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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Brasil e Paraguai: 150 ANOS DEPOIS DA GUERRA, FERIDA AINDA ABERTA

28 dezembro 2014, Pátria Latina http://www.patrialatina.com.br (Brasil)

Opera Mundi

Filipe Figueiredo

Guerra do Paraguai deixou mais de meio milhão de pessoas mortas (Wikicommons)

Conflito deixou legado de cerca de meio milhão de mortos, entre soldados e civis; paraguaios desejam reafirmar nacionalidade

Em dezembro de 2014, celebra-se o 150° aniversário do maior conflito armado da América do Sul, conhecido no Brasil como Guerra do Paraguai, travada entre 1864 e 1870. Também chamado de Guerra da Tríplice Aliança ou Ñorairõ Guazú (“Guerra Grande”, em guarani), o conflito deixou um legado de cerca de meio milhão de mortos, entre soldados e civis. Um número preciso jamais será obtido, mas as estimativas das mortes civis paraguaias flutuam entre 300 mil e um milhão; em números relativos, algo entre 40% e 90% de sua população. O clichê diz que deve-se estudar a história para compreender o presente. Cento e cinquenta anos depois, em uma América Latina em desenvolvimento, com o Cone Sul do continente em ritmo de integração, uma ferida permanece aberta, originada na guerra.

A relação do Paraguai com o Brasil possui duas facetas. O país possui a quarta maior fronteira terrestre com o Brasil, foco de intenso intercâmbio econômico. Na última década, o comércio bilateral cresceu cerca de 300%, chegando

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Brasil/Palestina Vive fortalece unidade e solidariedade aos palestinos



22 abril 2013, Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)

A tríplice fronteira foi palco de uma das manifestações mais expressivas, em termos de representatividade, em defesa da causa palestina. Na última semana, dos dias 16 a 19 de abril, mais de 1.500 pessoas, representando a diversidade étnica, religiosa, cultural e política, lotaram a sala de cinema do Iguassu Boulevard, em Foz do Iguaçu, para participarem do 1º Ciclo de Debates e Mostra de filmes sobre a causa Palestina.

Por Mônica Nasser*, de Foz do Iguaçu

Mais de 1.500 pessoas lotaram a sala de cinema

Quatro dias que expuseram, através de documentários, o drama e a resistência do povo palestino frente à estratégia de genocídio instalada no Oriente Médio desde a instituição do Estado de Israel em 1948.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Brasil não é mais coadjuvante no cenário internacional -- Lula

20 abril de 2010/Blog do Planalto http://blog.planalto.gov.br

Nem os países do norte são tão grandes quando imaginavam, nem os países do sul são tão pequenos. O mapa mundi está mais igual e o Brasil vem conquistando cada vez mais espaço nas decisões globais. Isso cria ciumes em muita gente, mas para os novos diplomatas brasileiros, formandos da turma 2007/2009 do Instituto Rio Branco, deve gerar é muito orgulho, afirmou o presidente Lula nesta terça-feira (20/4) durante cerimônia realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília.

O Brasil, afirmou Lula, não é mais coadjuvante nas decisões globais, o País cresceu e ganhou importância no cenário internacional, o que pode ser comprovado pela atuação brasileira em grandes eventos como as reuniões do G8, G20 e COP 15, entre outras. O presidente brasileiro fez questão de elogiar muito o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), “o melhor diplomata em ação que conheço”.

Lula reafirmou a importância da diversificação da relação do Brasil com outros países e disse que se o País é mais respeitado hoje é porque “está colocando o pé em espaços que outrora não colocava” e porque tem políticas importantes. Aconselhou aos formandos do Itamaraty que mantenham em alta não só a excelência da diplomacia brasileira mais também a sua autoestima perante os negociadores dos países europeus e americanos. “Eles podem ser mais ricos do que a gente, mas a nossa terra é tão importante quanto a deles.”

Para ilustrar o novo comportamento do Brasil no exterior, o presidente Lula contou algumas histórias aos novos diplomatas, como as da reunião do G8 realizada em Evian, na Suíça, em 2003, quando acabara de assumir o cargo no Brasil, e da reunião da ONU em Copenhague (COP 15), em dezembro de 2009, mostrando que o Brasil não precisa e não pode mais baixar a cabeça -- e justamente por adotar essa nova postura, vem sendo mais respeitado no mundo. Lula falou também das críticas que o País sofreu por preferir negociar com seus vizinhos em questões delicadas, como o gás natural da Bolívia ou o pagamento ao Paraguai pela energia de Itaipu, do que impor decisões à força.

“O Brasil precisa ser mais generoso, que estende a mão, que ajuda”, disse Lula. “Temos que tratar melhor os nossos vizinhos. O nosso crescimento tem que servir para eles crescerem também.”

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Paraguai/UM ANO DE AMBIGUIDADES

Acordo com o Brasil dá mais fôlego a Fernando Lugo, que chega ao primeiro ano na presidência com contradições e dificuldades em administrar um Estado controlado há décadas pelo Partido Colorado

21 agosto 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Daniel Cassol, correspondente em Assunção (Paraguai)

Após fechar um acordo com o Brasil sobre a energia da binacional Itaipu, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, fez um pronunciamento solene em frente ao Palácio de Governo. Era 25 de julho. Com menos de um ano de negociações, o país chegava a um acordo esperado há três décadas. Mas a referência ao passado mirava o futuro: próximo de completar os primeiros doze meses na presidência, Lugo recuperava fôlego, calava críticas e abria uma nova etapa para o seu até então fragilizado governo.

“Evidentemente que o acordo tranquilizou muito o ambiente. Gerou um ambiente mais propício para o diálogo”, admite Enrique Salim Buzarquis, presidente da Câmara dos Deputados pelo Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA).

Lugo, ex-bispo convertido em candidato a presidente por consenso de diferentes movimentos sociais e partidos de esquerda, aliou-se ao tradicional PLRA, instituição com mais de cem anos de existência, e assumiu a presidência do Paraguai em 15 de agosto de 2008 com o desafio de promover “el cambio” num Estado controlado há 60 anos pelo Partido Colorado. A tarefa não vem sendo fácil.

Lugo faz um governo ambíguo. Promove avanços nas políticas sociais e no combate à corrupção, além de uma postura séria nas relações internacionais, o que levou não só ao acordo histórico com o Brasil mas a uma nova imagem do país no exterior.

“Na luta contra a corrupção, ganhamos um respeito internacional, e em um ano de governo não há nenhum indício de casos de corrupção na presidência e nos ministérios. A segunda conquista é o acordo que conseguimos com Itaipu, que foi histórico”, resumiu o presidente, em entrevista a rádios comunitárias no Equador, durante a última reunião da Unasul (União das Nações Sul-Americanas).

Sem rumo
Por outro lado, Lugo cede às pressões do agronegócio, vacila em temas estratégicos como a reforma agrária e, para melhorar a atribulada relação com o Congresso, acena aos partidos conservadores.

Assim, é forte no Paraguai a ideia de que o presidente não tem uma linha política clara de atuação. “Existem problemas complexos que impedem que ele tenha uma linha de ação mais concreta. O que estamos vendo é uma situação em que, ideologicamente, há sinais à esquerda, sem deixar de dar uma mão à direita”, afirma o sociólogo José Nicolás Morinigo, ex-senador pelo Partido País Solidário, que na última eleição tentou voltar ao Congresso pelo Partido do Movimento ao Socialismo (P-MAS).

Ideia que é compartilhada por setores de oposição a Lugo. Héctor Cristaldo, presidente da União de Grêmios de Produtores (UGP), que reúne todas as entidades do agronegócio no país, diz que o governo não tem rumo. “Não há nenhum avanço. Há mais dúvidas que certezas. Um ministro diz uma coisa, no dia seguinte outro ministro lhe contradiz. Não há rumo. É muito difícil trabalhar assim”, afirma.

Se de fato o governo não tem rumo, os ruralistas paraguaios colaboraram para isso. Ameaçando com a realização de um “tratoraço”, que por fim não aconteceu, a UGP obrigou Lugo a derrubar seu decreto que regulava a utilização de agrotóxicos. A medida, uma das mais emblemáticas do primeiro ano de gestão, gerou descontentamentos entre os camponeses e mostrou que as dificuldades são muitas e que, ao que parece, Lugo não tem muita disposição para enfrentá-las.

“Quem exerce o poder real são as oligarquias, e eles estão trabalhando para manter seus privilégios”, diz o dirigente camponês Belarmino Balbuena. “Estamos preocupados porque houve muitas promessas, mas não sabemos se Lugo está mais próximo da direita ou da esquerda. O que se nota até hoje é que a direita está rodeando o governo”, avalia.

Como prega sua formação católica, Lugo parece não ter mesmo vocação para o conflito. Recentemente, lançou a ideia de realizar uma consulta popular e recuou após a reação negativa do Congresso e da imprensa, deixando para que os setores de esquerda levassem adiante a proposta. Derrotada no Parlamento a aprovação do Imposto de Renda, que não existe no Paraguai, o presidente iniciou uma aproximação que incluiu diálogos com o Partido Colorado e com o UNACE, partido do general Lino Oviedo.

Realidade complexa
Por outro lado, essa postura pode ser a mais adequada diante da complexa realidade política paraguaia, com marcas profundas das seis décadas de domínio do Partido Colorado, tradição recente de golpes e uma polaridade expressa na emergência de um suposto grupo guerrilheiro chamado Exército do Povo Paraguai (EPP), cuja existência, mesmo duvidosa, tumultua o ambiente político no país.

No episódio do reconhecimento de seu filho – as outras duas denúncias ainda não se confirmaram –, Lugo teve sua credibilidade abalada e foi ameaçado inclusive de impeachment. O próprio vice-presidente, Federico Franco, do PLRA, contribui para a instabilidade do governo. Recentemente, diante de rumores de que o presidente estaria doente, Franco respondeu simplesmente que estava pronto para assumir.

Transformando o “antichavismo” no “anticomunismo” do século 21, a direita paraguaia acossa o governo Lugo. A política econômica é conservadora e a reforma agrária será deliberadamente lenta. “Nenhum país na América Latina fez uma reforma agrária que tenha levado um ano, cinco anos. Nosso plano de reforma agrária termina em 2023”, disse o próprio presidente, no Equador.

