condenar Jesus por ter dito aos apóstolos, diante da fome da multidão: "Dai-lhes vós mesmos de

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Brasil/Em sermão anticapitalista, bispo alerta sobre retrocessos no Brasil

9 setembro 2016, Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)

Dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito da Diocese de Blumenau, fez um sermão, no dia 7 de setembro, em defesa dos trabalhadores e repleto de críticas ao sistema capitalista, que classificou como “explorador e sem vergonha, responsável pela miséria de milhões no mundo”. Durante missa no Santuário Nacional de Aparecida, em São Paulo, ele chamou a atenção para a desigualdade de renda no país e o quadro que se delineia de ataque aos direitos trabalhistas e previdenciários no país.

Confira no vídeo abaixo

Na sua fala, destacou que a crise econômica não golpeia apenas o Brasil. Trata-se de uma crise “dos grandes países do mundo", causada pelo "sistema capitalista liberal que nos domina”, afirmou. E condenou “os exploradores do povo”, “que ficam comendo caviar, enquanto o povo

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

UMA CRÔNICA DE NATAL: E SE O MENINO JESUS ESCOLHESSE NASCER BRASILEIRO EM 2009?

21 dezembro 2009/Conselho Indigenista Missionário http://www.cimi.org.br

Iara Tatiana Bonin *

E se o menino Jesus resolvesse nascer novamente entre nós, para sentir na própria pele os efeitos de seus sagrados ensinamentos? Se escolhesse nascer de uma família humilde, como aquela de Nazaré, que hoje estivesse seguindo, junto ao seu povo, numa longa caminhada? Neste caso, nos dias atuais, Ele escolheria nascer Guarani-Kaiowá!

Nasceria como parte de um povo a caminho, um povo em busca de justiça e de paz. Ele faria parte de uma coletividade que luta para viver, não numa “terra prometida”, e sim numa terra tradicional, lugar de morada dos espíritos ancestrais, onde se sepultaram os corpos de intermináveis gerações. Uma coletividade que, em seu modo de pensar, ironicamente mantém viva a crença na Terra sem Mal.

Ele seria, enfim, parte de um povo que entende seu território como espaço amplo de relações sociais e de convivência com diferentes culturas, mas que se vê, hoje, expulso desse mesmo território pela intolerância de quem acredita poder decretar qualquer espaço como propriedade privada, através da violência, da força bruta e da covardia.

Se o menino Jesus viesse, neste Natal, acalentar-se nos braços afetuosos de uma mulher Guarani, ele seria acolhido como alguém muito desejado. Antes mesmo que seu corpo se formasse no ventre materno Ele seria anunciado como boa notícia, nos sonhos de seus pais, tal como ocorre quando se gera uma nova vida entre os Guarani. E ele nasceria cercado por pessoas que, no afeto cotidiano, estabeleceriam os vínculos familiares e o parentesco com esse novo ser, esse verbo feito carne, com essa palavra-alma!

Seu nome seria, possivelmente, anunciado por um Pajé, um ancião que, entre os Guarani, conhece os segredos da vida e da morte e sabe pronunciar as “belas palavras”, aquelas que chamaríamos de “língua dos anjos” na tradição judaico-cristã. Seu nome seria um sinal do que, neste mundo, ele poderia realizar, das virtudes e dons que carregaria consigo e que, no viver, deveria alimentar e fazer crescer, tal com as viçosas roças de milho.

Se o menino Jesus decidisse ficar entre nós para ver se sua história seria diferente, em pleno século XXI, talvez ele encontrasse desafios bem semelhantes daqueles que enfrentou para semear sua palavra de amor, há mais de dois mil anos. Viveria em um acampamento à beira da estrada, como centenas de Guarani-Kaiowá que aguardam ainda a regularização de suas terras. Cresceria alimentado por tradições que preparam a pessoa para viver numa coletividade e não na individualidade. Seria uma criança entre as muitas que crescem cercadas de cuidados e de atenção, mesmo quando o alimento é escasso. Mas, com dois anos de vida, talvez Ele morresse prematuramente, vítima da falta de assistência e da negligência do Poder Público, tal como a pequena Tatirrara, em Kurussu Ambá, que morreu no dia 18 de dezembro por falta de assistência. Apesar dos contínuos apelos da comunidade para obter medicamentos, a Fundação Nacional de Saúde negou-se a prestar assistência porque a terra está “em litígio”.

Se Jesus sobrevivesse, aos 15 anos talvez decidisse participar, junto com sua comunidade, de uma retomada de terra tradicional – o tekohá, a “terra prometida” para viver plenamente o Nandê Recó, “o jeito de ser Guarani”. Neste caso, talvez Ele fosse mais um jovem assassinado brutalmente, tal como Osmair Fernandes, encontrado morto em uma escola, com indícios de espancamento e de tortura.

