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quarta-feira, 11 de março de 2009

Brasil e Paraguai/Cartas paraguaias 1: Um agradecimento e nosso projeto comum

A partir de hoje, o Brasil de Fato publica uma série de 15 artigos sobre o que está em jogo nas negociações em torno de Itaipu

11 março 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Roberto Colman

Escrevo, em primeiro lugar, para agradecer as mostras de carinho e solidaridade que nossa delegação recebeu por parte dos delegados e delegadas brasileiras no Fórum Social Mundial (FSM) no final de janeiro em Belém, Pará, em particular, quando nossos representantes (com o presidente Lugo à cabeça) apresentaram publicamente, em diversas conferências e oficinas, as reivindicações paraguais em relação à Itaipu. Foi uma repetição em escala muito ampliada do que já tínhamos recebido na cúpula do Mercosul em Salvador, Bahia, em dezembro passado, e ainda em outras atividades anteriores.
Essa conduta tem no Brasil um valor todo especial, porque sabemos que existe por parte de setores políticos reacionários, da mídia comercial e de grandes interesses econômicos – essa maléfica trindade que assola a democracia de nossos países – uma intensa campanha que tenta opor o “interesse nacional brasileiro” às reivindicações paraguaias em Itaipu (nós, ao contrário, defendemos uma solução onde “ganhamos todos”, tanto Paraguai como Brasil).
Valorizamos por isso, também, o gesto do presidente Lula de ter se reunido ao dia seguinte da palestra pública dos presidentes no Hangar para avançar nas negociações bilaterais com Paraguai, incluido o tema de Itaipu.
Mas justamente desse contato em Belém e dos anteriores nossos delegados e delegadas trouxeram o pedido de amigos e amigas brasileiras para aprofundar a análise e explicação do que o Paraguai questiona em Itaipu e quais são suas reivindicações
È isso que faremos nesta série de Cartas Paraguais, cuja publicação agradecemos ao Brasil de Fato e demais páginas web independentes associadas, cuja atitude atesta uma vez mais que somente nessas mídias desvinculadas dos grandes grupos econômicos há abertura para uma verdadeira discussão que nos permita chegar à verdade.
Roberto Colman é sindicalista eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenaçao Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

RESULTADOS DO FORUM SOCIAL MUNDIAL

Balanço: a agenda possível e as polêmicas do FSM de Belém

Terminada em Belém a Assembléia das Assembléias, neste domingo (1º de fevereiro), fica a imagem de um Fórum Social Mundial histórico. Desta vez, a contraposição ao Fórum Econômico de Davos foi mais que uma intenção. A presença de cinco presidentes latinos contribuiu para que a vontade se tornasse realidade. A crise e o destaque à Amazônia ampliaram a participação de atores antes pouco expressivos, como as centrais sindicais e os povos indígenas. Por outro lado, velhas polêmicas permanecem, entre elas está: o FSM deve ou não ser deliberativo?

De Belém, Carla Santos

(Veja ao final da matéria a agenda proposta na Assembléia das Assembléias)

3 fevereiro 2009/Vermelho http://www.vermelho.org.br

Para muitos a polêmica não é importante, para outros ela é essencial. Certamente, ela permeará a tradicional reunião do Conselho Internacional do Fórum (CIF) — que reúne 150 organizações e acontece dias 2 e 3 —, mas não deve ser resolvida neste espaço. Por hora, a informação que chega sobre as divergências do CIF versam sobre a sede do FSM de 2011: Estados Unidos ou África? O que se sabe é que a adesão pelo continente africano é grande.

Com isso, a eterna polêmica se dá pelo acúmulo das discussões entre os movimentos sociais de todo o mundo até próximo FSM. Certo é que ela não morrerá e permanecerá viva até que o movimento dos fóruns, iniciado em 2001, aponte com mais protagonismo as ações globais possíveis, para além do já produtivo território de trocas e debates.

Porém, pode se dizer que a abertura, ainda que sutil, para a possibilidade de um Fórum deliberativo se alarga. Mesmo esvaziada e cansativa, a leitura de cada uma das cartas que resultaram das 22 assembléias cuidadosamente expressaram esse desejo.

Bem ou mal, as assembléias que apontaram datas mundiais de mobilizações, ou campanhas com períodos mais determinados, foram as que receberam maior atenção, apoio e repercussão da Assembléia das Assembléias. Claro que as propostas não figuraram como uma deliberação do FSM. Mas a sensação que fica é de que “sim, é legal imaginar que todos sairemos às ruas por todo o mundo por um mesmo motivo e em uma mesma data”.

Esse sentimento crescente pode ser fruto de uma relação muito particular entre fatores externos e internos deste fórum e que não existiu, ou estava menos madura, nos FSMs passados. O cenário de colapso do mercado e do meio ambiente são questões que efetivamente estão preocupando milhares de pessoas pelo mundo. Quem esteve por Belém percebeu isso como ninguém.

A ameaça da perda da renda e do emprego, somada a um possível fim do planeta tal como o conhecemos, tem gerado uma ansiedade por participação. Cada um passa a reconhecer que é preciso que muitos se unam em ações conjuntas para que o caos não se estabeleça.

As fendas na Torre de Babel

O momento mágico da Torre de Babel que sempre “glamuralizou” os fóruns vai ficando pequeno diante do anseio concreto, mesmo que limitado pelas diferentes culturas e idiomas, de unidade e convergências. Para além de conhecer e tomar contato com novas idéias, bandeiras e movimentos, o sentido geral pareceu ser: assimilar, somar e, sobretudo, agir.

As presentes barreiras construídas em favor de demarcadas diferenças — muitas alicerçadas sobre puro preconceito de ambos os lados —, entre as propostas do “enigmático” Calendário Maia e o “novíssimo” Greepeace, em oposição aos movimentos “tradicionais” protagonizados por partidos, estão diminuindo.

Mais do que encurtar distâncias geográficas, culturais e políticas, o Fórum de Belém almejou encurtar distâncias ideológicas. A palavra socialismo sempre esteve na boca de milhares que passaram pelos fóruns. Seja em oficinas autogestionadas, nas conferências, nos inúmeros debates, nas atividades culturais, estava alguém na mesa, no palco ou na platéia a defender a insígnia socialista.

Remédio para a crise é socialista

A diferença é que desta vez a palavra foi parar na boca de presidentes latino-americanos no mais marcante encontro que um Fórum já produziu. O socialismo foi proclamado em alto e bom som pelo presidente do Equador, Rafael Correa. ''O remédio para a crise é o socialismo'', ele disse. As saudosas referências à Ilha Rebelde feitas pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, e ao seu amigo, o comandante cubano Fidel Castro, não deixaram dúvidas sobre sua simpatia socialista.

Mesmo Lula, com o sabor da oratória que lhe é peculiar, ao desmascarar a receita neoliberal defendida pelo FMI à América Latina, reafirmou a atualidade do socialismo. “O FMI dizia que o deus Mercado podia tudo e o Estado nada podia. Agora a quem ele está pedindo socorro? É a esse mesmo Estado que ele tanto condenou. Eu espero que agora o FMI largue da gente e vá dar conselhos ao Obama”, disse Lula.

Espera-se que o quente verão — cheio de mormaço e chuvas tropicais, como se sentiu em Belém — da América Sul agora alce vôo e contamine a crescente esperança da América do Norte. Também o profundo inverno que vive a Europa pode ser tocado pelos ventos sulistas. Enquanto as correntes de ar e água se agitam, aumentam consensos na perspectiva de ações efetivas, não apenas pela AL possível — porque esta já está acontecendo — mas, sobretudo, por “um outro mundo possível”.

As 22 assembléias realizadas neste domingo**:

- Justiça Climática em Copenhagen
- Assembléia de direitos humano
- Assembléia dos Direitos Coletivos dos Povos
- Assembléia ''Crise Civilizatória Bem Viver e Direitos Coletivos”
- Assembléia Geral contra a guerra, bases militares, militarismo e armas nucleares
- Assembléia Pan-Amazônica
- Assembléia Diante da crise: desenvolver o Fórum Social como um processo permanente a partir das proposta
- Assembléia Ciêncas e Democracia
- Assembléia de Negras e Negros no FSM 2009
- Assembléia de Mulheres
- Assembléia Por um mundo sem dívida: Auditoria e Reparações Já!
- Assembléia Rede de intercomunicação e de boas experiências
- Assembléia Globalizar a declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas
- Assembléia mundial da rede internacional unidas de direitos humanos
- Assembléia Luta contra a corrupção e a impunidade
- Assembléia Justiça para a Amazônia
- Assembléia Fórum Mundial da Educação
- Assembléia Alternativas às políticas migratórias securitárias
- Assembléia Uma resposta global contra a crise financeira
- Assembléia Cultura e educação transformadora
- Assembléia Alternativas para proteção dos ecossistemas Amazônicos
- Assembléia O trabalho na crise global

** O CIF divulgou que todas as cartas deverão ser publicadas na íntegra na página do FSM 2009.

Agenda mobilização proposta por algumas assembléias:

- Entre os dia 28 de março e 4 de abril: chamamento mundial para protestos contra o capital e a guerra
- 30 de março: dia de solidariedade à Palestina
- 17 de maio: dia internacional de ação contra as políticas de migração da União Européia
- 12 de outubro: dia internacional de luta contra a colonização e em defesa dos povos indígenas
- 12 de dezembro: dia de ação global por justiça climática e outros encontros temáticos e regionais
- mobilizações em datas significativas (Dia da Mulher, Dia do Trabalhador Rural, etc) e durante eventos multilaterais (Cúpula do G8, Cúpula Climática, etc)

* Carla Santos é jornalista do Portal Vermelho, presidente da Ubes de 1999 a 2001, e participou de sete fóruns dos nove já realizados.

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=50401

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Êxito: Fórum Social reuniu 150 mil pessoas de 142 países

O Fórum Social Mundial 2009, realizado pela primeira vez na Amazônia, em Belém do Pará, chegou ao fim neste domingo (1°) com um total de 133 mil participantes inscritos, de 142 países, informou a organização do evento. Mas, no total, o número de pessoas envolvidas no FSM — reunindo participantes e trabalhadores — chegou a 150 mil.

