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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Honduras/POR UMA CONSTITUINTE E O FIM DAS FORÇAS ARMADAS

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

10 julho 2009/http://www.adital.com.br

IHU - Unisinos *

"Estou escrevendo isso enquanto as lágrimas correm pela minha face, choro por meu povo, porque parece que não temos saída", confessa-nos o jesuíta, teólogo e economista estadunidense, Peter Marchetti, que é diretor de pesquisas na Universidade Rafael Landívar, da Guatemala, confiada aos jesuítas, e que residiu por alguns anos em Honduras. Assim, ele explica, na entrevista que concedeu por e-mail, quem é Manuel Zelaya e Roberto Micheletti e qual a representatividade deles para o povo hondurenho. Além disso, Marchetti fala dos Direitos Humanos e sociais em Honduras e sobre a posição da Igreja hondurenha diante do golpe militar dado no dia 28 de junho de 2009. "A situação da maioria do povo pobre piorará devido a uma suspensão do apoio financeiro internacional que será mais efetiva do que o bloqueio comercial", revela o jesuíta.
Peter Marchetti, antes de atuar em Honduras, trabalhou na Nicarágua, nos primeiros anos depois da vitória da revolução sandinista, sempre apoiando as lutas camponesas da América Central.

Confira a entrevista.

IMPASSE PERIGOSO

Antes de responder suas perguntas, quero contextualizar esta entrevista neste momento do início do impasse entre a OEA e o governo hondurenho de fato. Há algum tempo, o presidente Manuel Zelaya e o Presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas, Miguel D’Escoto (1), não puderam aterrissar no Aeroporto Tocontín por ameaças de abrir fogo contra seu avião por parte das forças armadas golpistas. Meia hora antes, o mesmo exército abriu fogo contra manifestantes que apóiam o regresso de Zelaya, deixando dois menores de idade mortos. A Polícia Nacional se ausentou do lugar dos fatos em protesto contra a violência do exército.
Dentro do possível vou deixar que o povo hondurenho fale através das minhas respostas, porque é a única voz capaz de romper o impasse que se iniciou. Começo com uma voz do primeiro dia de protestos em San Pedro Sula (2):
Estou escrevendo isso enquanto as lágrimas correm pela minha face, choro por meu povo, porque parece que não temos saída.
Estive lá e senti o gás na minha garganta e a ardência em meus olhos, vi o desespero das pessoas e a raiva dos jovens que queriam se defender com paus e pedras. Estive lá, senti e vi a maneira como levavam algumas das pessoas que expressavam seu repúdio ao que tem sido feito com nosso país.
Estive lá e me encontrei com a convicção de um povo que, apesar da repressão, está disposto a continuar a batalha para recuperar esta pátria das mãos dos que sempre nos condenaram a viver de forma miserável.
Hoje nos dispersaram, mas não acabaram com a resistência e a luta deste povo que já está farto de tanta injustiça.

IHU On-Line - Como o senhor percebe os recentes fatos ocorridos em Honduras, a partir de seu reconhecido trabalho pelos Direitos Humanos?

Peter Marchetti - Percebo que meus companheiros e companheiras hondurenhas, que fizeram o valente trabalho em favor dos direitos humanos na década de 1990, agora sofrem com o fantasma do imperialismo norte-americano reencarnado no golpe militar de domingo, dia 28 de junho, e estão forjando uma resposta cidadã.
Percebo que os prêmios e reconhecimentos para a luta em favor dos direitos humanos não valem nada se as forças sociais a favor da equidade e da participação democrática não buscarem uma unidade multisetorial e multipartidária a favor de uma assembleia constituinte que Honduras necessita para abolir suas forças armadas e sair do labirinto de elitismos e protagonismos militares, econômicos e políticos.
Percebo que meus amigos e amigas hondurenhos devem responder a estas perguntas a partir do seu posicionamento de luta, não eu, da mesma maneira que eles e elas lutaram a favor dos direitos humanos nos momentos de reconhecimento de meu trabalho mencionado em sua pergunta.

IHU On-Line - Como o senhor vê a situação da cidadania hondurenha neste momento? O que podemos vislumbrar para o povo hondurenho em termos de direitos sociais nessa situação?

Peter Marchetti - Não existem direitos cidadãos em Honduras pós-golpe. Existem "direitos sociais" de se manifestar a favor do golpe castrense. A segurança dos bairros abastados e a esperança dos empresários que podem, com apoio militar, baixar os salários, não preenchem os requisitos de direitos sociais. A única ação cidadã, digna dessa palavra, é a de protesto pacífico e a autodefesa contra a repressão militar. Meus amigos e amigas preveem que a situação piorará.
O ciclo de protesto, repressão e mais protesto é imprevisível em sua escala e há riscos de que as Forças Armadas e o governo de fato manipulam uma invasão fictícia da Nicarágua com apoio da Venezuela para justificar uma campanha de liquidação física da oposição política.
A situação da maioria do povo pobre piorará devido a uma suspensão de apoio financeiro internacional que será mais efetiva do que o bloqueio comercial. Ambos criarão mais insatisfação com a ditadura militar-midiática, obrigando-a a utilizar o terror para que a nova cota de pobreza e o estancamento econômico não se convertam em uma força política incontrolável. Os sinais iniciais de insubordinação da polícia com Zelaya citando Dom Romero, "pedindo e ordenando os militares a não disparar contra o povo" só complica o caso. A única saída dos golpistas é incrementar o medo do povo suficientemente e incrementar a lealdade das forças castrenses para sobreviver o impasse internacional.
Neste contexto, se levantam vozes de muitas organizações com o recrutamento forçoso e ilegal nesta remilitarização pela marcha forçada da sociedade hondurenha. É costume do Exército tanto recrutar gente pobre para que meta medo aos povos em seus próprios lugares de origem dizendo-lhes: "aqui quem manda somos nós; por isso levamos seus filhos, que serão os primeiros a morrer se vocês mexerem um fio de cabelo".

