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domingo, 27 de abril de 2008

A VITÓRIA DE LUGO E SEUS REFLEXOS NO BRASIL


Para Ricardo Canese, um dos principais assessores do novo presidente paraguaio, Fernando Lugo, a capacidade de produção de energia do seu país é o único fator que pode destravar o desenvolvimento e garantir maior justiça social.
Altamiro Borges

21 abril 2008 / Carta Maior http://www.cartamaior.com.br/

Num clima de euforia, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas centrais de Assunção na noite deste domingo (20) para comemorar o anúncio oficial, divulgado pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE), da vitória do ex-bispo católico Fernando Lugo no pleito presidencial do Paraguai.
A festa popular, carregada de esperança, marca uma virada histórica neste sofrido país, encerrando seis décadas de domínio do direitista Partido Colorado, e confirma a inédita guinada à esquerda do tabuleiro político na América Latina - tão temida pelo imperialismo estadunidense e pelas forças oligárquicas da região e incompreendida por alguns setores esquerdistas sectários.
Segundo várias agências de notícias, a multidão em êxtase ocupou a frente do comitê da Aliança Patriótica para a Mudança quando a apuração apontou a ampliação da vantagem de Lugo sobre a colorada Blanca Ovelar. Ninguém parecia acreditar no resultado, já que pairavam dúvidas sobre o risco de fraudes eleitorais.
Cauteloso, o novo presidente anunciou: "Quando a Justiça ratificar o resultado, estaremos abertos para construir a integração real do continente". O dia do candidato foi emblemático do seu perfil progressista, de adepto da Teologia da Libertação. Ele foi votar, às 7h12, de braços dados com a argentina Hebe de Bonafini, legendária líder das Mães da Praça de Maio. Depois, ao lado do amigo brasileiro Frei Betto, Lugo rezou na paróquia São João Batista.
Intrigas da mídia venal
A vitória do "bispo dos pobres", como ele é chamado por seu trabalho junto aos sem-terra de San Pedro, uma das regiões mais miseráveis do país, enche de esperanças o povo paraguaio, reforça o processo de integração progressista do continente e desperta preocupação no Brasil.
Envenenado pela mídia hegemônica, há quem tema a eclosão de conflitos com a nação vizinha em função da energia hidrelétrica de Itaipu e da presença de milhares de fazendeiros brasileiros na agricultura paraguaia. De fato, estes temas foram centrais na campanha eleitoral, com todos os candidatos - e não apenas Lugo - defendendo mudanças, principalmente nas cláusulas do Tratado de Itaipu.
Mas o que realmente pode mudar nas relações entre Brasil e Paraguai? Quais serão os reflexos da histórica vitória de Fernando Lugo? Para entender melhor o que está em jogo, sem se contaminar com as intrigas da mídia venal, torna-se indispensável a leitura do livro recém-lançado O Direito do Paraguai à Soberania, organizado por Gustavo Codas (editora Expressão Popular).
Ele reúne três artigos que ajudam a explicar o surpreendente apoio ao teólogo da libertação, as propostas da sua organização eleitoral, batizada em guarani de Tekojoja (que significa "viver entre iguais") e as reais polêmicas em torno do inflamável Tratado de Itaipu - o foco principal da obra.
Dívidas do capitalismo brasileiro
Já na abertura, o paraguaio Gustavo Codas, que se exilou no Brasil durante a ditadura de Alfredo Strossner e milita na CUT, explícita que a vitória de Lugo deve, de fato, afetar a agenda externa brasileira. "O país sofre uma pesada herança da qual o Brasil é, em grande parte, responsável. O Paraguai foi castigado, primeiro, pelas conseqüências duradouras da guerra de extermínio que Brasil, Argentina e Uruguai lhe fizeram nos anos de 1864-1870, e, na segunda metade do século 20, pelo fortalecimento de um modelo capitalista mafioso vinculado à burguesia brasileira em todo tipo de negócios ilícitos - narcotráfico, lavagem de dinheiro, contrabando, etc.".