2 fevereiro 2009/Vermelho http://www.vermelho.org.br

O último dia do Fórum foi marcado pela realização de assembléias setoriais temáticas, pela parte da manhã, com a divulgação de algumas conclusões dos debates. Na parte da tarde, ocorreu a Assembléia das Assembléias, com apresentação de algumas propostas de campanhas globais que devem ser lançadas em 2009. Local e data do próximo FSM não foram definidos no domingo. O que está definido é que deverá ser em um país da África, em 2011.

Além das datas tradicionais — como os dias internacionais da mulher e dos trabalhadores rurais, e da cúpula do G8, em julho, da Cúpula das Américas, em abril, e do Clima, em dezembro —, os movimentos sociais propuseram a realização de uma semana de protestos contra o capital e a guerra entre os dias 28 de março e 4 de abril. Neste período, será criada uma nova articulação de países ricos que, além dos oito do G8, incluirão as demais 12 nações mais ricas do mundo.

Outro evento que deve ser alvo de mobilizações é a comemoração dos 60 anos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), marcada para o dia 4 de abril, em Estrasburgo, na França. No dia 30 de março, estão previstas ações unificadas de apoio à Palestina e contra os crimes de guerra cometidos por Israel em Gaza.

Já as organizações que discutem a dívida externa de países do Sul lançaram uma convocação para que todos os governos implementem auditorias e, com base nelas, declarem a ilegalidade das dívidas, suspendendo os pagamentos e exigindo reparação por processos abusivos de endividamento. O documento, assinado pela Campanha Jubileu Sul e pela Comissão Internacional pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, também pede que os governos dos países do Sul se retirem do G20.

A organização do FSM divulgou os seguintes números como balanço final:

1- Total de participantes: 133mil

2 - Participantes inscritos no acampamento: 15 mil

3 - Crianças recebidas na Tenda Curumim-Erê : 3 mil crianças

4 - Trabalhadores voluntários, tradutores, equipe técnica e representantes de entidades organizadoras: 4.830

5 - Expositores de tendas, feira institucional, feira da economia solidária, restaurantes e lanchonetes: 5.200

6 - Eventos culturais: 200

7- Artistas: 1.000

8 - Profissionais comunicadores da imprensa oficial, mídia alternativa ou freelancer: 4.500 (2.500 credenciados e 2.500 à distância)

9 - Entidades e organizações inscritas: 5.808

Por continente:
África: 489
América Central: 119
América do Norte: 155
América do Sul: 4.193
Ásia: 334
Europa: 491
Oceania: 27

10 - Atividades autogestionadas inscritas: 2.310

11- Veículos de comunicação credenciados: 800 veículos de equipes de 30 países.

12 - Pesquisas de perfil de participantes: aproximadamente 2.150 entrevistas por amostragem.

Da Redação, com informações da Carta Maior

Leia também:
- Balanço: a agenda possível e as polêmicas do FSM de Belém

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Löwy exalta Fórum Social 2009: quem está em crise é Davos

A crise do capitalismo fez aumentar o impacto do Fórum Social Mundial. Quem opina é o franco-brasileiro Michael Löwy, diretor de pesquisas emérito do Centro de Pesquisa da França. À Folha de S.Paulo, Löwy, de 70 anos — sendo 40 radicado na França — também comemorou a esquerda política da América Latina. Confira sua entrevista.

2 fevereiro 2009/Vermelho http://www.vermelho.org.br

O Fórum Social Mundial se revitalizou?
Havia a idéia de que o Fórum tinha esgotado seu papel, estava em crise e não tinha mais o que dizer — que o movimento altermundialista (antiglobalização) já tinha acabado e era preciso passar para uma outra. Hoje em dia esse discurso acabou. Está muito clara a vitalidade extraordinária do processo do Fórum, sua capacidade de se reinventar e de avançar em ideias e propostas.

Acho que o impacto do Fórum aumentou. Quem está em crise agora é o outro fórum — o de Davos. Seus dogmas foram por água abaixo. O que o Fórum Social Mundial sempre disse, que se precisa de outro mundo, se revelou verdadeiro.

A crise econômica roubou espaço do temas original desse FSM, a Amazônia?
Pelo contrário. Há uma relação entre a crise econômica, a alimentar, a ecológica. Há uma convergência das crises, uma mesma raiz que é um modelo de civilização industrial, capitalista e ocidental em que vivemos.

O FSM não devia propor uma saída?
O Fórum é um movimento de protesto. Gente que se reúne para dizer "não", "não queremos o mundo em que tudo virou mercadoria", "não queremos um mundo dominado pelo capital". Há um "não!" — e isso é muito importante, algo precioso, e não deve ser minimizado. Mas insatisfação apenas não é suficiente. Há quem diga que o fórum só critica e não propõe nada. Não é verdade.

Um Fórum que foge da interferência de governos traz cinco presidentes...
O Fórum nunca negou a política — ela está presente. Não queremos é que o fórum seja aparelhado ou instrumentalizado por partidos políticos ou governos. Se a participação de presidentes e políticos acaba sendo o ponto alto, é a ponta visível do iceberg. Lá embaixo é muito maior.

A volta para a América Latina e o contato com suas esquerdas renova o Fórum?
A América Latina é onde a tentativa de romper as amarras do neoliberalismo está indo mais longe. Nós temos não só movimentos sociais e forças políticas que colocam essa exigência, mas ao menos três experiências novas — Venezuela, Bolívia e Equador — de governos com grande apoio popular tentando buscar uma alternativa ao Liberalismo e colocando a necessidade de superar o sistema capitalista. Infelizmente não é o caso do Brasil.

O que faltou aqui?
O Brasil deveria ter estado na vanguarda desse processo, porque é o único que tem um grande partido dos trabalhadores e com um dirigente que foi um grande operário e dirigente sindical. É um governo melhor do que os anteriores. Mas, comparado ao que havia sido a trajetória e histórico do PT, é decepcionante.

Da Redação, com informações da Folha de S.Paulo

Leia também: Fórum Social Mundial reuniu 150 mil pessoas de 142 países


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Próxima edição do Fórum Social Mundial, em 2011, poderá ser na África

Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (ADITAL)

2 fevereiro 2009/Adital http://www.adital.com.br

Ana Rogéria, editora de Adital, de Belém (PA)

Em entrevista à Adital, Salete Valesan, do Comitê Executivo do Fórum Social Mundial, faz uma avaliação sobre os resultados dos eventos ocorridos até hoje. Ela afirma que o FSM 2009 mantém seu espírito transformador e que problemas de estrutura não podem ser obstáculos para isso.
O Comitê Executivo se reúne hoje (2) para discutir o próximo lugar onde será realizado o evento. De acordo com Salete, tudo caminha para que seja novamente na África.
O FSM 2009 aconteceu de 27 de janeiro a 1º de fevereiro em Belém, no estado amazônico do Pará.
Adital - Você acredita que o Fórum se mantém como contraponto a Davos, que ele mantém o espírito transformador do início?
Salete Valesan - O nosso objetivo se mantém o mesmo porque ninguém pode se iludir nesse momento de crise que a gente está vivendo e que está todo mundo com esperança de que conseguiu dar um salto do sistema do capital, pela queda de parte do imperialismo. Por ser apenas parte que caiu é que a gente tem que estar alerta. Então o enfraquecimento hoje do G-8 não significa que amanhã a gente não possa ter uma outra força inclusive muito mais prepotente e perigosa do que nós tivemos até agora. O nosso objetivo continua. Estamos sempre em alerta, vamos continuar nos organizando e organizando esse espaço para que ele seja um espaço de resistência, de proposta e de alternativas. As alternativas que a gente tem ainda não são alternativas que possam ser aplicadas globalmente, mas nós estamos caminhando para buscar essas questões.
Adital - De 2001 a 2009, o que podemos dizer sobre essas alternativas? Elas existem, foram aplicadas?
Salete Valesan - Sim, acho que até na questão do Fórum, de como ele vem se revendo a cada ano, renovando sua metodologia e seus espaços. Em todo lugar onde ele vai, deixa um tipo de ação e alternativa diferenciada porque a cultura, a geografia, a população são diversas. Nós temos aí vários avanços. E um significativamente aqui na América Latina é a questão da economia solidária que é toda uma concepção que hoje é real. Temos também a luta pela questão das águas. A gente conseguiu ter uma campanha, fóruns de água. É muito forte também a questão da comunicação, com a comunicação compartilhada, fortalecimento das mídias livres, toda essa luta pela legalização e espaços para essas mídias. E as políticas públicas, especialmente na América Latina, por conta do contexto político dos governos que são eleitos, que a gente consegue transformar um pouco essas políticas numa força maior para as demandas sociais e humanas.
Adital - Essa edição conseguiu reunir cinco presidentes da América Latina. Que dimensão tem isso para o Fórum?
Salete Valesan - Primeiro mostra que o Fórum, juntamente com suas entidades, seus movimentos, suas campanhas, e a América Latina, todos e todas, estão dando um recado para o mundo de que nós estamos criando aqui uma potência política. Uma potência de alternativa, mostrando que a América Latina tem condições de decidir o que ela quer e o que é melhor para ela. E a gente está definitivamente se organizando para resistir a um sistema impositivo. Nós não queremos mais que o imperialismo venha nos dizer como a América Latina precisa resolver suas questões ou gerar suas alternativas. O protagonismo tem que ser nosso.
Adital - Do ponto de vista de estrutura dos Fóruns. O que a gente pode dizer deste de Belém? Há muitas queixas em relação a isso.
Salete Valesan - Nós tivemos na questão estrutural, no que diz respeito ao território do Fórum, duas grandes universidades. Foram praticamente dois eventos. Ninguém consegue circular pelos dois locais no mesmo dia. Então essa questão da estrutura foi bastante importante, foi bem. A gente teve uma dificuldade que já era prevista que foi a questão de alojamento, de hospedagem, mais dos hotéis, mais da hospedagem tradicional do que as outras. Então fomos superando essa dificuldade. Infelizmente a negociação com as empresas aéreas não é muito tranquila. Eles querem garantia de quantos virão de avião, de onde, a que horas, em qual data...O Fórum não está para controlar as pessoas. Então tivemos essa dificuldade de conseguir vagas em voos. Isso atrapalhou um pouco. Mas não vai ser isso que vai fazer a gente desistir de lugares como o Quênia, Índia ou como a Amazônia, como estamos fazendo agora. Muito pelo contrário. A gente tem que estar nestes lugares para que as pessoas possam ter direitos e acessos às informações que não são possibilitadas ainda a essa população.
Adital - O conselho executivo se reúne para decidir onde será o próximo Fórum. Já há alguma indicação? Quais os encaminhamentos finais?
Salete Valesan - Teremos 18 assembléias temáticas trazendo o que foi debatido naquele tema durante estes dias todos e criando propostas, seja de execução ou de articulação política, a partir do que cada grupo decidir. No período da tarde acontece a Assembléia das assembléias para dizer o que foi tirado e para que os participantes conheçam esses resultados. No dia 2, nós estaremos reunindo o conselho internacional do Fórum, que é na verdade o primeiro encontro do conselho que vai discutir e potencializar a decisão de, em 2011, fazer na África, que é o que mais ou menos está encaminhado. Mas ainda temos que ouvir os companheiros africanos para saber se eles se mantêm na proposta de fazer em 2011 lá. Em 2010 teremos a metodologia das jornadas de mobilização.
As matérias do projeto "Ações pela Vida" são produzidas com o apoio do Fundo Nacional de Solidariedade da CF2008.

