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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Portugal/Bispo quer ajudar a «actualizar» a igreja

D.Ilídio Leandro não acredita que Vaticano «o multe» pelas polémicas declarações sobre o preservativo

31 março 2009/Fonte: tvi24

O bispo de Viseu, D.Ilídio Leandro, prometeu empenhar-se para que a Igreja esteja actualizada em relação à sociedade do século XXI e escusou-se a comentar a polémica que gerou a sua posição sobre o preservativo.
Numa nota colocada no site da diocese a propósito das declarações do Papa Bento XVI em África, D.Ilídio Leandro escreveu que «quando a pessoa infectada não prescinde das relações e induz o(a) parceiro(a) (conhecedor ou não da doença) à relação, há obrigação moral de se prevenir e de não provocar a doença na outra pessoa», considerando que neste caso, «o preservativo não somente é aconselhável como poderá ser eticamente obrigatório».
Esta segunda-feira, à entrada para um debate promovido pela Assembleia Municipal de Viseu sobre a violência doméstica, D.Ilídio Leandro escusou-se a comentar a polémica e desvalorizou o facto de a sua posição já ter chegado ao Vaticano.
Citado pelo Diário de Notícias, o director da sala de imprensa do Vaticano, padre Federico Lombardi, afirmou, sobre o texto do bispo de Viseu: «O assunto é muito delicado, pelo que os comentários terão de ser feitos pelas autoridades competentes, de um modo mais correcto, e na sede apropriada».
Bispo não acredita que Vaticano o «multe»
«O Vaticano está muito interessado é em mim, porque naturalmente somos uma família, como vocês todos. Agora que o Vaticano esteja interessado em me pôr uma multa¿», afirmou.
«O que eu escrevi está legível, está disponível e, portanto, não tenho outra coisa a acrescentar àquilo que escrevi», acrescentou.
Durante o debate sobre violência doméstica, e ao falar da necessidade do acesso das mulheres aos meios anticoncepcionais e ao planeamento familiar, Carlos Alberto Vieira, da associação Olho Vivo, saudou o bispo de Viseu pelo «passo em frente que deu».
Lembrou que já o falecido bispo de Viseu D.António Monteiro tinha defendido «o uso do preservativo como mal menor entre dois males em caso de risco de sida» e destacou também a coragem do «bispo Torgal Ferreira quando disse que proibir o preservativo é condenar muita gente à morte» e a posição do coordenador nacional da Pastoral da Saúde, Vítor Feytor Pinto, sobre o acesso à educação sexual.
Neste âmbito, e considerando que «o ponto de partida está na Idade Média», Carlos Vieira questionou «se não serão ainda precisos muitos passos em frente para acompanhar a realidade».
Em resposta, Ilídio Leandro disse respeitar muito a Idade Média «para as pessoas que viveram a Idade Média». Lembrou que aquela era «cumpriu uma missão espectacular», ainda que «com excepções», como foi o caso da Inquisição.
Por outro lado, afirmou respeitar «o século XXI para as pessoas que vivem hoje no século XXI». «Também no século XXI eu gostaria, e da minha parte farei tudo, para que a Igreja esteja também actualizada em ordem à relação com a pessoa humana e com a sociedade humana também à medida do século XXI», assegurou.
«É uma coisa que eu acredito que é possível e vamos todos ¿ eu, leigos, padres da minha diocese ¿ tentar», acrescentou.

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Portugal/Depois do preservativo, bispo defende divórcio

D. Ilídio Leandro prevê situação em casos de violência doméstica

31 março 2009/Fonte: tvi24

D. Ilídio Leandro, bispo de Viseu, tem surpreendido pelas declarações desalinhadas com a posição oficial da Igreja. Depois da polémica em relação ao uso do preservativo, veio agora defender o divórcio, sempre em casos excepcionais.
Durante uma conferência sobre violência doméstica, promovida pela Assembleia Municipal de Viseu, o bispo advertiu que discorda do divórcio, porque «há outras formas de resolver» o problema, mas também lembra que a Igreja é «contra qualquer tipo de violência», pelo que terá de prever a dissolução do matrimónio em casos específicos de violência doméstica.
O bispo de Viseu afirmou também «respeitar as pessoas que optam pela separação» em casos de violência doméstica, mas salientou que esta «chaga social» deve ser combatida através «dos valores da família».
Elza Pais, presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, considerou a violência doméstica um «problema gravíssimo que não escolhe idade ou classe social», sublinhando que «as vítimas têm a obrigação de o denunciar».


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Portugal/«Muito feliz» com afirmações do bispo de Viseu

Coordenador nacional considera que usar preservativo é «optar pela vida»

28 março 2009/Fonte: tvi24

O coordenador nacional para a infecção VIH/Sida, Henrique Barros, mostrou-se, este sábado, «muito feliz» com as declarações do bispo de Viseu sobre o uso do preservativo, por considerar que escolher aquele método é também optar «pela vida».
«Fico sinceramente muito feliz que responsáveis da Igreja apoiem e percebam que, entre a vida e a morte, o preservativo é uma barreira», afirmou o responsável, à margem da Conferência VIH Portugal 2009, que decorria desde sexta-feira no Centro Cultural de Belém.
Na página da diocese de Viseu na Internet, D. Ilídio Leandro defende que «quando a pessoa infectada não prescinde das relações e induz o parceiro (conhecedor ou não da doença) à relação, há obrigação moral» de usar preservativo.
«Aqui, o preservativo não somente é aconselhável como poderá ser eticamente obrigatório», afirma o bispo, alegando, no entanto, que o Papa tem defendido a sua doutrina e que é natural que não afirme que «banaliza o valor, o sentido e a vivência da sexualidade».
O Papa Bento XVI disse na semana passada, numa viagem oficial ao continente africano, que a Sida não se combate só com dinheiro «nem com a distribuição de preservativos que, ao contrário, aumentam o problema».
Dias depois, o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, defendeu que «proibir o preservativo é consentir na morte de muitas pessoas» e que as pessoas que aconselham o Papa deviam ser «mais cultas».

terça-feira, 31 de março de 2009

Bispo português aconselha a pacientes com Aids que usem preservativos

28 março 2009

Lisboa, Portugal (AFP) — O bispo católico português Ilidio Leandro afirmou, em mensagem divulgada pela internet, que os pacientes com Aids devem usar preservativos se decidirem manter relações sexuais, dias depois do escândalo causado pelas declarações do Papa Bento XVI nesse sentido quando viajava à África.
A pessoa infectada com o vírus HIV "que não pode evitar ter relações sexuais está moralmente obrigada, para não transmitir a doença, a usar preservativo", escreveu o monsenhor Ilidio Leandro, da diocese de Viseu (centro de Portugal).
O prelado afirma, no entanto, que compreende a posição de Bento XVI.
"Quando o Papa fala da Aids e de outros aspectos da vida humana, não pode estabelecer uma doutrina para situações individuais ou casos concretos", explicou o monsenhor ao jornal Diario de Noticias. "O Papa não poderia dizer outra coisa sendo chefe da Igreja católica", acrescentou, dizendo não temer que suas declarações vão provocar outra polêmica.
O início da viagem do Sumo Pontífice pelo continente africano foi marcado por suas polêmicas declarações sobre o uso de preservativos, quando afirmou que não se podia "solucionar o problema da Aids", pandemia devastadora na África, "com a distribuição de preservativos". "Ao contrário, sua utilização agrava o problema", enfatizou.
Isso levou à reação de várias ONGs, como o Movimento Camaronês pelo Acesso aos Tratamentos (MOCPAT).
"O Papa vive no século XXI?", questionou seu diretor, Alain Fogue. "As pessoas não vão fazer o que o Papa disse. Ele vive no céu e nós vivemos na Terra", acrescentou.
Na véspera, uma das publicações médicas mais respeitadas do mundo, a revista britânica Lancet, acusou Papa Bento XVI de ter distorcido as evidências científicas em suas declarações sobre o uso do preservativo e exigiu que faça uma retratação.
"Ao dizer que os preservativos aumentam o problema do HIV/Aids, o Papa publicamente distorceu evidências científicas para promover a doutrina católica nessa questão", afirmou a Lancet nesse artigo.
"Se o erro do Papa se deveu à ignorância ou a uma tentativa deliberada de manipular a ciência para sustentar a ideologia católica não é claro.
A publicação britânica acrescenta: "Quando uma pessoa influente, seja uma figura religiosa ou política, faz uma falsa declaração científica que pode ser devastadora para a saúde de milhões de pessoas, ela deveria se retratar".
"Qualquer coisa a menos da parte do Papa Bento XVI seria um imenso desserviço ao público e aos defensores da saúde, incluindo milhares de católicos que trabalham incansavelmente para tentar evitar a propagação do HIV/Aids no mundo".