Para ele, três temas deverão pautar uma nova relação, mais justa e soberana, entre os dois países. "Primeiro, a renegociação do Tratado de Itaipu. Segundo, os resultados da invasão de boa parte do território oriental paraguaio por latifundiários brasileiros produtores de soja (iniciado nos anos 70). Terceiro, a integração ao Mercosul com uma verdadeira compensação das assimetrias deste pequeno e pobre país em relação aos dois maiores sócios deste projeto - Brasil e Argentina".
O livro, como explica Codas, tem como objetivo reforçar na esquerda brasileira "o compromisso com um internacionalismo que, para além dos discursos de solidariedade, deve ser transformar em passos concretos reparando as dívidas deixadas pelo capitalismo brasileiro no Paraguai".
O programa do Movimento Tekojoja
Neste rumo, os três textos dão importante contribuição ao debate. O primeiro, de Richard Gott, membro honorário do Instituto de Estudo das Américas da Universidade de Londres, apresenta detalhada biografia do "bispo vermelho do Paraguai". O segundo traz o resumo do programa do Movimento Popular Tekojoja, que está centrado na luta pela "revolução agrária", na estratégica "soberania energética", na "planificação pró-ativa do desenvolvimento nacional", no "trabalho produtivo e digno para todos", na "universalização da seguridade social", na "integração regional solidária", entre outros itens. É um programa reformista, desenvolvimentista, mas que se inspira nos "princípios libertários que alentaram a luta patriótica do nosso povo e nos ideais socialistas". O texto mais longo, instigante e de interesse imediato para os brasileiros é do engenheiro Ricardo Canese, um dos principais assessores do novo presidente. Ele trata da "recuperação da soberania hidrelétrica do Paraguai". Com inúmeros dados técnicos, o autor argumenta que a capacidade de produção de energia do seu país é o único fator que pode destravar o desenvolvimento e garantir maior justiça social. Para ele, a vitória de Lugo reascenderá este debate estratégico, abandonado pela oligarquia paraguaia que "trocou de forma perversa a soberania hidrelétrica por concessões e apoios políticos fornecidos pelas elites dominantes dos nossos vizinhos mais poderosos", a exemplo do que ocorreu com o canal da Panamá e com as reservas de gás e petróleo da Bolívia.
Os tratados de Itaipu e Yacyretá
Apesar de posições estranhas, como a que renega as experiências socialistas, a que reforça a tese do subimperialismo - "sofremos mais a conseqüência de depender das submetrópoles (Brasília e Buenos Aires) que do próprio império" - e a que afirma que não há alternativas ao capitalismo, Canese apresenta dados sólidos sobre o "roubo" da energia hidrelétrica do Paraguai. Revela que os preços fixados pelo Tratado de Itaipu estão bem abaixo do mercado, que os juros da obra são escorchantes e eternizam a dívida externa e que as regras de comercialização são draconianas. O Paraguai consome apenas 12% da energia gerada em Itaipu, mas é obrigado a vender o restante para o Brasil. Acordo similar foi feito com a Argentina na exploração da energia de Yacyretá.
Canese estima que o país perca US$ 3,645 bilhões ao ano em decorrência desses tratados lesivos. Para ele, a renegociação dos acordos com o Brasil e a Argentina é o único caminho para a nação poder alavancar o desenvolvimento e investir em programas sociais que superem a brutal miséria do país. "O Paraguai é um país hidrelétrico. É o único país da região com genuínos excedentes... Com um PIB da ordem de US$ 7,5 bilhões, possui uma riqueza hidrelétrica que vale 50% do seu PIB. Conseqüentemente, não há nada mais importante do que recuperar a soberania sobre essa valiosa riqueza natural".
As propostas que formula, que serviram de base ao programa de Lugo, não pregam o rompimento dos acordos - como insinua a mídia. Mas procuram garantir preços justos, redução dos juros e novas regras. Defendem nada mais do que a soberania do Paraguai.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e organizador do livro “Para entender e combater a Alca” (Editora Anita Garibaldi, 2002).