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Brasil/Recado do FSM ao mundo: unidade, integração e socialismo

Os presidentes da Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Brasil debateram a América Latina e os desafios da crise econômica internacional

Renata Mielli, de Belém (PA), Vermelho

Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

30 janeiro 2009

Na atividade mais importante de todas as edições do Fórum Social Mundial, os presidentes da Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai e Brasil debateram na noite desta quinta-feira, (29), a América Latina e os desafios da crise econômica internacional fazendo o mais contundente contraponto da história do FSM à realização da reunião de Davos. Os presidentes fizeram um chamado à unidade e integração da América Latina para fortalecer os países diante da crise.
Falou-se em “sepultar o capitalismo para que o capitalismo não sepulte o mundo”, e na necessidade de se construir o socialismo do século 21. Os países ricos foram culpados pela crise e seus representantes reunidos em Davos foram chamados de “moribundos”. No FSM, neste dia 29, os presidentes deram o recado: ''Um outro mundo é possível, necessário e está nascendo hoje na América Latina”.
O sentido do encontro
A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa iniciou a atividade registrando que aquele era um momento histórico. “Todos os olhos de quem acredita que um outro mundo é possível estão voltados para cá, porque a presença desses presidentes é a demonstração de que construir esse novo mundo é possível. Essa é a vitória da democracia, esse momento enche o nosso coração de esperança porque nós estamos escrevendo um novo caminho”. E, de fato, a conferência, que reuniu mais de 10 mil pessoas em Belém, entra para a história como o evento mais importante de todas as edições do Fórum Social Mundial.

O FSM, que nasceu em 2001 para ser um contraponto à reunião de Davos, na Suiça, ao reunir cinco presidentes de países importantes da América Latina, nesta 9ª edição, demarca um importante campo político com o modelo econômico mundial vigente. Mostra que uma alternativa não apenas é viável, mas já está sendo construída através das experiências latino-americanas.
O mediador do encontro dos presidentes, Cândido Grzybowski, diretor-geral do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), que ao lado do Instituto Paulo Freire e da CUT co-promoveu a atividade, iniciou afirmando que “queremos abrir pontos de diálogo com governantes, inclusive com Barack Obama, se for o caso; mas com aqueles que neste momento estão em Davos nós não temos nada para trocar, e sim cobrar porque eles são os artífices da crise''. E apontou o objetivo do encontro dos presidentes: “É um esforço mútuo de indagar questões e mapear convergência e divergências”.
Sepultura para o capitalismo
Evo Morales foi o primeiro presidente a se dirigir ao público, onde havia índios de várias regiões da Pan-Amazônia, participantes de mais de cem países do mundo, que representavam movimentos sociais e organizações não-governamentais. Ele afirmou que “esse é o início de uma série de encontros dos presidentes antineoliberais contra o capitalismo”.
Morales falou do referendo na Bolívia, que aprovou a nova Constituição por 61,5% dos votos válidos. “No último domingo, abrimos uma nova página em nosso país para que nunca mais privatizemos nossos recursos naturais, e para reconhecermos os direitos das populações originárias numa demonstração da consciência do povo boliviano”.
Ao referir-se à crise, que é parte da crise do capitalismo, o presidente da Bolívia foi taxativo: “Se nós – o povo do mundo – não conseguirmos sepultar o capitalismo, o capitalismo vai sepultar o mundo”.
Ele propôs a criação de quatro campanhas para combater a crise, fortalecer a economia e a soberania das nações pobres. Uma campanha mundial pela paz, que julgue os responsáveis por guerras nos tribunais de justiça e que acabe com o direito de veto no Conselho de Segurança da ONU, “porque não é possível que um país tenha mais direito que 160 nações”. A luta por uma nova ordem econômica e social de justiça e desenvolvimento, que reforme os organismos internacionais e que paute o mundo por indicadores de distribuição de riqueza seria a segunda campanha.
Ele defendeu ainda uma campanha para salvar o planeta, alterando os padrões de consumo da sociedade; e outra campanha que valorize a humanidade através da diversidade e respeito cultural. “Só uma humanidade que valoriza a si mesma pode sepultar o capitalismo”.
Os moribundos de Davos
O presidente do Equador, Rafael Correa, foi duro ao se referir ao Fórum Econômico Mundial. “Os representantes do capitalismo estão reunidos neste momento em Davos para traçar as linhas de ação do mundo frente à crise. Eles que são os responsáveis por essa crise querem nos dar lições”, ironizou e em seguida, não poupou palavras: “Lá estão reunidos os moribundos”.
Correa, que é economista, caracterizou esta crise como sendo uma crise de todo o sistema capitalista, “uma forma imoral de acumulação de riquezas que levou os países à miséria”. Ele denunciou o fato de os defensores da primazia do capital financeiro sobre o capital produtivo recorrerem agora ao Estado para salvar suas economias.
“No Equador temos resistido ao neoliberalismo, estamos pondo fim à noite neoliberal. É hora de algo novo e felizmente esse novo está surgindo aqui na América Latina”, disse Correa ao iniciar uma exposição sobre o nascimento do socialismo do século 21, que exige uma ação conjunta e coletiva e atribui um papel importante ao Estado.
“Não somos estatistas, mas o que é necessário é uma ação coletiva para superar as dificuldades do povo e o Estado pode ser o estruturador dessas ações”, e informou que “no Equador temos um Plano Nacional de Desenvolvimento que articula todas as políticas públicas do Estado para impulsionar o desenvolvimento da economia e a diminuição das misérias e desigualdades sociais”.
Socialismo do século 21
Rafael Correa conclamou a todos para contestarem a idéia de que o socialismo é um regime incompetente. “Socialismo é muito mais justiça, mas é muito mais eficiência também”. Mas alertou: “Temos que ter os olhos bem abertos e os pés na terra ao aplicar o socialismo para não cometermos erros que outras experiências cometeram”.
Correa avaliou como um desses erros o fato de que o socialismo tradicional apresentou apenas uma nova forma de produção e desenvolvimento mais acelerados e com mais justiça social, mas baseada no mesmo conceito de consumo do capitalismo, o consumo de massa. “O socialismo do século 21 vai propor um novo modelo de desenvolvimento, estamos com a oportunidade de criar algo novo e melhor”.
O presidente equatoriano apontou como principal caminho para enfrentar a crise acelerar a integração da América Latina. “Como nunca antes temos que estar unidos, buscar intercâmbio para criar políticas conjuntas de infra-estrutura energética, de saúde, de educação. Temos que acelerar o Banco do Sul, que pode servir para nos proteger um pouco da crise . Só com a organização dos Estados Latino-americanos vamos fazer frente ao capitalismo.
Concluiu dizendo que é preciso ter cuidado com a crise, porque ao mesmo tempo que ela pode gerar oportunidades, “pode também ser usada para desestabilizar os nosso governos”. Ao se despedir do público de Belém, usou a saudação imortalizada por Che “Até a vitória, sempre!''.
A peste econômica
Usando uma retórica mais poética e cheia de simbolismos, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, saudou o Fórum dizendo que via com muita alegria “esse espírito humanista e a solidariedade inteligente para enfrentar os nossos desafios com dureza e ternura. Estamos ensinando para todos que existe uma alternativa, que sim é possível transformar o planeta. Os que perguntam para que serve o FSM não aprenderam a olhar ao seu redor – há mudanças na América Latina e a esperança de que haja mudanças no norte também”, disse, referindo-se indiretamente à eleição de Barack Obama.
Lugo nomeou a crise econômica como resultado da ação inconseqüente dos países ricos, o neoliberalismo, “a peste econômica que atingiu a América latina nos anos 90”. Para ele, uma das formas de enfrentar esse momento é a ação conjunta e soberana das nações latino-americanas. “Nós temos os Andes, a Amazônia, temos a maior fonte de energia renovável do mundo, um banco diversificado de plantas medicinais, então, o que nos falta? Falta muito e pouco. Falta usar esses recursos para fortalecer nossas economias”, avaliou.
Denunciou os crimes cometidos no Oriente Médio. “Como é possível, nesse momento em que a humanidade domina a tecnologia, haverespaço para as mortes mais cruéis?”, indagou, referindo-se aos ataques de Israel à faixa de Gaza. “Não podemos ser apenas observadores diante a ameaça planetária de guerra”.
“As mudanças já se vêem, já se respiram nos ares do Fórum Social Mundial”, afirmou e, citando o cantor brasileiro Geraldo Vandré, conclamou a todos para que continuemos “caminhando e cantanto e seguindo a canção – aprendendo e ensinando uma nova lição”.
Vamos apurar nossa unidade
Num dos discursos mais rápidos que já proferiu, Hugo Chávez usou cerca de 15 minutos para expressar sua crença de que “a cada ano que passa o evento político mais importante do mundo é o Fórum Social Mundial”. Para Chávez a criação do FSM foi muito oportuna porque aconteceu num momento de efervescência política no continente.
“A América Latina foi o laboratório do neoliberalismo que, como disse Eduardo Galeano, arrasou nosso continente. Assim como a América Latina recebeu a maior dose de veneno neoliberal, foi também onde brotaram com mais força as mudanças que vão transformar o nosso planeta. Outro mundo é possível, necessário e está nascendo hoje na América Latina”, afirmou com a contundência que lhe é peculiar o presidente da Venezuela.
Chávez disse que 2009 vai ser duro para o mundo, “segundo a OIT – Organização Internacional do Trabalho, se perderão 50 milhões de postos de trabalho e a fome deverá crescer e chegar à casa de 1 bilhão de pessoas. Não podemos esperar nada dos outros, mas de nós mesmo”.
O líder bolivariano fez um apelo pelo aprofundamento da unidade. “Diante dessa crise temos que apurar nossa unidade, com o Banco do Sul, com o fortalecimento das nossas empresas energéticas, com estratégias de articulação de um projeto latino-americano. Nesse projeto unitário está o coração do novo continente”, avaliou.
Para Chávez, ''o socialismo é o único caminho, porém ele não pode ser cópia, tem que ser criação. Nós somos presidentes graças ao despertar dos nossos povos, e por isso vocês têm que continuar lutando”.
Mudanças em curso
Lula optou pela informalidade e deixou de lado o discurso que iria ler. Começou fazendo um pedido: “Guardem esta fotografia porque hoje a gente pode até reclamar dos presidentes que nós temos, mas até bem pouco tempo os que ousavam discordar de seus presidentes eram perseguidos e mortos, muitos jovens pegaram em armas para lutar pela democracia e hoje nós estamos aqui fazendo o que eles sonharam. O mundo mudou tanto que era impossível dizer que um bispo da Igreja Católica seria presidente do Paraguai, que um jovem economista ia chegar à presidência do Equador, impossível pensar que um índio com cara de índio e jeito de índio chegasse à presidência da Bolívia e, aqui no Brasil, era impossível pensar que um torneiro-mecânico seria presidente. Mas as coisas não param por aqui, quem podia pensar, que teórico poderia prever, que o país do apartheid que matou Martin Luther King, ia eleger um negro para presidente dos Estados Unidos?”, disse Lula.