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Mesmo assunto


Publicação médica acusa papa de 'distorcer ciência'

27 março 2009/Globo

Uma das publicações médicas com maior prestígio internacional, a The Lancet, acusou o papa Bento 16 de "distorcer a ciência" em seus comentários sobre a eficiência do uso de preservativo no combate à Aids.
Em editorial divulgado nesta sexta-feira, a The Lancet afirma que um recente comentário de Bento 16 - de que as camisinhas exacerbam o problema da Aids - é errado, escandaloso e pode ter consequências devastadoras.
Em recente viagem para a África, o papa disse que a "cruel epidemia" deveria ser combatida com a abstinência e a fidelidade e não com o uso de preservativos.
Bento 16 afirmou que a Aids é "uma tragédia que não pode ser superada apenas com dinheiro e que não pode ser superada com a distribuição de preservativos, que podem até aumentar o problema".
Leia mais na BBC Brasil sobre a declaração do papa
Segundo a The Lancet, o papa "distorceu publicamente provas científicas para promover a doutrina católica nesta questão".
De acordo com a revista, o preservativo masculino é a maneira mais eficiente de reduzir a transmissão sexual do vírus HIV.
"Não está claro se o erro do papa se deve à ignorância ou uma deliberada tentativa de manipular a ciência para apoiar a ideologia católica", diz o editorial.
"Quando qualquer pessoa influente, seja uma figura política ou religiosa, faz uma declaração científica falsa que pode ser devastadora para a saúde de milhões de pessoas, elas devem se retratar ou corrigir o registro público."
A revista afirma que qualquer coisa menor que uma retratação "seria um imenso desserviço ao público e defensores da saúde, inclusive milhares de católicos, que trabalham incansavelmente em vários países para tentar evitar que o HIV se espalhe".

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Religião/Entrevista com Paul Lakeland: Pe. Haight, silenciado pelo Vaticano

IHU - Unisinos *

ADITAL Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
5 fevereiro 2009/ http://www.adital.com.br