segunda-feira, 3 de março de 2008

LAS REIVINDICACIONES PARAGUAYAS EN ITAIPU Y YACYRETA

Itaipú solamente pudo haber firmado un dictador corrupto

Hugo Ruiz Olazar

Asunción, Paraguay, 2 de Marzo de 2008/ABC Color

El periodista y escritor brasileño Julio José Chiavenato, autor del best seller Genocidio Americano, sobre la Guerra contra la Triple Alianza, además de otras dos obras, una sobre la Guerra del Chaco y otra sobre la dictadura, afirma en esta entrevista que el Tratado de Itaipú, que establece ventajas casi exclusivas a favor de Brasil, solamente pudo haber sido firmado por un dictador corrupto, refiriéndose a Alfredo Stroessner. El intelectual, que vino a Asunción para asistir a un congreso organizado por el movimiento luguista Tekojoja, dijo que un futuro gobierno honesto y respetable en Paraguay podría tener mejor chance para corregir la injusticia.

–Sus obras son impactantes: Genocidio Americano (sobre la Guerra de la Triple Alianza), la Guerra del Chaco y el libro sobre la dictadura ¿Cómo se interesó en Paraguay?

–Durante la dictadura militar en Brasil, pasó conmigo lo que con muchos periodistas. Perdí el empleo. Viajaba para conocer y me tocó venir a Paraguay en el 75. Y bueno, me tomó cuatro años escribir las tres obras. En 1979 salió el libro sobre la guerra contra el Paraguay, en 1980 el libro sobre la guerra del Chaco, la guerra del petróleo y en 1982, “Retrato de una dictadura”, en base al material que fui recogiendo.

–¿Qué le atrajo de Paraguay?

–Mire. Cuando un brasileño va a Ciudad del Este es como si estuviera en Brasil pero cuando se interna dentro de Paraguay se produce un choque muy agradable, ese verdor impresionante, con gente hablando guaraní, con una cultura muy diferente, su música. Uno queda atrapado. Es fascinante. Más fascinado me quedé cuando conocí la historia de Paraguay, la Guerra del Paraguay, ese genocidio tan traumático que involucró a Brasil y que traumatizó también a Brasil.

–¿Conocen los brasileños la historia de la Guerra?

–Conocen claro, pero de otra manera.

–A la manera de los vencedores...

–Se conoce porque muchos brasileños también murieron en esa guerra.

–Pero hay poca literatura...

–No hay ninguna. Actualmente se pueden contabilizar 4 o 5 libros...

–¿Quién le contó la historia?

–Cuando llegué allá por Caacupé, donde está el monumento a los Niños Combatientes (Mártires de Acosta Ñu, en Eusebio Ayala), pregunté y un niño me dijo: “vamos a mi casa. Mi abuelo te va a contar”...

–¿Allí en el pueblo?

–Sí, allí mismo. Pero no me contó una historia sino me cantó una canción en guaraní y me tradujo para que entienda. Yo me quedé francamente fascinado. No creía que podía ser verdad una cosa tan terrible...

–Que los niños se disfrazaran de mayores para la batalla...

–A partir de ahí comencé a investigar. Vine a Asunción. Después en Brasil hasta que terminé el libro y tuvo mucho suceso...

–Escribir sobre historia seguramente no habrá sido tan arriesgado como escribir sobre Stroessner...

–Sin embargo, para mí lo más complicado fue escribir sobre la Guerra del Paraguay porque en el Brasil nadie le llevaba el apunte a Stroessner, salvo que se sabía que era un dictador corrupto.

–¿Por qué más complicado?

–Fue terrible para mí. Dijeron que yo denigraba la imagen del Brasil. Me trataron de “traidor de la Patria”, quedé marcado.

–¿De cuántos ejemplares fue la primera tirada de Genocidio Americano?

–Fue de 5.000 ejemplares. Se agotó en una semana. La segunda edición fue de 15.000. También se agotó en una semana. En menos de cuatro meses hubo 7 ediciones de 15.000. Todo se agotó sin ninguna nota en la prensa. Lo que yo escribí era una cosa completamente desconocida en Brasil. De 1920 a 1979 no fue publicado un solo libro sobre la Guerra del Paraguay en Brasil. Fue el mayor acontecimiento histórico de Brasil y que quedó 59 años sin ningún libro publicado.

–En silencio...

–Sí. El libro rompió ese silencio. Entonces fue un suceso mediático.

–En su obra sobre Stroessner, usted contó la historia de la guerrilla del 59/60 que ni los paraguayos conocíamos por la censura.

–Creo que no había una publicación que relatara sobre el degollamiento de los guerrilleros paraguayos por los militares.

–No se sabía que se los lanzaba al río desde aviones. Después copiaron los militares argentinos de la Guerra Sucia...

–Sí. ¿Sabe quiénes me contaron? los propios torturadores de Stroessner. Ellos se creían “patriotas” por asesinar opositores. Estaban contentos conmigo por mi obra sobre la Guerra y entonces me contaban como una hazaña las barbaridades que cometían. Yo llegué a muchos sobrevivientes gracias a ellos...