Ao falar da crise, ele recordou como até bem pouco tempo os ricos e “yuppies” norte-americanos ficavam ditando regras para os países mais pobres. “Parecia que eles eram infalíveis e nós os incompetentes”, ironizou; e lembrou que agora eles estão calados porque a crise eclodiu justamente lá.
A crise do “deus mercado”
“A crise nasceu porque eles venderam a idéia de que o Estado não servia para nada e o “deus mercado”, que tudo pode e é soberano, podia tudo. Só que esse deus mercado quebrou por irresponsabilidade deles. Agora eu quero ver o FMI ir dizer para o Obama como é que eles vão consertar a crise que eles criaram”, falou, sob fortes aplausos.
Lula listou as medidas que os organismos internacionais impunham aos países em desenvolvimento: “Eles nos obrigaram a fazer ajuste fiscal, mandar trabalhadores embora, reduzir o Estado e os serviços sociais; e agora, quando eles entraram em crise, qual foi o deus a quem eles pediram socorro? Ao Estado que já injetou milhões de dólares para salvar empresas mundo afora”.
O presidente alertou que a crise é grave e que ainda não se conhece o fundo dela, mas foi contundente ao dizer que os países em desenvolvimento estão em melhores condições de enfrentá-la do que os ricos. Disse que já passou da hora de se discutir discutir o controle do mercado financeiro e foi taxativo: “Aqui o povo pobre não será o pagador dessa crise”.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/agencia/nacional/recado-do-fsm-ao-mundo-unidade-integracao-e-socialismo

Brasil/Lula critica protecionismo como solução para a crise econômica

Amanda Cieglinski, enviada especial

30 janeiro 2009/Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br

Belém - O presidente Lula disse hoje (30), durante o Fórum Social Mundial, em Belém, que a evolução da crise econômica vai depender do comportamento dos países ricos e criticou medidas protecionistas americanas para tentar recuperar a economia.

“Eu li ontem que o presidente [dos Estados Unidos, Barack] Obama tomou uma decisão de que, nos novos investimentos deles, devem usar só aço da siderúrgica americana. Se isso for verdade, é um equívoco. O protecionismo nesse momento vai agravar a crise, não resolvê-la. É importante que os países ricos não esqueçam nunca que foram eles que inventaram essa história de que o comércio poderia fluir livremente pelo mundo. Não é justo que agora, que eles entraram em crise, esqueçam o discurso do livre comércio e passem a ser os protecionistas que nos acusavam de ser”, criticou.

Lula afirmou que os países ricos não sabem o que fazer diante da crise e voltou a dizer que até agora não viu "o FMI dar palpite” como faz com os países da América Latina. “Quando o calo é no pé dos outros, é mais fácil resolver”, ironizou. O presidente afirmou que tem esperança de que Barack Obama tome logo as medidas necessárias para recuperar a economia e “não permitir que os países pobres paguem por uma crise que não criaram”.

Além de criticar o protecionismo, Lula defendeu medidas para a regulamentação do mercado futuro e do sistema financeiro como caminhos para superar a crise.

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/01/30/materia.2009-01-30.4834688230/view

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Brasil/Sob a chuva da Amazônia, todos os povos reunidos

Representantes de todos os cantos do mundo celebram o “outro mundo possível”

Renato Godoy de Toledo, enviado a Belém (PA)

27 janeiro 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

A chuva torrencial, típica das tardes de Belém (PA), não impediu que cerca de 100 mil pessoas marchassem, no dia 27 de janeiro, da Estação das Docas até a Praça do Operário, no centro da capital paraense, durante a abertura do Fórum Social Mundial 2009, que vai até o dia 1º de fevereiro.
Como é usual, a principal característica da passeata foi a diversidade. Esta se manifesta tanto nas etnias dos participantes, quanto nas bandeiras e causas empunhadas.
Para se ter uma idéia, em nível nacional, marcharam na mesma avenida evangélicos, membros da Força Sindical, militantes do PSTU, sem-terra e até membros de um movimento cuja principal reivindicação é a adoção do calendário inca. Internacionalmente, a diversidade também é observada, ainda que, obviamente, cada organização traga um número menor de participantes.
Comparativamente às outras edições brasileiras do Fórum, em Porto Alegre (2001, 2002, 2003 e 2005), pôde ser observado claramente uma massiva participação de povos tradicionais. De acordo com a organização do evento, cerca de 3 mil indígenas estão em Belém.
Simbolicamente, no início da marcha, uma celebração afro-religiosa, realizada por participantes africanos, marcou a passagem do Fórum da África, ocorrido em 2007 no Quênia, para o Fórum amazônico, que foi recebido pelos indígenas. Logo após o rito, a chuva forte veio, e persistiu durante quase uma hora.
De todos os cantos
Antes da chuva, Mzonke Poni, membro de uma associação de sem-teto sul-africana, dizia-se entusiasmado com sua primeira visita ao Brasil. “Estamos aqui para buscar alternativas e partilhar experiências interessantes de processos que estão sendo construídos em países como Bolívia e Venezuela. Temos uma coisa muito boa para ver aqui no Brasil que é o programa de combate ao HIV, algo que o nosso país precisa”, revela Poni, que se diz entusiasmado com a receptividade da cidade de Belém.
O francês Mathieu Colloghan, da organização Les Alternatifs, já está em seu 8º Fórum. Do primeiro, o ativista lembra que ouviu o então governador gaúcho Olívio Dutra (PT) afirmar que o processo do Fórum iria surtir efeito em 20 anos ou mais. “Na época, pensei que aquilo era um exagero, mas hoje vejo que iremos mudar o mundo aos poucos”, opina.
Sua organização autodenomina-se altermundista, autogestionária, feminista e ecologista. Assim, nessa edição devem se envolver em debates sobre a Amazônia que, para Colloghan, é um tema “muito complicado”. “É muito fácil para o mundo dizer ao Brasil: ‘não toquem mais na Amazônia’. No entanto, essa é uma atitude imperialista. O problema do desmatamento diz respeito ao mundo. Deve haver um esforço dos países para resolvê-lo, mas não podemos deixar que essas decisões sejam tomadas em Washington ou Paris”, aponta.
Morador de uma região que em muitos aspectos está distante de Paris, mas com objetivos próximos aos de Colloghan, o indígena Wellington Gavião, do povo Gavião, que vive na região de Ji-Parará (RO), acredita que esse Fórum servirá mais como um espaço de denúncia, sobretudo para chamar a atenção do governo federal sobre as barragens que estão sendo construídas no rio Madeira. “Sabemos que as coisas não se resolvem rápido, mas aproveitaremos o espaço para denunciar”, promete.
Já o indiano Rahul Kumar, da organização Terra Viva, espera que o Fórum sirva para que se crie uma consciência local, mas ressalta que o processo não pode parar por aí. O encontro, para ele, funcionará como um espaço para discutir “mudanças profundas e, sobretudo, alternativas ao neoliberalismo”. Para chegar a Belém, Kumar embarcou em quatro vôos diferentes, que ao todo duraram 22 horas.
Solidariedade
Um tema muito lembrado na passeata foi a invasão israelense em Gaza. Alguns representantes do país atacado estiveram presentes na manifestação. Um deles, Madhat Al Jagmoup, membro do sindicato de fazendeiros da Palestina e Najah, destacou a necessidade de findarem-se os ataques ao seu país. Na avenida Presidente Vargas, Najah exibia um cartaz com os dizeres: “Break the siege in Gaza” (rompam o cerco a Gaza, em tradução livre).
Para o marroquino, Hamid Elkam, do Fórum Alternatives Sud, o evento “será mais uma oportunidade, em meio a um espaço dialético, para que os altermundistas elaborarem uma alternativa à globalização neoliberal”. Mas, para ele, os objetivos do FSM só irão se concretizar se houver, posteriormente ao encontro, uma prática militante.
Donos da casa
Os anfitriões belenenses, sem dúvida, foram os que mais engrossaram a marcha de abertura do Fórum, com faixas com pautas locais e blocos que exaltam a cultura local, sempre embalados pelo carimbó.
Para o marceneiro Charles de Souza, o Fórum mudou a rotina da cidade. “O grande ponto positivo de trazer luz à questão amazônica é o de envolver todo mundo na defesa da floresta. Sozinho, o povo do Pará não consegue barrar o desmatamento”, conclui. (Colaborou Eduardo Sales de Lima, enviado especial a Belém-PA)

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/agencia/nacional/sob-a-chuva-da-amazonia-todos-os-povos-reunidos

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Portugal/Boaventura de Sousa Santos acredita que o FSM pode assumir um papel relevante na crise

22 janeiro 2009/O Outro Lado da Noticia http://www.outroladodanoticia.com.br

Em entrevista ao site Fórum, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, uma das personalidades mais atuantes nas edições do Fórum Social Mundial (FSM), analisa as possibilidades do governo Obama e enxerga no enfrentamento à crise global uma importante oportunidade para o movimento social.