Sem condições ou mesmo disposição para grandes rupturas, Lugo prioriza o fortalecimento de políticas sociais, para combater a pobreza no país, mas, ao mesmo tempo, não consegue controlar a Polícia Nacional, que segue reprimindo manifestações camponesas, como nos últimos governos. Transformar o Estado paraguaio não é uma tarefa a ser concluída em um ano de governo.

Por isso, o presidente parece apostar em transformações possíveis nas instituições. Aos poucos, vai testando a possibilidade de uma reforma na Constituição, algo que ainda está no horizonte distante.

Novo fôlego
Passada a turbulência dos primeiros meses de governo, e fortalecido com o acordo obtido com o Brasil – politicamente importante, mas que também representará um acréscimo considerável no orçamento do país –, Fernando Lugo tem um pouco mais de fôlego para levar adiante essas mudanças.

No meio desse complicado jogo político, a frágil esquerda paraguaia começa um processo de unidade para respaldar transformações mais profundas. Não está em discussão se o governo está em disputa ou não. Ambíguo e conciliador, assim é o governo Lugo.

“Esse é o Lugo, não é mais nem menos do que é. E ele somente vai ter posições políticas mais fortes quando o movimento popular unificado exija com maior força e conduza este processo. Se não, não há disputa”, afirma Rocío Casco, presidente do P-MAS. (leia entrevista)

Para ela, é preciso compreender as contradições do processo paraguaio e aproveitar o momento para se organizar: “Não vai ser um governo socialista, mas, compreendendo a história paraguaia, podemos ter alguns avanços. Não que as pessoas vão confiar nas instituições burguesas, mas que olhem o socialismo como uma opção real de mudança. Se nós conseguirmos avançar nesses objetivos, podemos dizer muito obrigado, presidente Lugo”.

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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Acordo histórico sobre Itaipu entre o Brasil e o Paraguai

26 julho 2009

Os presidentes do Brasil e do Paraguai anunciaram a conclusão de um "acordo histórico" para a exploração da barragem hidroeléctrica de Itaipu, uma das maiores do mundo, na fronteira entre os dois países.

Os presidentes do Brasil e do Paraguai anunciaram a conclusão de um "acordo histórico" para a exploração da barragem hidroeléctrica de Itaipu, uma das maiores do mundo, na fronteira entre os dois países.

Ao abrigo deste acordo, o Brasil vai pagar a partir de 2010 cerca de 360 milhões de dólares (253,1 milhões de euros) ao Paraguai pela venda de electricidade, contra os 120 milhões de dólares (84,36 milhões de euros) que paga actualmente.

"Demos um passo muito importante, este é um acordo histórico", declarou o presidente brasileiro, Lula da Silva, numa conferência de imprensa conjunta com o seu homólogo do Paraguai, Fernando Lugo.

Há anos que o Paraguai reclamava uma revisão do tratado sobre a barragem para receber mais dinheiro pela energia vendida ao Brasil. O contrato estipula que o Brasil tem prioridade na compra de energia que o Paraguai não utiliza.

Construída há 35 anos pelo Brasil e pelo Paraguai, com um custo de 12 mil milhões de dólares (8,43 mil milhões de euros, ao câmbio actual), Itaipu é a segunda maior barragem da mundo a seguir à barragem das Três Gargantas, na China, e tem uma capacidade instalada de 12.600 megawatts.

Lula da Silva comprometeu-se ainda a financiar vários projectos de infra-estruturas no país vizinho, através de créditos a longo prazo, incluindo uma linha de alta tensão entre a barragem e Assunção no valor de 450 milhões de dólares.

"Em 10 meses (de negociações), graças à vontade deste governo e do presidente Lula, avançámos com uma reivindicação que já tinha 30 anos", disse Fernando Lugo.

"São 360 milhões de dólares anuais que o meu governo se compromete a consagrar ao desenvolvimento produtivo e às necessidades sociais" do país, prometeu o presidente paraguaio.

Fernando Lugo fez das "injustiças de Itaipu" uma das bandeiras da sua campanha eleitoral em 2008. (Noticias Lusófonas)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Brasil acerta acordo com Paraguai sobre Itaipu

24 julho 2009/Agência Estado

Os técnicos de Brasil e Paraguai finalizaram as negociações sobre a usina de Itaipu. O acordo ainda depende da palavra final dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo, mas pode encerrar o conflito entre os dois países. Um dos principais pontos do acordo é a autorização para o Paraguai vender energia de Itaipu e de outras usinas no mercado livre brasileiro gradualmente e sem a intermediação da Eletrobrás. Outro ponto importante é o reajuste do valor pago pelo Brasil para os paraguaios cederem sua parcela de energia em Itaipu, que deve ser triplicado para US$ 360 milhões. As informações são do diretor-geral paraguaio de Itaipu, Carlos Mateo Balmelli.
Os países vão montar um grupo de trabalho para a entrega, em 120 dias, de uma proposta sobre os porcentuais e os prazos que regularão a entrada da estatal paraguaia Administração Nacional de Energia (Ande) no mercado livre do Brasil. O pacote brasileiro inclui ainda a criação de fundo binacional e o financiamento da construção de uma linha de transmissão de Itaipu a Assunção, orçada em US$ 450 milhões. Segundo um negociador, uma hipótese é o Paraguai começar no mercado livre com 300 megawatts de potência, ou 2 mil gigawatts por hora. O volume equivale a 2% da produção de Itaipu, que ultrapassou 90 mil gigawatts por hora em 2008.
Em relação à energia "excedente", ou seja, o que a usina produz a mais em um ano chuvoso, o volume representaria cerca de 15%. Ou seja, não haveria alteração na venda dos 75 mil gigawatts por hora garantidos para as distribuidoras. "Ainda faltam alguns detalhes, mas estamos otimistas. O momento é de celebração por esse acordo histórico", disse Balmelli. Lula e Lugo se reúnem amanhã para tratar do tema. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

CARTAS PARAGUAIAS

Cartas paraguaias 7: A ARMADILHA DA DÍVIDA DE ITAIPU

No final de 1986, dois anos depois da Itaipu ter começado a operar, a dívida total era inferior a 15 bilhões de dólares

30 março 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Roberto Colman

Dois terços da tarifa da eletricidade de Itaipu estão compostos por amortização e juros da dívida que a binacional tem com a Eletrobrás e o Tesouro brasileiro. O Paraguai questiona esse passivo. Vejamos por quê.
No final de 1986, dois anos depois da Itaipu ter começado a operar, a dívida total era inferior a 15 bilhões de dólares. Analisando o quanto se pagou de amortização (para além dos juros) à Eletrobrás e ao Tesouro brasileiro até o final de 2008, segundo os balanços publicados pela binacional, veremos que foi um valor superior a 16 bilhões de dólares.
Porém, depois de todos esses pagamentos ao longo desses anos, nessa última data a dívida era de 19 bilhões, ou seja, superior a quando começou!!! Como foi possível isso, se havia sido amortizado (até 2008) mais do que se devia ao começar o pagamento das dívidas contraídas (em 1986)?
Como dissemos, Itaipu deve esses montantes à Eletrobrás e ao Tesouro brasileiro. Portanto, quando falamos que, da tarifa que a binacional cobra dos "compradores" (Eletrobrás e ANDE), dois terços vão para pagamento da dívida (amortizações e juros), isso significa que esse dinheiro (mais de dois bilhões de dólares a cada ano) vai diretamente aos cofres do Tesouro e da Eletrobrás. Sai por um lado, entra pelo outro.
Essa dívida “misteriosamente” inflada tem sido muito conveniente para certos interesses no Brasil. Faz com que “a tarifa seja cara”, mas que não afete seu “bolso”, já que o que paga "volta".
Mas, por que falamos em dívida “inflada”? Na próxima Carta, vamos explicar por que, no Paraguai, denunciamos a existência de uma "dívida espúria" e que, em diversas ocasiões, a direção da binacional (por iniciativa dos governos do Brasil nos anos 1980-90 e a cumplicidade dos governos do Paraguai desse período) manobrou para manter a armadilha da dívida, "crescente" porém “conveniente”.
Roberto Colman (rrcolmanf@yahoo.com), sindicalista e eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.


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Cartas paraguaias 6: O “PREÇO JUSTO” DA ENERGIA PARAGUAIA

Roberto Colman

Em Itaipu, a tarifa (o preço que a binacional cobra da Eletrobrás e da ANDE, que é a empresa de eletricidade paraguaia) é igual ao “custo” de produzir essa energia

