16 abril 2008 / Vermelho / http://www.vermelho.org.br
Fernando Lugo acredita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá sensibilidade o bastante para rever o acordo existe entre Brasil e Paraguai sobre energia gerado por Itaipu. Favorito às eleições presidenciais do próximo domingo, o ex-bispo crê no processo de integração latino-americana em curso no continente e conta com a colaboração das autoridades brasileiras para o desenvolvimento de seu país.
Em entrevista ao sítio Terra Magazine, Lugo lembra que o Paraguai possui um déficit habitacional de 400 mil moradias (para uma população pouco superior aos seis milhões de habitantes) e cita os outros problemas sociais que serão atacados caso vença a eleição e ponha fim à hegemonia de seis décadas do Partido Colorado no poder.
Veja abaixo a entrevista:
Como o senhor fez para chegar de bispo a candidato à Presidência?
Fernando Lugo - Houve um processo de discernimento no qual se tomam todos os desafios. Vivi mais de onze anos como bispo, mais de trinta anos como sacerdote. Sobretudo em San Pedro, região mais pobre do País, fizemos uma série de atividades pastorais, sociais, de reivindicações econômicas. Víamos que tudo isso é insuficiente quando não há vontade política. Acreditamos que a política é uma ferramenta importante para alcançar as verdadeiras mudanças. Eu era diretor de um colégio, já como bispo emérito, quando um grupo significativo de cidadãos, com mais de cem mil assinaturas, me pergunta se eu não estaria disposto a deixar o exercício sacerdotal e liderar um movimento amplo, aberto, que pudesse trazer transformações ao interior do país. Isso foi um dos grandes impactos na minha vida. Este convite exigiu reflexão pessoal e afinal acabei colocando-me à disposição da cidadania paraguaia. Fiz isso no Natal de 2006, em Encarnación, na minha casa materna. Daí vem tudo o que significou a Resistência Cidadã, a Concertación, e ultimamente o que é a Aliança Patriótica para a Mudança (Alianza Patriótica para el Cambio), formada há 14 meses, que aglutina 9 partidos políticos, 20 organizações sociais, sindicais, de mulheres, de indígenas, camponesas. Estamos à frente de todas as pesquisas para as eleições de 20 de abril.
Mas isto lhe valeu críticas dentro da Igreja, principalmente por parte do Vaticano...
O Vaticano reagiu de forma coerente, não podia ser de outra maneira porque nunca no mundo houve caso similar. Não cabia precedente, eu entendo muito bem. Não esperava outra coisa, porque era um caso inédito, único. Nesses casos, mesmo a Cúria Romana reage com bastante cautela. Pesa sobre mim uma suspensão do exercício sacerdotal, por minhas atividades políticas. E isso é o que eu havia pedido.
O papa Bento XVI o considera um sucessor dos teólogos da Libertação?
Não, não sei, não sei o que o papa vai achar, verdade... (risos).
Aqui no Paraguai, nunca estudamos a Teologia da Libertação na minha época de estudante, o fizemos, sim, no Equador. Eu estive lá por cinco anos como missionário e foi meu primeiro contato com os teólogos da Libertação, pela experiência pastoral com o senhor Leônidas Proaño, também com a diocese dos bascos no Equador, e isso foi para mim um "abrir os olhos", uma experiência pastoral nova, uma experiência de igreja que acredito ter pesado muito em minha experiência pessoal.
Que aspectos da Teologia da Libertação são retomados em seu projeto político e social para o Paraguai?
Sobretudo a participação. A Teologia da Libertação, do ponto de vista pastoral, dá muito espaço à participação laica. Na diocese de San Pedro temos a experiência de mais de mil comunidades eclesiásticas de base, nas quais ninguém pode ser um cristão anônimo, ninguém pode ser um cristão que esteja olhando de longe a experiência eclesial, tem que entrar na comunidade, participar com os diversos carismas e responsabilidades que têm os laicos. Este também vai ser um governo democrático e participativo, que pede a participação de todos os escalões da sociedade.
Como o senhor vê o contexto regional para seu projeto?
Nós acreditamos que ele favorecerá a entrada do Paraguai na dinâmica de uma mudança real no país para que não sejamos uma ilha nem um oásis na conjuntura regional. Os governos de Brasil, Argentina e, sobretudo, Uruguai, para formar o Mercosul, precisamos dessa comunhão de exercício do poder e do fortalecimento democrático da região. Todos estamos saindo, alguns há mais tempo do que outros, das ditaduras ferrenhas das décadas de 60, 70 e 80... Nós fomos os últimos a sair dela. Marcou também um medo, uma apatia da participação cidadã, mas creio que hoje nos colocamos à altura dos acontecimentos e acreditamos que nas próximas eleições haverá um alto índice de participação, o que lhe confere legitimidade e legalidade aos candidatos eleitos.
Qual é o balanço de sua recente visita ao Brasil?