IHU On-Line - Quem são Zelaya e Micheletti? O que eles representam, neste momento, em Honduras?

Peter Marchetti - Internacionalmente: Zelaya e sua volta a Honduras representam a esperança dos governos do mundo de manter o status quo das democracias restringidas latino-americanas impostas no fulgor dos anos neoliberais. Como disse Cristina Fernández Kirchner, presidente da Argentina, "nesta madrugada sequestraram algo a mais do que o presidente: sequestraram a restauração democrática na América Latina."(3)
Micheletti representa a vergonha do desvelamento dessas democracias pouco funcionais. A descrição, por Leticia Salomón, das movimentações de Micheletti para consolidar o apoio dos poderes legislativos e judiciais em uma aliança com os militares é um fiel reflexo do uso de poder cotidiano nos governos centro-americanos. Da mesma maneira, os golpistas só têm estendido o controle sobre o monopólio virtual dos meios de comunicação por parte dos núcleos de poder econômicos centro-americanos, agregando eliminação de penetração de cadeias internacionais e redes de rádios independentes. A verdadeira anomalia em Honduras era a possibilidade de que os cidadãos e cidadãs poderiam votar por mudar o negócio normal da política na América Central e agora estão tomando as ruas para romper o cerco midiático elitista.
Nacionalmente Zelaya e Micheletti são duas figuras do mesmo partido e representam grupos de poder econômico e castas políticas. Eles praticamente são donos do Partido Liberal, ambos têm levantado a bandeira dos discursos populistas, cada qual em seu momento. São figuras representativas da decadência de um partido que perdeu sua definição e sua razão de ser como proposta de construção de cidadania ou de institucionalidade democrática.
Zelaya pode ser uma referência da recuperação do projeto político de vários setores que andam sem referência, ainda que ele mesmo não se veja como um político, mas como um agricultor com oportunidades para participar na conjuntura latino-americana. Até que ponto Zelaya realmente se aproximou de algumas posturas de esquerda e/ou até que ponto sua proximidade a Chávez e à ALBA lhe permitiu aprofundar seu auge populista? São pontos de debate. O que é certo é que, por razões não tão claras, Zelaya ia se afastando de sua base partidária, sem buscar uma maior aliança com a esquerda dentro do país.
Micheletti, acusado de estar por detrás de vários assassinatos e com 14 anos sem movimentação no Parlamento, é um político muitíssimo mais perigoso, mas ao liderar o golpe está agora acabado. Tem uma única vantagem do Partido Liberal: estava no lugar certo e é o bode expiatório adequado. Micheletti poderia representar o vestíbulo para que os ex-presidentes Carlos Flores Facussé, Ricardo Maduro e Rafael Callejas tentem negociar a ressurreição do bipartidarismo hondurenho para 2010.
Micheletti e Zelaya são as antípodas aparentes de um partido onde ninguém manda ou o que manda faz isso na medida em que esse mandato lhe é útil aos seus próprios planos de cúpula, como Carlos Flores Facussé. O golpe de Estado e os dois antípodas aparentes introduzem - talvez pela primeira vez em 40 anos - uma cisão e um debate massivo no interior do Partido Liberal onde já não importa que seus bisavós votaram "vermelho". Mesmo que os líderes do Partido Nacional esperem como gaviões a isca da derrubada do Partido Liberal, há bases nacionalistas protestando contra o regresso dos militares enquanto que os chefes partidários apoiaram o golpe. O golpe representa uma fissura enorme no bipartidarismo e uma oportunidade do povo hondurenho para superá-lo.

IHU On-Line - Quem são Micheletti e Zelaya em termos de apoio eleitoral?

Peter Marchetti - Zelaya poderia ter 30%, Micheletti muito menos e é questionável que o golpe tenha uns 5% de apoio eleitoral. A razão de fundo para o golpe era evitar que o povo votasse fora de um marco bipartidário no contexto do apoio internacional anti-imperialista de Chávez e da administração de Obama, que tenta se distanciar a todo custo do tipo de apoio de Bush à extrema direita latino-americana. O golpe não tem outra razão senão a de separar Honduras da ALBA e criar as condições para a restituição do bipartidarismo elitista garantindo o poder de arquitetos de aliança militar-econômico-midiática.
Zelaya representa o primeiro passo na aposta pela democracia em Honduras, mas as forças sociais e ideológicas que ele representa não são capazes de conseguir uma assembleia constituinte para questionar o bipartidarismo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre a reação dos movimentos sociais ao golpe, tanto em Honduras como na América Latina? Eles têm força e voz para enfrentar o governo de fato?