Veja a entrevista:

Fórum – O senhor costuma sempre passar uma parte do ano nos Estados Unidos. Comemorou a eleição de Barack Obama ou chegou a se emocionar com a festa dos estadunidenses?

Boaventura de Sousa Santos – É evidente que pela minha formação marxista não estou acostumado a que os homens individualmente transformem a história e tenho reservas em relação a esperar demasiado de uma pessoa quando o sistema que a elegeu praticamente se mantém o mesmo. Mas, dito isto, não há dúvida para uma pessoa que, para lembrar José Martí, vive nas entranhas do monstro, onde este sentimento de crítica à orientação imperialista agravou-se extraordinariamente durante o governo Bush, que a vitória do Obama foi um acontecimento muito especial. Aliás, especial não apenas para os EUA como para o mundo.

Em 2009, um presidente negro vai entrar em uma Casa Branca que foi construída por escravos. Há 40 anos, em alguns estados nos quais ele ganhou eleitoralmente, branco não podia casar com preto. Sua mulher descende de escravos e vai entrar para a Casa Branca como primeira dama. É uma grande transformação simbólica, um grande ato de política simbólica e não uma vitória qualquer. Um ativista dos direitos civis nos anos 60 e 70, ao ver a vitória de Obama, me disse: “Durante todos os anos tenho me considerado um afroamericano, mas a partir de hoje tenho a impressão de que eu sou simplesmente um americano”. É uma transformação simbólica de identidade.

Depois que a autoestima dos americanos foi completamente corrompida pela incompetência, avareza, belicismo inconsequente e absolutamente frustrante, esta transformação é importante para os Estados Unidos. Foram guerras ilegais e agressivas que não resolveram nenhum dos problemas apontados, exceto aquele objetivo nunca confessado, que era assegurar o controle da produção de petróleo no Oriente Médio.

Apesar de terem sido grande referência para muita gente no mundo, já que a globalização cultural é também a americanização através da grande indústria do entretenimento, a imagem dos EUA degradou-se extraordinariamente, a tal ponto que os americanos às vezes tinham vergonha de visitar alguns países, uma situação absolutamente inaudita para eles. É evidente que deste ponto de vista a eleição do Obama permitiu o orgulho de outra vez serem americanos.

Isto pode ser bom e pode ser mau. Pode trazer de volta o triunfalismo e o sensacionalismo porque foram capazes de fazer o provável pior presidente dos EUA, Bush, mas também de eleger um negro num país que teve uma situação de escravatura e discriminação racial tão fortes.

Fórum – E para além dos Estados Unidos?

Boaventura – Essa eleição também é importante para a Europa, que tem uma certa arrogância em relação aos EUA. Mas o que aconteceu nos Estados Unidos não podia acontecer lá. A Alemanha tem 800 mil cidadãos turcos, em uma população de imigrantes por volta de 3 milhões. A França também tem muitos imigrantes com cidadania. Mas quando olhamos para seus parlamentos a composição é quase totalmente branca. Na Inglaterra, de 600 membros da Casa dos Comuns, 15 pessoas não são brancas. Dá-me a impressão de que a Europa se vê em um contrapé da história, porque os EUA são capazes de eleger um presidente que não tem a história a que os europeus se habituaram como sendo as suas próprias, sobretudo depois do que temos visto com a xenofobia, as leis de imigração, os Berlusconi e Sarkozy que têm transformado a Europa em uma fortaleza, a se defender sobretudo dos imigrantes, e que tenta evitar a todo custo que eles possam se estabilizar com suas famílias, que suas culturas possam enriquecer a cultura do continente.

Não podemos minimizar em termos políticos o significado da vitória de Obama. É evidente que ela ocorre no pior período dos Estados Unidos, e talvez só por isso tenha sido possível. Não só por causa das guerras que não se pode ganhar e que foram erradas desde o primeiro momento, mas também da crise financeira que vai ter certamente as mesmas dimensões da Grande Depressão.

Nesse momento de declínio entra um homem de uma etnia que não é a eurocêntrica que sempre dominou os EUA. Ele pode ter algum êxito e ser a afirmação que a diversidade deste país enriquece politicamente. E, se as coisas correrem mal, tenho certeza de que muitos racistas deste país – que não deixou de ser racista no dia 4 de novembro – vão dizer que as coisas não deram certo porque um negro não deu conta da situação

Ele já trouxe inovações extraordinárias de campanha que foram uma vitória para a democracia liberal. Não para a democracia participativa, como a defendemos, mas com alguma virtualidade desta. Um novo conceito entrou no vocabulário político, que são os netroots, pessoas que contribuíram com seu dinheiro, percorrendo bairro a bairro, exatamente uma estratégia das organizações comunitárias, e que o levaram ao poder. Num cenário otimista, se estes grupos não se desarmarem, continuarem ligados, mantiverem a sua rede, sua lista, poderão e deverão cobrar o presidente por promessas que, sem essa cobrança, ele não viria a cumprir. E esta energia não terminaria nas eleições. É uma suspensão histórica que acontece em determinados momentos. Como eu disse, é a realidade que foi almoçar e vamos ver como regressa do almoço. E ela está a regressar.

Fórum – Há sinais de algum movimento organizado já cobrando Obama, como por exemplo o chamado feito na imprensa estadunidense pelo movimento das Liberdades Civis para que já no primeiro dia o presidente tome algumas medidas para sinalizar a disposição de mudança, entre elas a de fechar Guantánamo. Que medidas tomadas no início poderão indicar o rumo que terá esse governo?

Boaventura – De alguma forma aconteceu nos EUA algo comparável ao que aconteceu com o Lula, quando alguém de um grupo discriminado, um metalúrgico, chegou à presidência do Brasil. De alguma maneira os movimentos sociais, com exceção talvez do MST, se desarmaram um pouco no primeiro momento, porque tinham um amigo no Planalto. Não pode acontecer isso nos Estados Unidos. Os movimentos não podem se desarmar, e muito especificamente o movimento negro e o movimento dos direitos civis, que são muito grandes.

Política simbólica é algo que tem efeitos reais imediatos mas que não afeta o sistema no seu núcleo duro. Fechar Guantánamo é uma coisa que se pode fazer, não é tão difícil. São 255 detidos dos quais. São todas pessoas detidas ilegalmente e, se não há nenhuma razão para estarem lá, por que não soltá-los?

Por outro lado há os que devem ser julgados. O próprio Obama já disse que as comissões militares são tribunais fantoches, uma farsa de Justiça, e portanto devem ser julgados em tribunal convencional. Pode ser um sistema novo, porque no tribunal vão ser mostradas muitas provas consideradas secretas e se considera que isto afeta a segurança dos Estados Unidos. Isso naturalmente cria uma fricção dentro do próprio grupo de Obama. Mas fechar Guantánamo não é tão difícil. É preciso coragem para tirá-los de lá e pensar como poderão regressar aos seus países de origem. Em alguns casos, não poderão. E aí, com toda franqueza, por que os EUA não os podem aceitar se não há nada contra eles? Não cometeram nenhum crime como aquele caso escandaloso dos 17 chineses que foram detidos porque foram encontrados no Afeganistão, sem nada a ver com terrorismo. Foi um ato de autoritarismo da pior espécie, quase primitivo. Há uma possibilidade de Obama responder positivamente a esta demanda e é fácil acabar com Guantánamo porque é um tumor cancerígeno instalado dentro de Cuba.

Fórum – Com a celebração da vitória de Obama, o senhor disse que a realidade foi almoçar mas já estava voltando. Acho que a parte da realidade que já voltou tem a ver com as finanças mundiais. Pergunto qual a palavra certa: estamos vivendo uma crise ou um colapso do sistema?

Boaventura – Nós assistimos de fato a um colapso de uma parte, exatamente o sistema financeiro que existiu até agora. Dá-me a impressão que o neoliberalismo se autodestruiu. Se calhar, nem foi derrubado pelos movimentos sociais que têm lutado contra os paraísos fiscais ou defendendo a taxa Tobin. Tantas coisas que têm sido promovidas pelos movimentos sociais para por fim a este capitalismo de cassino que funcionou nos últimos 30 anos, e ele se autodestruiu. Como Marx disse, o limite do capitalismo é o próprio capital, que tem uma ambição tão grande por acumulação que acaba por destruir as fontes que poderiam lhe dar sustentabilidade, portanto entra regularmente em crise. A crise significa o colapso do sistema financeiro, mas não é uma crise final do capitalismo, é um realinhamento que se vai dar mas não sabemos com que perfil.

É difícil caracterizar essa crise. Tudo leva a crer que pelo menos nos próximos anos, se não houver uma política agressiva de promoção de emprego, teremos uma recessão. É preciso lembrar que a recessão de 1929 só chegou ao bolso das famílias em 1933, levou tempo porque o sistema tem uma certa inércia. Mas não estamos em 1929 e penso que existem muitos mecanismos internacionais que não existiam antes e que agora estão a forçar o controle da crise.