25 março 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

O Paraguai tem direito a receber um “preço justo” pela sua parte da energia da Itaipu que vende ao Brasil. Mas não é isso que ocorre hoje. Para entender como se coloca o problema, precisamos detalhar como funciona a hidrelétrica, de acordo com o Tratado firmado entre os dois países.
Em Itaipu, a tarifa (o preço que a binacional cobra da Eletrobrás e da ANDE, que é a empresa de eletricidade paraguaia) é igual ao “custo” de produzir essa energia. Nesse “custo”, somam-se, por exemplo, os de operação da usina, como os “financeiros” (o pagamento da dívida contraída para sua construção), entre outros itens. E, quando o Brasil recebe energia da parte paraguaia, paga um adicional em conceito de “compensação por cessão de energia” (ver quadro). Ou seja, Itaipu, segundo o Tratado, opera “fora do mercado”: vende sua energia pelo seu custo, “independentemente” de qual seja o preço de mercado.
Esse princípio foi aplicado de acordo às conveniências das empresas elétricas brasileiras. E, sempre que necessário, por iniciativa dos governos brasileiros dos anos 1980-90 (e com a cumplicidade dos governos paraguaios desses períodos), o Tratado foi violado nesse ponto. Em vários anos, as empresas elétricas não pagaram a tarifa devida.
Mas vejamos como se está operando essa questão hoje, e o que o Paraguai reivindica. Em primeiro lugar, chama a atenção que 65% da tarifa é para pagamento da dívida (juros e amortizações) que Itaipú tem com Eletrobras e o Tesouro Brasileiro.(Voltaremos a esses dois pontos quando falarmos da dívida de Itaipu).
Mas, com todo esse custo “inflado”, quando o Paraguai “cede” sua energia de Itaipu por um valor igual ao “custo Itaipu + compensação”, esse valor está abaixo do preço do mercado elétrico, seja brasileiro, seja regional.
Isso se deve ao fato de que a “compensação” é um valor chutado, arbitrário, fixado em fórmula de 1973. Na negociação ocorrida em Brasília em 26 de janeiro de 2009, os negociadores brasileiros propuseram duplicar esse valor, que chegaria a mais de duzentos milhões de dólares por ano (hoje é algo acima de cem milhões).
Porém, estudo realizado por técnicos paraguaios mostra que, se houver um ajuste no valor da “compensação” para que a Eletrobrás pague o “preço justo”, esse item deveria ir a quase 800 milhões de dólares (não o dobro, mas oito vezes mais). Isso considerando o mercado elétrico brasileiro.
Para que se veja como, em termos de mercado, a Eletrobrás paga muito abaixo do que deveria, agreguemos que o governo paraguaio recebeu, recentemente, oferta do Chile de compra de energia de outra represa totalmente paraguaia (Acaray) por um valor que leva embutido um beneficio (equivalente à “compensação”) que é 22 vezes o que o Paraguai recebe hoje do Brasil pela “energia cedida”! Quer dizer, no mercado regional de eletricidade, paga-se muito mais ainda!
Resumindo, ao “ceder” sua energia de Itaipu à Eletrobrás por um valor igual ao “custo + compensação”, o Paraguai está subsidiando as empresas brasileiras do setor elétrico e as grandes indústrias que utilizam essa energia (fundamentalmente as grandes empresas de São Paulo). O país pequeno e economicamente mais atrasado subsidiando o país grande e mais industrializado: alguém pode justificar isso!?

Cálculo do Custo de Itaipu (em milhões de dólares) em 2007
pagamento da dívida (amortização e juros) 2.085
royalties aos dois países 428
despesas de funcionamento 643
rendimento de 12% ao ano sobre o capital
integralizado por ANDE e Eletrobrás 44
Custo Total 3.200
O Custo Unitário se calcula dividindo esse valor pelo total de “energia garantida” (75.000 Gwh/ano), dando um valor de 42,7 dólares por MWh.
O Brasil, quando recebe energia da parte paraguaia, ainda paga “compensação pela cesão de energia”, um total de 104 milhões de dólares, ou 2,7 por MWh, o que significa que a tarifa para o Brasil é de 45,4 dólares por MWh.

Para ler mais:
Hugo Lesme e Verónica Echauri, “Justo Precio”. ABC Color, 21 de dezembro de 2008.
SICOM / Presidencia de la República del Paraguay. “Itaipu, a energia de dois povos”. Janeiro, 2009

Roberto Colman (rrcolmanf@yahoo.com), sindicalista e eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/cartas-paraguaias-7-a-armadilha-da-divida-de-itaipu

Leia mais:
Cartas paraguaias 1: Um agradecimento e nosso projeto comum
Cartas paraguaias 2: Um Tratado de duas ditaduras
Cartas paraguaias 3: Uma usina que primeiro gerou corrupção
Cartas paraguaias 4: A soberania de cada país sobre seus recursos: uma bandeira comum?
Cartas paraguaias 5: Defendemos nossa soberania junto com a integração regional

quarta-feira, 25 de março de 2009

Soberania energética e reforma agrária unificam movimentos de Brasil e Paraguai

Daniel Cassol, correspondente em Asunción, Paraguai

24 março 20097Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Um ato simbólico nesta quinta-feira (26) reunirá organizações sociais do Paraguai e do Brasil na Ponte da Amizade, entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu. A iniciativa simboliza o começo de um processo de articulação entre movimentos sociais dos países vizinhos, em defesa de soberania energética e reforma agrária.
O Congresso Unitário Político e Social (CUPS), fórum que congrega diferentes organizações sociais do Paraguai, realizará mobilizações em oito departamentos do país. No dia 26, movimentos paraguaios e brasileiros realizam ato conjunto na Ponte da Amizade.
“Historicamente temos sido objeto de apoio para o surgimento de organizações de relevância política no Paraguai, o que possibilitou, no dia 20 de abril de 2008, a derrota de uma máfia que estava no poder havia 60 anos”, sustenta o sindicalista Roberto Colman, integrante da Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética do Paraguai (CNSIE).
A pressão por reforma agrária e a defesa da soberania energética do Paraguai são os dois eixos principais da mobilização. Segundo Colman, tanto na hidrelétrica de Itaipu, em gestão com o Brasil, como em Yaciretá, que o Paraguai divide com a Argentina, há seis pontos que o país pretende negociar: a livre disponibilidade de energia ao Paraguai, preço justo pelo excedente vendido, revisão das dívidas, cogestão plena, auditorias nas entidades e conclusão de obras.
Luís Aguayo, secretário-geral da Mesa Coordenadora Nacional das Organizações Camponesas (MCNOC), afirma que existiram 13 milhões de hectares de terras irregulares no Paraguai. No entanto, a reforma agrária não avança por problemas na estrutura do Estado. “É preciso modificar esta velha estrutura, contraditória para o início da reforma agrária”, assinala.
Os movimentos prometem realizar uma troca de bandeiras na Ponte da Amizade. “Será um ato simbólico, no sentido da solidariedade entre os povos”, afirma Roberto Baggio, dirigente do MST no Paraná. A Via Campesina deve enviar representantes ao ato. Para Baggio, a articulação entre movimentos sociais dos dois países é importante para dar força às reivindicações compartilhadas pelos dois povos. “Brasileiros e paraguaios têm problemas comuns. Neste momento, a luta por reforma agrária, soberania alimentar, soberania sobre as sementes, sobre os recursos naturais e energéticos formam uma plataforma comum de lutas. As mobilizações desta semana são passos iniciais para construirmos uma pratica de solidariedade permanente entre os povos”, afirma.
Unidade
Partidos de esquerda e movimentos sociais vêm buscando espaços de unidade para promover mobilizações no Paraguai. São três eixos que orientam a atuação do Congresso Unitário Político e Social (CUPS): defesa do processo de mudança no Paraguai e do aprofundamento dos espaços democráticos; soberania nacional sobre terra, energia, alimentos e cultura; justiça social com reforma agrária e emprego.
O objetivo é recuperar o espaço perdido com a fragmentação da esquerda nas últimas eleições e construir agendas e temas comuns para pressionar o governo de Fernando Lugo a concretizar as promessas com as quais se elegeu. Para Luís Aguayos, da MCNOC, a fragmentação resultou em pouca participação das organizações sociais no Congresso Nacional. “Houve imaturidade”, avalia. “Agora estamos numa tentativa de construir espaços de unidade. Aos poucos, existem avanços”, completa.
Para Roberto Colman, falta uma proposta conjunta das forças sociais que represente uma alternativa. Ele acredita que as experiências realizadas em anos anteriores, contra as privatizações no país, estão servindo de exemplo para esta tentativa de rearticulação das forças sociais. “Ainda não estão todos os setores, mas é um início importante com articulações e diálogos entre frentes sociais e partidos progressistas importantes do país. A unidade é fundamental para o equilíbrio do poder político e para conquistarmos as grandes transformações sociais de que necessitamos”, diz.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/agencia/internacional/soberania-energetica-e-reforma-agraria-unificam-movimentos-de-brasil-e-paraguai

CARTAS PARAGUAIAS

Cartas paraguaias 5: DEFENDEMOS NOSSA SOBERANIA JUNTO COM A INTEGRAÇÃO REGIONAL

Roberto Colman

O ponto de partida de toda integração verdadeira é o reconhecimento da soberania do outro

23 março 2009

O Paraguai reivindica recuperar a soberania do país sobre seus recursos hidrelétricos para implementar uma verdadeira integração regional a nível energético. Três países da região – Argentina, Chile e Uruguai – tem problemas periódicos e crônicos de falta de energia. O próprio Brasil sofreu um “apagão” em 2001 (que provocou um prejuízo para o país de 15 bilhões de dólares, segundo cálculos do professor Ildo Sauer). O “apagão” da Argentina, em 2007, custou-lhe quatro bilhões de dólares.
O Paraguai tem grandes excedentes: 85% de toda a energia elétrica que é vendida pelos países da América do Sul tem origem no nosso país, mas não podemos exportar o que sobra por que, em Itaipu, rege a cláusula de cessão forçosa ao Brasil. Yacyretá (a outra hidrelétrica binacional, com a Argentina), por sua vez, não está interligada a Itaipu e ao mercado brasileiro.
Há muitos anos, todos os técnicos da região (brasileiros incluídos) assinalam as vantagens que os países do Cone Sul teriam caso promovessem uma forte interligação elétrica, sobretudo em matéria de segurança no abastecimento (os ciclos se compensam: quando falta energia ao norte, sobra ao sul e vice-versa, e os picos de gastos de energia são diferentes de acordo com os fusos horários mais ao leste ou oeste etc) e de preços (os países deficitários poderiam ter acesso a una energia mais barata que a térmica que hoje utilizam).
Na própria Olade (Organização Latinoamericana de Energia), os técnicos detectaram, desde o início da década de 1990, que, em nossa região, haveria grandes benefícios para todos os países se houvesse uma interconexão regional que tivesse como coluna vertebral a interligação de Yacyretá e Itaipu. Porém, os estudos técnicos, até agora, não puderam ser desenvolvidos, por conta do veto dos representantes das empresas elétricas do Brasil. Podem interesses empresariais mesquinhos se sobreporem aos da região e de nossos países?
O ponto de partida de toda integração verdadeira é o reconhecimento da soberania do outro. Do contrário, é anexação, o que todos nossos países rejeitam. Por isso, em 2005, rechaçamos juntos o tratado da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) que os Estados Unidos queriam nos impor.
Para o Paraguai, soberania nacional sobre seus recursos hidrelétricos e integração regional energética são dois componentes de um mesmo projeto. A defesa da primeira está plenamente de acordo com a defesa da segunda, e com o espírito e a letra dos tratados do Mercosul e da Unasul, onde estamos juntos com o Brasil.
Poderão os interesses dos acionistas privados das empresas elétricas brasileiras se sobreporem aos anseios de nossos povos?
Roberto Colman (rrcolmanf@yahoo.com), sindicalista e eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.


