Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religião. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Brasil/A VOLTA REACIONÁRIA DA RELIGIÃO E DA FAMÍLIA



18 abril 2016, Carta Maior http://cartamaior.com.br (Brasil)

Leonardo Boff*

Poucas vezes se usou tanto o santo nome de Deus em vão quanto neste julgamento de exceção do Impeachment.

Observando o comportamento dos parlamentares nos três dias em que discutiram a admissibilidade do impedimento da presidenta Dilma Rousseff parecia-nos ver criançolas se divertindo num jardim da infância.
Gritarias por todo canto. Coros recitando seus mantras contra ou a favor do impedimento. Alguns vinham fantasiados com os símbolos de suas causas. Pessoas vestidas com a bandeira nacional como se estivessem num dia de carnaval. Placas com seus slogans repetitivos. Enfim, um espetáculo indigno de pessoas decentes de quem se esperaria um  mínimo de seriedade. Chegou-se a fazer até um bolão de apostas como se fora um jogo do bicho ou de futebol.

Mas o que mais causou estranheza foi a figura do presidente da Câmara que presidiu a sessão, o deputado Eduardo Cunha. Ele vem acusado de muitos crimes e é réu pelo Supremo Tribunal Federal: um gangster julgando uma mulher decente contra a qual ninguém ousou

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Moçambique/Membros das Forças Armadas não pertencem a nenhum grupo

14 outubro 2015, Jornal Notícias http://www.jornalnoticias.co.mz (Moçambique)

O Ministro da Defesa Nacional reiterou, em Chimoio, que os membros das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) não pertencem a nenhum grupo étnico, a nenhuma região do país, a nenhuma religião e a nenhuma cor partidária. Que eles são sim, e apenas isso, moçambicanos dispostos e disponíveis para defender todo o povo do Rovuma ao Maputo e do Zumbu ao Índico.

“A vossa religião é a paz, sempre a paz no nosso solo pátrio. Este é o sonho do povo moçambicano, que vos incumbiu esta missão desde o dia em que juraram a Bandeira!”, lembrou Salvador Mtumuke, falando sábado em Chimoio no encerramento dos cursos de promoção a capitão e complementar de alferes milicianos das FADM.

O governante defendeu, na ocasião, que no actual contexto, em que se assistem às mudanças estruturais e substanciais de âmbito nacional, regional e mundial, a garantia da defesa, salvaguarda da independência e da integridade territorial continua a

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Moçambique/PR no adeus ao general José Moiane: Choramos a partida de um combatente corajoso

24 Fevereiro 2015, Jornal Notícias http://www.jornalnoticias.co.mz (Moçambique)


“Este é o momento em que choramos a partida sem regresso de um homem que foi um combatente inquestionável pela liberdade”, estas foram as primeiras palavras proferidas pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, durante velório do general na reserva, José Moiane, cujos restos mortais foram ontem a depositar na cripta da Praça dos Heróis Moçambicanos, na capital do país.

“Choramos a partida de um comandante corajoso, de um governante determinado, de um conselheiro”, enalteceu ainda o Chefe do Estado no

terça-feira, 7 de maio de 2013

Brasil/Ciências da Religião: Seminário Nacional Contra a Intolerância Religiosa no Brasil



2 maio 2013, Pontifícia Universidade Católica Minas Gerais http://www.pucminas.br (Brasil)

O Programa de Pós-graduação das Ciências da Religião realiza, de quinta a sábado, 9 a 11 de maio, o I Seminário Nacional Multidisciplinar de Diálogo Inter-religioso Contra a Intolerância Religiosa no Brasil. O evento, que ocorrerá no Centro Cultural da UFMG (av. Santos Dumont, 174, Centro de Belo Horizonte), é resultado de uma parceria com o Grupo de Pesquisa de Formação de Professores e Relações Étnico-raciais da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e os Programas de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Brasil/Ao STF, Feliciano reafirma que 'africanos são amaldiçoados'



5 abril 2013, Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)

Em defesa protocolada no STF (Supremo Tribunal Federal), o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) reafirmou que paira sobre os africanos uma maldição divina e procurou justificar a fala com uma afirmação que, publicamente, tem rechaçado: a de que atrelou seu mandato parlamentar à sua crença religiosa.

Alan Marques, Folhapress


Manifestantes protestam contra Marco Feliciano do lado de fora da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara é alvo de inquérito no STF por preconceito e discriminação por uma declaração no microblog Twitter. Em 2011, ele escreveu que "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição".

Na época, Feliciano também postou que africanos são amaldiçoados pelo personagem bíblico Noé. "Isso é fato", escreveu no microblog. O post depois foi deletado. As declarações provocaram protestos que tomaram conta de redes sociais e das sessões da comissão. A Procuradoria Geral da República o denunciou ao STF - onde também responde a uma ação acusado de estelionato.

Feliciano é acusado de induzir ou incitar discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, sujeito a prisão de um a três anos e multa. Não existe tipificação penal para homofobia. Em sua defesa no STF, protocolada no dia 21, Feliciano diz que não é homofóbico e racista. Reafirma, porém, a sua interpretação de que há a maldição contra africanos.

"Africanos descendem de Cão"
"Citando a Bíblia [...], africanos descendem de Cão [ou Cam], filho de Noé. E, como cristãos, cremos em bênçãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições", afirmou, na peça protocolada em seu nome pelo advogado Rafael Novaes da Silva.

"Ao comentar [no Twitter] acerca da 'maldição que acomete o continente africano', diz sua defesa, o deputado quis afirmar que é "como se a humanidade expiasse por um carma, nascido no momento em que Noé amaldiçoou o descendente de Cão e toda sua descendência, representada por Canaã, o mais moço de seus filhos, e que tinha acabado de vê-lo nu".

A defesa do deputado diz ainda que há uma forma de "curar a maldição", entregando "os seus caminhos ao Senhor". "Tem ocorrido isso no continente africano. Milhares de africanos têm devotado sua vida a Deus e por isso o peso da maldição tem sido retirado", diz o texto.

Historicamente, interpretações distorcidas do trecho da Bíblia citado pelo pastor serviram como justificativa para atitudes e manifestações racistas, como as dos proprietários de escravos no Brasil e nos EUA no século 19.

Ao STF, Feliciano não entra em detalhes sobre sua afirmação sobre os gays - diz apenas que não há lei que criminalize sua conduta.

Fé e mandato
O pastor também afirma que seu mandato está atrelado à religião, embora tenha dito durante a atual crise que sua crença não afeta sua atuação na Câmara. Usou esse argumento para se manter na presidência da comissão. Ao STF, afirmou que suas manifestações no Twitter estão "ligadas ao exercício de seu mandato". As estratégia é vincular as declarações à imunidade parlamentar.

Fonte: Folha de S.Paulo

Ler tambem

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

OS "DIREITOS COMUNISTAS" NA ONU

21 setembro 2009/Vermelho http://www.vermelho.org.b

Os direitos à alimentação, ao trabalho, à habitação e a uma vida condigna são tão importantes como o direito à liberdade de expressão, de religião, de consciência e de voto. Na próxima quinta-feira, na Assembleia Geral da ONU, Portugal será um dos primeiros países a assinar o Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. O jornal Diário de Notícias entrevistou Catarina Albuquerque sobre o trabalho a favor da assinatura do pacto e seu significado.