Vamos imaginar que, com sorte, o jovem Jesus escapasse a essas violências e tivesse a chance de estudar. Afinal, Ele nasceu para ser Mestre! Quem sabe, hoje escolhesse ser professor! Conhecendo um pouquinho da história de Jesus, vivida há mais de dois mil anos, podemos imaginar que ele também não se calaria diante das injustiças e, assim, utilizaria o “dom da palavra” para ensinar, para abrir os olhos, para aconselhar, para reivindicar que a justiça fosse a medida de toda a nossa vida. Neste caso, talvez seu destino fosse o mesmo que o de Genivaldo ou Rolindo Verá, os dois professores Guarani-Kaiowá seqüestrados e arrastados pelos cabelos por homens encapuzados, de dentro de sua comunidade.

E se não fosse, ainda, a hora de entregar o corpo em sacrifício, o Filho de Deus seguiria um pouco mais, junto a seu povo, cultivando a esperança cotidiana, tecendo a vida como quem trama fibras de taquara, que se transformam em cestos para transportar os frutos da vida e do trabalho. Ele viveria transitando entre um lugar e outro, em acampamentos provisórios e, junto com os seus, sofreria com as precárias condições para a sobrevivência, tal como qualquer povo que vive em exílio, impedido de ocupar definitivamente o seu próprio lugar.

Seria, como há dois mil anos, um homem de paz, desses que buscam construir a harmonia, que buscam falar a sua verdade calmamente, manifestando, pela argumentação, as razões de sua esperança, de suas lutas, de seus anseios. Ele aprenderia esse jeito de ser com os próprios Guarani, quando fosse, por exemplo, fazer uma reivindicação junto a qualquer órgão público ou quando fosse conversar com qualquer visitante, em sua aldeia.

Para os Guarani, essa forma de lutar só é rompida quando a espera se estende em demasia, e não há mais como resistir, se não retomando uma porção de terra. Nessas ocasiões, eles seguem em grupo, com suas famílias, seus animais de estimação, e os poucos objetos que possuem. Armam seus acampamentos e ali permanecem, pacificamente, à espera de providências legais. Quase sempre são recebidos com violências, são ameaçados com rajadas de tiros, são agredidos, espancados, impedidos de obter água, alimentos, medicamentos. Por isso, nascendo novamente hoje, penso que Jesus estaria entre eles e, possivelmente, se tornaria um Pajé, um líder religioso dedicado a curar doenças, a dizer as “belas palavras”, a aconselhar aqueles que vivem à sua volta.

Envelhecendo entre os Guarani-Kaiowá, Ele seria respeitado por adquirir a sabedoria dos anos – a idade é, para este povo, “o tempo que age sobre a pessoa” e que torna a alma mais aproximada da divindade. Como Pajé, talvez liderasse uma retomada, quando a vida num certo acampamento se mostrasse impossível. Ele, então, conduziria um grupo de famílias para uma terra tradicional, onde se pudessem ouvir melhor os conselhos dos espíritos ancestrais. E, nesse lugar, talvez seu grupo fosse vítima da ação criminosa de alguns jagunços de fazendeiros, armados e encapuzados. No embate, poderia Ele ser assassinado a tiros, como foi vítima a anciã e rezadora Xuretê Lopes, numa expulsão comandada por jagunços, em 2007.

Se Jesus Cristo decidisse nascer novamente entre nós, e se fizesse gente entre os Guarani-Kaiowá, correria o risco de ser, novamente, humilhado, torturado, assassinado, com a mesma crueldade daqueles tempos em que se crucificavam os homens que desafiavam as leis, e também aqueles que desafiavam o poder político e econômico para fazer cumprir as leis.

Por isso, neste Natal, é melhor pedirmos a Jesus que permaneça lá mesmo, à direita de Deus Pai, pelo menos por enquanto, pois a maioria dos homens e mulheres que vivem no Brasil contemporâneo ainda não entendeu o significado de suas lições de amor e de solidariedade. Mas acreditamos que um dia todos nós formaremos uma multidão que já não grita “soltem Barrabás”, mas que brada “Demarcação já”! Justiça para os Povos Indígenas!

Porto Alegre (RS), 21 de dezembro de 2009.