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Cartas paraguaias 4: A SOBERANIA DE CADA PAÍS SOBRE SEUS RECURSOS: UMA BANDEIRA COMUM?

O Paraguai reivindica para si em relação à sua parte da energia hidrelétrica de Itaipu

Roberto Colman

20 março 2009

São seis as principais reivindicações paraguaias em relação à Itaipu. Aqui, vamos discutir a primeira: A “livre disponibilidade” da energia que corresponde ao Paraguai, isto é, sobre 50% da energia elétrica que é produzida por Itaipu.
Dessa forma, o Paraguai reivindica para si em relação à sua parte da energia hidrelétrica de Itaipu, o mesmo que o Brasil reivindica nos fóruns internacionais em relação a seus recursos naturais e energéticos: a soberania do país. Que se trate de um recurso “compartilhado” (cada país tem direito à metade da energia hidráulica do rio) não elimina esse princípio.
Quando começaram as negociações que resultaram no Tratado de Itaipu, em 1966, os governos dos dois países através dos seus chanceleres assinaram a “Ata de Foz de Iguaçu” (22.6.1966) onde se estabeleceram dois princípios fundamentais:
- que a energia elétrica produzida “será dividida em partes iguais entre os dois países”
- que qualquer quantidade que não seja utilizado por um dos países, o outro terá “o direito de preferência para a aquisição desta mesma energia a justo preço”. (Atos, pág. 16)
Traduzindo: que a energia que o Paraguai não consumisse, o Brasil teria a “preferência” de comprar caso pagasse o “justo preço”, se não, poderia ser vendida a um terceiro comprador.
O preâmbulo do Tratado de 1973 incorporou a Ata, mas no artigo XIII, o texto fala em “direito de aquisição” da energia do outro país, o que passou a ser aplicado desde início da operação de Itaipu como que toda energia que o Paraguai não consumisse estaria obrigado a “ceder” ao Brasil recebendo em troca uma “compensão” (não “justo preço”).
Traduzindo: o Paraguai está obrigado a entregar sua energia às empresas elétricas brasileiras (antes estatais, depois privatizadas) em troca de uma “compensação” que resultou ser um valor “chutado” (nunca ninguém conseguiu justificar a fórmula e os valores resultantes), que está por debaixo dos preços do mercado elétrico brasileiro e regional e sequer cobre o valor que Médici se comprometeu com Stroessner em 1973. (Em outra Carta, vamos mostrar o tamanho do prejuízo econômico que representa para o Paraguai, comparando com o que se paga no mercado do próprio Brasil e na região...).
Nesses dias, o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão tentou desqualificar as reivindicações paraguaias, afirmando que o Paraguai entrou “apenas com água” em Itaipu (OESP, 14/03/2009). Como ele é um político que foi governista também na época da ditadura militar de Médici, não lhe faria mal lembrar que no mesmo ano de 1973 os países árabes, através da OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo) travaram uma feroz disputa com as multinacionais norte-americanas e européias que exploravam o petróleo do seu sub-solo para obter um melhor preço.
Também o argumento das “sete irmãs” (as maiores petroleiras da época) era que os países árabes não colocavam “nada, apenas o petróleo”. Pois não teria petroleiras multinacionais sem petróleo árabe, e não teria Itaipu Binacional sem as águas paraguaias. Foram as águas dos dois países que possibilitaram Itaipu.
Acompanhamos com entusiasmo a luta do governo Lula pela soberania do Brasil no seu território amazônico e sobre o petróleo do pré-sal em alto mar. E sabemos que os autênticos patriotas brasileiros também irão torcer para que esse princípio tão caro ao Brasil sobre seus recursos seja reconhecido a todos os países sobre os seus respectivos recursos, incluido ao Paraguai sobre sua energia hidrelétrica de Itaipu.
Contrariamente ao que se afirma nos meios de comunicação do Brasil, não é preciso modificar o Tratado de 1973 para que a soberania paraguaia seja reconhecida, bastaria que fosse reinterpretado (como houve outros momentos em que a “letra” do Tratado foi reinterpretada, porque as duas partes assim acharam conveniente) retomando os princípios da Ata de Foz que está incorporada no mesmo preâmbulo.
(Na próxima Carta, vamos explicar que o Paraguai propõe a recuperação de sua soberania hidrelêtrica em uma perspectiva de integração elétrica regional, onde “ganhamos todos”, também o Brasil)

Para saber mais:
Itaipu Binacional. Atos oficiais da Itaipu Binacional. Curitiba, 2005.
Roberto Colman (rrcolmanf@yahoo.com), sindicalista, eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.


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Cartas paraguaias 3: UMA USINA QUE PRIMEIRO GEROU CORRUPÇÃO

Roberto Colman

Quando se anunciou o projeto, falou-se que custaria dois bilhões de dólares. Com as obras em andamento, esses valores subiram rapidamente para sete bilhões.

16 março 2009

Itaipu esteve, desde que foi inaugurada, fora do controle dos órgãos de auditoria dos Estados brasileiro e paraguaio, amparada em seu caráter “binacional”. No Paraguai, temos provas contundentes da corrupção que houve ao longo desses 35 anos. No “lado brasileiro”, o quadro foi muito diferente?
Quando se anunciou o projeto de Itaipu, falou-se que ele custaria dois bilhões de dólares. Com as obras em andamento, esses valores subiram rapidamente para sete bilhões. No fim de sua construção, afirmava-se que seu custo final ficaria em 20 bilhões de dólares (custos financeiros incluídos). Mas, até o presente, já foram pagos 30 bilhões de dólares e, até 2023, quando a empresa prevê quitar todas suas dívidas, poderão ter sido pagos 60 bilhões de dólares.
No Paraguai, nos anos 1970 e 1980, Itaipu foi uma fonte de enriquecimento ilícito para Stroessner e seu entorno. As fortunas do ex-ditador e do general Andrés Rodríguez (seu segundo no mando, que deu o “golpe democratizador” em 1989 e foi, em seguida, presidente do país) se devem, em boa medida, à maneira como assaltaram os cofres da binacional durante sua construção. Os empresários aos quais Stroessner entregou os contratos ficaram multimilionários, e são conhecidos até hoje como “os barões de Itaipu” (um deles sucedeu Rodríguez na presidência).
Em troca dessas vantagens, o governo Stroessner fez todas as concessões exigidas pelos militares brasileiros para fazer do Paraguai uma espécie de “Porto Rico do Brasil”. O Tratado de Itaipu e, mais ainda, a forma como posteriormente foi aplicado, consolidou essa relação “neocolonial”. Isso foi denunciado na época não somente pela oposição democrática paraguaia, mas também por intelectuais brasileiros críticos da ditadura!
Conhecemos a corrupção que houve do lado paraguaio. Mas as empresas paraguaias tiveram apenas 15% das obras! Será que foi muito diferente com o 85% restante que ficou com as empresas contratadas do lado brasileiro sob o controle dos militares? Quando, no final dos anos 1970, foi denunciado pela imprensa brasileira que Itaipu tinha o metro cúbico de cimento armado mais caro do mundo, esse era o mesmo material que se usava dos dois lados da fronteira!
E a corrupção em Itaipu continuou mesmo depois do fim das ditaduras nos dois países. Ainda no início dos anos 1990, foi denunciado por funcionários do lado brasileiro o “desaparecimento” de barilhas de aço e sacas de cimento em um valor de vários milhões de dólares. O escândalo foi abafado e seus responsáveis foram protegidos já na gestão tucana de Itaipu.
Alguns dos atuais negociadores brasileiros se impuseram o objetivo de defender o “tudo o realizado nos 35 anos” e o “status quo” nas relações Brasil-Paraguai no marco de Itaipu, porque defendem que seu país continue usufruindo das vantagens conseguidas nas décadas passadas em detrimento do Paraguai.
Porém, pela primeira vez em 35 anos, um governo brasileiro se encontra diante de negociadores paraguaios que não têm “rabo preso” com os esquemas corruptos e entreguistas gestados na ditadura militar paraguaia. Assim, para que se avance nas relações bilaterais, será necessário que também os negociadores brasileiros deixem de defender a herança neocolonialista deixada pela sua ditadura militar.
(Nas próximas “ Cartas Paraguaias”, vamos apresentar e discutir as reivindicações paraguaias nas negociações bilaterais iniciadas em setembro passado).

Roberto Colman (rrcolmanf@yahoo.com), sindicalista eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.

Leia mais:

Cartas paraguaias 1: Um agradecimento e nosso projeto comum
Cartas paraguaias 2: Um Tratado de duas ditaduras
Cartas paraguaias 3: Uma usina que primeiro gerou corrupção
Cartas paraguaias 4: A soberania de cada país sobre seus recursos: uma bandeira comum?

quarta-feira, 18 de março de 2009

CARTAS PARAGUAIAS 2: UM TRATADO DE DUAS DITADURAS

Na segundo texto da série sobre Itaipu, Colman trata do clima político do Paraguai na época da assinatura do Tratado

Roberto Colman *

13 março 2009/Brasil de Fato

Ao defender o"status quo" em Itaipu, alguns porta-vozes do governo brasileiro defendem tudo o realizado nos últimos 35 anos desde a assinatura do Tratado que viabilizou essa obra. Vejamos o absurdo que isso significa para um governo democrático e popular.

O Tratado de Itaipu foi assinado pelos governos do Brasil e Paraguai em 26 de abril de 1973. Não precisamos explicar para o povo braileiro o que era o governo de Emílio Garrastazu Médici, que encabeçou o período mais repressivo da ditadura militar brasileira.

Mas pode ser esclarecedor para o leitor e leitora do Brasil saber o que estava acontecendo no Paraguai por esses anos. Nosso país vivia sob a ditadura do general Alfredo Stroessner, que tomou o poder em maio de 1954 e somente seria derrubado por um golpe militar, em 1989, liderado por generais até então seus aliados.