Adital - Depois de ser notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 2004 e ser acusado de causar "graves danos aos fiéis" por causa do livro "Jesus, Símbolo de Deus" (Paulinas, 2003), o teólogo jesuíta norte-americano Roger Haight, de 72 anos, recebeu, agora em janeiro, ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre assuntos teológicos.
"Jesus, Símbolo de Deus", segundo o próprio Haight, é uma tentativa de expressar as doutrinas tradicionais sobre Cristo e a salvação em uma linguagem apropriada à cultura pós-moderna. E, em particular, o livro oferece uma leitura teológica positiva de religiões não-cristãs e suas figuras de salvação.
Em entrevista exclusiva por e-mail à IHU On-Line, Paul Lakeland, professor de Estudos Católicos na Fairfield University, em Connecticut, nos Estados Unidos, afirma que o trabalho de Haight "busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno".
Lakeland foi um dos poucos teólogos que se manifestou publicamente em defesa de Roger Haight. Seu artigo "Not So Heterodox: In Defense of Roger Haight" [Nem tão heterodoxo: Em defesa de Roger Haight], foi publicado em um dos jornais católicos mais antigos e mais reconhecidos dos EUA, o Commonweal.
Nesta entrevista Lakeland perpassa diversos pontos da teologia contemporânea e a sua relação de altos e baixos com os "elementos de controle" - como ele os chama - do Vaticano.
Paul Lakeland, é professor catedrático de Estudos Católicos da Fairfield University, em Connecticut, nos EUA, onde dirige o Centro de Estudos Católicos. Ex-jesuíta, é articulista do jornal católico Commonweal, de Nova Iorque. Em 2004, conquistou o primeiro lugar no Catholic Press Award, na categoria teologia, pelo seu livro "The Liberation of the Laity: In Search of an Accountable Church" [A libertação dos leigos: Em busca de uma igreja responsável, em tradução livre] (Continuum International, 2003). Também é autor de "Postmodernity: Christian Identity in a Fragmented Age" [Pós-modernidade: Identidade cristã em uma era fragmentada, tradução livre] (Continuum International, 1997) e "Catholicism at the Crossroads: How the Laity Can Save the Church" [Catolicismo na encruzilhada: Como os leigos podem salvar a igreja, tradução livre] (Continuum International, 2007).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Para Haight, o que significa dizer que Jesus é o "Símbolo de Deus"?
Paul Lakeland - Quando Haight usa a palavra "símbolo", ele está pensando no que a teologia católica usualmente se refere como um "sacramento", mas, por estar escrevendo da mesma forma a todos os cristãos e os não-cristãos, ele não usa um termo que não é familiar ou talvez inaceitável, a uma primeira vista. Seu trabalho é apologético, alcançando um público além dos limites da Igreja Católica. Então, ele prefere usar o termo "símbolo", já que é usado em muitas disciplinas diferentes (Ciências Humanas) e tem, mais ou menos, esse significado comumente aceito: um símbolo torna presente algo que não a si mesmo. Às vezes, os símbolos são a única forma de atingir certas realidades, por exemplo, o subconsciente humano. Um símbolo "concreto", diferentemente de uma palavra ou ideia, por exemplo, é um "algo" verdadeiro. E um símbolo religioso concreto, como um livro, ou um sacramento, ou uma pessoa, é algo que torna Deus presente. Para aqueles que desejam ver as dinâmicas mais profundas da realidade simbólica, como alguns dos grandes Padres da Igreja e os Cristãos Orientais com os seus ícones, um símbolo é uma meditação profunda da presença real e verdadeira de Deus ao mundo. Muitas das pessoas que reagiram negativamente ao uso do termo "símbolo" por Haight trivializam-no e continuam, então, criticando o seu próprio mal-entendido.
IHU On-Line - Essa é a segunda notificação recebida pelo Pe. Haight do Vaticano. Desta vez, a Congregação para a Doutrina da Fé afirma que seu livro contém "afirmações contrárias às verdades da fé divina e católica [...] relativos à preexistência do Verbo, à divindade de Jesus, à Trindade, ao valor salvífico da morte de Jesus, à unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus e da Igreja, e à ressurreição de Jesus". O livro de Haight realmente ultrapassa as fronteiras da teologia católica ou a Congregação não compreendeu as ideias do autor?
Paul Lakeland - Eu não estou certo quanto ao que a pergunta se refere como "segunda notificação". Pelo que qualquer um de nós sabe, houve apenas uma notificação dirigida à teologia de Haight. Todo o resto são apenas comentários sobre isso [Haight foi notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em dezembro de 2004 e agora, em 2008, recebeu ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre teologia, N.R.]. Também, enquanto essas frases que resumem os "erros" de Haight em afirmações precisas podem ser boas para provocar a atenção e focalizar sobre a questão, elas também fazem com que pareça que o livro de Haight desafia, direta e abruptamente, a revelação divina e a fé católica. É difícil imaginar qualquer teólogo gastando tanto tempo e esforço com uma tarefa negativa como essa.
Todo o trabalho de Haight objetiva introduzir as pessoas no sentido cristão que pode ser experimentado como vital em nosso tempo e em nossa visão contemporânea do mundo. A frase citada na pergunta, então, representa uma interpretação muito estreita e particular do seu trabalho, que não é compartilhada por um amplo número de teólogos e fieis que leram os seus livros. É, na melhor das hipóteses, uma interpretação em disputa do trabalho de Haight. Raramente é útil fazer essas instruções ou afirmações generalizadas, tiradas do contexto e colocadas diante dos leitores como se fossem capazes de ser isoladas ou provadas. Elas são, pelo contrário, apreciações particulares de uma discussão ampla, técnica e de diversos nuances, em um longo texto baseado em um ponto de vista, em suposições e em um método. A disciplina da teologia e da comunicação de convicções teológicas é muito mais do que uma série de proposições e julgamentos absolutos. Somente quando isso é compreendido, é que é possível que alguém aprecie o que Haight está tentando fazer em sua cristologia. Atalhos e frases de impacto não são um substituto justo para se dedicar ao argumento em sua total complexidade.
Muitos teólogos e pensadores cristãos se dão conta de que a verdade da fé cristã encontra-se no próprio ser de Deus, de que nós nos agarramos a Deus por meio de nossa fé de que Jesus, em suas palavras, suas ações e sua pessoa, revela Deus, mas que, ultimamente, o objeto da nossa fé é um mistério incompreensível, como Karl Rahner disse tão eloquentemente. Sobre essa premissa, na consciência da transcendência infinita de Deus, muitas dessas pessoas dizem: o livro de Haight contém ideias que procuram abrir o mistério do divino e a fé católica sobre a pré-existência de Deus como Palavra, a divindade de Jesus que recebeu o poder dessa Palavra ou do Deus como Espírito, como Lucas insiste, de forma que toda a vida, o ensinamento, a morte e a ressurreição de Jesus são uma parábola concreta e histórica que nos traz a salvação de Deus. O livro nos mostra como essa salvação - que só pode vir de Deus, que é o criador do céu e da terra - estava presente em Jesus, e como Deus como Espírito continua a ser ativo em todo o povo de Deus na história e, de uma forma explícita, na Igreja. Embora Jesus seja uma pessoa histórica única e particular, Jesus é, na linguagem judaica, o Messias ou o Cristo, porque revela e media Deus de uma forma que é universalmente relevante. Todo mundo pode apreciar tal mensagem sobre Deus, mesmo que sejam incapazes de afirmá-la como verdade. Certamente, isso não está longe da essência da fé cristã.
Eu não posso dizer se a Congregação não compreendeu as ideias de Haight, mas eles certamente não parecem abertos a interpretar generosamente os seus objetivos. Seu trabalho, olhado com simpatia, busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno.
IHU On-Line - Haight afirma em seu livro que "só Deus realiza a salvação, e que a mediação universal de Jesus não é necessária" e que "na cultura pós-moderna é impossível pensar [...] que uma religião possa pretender ser o centro para o qual todas as outras devem ser reconduzidas". Com isso, qual é, para Haight, o objetivo do diálogo inter-religioso? É necessária uma espécie de "relativismo" para que haja um verdadeiro diálogo com as demais religiões?
Paul Lakeland - Muitos livros e muitas pessoas não descartaram essa questão aparentemente simples. Isso por si só deveria convencer a todos de que essa é uma questão difícil, que ainda está em aberto, porque muitos ainda a estão questionando. Essas citações de Haight, citadas fora de contexto, provavelmente não são a melhor maneira de começar a responder a essas questões profundas. Uma forma melhor deve ser tentar formular o problema ao qual Haight está tentando responder.
Tratando o segundo ponto em primeiro lugar, certamente alguém que considera os contornos da "cultura pós-moderna" concordaria com a afirmação de que essa cultura tem problemas com organismos em particular que anunciam verdades universais e absolutas para todos os outros. Como Haight está falando com pessoas que vivem e são afetadas por essa cultura, isso se torna um problema ao qual ele deve se dirigir e não pressupor a resposta e simplesmente anunciá-la.
Sobre o primeiro ponto, "Jesus" é o nome característico que se refere a Jesus de Nazaré, e muitas pessoas foram salvas antes que Jesus nascesse, como nós sabemos pelo Antigo Testamento. Além disso, como a igreja ensina no Vaticano II que as pessoas podem ser salvas mesmo que nunca tenham ouvido falar de Jesus, hoje se torna uma pergunta legítima questionar como elas foram salvas. O Vaticano II não responde a essa questão. Ele apenas ensina que elas foram realmente salvas fora da influência histórica de Jesus de Nazaré. Haight parece estar dizendo isso. Como a única forma pela qual as pessoas podem ter alguma ideia de Deus é por meio de organismos históricos concretos, e estes são usualmente chamados de religiões, é razoável pensar que Deus faz contato com as pessoas por meio das suas religiões. Tudo isso parece bastante óbvio.
Permita-me adiar a questão do objetivo do diálogo interreligioso para a próxima pergunta, quando ela surge novamente, e passar para o termo "relativismo". O "relativismo" é um termo usualmente negativo e totalitarista, que faz um julgamento genérico que poucos teólogos apóiam. Entre absolutismo e relativismo, encontra-se uma ideia mais saudável de pluralismo, que sugere diferenças que subsistem dentro de um campo de unidade ou comunhão. Na política, por exemplo, as pessoas dos Estados Unidos são geralmente agrupadas como "norte-americanos", apesar de, muitas vezes, defender ferozmente posições políticas que são seriamente diferentes. A verdadeira habilidade para isso vem do respeito pelas outras pessoas, de sua defesa honesta de opiniões e do reconhecimento de que nenhuma pessoa, nenhum partido e nenhuma religião podem conter o infinito mistério de Deus. Essa ideia de reconhecer a unidade entre as diferenças oferece grandes possibilidades para se entender como Deus lida com os seres humanos e as respostas das religiões. A próxima pergunta conduz a esse território. Mas, antes de chegar lá, deve-se notar, de passagem, como a ideia do pluralismo é usual para a própria teologia católica. Certamente, a fé única pode se expressar em muitas teologias diferentes, porque sempre foi assim. A ideia de que há apenas uma teologia católica de alguma coisa é recente e disfuncional e não faz justiça à rica e complexa tapeçaria da Tradição. Se, por exemplo, tivéssemos tido apenas Agostinho ou apenas Tomás de Aquino, como seríamos mais pobres!