Em primeiro lugar, fomos a Brasília simplesmente como cidadãos paraguaios e também como candidatos à Presidência da república do Paraguai. Agradecemos o gesto do presidente Lula que teve a cortesia de nos receber e ainda mais de abordar temas de interesse comum, dentre os quais, sem dúvida alguma, ressalta os temas dos "brasiguaios", de Ciudad de Leste, da tríplice fronteira de Itaipu, do comércio, da integração do Mercosul. Durante pouco mais de uma hora de diálogo, no qual também estiveram presentes o chanceler Celso Amorim e o conselheiro Marco Aurélio Garcia, tivemos um marco de exemplo de respeito, de cordialidade, de um diálogo aberto e franco como creio devem ser as relações entre países irmãos.
Em que consistem suas demandas acerca da hidroelétrica de Itaipu?
Em primeiro lugar, há um tratado, o tratado de Foz do Iguaçu, assinado pelos chanceleres de Brasil e Paraguai em 1966. Neste tratado, afirma-se taxativamente que o preço da energia que um país vende a outro deve ser um preço justo. Nós achamos que o preço que o Brasil está pagando agora não é um preço justo, senão um preço de custo. Queremos que seja um preço de acordo com o mercado, e é uma das grandes reivindicações. Se conseguirmos isso, mudará substancialmente a economia paraguaia, independentemente da utilização dessa energia. O Paraguai não pode continuar um país agrário, um país pecuário, tem que tornar-se um país hidroelétrico, um país industrial.
O senhor acha que o presidente Lula poderá fazer concessões, considerando as fortes pressões internas contra ele?
Eu acho que sim. O próprio Lula disse que o Brasil não pode pensar em seu crescimento econômico às custas da pobreza de seus vizinhos. Nós admiramos muito todas as políticas sociais que tem o Brasil. Isto é precisamente o que queremos também para o nosso país. Aqui há um déficit muito alto de políticas públicas e sociais, e queremos pelo menos resolver parte disso. Acho que um preço justo para a energia de Itaipu pode nos ajudar.
Quais são os pontos centrais de seu programa de governo?
Aqui há um déficit de quase 400 mil moradias. Há um déficit na reforma agrária, que nunca foi feita de fato. Um sistema universal de saúde, o tema da reforma educacional que tem que preparar uma geração de fontes de trabalho, as vias de comunicação como obra de infra-estrutura, isso são os cinco grandes eixos que fundamentalmente nos preocupam.
O Paraguai tem margem de manobra para desgrudar-se um pouco do modelo agrícola baseado no cultivo da soja, que trouxe tanta miséria aos pequenos agricultores?
O programa do cultivo da soja é importante para o governo do Paraguai porque é a primeira fonte de investimentos na exportação, mas não quer dizer que seja o único modelo. Acreditamos que não é incompatível com a economia familiar camponesa de pequenas posses que podem associar-se em cooperativas para retirar crédito de seu trabalho e de sua produção.
Como vocês pretendem combater o risco de uma fraude eleitoral?
Historicamente, no Paraguai quase não houve eleições limpas. Há uma grande dúvida e desconfiança no Superior Tribunal de Justiça Eleitoral, mas para combater isso há um sistema que estamos elaborando, um sistema de controle eleitoral bastante eficiente até agora, e creio que isso terá seus resultados e o 20 de abril será uma grande jornada cívica, limpa e transparente que possa garantir a legitimidade das autoridades eleitas.
Quão fácil será governar depois de uma vitória? Existe o perigo de que, como acontece hoje na Bolívia, grupos poderosos possam bloquear o avanço social que os senhores propõem?
Nossos programas não são radicais, são racionais. Estamos trabalhando na formação e no fortalecimento da unidade na diversidade, num pluralismo sadio também dentro das forças democráticas que formam a Aliança. Creio que os princípios de um nacionalismo sadio, de pôr o país em primeiro lugar, de uma reativação econômica unificada com eqüidade social são os que primarão e facilitarão a governabilidade.
http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=36085
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quinta-feira, 17 de abril de 2008
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Brasil/Novos conselheiros defendem articulação internacional em políticas para juventude
Mylena Fiori/Agência Brasil
Brasília, 18 fevereiro 2008 - A articulação com outros países sul-americanos na área de políticas públicas para os jovens é defendida pelos integrantes do Conselho Nacional da Juventude, empossado hoje (18). Estudo realizado no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia mostra convergência de preocupações e expectativas dos jovens da região.
“Apesar das grandes diferenças existentes entre o Paraguai e o Brasil, ou entre a Bolívia e a Argentina, por exemplo, as demandas dos jovens destes países são muito semelhantes, com ênfase para as questões ligadas à educação e ao trabalho”, resume Maurício Santoro, integrante do Conselho e pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicos (Ibase).
Em conjunto com o Instituto de Estudos Formação e Assessoria em Políticas Sociais (Pólis), o Ibase coordenou a pesquisa Juventude e Integração Sul-Americana, apresentada hoje.