Peter Marchetti - Esta é a pergunta chave. Não há resposta clara e o grau de resistência ao governo de fato dependerá da capacidade das forças políticas e civis opostas de consolidar uma frente nacional de resistência.
Em primeiro lugar, não se vê coordenação clara entre os setores liberais pró-governo de Zelaya (ministros, prefeitos) com outros atores que se opõem ao governo de fato. Sem este tipo de coordenação não haverá nem força, nem voz para enfrentar cabalmente o governo. O que impede essa coordenação são as velhas disputas entre a Unificação Democrática (UD), movimentos civis com tendências para a democracia radical que se distanciam de todos os partidos, e os setores mais abertos às maiorias dentro do governo de Zelaya. Essas disputas têm sido superadas pela conjuntura do país, mas não nas mentes e corações dos líderes progressistas mais capazes de facilitar a resistência popular.
Em segundo lugar, se vê mais a cara de um movimento social (camponeses, sindicatos e os de sempre) que são os que assumiram a bandeira de resistência ao governo. Não obstante, se soma muito mais gente, particularmente jovens. Parece que pertence ao povo não organizado a tarefa de conduzir os supostos líderes dos movimentos políticos e civis nas lutas prioritárias.
Em terceiro lugar, há muita gente que não se uniu, mas que está consciente do que significa o golpe e que não está de acordo, mas não fala por medo. Sua mobilização pode ser muito positiva, sobretudo se não se cair na armadilha de marchar pelos compromissos contratuais, ou seja, ofertas de vivendas, tratores, etc.
A repressão tem reduzido enormemente a capacidade de resposta, mas isso é dialético porque a repressão leva consigo seu próprio "bumerangue". Não é fácil mobilizar-se quando temos nos submetido ao Exército e às elites políticas, econômicas e religiosas durante décadas e, agora, também estamos submetidos a agências de cooperação que buscam reduzir os movimentos sociais a escritórios de "ajuda". Neste sentido, cada pessoa mobilizada continua sendo um pequeno passo que simboliza um salto gigante.
Os protestos "pela paz" a favor dos militares estão hegemonizados pelos empresários que convidam seus empregados e empregadas a participarem. Estes temem perder seu trabalho na conjuntura da recessão econômica. Os empregados públicos também temem serem despedidos se não marcham "pela paz e a favor da transição".
Estas concentrações pró-golpe, no entanto, recebem energia pela maneira como o clientelismo populista de Zelaya tem criado anticorpos em relação ao seu governo em grandes segmentos do povo não beneficiado. Nem todos que se manifestaram a favor de Micheletti e dos militares foram comprados ou estão com medo. A compreensão de suas razões em apoiar o golpe elitista será crucial no processo de incrementar a resistência ao governo de fato. Soma-se a isto a forte censura dos meios de comunicação e se vê um povo que não tem ideia dos níveis de rejeição do golpe a nível nacional e internacional e do grau de repressão que existe. Além disso, a hierarquia católica, de modo anti-cristão, está ao lado dos golpistas.

IHU On-Line - Qual a opinião da Igreja hondurenha sobre o golpe? Houve medidas e posições perceptíveis por parte dos bispos e do cardeal Maradiaga?

Peter Marchetti - Nos primeiros dias depois do golpe, o cardeal reservou suas opiniões e não dava entrevistas à imprensa com a desculpa: "estou envolvido no diálogo e na negociação para a paz". No entanto, no dia 04 de julho, o cardeal, em cadeia nacional, anunciou o apoio da Conferência Episcopal ao governo de Micheletti e aos golpistas, rejeitando a interferência da OEA e pedindo ao presidente Manuel Zelaya reconsiderar o seu retorno a Honduras, porque "poderia desencadear um banho de sangue".
Não surpreende que o cardeal Rodríguez e a Conferência Episcopal apoie as elites do Partido Liberal, pois ele tem feito isso de maneira quase irrestrita desde que Carlos Flores assumiu a presidência, em 1998. Também esteve perto de negociar com o FMI, o Banco Mundial e o BID a proposta da Iniciativa para os Países Pobres Altamente Endividados (HIPIC, na sigla em inglês), em 1999. Os três presidentes das instituições multilaterais ficaram completamente surpreendidos pela dependência do cardeal nas propostas de Carlos Flores Facussé. O detalhe foi que Facussé havia se convertido num financiador importante da Arquidiocese. Ou seja, ainda que a posição da Igreja Católica tenha sido antidemocrática, opondo-se à democracia hemisférica e a Jesus de Nazaré, seu claro alinhamento com as elites econômicas provavelmente é para conseguir a auto-sustentabilidade financeira da organização eclesial.
A Igreja institucional é parte da sociedade hondurenha com uma série de diferentes interesses e medos justificados com discursos que encobrem e põem uma máscara na sua realidade. É mais um reflexo do problema do que uma solução. Ainda que seja triste para as pessoas que esperam mais da Igreja, seu discurso só justifica e sacraliza as debilidades democráticas da sociedade hondurenha.
A Igreja de base não tem feito grandes pronunciamentos. A diocese do Ocidente fez um pronunciamento contra o golpe, mas foi uma opinião minoritária, sepultada pela Conferência Episcopal. Os jesuitas, três dias antes do golpe, propuseram publicamente que o diálogo era necessário para evitar instabilidade política e social. Sua posição tem sido totalmente contrária à posição da hierarquia católica, particularmente no tipo de diálogo que acham necessário para sair da crise.

IHU On-Line - Que consequências a reforma constitucional desejada por Zelaya e impossibilitada pelo golpe traria para o povo hondurenho? Ela é necessária?

Peter Marchetti - A reforma constitucional é necessária e traria uma nova ordem com mais equidade e democracia. No entanto, não existiam antes do golpe condições apropriadas para implementar a iniciativa. Agora, com a mobilização contra o governo de fato, as condições estão mais claras. Por exemplo, a constituição não estabelece um mecanismo para que um presidente seja impedido de sua funções presidenciais. Sobretudo, as propostas em torno de assegurar a democracia participativa são cruciais, porque têm a ver com a forma de eleger os candidatos aos postos de eleição popular. Talvez agora o façam as elites, mas será uma forma distorcida de democracia.

IHU On-Line - Como se pode reestabelecer a democracia em Honduras? Qual é o papel das Igrejas e das instâncias internacionais nesse sentido?