IHU On-Line - Qual a importância de Jesus para o pluralismo religioso e para o diálogo com as outras religiões? Como podemos estabelecer um paralelo entre Jesus e as demais figuras de salvação, como Buda, os deuses hindus ou os orixás afro-brasileiros?
Paul Lakeland - Se alguém viu um pouco de senso comum na última resposta, o contexto para esta discussão e o intercâmbio entre religiões muda imediatamente. Ela é menos polêmica e mais conversacional, é menos competitiva e mais alinhada em cooperação e compreensão mútua. Haight acredita que o objetivo do diálogo inter-religioso (a última pergunta) e a sua importância desde uma perspectiva cristã tem a ver com aprender mais sobre Deus e sobre nós mesmos. Quando reconhecemos que Deus comunicou algo do seu próprio ser para outras pessoas (e como se poderia dizer que o Criador não está presente e não revela o ser de Deus em todas as criaturas?), isso não significa que Deus está menos presente e comunicativo em nosso próprio povo (não-competição). O propósito e a importância do diálogo são comunicação e compreensão mútuas, de forma que possamos aprender mais sobre Deus a partir de como Deus se comunicou com outros e de como eles experimentaram e responderam a Deus. A importância de Jesus é que ele é o revelador universalmente relevante de Deus, e a sua revelação é verdadeira; a importância da Torá é de que Deus revelou seu próprio ser na Lei Judaica. Da mesma forma que aprendemos com nossa religião-mãe, poderemos aprender com as outras religiões.
Seria um erro interpretar Haight dizendo que há uma correspondência ou correlação um-para-um entre as figuras de salvação. Elas são diferentes; elas não são as mesmas. Haight diz explicitamente que as religiões não são iguais. "Igualdade" não é uma categoria que é frequentemente usada aqui: Sally é igual a Diane? A questão não faz sentido. A comparação deve ser feita em um nível muito fundamental do processo de revelação e de fé. Deus, como criador pessoal e amoroso, é a presença e o poder interior no íntimo de todas as criaturas e, por isso, no íntimo de todos os seres humanos. A autocomunicação de Deus, o Espírito de Deus pode explodir em todas as criaturas, situações e períodos em formas genuínas, assim como pode haver muitos guias falsos e decepcionantes. Comunidades religiosas saudáveis, harmoniosas, construtivas e vivas são um bom sinal da revelação de Deus. Religião comparada e teologias da religião comparadas são formas de se investigar os valores relativos das religiões.
IHU On-Line - A Congregação parece estar colocando em questão dois conceitos importantes para o Vaticano: salvação e relativismo religioso. Como essas duas ideias podem ser interpretadas à luz do pensamento de Haight?
Paul Lakeland - Vamos tomar essas duas ideias uma por vez. Salvação é um conceito central no livro "Jesus, Símbolo de Deus": Haight aborda isso com o Novo Testamento, em que ele identifica as diferentes metáforas e concepções que são usadas para descrever como Jesus salva. Ele trata disso novamente nos Padres da Igreja e, de novo, sistematicamente, em um nível pessoal e social. As diferentes ideias de salvação provavelmente explicam por que nenhuma forma de compreendê-la foi alguma vez rigorosamente definida a ponto de excluir as demais.
Algumas coisas são importantes para se entender Haight sobre a salvação. Uma delas é que ele entende a salvação neste mundo como o fato de se ter todo o nosso ser conscientemente aberto a todo o tamanho do amor de Deus por nós: é isso o que Jesus revela, e essa revelação é a salvação de Deus. Ele destaca o argumento patrístico da divindade de Jesus: Jesus deve ser divino precisamente porque nós experimentamos a salvação de Deus nele e por meio dele.
O segundo aspecto é que, uma vez que um cristão ou uma cristã experimente Deus como salvador por meio de Jesus, ele ou ela irá entender que a verdadeira natureza de Deus é ser salvador, por isso a presença criativa de Deus em todas as pessoas é também uma presença salvadora. Porque a salvação é revelada por Jesus para ser o caráter mesmo de Deus, sua oferta está presente onde quer que o Criador esteja presente, isto é, em todo o lugar. A salvação, por isso, não pode ser uma posse competitiva de um único grupo.
Desse ponto de vista da salvação, pode-se ver como o pensamento de Haight responde à questão do relativismo religioso. A ideia de "relativismo" é uma categoria errada para o cristão quando se refere à salvação. Há apenas um Deus e, portanto, apenas uma salvação. Essa salvação é revelada decisivamente em Jesus, mas Jesus revela-a precisamente ao revelar um Deus que é generoso no perdão e no amor, assim todas as criaturas de Deus participam dela. Uma religião ou outra podem expressar essa salvação de Deus mais ou menos claramente em sua vida e em seu testemunho, mas a única salvação que todos discutem em diferentes linguagens, terminologias e sistemas culturais religiosos ainda é uma promessa que excede infinitamente todas as expectativas.
IHU On-Line - Em seu artigo para a revista Commonweal, o senhor afirma que "uma das questões teológicas mais urgentes é como entender a forma pela qual a verdade está presente nas outras religiões e nas outras comunidades cristãs". O senhor tem algumas respostas ou pistas para essa pergunta?
Paul Lakeland - Minha resposta à pergunta anterior serve em grande parte para responder a essa questão. Entretanto, é muito menos importante - talvez até impossível - determinar apenas como a verdade está presente em outras religiões do que afirmar que a verdade está, de fato, presente. A teologia institucional da tradição católica é impaciente com a ambiguidade ou a falta de certeza e tem uma tendência constante de exagerar o grau no qual os seres humanos compreendem o mistério divino. Mesmo com a ajuda do Espírito, nós não sabemos exatamente o quanto as nossas palavras correspondem à realidade de Deus. O quanto Deus está presente nas outras tradições é, a fortiori, algo pelo qual deveríamos nos humilhar. A Lumen Gentium foi muito clara ao dizer que Deus deseja a salvação de todas as pessoas e foi compreensivamente reticente sobre como exatamente isso ocorre. Os teólogos se debatem sobre esse assunto, e a igreja ainda não sabe como responder a essa questão, se é que algum dia irá responder.
IHU On-Line - Como o senhor vê o debate sobre o pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso na teologia contemporânea?
Paul Lakeland - O debate, desde uma perspectiva cristã, se centra em três verdades. Primeiro, os cristãos tem fé em Jesus como a presença divina na história, como o salvador, e ninguém - budista, hindu ou muçulmano - poderia pensar melhor sobre os cristãos dizendo que Jesus só é significativo para os cristãos. Segundo, Deus deseja a salvação de todos os seres humanos, e o fato de eles serem salvos ou não, não tem relação com o fato de eles conhecerem ou não, ou aceitarem ou não Jesus como seu salvador. Terceiro, os membros fieis de outras tradições religiosas são tão persuadidos pelo valor salvífico dessas tradições como os cristãos o são pela mensagem do Evangelho. A tarefa da teologia não é sobre como mostrar que o segundo e o terceiro mandamento devem ser subsumidos ao primeiro, mas como todos os três podem ser verdadeiros.
IHU On-Line - Jon Sobrino, Jacques Dupuis, Peter C. Phan e agora Roger Haight, todos foram processados pelo Vaticano recentemente. Como é possível entender essa posição do Vaticano, em pleno século XXI, em plena pós-modernidade?
Paul Lakeland - A teologia oficial é proclamação, não hermenêutica. De certa forma, essa atitude [do Vaticano] é relativamente apropriada, porque o papel central da Igreja é a proclamação do Evangelho. O elemento "de controle" no comportamento burocrático do Vaticano é exagerado, primeiramente porque eles parecem não entender a tarefa teológica. O papel do teólogo tem a ver com a sua natureza hermenêutica, movendo-se, como o próprio Hermes, em uma espécie de estilo sacerdotal ou mensageiro entre a Tradição eclesial e os tempos em que nós vivemos. A teologia traz a sabedoria extraeclesial contemporânea para a interpretação do Evangelho, e o Evangelho, para a iluminação do nosso mundo do dia de hoje. A tarefa é sempre tentadora, ambígua e desafiadora. O erro que Roma faz é a sua falha em compreender que a pregação e a pesquisa teológica não são a mesma coisa, e que cada uma deve respeito à outra. Não se pretende aqui apoiar, selecionando os teólogos e juízes "oficiais" das teologias de outros, apenas aqueles que Antonio Gramsci nomearia como "intelectuais tradicionais", isto é, aqueles que veem o seu papel apenas como uma apologia ao status quo.
IHU On-Line - Em sua opinião (ou em sua esperança), como o "caso Haight" irá terminar?
Paul Lakeland - Eu não tenho a mínima ideia de como o caso Haight irá terminar. Eu estou certo de que é um exemplo a mais de como o aparato do Vaticano para a investigação dos teólogos está moral e intelectualmente desacreditado. Minha esperança é de que Bento XVI possa adotar a retumbante declaração de posse de Barack Obama, no sentido de que a preocupação com a segurança não nos levará a um compromisso com os nossos valores fundamentais. Há uma séria desconexão entre o Evangelho do amor e da liberdade, por um lado, e os procedimentos quase-legais, secretos e injustos com horríveis consequências punitivas, por outro. Em geral, a comunidade teológica está se autocorrigindo, e o diálogo entre Haight e os teólogos que concordam com ele, com os que tem reservas sobre alguns aspectos de seu trabalho e com os que não concordam substancialmente tem ocorrido há algum tempo e irá continuar. Eu sei que Haight espera e aprecia esse tipo de troca, porque, como todo bom teólogo, ele sabe que irá aprender com esse tipo de debate, assim como os outros participantes. O Vaticano precisa reconhecer que é assim que a compreensão teológica progride. E se ele sente, em sua sabedoria, que há momentos em que deve intervir, então que isso seja feito em plena luz do dia, de acordo com as práticas judiciais reconhecidas internacionalmente. Essa função também deveria ser retirada das mãos da Congregação para a Doutrina da Fé e colocada onde ela pertence, na Comissão Teológica Internacional (CTI), mas uma CTI que seja razoavelmente representativa das muitas vozes da teologia católica, e não uma CTI composta apenas por uma perspectiva teológica.