* Doutora em Educação pela UFRGS e Professora do PPG da Universidade Luterana do Brasil

sábado, 12 de setembro de 2009

Brasil/DOM HELDER CAMARA E A ESPIRITUALIDADE DO CONFLITO

Carlo Tursi *

10 setembro 2009/Adital http://www.adital.com.br

"Não pensem que eu vim trazer paz à terra...!" (Mt 10,34)
Hoje, somos todos reféns daquilo que agrada às multidões. E nada agrada-lhes mais do que o discurso da "paz". Parece que, depois de três décadas de lutas, manifestações, punhos erguidos, discursos inflamados e palavras de ordem gritadas, a "turma" se cansou e procura agora profetas e sacerdotes (-cantores?) de "fala mansa" que prometem bonança e serenidade, de preferência sem ninguém ter que suar a camisa. "Felizes os mansos" (Mt 5,5) e - sobretudo - os sorridentes, pois o grande público irá escutá-los. Toda palavra mais grossa, discussão mais acalorada, qualquer dissenso ou polêmica são ojerizados; preza-se viver em um ambiente harmônico, tranqüilo e isento de perturbações. Se existem conflitos - e não há como negar sua existência, nem na sociedade, nem na Igreja - , há de se silenciar acerca deles, pois viver um conflito, ainda mais às vistas do público, seria hoje desastroso para a imagem de qualquer instituição ou comunidade. E é assim que mantemos - nos lares, nas igrejas, nas repartições - a fachada da unidade-unanimidade e da paz, varrendo os grandes problemas e conflitos debaixo do famigerado "tapete".

A uma espiritualidade cristã autêntica, porém, esta ânsia por "paz a qualquer preço" sempre pareceu hipócrita. Já a denunciava o profeta bíblico: "Do menor ao maior, são todos aproveitadores, do profeta ao sacerdote, todos enganadores. Sem responsabilidade querem curar a ferida do meu povo, dizendo apenas "Shalom! Shalom!", quando paz não existe!" (Jr 6,13-14). E o próprio Cristo, anunciado como "manso e humilde de coração" na nossa atual mentalidade eclesial, foi, na realidade, um grande polemizador das causas justas, que discutiu com juristas canônicos e sacerdotes, chamando-os de hipócritas, guias cegos e sepulcros caiados (Mt 23). Jesus pegou pesado com ricos ("Ai de vós!") e políticos ("Raposa"), mas também não costumava bajular as multidões que o escutavam ("geração má e adúltera!"). "Não vim trazer a paz, mas a espada", disse ele certa vez. Ou seja, veio para nos forçar a uma tomada de posição: ou a favor ou contra as prioridades do Reinado de Deus - e os seus preferidos.

Esta espiritualidade bíblico-evangélica só pode chocar a mentalidade cristã vigente. Repete-se, em todas as paróquias, o lema da Campanha da Fraternidade ad nauseam ("A paz é fruto da justiça"), mas não se encontra quem queira denunciar as tremendas injustiças e desigualdades que permeiam nosso convívio social brasileiro. Tomar partido? É complicado...! Ninguém quer "pegar (no) pesado", tudo deve ser "light" e facilmente digerível, senão os "fiéis" vão embora...

Dom Helder Camara, cujo centenário de nascimento (1909) comemoramos este ano, exercia-se na espiritualidade cristã autêntica e não fazia concessões ao "gosto" das multidões. No seu já célebre livro "Revolução dentro da Paz" (RJ 1968), o pastor-profeta dizia: "Trata-se de convencer os senhores de hoje a completar a abolição da escravatura, contribuindo, de modo decisivo, não para um amplo movimento filantrópico e assistencialista, mas para um autêntico movimento de promoção humana" (p.79). Sabia da inocuidade de certos discursos eclesiásticos em favor da paz e da justiça, quando desacompanhados de ações concretas no terreno sócio-político: "Se não creio na violência armada, também não chego à ingenuidade de pensar que bastam conselhos fraternos, apelos líricos, para que tombem estruturas sócio-econômicas, como ruíram os muros de Jericó" (p.37).

É esta espiritualidade mais profunda de Dom Helder que não só sabe dar pão aos pobres, mas que pergunta pelas causas da pobreza e que, por conseqüência, aceita ser "perseguida por causa da justiça" (Mt 5,10) que "O GRUPO", aqui em Fortaleza, está querendo relançar ao povo cristão, durante noite de conferência no Colégio Santo Tomás de Aquino, no decurso da SEMANA DOM HELDER CAMARA. A conferência, intitulada "Dom Helder e a espiritualidade do conflito", será proferida por um padre e velho amigo do falecido Dom, João Pubben, no dia 29 de setembro, às 19:00 h, no auditório daquela instituição de ensino. Vamos conferir. Está na hora de avançar para águas mais profundas...

* Teólogo católico e membro da recém-eleita coordenação arquidiocesana de CEBs, em Fortaleza, Ceará

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br

sábado, 5 de setembro de 2009

Brasil/CARTA DE APOIO DA CNBB AO 15º GRITO DOS EXCLUÍDOS

Agência de Informação Frei Tito para a América Latina http://www.adital.com.br
[ADITAL] 4 setembro 2009

CNBB *


Irmãos e Irmãs!

A Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade da Justiça e da Paz - CNBB, juntamente com a coordenação nacional do Grito dos Excluídos, Pastorais Sociais e Movimentos Populares, convida as comunidades, Igrejas, escolas, universidades e organizações sociais, a participarem das diversas atividades do Grito dos Excluídos Nacional, que se realiza em localidades de todos os Estados do País, na semana que antecede o dia 7 de setembro.

O Grito dos Excluídos, em seus 15 anos de existência, vem se afirmando como importante mobilização popular, na Semana da Pátria, em vista da construção de um projeto popular para o Brasil.

O tema deste ano, "Vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular", pretende anunciar, através das diferentes manifestações, sinais de esperança, unidade, organização e da luta popular, e denunciar as formas de injustiça social e degradação do Planeta.

No dia 7 de setembro, junto com o 15º Grito dos Excluídos, acontece, em Aparecida, (SP), a 22ª Romaria dos Trabalhadores com o lema: "A sabedoria dos pobres derrota as armas dos poderosos". O grito visa também; lutar contra as formas de exclusão e as causas que levam o povo a viver em condições de vida precárias e, muitas vezes, sem perspectiva de futuro; denunciar a política econômica que privilegia o capital financeiro em detrimento dos direitos sociais básicos; construir alternativas que tragam esperança aos excluídos e perspectivas de vida para as comunidades locais; promover a pluralidade e igualdade de direitos, bem como o respeito nas relações de gênero, raça e etnia; multiplicar assembléias populares para discutir a organização social a partir do Município, fortalecendo o poder popular.

Diante de situações de exclusão, Jesus defende os direitos dos fracos e o direito a uma vida digna para todo o ser humano. O compromisso com esta causa nos compromete no esforço de superação da exclusão, participando da construção de uma sociedade justa e solidária.

Dom Pedro Luiz Stringhini
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz

04/09/2009

* Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Religião/Entrevista com Paul Lakeland: Pe. Haight, silenciado pelo Vaticano

IHU - Unisinos *

ADITAL Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
5 fevereiro 2009/ http://www.adital.com.br