Peter Marchetti - O papel da Igreja Católica tem sido o de apoiar a paz, que oferece à dominação militar e oligárquica, alinhando-se contra as instâncias internacionais que buscam defender os princípios e procedimentos democráticos em Honduras.
As intenções públicas da OEA , da União Européia e da administração Obama são de apoio ao regresso de Manuel Zelaya como um primeiro passo para uma reconciliação formal e para gerar o clima eleitoral propício para novembro, bem como para promover uma transição democrática com continuidade. Quanto ao modo como este é alcançado, não se descarta a possibilidade de que a OEA tenha uma solução militar ou, pelo menos, a use como "carta na manga" para ameaçar e obrigar as Forças Armadas e o governo hondurenho a que se submetam aos apelos internacionias.
Vários dos golpistas, como Billy Joya, têm uma longa história com a Guerra Suja dos anos 1980, vinculado com a política dos EUA. Existe uma ampla evidência de ações deslegitimizantes por parte dos últimos embaixadores estadunidenses até o governo de Zelaya. E a presença de militares estadunidenses e agentes da CIA por detrás do atual golpe, suscita a dúvida sobre o discurso do presidente Obama. Ou pode ser que Obama e seu Departamento de Estado não saibam o que os poderes ocultos do Pentágono e da CIA estão fazendo.
Veremos nos próximos dias qual será a postura verdadeira da Administração Obama, com que medidas os EUA farão valer sua condenação ao golpe e se podem influenciar a situação. Se atrás da cortina a Administração Obama tem militares e diplomatas que estão apoiando os golpistas, é possível que o povo hondurenho passe pelo caminho chileno, com cinco anos ou mais sem garantias constitucionais ou eleições livres.
Seja como for, uma reconcialização estrutural e um restabelecimento e melhoria da democracia em Honduras passam por outros caminhos que não estão nas mãos das instâncias internacionais, apesar de sua voz unânime contra o golpe e a favor do reestabelecimento de nossa democracia.
A abordagem sem medo de uma nova constituição pode ser um ponto de aproximação e de reconciliação verdadeira, mas hoje, mais do que nunca, temos aprendido que a participação cidadã "light" não nos levará mais além do que legitimar o sistema.
Uma nova constituição aplicável passa por um processo de construção de um partido que una numa só frente os restos do governo de Zelaya, os partidos políticos que rejeitam qualquer pacto com os liberais e nacionalistas, os sindicatos, e os movimentos sociais e cívicos que apostam numa redistribuição do poder e da renda em Honduras. Este tipo de Frente teria que ser muito mais propositiva e incisiva na construção de raízes cidadãs profundas para reestabelecer a democracia em Honduras, construindo relações horizontais com as bases, as quais agora não tem nenhum partido. Qualquer aliança teria que investir muitíssimo na construção política do sujeito cidadão e dos quadros para o governo de cidadãos, para romper a casta política que morde a mão dos que a elegem.
Uma análise profunda do papel das Forças Armadas e sua subordinação ao poder civil é outro ponto de partida. Para que servem as Forças Armadas, criadas a partir da Escola das Américas e das teorias de contra-insurgência e segurança nacional em Honduras? Não basta que cada dia ganhem mais elogios de seus treinadores norte-americanos, não basta que defendam os interesses dos setores poderosos que já não precisam aguentar um presidente populista, não basta que usem armas e treinamento para reprimir um povo que repudia tal ato? Por isso, o caminho é a abolição das Forças Armadas como ponto de luta para construir um partido portador de uma democracia representativa e participativa.
A pergunta é se a conjuntura já está pronta para 1) seguir o caminho da Costa Rica e abolir as Forças Armadas e 2) alcançar um verdadeiro partido popular e democrático que ganhe 30% do eleitorado quando se rompe o impasse da democracia hondurenha. E a resposta se move em torno da capacidade de líderes progressistas de abandonarem seus próprios protagonismos e divisões históricas para poder fazer frente comum às forças anti-democráticas hondurenhas.
Ao terminar de copiar, juntar e ordenar estas reflexões, chegaram as notícias de uma reunião de Manuel Zelaya com Hillary Clinton e da negação da Administração de Obama em receber a delegação representativa dos militares, proprietários e gestores de comunicação social em Honduras. Para qualquer um que tenha vivido o dia-a-dia em Honduras é um show kafkaniano que nos faz acreditar que outro mundo em Honduras é possível.

Notas:
1.- Miguel D’Escoto, ex-ministro das Relações Exteriores da Nicarágua, durante o governo sandinista logo após a vitória no dia 19 de julho de 1979, padre, é o presidente da 63ª sessão da Assembléia Geral da ONU. (Nota da IHU On-Line).
2.- Segunda cidade mais importante de Honduras. (Nota da IHU On-Line).
3.- O entrevistado se refere ao insucesso da volta de Zelaya no domingo passado, pois foi impedido pelo governo golpista. Cristina Kirchner e Rafael Correa aguardavam Zelaya em San Salvador para acompanhá-lo na volta ao seu país. (Nota da IHU On-Line).

* Instituto Humanitas Unisinos

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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Religião/HOJE NÃO TENHO MAIS ESSES SONHOS’ DIZ O CARDEAL

Dom Pedro Casaldáliga *

(Adital) Agência de Informação Frei Tito para a América Latina http://www.adital.com.br

O cardeal Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: "Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse de raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimo, especialmente, àqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos". Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus.
Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a "outra Igreja possível", ao serviço do "outro Mundo possível". E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; o tem demonstrado.
Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, "é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade"; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos...
A grande crise econômica atual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: Trata-se de salvar o Sistema ou se trata de salvar à Humanidade? A grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.
Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente «o sonho de Luther King», querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.
Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum modo podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome a uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC...). Comprometemo-nos a vivermos uma «ecologia profunda e integral», propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de "alta intensidade".
Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. "Meu Deus, me deixa ver a Deus?". Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de descriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: "Não será assim entre vocês» (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anuncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela «expressão mais alta do amor fraterno" (Pio XI).
Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. "Ainda cantamos, ainda sonhamos". Nós nos atemos à palavra de Jesus: "Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda" (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro y, em todo o caso, mais uma vez e sempre, "eu me atenho ao dito: a Esperança".
Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: «A velhice é uma espécie de pós-guerra"; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.