Além de educação e trabalho, o estudo identificou outras quatro preocupações comuns aos jovens sul-americanos: meio-ambiente, direitos humanos, circulação e o acesso à cultura e valorização da produção cultural dos jovens. “A pesquisa mostra o que existe de angústias, dilemas, quais as questões comuns entre os jovens sul-americanos”, destaca o conselheiro Fábio Meirelles, da organização Escola de Gente – Comunicação em Inclusão.
“O Conselho pode, e essa é uma das intenções, partir para um trabalho mais integrado com os outros países, influenciar nas reuniões especializadas, influenciar na Cúpula Social do Mercosul”, defende Meirelles. Segundo ele, isso já é feito, mas não de forma institucionalizada: “Precisamos formalizar parcerias, tentar construir uma agenda comum para a juventude, com a juventude, que fale dos problemas da juventude, para que a gente tente influenciar na elaboração de políticas públicas inclusive do Mercosul.”
Na avaliação de Maurício Santoro, “o que vimos na pesquisa é que determinados problemas só podem ser solucionados com enfoque transnacional”. Como exemplo, cita a questão das migrações, ao lembrar que cerca de 200 mil bolivianos vivem em São Paulo – a maioria jovens -, 1,5 milhão de paraguaios na Argentina e 350 mil uruguaios espalhados pela América do Sul e pela Espanha. “Não se pode pensar um tipo de política pública que lide com essa questão sem levar em conta a cooperação entre os diversos países”, reitera.
As conseqüências da integração econômica para a juventude sul-americana também devem constar de uma agenda comum, defende Santoro. Ele menciona, por exemplo, o plantio de soja por empresas brasileiras no Paraguai: “Isso está significando uma série de transformações para a juventude paraguaia, que ainda é majoritariamente rural, de agricultores familiares. Agora a sua produção não é mais competitiva com relação a estas grandes empresas – uma decisão tomada por uma empresa no Brasil afeta diretamente a política de juventude no Uruguai e, portanto, exige também um tipo de articulação com o governo brasileiro.”
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/02/18/materia.2008-02-18.9436747530/view
Leia mais:
Novos conselheiros querem ampliar diálogo com juventude brasileira
Conselho Nacional de Juventude empossa 60 novos conselheiros
Para antropóloga, participação social na construção de políticas públicas é maior no Brasil
Novos integrantes do Conselho Nacional de Juventude tomam posse
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“Apesar das grandes diferenças existentes entre o Paraguai e o Brasil, ou entre a Bolívia e a Argentina, por exemplo, as demandas dos jovens destes países são muito semelhantes, com ênfase para as questões ligadas à educação e ao trabalho”, resume Maurício Santoro, integrante do Conselho e pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicos (Ibase).
Em conjunto com o Instituto de Estudos Formação e Assessoria em Políticas Sociais (Pólis), o Ibase coordenou a pesquisa Juventude e Integração Sul-Americana, apresentada hoje.
Além de educação e trabalho, o estudo identificou outras quatro preocupações comuns aos jovens sul-americanos: meio-ambiente, direitos humanos, circulação e o acesso à cultura e valorização da produção cultural dos jovens. “A pesquisa mostra o que existe de angústias, dilemas, quais as questões comuns entre os jovens sul-americanos”, destaca o conselheiro Fábio Meirelles, da organização Escola de Gente – Comunicação em Inclusão.
“O Conselho pode, e essa é uma das intenções, partir para um trabalho mais integrado com os outros países, influenciar nas reuniões especializadas, influenciar na Cúpula Social do Mercosul”, defende Meirelles. Segundo ele, isso já é feito, mas não de forma institucionalizada: “Precisamos formalizar parcerias, tentar construir uma agenda comum para a juventude, com a juventude, que fale dos problemas da juventude, para que a gente tente influenciar na elaboração de políticas públicas inclusive do Mercosul.”
Na avaliação de Maurício Santoro, “o que vimos na pesquisa é que determinados problemas só podem ser solucionados com enfoque transnacional”. Como exemplo, cita a questão das migrações, ao lembrar que cerca de 200 mil bolivianos vivem em São Paulo – a maioria jovens -, 1,5 milhão de paraguaios na Argentina e 350 mil uruguaios espalhados pela América do Sul e pela Espanha. “Não se pode pensar um tipo de política pública que lide com essa questão sem levar em conta a cooperação entre os diversos países”, reitera.
As conseqüências da integração econômica para a juventude sul-americana também devem constar de uma agenda comum, defende Santoro. Ele menciona, por exemplo, o plantio de soja por empresas brasileiras no Paraguai: “Isso está significando uma série de transformações para a juventude paraguaia, que ainda é majoritariamente rural, de agricultores familiares. Agora a sua produção não é mais competitiva com relação a estas grandes empresas – uma decisão tomada por uma empresa no Brasil afeta diretamente a política de juventude no Uruguai e, portanto, exige também um tipo de articulação com o governo brasileiro.”
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/02/18/materia.2008-02-18.9436747530/view
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