Adital - Depois de ser notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 2004 e ser acusado de causar "graves danos aos fiéis" por causa do livro "Jesus, Símbolo de Deus" (Paulinas, 2003), o teólogo jesuíta norte-americano Roger Haight, de 72 anos, recebeu, agora em janeiro, ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre assuntos teológicos.
"Jesus, Símbolo de Deus", segundo o próprio Haight, é uma tentativa de expressar as doutrinas tradicionais sobre Cristo e a salvação em uma linguagem apropriada à cultura pós-moderna. E, em particular, o livro oferece uma leitura teológica positiva de religiões não-cristãs e suas figuras de salvação.
Em entrevista exclusiva por e-mail à IHU On-Line, Paul Lakeland, professor de Estudos Católicos na Fairfield University, em Connecticut, nos Estados Unidos, afirma que o trabalho de Haight "busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno".
Lakeland foi um dos poucos teólogos que se manifestou publicamente em defesa de Roger Haight. Seu artigo "Not So Heterodox: In Defense of Roger Haight" [Nem tão heterodoxo: Em defesa de Roger Haight], foi publicado em um dos jornais católicos mais antigos e mais reconhecidos dos EUA, o Commonweal.
Nesta entrevista Lakeland perpassa diversos pontos da teologia contemporânea e a sua relação de altos e baixos com os "elementos de controle" - como ele os chama - do Vaticano.
Paul Lakeland, é professor catedrático de Estudos Católicos da Fairfield University, em Connecticut, nos EUA, onde dirige o Centro de Estudos Católicos. Ex-jesuíta, é articulista do jornal católico Commonweal, de Nova Iorque. Em 2004, conquistou o primeiro lugar no Catholic Press Award, na categoria teologia, pelo seu livro "The Liberation of the Laity: In Search of an Accountable Church" [A libertação dos leigos: Em busca de uma igreja responsável, em tradução livre] (Continuum International, 2003). Também é autor de "Postmodernity: Christian Identity in a Fragmented Age" [Pós-modernidade: Identidade cristã em uma era fragmentada, tradução livre] (Continuum International, 1997) e "Catholicism at the Crossroads: How the Laity Can Save the Church" [Catolicismo na encruzilhada: Como os leigos podem salvar a igreja, tradução livre] (Continuum International, 2007).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Para Haight, o que significa dizer que Jesus é o "Símbolo de Deus"?
Paul Lakeland - Quando Haight usa a palavra "símbolo", ele está pensando no que a teologia católica usualmente se refere como um "sacramento", mas, por estar escrevendo da mesma forma a todos os cristãos e os não-cristãos, ele não usa um termo que não é familiar ou talvez inaceitável, a uma primeira vista. Seu trabalho é apologético, alcançando um público além dos limites da Igreja Católica. Então, ele prefere usar o termo "símbolo", já que é usado em muitas disciplinas diferentes (Ciências Humanas) e tem, mais ou menos, esse significado comumente aceito: um símbolo torna presente algo que não a si mesmo. Às vezes, os símbolos são a única forma de atingir certas realidades, por exemplo, o subconsciente humano. Um símbolo "concreto", diferentemente de uma palavra ou ideia, por exemplo, é um "algo" verdadeiro. E um símbolo religioso concreto, como um livro, ou um sacramento, ou uma pessoa, é algo que torna Deus presente. Para aqueles que desejam ver as dinâmicas mais profundas da realidade simbólica, como alguns dos grandes Padres da Igreja e os Cristãos Orientais com os seus ícones, um símbolo é uma meditação profunda da presença real e verdadeira de Deus ao mundo. Muitas das pessoas que reagiram negativamente ao uso do termo "símbolo" por Haight trivializam-no e continuam, então, criticando o seu próprio mal-entendido.
IHU On-Line - Essa é a segunda notificação recebida pelo Pe. Haight do Vaticano. Desta vez, a Congregação para a Doutrina da Fé afirma que seu livro contém "afirmações contrárias às verdades da fé divina e católica [...] relativos à preexistência do Verbo, à divindade de Jesus, à Trindade, ao valor salvífico da morte de Jesus, à unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus e da Igreja, e à ressurreição de Jesus". O livro de Haight realmente ultrapassa as fronteiras da teologia católica ou a Congregação não compreendeu as ideias do autor?
Paul Lakeland - Eu não estou certo quanto ao que a pergunta se refere como "segunda notificação". Pelo que qualquer um de nós sabe, houve apenas uma notificação dirigida à teologia de Haight. Todo o resto são apenas comentários sobre isso [Haight foi notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em dezembro de 2004 e agora, em 2008, recebeu ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre teologia, N.R.]. Também, enquanto essas frases que resumem os "erros" de Haight em afirmações precisas podem ser boas para provocar a atenção e focalizar sobre a questão, elas também fazem com que pareça que o livro de Haight desafia, direta e abruptamente, a revelação divina e a fé católica. É difícil imaginar qualquer teólogo gastando tanto tempo e esforço com uma tarefa negativa como essa.