A jurista portuguesa Catarina Albuquerque, de 39 anos e a atual perita da ONU para o direito à água, terá razões para sorrir no dia da assinatura do pacto, pois "obrigou" o mundo a confirmar que o acesso à alimentação, à água, à saúde, à educação e ao trabalho são direitos fundamentais. Ela negociou e redigiu o novo tratado de direitos humanos e, sobretudo, acredita que ele fará a diferença na vida das pessoas mais desfavorecidas.

Confira abaixo trechos selecionados pelo Vermelho da entrevista realizada pelo jornal português Diário de Notícias com Cristina Albuquerque:

A assinatura, na próxima semana, do Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais é o virar de uma página na história dos direitos humanos e da humanidade?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 10 de Dezembro de 1948, consagra a igualdade entre os direitos civis e políticos (como o direito à liberdade de expressão, de religião e de consciência, o direito de acesso à justiça e ao voto) e os direitos econômicos, sociais e culturais (por exemplo o direito à educação, à segurança social, ou aos cuidados de saúde).

Na altura em que os países se preparavam para negociar uma convenção de direitos humanos que desenvolvesse as obrigações da Declaração estava a Guerra Fria e a oposição entre os blocos de leste e ocidental no seu auge. Consequentemente, foram adotados dois tratados – um sobre direitos civis e políticos, apoiado pelo Ocidente, e um sobre direitos econômicos, sociais e culturais, que eram vistos como "direitos comunistas", e que foi apoiado pelo bloco de Leste.

Os "direitos comunistas" são os chamados direitos básicos de subsistência?

Sim, é o direito à alimentação, ao trabalho, à habitação, à segurança social, à protecção da família, a uma vida condigna, entre outros. Durante a Guerra Fria estes direitos foram desvalorizados pelo Ocidente por comparação com os direitos civis e políticos, que eram os direitos do "mundo livre".

O bloco comunista defendeu aqueles direitos até à queda do muro de Berlim, até à Perestroika. O que aconteceu, foi que, de certa forma, após a derrocada do comunismo os direitos econômicos, sociais e culturais ficaram órfãos.

Como é que o protocolo vai tornar mais igual o que já nasceu igual?

Com o protocolo, vamos fechar um ciclo. Vai ficar claro que uma violação do direito à alimentação é tão grave como uma situação de tortura. Desde 1966 que é possível que os cidadãos vítimas de violação dos direitos civis e políticos apresentem queixas contra o seu Estado na ONU.

A partir de agora também poderão apresentar queixas por violação dos direitos econômicos, sociais e culturais. É um passo enorme, é um passo gigantesco que muitas pessoas que trabalham na área dos direitos humanos pensavam que nunca seria dado – tal é a oposição que existe por parte de alguns estados.

E agora qual é a natureza da resistência?

Sobretudo a ignorância. Diz-se que a realização dos direitos sociais, econômicos e culturais é muito cara, que obriga a um grande aumento da despesa pública. E faz-se a comparação com a garantia dos direitos civis e políticos, e diz-se que estes são baratinhos. Mas isto é mentira.

Para garantirmos a inexistência de tortura nas nossas prisões é preciso dar formação aos guardas prisionais e para isto é preciso investimento. E para garantirmos o direito à justiça e a um processo justo não se gasta dinheiro em tribunais, juízes e oficiais de justiça?

O direito ao voto, e vamos ter um ato eleitoral no próximo domingo (em Portugal) e outro daqui a duas semanas, também custa muito dinheiro ao erário público e é um investimento de que ninguém pode prescindir…

Precisamente. Não podemos consentir a propagação da ideia de que os direitos civis e políticos não têm custos econômicos. Têm-nos e o Estado assume-os e bem. Os direitos sociais, econômicos e culturais são igualmente direitos fundamentais e por isso exigem idênticas garantias.

Na maioria dos países do hemisfério norte os direitos à habitação, educação, saúde, alimentação, podem parecer tão básicos que até se estranha que tenham oponentes na ONU.

Há países que, grosso modo, até realizam esses direitos mas que persistem em chamar-lhes aspirações. Mas não, são direitos. E a diferença é que se forem direitos eu posso ir reclamá-los em tribunal, pois tenho o direito que o governo o realize e não estou à mercê da caridadezinha nem solidariedadezinha seja de quem for. E a existência do mecanismo de queixas a nível internacional vai impulsionar a apresentação de queixas de cidadãos a nível nacional por causa da violação dos seus direitos e, no caso de não obterem justiça, levarão os casos às Nações Unidas.

Na prática, o que é que vale uma queixa na ONU?

Se me pergunta se a decisão da ONU tem caráter vinculativo a resposta é não. Mas tem certamente um peso político enorme. E os Estados têm tendência – pelo menos aqueles com democracias mais bem estabelecidas e sociedades civis mais atentas – a dar seguimento às decisões e recomendações da ONU no âmbito de queixas.

O protocolo que vai ser assinado é o resultado de quanto tempo de trabalho?

A ideia do protocolo começou a ser avançada em 1991. Houve uma longa travessia do deserto. Eu fui eleita em 2004 para presidir às negociações e estas foram concluídas em 2008. Demorei nove meses a negociar o texto do protocolo.

Se fosse uma competição estava no primeiro lugar do pódio pois negociou e depois redigiu um tratado num tempo recorde, ao contrário do que é comum na ONU. Qual foi a sua fórmula?

A sério que não sei. [Risos]. Os egípcios, que presidiam ao grupo africano, diziam que o meu truque era fazer sorrisos e dizer que sim… E depois fazer o que queria! Acho que tive muita sorte e transformei as desvantagens iniciais a meu favor.

O fato de ser nova, mulher, branca e europeia eram desvantagens, mas houve uma série de circunstâncias que foram uma valia. O fato de ser portuguesa, de ter capacidade para fazer pontes, de me sentirem próxima de África e da América Latina, sendo europeia permitiu-me ganhar a confiança dos diplomatas na ONU.

Todos os países querem sentir que o seu pensamento está refletido no texto.

Nem mais, querem sentir que os seus pontos de vista e as suas preocupações estão refletidos no texto final. Cada país, cada governação quer sentir-se importante. É preciso muito tempo. E o que é que eu fazia? Entre as reuniões do grupo de trabalho ia para Genebra bater à porta dos vários embaixadores e falar com eles.

Ouvi-los individualmente fá-los sentirem-se importantes. Depois, também organizei reuniões regionais, para que cada região do globo se sentisse um bocadinho pai e mãe do processo e aqui as posições dos países mudaram bastante. Passaram a sentir-se co-responsáveis pelo tratado. E acabaram por estar empenhados em que a coisa resultasse. Na brincadeira eu dizia que os diplomatas também gostam de finais felizes!

Chegou a coordenar reuniões onde a maioria dos participantes eram homens oriundos de países que menosprezam os direitos das mulheres. Alguma vez se sentiu desconsiderada?

Com certeza! Disseram-me coisas que nunca me diriam se eu tivesse 60 anos, cabelo branco e fosse homem. [Risos].

E o que fazia?