Uma reivindicação dos movimentos sociais é acabar com o Banco Mundial, FMI e OMC, e que se volte o sistema para as Nações Unidas e a Unctad e instituições onde a Assembleia da ONU tenha um papel mais democrático. O FMI foi autorizado agora a analisar a situação dos Estados Unidos, mas é ridículo, eles não vão se deixar analisar pelo FMI, tampouco pelas organizações dos direitos humanos quando as violações são óbvias neste país.

Um dos papeis fundamentais vai ser jogado pelos países que, desde o primeiro Fórum, dizemos que só se eles se unissem teríamos uma mudança no sistema. Os grandes países periféricos, de desenvolvimento intermediário, e com uma população grande, que são o Brasil, Índia, África do Sul e talvez a China; se estes países se unissem, este sistema hipócrita que impõe o liberalismo a todos, menos na Europa e nos EUA, acabaria. Para esses países, é uma janela de oportunidade para impor outras regras. Os próprios chineses estão muito divididos, porque investiram demasiado nos EUA, ao contrário do Brasil e da África do Sul, e estão muito mais dependentes do futuro da economia norte-americana. A última coisa que podem querer é o aprofundamento da crise.

Lula deixa muito claro que não pode tolerar o alinhamento total com os EUA, pelo contrário, fez um alinhamento em termos econômicos, de promoção neoliberal, mas politicamente escolheu uma certa solidariedade com os países irmãos na América Latina. Esse regionalismo a emergir na região é muito evidente também na África, com a proposta de uma unidade monetária como na Europa, e também na Ásia há sinais de um certo regionalismo que atende mais às necessidades dos países. Se assim for, poderíamos ter relações menos imperialistas e mais difusas em função de o mundo ser mais partilhado por estes grandes regionalismos que podem enfrentar Europa e EUA.

Eu, ao contrário dos que pensam que a solução tem de vir da Europa e dos EUA, penso que eles precisam ser pressionados pelo resto do mundo, porque é fora dos EUA e da Europa que hoje estão as energias transformadoras do sistema. O Brasil, por exemplo, está numa posição diferente, mas se houver uma recessão na China ela vai se refletir no Brasil. Agora, a arrogância unilateral dos EUA, a arrogância unilateral das organizações multilaterais, que são multilaterais apenas no nome, essa terminou. Portanto, vamos ver como as coisas vão se posicionar e que janelas de oportunidades existem para algumas questões no movimento social. Por exemplo, para a Via Campesina, é muito importante eliminar o capital especulativo nesta área de soberania alimentar. No momento, há aqui alguma oportunidade quando as estruturas hegemônicas estão um pouco fragilizadas. Mas não sabemos até que ponto.

Fórum – O presidente Lula, na discussão em Washington sobre a solução para a crise internacional, fala em concluir a rodada de Doha, e isso soa um pouco estranho ao movimento social depois de tanta luta para desgastar a OMC, que hoje realmente não tem mais o papel que pretendia. O que o senhor pensa disso?

Boaventura – O Brasil é a ambiguidade dos países semiperiféricos, tem uma capacidade de manobra que lhe dá uma certa arrogância neste momento. Nota-se na área da biotecnologia, porque o Brasil tem uma grande diversidade, mas tem também uma indústria biotecnológica que quer produzir e portanto as suas posições na área do patenteamento da biodiversidade são muito ambíguas.

A diplomacia brasileira é que tem sido muito boa em muitos níveis. O desgaste dos Estados Unidos e do sistema que até agora era imposto na Organização Mundial de Comércio (OMC), e contra o qual o Brasil lutava ao questionar o protecionismo na Europa e nos EUA, criou novas possibilidades para o que este grupo vinha colocando dentro da OMC. O que temos de ver é se o que é bom para o Brasil é também para os países do Quarto Mundo, os periféricos, que não estão nesta fatia intermediária do rendimento mundial. Estou falando da África e de muitos países da América Latina, da Ásia e de muitos outros que são dependentes em relação a estes países, como a Tailândia é em relação à China. Eu ainda temo que este regime seja tão viciado que as potências intermediárias, como no caso brasileiro, quando têm alguma capacidade de manobra, comportem-se como virtuais potências hegemônicas.

Aqui, o distanciamento de um Chávez é muito salutar. Ou nós temos uma lógica não-capitalista, uma lógica outra, ou não vamos a lado nenhum. E o Brasil não tem tido de modo nenhum esta posição, pelo contrário: faz desalinhamento político mas alinhamento econômico, o que funcionou até agora porque coincidiu com o grande boom da China, que resolveu muitos problemas brasileiros, se não contarmos com os indígenas e camponeses que estão sofrendo com o alargamento da fronteira agrícola e a destruição da Amazônia, que ocorre no Pará e no Mato Grosso do Sul. Mas isso obviamente permitiu ao Brasil o que até agora não tinha tido, que é uma certa autonomia em relação ao FMI e portanto houve um segundo Grito do Ipiranga: Nós podemos ditar nossa política.

Mas a burguesia nacional, altamente transnacionalizada desde a ditadura, não mudou com a democratização, está totalmente vinculada a este sistema, e quando tem qualquer margem de manobra para ter os seus lucros, não vai querer mais mexer no sistema e nem nesta ideia de que não se pode ter tratado de comércio sem direitos sociais e econômicos e sem uma outra política ambiental. Porque há uma crise econômica, energética e climática. Não podemos usar a lógica economicista do neoliberalismo, temos de usar uma lógica mais ampla, e o Brasil está relativamente atrasado porque entrou naquela onda do agrocombustível, que se chama no Brasil biocombustível, mas que é um nome errado porque não é energia renovável e é extremamente destruidor da soberania elementar. Energia renovável são os ventos, o sol e as ondas. O Brasil não tem mostrado muito interesse nisso mas sim nos combustíveis fósseis e no agrodiesel. Como vai se comportar neste momento que vai trazer as questões climáticas para o centro das discussões, mesmo nos EUA.

Foi um erro do Lula desvincular-se de algumas outras políticas ambientais que estavam em curso para uma aliança com os EUA, não se dando conta de que seria de curta duração porque não é uma energia renovável. No domínio energético e climático não vejo o Brasil muito bem equipado para uma resposta inovadora porque não foi por aí que a diplomacia se orientou. Mas vamos ver porque não acredito muito naquilo que os governos podem fazer, mas no que os movimentos podem pressionar.

Penso que o FSM pode assumir uma liderança maior, com espaço aberto. Se os movimentos sociais estivessem preparados com propostas muito concretas do que pode ser feito, neste momento de suspensão do sistema mundial devido à crise e ao novo governo dos EUA, penso que algumas alianças poderiam ser feitas com organizações e mesmo com partidos dentro do establishment que percebem que suas soluções não funcionaram.

Fórum – Então vou citar uma fala de Chomsky que não vê nessa crise o ocaso da economia dos EUA e que também não vê sinal de alternativas construídas pelo movimento para um momento destes, em um artigo bem recente. Em sendo verdade, isto significa que o processo do FSM falhou ao afirmar a possibilidade de outro mundo?

Boaventura – Estamos provavelmente em um processo de transformação que é quase simétrico a este outro que nós estamos analisando. Desde o final de 1989, quando tivemos a queda do Muro de Berlim, aquelas alternativas socialistas, pelo menos as que haviam sido desenhadas ao longo do século XX, entraram em crise. Muita gente pensou que era só a revolução e o socialismo que estavam em crise, mas que o reformismo socialdemocrata, pelo contrário, teria sua vingança e o seu momento de apogeu. Longe disso. Quando morreu a revolução, morreu também o reformismo socialdemocrata. O capitalismo livre de quaisquer ligações e regulações keynesianas dos Estados tentou libertar-se dos direitos laborais e da regulamentação e foram estes anos que nós tivemos.

No fundo, a busca do Fórum Social Mundial de uma sociedade alternativa começou com uma crise que agora atinge este sistema. Começou no final da década de 80 e foi um período de rejeição e um grande inconformismo com a situação de desigualdade social dos últimos anos. E também uma maturidade que ajuda a florescer um sentimento muito vago de que não temos alternativas. Por isso que a gente diz que um outro mundo é possível, é um “outro mundo” porque não sabemos qual é esse mundo.

Para muitos movimentos, falar do socialismo é um erro. Se vamos para a África ou para a Ásia vão nos dizer que o socialismo é uma armadilha eurocêntrica como qualquer outra. Não sou tão negativo como Chomsky e é curioso que um intelectual por quem temos um grande respeito possua essa ambiguidade que vem do movimento anarquista. Por um lado, fazem uma luta por todos os movimentos de base e têm uma desconfiança total dos Estados terroristas, mas todos os Estados o são, a começar pelos Estados Unidos. São grandes críticos deste sistema mas ao mesmo tempo são maximalistas.

Se quisermos uma revolução ou uma alternativa verdadeiramente pós-capitalista, não imagino que isso seja possível sem termos um Estado que seja efetivamente democrático e popular. Nunca uma ditadura de um partido único. Mas enquanto não tivermos um governo mundial, democrático, que seria o sonho do movimento social internacionalizado mas que está como uma possibilidade utópica, nós, os movimentos sociais em nível regional e internacional, poderíamos ter interlocutores fortes com quem se possa promover políticas fortes. E não conheço nenhuma instância que garanta direitos senão os Estados. Vamos entrar no domínio das religiões e da filantropia? Francamente, não é uma solução socialista.