Pedro Casaldáliga

Circular 2009

* Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=37421

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Religião/Entrevista com Paul Lakeland: Pe. Haight, silenciado pelo Vaticano

IHU - Unisinos *

ADITAL Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
5 fevereiro 2009/ http://www.adital.com.br

Adital - Depois de ser notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 2004 e ser acusado de causar "graves danos aos fiéis" por causa do livro "Jesus, Símbolo de Deus" (Paulinas, 2003), o teólogo jesuíta norte-americano Roger Haight, de 72 anos, recebeu, agora em janeiro, ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre assuntos teológicos.
"Jesus, Símbolo de Deus", segundo o próprio Haight, é uma tentativa de expressar as doutrinas tradicionais sobre Cristo e a salvação em uma linguagem apropriada à cultura pós-moderna. E, em particular, o livro oferece uma leitura teológica positiva de religiões não-cristãs e suas figuras de salvação.
Em entrevista exclusiva por e-mail à IHU On-Line, Paul Lakeland, professor de Estudos Católicos na Fairfield University, em Connecticut, nos Estados Unidos, afirma que o trabalho de Haight "busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno".
Lakeland foi um dos poucos teólogos que se manifestou publicamente em defesa de Roger Haight. Seu artigo "Not So Heterodox: In Defense of Roger Haight" [Nem tão heterodoxo: Em defesa de Roger Haight], foi publicado em um dos jornais católicos mais antigos e mais reconhecidos dos EUA, o Commonweal.
Nesta entrevista Lakeland perpassa diversos pontos da teologia contemporânea e a sua relação de altos e baixos com os "elementos de controle" - como ele os chama - do Vaticano.
Paul Lakeland, é professor catedrático de Estudos Católicos da Fairfield University, em Connecticut, nos EUA, onde dirige o Centro de Estudos Católicos. Ex-jesuíta, é articulista do jornal católico Commonweal, de Nova Iorque. Em 2004, conquistou o primeiro lugar no Catholic Press Award, na categoria teologia, pelo seu livro "The Liberation of the Laity: In Search of an Accountable Church" [A libertação dos leigos: Em busca de uma igreja responsável, em tradução livre] (Continuum International, 2003). Também é autor de "Postmodernity: Christian Identity in a Fragmented Age" [Pós-modernidade: Identidade cristã em uma era fragmentada, tradução livre] (Continuum International, 1997) e "Catholicism at the Crossroads: How the Laity Can Save the Church" [Catolicismo na encruzilhada: Como os leigos podem salvar a igreja, tradução livre] (Continuum International, 2007).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Para Haight, o que significa dizer que Jesus é o "Símbolo de Deus"?
Paul Lakeland - Quando Haight usa a palavra "símbolo", ele está pensando no que a teologia católica usualmente se refere como um "sacramento", mas, por estar escrevendo da mesma forma a todos os cristãos e os não-cristãos, ele não usa um termo que não é familiar ou talvez inaceitável, a uma primeira vista. Seu trabalho é apologético, alcançando um público além dos limites da Igreja Católica. Então, ele prefere usar o termo "símbolo", já que é usado em muitas disciplinas diferentes (Ciências Humanas) e tem, mais ou menos, esse significado comumente aceito: um símbolo torna presente algo que não a si mesmo. Às vezes, os símbolos são a única forma de atingir certas realidades, por exemplo, o subconsciente humano. Um símbolo "concreto", diferentemente de uma palavra ou ideia, por exemplo, é um "algo" verdadeiro. E um símbolo religioso concreto, como um livro, ou um sacramento, ou uma pessoa, é algo que torna Deus presente. Para aqueles que desejam ver as dinâmicas mais profundas da realidade simbólica, como alguns dos grandes Padres da Igreja e os Cristãos Orientais com os seus ícones, um símbolo é uma meditação profunda da presença real e verdadeira de Deus ao mundo. Muitas das pessoas que reagiram negativamente ao uso do termo "símbolo" por Haight trivializam-no e continuam, então, criticando o seu próprio mal-entendido.
IHU On-Line - Essa é a segunda notificação recebida pelo Pe. Haight do Vaticano. Desta vez, a Congregação para a Doutrina da Fé afirma que seu livro contém "afirmações contrárias às verdades da fé divina e católica [...] relativos à preexistência do Verbo, à divindade de Jesus, à Trindade, ao valor salvífico da morte de Jesus, à unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus e da Igreja, e à ressurreição de Jesus". O livro de Haight realmente ultrapassa as fronteiras da teologia católica ou a Congregação não compreendeu as ideias do autor?
Paul Lakeland - Eu não estou certo quanto ao que a pergunta se refere como "segunda notificação". Pelo que qualquer um de nós sabe, houve apenas uma notificação dirigida à teologia de Haight. Todo o resto são apenas comentários sobre isso [Haight foi notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em dezembro de 2004 e agora, em 2008, recebeu ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre teologia, N.R.]. Também, enquanto essas frases que resumem os "erros" de Haight em afirmações precisas podem ser boas para provocar a atenção e focalizar sobre a questão, elas também fazem com que pareça que o livro de Haight desafia, direta e abruptamente, a revelação divina e a fé católica. É difícil imaginar qualquer teólogo gastando tanto tempo e esforço com uma tarefa negativa como essa.