Fazia-me de parva. No primeiro ano ouvi os maiores impropérios. Tinha 33 anos, estava rodeada de embaixadores de 60, 65 anos e vindos de países que não são respeitadores dos direitos das mulheres. Em salas com quinhentas pessoas sentadas, interrompiam a reunião, pediam pontos de ordem. No princípio até o fato de ser portuguesa foi complicado por causa de uma antiga colónia nossa que dizia que o seu estado de subdesenvolvimento se devia ao colonialismo.

Foi Angola?

Sim.

Fala com muita expressividade, entusiasmo e espontaneidade. Tinha o mesmo registro nas reuniões?

Sempre. Depois do protocolo ser adotado cada país tem de fazer um discurso e faz parte da etiqueta dirigir umas palavras ao presidente, neste caso à presidente. E aí os mais céticos disseram que no princípio desconfiavam, mas que me viam tão otimista, sempre com um sorriso estampado na cara, que se convenceram que tudo estava a funcionar e que o protocolo seria inevitável. A verdade é que eu punha sempre um ar muito seguro mas estava cheia de receio que as coisas não funcionassem.

Tinha pouca experiência mas acreditava no que estava a fazer…

Olhando para trás, penso que não tive muita consciência do que se passava e dos problemas com que iria deparar-me. Olhe esta: eu queria tirar conclusões e fazer recomendações do trabalho do primeiro ano e os estados-membros proibiram-me (os EUA e a Rússia bloqueram o consenso). Tive de ir sozinha à Comissão dos Direitos Humanos da ONU apresentar as minhas recomendações, o que me colocava numa posição muito mais fraca do que se as recomendações tivessem saído do grupo de trabalho.

Mas consegui que elas fossem aprovadas! Acho que simplesmente acreditava (e acredito) piamente que o protocolo pode ser uma ferramenta fantástica com o potencial de mudar as vidas das pessoas!!! De pessoas que talvez hoje nem sequer saibam o que é o protocolo!

Nunca pensou desistir?

Acreditei sempre que o resultado ia ser uma coisa boa, mas a dada altura defini o meu limite. Aconteceu quando os estados ocidentais quiseram salvaguardar o poder de decidir quais as queixas que viriam a aceitar.

Se se tivesse concretizado, uns aceitariam queixas sobre violação do direito aos cuidados de saúde, outros sobre violação do direito à alimentação, outros sobre água, outros sobre segurança social, etc. E eu, entre duas sessões do grupo de trabalho, pensei e perguntei a mim mesma se aquilo era uma solução. Concluí que não era. Se eu tivesse o azar de o meu problema ser o direito à educação e não o direito à saúde e vivesse num país que só aceitasse queixas sobre saúde não podia fazer nada.

Como é que resolveu esse impasse?

Trabalhei e investi tanto que comecei a ganhar credibilidade. Acreditar no que se está a fazer é meio caminho andado para convencer os duzentos estados membros das Nações Unidas.

O protocolo mereceu o consenso de todos os países?

Sim, nem os EUA quebraram o consenso, o que é quase um milagre. Aprovaram o protocolo e depois fizeram uma declaração a dizer que os direitos sociais, econômicos e culturais são aspirações.

O texto do protocolo permite diferentes interpretações?

O protocolo é muito bom, mas permite entendimentos um pouco diferentes. Prevê uma coisa que não existe para os direitos civis e políticos: em caso de violação grave e sistemática de um direito num determinado país, o Comitê tem poder para se deslocar ao país para investigar a situação. É o Comitê que toma a iniciativa com base no mecanismo do inquérito e para situações mais graves é fundamental.

A alimentação é um direito humano fundamental e a habitação igualmente. Significa que devem ser garantidos independentemente do esforço dos cidadãos?

Não. Ainda há pouco me fizeram essa pergunta a propósito do direito à água. Há quem diga que se é direito humano deve ser gratuita. Mas não. Ser direito humano obriga os estados a adotarem medidas com vista à realização progressiva do direito, dentro dos recursos financeiros disponíveis.

Também quer dizer que nenhum cidadão pode ser privado do exercício desse direito por falta de dinheiro. É por isso que pagamos os alimentos que compramos nos supermercados, a água que consumimos em casa, o apartamento em que habitamos, até os cuidados de saúde e as prestações sociais. No dia em que não conseguirmos pagar, o Estado tem de nos substituir e garantir a realização desse direito. É essa a diferença entre direitos humanos e caridade (ou solidariedade)!

Os números assustam. Um bilhão de pessoas não tem acesso a água segura para beber e todos os dias morrem quase cinco mil crianças por ingestão de água contaminada.

Crianças com menos de cinco anos… E 443 milhões de dias de aulas que se perdem todos os anos por doenças causadas pela água. E em certas regiões cerca de vinte por cento das moças deixam de ir à escola quando estão menstruadas porque têm vergonha de partilhar os banheiros com os rapazes. Precisamente porque não há banheiros separados por sexo.

Nos países da África subsariana o produto interno bruto perdido devido a doenças com origem na água é superior à ajuda pública ao desenvolvimento que recebem dos países industrializados. É uma crise de proporções por nós, ocidentais, inimagináveis.

Se pensarmos que por detrás dos números estão pessoas…

Uma boa deixa para falar de direitos humanos e para os distinguir de desenvolvimento humano. Não basta garantir o cumprimento dos objetivos do desenvolvimento do milénio, que apostam em reduzir em cinquenta por cento o número de pessoas que não têm acesso à água e saneamento. É bom mas não basta.

É que os cinquenta por cento que continuam a não ter acesso são sempre os mesmos: as pessoas mais pobres, com deficiência, que habitam em zonas rurais, os imigrantes, as crianças, os refugiados e indígenas. Os direitos humanos obrigam a prestar atenção aos grupos mais vulneráveis e o grande desafio que se coloca aos estados é corrigir este desequilíbrio. Para os direitos humanos cada pessoa é importante!

Numa sessão da ONU chegou a citar um artigo do British Medical Journal…

É muito importante. É a ciência a demonstrar que entre antibióticos, vacinação, anestesia, descoberta do DNA, para o progresso da medicina, mais importante do que tudo isto foi o saneamento.

Está a cumprir o primeiro ano de mandato, dedicado ao saneamento, e o próximo terá como tema o setor privado. Que mensagem quer transmitir?

Não sei ainda, é muito cedo. Vou olhar para a privatização dos serviços de abastecimento de água para entender a sua legalidade na perspetiva dos direitos humanos. Os direitos humanos não são contra a privatização, desde que se garanta o acesso quer em termos físicos mas também econômicos.

E o Estado tem de regulamentar a ação dos privados. E estes, que responsabilidades têm? Que responsabilidades tem a indústria hoteleira, de restauração, de telecomunicações e outras no acesso ao direito à água.

E o tema do terceiro ano será…

Seria um erro defini-lo já. Há dois temas que já estou a investigar – as alterações climáticas e as boas práticas em matéria de acesso à água e saneamento. Em outubro, virão a Portugal especialistas de todo o mundo para debater estas matérias.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Angola/Bispo do Namibe considera que sonho de Agostinho Neto está a ser realizado

17 setembro 2009 -- O bispo da Igreja Católica no Namibe, Mateus Feliciano Tomás, disse hoje que o sonho de Agostinho Neto de ver uma Angola em paz, liberdade, unida e em desenvolvimento está a ser cumprido.