* Instituto Humanitas Unisinos

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ex-torturador timorense provoca debate na Austrália

Díli, 20 outubro 2008 (Lusa) - Uma comissão do Senado australiano discute terça-feira a situação de um ex-torcionário timorense que entrou na Austrália com um visto de peregrino.

A situação de Gui Campos, um colaborador da inteligência militar indonésia desde os primeiros anos da ocupação de Timor-Leste, vai ser abordada numa das comissões do Senado australiano.

É a segunda vez que o Governo federal vai ser questionado em relação a Gui Campos, que entrou no país há poucos meses com um visto concedido para participar no Dia Mundial da Juventude, durante a visita do Papa Bento XVI à Austrália.

Na sessão de 13 de Outubro, o senador Bob Brown, líder dos Verdes australianos, questionou o ministro da Imigração e Cidadania, o senador Chris Evans, sobre a presença de Gui Campos no país e exigiu saber também se as autoridades australianas pretendem agir contra o ex-torturador ou deixá-lo fugir.

Vários activistas timorenses na Austrália e também vítimas ou familiares de pessoas interrogadas, torturadas ou mortas por Gui Campos ou por sua indicação pretendem que o ex-colaborador dos indonésios seja preso e julgado por esses crimes.

Gui Campos, de 55 anos, residente em Díli, foi reconhecido numa rua de Sydney por uma mulher timorense que é irmã de um rapaz de onze anos que morreu em 1978 na capital timorense depois de ser interrogado e espancado pelo temido agente.

No seguimento dessa descoberta e da denúncia de Gui Campos na televisão australiana, vários outros testemunhos vieram a público confirmando as acusações contra o agente indonésio.

José Belo, um dos jornalistas timorenses mais conhecidos e director do jornal Tempo Semanal, e Naldo Rei, autor de um livro recente sobre a experiência da resistência timorense, acusam Gui Campos de os ter torturado nos anos 1990, com choques eléctricos e espancamentos.

Muitos outros episódios do currículo de Gui Campos estão documentados quer pelas suas vítimas em Díli quer pelos arquivos das comissões que investigaram a violência em Timor-Leste entre 1975 e 1999.

No Senado australiano, a oposição pretende saber como foi possível um homem com este currículo obter um visto de peregrino, que, segundo informação oficial, Gui Campos pretende renovar.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Brasil/EM DEFESA DA TERRA INDÍGENA RAPOSA SERRA DO SOL!


Dom Moacyr Grechi - Arcebispo de Porto Velho

Conselho Indigenista Missionário (CIMI) http://www.cimi.org.br

27 agosto 2008/

Os povos indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, protagonizam uma luta de mais de 34 anos em busca do reconhecimento e demarcação de suas terras tradicionais. Durante esse período contaram com o decidido apoio da Igreja local, notadamente seus bispos, a Missão Consolata e os missionários do Cimi. No dia 2 de julho último, o próprio Papa Bento XVI afirmou a representantes indígenas: "faremos o possível para manter a sua terra", prometendo apoio à sua reivindicação para que a demarcação seja mantida sob a forma de terra contínua. A Terra Indígena Raposa Serra do Sol passou por todo o processo de estudo antropológico e histórico, teve os questionamentos dos invasores devidamente respondidos durante o processo de demarcação, foi finalmente demarcada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002, e homologada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva em abril de 2005. Os invasores de boa fé, pequenos e médios, foram retirados e reassentados em outras áreas de Roraima, devidamente indenizados por suas benfeitorias. Quem se recusa a deixar a área é o grupo de cinco (os indígenas falam em seis) grandes arrozeiros, apoiados por políticos, militares e pelo governador do estado. Em abril deste ano, o Supremo Tribunal Federal mandou suspender a Operação da Polícia Federal que visava retirar os grandes invasores daquela terra indígena e irá decidir nesta semana a respeito da constitucionalidade da homologação feita. É de grande importância este julgamento porque, como o caso ganhou notoriedade nacional e internacional, uma eventual anulação da homologação faria retroceder décadas de lutas dos povos indígenas e abriria um sério precedente, levando a insegurança a todas as terras indígenas já demarcadas e homologadas no país, com repercussão também nas terras quilombolas, de outras comunidades tradicionais, de agricultores familiares e, inclusive, em áreas de proteção ambiental, já reconhecidas (Pedro A. Ribeiro, Pe.Antonio Abreu, Bernard Lestienne, J.Ernanne Pinheiro, P. Maldos e Thierry Linard, na Analise de Conjuntura desse mês).

A decisão sobre a homologação da terra indígena Raposa Serra do Sol, está prevista para o dia 27 de agosto; os ministros do Supremo Tribunal Federal devem decidir se irão seguir o que está definido no Decreto de Homologação, publicado em 2005, que determina a demarcação contínua da área; a decisão do STF sobre a retomada da operação da Polícia Federal chamada de Upatakon 3, que retirava não-indígenas da reserva, também é aguardada. A ação foi suspensa no dia 9 de abril deste ano após o governo e senadores de Roraima terem movido uma Ação Popular pedindo a nulidade da Portaria nº 534, de abril de 2005, que definiu os limites da terra indígena.