Eu acho que o movimento de esquerda deixou-se desarmar extraordinariamente nos últimos anos, exatamente porque aquela alternativa não era possível, o marxismo deixou de estar na moda, deixou de estar na agenda, de estar nas universidades, no movimento social. Curiosamente está voltando porque a situação financeira veio a provar que Marx tinha muita razão na análise que fazia da sociedade capitalista. O marxismo regressa, mas só pode regressar parcialmente, como uma análise lúcida das crises do capitalismo e, portanto, de que é preciso uma sociedade pós-capitalista. Mas uma sociedade assim não pode ser aquela nos termos em que previu.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

ATOS PÚBLICOS MARCAM SEGUNDO DIA DO FÓRUM MUNDIAL DA SAÚDE

Ana Rogéria, editora de Adital, de Belém (PA)

Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (ADITAL)

21 janeiro 2009/ ADITAL http://www.adital.com.br

Adital - Implementação de sistemas públicos universais, pressão para que os governos rejeitem a lógica capitalista de serviços básicos, articulação para que haja melhorias na saúde pública em todo o mundo. Estas são algumas das principais demandas do III Fórum Social Mundial da Saúde, que realiza hoje (26) um ato público, com a presença do ministro da Saúde, José Temporão.
Valdevir Both, membro do Centro de Educação e Assessoramento Popular (Ceap), da secretaria executiva do evento, fala sobre a mobilização e sobre outros assuntos que acercam a saúde pública.
Adital - O III Fórum Social Mundial da Saúde realiza hoje um ato público chamando atenção para temas bastante urgentes da saúde. Poderia falar um pouco sobre isso?
Valdevir Both - Nós temos dois temas, inclusive com a presença do ministro da Saúde do Brasil, José Temporão, e das representações de importantes segmentos não só do Brasil, mas dos outros continentes. Vamos lançar dois grandes temas que se articulam. O primeiro deles é o tema do SUS enquanto patrimônio público da humanidade. O sistema público brasileiro é um acúmulo construído com princípios da integralidade, a universalidade, a equidade. São patrimônios que consideramos que é preciso ampliar para um conjunto maior. Por meio deste debate queremos afirmar políticas públicas para a saúde.
O segundo é o tema da Conferência Mundial sobre os sistemas de saúde e de seguridade social. A proposta é realizarmos no Brasil, no final deste ano, uma grande conferência com a participação da sociedade e dos governos, da comunidade internacional, para discutirmos os grandes desafios da implementação dos sistemas públicos de saúde e de sistemas universais que garantam direitos. A análise fundamental será como fortalecer os países que já possuem, os países que estão na implementação de sistemas públicos, como o Paraguai, e os países que ainda estão no debate para criar sistemas universais. Os dados indicam que os sistemas públicos são muito mais justos, mais eficientes para garantir o direito à saúde.
Adital - O FSMS foca muito a questão do neoliberalismo. Como se embasa esse pensamento na saúde?
Valdevir Both - Na verdade a tese capitalista neoliberal defende um estado mínimo. Ou seja, quanto menos tivermos o Estado, do ponto de vista social, para o neoliberalismo é melhor. Para nós é o inverso. O Estado tem um papel de garantir e efetivar direitos. Um Estado que não faz isso não serve. Então, a consequência disso para a saúde é que nós precisamos de um Estado que fortaleça a política pública e, no caso brasileiro, em países que têm princípios universais de saúde, o Estado precisa ter uma incidência fundamental. Assim, temas como o financiamento da política pública, a valorização dos trabalhadores da saúde, o patenteamento dos medicamentos, que hoje é um grande problema, estão em pauta. Se nós continuarmos na lógica de sustentar patentes, sobretudo de medicamentos, para as grandes empresas não há política e sistema público que dê conta.
Outro tema central é que o Estado precisa assumir a direção da política. Hoje há um problema seríssimo com o sistema privado, que está se impondo sobre a lógica pública e mais do que isso, se impondo sobre direitos. Qual é o problema do mercado? No mercado você só existe enquanto ser humano se você tem como pagar. Não é isso que queremos. Queremos uma política pública que efetive direitos. Essa é a grande ênfase.
Adital - Como está avaliando esta terceira edição do Fórum?
Valdevir Both - Em sua terceira edição, o Fórum Social Mundial da Saúde tem uma participação de 800 a 1.000 delegados, superando nossa expectativa. Temos participação de todos os continentes. Evidentemente a participação maior é latino-americana, e brasileira. Então, essa participação toda é muito importante no sentido da articulação internacional nesse tema específico da saúde.
O FSMS se realiza coordenado com o Fórum Social Mundial num momento de crise do modelo capitalista e hegemônico atual. Isso nos chama para um debate estrutural no sentido da importância de termos um debate muito mais profundo sobre as raízes das desigualdades e da mercantilização dos direitos.

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Secretário do PCdoB defende condenação do Brasil a Israel

De São Paulo, Priscila Lobregatte

Blogue Somos Todos Palestinos http://somostodospalestinos.blogspot.com

Atuante na luta antiimperialista, pela soberania e direitos dos povos, o PCdoB tem incentivado seus militantes a integrarem as manifestações que acontecem por todo o país contra o genocídio na Faixa de Gaza. Um dos principais momentos de mobilização ocorrerá na abertura do Fórum Social Mundial, dia 27, em Belém. Em entrevista ao Vermelho, o secretário de Relações Internacionais do partido, José Reinaldo Carvalho, analisa a situação e defende a condenação enérgica pelo governo brasileiro às ações de Israel e o apoio à causa palestina.

Qual seria a saída para o fim dos conflitos entre Israel e Palestina?

A saída é muito difícil porque as razões que levaram a essa nova escalada são históricas e a situação é complexa. Só vejo solução se os problemas históricos e de fundo forem enfrentados. De qualquer maneira, é preciso lutar de imediato pela suspensão dos bombardeios, da ocupação terrestre e contra o cerco à Faixa de Gaza, assim como contra a campanha de aniquilamento da Resistência. É preciso também acabar com essa hipocrisia de dizer que as partes que estão negociando vão promover uma trégua e que o pressuposto é que o Hamas “pare de dar tiros”, como se se tratasse de uma guerra entre dois exércitos. O que há ali é massacre e uma luta desigual. Israel não pode continuar impunemente submetendo a população palestina e as forças da Resistência a uma operação de cerco e extermínio.

Porém, os problemas na região remontam à criação do Estado de Israel...

O Estado de Israel foi criado na base da usurpação do território da Palestina. Quando a Assembléia Geral das Nações Unidas de 28 de novembro de 1947 determinou, através da Resolução 181 a criação do Estado de Israel, estabeleceu também a criação do Estado da Palestina. Havia, então, a expectativa de que ambos os estados seriam capazes de conviver em harmonia. O que aconteceu, no entanto, é que desde então Israel foi se expandindo cada vez mais e inviabilizou a criação do Estado palestino. Não há o que tergiversar sobre isso. E mais: houve a guerra de 1967, quando Israel ocupou ainda mais territórios palestinos e árabes, revelando-se um Estado expansionista na região do Oriente Médio. Além disso, todo o processo de colonização dos territórios que passaram a ser de Israel foi feito na base da usurpação de terras das famílias palestinas, o que gerou um grande êxodo. Existem cerca de 4 milhões de refugiados. Por tudo isso, além da questão imediata deste conflito, é preciso avançar para a criação do Estado da Palestina livre, independente, com plena soberania, tendo por capital Jerusalém Oriental. Enquanto estas questões não forem resolvidas, não haverá paz na Palestina.

E os Estados Unidos têm papel fundamental no acirramento dos conflitos...

Sim. A resolução 242 da ONU, posterior ao conflito de 1967, determina a devolução de todos os territórios ocupados então e a criação do Estado Nacional Palestino. Então, quem está violando o direito internacional é Israel e os protetores de Israel, ou seja, os países imperialistas, especialmente os Estados Unidos, mas também a União Européia. A situação se complica com a tentativa dos Estados Unidos de impor o chamado Plano de Reestruturação do Oriente Médio, um engendro da Administração Bush, que corresponde às ambições hegemônicas do imperialismo norte-americano. Israel é a cabeça de ponte para a realização desse plano; é um Estado artificial que existe em nome dos interesses do imperialismo. É por isso que Israel guerreia não só contra os palestinos, mas também contra o Líbano, contra a Síria e outros países da região. E é por isso que urde planos para agredir o Irã. E, claro, desta estratégia faz parte também o apoio dos EUA a regimes árabes reacionários, que se comportam como “cavalos de Tróia” dentro do mundo árabe.

Que peso tem a vitória obtida pelo Hamas nas eleições parlamentares de 2006 nos conflitos atuais?


É curioso. Os países imperialistas aparecem como paladinos da democracia, exigiram eleições na Palestina e chegaram a monitorá-las. O Hamas se apresentou como força política, aceitou jogar as regras eleitorais e foi o vencedor daquelas eleições por conta de sua força política. Porém, esses mesmos países que supostamente defendem a democracia não reconheceram a vontade do povo palestino. Ou seja, para eles as regras democráticas só valem se uma determinada força ganha a eleição. A não aceitação dos resultados eleitorais e o anúncio do bloqueio dos fundos da Palestina feitos por Israel, Estados Unidos e União Européia certamente contribuíram para deteriorar a situação, que culminou com o sítio a Gaza, inviabilizando o suprimento do território em gêneros de primeira necessidade e medicamentos. O problema, portanto, não está no fato de ser o Hamas, islâmico e xiita. O problema é que Israel, os EUA e a UE não aceitam a emergência de forças da Resistência nacional. O mesmo acontece no Líbano com o Hezbollah.

Como se deu o fortalecimento de organizações com o Hamas e o Hezbollah?

Houve um momento importante na luta dos povos árabes durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, quando emergiu o nacionalismo pan-árabe, formado por importantes forças republicanas, laicas, patrióticas, que chegaram ao poder em vários países árabes como fruto de revoluções nacionais, democráticas e anti-monárquicas. Uma das grandes figuras desse período foi o presidente (Gamal Abdel) Nasser, no Egito. Essas forças entraram em decadência por razões variadas e isso levou à emergência do que se chama de fundamentalismo islâmico. Tanto o Hamas quanto o Hezbollah crescem no vácuo deixado pelo enfraquecimento dessas forças e, claro, pelos seus méritos próprios como forças políticas capazes de se ligarem ao seu povo e de defender a identidade nacional, levando esta luta às últimas conseqüências. Existe, claro, um componente religioso, que é habilmente explorado pelo inimigo para semear a divisão das forças patrióticas e da Resistência nacional. Nós, comunistas, não concordamos com a idéia de um Estado teocrático, mas reconhecemos nessas organizações forças ligadas ao povo e cuja atuação tem sentido antiimperialista.