Em declarações à Angop, à propósito do Dia do Herói Nacional, que hoje se assinala, o religioso disse que deve-se sempre seguir os ensinamentos dos antepassados, tirando uma lição para o futuro.“Devemos valorizar os nossos heróis, por isso, o 17 de Setembro é uma data digna de ser comemorada”, sublinhou.

Apontou a reconstrução nacional e a melhoria das condições sociais das populações como o cumprimento de um objectivo de Neto, quando a 11 de Novembro de 1975 proclamou a Independência Nacional.

“Estamos no caminho certo, no que diz respeito a democratização do país, liberdade em todos os sentidos, temos que trabalhar cada
vez mais, sempre fieis aos ensinamentos dos nossos antepassados”, realçou.

Considerou ser uma honra para os namibenses acolher o acto central do 17 de Setembro, devendo aproveitar a ocasião para mostrar o crescimento da província.

Segundo disse, a cidade está em crescimento em todos os sentidos, destacando o surgimento de novas residências, escolas e hospitais, tendo considerado as inaugurações de infra-estruturas, no quadro do 17 de Setembro, um sinal da vitalidade da província.

Nascido em 17 de Setembro de 1922, no Icolo e Bengo, a 60 quilómetros a norte de Luanda, Neto morreu em Moscovo, capital da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a 10 de Setembro de 1979, por doença.

Tido como um homem de cultura e de poesia, o “Herói Nacional” fez parte da geração de estudantes africanos que viria a desempenhar um papel decisivo na independência dos seus países, naquela que ficou designada como a guerra colonial portuguesa.

Foi preso pela PIDE-DGS, antiga polícia política portuguesa, e deportado para o Tarrafal, Cabo Verde, sendo-lhe fixada residência em Portugal, de onde fugiu para o exílio. Aí assumiu a direcção do MPLA, do qual já era presidente honorário desde 1962. (Notícias Lusófonas)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Brasil/OS GUARANI E A JUSTIÇA

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

8 setembro 2009/Adital http://www.adital.com.br

Maria Rosa de Miranda Coutinho *

É de certa forma confortador para quem acompanha a caminhada dos Guarani, a algum tempo, ver o processo de devolução de suas terras no norte catarinense, historicamente vinculadas a seu patrimônio cultural.

A decisão do governo federal em homologar suas terras num primeiro momento, não poderia ter sido a mais sensata, depois de fechar os olhos para tantas outras áreas indígenas sem demarcação em todo o território brasileiro.

A mendicância de um povo que já fez parte da construção de grande extensão territorial do nosso país deveria ter sido reconhecida há mais tempo e de preferência em todas as regiões brasileiras.

Na verdade, o norte do estado de Santa Catarina tem uma dívida de séculos para com esses "poucos índios" como são descritos pelo poder empresarial da região. Muitos foram dizimados pela exploração, intolerância e crueldade de uma sociedade não indígena que elegeu uns poucos donos do poder dispostos a banir os chamados "entraves do progresso".

Os pequenos grupos à beira da estrada litorânea simbolizam o esquecimento do poder público aos direitos desses indígenas que estão confinados em pequenos espaços tentando sobreviver.

As perdas que os povos indígenas têm em relação às indústrias e agronegócios é imensurável considerando que a terra não é simplesmente um bem de negócio, mas um espaço cultural envolvendo sua religiosidade, saúde e continuidade histórica.
Somos levados pela ambição material e pelo desejo acumulativo a ignorar a riqueza cultura de um povo diferente de nós que muito contribuiu na construção de nossa própria cultura: Alimentos, nomes, técnicas agrícolas e tantos valores significativos que sempre permanecem.

Parabéns ao povo Guarani pela persistência em existir em nosso Brasil, despertando com isso uma consciência nova em cada cidadão de bem.

* Professora universitária

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br

sábado, 22 de agosto de 2009

Brasil/Era das Utopias: Minissérie aborda mudanças pós 2ª guerra

19 de Agosto de 2009/Vemelho http://www.vermelho.org.br

A minissérie "Era das Utopias", idealizada e dirigida pelo cineasta Silvio Tendler, estreia dia 31 de agosto na TV Brasil. Dividida em seis capítulos, a obra retrata as principais transformações sociais, econômicas, culturais e artísticas após a Segunda Guerra Mundial. O programa é um dos destaques do projeto de renovação da programação da emissora.

Utopia. O substantivo vem das palavras gregas ou e topos, que significam sem lugar. Refere-se a um lugar ou posição ideal, ainda não atingido. Sonho impossível de realizar. Ideal inatingível.

A utopia pela igualdade entre os homens inspirou gerações. O mundo soviético inspirou os sonhadores. Com o fim da II Guerra Mundial, os Estados Unidos são a potência emergente. O american way of life passa a ser o modelo de civilização, quase uma norma. O mundo assiste a um confronto cultural, social, religioso, político e ideológico.

"Eu sempre trabalhei muito na questão das ideologias. São vinte anos de pesquisa em torno destas questões ideológicas que pautaram minha geração", conta Silvio Tendler. Foi nessa época, há vinte anos, que Tendler começou a catalogar e organizar as utopias de sua geração.

Para ele, utopia é a palavra mais utilizada nesses últimos tempos e é um assunto que sempre o fascinou. “Eu sempre trabalhei muito na questão das ideologias, na questão da história, e corri atrás desta construção pelo mundo afora”. A construção à qual Tendler se refere é Era das Utopias - a nova minissérie da TV Brasil.

A série pretende retratar, além das principais transformações após a Segunda Guerra Mundial, as utopias que foram criadas neste período e as barbáries que o pontuaram. A série descreve o desmantelamento das utopias vigentes em 1968 e a criação das novas utopias que se consolidaram no mundo contemporâneo.

Os primeiros capítulos tratam do surgimento da utopia socialista e todas as suas consequências durante o século XX. Já os capítulos referentes à utopia capitalista mostrarão a derrocada do Socialismo com a queda do muro de Berlim, em 1989; os desdobramentos gerados e, tantos outros fatos que levaram às novas utopias, derivadas do conflito entre novas tecnologias e velhas mazelas. Para Tendler, a luta das atuais gerações é a preservação do planeta.

Era das Utopias mostrará algumas imagens de arquivo, além de imagens e entrevistas inéditas de intelectuais, artistas e personagens do período, como: Apolônio de Carvalho, Albert Jacquard, Eduardo Galeano, Ferreira Gullar, Gillo Pontecorvo, Jacob Gorender, Noam Chomsky, Jaguar, Augusto Boal, Edgar Morin, Sérgio Cabral, Susan Sontag, Tom Zé, Amos Gitai, entre outros.

Dono de um jeito de fazer cinema denominado de “câmera cidadã” por colegas de profissão, Silvio conta que até começar a produzir o longa “Utopia e Barbárie” - que é a ancora da minissérie - percebeu que não se falava muito em utopia, até então.