A Igreja Católica, apoiando os povos indígenas da Terra Raposa Serra do Sol, publicou no dia seguinte, 10 de abril, a seguinte Nota: “Reunidos na 46ª Assembléia Geral da CNBB, solidarizamo-nos, mais uma vez, com a Diocese de Roraima e os povos da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. No último dia 4, através da “Nota de Esperança”, tornamos público nosso apoio à Operação Upatakon 3, que estava sendo realizada pelo Governo Federal para a retirada dos ocupantes não indígenas da referida terra. Na tarde de ontem, 9 de abril, por unanimidade, o Supremo Tribunal Federal, concedeu medida liminar na Ação Cautelar proposta pelo Governo de Roraima. Desta forma, ficam suspensos todos os atos de desocupação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol até o julgamento do mérito da primeira ação contra a demarcação desta terra, que também tramita no STF. Em nosso entendimento, a demora na retirada definitiva dos não índios que insistem em permanecer na terra homologada tem contribuído para o agravamento do quadro de violência a que estão submetidos os povos Ingarikó, Macuxi, Wapixana, Patamona e Taurepang. Não podem ser premiados os que violam sistemática e impunemente a Constituição, invadindo e ocupando de maneira ilegal terras que não lhes pertencem a nenhum título, promovendo ali o garimpo, a extração ilegal de madeira, a pecuária e plantações de arroz, ao arrepio da lei, e afrontando a Constituição Federal. No aguardo de que o STF possa julgar em breve o mérito da primeira ação contra a demarcação, pedimos ao Deus da Vida que oriente os caminhos a serem trilhados pelos povos habitantes do Estado de Roraima, para que não percam a esperança e possam alcançar a Paz e Justiça”.

Na “Nota de Esperança” afirmamos que “em nosso País, já temos feito uma caminhada muito significativa no reconhecimento e conquista dos direitos. Precisamos pagar essa dívida histórica que temos com os povos indígenas, os mais sofridos ao longo da nossa história. É hora de vislumbrarmos um novo horizonte, onde a pluralidade dos povos indígenas e seus direitos originários sejam definitivamente reconhecidos. Com a Diocese de Roraima, queremos manifestar nosso respeito, solidariedade e apoio aos Povos Indígenas que habitam a terra demarcada e homologada. O Evangelho anunciado e acolhido por estes povos faz deles, cada vez mais, sujeitos da sua própria história”.

Temos o compromisso de defender a vida em todas as suas manifestações, especialmente a vida humana (CF 2008). Fiéis à nossa missão, não fiquemos surdos nem sejamos indiferentes aos gritos de nossos irmãos indígenas da Raposa Serra do Sol: “Nossa Terra-Mãe, Raposa Serra do Sol, está situada no estado de Roraima, ao norte do Brasil, na fronteira com Venezuela e Guiana. Nela vivem 18.992 indígenas dos povos Macuxi, Wapixana, Taurepang, Patamona e Ingarikó, distribuídos em 194 comunidades. Nossa terra ocupa 7% da extensão do estado; antigamente era 100% habitada pelos povos indígenas. As comunidades da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e nossas organizações pedem o apoio e a solidariedade frente à invasão de nossas terras e violação de nossos direitos fundamentais conquistados, ao longo destes anos, com muito sofrimento e sangue, com 21 indígenas assassinatos. Solicitamos urgentemente que apóiem nosso pedido ao Supremo Tribunal Federal, para que ratifique e faça cumprir o decreto de Homologação de nossa terra, assinado em abril de 2005, e determine a retirada dos invasores da Nossa Terra Mãe. A luta pela Terra Indígena Raposa Serra do Sol é emblemática para todo o Brasil. Por isso, é importante destacar que se a decisão do Supremo Tribunal Federal for a favor dos invasores, abre-se um precedente gravíssimo na legislação brasileira. Todas as terras indígenas do Brasil, já demarcadas, homologadas e registradas, poderão ser contestadas e revisadas. Isto seria um grande retrocesso nos direitos indígenas, conquistados e consagrados pela Constituição Federal, direito internacional: Convenção 169 da OIT e declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas” (trecho da Carta das Comunidades Indígenas da Raposa Serra do Sol).

Conscientes de que a situação em Roraima não é apenas um conflito entre invasores de terras indígenas e povos indígenas que requerem a demarcação das terras que tradicionalmente ocupam (terras, aliás, reconhecidas pelo Estado brasileiro como “terras indígenas”), mas se configura como uma situação flagrante de agressão aos Direitos Humanos, portanto, crime contra os direitos dos povos indígenas, crime contra a humanidade, apelamos ao Supremo Tribunal Federal, que ratifique o decreto de homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, retirando os invasores e fazendo assim a justiça esperada pelos povos indígenas há 34 anos de luta e de sofrimento.

A ratificação do decreto de homologação da Terra indígena Raposa Serra do Sol, é fundamental para os povos indígenas de Roraima e do Brasil, uma vez que já harmonizou vários interesses públicos nacionais.

http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=3395&eid=247

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Brasil/CARTA DA VIAGEM À EUROPA DA DELEGAÇÃO DO CONSELHO INDÍGENA DE RORAIMA

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina http://www.adital.com.br

9 julho 2008


CIR *

Adital - Por Jacir José de Souza Macuxi e Pierlangela Nascimento da Cunha Wapichana
Líderes indígenas enviados à Europa para divulgar a Campanha ‘Anna Pata, Anna Yan’


CARTA ABERTA

Nós, Jacir José de Souza Macuxi e Pierlangela Nascimento da Cunha Wapichana, líderes indígenas enviados por nossas comunidades e organizações à Europa para divulgar a Campanha ‘Anna Pata, Anna Yan’, vimos nesta carta relatar e declarar os resultados de nossa visita. Iniciamos nossa viagem no dia 16 de junho de 2008, e durante três semanas percorremos os países de Espanha, Inglaterra, Bélgica, França, Itália e Portugal.

O objetivo era trazer ao conhecimento da sociedade européia e suas autoridades a situação de aflição que se vive hoje na Terra Indígena Raposa Serra do Sol em Roraima e solicitar apoio e solidariedade com nossos povos. No mês de Agosto, o Supremo Tribunal Federal deverá julgar 34 ações que ainda contestam a homologação de nossa terra, assinada pelo Presidente da República em abril de 2005, fruto de nosso trabalho, nossa união e do sangue de muitos a quem tiraram a vida nestes anos.

Em nossa viagem, fomos recebidos por Autoridades dos diversos Governos nacionais, bem como Representantes Políticos de Parlamentos e pelo Presidente do Senado italiano. Tivemos também audiências com Autoridades da Comissão e do Parlamento Europeu. Todos eles nos receberam como lideranças indígenas, mostrando com este gesto seu respeito e consideração a nossos povos.

Fomos acolhidos e apoiados também por respeitadas personalidades como o ex-presidente português Mário Soares, sua esposa Maria Jesus Barroso e a Senhora Danielle Miterrand, outrora lideranças políticas européias e que hoje continuam trabalhando no âmbito de Fundações de caráter cultural e de defesa dos Direitos Humanos. Igualmente, representantes da Fundação do Príncipe Charles de Inglaterra honraram nossa viagem.