Durante o período que aqui estamos tratando, houve sucessivas vagas repressivas. Em 1969, atingiu a juventude que se manifestou contra a presença do enviado dos Estados Unidos, Nelson Rockefeller. Sucessivas tentativas de organizar a resistência à ditadura foram dizimadas entre 1970 e 1975. Nesse último ano, dois dos principais dirigentes comunistas foram mortos sob tortura. Em 1976, foram centenas de presos, dezenas de torturados e um total de 18 mortos (muitos camponeses assassinados diante de suas comunidades como forma de amedrontá-las).

Em 1977, foram perseguidos e presos intelectuais críticos. Desde o final dos anos 1960, houve uma série de ataques à liberdade de imprensa, com o fechamento de meios de comunicação e a imposição de censura prévia. Vários jornalistas foram presos entre 1974 e 1979. Um dos alvos prioritários da ditadura foi a Igreja: entre 1967 e 1976, um total de 17 padres católicos
foram expulsos do país.

A assinatura do Tratado de Itaipu aconteceu bem no meio desse período. No Paraguai, a juventude, os partidos de oposição à ditadura e alguns meios de comunicação questionaram seus termos. Mas não houve debate democrático, nem poderia haver nessas circunstâncias.

Depois de Stroessner, governaram o Paraguai seus "herdeiros" nos negócios e na política. Somente no passado 20 de abril, com a vitória da candidatura de Fernando Lugo, aqueles setores que resistiram à ditadura e questionaram o Tratado de Itaipu chegaram ao governo do Paraguai, vinte anos depois de iniciada a "transição democrática"!.

Em Paraguai, então, há claramente duas épocas diferentes. E, desde 15 de agosto passado, com o início do governo Lugo, começou finalmente o período democrático. Acreditamos que no Brasil também ocorre algo assim com o governo Lula em relação a seus antecessores. No entanto, alguns funcionários do governo brasileiro agem em sentido oposto e defendem "tudo o realizado
nos últimos 35 anos" em Itaipu como uma obra da "genialidade diplomática" e um exemplo de transparência e honestidade a ser seguido etc. Assim, o ministro Lobão (Minas e Energia) argumentou recentemente que não houve "ditadura militar" no Brasil, mas um "regime de exceção" e que o Tratado é um "monumento jurídico" (O Globo, 13/10/2008). Como iremos mostrar, por
detrás desse discurso em defesa do"status quo" em Itaipu estão apenas alguns grandes interesses econômicos (em geral, privados) e não o "interesse nacional brasileiro".

Creio que seria hora de também o Brasil resgatar aqueles que no seu momento questionaram a política da ditadura militar em Itaipu e continuaram defendendo as mesmas posições depois. Entre eles, tem um lugar de destaque Paulo Schilling. Somente assim, a opinião pública brasileira entenderá corretamente as reivindicações do povo paraguaio.

* Roberto Colman, sindicalista eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.

* Para saber mais sobre a ditadura de Stroessner ver, entre outros livros: "Diccionario usual del stronismo", de Alfredo Boccia Paz. Asunción: Ed. Servilibro, 2004.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/analise/cartas-paraguaias-2-um-tratado-de-duas-ditaduras

Leia mais:
Cartas paraguaias 1: Um agradecimento e nosso projeto comum
Cartas paraguaias 3: Uma usina que primeiro gerou corrupção

quarta-feira, 11 de março de 2009

Brasil e Paraguai/Cartas paraguaias 1: Um agradecimento e nosso projeto comum

A partir de hoje, o Brasil de Fato publica uma série de 15 artigos sobre o que está em jogo nas negociações em torno de Itaipu

11 março 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Roberto Colman

Escrevo, em primeiro lugar, para agradecer as mostras de carinho e solidaridade que nossa delegação recebeu por parte dos delegados e delegadas brasileiras no Fórum Social Mundial (FSM) no final de janeiro em Belém, Pará, em particular, quando nossos representantes (com o presidente Lugo à cabeça) apresentaram publicamente, em diversas conferências e oficinas, as reivindicações paraguais em relação à Itaipu. Foi uma repetição em escala muito ampliada do que já tínhamos recebido na cúpula do Mercosul em Salvador, Bahia, em dezembro passado, e ainda em outras atividades anteriores.
Essa conduta tem no Brasil um valor todo especial, porque sabemos que existe por parte de setores políticos reacionários, da mídia comercial e de grandes interesses econômicos – essa maléfica trindade que assola a democracia de nossos países – uma intensa campanha que tenta opor o “interesse nacional brasileiro” às reivindicações paraguaias em Itaipu (nós, ao contrário, defendemos uma solução onde “ganhamos todos”, tanto Paraguai como Brasil).
Valorizamos por isso, também, o gesto do presidente Lula de ter se reunido ao dia seguinte da palestra pública dos presidentes no Hangar para avançar nas negociações bilaterais com Paraguai, incluido o tema de Itaipu.
Mas justamente desse contato em Belém e dos anteriores nossos delegados e delegadas trouxeram o pedido de amigos e amigas brasileiras para aprofundar a análise e explicação do que o Paraguai questiona em Itaipu e quais são suas reivindicações
È isso que faremos nesta série de Cartas Paraguais, cuja publicação agradecemos ao Brasil de Fato e demais páginas web independentes associadas, cuja atitude atesta uma vez mais que somente nessas mídias desvinculadas dos grandes grupos econômicos há abertura para uma verdadeira discussão que nos permita chegar à verdade.
Roberto Colman é sindicalista eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenaçao Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Paraguai/Campanha pede revisão de Tratado de Itaipu

2 dezembro 2008/ADITAL http://www.adital.com.br
[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

Adital - A Frente Social e Popular (FSP) do Paraguai, que integra diversas organizações e movimentos sociais do país, está realizando a Campanha pela Soberania do Paraguai sobre seus Recursos Hidrelétricos a fim de pressionar por mudanças no Tratado de Itaipu, que criou a empresa hidrelétrica binacional dirigida pelo Brasil e pelo Paraguai.
Movimentos sociais brasileiros compartilham com essa idéia e apóiam a campanha dos paraguaios. "Essa frente está organizando a luta para recuperar a soberania e os direitos justos do povo paraguaio sobre a energia produzida em Itaipu, e que hoje serve mais aos interesses das empresas transnacionais instaladas em São Paulo. Mesmo a energia comprada pelo povo brasileiro é paga várias vezes mais alta, do que a Eletrobras paga para o governo Paraguaio", afirma o comunicado da Secretaria Operativa dos movimentos sociais brasileiros que aderiram a ALBA.
Segundo a FSP, as negociações em curso atualmente entre os governos Lula e Fernando Lugo em busca da revisão do tratado são a oportunidade de que o Brasil supere definitivamente a herança neocolonial deixada pela ditadura militar, período em que o tratado foi negociado. Os movimentos querem que o Brasil reconheça o direito paraguaio em relação a seus recursos hidrelétricos.
As esperanças pelas modificações no tratado surgiram quando da vitória de Fernando Lugo, em 20 de abril deste ano. Com a abertura de "um novo capítulo na história paraguaia", as organizações sociais esperam que as reivindicações de Lugo apresentadas a Lula, na reunião de 17 de setembro, em Brasília, sejam atendidas.
As seis reivindicações são: que o Paraguai disponha livremente de sua energia; que o país receba um preço justo pela energia que vende; Revisão da dívida Itaipu; co-gestão plena de Itaipu; implementação de mecanismos de auditoria por parte dos tribunais de conta dos dois Estados; finalização das obras inacabadas.
No documento enviado aos movimentos sociais brasileiros, a FSP esclarece o motivo da demora de 35 anos para que fossem questionadas as relações com o Brasil em Itaipu. Eles explicam que o contexto autoritário em ambos os países não permitiu que isso ocorresse. Do lado brasileiro, nenhum governo chegou a questionar o Tratado, pois ele beneficia o Brasil. Do lado paraguaio, a ditadura de Stroessner durou até 1989 e depois dele virem governos do Partido Colorado chefiados por pessoas que se enriqueceram ilicitamente com as negociatas em Itaipu.
"Essa herança maldita só pode ser interrompida com a vitória popular de 20 de abril. O novo governo paraguaio é herdeiro daquelas forças que lutaram contra a ditadura militar, seu entreguismo e corrupção e contra a assinatura do Tratado de Itaipu tal como o proposto pelas duas ditaduras. A campanha pela recuperação da soberania hidrelétrica em Itaipu não é um capricho, é o ponto alto de uma longa luta democrática no país", afirma o documento.
A Frente ressalta ainda que o governo Lula inovou em 2008, quando declarou que não há "agenda proibida" com o Paraguai, aceitando discutir as reivindicações do país vizinho. Os movimentos acrescentam que no dia 17 de setembro passado, foi formada uma comissão técnico-política com delegados dos dois países para construir um acordo. Essa comissão está em plena atividade.