“Eu acho que a ideologia e a utopia têm uma relação íntima. É uma relação promíscua. Quando você está falando de utopia, você está defendendo ideias, quando você está falando em ideologia, você está defendendo utopias, então eu acho que é este casamento que é fundamental e que eu estou tentando trabalhar na Era das Utopias”.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Religião/Entrevista com Paul Lakeland: Pe. Haight, silenciado pelo Vaticano

IHU - Unisinos *

ADITAL Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
5 fevereiro 2009/ http://www.adital.com.br

Adital - Depois de ser notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 2004 e ser acusado de causar "graves danos aos fiéis" por causa do livro "Jesus, Símbolo de Deus" (Paulinas, 2003), o teólogo jesuíta norte-americano Roger Haight, de 72 anos, recebeu, agora em janeiro, ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre assuntos teológicos.
"Jesus, Símbolo de Deus", segundo o próprio Haight, é uma tentativa de expressar as doutrinas tradicionais sobre Cristo e a salvação em uma linguagem apropriada à cultura pós-moderna. E, em particular, o livro oferece uma leitura teológica positiva de religiões não-cristãs e suas figuras de salvação.
Em entrevista exclusiva por e-mail à IHU On-Line, Paul Lakeland, professor de Estudos Católicos na Fairfield University, em Connecticut, nos Estados Unidos, afirma que o trabalho de Haight "busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno".
Lakeland foi um dos poucos teólogos que se manifestou publicamente em defesa de Roger Haight. Seu artigo "Not So Heterodox: In Defense of Roger Haight" [Nem tão heterodoxo: Em defesa de Roger Haight], foi publicado em um dos jornais católicos mais antigos e mais reconhecidos dos EUA, o Commonweal.
Nesta entrevista Lakeland perpassa diversos pontos da teologia contemporânea e a sua relação de altos e baixos com os "elementos de controle" - como ele os chama - do Vaticano.
Paul Lakeland, é professor catedrático de Estudos Católicos da Fairfield University, em Connecticut, nos EUA, onde dirige o Centro de Estudos Católicos. Ex-jesuíta, é articulista do jornal católico Commonweal, de Nova Iorque. Em 2004, conquistou o primeiro lugar no Catholic Press Award, na categoria teologia, pelo seu livro "The Liberation of the Laity: In Search of an Accountable Church" [A libertação dos leigos: Em busca de uma igreja responsável, em tradução livre] (Continuum International, 2003). Também é autor de "Postmodernity: Christian Identity in a Fragmented Age" [Pós-modernidade: Identidade cristã em uma era fragmentada, tradução livre] (Continuum International, 1997) e "Catholicism at the Crossroads: How the Laity Can Save the Church" [Catolicismo na encruzilhada: Como os leigos podem salvar a igreja, tradução livre] (Continuum International, 2007).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Para Haight, o que significa dizer que Jesus é o "Símbolo de Deus"?
Paul Lakeland - Quando Haight usa a palavra "símbolo", ele está pensando no que a teologia católica usualmente se refere como um "sacramento", mas, por estar escrevendo da mesma forma a todos os cristãos e os não-cristãos, ele não usa um termo que não é familiar ou talvez inaceitável, a uma primeira vista. Seu trabalho é apologético, alcançando um público além dos limites da Igreja Católica. Então, ele prefere usar o termo "símbolo", já que é usado em muitas disciplinas diferentes (Ciências Humanas) e tem, mais ou menos, esse significado comumente aceito: um símbolo torna presente algo que não a si mesmo. Às vezes, os símbolos são a única forma de atingir certas realidades, por exemplo, o subconsciente humano. Um símbolo "concreto", diferentemente de uma palavra ou ideia, por exemplo, é um "algo" verdadeiro. E um símbolo religioso concreto, como um livro, ou um sacramento, ou uma pessoa, é algo que torna Deus presente. Para aqueles que desejam ver as dinâmicas mais profundas da realidade simbólica, como alguns dos grandes Padres da Igreja e os Cristãos Orientais com os seus ícones, um símbolo é uma meditação profunda da presença real e verdadeira de Deus ao mundo. Muitas das pessoas que reagiram negativamente ao uso do termo "símbolo" por Haight trivializam-no e continuam, então, criticando o seu próprio mal-entendido.
IHU On-Line - Essa é a segunda notificação recebida pelo Pe. Haight do Vaticano. Desta vez, a Congregação para a Doutrina da Fé afirma que seu livro contém "afirmações contrárias às verdades da fé divina e católica [...] relativos à preexistência do Verbo, à divindade de Jesus, à Trindade, ao valor salvífico da morte de Jesus, à unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus e da Igreja, e à ressurreição de Jesus". O livro de Haight realmente ultrapassa as fronteiras da teologia católica ou a Congregação não compreendeu as ideias do autor?
Paul Lakeland - Eu não estou certo quanto ao que a pergunta se refere como "segunda notificação". Pelo que qualquer um de nós sabe, houve apenas uma notificação dirigida à teologia de Haight. Todo o resto são apenas comentários sobre isso [Haight foi notificado pela Congregação para a Doutrina da Fé em dezembro de 2004 e agora, em 2008, recebeu ordens de Roma para parar de ensinar e publicar sobre teologia, N.R.]. Também, enquanto essas frases que resumem os "erros" de Haight em afirmações precisas podem ser boas para provocar a atenção e focalizar sobre a questão, elas também fazem com que pareça que o livro de Haight desafia, direta e abruptamente, a revelação divina e a fé católica. É difícil imaginar qualquer teólogo gastando tanto tempo e esforço com uma tarefa negativa como essa.
Todo o trabalho de Haight objetiva introduzir as pessoas no sentido cristão que pode ser experimentado como vital em nosso tempo e em nossa visão contemporânea do mundo. A frase citada na pergunta, então, representa uma interpretação muito estreita e particular do seu trabalho, que não é compartilhada por um amplo número de teólogos e fieis que leram os seus livros. É, na melhor das hipóteses, uma interpretação em disputa do trabalho de Haight. Raramente é útil fazer essas instruções ou afirmações generalizadas, tiradas do contexto e colocadas diante dos leitores como se fossem capazes de ser isoladas ou provadas. Elas são, pelo contrário, apreciações particulares de uma discussão ampla, técnica e de diversos nuances, em um longo texto baseado em um ponto de vista, em suposições e em um método. A disciplina da teologia e da comunicação de convicções teológicas é muito mais do que uma série de proposições e julgamentos absolutos. Somente quando isso é compreendido, é que é possível que alguém aprecie o que Haight está tentando fazer em sua cristologia. Atalhos e frases de impacto não são um substituto justo para se dedicar ao argumento em sua total complexidade.
Muitos teólogos e pensadores cristãos se dão conta de que a verdade da fé cristã encontra-se no próprio ser de Deus, de que nós nos agarramos a Deus por meio de nossa fé de que Jesus, em suas palavras, suas ações e sua pessoa, revela Deus, mas que, ultimamente, o objeto da nossa fé é um mistério incompreensível, como Karl Rahner disse tão eloquentemente. Sobre essa premissa, na consciência da transcendência infinita de Deus, muitas dessas pessoas dizem: o livro de Haight contém ideias que procuram abrir o mistério do divino e a fé católica sobre a pré-existência de Deus como Palavra, a divindade de Jesus que recebeu o poder dessa Palavra ou do Deus como Espírito, como Lucas insiste, de forma que toda a vida, o ensinamento, a morte e a ressurreição de Jesus são uma parábola concreta e histórica que nos traz a salvação de Deus. O livro nos mostra como essa salvação - que só pode vir de Deus, que é o criador do céu e da terra - estava presente em Jesus, e como Deus como Espírito continua a ser ativo em todo o povo de Deus na história e, de uma forma explícita, na Igreja. Embora Jesus seja uma pessoa histórica única e particular, Jesus é, na linguagem judaica, o Messias ou o Cristo, porque revela e media Deus de uma forma que é universalmente relevante. Todo mundo pode apreciar tal mensagem sobre Deus, mesmo que sejam incapazes de afirmá-la como verdade. Certamente, isso não está longe da essência da fé cristã.