No conflito atual, como analisa a atuação dos principais países do tabuleiro político internacional, especialmente Estados Unidos e França?

O imperialismo norte-americano demonstrou, mais uma vez, seu apoio indeclinável a Israel. Bloqueiam qualquer possibilidade de o Conselho de Segurança da ONU tomar medidas efetivas em favor do cessar-fogo. A última Resolução foi um pedido de cessar-fogo, com a abstenção dos EUA. Esta potência imperialista propagandeia – com o apoio da mídia pressurosa em difundir esta idéia – que Israel está se defendendo do Hamas. Isso é falso. Tentam transformar o agressor em vítima. O imperialismo atua no sentido de legitimar os ataques e o genocídio e corrobora a estratégia israelense de aniquilar a Resistência palestina. A União Européia age no mesmo sentido. Os presidentes da França e da República Tcheca (esta última no exercício da presidência da UE), por exemplo, declararam seu apoio a Israel na luta contra o Hamas. Por isso o Hamas repudiou a intervenção da UE e em particular da França classificando-a como parcial, por tomar o lado de Israel. O presidente Nicolas Sarkozy envergonhou a França com o comportamento de trapalhão durante a semana passada trombeteando ter patrocinado um acordo de paz, sendo imediatamente desmentido por todas as partes envolvidas. Diga-se entre parênteses que poucas semanas antes ele veio ao Brasil desfrutar das demonstrações de sabujice de setores das classes dominantes brasileiras e da mídia que o paparicaram e fizeram com que se sentisse um imperador. Veio tentar atrair o Brasil e o Mercosul para a área de influência da União Européia. No que se refere ao Oriente Médio a UE pretende ocupar uma posição de destaque na crise. O plano apresentado por França e Egito é inócuo porque nem de longe faz menção clara à questão principal já referida aqui: criar um Estado palestino livre, independente e autônomo. Por fim, fazem parte das metas da União Européia a criminalização do Hamas e do conjunto da Resistência palestina.

E a postura do governo brasileiro?

Entre as forças políticas que integram o governo brasileiro, o PCdoB é uma das que mais valorizam a política que o presidente Lula e sua chancelaria têm feito em relação ao Oriente Médio. O ponto alto foi a realização da Cúpula América do Sul e Países Árabes, que atraiu a hostilidade dos EUA e de Israel. Foi muito positiva a declaração espontânea do presidente Lula quando condenou os EUA por impedirem uma ação da ONU em favor do cessar-fogo na crise atual. Corajosamente, criticou a própria ONU. Mas, me permito dizer que a posição formal do Itamaraty apenas “deplorando” a agressão israelense por ser “desproporcional” é uma posição tíbia, digamos, tecnicista, protocolar. É preciso condenar os ataques. A clareza política não pode ser obnubilada pelos rituais diplomáticos. O Brasil deve jogar um papel mais afirmativo em favor da causa palestina e condenar o terrorismo israelense. O presidente Lula deveria, inclusive, rever a decisão de visitar Israel este ano. Além disso, o Brasil não pode permitir que se concretize a proposta de realizar um acordo bilateral entre o Mercosul e Israel. Nossa diplomacia, que com muito talento desmontou a Alca, deveria ajudar a desmontar essa proposta. Aproveito para aplaudir a atitude do presidente Hugo Chávez de romper relações com Israel. O Estado terrorista e genocida de Israel merece ser repudiado e sancionado pela comunidade internacional.

Que papel o PCdoB pode desempenhar neste momento?

O PCdoB luta pela paz e apoia os esforços pela paz e, de imediato, para que cesse o genocídio e a crise humanitária em Gaza. Mas, é preciso que se apresentem planos sérios, factíveis. Será inócuo qualquer plano de paz que não parta de uma condenação clara à ofensiva israelense, de uma caracterização clara de que Israel está fazendo um genocídio e de uma exigência impositiva de que acabem imediatamente com os bombardeios e a ocupação em Gaza. Estamos orientando nossa militância a realizar manifestações em todo o Brasil, fortalecendo as organizações que lutam pela paz e praticam a solidariedade internacionalista, participando dos protestos e contribuindo para fortalecer a unidade do movimento pela paz. Estamos principalmente conclamando nossa militância, quadros e organizações sob nossa influência a transformarem o ato público de abertura do Fórum Social Mundial em Belém, dia 27, num grande ato contra o genocídio perpetrado por Israel nos territórios palestinos. O partido estará lá cumprindo seu papel de força internacionalista e solidária.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Brasil/FSM assume a diversidade amazônica

Por Mario Osava, da IPS

Rio de Janeiro, 5 novembro 2007 – O Conselho Internacional do Fórum Social Mundial realizou na semana passada, em Belém (PA), uma reunião para preparar os próximos passos dos “altermundistas”, incluindo a oitava edição do FSM que acontecerá em janeiro de 2009 e que será amazônica. O encontro reuniu mais de cem representantes de todos os continentes e também tratou do Dia de Mobilização e Ação Global, que consistirá em milhares de manifestações a serem realizadas no dia 26 de janeiro do próximo ano, em lugar de uma concentração mundial, que acontecerá em 2009.
O FSM é um âmbito de encontro e debate de uma variada gama de organizações e movimentos, cujo denominador comum é sua rejeição ao atual rumo da globalização econômica e a busca de outros modelos de globalização. Daí serem chamadas também de “altermundistas”. Mas, o Conselho Internacional decidiu reunir-se em Belém como ato de apoio e aproximação a essa cidade de 1,4 milhão de habitantes, escolhida como sede do Fórum 2009, disse Cândido Grzybowski, um dos principais organizadores do FMS e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
“Foi animador conhecer a densidade dos movimentos sociais e organizações amazônicas, que asseguram o êxito do Fórum em Belém”, disse Grzybowski à IPS. Os grupos participantes já avançaram “tanto em organização quanto em idéias”, desde que em maio o Conselho Internacional escolhe a sede da próxima edição centralizada do FSM, acrescentou. a cidade foi escolhida como forma de destacar a importância da Amazônia para o mundo. Belém é a porta de entrada para essa região compartilhada por oito países e que concentra uma grande parte da diversidade biológica mundial e onde o desmatamento causa temores e protestos em todas as partes.
Também faz parte da Amazônia a Guiana Francesa, remanescente colonial que será um tema importante no FSM de Belém, destacou Grzybowski, acrescentando que o grande encontro dará visibilidade à diversidade da população amazônica, que compreende indígenas, quilombos (comunidades descendentes de ex-escravos africanos), povos ribeirinhos e outros, sem esquecer o drama dos trabalhadores submetidos a condições de escravidão. Não só estará em questão a independência da Guiana da França como, também, “as conseqüências de sua situação para a América Latina, especialmente para os países amazônicos”, disse à IPS Jean Michel Auboint, representante da União de Trabalhadores da e da Organização de Direitos Humanos dessa colônia francesa.
Com exemplos de efeitos negativos Auboint apontou a militarização e possíveis agressões, a apropriação de conhecimentos tradicionais e de recursos naturais por parte da potência colonizadora e as restrições à livre circulação, que é uma tradição cultural entre os povos locais, como os indígenas e os quilombolas (habitantes dos quilombos). “Os indígenas não têm direitos legais na Guiana Francesa”, ressaltou.
O FSM realizou suas três primeiras edições em Porto Alegre, seu berço e símbolo por ter desenvolvido várias idéias democratizantes, como o orçamento participativo. Em 2004, o encontro anual mudou para Mumbai, na Índia, e voltou à capital gaúcha no ano seguinte. Em 2006, foi aprovada uma edição policêntrica em três continentes, com encontros em Caracas (Venezuela), Carachi (Paquistão) e Bamako (Mali). Este ano, Nairóbi, capital do Quênia, retomou a tradição de apenas um encontro mundial, mas, pôs fim à periodicidade anual. O FMS agora é bienal e 2008 será dedicado a manifestações locais em diferentes lugares do mundo.
Em seu balanço da mobilização que é preparada para 26 de janeiro próximo, o Conselho Internacional comprovou que haverá uma grande diversidade de atos e iniciativas. Belém organizará seminários e duas grandes manifestações para afirmar-se como uma referência do movimento por “outro mundo possível”, ou “altermundista”. No Rio de Janeiro um espetáculo na praia encerrará o ato “Rio com vida”, para ressaltar a preocupação local com a segurança, enquanto São Paulo promoverá um encontro de quatro dias pelo direito à educação, enquanto seminários e campanhas acontecerá em outras cidades brasileiras, informou Salete Valesan, do Instituto Paulo Freire e permanente organizadora desses encontros.
A comunicação ganhou uma importância-chave neste processo “pulverizado de manifestações em todo o mundo, para dar visibilidade e estabelecer a conexão entre tantas atividades. Por isso, o Conselho Internacional aprovou a criação de um site interativo (www.fsm2008.net) com variadas ferramentas que permitirão informar, inclusive de forma audiovisual, sobre as múltiplas ações, disse à IPS Antônio Martins, da Associação por uma Taxa para as Transações Financeiras e Ajuda aos Cidadãos (Attac). Cada organização, “por menor que seja”, poderá proporcionar informação sobre suas mobilizações. Outra iniciativa convida profissionais e amadores a fazerem vídeos de até um minuto de duração para compor uma “história audiovisual coletiva’ da Ação Global que se estenderá por vários dias antes e depois de 26 de janeiro.
O conselho deu “passos gigantescos” na organização do FSM, destacou Grzybowski. Decidiu-se criar um Grupo de Enlace, formado por 11 titulares e cinco suplentes, com representação de todos os continentes e equilíbrio de gênero, para suceder o grupo brasileiro de organizadores que até agora se encarregou dos trabalhos administrativos do movimento. Além disso, houve avanço em um plano para obtenção de recursos de forma permanente, não apenas voltados às atividades, mas para melhor sustentabilidade do processo, buscando superar as dificuldades financeiras e organizacionais que apresentam a preparação e execução de cada edição do FMS, concluiu Grzybowski. (IPS/Envolverde)

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