Todo o trabalho de Haight objetiva introduzir as pessoas no sentido cristão que pode ser experimentado como vital em nosso tempo e em nossa visão contemporânea do mundo. A frase citada na pergunta, então, representa uma interpretação muito estreita e particular do seu trabalho, que não é compartilhada por um amplo número de teólogos e fieis que leram os seus livros. É, na melhor das hipóteses, uma interpretação em disputa do trabalho de Haight. Raramente é útil fazer essas instruções ou afirmações generalizadas, tiradas do contexto e colocadas diante dos leitores como se fossem capazes de ser isoladas ou provadas. Elas são, pelo contrário, apreciações particulares de uma discussão ampla, técnica e de diversos nuances, em um longo texto baseado em um ponto de vista, em suposições e em um método. A disciplina da teologia e da comunicação de convicções teológicas é muito mais do que uma série de proposições e julgamentos absolutos. Somente quando isso é compreendido, é que é possível que alguém aprecie o que Haight está tentando fazer em sua cristologia. Atalhos e frases de impacto não são um substituto justo para se dedicar ao argumento em sua total complexidade.
Muitos teólogos e pensadores cristãos se dão conta de que a verdade da fé cristã encontra-se no próprio ser de Deus, de que nós nos agarramos a Deus por meio de nossa fé de que Jesus, em suas palavras, suas ações e sua pessoa, revela Deus, mas que, ultimamente, o objeto da nossa fé é um mistério incompreensível, como Karl Rahner disse tão eloquentemente. Sobre essa premissa, na consciência da transcendência infinita de Deus, muitas dessas pessoas dizem: o livro de Haight contém ideias que procuram abrir o mistério do divino e a fé católica sobre a pré-existência de Deus como Palavra, a divindade de Jesus que recebeu o poder dessa Palavra ou do Deus como Espírito, como Lucas insiste, de forma que toda a vida, o ensinamento, a morte e a ressurreição de Jesus são uma parábola concreta e histórica que nos traz a salvação de Deus. O livro nos mostra como essa salvação - que só pode vir de Deus, que é o criador do céu e da terra - estava presente em Jesus, e como Deus como Espírito continua a ser ativo em todo o povo de Deus na história e, de uma forma explícita, na Igreja. Embora Jesus seja uma pessoa histórica única e particular, Jesus é, na linguagem judaica, o Messias ou o Cristo, porque revela e media Deus de uma forma que é universalmente relevante. Todo mundo pode apreciar tal mensagem sobre Deus, mesmo que sejam incapazes de afirmá-la como verdade. Certamente, isso não está longe da essência da fé cristã.
Eu não posso dizer se a Congregação não compreendeu as ideias de Haight, mas eles certamente não parecem abertos a interpretar generosamente os seus objetivos. Seu trabalho, olhado com simpatia, busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno.
IHU On-Line - Haight afirma em seu livro que "só Deus realiza a salvação, e que a mediação universal de Jesus não é necessária" e que "na cultura pós-moderna é impossível pensar [...] que uma religião possa pretender ser o centro para o qual todas as outras devem ser reconduzidas". Com isso, qual é, para Haight, o objetivo do diálogo inter-religioso? É necessária uma espécie de "relativismo" para que haja um verdadeiro diálogo com as demais religiões?
Paul Lakeland - Muitos livros e muitas pessoas não descartaram essa questão aparentemente simples. Isso por si só deveria convencer a todos de que essa é uma questão difícil, que ainda está em aberto, porque muitos ainda a estão questionando. Essas citações de Haight, citadas fora de contexto, provavelmente não são a melhor maneira de começar a responder a essas questões profundas. Uma forma melhor deve ser tentar formular o problema ao qual Haight está tentando responder.
Tratando o segundo ponto em primeiro lugar, certamente alguém que considera os contornos da "cultura pós-moderna" concordaria com a afirmação de que essa cultura tem problemas com organismos em particular que anunciam verdades universais e absolutas para todos os outros. Como Haight está falando com pessoas que vivem e são afetadas por essa cultura, isso se torna um problema ao qual ele deve se dirigir e não pressupor a resposta e simplesmente anunciá-la.
Sobre o primeiro ponto, "Jesus" é o nome característico que se refere a Jesus de Nazaré, e muitas pessoas foram salvas antes que Jesus nascesse, como nós sabemos pelo Antigo Testamento. Além disso, como a igreja ensina no Vaticano II que as pessoas podem ser salvas mesmo que nunca tenham ouvido falar de Jesus, hoje se torna uma pergunta legítima questionar como elas foram salvas. O Vaticano II não responde a essa questão. Ele apenas ensina que elas foram realmente salvas fora da influência histórica de Jesus de Nazaré. Haight parece estar dizendo isso. Como a única forma pela qual as pessoas podem ter alguma ideia de Deus é por meio de organismos históricos concretos, e estes são usualmente chamados de religiões, é razoável pensar que Deus faz contato com as pessoas por meio das suas religiões. Tudo isso parece bastante óbvio.