Eu não posso dizer se a Congregação não compreendeu as ideias de Haight, mas eles certamente não parecem abertos a interpretar generosamente os seus objetivos. Seu trabalho, olhado com simpatia, busca servir exatamente ao mesmo propósito de toda a Igreja e da Congregação, isto é, tornar a mensagem da igreja inteligível neste novo mundo pós-moderno.
IHU On-Line - Haight afirma em seu livro que "só Deus realiza a salvação, e que a mediação universal de Jesus não é necessária" e que "na cultura pós-moderna é impossível pensar [...] que uma religião possa pretender ser o centro para o qual todas as outras devem ser reconduzidas". Com isso, qual é, para Haight, o objetivo do diálogo inter-religioso? É necessária uma espécie de "relativismo" para que haja um verdadeiro diálogo com as demais religiões?
Paul Lakeland - Muitos livros e muitas pessoas não descartaram essa questão aparentemente simples. Isso por si só deveria convencer a todos de que essa é uma questão difícil, que ainda está em aberto, porque muitos ainda a estão questionando. Essas citações de Haight, citadas fora de contexto, provavelmente não são a melhor maneira de começar a responder a essas questões profundas. Uma forma melhor deve ser tentar formular o problema ao qual Haight está tentando responder.
Tratando o segundo ponto em primeiro lugar, certamente alguém que considera os contornos da "cultura pós-moderna" concordaria com a afirmação de que essa cultura tem problemas com organismos em particular que anunciam verdades universais e absolutas para todos os outros. Como Haight está falando com pessoas que vivem e são afetadas por essa cultura, isso se torna um problema ao qual ele deve se dirigir e não pressupor a resposta e simplesmente anunciá-la.
Sobre o primeiro ponto, "Jesus" é o nome característico que se refere a Jesus de Nazaré, e muitas pessoas foram salvas antes que Jesus nascesse, como nós sabemos pelo Antigo Testamento. Além disso, como a igreja ensina no Vaticano II que as pessoas podem ser salvas mesmo que nunca tenham ouvido falar de Jesus, hoje se torna uma pergunta legítima questionar como elas foram salvas. O Vaticano II não responde a essa questão. Ele apenas ensina que elas foram realmente salvas fora da influência histórica de Jesus de Nazaré. Haight parece estar dizendo isso. Como a única forma pela qual as pessoas podem ter alguma ideia de Deus é por meio de organismos históricos concretos, e estes são usualmente chamados de religiões, é razoável pensar que Deus faz contato com as pessoas por meio das suas religiões. Tudo isso parece bastante óbvio.
Permita-me adiar a questão do objetivo do diálogo interreligioso para a próxima pergunta, quando ela surge novamente, e passar para o termo "relativismo". O "relativismo" é um termo usualmente negativo e totalitarista, que faz um julgamento genérico que poucos teólogos apóiam. Entre absolutismo e relativismo, encontra-se uma ideia mais saudável de pluralismo, que sugere diferenças que subsistem dentro de um campo de unidade ou comunhão. Na política, por exemplo, as pessoas dos Estados Unidos são geralmente agrupadas como "norte-americanos", apesar de, muitas vezes, defender ferozmente posições políticas que são seriamente diferentes. A verdadeira habilidade para isso vem do respeito pelas outras pessoas, de sua defesa honesta de opiniões e do reconhecimento de que nenhuma pessoa, nenhum partido e nenhuma religião podem conter o infinito mistério de Deus. Essa ideia de reconhecer a unidade entre as diferenças oferece grandes possibilidades para se entender como Deus lida com os seres humanos e as respostas das religiões. A próxima pergunta conduz a esse território. Mas, antes de chegar lá, deve-se notar, de passagem, como a ideia do pluralismo é usual para a própria teologia católica. Certamente, a fé única pode se expressar em muitas teologias diferentes, porque sempre foi assim. A ideia de que há apenas uma teologia católica de alguma coisa é recente e disfuncional e não faz justiça à rica e complexa tapeçaria da Tradição. Se, por exemplo, tivéssemos tido apenas Agostinho ou apenas Tomás de Aquino, como seríamos mais pobres!
IHU On-Line - Qual a importância de Jesus para o pluralismo religioso e para o diálogo com as outras religiões? Como podemos estabelecer um paralelo entre Jesus e as demais figuras de salvação, como Buda, os deuses hindus ou os orixás afro-brasileiros?
Paul Lakeland - Se alguém viu um pouco de senso comum na última resposta, o contexto para esta discussão e o intercâmbio entre religiões muda imediatamente. Ela é menos polêmica e mais conversacional, é menos competitiva e mais alinhada em cooperação e compreensão mútua. Haight acredita que o objetivo do diálogo inter-religioso (a última pergunta) e a sua importância desde uma perspectiva cristã tem a ver com aprender mais sobre Deus e sobre nós mesmos. Quando reconhecemos que Deus comunicou algo do seu próprio ser para outras pessoas (e como se poderia dizer que o Criador não está presente e não revela o ser de Deus em todas as criaturas?), isso não significa que Deus está menos presente e comunicativo em nosso próprio povo (não-competição). O propósito e a importância do diálogo são comunicação e compreensão mútuas, de forma que possamos aprender mais sobre Deus a partir de como Deus se comunicou com outros e de como eles experimentaram e responderam a Deus. A importância de Jesus é que ele é o revelador universalmente relevante de Deus, e a sua revelação é verdadeira; a importância da Torá é de que Deus revelou seu próprio ser na Lei Judaica. Da mesma forma que aprendemos com nossa religião-mãe, poderemos aprender com as outras religiões.
Seria um erro interpretar Haight dizendo que há uma correspondência ou correlação um-para-um entre as figuras de salvação. Elas são diferentes; elas não são as mesmas. Haight diz explicitamente que as religiões não são iguais. "Igualdade" não é uma categoria que é frequentemente usada aqui: Sally é igual a Diane? A questão não faz sentido. A comparação deve ser feita em um nível muito fundamental do processo de revelação e de fé. Deus, como criador pessoal e amoroso, é a presença e o poder interior no íntimo de todas as criaturas e, por isso, no íntimo de todos os seres humanos. A autocomunicação de Deus, o Espírito de Deus pode explodir em todas as criaturas, situações e períodos em formas genuínas, assim como pode haver muitos guias falsos e decepcionantes. Comunidades religiosas saudáveis, harmoniosas, construtivas e vivas são um bom sinal da revelação de Deus. Religião comparada e teologias da religião comparadas são formas de se investigar os valores relativos das religiões.
IHU On-Line - A Congregação parece estar colocando em questão dois conceitos importantes para o Vaticano: salvação e relativismo religioso. Como essas duas ideias podem ser interpretadas à luz do pensamento de Haight?