–Es increíble...

–Para mí fue increíble. Nunca me olvido cuando un ex guerrillero me quiso mostrar unos documentos y me llevó, de noche, en un auto que se caía a pedazos, fuera de Asunción. Me dio mucho miedo. Me hizo entrar a una favela, una casa paupérrima, muy pobre que no tenía ni luz..

–¿Pensó que lo iban a ejecutar?

–Tuve mucho miedo. Pero el ex guerrillero abrió un baúl y sacó muchos papeles. Eran actas, cartas, diarios de la guerrilla. Me pasé toda la noche copiando a la luz de una vela. Ese hombre era depositario.

–¿Cuántos libros ya escribió?

–Tengo unos 40...

–¿Cuál fue el error para usted en el cambio de la dictadura a la democracia?

–Lo que pasó en Paraguay es en menor escala lo que aconteció con Brasil. La transición no fue perfecta. No lo es hasta hoy.

–¿Hasta hoy?

–Tiene muchos errores. Hubo mucha victoria “moral” y mucha derrota política...

–Y económica...

–Exacto. Todos aquellos políticos que lucharon contra Stroessner fueron perseguidos, torturados, pero no tuvieron resultados prácticos en la democracia. Fueron derrotados políticamente. Cuando no fueron derrotados por la represión fueron derrotados electoralmente. Su reacción fue muy emocional. Los derrota el sistema, preparado para el fraude.

–¿Por qué dice que Brasil no despegó todavía? Hoy hasta tiene un gobierno socialista, a cargo de un ex marxista...

–Yo creo que Lula no es ni socialista ni marxista. Es lulista. Es una gran decepción. No tiene coraje de enfrentar a las elites brasileñas para llevar adelante el cambio.

–¿Será por eso que Paraguay tampoco puede conseguir nada en Itaipú?

–Itaipú fue construido dentro del plan de hegemonía de Brasil de ser líder del cono sur. Fue pensado más bien para contener los deseos de Argentina, de hacer lo mismo.

–¿Cómo se entiende?

–Su construcción fue un asunto de seguridad nacional para Brasil. En conclusión, no hay un presidente en Brasil, sea Lula o sea otro, que tenga fuerza para cambiar las cosas, a no ser que toda la sociedad brasileña se pronuncie y convenza al gobierno que es posible revisar el tratado. Detrás de eso están también las transnacionales...

–¿Es así de simple, o es porque Paraguay estuvo gobernado por corruptos a los que no les interesa discutir?

–La forma como está concebido el tratado de Itaipú solamente pudo haber sido firmado por un dictador corrupto. Un presidente honesto jamás hubiera aceptado ese tratado. El Tratado de Itaipú fue hecho específicamente mirando las ventajas del Brasil.

A Stroessner eso no le importó. Paraguay no fue obligado a firmar ese tratado. A Stroessner le interesaba el dinero y nada más.

–Fueron prácticamente sobornados...

–Esto comenzó con corrupción y continuó con la corrupción. No basta solamente con decir que el tratado es injusto. Los que gobernaron no defendieron los intereses de Paraguay. Entonces, Paraguay está pagando hoy 20, 30, 40 años de corrupción.

–¿Por qué Bolivia tuvo un éxito casi inmediato cuando reclamó el precio del gas?

–Porque el negocio fue con Petrobrás, que tiene una cierta autonomía de acción y no depende de las multinacionales. Aparte, los gobiernos bolivianos tienen una tradición de rebeldía, de resistencia, algo que no existe en Paraguay. Los gobernantes no tienen condiciones para enfrentar una discusión.

– ¿Esta situación puede variar con un gobierno que proyecte otra imagen?

– Paraguay tiene que ser gobernado por un gobierno serio, honesto, inteligente, que no admita más la sumisión o la interferencia de Brasil, Argentina o cualquier otro país a cambio de sobornos. Una nueva imagen le podría dar una mayor fortaleza. Cuando venga un gobierno que tenga fuerza y apoyo popular, la conversación va a ser distinta. Con gobiernos corruptos nunca se puede llegar a nada serio. Por eso son corruptos, porque hacen prevalecer intereses particulares. (ABC Digital/Paraguay)