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=36327

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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Paraguai/Governo de Lugo tem quase 70 por cento de aprovação

26 novembro 2008/Pátria Latina http://www.patrialatina.com.br

Assunção (Prensa Latina) O presidente paraguaio, Fernando Lugo, conta com o apoio de quase 70 por cento da população, destaca hoje uma sondagem promovida pelo cumprimento dos primeiros 100 dias de governo do ex- bispo.
Uma sondagem que difunde o jornal ABC Cor assinala que 69,6 por cento dos paraguaios aprova o mandatário, entretanto 89,2 por cento deseja que triunfe a gestão iniciada em 15 de agosto passado.
Segundo a consultora First Análise e Estudos, quase a metade dos paraguaios entrevistados reconheceu que a situação econômica é ruim, mas se mostrou otimista em que melhorará no semestre próximo.
"Queremos o entendimento da cidadania, este não é um governo que vai fazer um milagre, nem magia, vai trabalhar com patriotismo, mas dentro de um processo", sustentou Lugo recentemente.
Amanhã terça-feira, o presidente divulgará um relatório sobre a gestão destes pouco mais de três meses. A partir da data e até 1 de dezembro, os ministros também oferecerão avaliações das carteiras que dirigem. Um estudo da consultora Ati Snead, publicado pelos quotidianos La Nación e Ultima Hora, indica que o desempenho do governo foi bom ou muito bom para 46 por cento da população. Um 47 acha que é regular. Similares resultados confirma uma pesquisa da firma GEO e divulgada pelo jornal Ultima Hora.
Durante o período-reconheceu Lugo- há luzes e sombras.
"Não somos nem Messias nem Batman, mas acho que há lucros sustantivos, especialmente no campo da saúde e da administração mais transparente", destacou.
De fato, a ministra de Saúde, Esperanza Martínez, foi qualificada nas sondagens com uma gestão distinta para os primeiros 100 dias de governo, com um incremento em sua boa imagem.
"Começamos fazendo um trabalho interno dentro da casa, tomando muitas medidas e até agora tivemos bons resultados" disse hoje Martínez para a emissora 780AM.
Contam entre seus primeiros lucros a gratuidade de cirurgias de todo tipo, de cuidados intensivos e outras assistências de complexidade em todos os serviços hospitalares públicos.
O atual governo decretou a criação da Coordenadora Executiva para a Reforma Agrária, em resposta às reclamações camponesas; e realizou mudanças nas chefias da milícia e a Polícia Nacional.
Junto às autoridades brasileiras, conseguiu a criação de uma comissão para atender as reclamações do Paraguai na hidrelétrica Itaipu.
No entanto, "a substituição do neoliberalismo por um novo modelo está cheio de obstáculos de todo tipo", adverte o chefe de Estado.
"Assim, não é nada fácil conseguir que a estrutura agrária seja menos injusta, que o latifúndio e a monocultura dêem lugar à agricultura familiar diversificada e ecológica. Não é nada fácil destruir as máfias da droga, do contrabando, da pirataria industrial, do tráfico de pessoas, da lavagem de dinheiro", apontou.

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=0e900ad84f63618452210ab8baae0218&cod=2672

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Brasil/Lula da Silva e Fernando Lugo, sem acordo sobre Itaipu, decidem criar comissão para analisar a questão

Brasília, 18 setembro 2008 (Lusa) - Os Presidentes brasileiro e paraguaio terminaram hoje sem acordo uma reunião de mais de duas horas em Brasília sobre a polémica em torno da hidroeléctrica de Itaipu, mas decidiram criar uma comissão para analisar a questão.

Lula da Silva e Fernando Lugo querem alternativas que respondam aos interesses dos dois países em relação à tarifa paga pelo Brasil ao Paraguai pela energia da hidroeléctrica binacional.

Em conferência de imprensa, após o encontro presidencial no Palácio do Planalto, os ministros das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, e do Paraguai, Alejandro Hamed Franco, informaram que a comissão será formada dentro de dez dias.

"Todos conhecem as posições dos dois governos e não houve hoje nenhuma mudança de posição. Vamos esperar as ideias que vão aparecer na mesa das negociações. Não é um jogo de um ganhou e outro perdeu. É um jogo em que os dois têm que ganhar", afirmou Amorim.

"Queremos que Brasil e Paraguai se sintam compensados pela riqueza gerada por Itaipu", acrescentou o ministro, destacando que a discussão sobre a hidroeléctrica não estará limitada aos números.

Por seu turno, Hamed Franco disse que o Presidente Lugo notou uma "ampla vontade de entendimento" por parte do governo brasileiro, mas destacou a urgência do Paraguai em resolver a questão.

Segundo o Tratado de Itaipu, firmado em 1973 e cuja revisão apenas deveria ocorrer em 2023, a energia gerada pela hidroeléctrica é dividida igualmente entre Brasil e Paraguai.

Como o Paraguai utiliza apenas cinco por cento da energia produzida, que é suficiente para responder a quase toda a sua procura, os 45 por cento restantes são vendidos ao Brasil.

Actualmente, o Brasil paga ao país vizinho 45,3 dólares por megawatt de energia, mas 42,5 dólares são abatidos na dívida que o Paraguai tem pela construção da hidroeléctrica.

O Paraguai recebe, portanto, 2,81 dólares por megawatt vendido e é esta parcela que o governo paraguaio quer ver revista.

No total, o Brasil paga por esse excedente 1.500 milhões de dólares (1.000 milhões de euros) ao ano, mas o Paraguai fica com cerca de 300 milhões de euros, já que mais de 700 milhões de euros destinam-se ao pagamento de dívidas do financiamento da obra da hidroeléctrica.

O reajuste da tarifa paga pelo Brasil pela parte paraguaia da energia de Itaipu foi uma das principais bandeiras da campanha presidencial de Fernando Lugo.

Além da possibilidade de revisão do Tratado de Itaipu, Lugo e Lula da Silva discutiram a abertura de linhas de crédito por instituições brasileiras para financiar a construção de infra-estruturas no Paraguai, como pontes, estradas e uma linha de transmissão de Itaipu a Assunção.

PARAGUAI - OS DIFÍCEIS DESAFIOS DO PRESIDENTE LUGO

Grupo São Paulo *

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
17 setembro 2008/ Adital www.adital.com.br

A vitória de Fernando Lugo é, sem dúvida, um marco histórico para o pequeno e esperançoso Paraguai. Ela acaba com seis décadas consecutivas de dominação do Partido Colorado, no poder desde 1947. Quando Lugo tomou posse no palácio presidencial de Assunção - o Mburuvicha Roga, "casa do chefe" na língua dos guaranis - foi a primeira vez na história do país em que ocorreu a transferência de governo de um partido a outro resultante de eleições livres, não fraudulentas e sem a ocorrência de golpe de Estado ou revolução.

San Pedro del Paraná, o distrito de onde o novo presidente é natural, e do qual foi bispo, é uma das regiões mais pobres do Paraguai, marcada pelo grande número de conflitos entre trabalhadores rurais sem terra, em sua maioria indígenas, e o latifúndio. Lá, Fernando Lugo projetou-se como bispo progressista, ligado à Teologia da Libertação. Destacou-se por entrar em choque com as oligarquias locais, com os conservadores da Igreja Católica, ganhou a confiança dos camponeses e o apoio da população indígena de todo o país.

Em 2006, Dom Lugo liderou um movimento contra a violação da Constituição pelo presidente da República e pela Corte Suprema de Justiça que o apoiava. O movimento reuniu 40 mil pessoas. O bispo lançou o desafio de unificar todas as oposições em uma única candidatura para enfrentar os colorados e afastá-los do poder. A opinião pública o apontou como única pessoa capaz de concretizar essa empreitada.

Como a Constituição paraguaia não permite que pessoas com cargos religiosos sejam candidatos, um abaixo-assinado, com 100 mil nomes, pediu que ele renunciasse a sua condição de bispo e fosse o candidato de uma aliança eleitoral que reuniu nove partidos de oposição, além de entidades da sociedade civil. Dom Lugo solicitou seu desligamento à Igreja, mas, como ele mesmo fala, continua um homem de fé.

Lugo lançou-se candidato da coligação Tekojoja, que significa "viver entre iguais" em guarani. Foi eleito presidente do Paraguai pela coalizão La Alianza Patriótica Para el Cambio (APC). Ela tem como força principal o segundo maior partido tradicional, o Partido Liberal Radical Auténtico (PLRA), que indicou o candidato a vice-presidente. As duas principais bandeiras de campanha da coligação foram a reforma agrária ampla e a soberania energética, renegociando o preço da energia de Itaipu com o Brasil e de Yacyretá com a Argentina. O PLRA as aceitou como única forma de derrotar o Partido Colorado, mas estas não são bandeiras históricas desse partido, composto por muitos fazendeiros.

A vitória de Lugo expressa o desejo de mudança e é carregada de muita esperança, porém o novo presidente deverá governar em circunstâncias bastante difíceis. Do total de parlamentares eleitos pela APC, 5% são de esquerda e o restante do PLRA; portanto, a maior parte de seus aliados eleitos é conservadora. Para compor uma maioria no Legislativo, terá de buscar alianças com parlamentares ligados aos dissidentes do Partido Colorado. Além disso, o Judiciário é controlado pelo presidente desse partido.

O Paraguai está perdendo seu perfil rural. A proporção populacional, que já foi de 70% no campo e 30% na cidade, mudou bastante, está quase 50% no campo e 50% na cidade. O país sofre com o agravamento dos problemas urbanos como a falta de emprego, marginalidade, perda do sentido da ética etc. Essa é mais uma razão que sustenta a importância da reforma agrária.

Itaipu fornece um quinto da energia elétrica consumida pelo Brasil e tem papel crucial no centro-sul do nosso país. Segundo o intelectual paraguaio Juan Díaz Bordenave, o tratado da Usina de Itaipu, assinado em 1973, foi firmado entre ditadores que sabiam exatamente que o Paraguai ficaria em desvantagem. Eles, porém, tiveram as vantagens: os "homens de Itaipu" tornaram-se, em pouco tempo, os mais ricos do Paraguai. Os negociadores sabiam que a única parte que podia ter excedente em Itaipu era o Paraguai. Até terminar de pagar a dívida, em 2022, o Brasil iria ter, a preço de custo, a energia que o Paraguai não utilizaria. Para o Paraguai utilizar a energia que por imposição do tratado hoje vende ao Brasil, precisa construir linhas de transmissão e ainda desenvolver um parque industrial que utilize a energia. Para isso é necessário dinheiro, o dinheiro que virá se o Brasil pagar ao Paraguai o preço de mercado da energia, não o de custo. "A visão do Brasil como um grande imperialista é inevitável para qualquer paraguaio", completa Bordenave.

Outro desafio importante será colocar o Paraguai presente no cenário regional de integração no Mercosul. O país necessita implantar políticas que superem as assimetrias entre os parceiros, principalmente quanto aos dois grandes, Brasil e Argentina. Para o engenheiro agrônomo paraguaio Henrique Rodriguez (representante da FAO no Paraguai), "a proposta do Mercosul de que todos os seus Estados produzam os produtos considerados ‘rentáveis’ para o bloco é absurda. Não se pode usar toda a terra do Paraguai para plantar cana-de-açúcar para o etanol, que muito interessa ao Brasil. Nem para plantar soja, como interessa à Argentina. Podemos plantar isso, sim, em regiões delimitadas. O Mercosul deveria aproveitar do Paraguai o que ele tem de melhor, suas condições climáticas e geográficas ‘únicas’ para a produção de orgânicos. É preciso que o Mercosul exija do Paraguai algo que podemos oferecer e viabilize o mercado para vendermos a produção".