Paul Lakeland - Vamos tomar essas duas ideias uma por vez. Salvação é um conceito central no livro "Jesus, Símbolo de Deus": Haight aborda isso com o Novo Testamento, em que ele identifica as diferentes metáforas e concepções que são usadas para descrever como Jesus salva. Ele trata disso novamente nos Padres da Igreja e, de novo, sistematicamente, em um nível pessoal e social. As diferentes ideias de salvação provavelmente explicam por que nenhuma forma de compreendê-la foi alguma vez rigorosamente definida a ponto de excluir as demais.
Algumas coisas são importantes para se entender Haight sobre a salvação. Uma delas é que ele entende a salvação neste mundo como o fato de se ter todo o nosso ser conscientemente aberto a todo o tamanho do amor de Deus por nós: é isso o que Jesus revela, e essa revelação é a salvação de Deus. Ele destaca o argumento patrístico da divindade de Jesus: Jesus deve ser divino precisamente porque nós experimentamos a salvação de Deus nele e por meio dele.
O segundo aspecto é que, uma vez que um cristão ou uma cristã experimente Deus como salvador por meio de Jesus, ele ou ela irá entender que a verdadeira natureza de Deus é ser salvador, por isso a presença criativa de Deus em todas as pessoas é também uma presença salvadora. Porque a salvação é revelada por Jesus para ser o caráter mesmo de Deus, sua oferta está presente onde quer que o Criador esteja presente, isto é, em todo o lugar. A salvação, por isso, não pode ser uma posse competitiva de um único grupo.
Desse ponto de vista da salvação, pode-se ver como o pensamento de Haight responde à questão do relativismo religioso. A ideia de "relativismo" é uma categoria errada para o cristão quando se refere à salvação. Há apenas um Deus e, portanto, apenas uma salvação. Essa salvação é revelada decisivamente em Jesus, mas Jesus revela-a precisamente ao revelar um Deus que é generoso no perdão e no amor, assim todas as criaturas de Deus participam dela. Uma religião ou outra podem expressar essa salvação de Deus mais ou menos claramente em sua vida e em seu testemunho, mas a única salvação que todos discutem em diferentes linguagens, terminologias e sistemas culturais religiosos ainda é uma promessa que excede infinitamente todas as expectativas.
IHU On-Line - Em seu artigo para a revista Commonweal, o senhor afirma que "uma das questões teológicas mais urgentes é como entender a forma pela qual a verdade está presente nas outras religiões e nas outras comunidades cristãs". O senhor tem algumas respostas ou pistas para essa pergunta?
Paul Lakeland - Minha resposta à pergunta anterior serve em grande parte para responder a essa questão. Entretanto, é muito menos importante - talvez até impossível - determinar apenas como a verdade está presente em outras religiões do que afirmar que a verdade está, de fato, presente. A teologia institucional da tradição católica é impaciente com a ambiguidade ou a falta de certeza e tem uma tendência constante de exagerar o grau no qual os seres humanos compreendem o mistério divino. Mesmo com a ajuda do Espírito, nós não sabemos exatamente o quanto as nossas palavras correspondem à realidade de Deus. O quanto Deus está presente nas outras tradições é, a fortiori, algo pelo qual deveríamos nos humilhar. A Lumen Gentium foi muito clara ao dizer que Deus deseja a salvação de todas as pessoas e foi compreensivamente reticente sobre como exatamente isso ocorre. Os teólogos se debatem sobre esse assunto, e a igreja ainda não sabe como responder a essa questão, se é que algum dia irá responder.
IHU On-Line - Como o senhor vê o debate sobre o pluralismo religioso e o diálogo inter-religioso na teologia contemporânea?
Paul Lakeland - O debate, desde uma perspectiva cristã, se centra em três verdades. Primeiro, os cristãos tem fé em Jesus como a presença divina na história, como o salvador, e ninguém - budista, hindu ou muçulmano - poderia pensar melhor sobre os cristãos dizendo que Jesus só é significativo para os cristãos. Segundo, Deus deseja a salvação de todos os seres humanos, e o fato de eles serem salvos ou não, não tem relação com o fato de eles conhecerem ou não, ou aceitarem ou não Jesus como seu salvador. Terceiro, os membros fieis de outras tradições religiosas são tão persuadidos pelo valor salvífico dessas tradições como os cristãos o são pela mensagem do Evangelho. A tarefa da teologia não é sobre como mostrar que o segundo e o terceiro mandamento devem ser subsumidos ao primeiro, mas como todos os três podem ser verdadeiros.
IHU On-Line - Jon Sobrino, Jacques Dupuis, Peter C. Phan e agora Roger Haight, todos foram processados pelo Vaticano recentemente. Como é possível entender essa posição do Vaticano, em pleno século XXI, em plena pós-modernidade?
Paul Lakeland - A teologia oficial é proclamação, não hermenêutica. De certa forma, essa atitude [do Vaticano] é relativamente apropriada, porque o papel central da Igreja é a proclamação do Evangelho. O elemento "de controle" no comportamento burocrático do Vaticano é exagerado, primeiramente porque eles parecem não entender a tarefa teológica. O papel do teólogo tem a ver com a sua natureza hermenêutica, movendo-se, como o próprio Hermes, em uma espécie de estilo sacerdotal ou mensageiro entre a Tradição eclesial e os tempos em que nós vivemos. A teologia traz a sabedoria extraeclesial contemporânea para a interpretação do Evangelho, e o Evangelho, para a iluminação do nosso mundo do dia de hoje. A tarefa é sempre tentadora, ambígua e desafiadora. O erro que Roma faz é a sua falha em compreender que a pregação e a pesquisa teológica não são a mesma coisa, e que cada uma deve respeito à outra. Não se pretende aqui apoiar, selecionando os teólogos e juízes "oficiais" das teologias de outros, apenas aqueles que Antonio Gramsci nomearia como "intelectuais tradicionais", isto é, aqueles que veem o seu papel apenas como uma apologia ao status quo.
IHU On-Line - Em sua opinião (ou em sua esperança), como o "caso Haight" irá terminar?
Paul Lakeland - Eu não tenho a mínima ideia de como o caso Haight irá terminar. Eu estou certo de que é um exemplo a mais de como o aparato do Vaticano para a investigação dos teólogos está moral e intelectualmente desacreditado. Minha esperança é de que Bento XVI possa adotar a retumbante declaração de posse de Barack Obama, no sentido de que a preocupação com a segurança não nos levará a um compromisso com os nossos valores fundamentais. Há uma séria desconexão entre o Evangelho do amor e da liberdade, por um lado, e os procedimentos quase-legais, secretos e injustos com horríveis consequências punitivas, por outro. Em geral, a comunidade teológica está se autocorrigindo, e o diálogo entre Haight e os teólogos que concordam com ele, com os que tem reservas sobre alguns aspectos de seu trabalho e com os que não concordam substancialmente tem ocorrido há algum tempo e irá continuar. Eu sei que Haight espera e aprecia esse tipo de troca, porque, como todo bom teólogo, ele sabe que irá aprender com esse tipo de debate, assim como os outros participantes. O Vaticano precisa reconhecer que é assim que a compreensão teológica progride. E se ele sente, em sua sabedoria, que há momentos em que deve intervir, então que isso seja feito em plena luz do dia, de acordo com as práticas judiciais reconhecidas internacionalmente. Essa função também deveria ser retirada das mãos da Congregação para a Doutrina da Fé e colocada onde ela pertence, na Comissão Teológica Internacional (CTI), mas uma CTI que seja razoavelmente representativa das muitas vozes da teologia católica, e não uma CTI composta apenas por uma perspectiva teológica.