Permita-me adiar a questão do objetivo do diálogo interreligioso para a próxima pergunta, quando ela surge novamente, e passar para o termo "relativismo". O "relativismo" é um termo usualmente negativo e totalitarista, que faz um julgamento genérico que poucos teólogos apóiam. Entre absolutismo e relativismo, encontra-se uma ideia mais saudável de pluralismo, que sugere diferenças que subsistem dentro de um campo de unidade ou comunhão. Na política, por exemplo, as pessoas dos Estados Unidos são geralmente agrupadas como "norte-americanos", apesar de, muitas vezes, defender ferozmente posições políticas que são seriamente diferentes. A verdadeira habilidade para isso vem do respeito pelas outras pessoas, de sua defesa honesta de opiniões e do reconhecimento de que nenhuma pessoa, nenhum partido e nenhuma religião podem conter o infinito mistério de Deus. Essa ideia de reconhecer a unidade entre as diferenças oferece grandes possibilidades para se entender como Deus lida com os seres humanos e as respostas das religiões. A próxima pergunta conduz a esse território. Mas, antes de chegar lá, deve-se notar, de passagem, como a ideia do pluralismo é usual para a própria teologia católica. Certamente, a fé única pode se expressar em muitas teologias diferentes, porque sempre foi assim. A ideia de que há apenas uma teologia católica de alguma coisa é recente e disfuncional e não faz justiça à rica e complexa tapeçaria da Tradição. Se, por exemplo, tivéssemos tido apenas Agostinho ou apenas Tomás de Aquino, como seríamos mais pobres!
IHU On-Line - Qual a importância de Jesus para o pluralismo religioso e para o diálogo com as outras religiões? Como podemos estabelecer um paralelo entre Jesus e as demais figuras de salvação, como Buda, os deuses hindus ou os orixás afro-brasileiros?
Paul Lakeland - Se alguém viu um pouco de senso comum na última resposta, o contexto para esta discussão e o intercâmbio entre religiões muda imediatamente. Ela é menos polêmica e mais conversacional, é menos competitiva e mais alinhada em cooperação e compreensão mútua. Haight acredita que o objetivo do diálogo inter-religioso (a última pergunta) e a sua importância desde uma perspectiva cristã tem a ver com aprender mais sobre Deus e sobre nós mesmos. Quando reconhecemos que Deus comunicou algo do seu próprio ser para outras pessoas (e como se poderia dizer que o Criador não está presente e não revela o ser de Deus em todas as criaturas?), isso não significa que Deus está menos presente e comunicativo em nosso próprio povo (não-competição). O propósito e a importância do diálogo são comunicação e compreensão mútuas, de forma que possamos aprender mais sobre Deus a partir de como Deus se comunicou com outros e de como eles experimentaram e responderam a Deus. A importância de Jesus é que ele é o revelador universalmente relevante de Deus, e a sua revelação é verdadeira; a importância da Torá é de que Deus revelou seu próprio ser na Lei Judaica. Da mesma forma que aprendemos com nossa religião-mãe, poderemos aprender com as outras religiões.
Seria um erro interpretar Haight dizendo que há uma correspondência ou correlação um-para-um entre as figuras de salvação. Elas são diferentes; elas não são as mesmas. Haight diz explicitamente que as religiões não são iguais. "Igualdade" não é uma categoria que é frequentemente usada aqui: Sally é igual a Diane? A questão não faz sentido. A comparação deve ser feita em um nível muito fundamental do processo de revelação e de fé. Deus, como criador pessoal e amoroso, é a presença e o poder interior no íntimo de todas as criaturas e, por isso, no íntimo de todos os seres humanos. A autocomunicação de Deus, o Espírito de Deus pode explodir em todas as criaturas, situações e períodos em formas genuínas, assim como pode haver muitos guias falsos e decepcionantes. Comunidades religiosas saudáveis, harmoniosas, construtivas e vivas são um bom sinal da revelação de Deus. Religião comparada e teologias da religião comparadas são formas de se investigar os valores relativos das religiões.
IHU On-Line - A Congregação parece estar colocando em questão dois conceitos importantes para o Vaticano: salvação e relativismo religioso. Como essas duas ideias podem ser interpretadas à luz do pensamento de Haight?
Paul Lakeland - Vamos tomar essas duas ideias uma por vez. Salvação é um conceito central no livro "Jesus, Símbolo de Deus": Haight aborda isso com o Novo Testamento, em que ele identifica as diferentes metáforas e concepções que são usadas para descrever como Jesus salva. Ele trata disso novamente nos Padres da Igreja e, de novo, sistematicamente, em um nível pessoal e social. As diferentes ideias de salvação provavelmente explicam por que nenhuma forma de compreendê-la foi alguma vez rigorosamente definida a ponto de excluir as demais.
Algumas coisas são importantes para se entender Haight sobre a salvação. Uma delas é que ele entende a salvação neste mundo como o fato de se ter todo o nosso ser conscientemente aberto a todo o tamanho do amor de Deus por nós: é isso o que Jesus revela, e essa revelação é a salvação de Deus. Ele destaca o argumento patrístico da divindade de Jesus: Jesus deve ser divino precisamente porque nós experimentamos a salvação de Deus nele e por meio dele.
O segundo aspecto é que, uma vez que um cristão ou uma cristã experimente Deus como salvador por meio de Jesus, ele ou ela irá entender que a verdadeira natureza de Deus é ser salvador, por isso a presença criativa de Deus em todas as pessoas é também uma presença salvadora. Porque a salvação é revelada por Jesus para ser o caráter mesmo de Deus, sua oferta está presente onde quer que o Criador esteja presente, isto é, em todo o lugar. A salvação, por isso, não pode ser uma posse competitiva de um único grupo.
Desse ponto de vista da salvação, pode-se ver como o pensamento de Haight responde à questão do relativismo religioso. A ideia de "relativismo" é uma categoria errada para o cristão quando se refere à salvação. Há apenas um Deus e, portanto, apenas uma salvação. Essa salvação é revelada decisivamente em Jesus, mas Jesus revela-a precisamente ao revelar um Deus que é generoso no perdão e no amor, assim todas as criaturas de Deus participam dela. Uma religião ou outra podem expressar essa salvação de Deus mais ou menos claramente em sua vida e em seu testemunho, mas a única salvação que todos discutem em diferentes linguagens, terminologias e sistemas culturais religiosos ainda é uma promessa que excede infinitamente todas as expectativas.