Todo o trabalho de Haight objetiva introduzir as pessoas no sentido cristão que pode ser experimentado como vital em nosso tempo e em nossa visão contemporânea do mundo. A frase citada na pergunta, então, representa uma interpretação muito estreita e particular do seu trabalho, que não é compartilhada por um amplo número de teólogos e fieis que leram os seus livros. É, na melhor das hipóteses, uma interpretação em disputa do trabalho de Haight. Raramente é útil fazer essas instruções ou afirmações generalizadas, tiradas do contexto e colocadas diante dos leitores como se fossem capazes de ser isoladas ou provadas. Elas são, pelo contrário, apreciações particulares de uma discussão ampla, técnica e de diversos nuances, em um longo texto baseado em um ponto de vista, em suposições e em um método. A disciplina da teologia e da comunicação de convicções teológicas é muito mais do que uma série de proposições e julgamentos absolutos. Somente quando isso é compreendido, é que é possível que alguém aprecie o que Haight está tentando fazer em sua cristologia. Atalhos e frases de impacto não são um substituto justo para se dedicar ao argumento em sua total complexidade.
Muitos teólogos e pensadores cristãos se dão conta de que a verdade da fé cristã encontra-se no próprio ser de Deus, de que nós nos agarramos a Deus por meio de nossa fé de que Jesus, em suas palavras, suas ações e sua pessoa, revela Deus, mas que, ultimamente, o objeto da nossa fé é um mistério incompreensível, como Karl Rahner disse tão eloquentemente. Sobre essa premissa, na consciência da transcendência infinita de Deus, muitas dessas pessoas dizem: o livro de Haight contém ideias que procuram abrir o mistério do divino e a fé católica sobre a pré-existência de Deus como Palavra, a divindade de Jesus que recebeu o poder dessa Palavra ou do Deus como Espírito, como Lucas insiste, de forma que toda a vida, o ensinamento, a morte e a ressurreição de Jesus são uma parábola concreta e histórica que nos traz a salvação de Deus. O livro nos mostra como essa salvação - que só pode vir de Deus, que é o criador do céu e da terra - estava presente em Jesus, e como Deus como Espírito continua a ser ativo em todo o povo de Deus na história e, de uma forma explícita, na Igreja. Embora Jesus seja uma pessoa histórica única e particular, Jesus é, na linguagem judaica, o Messias ou o Cristo, porque revela e media Deus de uma forma que é universalmente relevante. Todo mundo pode apreciar tal mensagem sobre Deus, mesmo que sejam incapazes de afirmá-la como verdade. Certamente, isso não está longe da essência da fé cristã.
Eu não posso dizer se a Congregação não compreendeu as ideias de Haight, mas eles certamente não parecem abertos a interpretar generosamente os seus objetivos. Seu trabalho, olhado com simpatia, busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno.
IHU On-Line - Haight afirma em seu livro que "só Deus realiza a salvação, e que a mediação universal de Jesus não é necessária" e que "na cultura pós-moderna é impossível pensar [...] que uma religião possa pretender ser o centro para o qual todas as outras devem ser reconduzidas". Com isso, qual é, para Haight, o objetivo do diálogo inter-religioso? É necessária uma espécie de "relativismo" para que haja um verdadeiro diálogo com as demais religiões?
Paul Lakeland - Muitos livros e muitas pessoas não descartaram essa questão aparentemente simples. Isso por si só deveria convencer a todos de que essa é uma questão difícil, que ainda está em aberto, porque muitos ainda a estão questionando. Essas citações de Haight, citadas fora de contexto, provavelmente não são a melhor maneira de começar a responder a essas questões profundas. Uma forma melhor deve ser tentar formular o problema ao qual Haight está tentando responder.
Tratando o segundo ponto em primeiro lugar, certamente alguém que considera os contornos da "cultura pós-moderna" concordaria com a afirmação de que essa cultura tem problemas com organismos em particular que anunciam verdades universais e absolutas para todos os outros. Como Haight está falando com pessoas que vivem e são afetadas por essa cultura, isso se torna um problema ao qual ele deve se dirigir e não pressupor a resposta e simplesmente anunciá-la.
Sobre o primeiro ponto, "Jesus" é o nome característico que se refere a Jesus de Nazaré, e muitas pessoas foram salvas antes que Jesus nascesse, como nós sabemos pelo Antigo Testamento. Além disso, como a igreja ensina no Vaticano II que as pessoas podem ser salvas mesmo que nunca tenham ouvido falar de Jesus, hoje se torna uma pergunta legítima questionar como elas foram salvas. O Vaticano II não responde a essa questão. Ele apenas ensina que elas foram realmente salvas fora da influência histórica de Jesus de Nazaré. Haight parece estar dizendo isso. Como a única forma pela qual as pessoas podem ter alguma ideia de Deus é por meio de organismos históricos concretos, e estes são usualmente chamados de religiões, é razoável pensar que Deus faz contato com as pessoas por meio das suas religiões. Tudo isso parece bastante óbvio.
Permita-me adiar a questão do objetivo do diálogo interreligioso para a próxima pergunta, quando ela surge novamente, e passar para o termo "relativismo". O "relativismo" é um termo usualmente negativo e totalitarista, que faz um julgamento genérico que poucos teólogos apóiam. Entre absolutismo e relativismo, encontra-se uma ideia mais saudável de pluralismo, que sugere diferenças que subsistem dentro de um campo de unidade ou comunhão. Na política, por exemplo, as pessoas dos Estados Unidos são geralmente agrupadas como "norte-americanos", apesar de, muitas vezes, defender ferozmente posições políticas que são seriamente diferentes. A verdadeira habilidade para isso vem do respeito pelas outras pessoas, de sua defesa honesta de opiniões e do reconhecimento de que nenhuma pessoa, nenhum partido e nenhuma religião podem conter o infinito mistério de Deus. Essa ideia de reconhecer a unidade entre as diferenças oferece grandes possibilidades para se entender como Deus lida com os seres humanos e as respostas das religiões. A próxima pergunta conduz a esse território. Mas, antes de chegar lá, deve-se notar, de passagem, como a ideia do pluralismo é usual para a própria teologia católica. Certamente, a fé única pode se expressar em muitas teologias diferentes, porque sempre foi assim. A ideia de que há apenas uma teologia católica de alguma coisa é recente e disfuncional e não faz justiça à rica e complexa tapeçaria da Tradição. Se, por exemplo, tivéssemos tido apenas Agostinho ou apenas Tomás de Aquino, como seríamos mais pobres!