Encontramos a solidariedade e apóio de diversas entidades e organizações de reconhecido prestígio por sua defesa dos Direitos Humanos, da Justiça e da Paz em todo o mundo. Dentre elas, Anistia Internacional, CAFOD, Cáritas Espanhola e Portuguesa, Survival International, Uyamaa, Manos Unidas, ICRA, Entreculturas, Conselho Pontifício de Justiça e Paz do Vaticano, Comissão Nacional de Justiça e Paz de Portugal, Associação Empenhar-se Serve e diversos Institutos religiosos. Junto a eles, recebemos o carinho, a solidariedade e o apóio de muitas pessoas que se somaram ao nosso trabalho e nossa Campanha.

Recebemos, em particular, o apóio do Papa Bento XVI, em Audiência realizada no dia 02 de julho, em que lhe entregamos nosso Documento e recebemos dele o compromisso de ajudar na proteção de nossa terra.

Em todas estas visitas e audiências fomos ouvidos com atenção e generosidade, e de todos eles, com a particularidade de cada encontro e cada responsabilidade, recebemos a seguinte mensagem:

1.- Uma solidariedade profunda com os Povos Indígenas, com nossa vida e com nossos direitos, historicamente adquiridos e legalmente reconhecidos na Constituição Federal do Brasil de 1988, na Convenção 169 da OIT e na Declaração da ONU de setembro de 2007. Solidariedade e respeito pela diversidade que representamos para o mundo todo e por nossa contribuição com a preservação e cuidado desta Casa Grande que é a Natureza.

2.- A solidariedade e apóio firme ao Decreto de Homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, assinado pelo Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva em 15 de Abril de 2005, como garantia de nossos direitos e sinal inequívoco de firmeza das instituições brasileiras e da nossa Constituição.

3.- O compromisso de acompanhar os próximos acontecimentos que envolvem à Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Compreenderam a transcendência da decisão que ocorrerá em Agosto, porque ela poderá determinar a sorte de outras terras indígenas em nosso país.

4.- O repúdio aos atos de violência ocorridos contra as comunidades indígenas, agora e durante todo o processo de reconhecimento de nossa terra, assim como a determinação de lutar contra qualquer sinal de impunidade diante da evidente violação dos direitos humanos.

5.- A denúncia dos atos criminosos contra o Meio Ambiente causados pela ocupação ilegal de grandes empresários agrícolas produtores de arroz em nossa terra Raposa Serra do Sol.

6.- O repúdio às práticas políticas de governantes e representantes políticos que utilizam seu poder e influência para trabalhar pela redução de nossos direitos e transmitem à população a idéia de que nossa terra e nossa vida são um empecilho para o desenvolvimento de Roraima.

Em todos os países visitamos as Embaixadas do Brasil, onde explicávamos os objetivos de nossa viagem e solicitávamos seu apoio. Os diversos Embaixadores e Embaixadoras que encontramos confirmaram a posição do Governo brasileiro de defender o Decreto de Homologação de nossa terra e expressaram seu desejo de que essa fosse também a orientação da decisão final na Justiça.

Conseguimos transmitir nossa palavra através dos meios de comunicação, seja em grandes agências ou em pequenos grupos, seja em rádios, televisões ou jornais. Isto é importante para nós, porque nem sempre conseguimos ser ouvidos pelos meios de comunicação brasileiros que, na sua maioria, de modo sistemático transmitem uma imagem distorcida de nossa realidade e nossas comunidades.

Diante de tudo isto, DECLARAMOS que:

- Nossa terra é nossa Mãe, não se tira os filhos de sua Mãe. É a terra de nossos antepassados, que deixaram marcas para nós, e nós devemos repassá-la para nossos filhos.

- A questão fundamental hoje não é mais defender ou fundamentar os nossos direitos, mas sim exigi-los e garanti-los, de modo a que não fiquem apenas escritos nas Constituições de nossos países ou nas grandes declarações. Exigimos que seja respeitada a lei, e a lei reconhece e protege nossos direitos e nossa terra.

- O decreto de Homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol deve ser mantido, e isso significará um passo importante na consolidação de nossos direitos e dos direitos de todos os homens e mulheres.

- Manter o atual decreto de Homologação significa fortalecer a Constituição Federal do Brasil frente aos interesses particulares de fortes poderes econômicos que nos fazem crer que representam os interesses de todos.

- Nossa terra está homologada e registrada. Foi um processo longo. Sofremos por muito tempo as invasões de fazendeiros, garimpeiros e agora dos grandes empresários de arroz. Mas Raposa Serra do Sol é terra indígena e qualquer outra ocupação não descrita no decreto de Homologação se trata de uma invasão que deve ser combatida.

- É necessário e fundamental que se apurem todos os casos de violência contra a vida e patrimônio dos povos indígenas, bem como os crimes cometidos durante a resistência na retirada de nossos invasores.

- Acreditamos na importância e relevância da solidariedade e apóio que temos recebido durante nossa viagem por Europa. É fundamental, e assim o transmitimos em nossos encontros, que todos os países europeus ratifiquem a Convenção 169 da OIT, como instrumento normativo de reconhecimento internacional de nossos direitos.

Agradecemos a todas as Autoridades, personalidades, entidades e organizações que receberam-nos, ouviram nossas palavras e apoiaram nossas comunidades e nossa terra.

Agradecemos especialmente a todas as pessoas e entidades que trabalharam junto a nós nesta viagem. Aquelas pessoas que nos acompanharam desde o início da viagem até o final; aquelas que facilitaram os contatos e audiências em cada país; aquelas que nos proporcionaram hospedagem em suas casas. Nós, povos indígenas, temos o direito e a liberdade de estabelecer amizade e alianças com outros na defesa de nossa vida e nossa terra. E temos a certeza de que os direitos de cada homem e cada mulher serão garantidos com a união e o trabalho de muitos.

Retornamos ao Brasil, em definitivo, felizes de nossa viagem, esperançados e mais firmes na defesa de nosso povo e de nossa terra.

Lisboa, 07 de julho de 2008

Jacir José de Souza Macuxi
Pierlangela Nascimento da Cunha Wapichana

* Conselho Indígena de Roraima

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=33897

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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Paraguai/LUGO CRÊ QUE LULA ACEITARÁ CONCESSÕES SOBRE ITAIPU

16 abril 2008 / Vermelho / http://www.vermelho.org.br

Fernando Lugo acredita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá sensibilidade o bastante para rever o acordo existe entre Brasil e Paraguai sobre energia gerado por Itaipu. Favorito às eleições presidenciais do próximo domingo, o ex-bispo crê no processo de integração latino-americana em curso no continente e conta com a colaboração das autoridades brasileiras para o desenvolvimento de seu país.

Em entrevista ao sítio Terra Magazine, Lugo lembra que o Paraguai possui um déficit habitacional de 400 mil moradias (para uma população pouco superior aos seis milhões de habitantes) e cita os outros problemas sociais que serão atacados caso vença a eleição e ponha fim à hegemonia de seis décadas do Partido Colorado no poder.