Mais um desafio do novo governo será favorecer os setores da economia popular, como os camponeses e pequenos produtores, frente à ação predatória dos grandes capitais, e recuperar a soberania sobre os recursos naturais. O governo de Lugo será acompanhado de perto por seus vizinhos e pelos EUA porque, além de grande produtor de energia, o país está no centro do Aqüífero Guarani, uma reserva de água doce, sob quatro países, que supera em tamanho a Espanha, Portugal e França juntos. Se é verdade que as guerras do futuro serão pela água e não pelo petróleo, está claro que o Paraguai é um alvo estratégico único. Não é sem motivo que em 2005 os EUA conseguiram que o governo de Assunção autorizasse o uso de suas bases aéreas e concedesse "imunidade" para os militares americanos que precisassem atuar na região.

Na parede da sala da modesta casa de Fernando Lugo, que tem apenas um quarto, um pequeno depósito, cozinha e um estúdio no andar de cima, existe um quadro que traz os dizeres "o mundo está nas mãos daqueles que têm coragem de sonhar e correr o risco de viver seus sonhos". Desejamos que o presidente Fernando Lugo consiga fazer o Paraguai viver seu sonho de mudança.

[Elisa Helena Rocha de Carvalho, Alejandro Buenrostro y Arellano, Andrea Paes Alberico, Guga Dorea e José Juliano de Carvalho Filho, do Grupo de São Paulo - um grupo de 10 pessoas que se revezam na redação e revisão coletiva dos artigos de análise de Contexto Internacional do Boletim Rede, editado pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, de Petrópolis, RJ].

* gruposp@correiocidadania.com.br

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=35066

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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Presidente do Paraguai toma posse esta semana com intenção de revisar tarifas de Itaipu


Sabrina Craide, repórter

10 agosto 2008/Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br

Brasília - A revisão do preço pago pelo Brasil ao Paraguai pela energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu deverá ser discutida entre os presidentes dos dois países na próxima semana. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve participar da cerimônia de posse do presidente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, marcada para sexta-feira (15).

A alteração do Tratado de Itaipu foi um dos principais temas de campanha de Lugo. Para ele, o preço negociado deve levar em conta os valores praticados no mercado. O Brasil paga atualmente US$ 45,31 pelo megawatt-hora de Itaipu ao Paraguai.

Pelo Tratado de Itaipu, cada um dos dois países tem direito a usar 50% da energia gerada pela usina, mas como a demanda do Paraguai é menor (apenas 5% do que teria direito), o país vende o restante ao Brasil. A usina tem 14 mil megawatts de potência instalada e atende a 19% da energia consumida no Brasil e a 91% do consumo paraguaio.

Recentemente, em entrevista à BBC Brasil, Lugo disse que pretende esgotar todas as instâncias de diálogo com o Brasil. Segundo ele, o governo paraguaio já apresentou suas reclamações a técnicos e assessores de política internacional do Brasil. Em maio, Lula se reuniu com Lugo no Paraguai, mas, oficialmente, a revisão das tarifas não foi tratada no encontro.

No Brasil, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, já afirmou que o preço pago pela energia é justo, e que o governo brasileiro não cogita alterar o Tratado de Itaipu. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que existe boa vontade do Brasil em conversar com o Paraguai.

O ex-bispo Fernando Lugo foi eleito presidente do Paraguai em abril, com 40,8% dos votos. O candidato da Aliança Patriótica para a Mudança derrotou o Partido Colorado, que estava no comando do governo paraguaio há 61 anos.

Além de Lula, devem comparecer à posse de Lugo mais dez presidentes, cinco vice-presidentes, além do príncipes da Espanha e 90 delegações oficiais.

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/08/10/materia.2008-08-10.9984007816/view

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terça-feira, 1 de julho de 2008

CÚPULA DOS POVOS DO SUL: DECLARAÇÃO DE POSADAS *

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina www.adital.com.br


30 junho 2008


"Por um Modelo produtivo que garanta a Soberania Alimentar dos Povos"


* DECLARAÇÃO DE POSADAS - MISIONES

Desde a Cúpula dos Povos do Sul "Por um modelo produtivo que garanta a Soberania Alimentar dos Povos" reunida em Posadas - Misiones, República Argentina, nos dias 27 a 29 de Junho de 2008, ratificamos firmemente nossa convicção e aposta política na integração dos Povos da América, como meio para aprofundar a democracia e mudar o modelo de desenvolvimento para tornar possível a verdadeira realização dos direitos humanos em sua integralidade.

O modelo de desenvolvimento que as políticas neoliberais têm implementado na região continua promovendo a degradação ambiental, o aprofundamento da exclusão social, o desalojo dos camponeses e dos povos originários de suas terras, com a contrapartida da estrangeirização dos territórios e das desigualdades em nossos países.

A expansão dos monocultivos (soja, eucaliptus, pinos e cana-de-açúcar) promove a exploração não sustentável que acelera a destruição massiva da natureza, a mudança climática e o risco de catástrofes naturais. O auge dos agrocombustíveis que agora se fomenta para sustentar o padrão de consumo dos países industrializados aprofundará essas conseqüências devastadoras para o meio ambiente e para nossos povos.

Em contrapartida, defendemos a soberania alimentar, cujos princípios articulam políticas de autonomia produtiva com base nas necessidades dos povos e não vinculadas às demandas do mercado mundial. É urgente implementar reformas agrárias integrais baseadas nos princípios da soberania alimentar e territorial dos povos camponeses e indígenas.

Nos opomos à construção de mais represas na região (Corpus, Garabí, Santo Antônio e Jirau-Rio Madeira, Belo Monte, entre outras) muitas delas incluídas na Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional da América do Sul (IIRSA), destinadas fundamentalmente a reforçar o modelo exportador de recursos naturais, gerando nova dívida social e ecológica. Apoiamos a apresentação das Medidas Cautelares apresentadas a OEA pelos atingidos pela construção das grandes represas (Yaciretá e Belo Monte) pelas violações a seus Direitos Humanos. O processo de integração energética em curso deve ser desenvolvido a partir da recuperação da soberania sobre os recursos energéticos da região. Esse processo deve basear-se no fortalecimento das empresas estatais de energia, na nacionalização dos recursos estratégicos e na utilização da renda assim conseguida na construção de um desenvolvimento sustentável com políticas de redistribuição do ingresso e a construção de novas matrizes a partir de fontes renováveis de energia, onde a prioridade seja garantir o acesso digno de todos os habitantes do continente aos bens energéticos.

Demandamos a urgente renegociação dos Tratados de Itaipu e Yacyretá com o fim de estabelecer um preço justo pela energia paga ao Paraguai. É necessária também uma auditoria da dívida resultante dos injustos termos dos tratados assinados pelos governos ditatoriais do Paraguai, do Brasil e da Argentina.

Consideramos que o Banco do Sul representa uma oportunidade de mudança na lógica econômica atual. Exigimos que os governos garantam o acesso público à informação e à participação social nas decisões do Banco. Nesse sentido, assumimos a partir dos movimentos e organizações sociais o desafio e a tarefa de fazer com que essa ferramenta esteja ao serviço sas necessidades dos homens e mulheres de nossos povos.

Expressamos nosso apoio ao processo de Auditoria Integral do Crédito Público, iniciado no Equador e manifestamos nossa expectativa de que contribua para conseguir realizar a justiça para os povos e para o fim da dominação e do saqueio instrumentado através da dívida. Ao mesmo tempo que vemos com beneplácito a intenção política da Bolívia e da Venezuela de retirar-se do CIADI e solicitamos aos países do Mercosul que participam do mesmo, que sigam esse exemplo.

A integração dos povos implica, para nós, considerar as diferenças entre os mesmos como uma expressão da diversidade cultural, e também um desafio para que, através da complementaridade e da solidariedade mútua, sejam conquistadas melhores condições de vida para todos. a para todos. O combate às assimetrias não pode esgotar-se em medidas compensatórias e desarticuladas, mas deve contribuir para resolver os problemas estruturais que impedem a autonomia e o bem-estar de nossos povos.

Também, é urgente implementar políticas de Estado que levem à proteção das comunidades e das estruturas políticas locais da ofensiva dos grandes interesses econômicos nacionais e transnacionais que, através da corrupção, influem no rumo dos governos e das políticas públicas em favor próprio.

Uma vez mais rechaçamos todas as formas de discriminação baseadas no gênero, raças e etnias, na orientação sexual, nas crenças ou religiões, nas ideologias, na origem, ou em qualquer outra distinção que menospreze os direitos das pessoas e limite o exercício da cidadania.

A integração que queremos requer a inclusão da diversidade dos sujeitos sociais e culturais baseada no reconhecimento dos territórios dos povos e nações indígenas, que, inclusive, muitas vezes ultrapassam as fronteiras dos Estados nacionais.

As instituições do Mercosul devem garantir a transparência e o acesso às informações substanciais das negociações e devem incluir mecanismos que viabilizem o diálogo e a interação entre povos e governos, estimulando formas de democracia participativa e de controle social.

Exigimos que os presidentes do Mercosul se pronunciem urgentemente sobre a vergonhosa Diretiva de Retorno recentemente aprovada pela União Européia, que implica uma flagrante violação aos direitos humanos e a todas as normas internacionais que os protegem, pois permite a detenção dos migrantes sem documentos por até 18 meses e sua expatriação, bem como a de sua família, incluindo as crianças menores de idade.

Todas as pessoas devem ter garantido o direito a migrar e a gozar de todos seus direitos no país de destino (particularmente, seus direitos sociais e trabalhistas). Porém, defendemos também o direito que todas as pessoas têm de não migrar, de poder ficar em sua terra, em sua comunidade e não ver-se empurrado a emigrar por motivos econômicos ou políticos. A garantia desse direito de não migrar está dada pela transformação do modelo produtivo que caminhe para o fim da fome e da pobreza e para a soberania alimentar.