IHU On-Line - Qual a importância de Jesus para o pluralismo religioso e para o diálogo com as outras religiões? Como podemos estabelecer um paralelo entre Jesus e as demais figuras de salvação, como Buda, os deuses hindus ou os orixás afro-brasileiros?
Paul Lakeland - Se alguém viu um pouco de senso comum na última resposta, o contexto para esta discussão e o intercâmbio entre religiões muda imediatamente. Ela é menos polêmica e mais conversacional, é menos competitiva e mais alinhada em cooperação e compreensão mútua. Haight acredita que o objetivo do diálogo inter-religioso (a última pergunta) e a sua importância desde uma perspectiva cristã tem a ver com aprender mais sobre Deus e sobre nós mesmos. Quando reconhecemos que Deus comunicou algo do seu próprio ser para outras pessoas (e como se poderia dizer que o Criador não está presente e não revela o ser de Deus em todas as criaturas?), isso não significa que Deus está menos presente e comunicativo em nosso próprio povo (não-competição). O propósito e a importância do diálogo são comunicação e compreensão mútuas, de forma que possamos aprender mais sobre Deus a partir de como Deus se comunicou com outros e de como eles experimentaram e responderam a Deus. A importância de Jesus é que ele é o revelador universalmente relevante de Deus, e a sua revelação é verdadeira; a importância da Torá é de que Deus revelou seu próprio ser na Lei Judaica. Da mesma forma que aprendemos com nossa religião-mãe, poderemos aprender com as outras religiões.
Seria um erro interpretar Haight dizendo que há uma correspondência ou correlação um-para-um entre as figuras de salvação. Elas são diferentes; elas não são as mesmas. Haight diz explicitamente que as religiões não são iguais. "Igualdade" não é uma categoria que é frequentemente usada aqui: Sally é igual a Diane? A questão não faz sentido. A comparação deve ser feita em um nível muito fundamental do processo de revelação e de fé. Deus, como criador pessoal e amoroso, é a presença e o poder interior no íntimo de todas as criaturas e, por isso, no íntimo de todos os seres humanos. A autocomunicação de Deus, o Espírito de Deus pode explodir em todas as criaturas, situações e períodos em formas genuínas, assim como pode haver muitos guias falsos e decepcionantes. Comunidades religiosas saudáveis, harmoniosas, construtivas e vivas são um bom sinal da revelação de Deus. Religião comparada e teologias da religião comparadas são formas de se investigar os valores relativos das religiões.
IHU On-Line - A Congregação parece estar colocando em questão dois conceitos importantes para o Vaticano: salvação e relativismo religioso. Como essas duas ideias podem ser interpretadas à luz do pensamento de Haight?
Paul Lakeland - Vamos tomar essas duas ideias uma por vez. Salvação é um conceito central no livro "Jesus, Símbolo de Deus": Haight aborda isso com o Novo Testamento, em que ele identifica as diferentes metáforas e concepções que são usadas para descrever como Jesus salva. Ele trata disso novamente nos Padres da Igreja e, de novo, sistematicamente, em um nível pessoal e social. As diferentes ideias de salvação provavelmente explicam por que nenhuma forma de compreendê-la foi alguma vez rigorosamente definida a ponto de excluir as demais.
Algumas coisas são importantes para se entender Haight sobre a salvação. Uma delas é que ele entende a salvação neste mundo como o fato de se ter todo o nosso ser conscientemente aberto a todo o tamanho do amor de Deus por nós: é isso o que Jesus revela, e essa revelação é a salvação de Deus. Ele destaca o argumento patrístico da divindade de Jesus: Jesus deve ser divino precisamente porque nós experimentamos a salvação de Deus nele e por meio dele.
O segundo aspecto é que, uma vez que um cristão ou uma cristã experimente Deus como salvador por meio de Jesus, ele ou ela irá entender que a verdadeira natureza de Deus é ser salvador, por isso a presença criativa de Deus em todas as pessoas é também uma presença salvadora. Porque a salvação é revelada por Jesus para ser o caráter mesmo de Deus, sua oferta está presente onde quer que o Criador esteja presente, isto é, em todo o lugar. A salvação, por isso, não pode ser uma posse competitiva de um único grupo.
Desse ponto de vista da salvação, pode-se ver como o pensamento de Haight responde à questão do relativismo religioso. A ideia de "relativismo" é uma categoria errada para o cristão quando se refere à salvação. Há apenas um Deus e, portanto, apenas uma salvação. Essa salvação é revelada decisivamente em Jesus, mas Jesus revela-a precisamente ao revelar um Deus que é generoso no perdão e no amor, assim todas as criaturas de Deus participam dela. Uma religião ou outra podem expressar essa salvação de Deus mais ou menos claramente em sua vida e em seu testemunho, mas a única salvação que todos discutem em diferentes linguagens, terminologias e sistemas culturais religiosos ainda é uma promessa que excede infinitamente todas as expectativas.