IHU On-Line - Em seu artigo para a revista Commonweal, o senhor afirma que "uma das questões teológicas mais urgentes é como entender a forma pela qual a verdade está presente nas outras religiões e nas outras comunidades cristãs". O senhor tem algumas respostas ou pistas para essa pergunta?
Paul Lakeland - Minha resposta à pergunta anterior serve em grande parte para responder a essa questão. Entretanto, é muito menos importante - talvez até impossível - determinar apenas como a verdade está presente em outras religiões do que afirmar que a verdade está, de fato, presente. A teologia institucional da tradição católica é impaciente com a ambiguidade ou a falta de certeza e tem uma tendência constante de exagerar o grau no qual os seres humanos compreendem o mistério divino. Mesmo com a ajuda do Espírito, nós não sabemos exatamente o quanto as nossas palavras correspondem à realidade de Deus. O quanto Deus está presente nas outras tradições é, a fortiori, algo pelo qual deveríamos nos humilhar. A Lumen Gentium foi muito clara ao dizer que Deus deseja a salvação de todas as pessoas e foi compreensivamente reticente sobre como exatamente isso ocorre. Os teólogos se debatem sobre esse assunto, e a igreja ainda não sabe como responder a essa questão, se é que algum dia irá responder.
IHU On-Line - Como o senhor vê o debate sobre o pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso na teologia contemporânea?
Paul Lakeland - O debate, desde uma perspectiva cristã, se centra em três verdades. Primeiro, os cristãos tem fé em Jesus como a presença divina na história, como o salvador, e ninguém - budista, hindu ou muçulmano - poderia pensar melhor sobre os cristãos dizendo que Jesus só é significativo para os cristãos. Segundo, Deus deseja a salvação de todos os seres humanos, e o fato de eles serem salvos ou não, não tem relação com o fato de eles conhecerem ou não, ou aceitarem ou não Jesus como seu salvador. Terceiro, os membros fieis de outras tradições religiosas são tão persuadidos pelo valor salvífico dessas tradições como os cristãos o são pela mensagem do Evangelho. A tarefa da teologia não é sobre como mostrar que o segundo e o terceiro mandamento devem ser subsumidos ao primeiro, mas como todos os três podem ser verdadeiros.
IHU On-Line - Jon Sobrino, Jacques Dupuis, Peter C. Phan e agora Roger Haight, todos foram processados pelo Vaticano recentemente. Como é possível entender essa posição do Vaticano, em pleno século XXI, em plena pós-modernidade?
Paul Lakeland - A teologia oficial é proclamação, não hermenêutica. De certa forma, essa atitude [do Vaticano] é relativamente apropriada, porque o papel central da Igreja é a proclamação do Evangelho. O elemento "de controle" no comportamento burocrático do Vaticano é exagerado, primeiramente porque eles parecem não entender a tarefa teológica. O papel do teólogo tem a ver com a sua natureza hermenêutica, movendo-se, como o próprio Hermes, em uma espécie de estilo sacerdotal ou mensageiro entre a Tradição eclesial e os tempos em que nós vivemos. A teologia traz a sabedoria extraeclesial contemporânea para a interpretação do Evangelho, e o Evangelho, para a iluminação do nosso mundo do dia de hoje. A tarefa é sempre tentadora, ambígua e desafiadora. O erro que Roma faz é a sua falha em compreender que a pregação e a pesquisa teológica não são a mesma coisa, e que cada uma deve respeito à outra. Não se pretende aqui apoiar, selecionando os teólogos e juízes "oficiais" das teologias de outros, apenas aqueles que Antonio Gramsci nomearia como "intelectuais tradicionais", isto é, aqueles que veem o seu papel apenas como uma apologia ao status quo.
IHU On-Line - Em sua opinião (ou em sua esperança), como o "caso Haight" irá terminar?
Paul Lakeland - Eu não tenho a mínima ideia de como o caso Haight irá terminar. Eu estou certo de que é um exemplo a mais de como o aparato do Vaticano para a investigação dos teólogos está moral e intelectualmente desacreditado. Minha esperança é de que Bento XVI possa adotar a retumbante declaração de posse de Barack Obama, no sentido de que a preocupação com a segurança não nos levará a um compromisso com os nossos valores fundamentais. Há uma séria desconexão entre o Evangelho do amor e da liberdade, por um lado, e os procedimentos quase-legais, secretos e injustos com horríveis consequências punitivas, por outro. Em geral, a comunidade teológica está se autocorrigindo, e o diálogo entre Haight e os teólogos que concordam com ele, com os que tem reservas sobre alguns aspectos de seu trabalho e com os que não concordam substancialmente tem ocorrido há algum tempo e irá continuar. Eu sei que Haight espera e aprecia esse tipo de troca, porque, como todo bom teólogo, ele sabe que irá aprender com esse tipo de debate, assim como os outros participantes. O Vaticano precisa reconhecer que é assim que a compreensão teológica progride. E se ele sente, em sua sabedoria, que há momentos em que deve intervir, então que isso seja feito em plena luz do dia, de acordo com as práticas judiciais reconhecidas internacionalmente. Essa função também deveria ser retirada das mãos da Congregação para a Doutrina da Fé e colocada onde ela pertence, na Comissão Teológica Internacional (CTI), mas uma CTI que seja razoavelmente representativa das muitas vozes da teologia católica, e não uma CTI composta apenas por uma perspectiva teológica.

* Instituto Humanitas Unisinos

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