Veja abaixo a entrevista:

Como o senhor fez para chegar de bispo a candidato à Presidência?
Fernando Lugo - Houve um processo de discernimento no qual se tomam todos os desafios. Vivi mais de onze anos como bispo, mais de trinta anos como sacerdote. Sobretudo em San Pedro, região mais pobre do País, fizemos uma série de atividades pastorais, sociais, de reivindicações econômicas. Víamos que tudo isso é insuficiente quando não há vontade política. Acreditamos que a política é uma ferramenta importante para alcançar as verdadeiras mudanças. Eu era diretor de um colégio, já como bispo emérito, quando um grupo significativo de cidadãos, com mais de cem mil assinaturas, me pergunta se eu não estaria disposto a deixar o exercício sacerdotal e liderar um movimento amplo, aberto, que pudesse trazer transformações ao interior do país. Isso foi um dos grandes impactos na minha vida. Este convite exigiu reflexão pessoal e afinal acabei colocando-me à disposição da cidadania paraguaia. Fiz isso no Natal de 2006, em Encarnación, na minha casa materna. Daí vem tudo o que significou a Resistência Cidadã, a Concertación, e ultimamente o que é a Aliança Patriótica para a Mudança (Alianza Patriótica para el Cambio), formada há 14 meses, que aglutina 9 partidos políticos, 20 organizações sociais, sindicais, de mulheres, de indígenas, camponesas. Estamos à frente de todas as pesquisas para as eleições de 20 de abril.
Mas isto lhe valeu críticas dentro da Igreja, principalmente por parte do Vaticano...
O Vaticano reagiu de forma coerente, não podia ser de outra maneira porque nunca no mundo houve caso similar. Não cabia precedente, eu entendo muito bem. Não esperava outra coisa, porque era um caso inédito, único. Nesses casos, mesmo a Cúria Romana reage com bastante cautela. Pesa sobre mim uma suspensão do exercício sacerdotal, por minhas atividades políticas. E isso é o que eu havia pedido.
O papa Bento XVI o considera um sucessor dos teólogos da Libertação?
Não, não sei, não sei o que o papa vai achar, verdade... (risos).
Aqui no Paraguai, nunca estudamos a Teologia da Libertação na minha época de estudante, o fizemos, sim, no Equador. Eu estive lá por cinco anos como missionário e foi meu primeiro contato com os teólogos da Libertação, pela experiência pastoral com o senhor Leônidas Proaño, também com a diocese dos bascos no Equador, e isso foi para mim um "abrir os olhos", uma experiência pastoral nova, uma experiência de igreja que acredito ter pesado muito em minha experiência pessoal.
Que aspectos da Teologia da Libertação são retomados em seu projeto político e social para o Paraguai?
Sobretudo a participação. A Teologia da Libertação, do ponto de vista pastoral, dá muito espaço à participação laica. Na diocese de San Pedro temos a experiência de mais de mil comunidades eclesiásticas de base, nas quais ninguém pode ser um cristão anônimo, ninguém pode ser um cristão que esteja olhando de longe a experiência eclesial, tem que entrar na comunidade, participar com os diversos carismas e responsabilidades que têm os laicos. Este também vai ser um governo democrático e participativo, que pede a participação de todos os escalões da sociedade.
Como o senhor vê o contexto regional para seu projeto?
Nós acreditamos que ele favorecerá a entrada do Paraguai na dinâmica de uma mudança real no país para que não sejamos uma ilha nem um oásis na conjuntura regional. Os governos de Brasil, Argentina e, sobretudo, Uruguai, para formar o Mercosul, precisamos dessa comunhão de exercício do poder e do fortalecimento democrático da região. Todos estamos saindo, alguns há mais tempo do que outros, das ditaduras ferrenhas das décadas de 60, 70 e 80... Nós fomos os últimos a sair dela. Marcou também um medo, uma apatia da participação cidadã, mas creio que hoje nos colocamos à altura dos acontecimentos e acreditamos que nas próximas eleições haverá um alto índice de participação, o que lhe confere legitimidade e legalidade aos candidatos eleitos.
Qual é o balanço de sua recente visita ao Brasil?
Em primeiro lugar, fomos a Brasília simplesmente como cidadãos paraguaios e também como candidatos à Presidência da república do Paraguai. Agradecemos o gesto do presidente Lula que teve a cortesia de nos receber e ainda mais de abordar temas de interesse comum, dentre os quais, sem dúvida alguma, ressalta os temas dos "brasiguaios", de Ciudad de Leste, da tríplice fronteira de Itaipu, do comércio, da integração do Mercosul. Durante pouco mais de uma hora de diálogo, no qual também estiveram presentes o chanceler Celso Amorim e o conselheiro Marco Aurélio Garcia, tivemos um marco de exemplo de respeito, de cordialidade, de um diálogo aberto e franco como creio devem ser as relações entre países irmãos.
Em que consistem suas demandas acerca da hidroelétrica de Itaipu?
Em primeiro lugar, há um tratado, o tratado de Foz do Iguaçu, assinado pelos chanceleres de Brasil e Paraguai em 1966. Neste tratado, afirma-se taxativamente que o preço da energia que um país vende a outro deve ser um preço justo. Nós achamos que o preço que o Brasil está pagando agora não é um preço justo, senão um preço de custo. Queremos que seja um preço de acordo com o mercado, e é uma das grandes reivindicações. Se conseguirmos isso, mudará substancialmente a economia paraguaia, independentemente da utilização dessa energia. O Paraguai não pode continuar um país agrário, um país pecuário, tem que tornar-se um país hidroelétrico, um país industrial.
O senhor acha que o presidente Lula poderá fazer concessões, considerando as fortes pressões internas contra ele?
Eu acho que sim. O próprio Lula disse que o Brasil não pode pensar em seu crescimento econômico às custas da pobreza de seus vizinhos. Nós admiramos muito todas as políticas sociais que tem o Brasil. Isto é precisamente o que queremos também para o nosso país. Aqui há um déficit muito alto de políticas públicas e sociais, e queremos pelo menos resolver parte disso. Acho que um preço justo para a energia de Itaipu pode nos ajudar.
Quais são os pontos centrais de seu programa de governo?
Aqui há um déficit de quase 400 mil moradias. Há um déficit na reforma agrária, que nunca foi feita de fato. Um sistema universal de saúde, o tema da reforma educacional que tem que preparar uma geração de fontes de trabalho, as vias de comunicação como obra de infra-estrutura, isso são os cinco grandes eixos que fundamentalmente nos preocupam.
O Paraguai tem margem de manobra para desgrudar-se um pouco do modelo agrícola baseado no cultivo da soja, que trouxe tanta miséria aos pequenos agricultores?
O programa do cultivo da soja é importante para o governo do Paraguai porque é a primeira fonte de investimentos na exportação, mas não quer dizer que seja o único modelo. Acreditamos que não é incompatível com a economia familiar camponesa de pequenas posses que podem associar-se em cooperativas para retirar crédito de seu trabalho e de sua produção.
Como vocês pretendem combater o risco de uma fraude eleitoral?
Historicamente, no Paraguai quase não houve eleições limpas. Há uma grande dúvida e desconfiança no Superior Tribunal de Justiça Eleitoral, mas para combater isso há um sistema que estamos elaborando, um sistema de controle eleitoral bastante eficiente até agora, e creio que isso terá seus resultados e o 20 de abril será uma grande jornada cívica, limpa e transparente que possa garantir a legitimidade das autoridades eleitas.
Quão fácil será governar depois de uma vitória? Existe o perigo de que, como acontece hoje na Bolívia, grupos poderosos possam bloquear o avanço social que os senhores propõem?
Nossos programas não são radicais, são racionais. Estamos trabalhando na formação e no fortalecimento da unidade na diversidade, num pluralismo sadio também dentro das forças democráticas que formam a Aliança. Creio que os princípios de um nacionalismo sadio, de pôr o país em primeiro lugar, de uma reativação econômica unificada com eqüidade social são os que primarão e facilitarão a governabilidade.

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=36085