IHU On-Line - Em seu artigo para a revista Commonweal, o senhor afirma que "uma das questões teológicas mais urgentes é como entender a forma pela qual a verdade está presente nas outras religiões e nas outras comunidades cristãs". O senhor tem algumas respostas ou pistas para essa pergunta?
Paul Lakeland - Minha resposta à pergunta anterior serve em grande parte para responder a essa questão. Entretanto, é muito menos importante - talvez até impossível - determinar apenas como a verdade está presente em outras religiões do que afirmar que a verdade está, de fato, presente. A teologia institucional da tradição católica é impaciente com a ambiguidade ou a falta de certeza e tem uma tendência constante de exagerar o grau no qual os seres humanos compreendem o mistério divino. Mesmo com a ajuda do Espírito, nós não sabemos exatamente o quanto as nossas palavras correspondem à realidade de Deus. O quanto Deus está presente nas outras tradições é, a fortiori, algo pelo qual deveríamos nos humilhar. A Lumen Gentium foi muito clara ao dizer que Deus deseja a salvação de todas as pessoas e foi compreensivamente reticente sobre como exatamente isso ocorre. Os teólogos se debatem sobre esse assunto, e a igreja ainda não sabe como responder a essa questão, se é que algum dia irá responder.
IHU On-Line - Como o senhor vê o debate sobre o pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso na teologia contemporânea?
Paul Lakeland - O debate, desde uma perspectiva cristã, se centra em três verdades. Primeiro, os cristãos tem fé em Jesus como a presença divina na história, como o salvador, e ninguém - budista, hindu ou muçulmano - poderia pensar melhor sobre os cristãos dizendo que Jesus só é significativo para os cristãos. Segundo, Deus deseja a salvação de todos os seres humanos, e o fato de eles serem salvos ou não, não tem relação com o fato de eles conhecerem ou não, ou aceitarem ou não Jesus como seu salvador. Terceiro, os membros fieis de outras tradições religiosas são tão persuadidos pelo valor salvífico dessas tradições como os cristãos o são pela mensagem do Evangelho. A tarefa da teologia não é sobre como mostrar que o segundo e o terceiro mandamento devem ser subsumidos ao primeiro, mas como todos os três podem ser verdadeiros.
IHU On-Line - Jon Sobrino, Jacques Dupuis, Peter C. Phan e agora Roger Haight, todos foram processados pelo Vaticano recentemente. Como é possível entender essa posição do Vaticano, em pleno século XXI, em plena pós-modernidade?
Paul Lakeland - A teologia oficial é proclamação, não hermenêutica. De certa forma, essa atitude [do Vaticano] é relativamente apropriada, porque o papel central da Igreja é a proclamação do Evangelho. O elemento "de controle" no comportamento burocrático do Vaticano é exagerado, primeiramente porque eles parecem não entender a tarefa teológica. O papel do teólogo tem a ver com a sua natureza hermenêutica, movendo-se, como o próprio Hermes, em uma espécie de estilo sacerdotal ou mensageiro entre a Tradição eclesial e os tempos em que nós vivemos. A teologia traz a sabedoria extraeclesial contemporânea para a interpretação do Evangelho, e o Evangelho, para a iluminação do nosso mundo do dia de hoje. A tarefa é sempre tentadora, ambígua e desafiadora. O erro que Roma faz é a sua falha em compreender que a pregação e a pesquisa teológica não são a mesma coisa, e que cada uma deve respeito à outra. Não se pretende aqui apoiar, selecionando os teólogos e juízes "oficiais" das teologias de outros, apenas aqueles que Antonio Gramsci nomearia como "intelectuais tradicionais", isto é, aqueles que veem o seu papel apenas como uma apologia ao status quo.
IHU On-Line - Em sua opinião (ou em sua esperança), como o "caso Haight" irá terminar?
Paul Lakeland - Eu não tenho a mínima ideia de como o caso Haight irá terminar. Eu estou certo de que é um exemplo a mais de como o aparato do Vaticano para a investigação dos teólogos está moral e intelectualmente desacreditado. Minha esperança é de que Bento XVI possa adotar a retumbante declaração de posse de Barack Obama, no sentido de que a preocupação com a segurança não nos levará a um compromisso com os nossos valores fundamentais. Há uma séria desconexão entre o Evangelho do amor e da liberdade, por um lado, e os procedimentos quase-legais, secretos e injustos com horríveis consequências punitivas, por outro. Em geral, a comunidade teológica está se autocorrigindo, e o diálogo entre Haight e os teólogos que concordam com ele, com os que tem reservas sobre alguns aspectos de seu trabalho e com os que não concordam substancialmente tem ocorrido há algum tempo e irá continuar. Eu sei que Haight espera e aprecia esse tipo de troca, porque, como todo bom teólogo, ele sabe que irá aprender com esse tipo de debate, assim como os outros participantes. O Vaticano precisa reconhecer que é assim que a compreensão teológica progride. E se ele sente, em sua sabedoria, que há momentos em que deve intervir, então que isso seja feito em plena luz do dia, de acordo com as práticas judiciais reconhecidas internacionalmente. Essa função também deveria ser retirada das mãos da Congregação para a Doutrina da Fé e colocada onde ela pertence, na Comissão Teológica Internacional (CTI), mas uma CTI que seja razoavelmente representativa das muitas vozes da teologia católica, e não uma CTI composta apenas por uma perspectiva teológica.

* Instituto Humanitas Unisinos

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br