No marco da necessária democratização da justiça em nossos países, os países, defendemos uma ampla política de acesso a uma justiça independente dos demais poderes e da influência dos interesses econômicos.

Denunciamos o avanço da criminalização do protesto social na região, estimulada pelas chamadas leis anti-terroristas promovidas pela administração Bush e implementadas por diversos governos da região. Pedimos a derrogação urgente dessas leis e o fim da criminalização dos líderes sociais do campo e da cidade perseguidos e processados -particularmente nessa região, a muitos dos que resistem ao avanço das represas, como os moradores do Bairro El Brete, aqui em Posadas, Misiones.

É urgente, também, o fim do processo e a libertação dos seis cidadãos paraguaios detidos na Argentina, por tratar-se de uma perseguição política e uma violação dos direitos humanos fundamentais, solicitando o respeito aos acordos referentes ao asilo político. Pedimos justiça e castigo aos responsáveis pelos assassinatos de Carlos Fuentealba, Maximiliano Kosteski e Darío Santillán. Exigimos o aparecimento com vida de Julio López. Os presidentes do Mercosul devem empenhar de maniera especial para resolver essa situação.

Rechaçamos o reinício da operação da IV Frota dos estados Unidos nas águas do Caribe e do Atlântico Sul com o objetivo de manter o controle militar sobre a região, atualizando velhas práticas imperialistas sobre a América Latina. Exigimos também o fim dos exercícios militares conjuntos e a presença da marinha estadunidense no Paraguai.

Demandamos dos governos da região o imediato retiro das tropas do Haiti e da Minustah (Missão Militar da ONU) em seu conjunto.

As organizações e movimentos sociais dos países do Mercosul, reunidos em Posadas, ratificamos nossa vontade de continuar impulsionando uma verdadeira integração que permita construir a soberania a partir e para os povos do Sul.

No marco de aprofundamento da democracia na região, exigimos o rápido avanço do julgamento e da condenação aos genocidas das ditaduras militares. E, particularmente, pedimos justiça no processo aos assassinos de Alfredo González, Decano da faculdade de Ciências Exatas da UNAM, brutalmente torturado e assassinado pelo regime militar argentino, e dedicamos essa Cúpula a sua memória.

Posadas, Argentina, 29 de junho de 2006

Mais informação em: http://movimientos.org/cpsur

[Tradução: ADITAL]

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domingo, 27 de abril de 2008

A VITÓRIA DE LUGO E SEUS REFLEXOS NO BRASIL


Para Ricardo Canese, um dos principais assessores do novo presidente paraguaio, Fernando Lugo, a capacidade de produção de energia do seu país é o único fator que pode destravar o desenvolvimento e garantir maior justiça social.
Altamiro Borges

21 abril 2008 / Carta Maior http://www.cartamaior.com.br/

Num clima de euforia, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas centrais de Assunção na noite deste domingo (20) para comemorar o anúncio oficial, divulgado pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE), da vitória do ex-bispo católico Fernando Lugo no pleito presidencial do Paraguai.
A festa popular, carregada de esperança, marca uma virada histórica neste sofrido país, encerrando seis décadas de domínio do direitista Partido Colorado, e confirma a inédita guinada à esquerda do tabuleiro político na América Latina - tão temida pelo imperialismo estadunidense e pelas forças oligárquicas da região e incompreendida por alguns setores esquerdistas sectários.
Segundo várias agências de notícias, a multidão em êxtase ocupou a frente do comitê da Aliança Patriótica para a Mudança quando a apuração apontou a ampliação da vantagem de Lugo sobre a colorada Blanca Ovelar. Ninguém parecia acreditar no resultado, já que pairavam dúvidas sobre o risco de fraudes eleitorais.
Cauteloso, o novo presidente anunciou: "Quando a Justiça ratificar o resultado, estaremos abertos para construir a integração real do continente". O dia do candidato foi emblemático do seu perfil progressista, de adepto da Teologia da Libertação. Ele foi votar, às 7h12, de braços dados com a argentina Hebe de Bonafini, legendária líder das Mães da Praça de Maio. Depois, ao lado do amigo brasileiro Frei Betto, Lugo rezou na paróquia São João Batista.
Intrigas da mídia venal
A vitória do "bispo dos pobres", como ele é chamado por seu trabalho junto aos sem-terra de San Pedro, uma das regiões mais miseráveis do país, enche de esperanças o povo paraguaio, reforça o processo de integração progressista do continente e desperta preocupação no Brasil.
Envenenado pela mídia hegemônica, há quem tema a eclosão de conflitos com a nação vizinha em função da energia hidrelétrica de Itaipu e da presença de milhares de fazendeiros brasileiros na agricultura paraguaia. De fato, estes temas foram centrais na campanha eleitoral, com todos os candidatos - e não apenas Lugo - defendendo mudanças, principalmente nas cláusulas do Tratado de Itaipu.
Mas o que realmente pode mudar nas relações entre Brasil e Paraguai? Quais serão os reflexos da histórica vitória de Fernando Lugo? Para entender melhor o que está em jogo, sem se contaminar com as intrigas da mídia venal, torna-se indispensável a leitura do livro recém-lançado O Direito do Paraguai à Soberania, organizado por Gustavo Codas (editora Expressão Popular).
Ele reúne três artigos que ajudam a explicar o surpreendente apoio ao teólogo da libertação, as propostas da sua organização eleitoral, batizada em guarani de Tekojoja (que significa "viver entre iguais") e as reais polêmicas em torno do inflamável Tratado de Itaipu - o foco principal da obra.
Dívidas do capitalismo brasileiro
Já na abertura, o paraguaio Gustavo Codas, que se exilou no Brasil durante a ditadura de Alfredo Strossner e milita na CUT, explícita que a vitória de Lugo deve, de fato, afetar a agenda externa brasileira. "O país sofre uma pesada herança da qual o Brasil é, em grande parte, responsável. O Paraguai foi castigado, primeiro, pelas conseqüências duradouras da guerra de extermínio que Brasil, Argentina e Uruguai lhe fizeram nos anos de 1864-1870, e, na segunda metade do século 20, pelo fortalecimento de um modelo capitalista mafioso vinculado à burguesia brasileira em todo tipo de negócios ilícitos - narcotráfico, lavagem de dinheiro, contrabando, etc.".
Para ele, três temas deverão pautar uma nova relação, mais justa e soberana, entre os dois países. "Primeiro, a renegociação do Tratado de Itaipu. Segundo, os resultados da invasão de boa parte do território oriental paraguaio por latifundiários brasileiros produtores de soja (iniciado nos anos 70). Terceiro, a integração ao Mercosul com uma verdadeira compensação das assimetrias deste pequeno e pobre país em relação aos dois maiores sócios deste projeto - Brasil e Argentina".
O livro, como explica Codas, tem como objetivo reforçar na esquerda brasileira "o compromisso com um internacionalismo que, para além dos discursos de solidariedade, deve ser transformar em passos concretos reparando as dívidas deixadas pelo capitalismo brasileiro no Paraguai".
O programa do Movimento Tekojoja
Neste rumo, os três textos dão importante contribuição ao debate. O primeiro, de Richard Gott, membro honorário do Instituto de Estudo das Américas da Universidade de Londres, apresenta detalhada biografia do "bispo vermelho do Paraguai". O segundo traz o resumo do programa do Movimento Popular Tekojoja, que está centrado na luta pela "revolução agrária", na estratégica "soberania energética", na "planificação pró-ativa do desenvolvimento nacional", no "trabalho produtivo e digno para todos", na "universalização da seguridade social", na "integração regional solidária", entre outros itens. É um programa reformista, desenvolvimentista, mas que se inspira nos "princípios libertários que alentaram a luta patriótica do nosso povo e nos ideais socialistas". O texto mais longo, instigante e de interesse imediato para os brasileiros é do engenheiro Ricardo Canese, um dos principais assessores do novo presidente. Ele trata da "recuperação da soberania hidrelétrica do Paraguai". Com inúmeros dados técnicos, o autor argumenta que a capacidade de produção de energia do seu país é o único fator que pode destravar o desenvolvimento e garantir maior justiça social. Para ele, a vitória de Lugo reascenderá este debate estratégico, abandonado pela oligarquia paraguaia que "trocou de forma perversa a soberania hidrelétrica por concessões e apoios políticos fornecidos pelas elites dominantes dos nossos vizinhos mais poderosos", a exemplo do que ocorreu com o canal da Panamá e com as reservas de gás e petróleo da Bolívia.
Os tratados de Itaipu e Yacyretá
Apesar de posições estranhas, como a que renega as experiências socialistas, a que reforça a tese do subimperialismo - "sofremos mais a conseqüência de depender das submetrópoles (Brasília e Buenos Aires) que do próprio império" - e a que afirma que não há alternativas ao capitalismo, Canese apresenta dados sólidos sobre o "roubo" da energia hidrelétrica do Paraguai. Revela que os preços fixados pelo Tratado de Itaipu estão bem abaixo do mercado, que os juros da obra são escorchantes e eternizam a dívida externa e que as regras de comercialização são draconianas. O Paraguai consome apenas 12% da energia gerada em Itaipu, mas é obrigado a vender o restante para o Brasil. Acordo similar foi feito com a Argentina na exploração da energia de Yacyretá.
Canese estima que o país perca US$ 3,645 bilhões ao ano em decorrência desses tratados lesivos. Para ele, a renegociação dos acordos com o Brasil e a Argentina é o único caminho para a nação poder alavancar o desenvolvimento e investir em programas sociais que superem a brutal miséria do país. "O Paraguai é um país hidrelétrico. É o único país da região com genuínos excedentes... Com um PIB da ordem de US$ 7,5 bilhões, possui uma riqueza hidrelétrica que vale 50% do seu PIB. Conseqüentemente, não há nada mais importante do que recuperar a soberania sobre essa valiosa riqueza natural".
As propostas que formula, que serviram de base ao programa de Lugo, não pregam o rompimento dos acordos - como insinua a mídia. Mas procuram garantir preços justos, redução dos juros e novas regras. Defendem nada mais do que a soberania do Paraguai.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e organizador do livro “Para entender e combater a Alca” (Editora Anita Garibaldi, 2002).