* Instituto Humanitas Unisinos

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br

domingo, 14 de dezembro de 2008

Moçambique/IGREJA OCUPA VAZIO EXISTENTE NA RELAÇÃO ESTADO CIDADÃO (Parte II / Final)

Júlio Manjate

O Ministério da Justiça registou entre 1990 e 2008 um total de 619 novas igrejas em todo o país, que se juntam a tantas outras que vinham jogando o seu papel no esforço de construção de uma consciência humana à imagem divina. Olhando para a função da Igreja enquanto instituição inspiradora de modelos de correcção, de ética e da moral pública torna-se difícil estabelecer uma relação causa-efeito entre o crescimento numérico das igrejas e a crescente degeneração dos padrões de moral na sociedade moçambicana. Ou seja, ocorre uma relação inversa entre a expansão da igreja e a atitude do Homem em relação à vida e ao “Mestre Divino”. Para discutir os contornos deste paradoxo e perceber a visão do Governo sobre o assunto, conversámos com o Prof. Dr. Carlos Machili, Director de Assuntos Religiosos no Ministério da Justiça. Da conversa com o Professor Machili, fica uma ideia clara dos erros e omissões cometidos ao longo do tempo, que propiciaram a multiplicação de confissões religiosas, muitas das quais têm o domínio do mundo da fé, sem nenhum conhecimento sólido sobre o mundo da razão. Na entrevista, que incluiu uma viagem pela Antropologia Teológica, Carlos Machili faz um olhar sobre o papel da Igreja em Moçambique, e avança a sua opinião sobre as razões do crescimento exponencial do número de instituições religiosas no país:


8 dezembro 2008/Notícias


Not – E qual foi o peso que a Igreja teve no avanço do movimento nacionalista moçambicano?
CM – Olha, uma igreja não é apenas a casa do pároco e o altar. É todo o conjunto à sua volta. Eu nasci numa família religiosa. Meu avô era padre anglicano, e meu pai também. Os pais de Joaquim Chissano, Mário Machungo, Pascoal Mocumbi, Mariano Matsinhe entre outros, estudaram na missão do Alvor, na Manhiça, e só depois é que foram parar ao ambiente público. E quando saíram de lá sabiam que a primeira coisa que tinham de fazer era dar educação aos filhos. E investiram nisso...
Not - Mas como se explica então que, hoje, havendo mais gente nas igrejas, mais padres, isso não se reflicta numa melhor orientação das crianças e dos jovens?
CM - Eu penso que as pessoas são orientadas. A sociedade é que está num dinamismo muito acelerado. Os nossos filhos não são nossos, são filhos da sociedade. O que o teu filho de 17 ou 18 anos te pede para comprar é aquilo que ele vê na praça... E se não fala contigo directamente pede que a mãe interceda e tu tens que fazer para não complicar mais a situação. As instituições religiosas precisam redobrar o seu esforço. Sair das brigas internas. Valorizar a acção do Espírito Santo. Não brincarem com o Espírito Santo, se é que o têm. Precisam ler as agendas prioritárias do país para poderem contribuir no desenvolvimento integral e completo do Homem.
Not – Sob esse ponto de vista, as igrejas estão desfasadas...
CM – Olha, eu digo sinceramente que estou com medo. Nós perdemos por completo a noção do pecado. E uma vez perdida esta noção acabou-se! Até em termos de conhecimento científico estamos prejudicados. Esta elite moçambicana, da qual faço parte, mas que critico, tem um défice de conhecimentos básicos e de métodos e técnicas. Veja, por exemplo, quando chegou a independência dissemos que as línguas maternas não eram nada, que o português é que era a língua nacional, que era a língua da unidade nacional. Amigo, a consciência da unidade nacional não se ganhou com a língua portuguesa! Foi com um trabalho intenso, lento, de consciência política. Quem é que pensa em português? Vai lá para a aldeia e veja. A qualidade de ensino, sobretudo lá no campo, é fraca porque a maior parte das crianças vem de famílias de iletrados. O professor que pega nestas crianças é pai, é tudo. Esta base de escola tinha sido criada por Eduardo Mondlane. Quando chegou a independência quebrámos o projecto que Mondlane elaborou em 1961, para ter um núcleo básico de gente instruída para a FRELIMO...
Not – Qual era a essência desse projecto?
CM - Ele defendia que o Ensino Primário deve ser fundado a partir das línguas maternas. Eu sei ler e escrever em nyanja, minha língua, tal como sabem muitos outros que estudaram no meu tempo... A maior parte das crianças no campo não pensa em português. Até à sétima classe o Ensino Primário é só violência psíquica para a criança. Precisamos discutir onde estão os erros para podermos corrigir. Agora introduziu-se isso está a andar mas já é tarde porque as elites instruídas não querem saber disso e nem querem saber dos seus filhos a estudar nas nossas universidades...
ESTADO DEVE DESPERTAR PARA A NOVA REALIDADE
Teoricamente, nenhuma instituição no mundo, tanto na Política como na Sociologia, tem capacidade de dialogar com o ser humano como têm as instituições religiosas. Hoje em dia, fica claro que é a igreja que mais contacta, regularmente, com o fórum íntimo do ser humano. Esta situação pode configurar um ambiente política e sociologicamente adverso para o Estado...
Not – Na sua opinião ainda vamos a tempo de envolver a Igreja nesta discussão com toda a dispersão que hoje a caracteriza?
CM - Precisamos reequacionar este crescimento. Temos que motivar as igrejas a tomar consciência de um ambiente sociológico mudado, muito acelerado. Elas têm que ter um discurso que não seja só de momento. Para mim esta diversidade nem é tão alarmante como isso, porque podemos voltar a afunilar e, ao invés de multiplicar, deixar que as várias igrejas novas sejam como que ramificações de uma mesma visão da igreja. Porque é que temos mais de 90 ou 200 igrejas zione e não podemos ter apenas uma com vários escalões de organização e uma autoridade única? Temos que obrigar a eles a ler a importância disto.
Not – E quem vai fazer esse exercício?
CM - Esse exercício tem que sair da pressão social... para elas compreenderem que não são apenas autoridade política e social mas que são também autoridade espiritual. Não é por decreto que eles vão ganhar esta consciência, porque também se realizam como elites, como líderes muito poderosos, por vezes até mais do que os líderes políticos. Temos por aí 800 líderes religiosos em Moçambique, e se multiplicarmos por seis que é o mínimo que cada igreja tem? E não estamos a contabilizar as congregações da Igreja Católica. Quantos padres anglicanos existem? E católicos? Quantas irmãs existem pelo país fora? E repare que todos estes são poderes societais. Como chamar então as igrejas para poderem ser uma força de desenvolvimento e de mudança de mentalidade? Este é um diálogo que tem que ser feito pacientemente. Mas o Estado tem que saber que há uma força que se um dia lhe virar as costas, muita coisa pode se perder... Este é um assunto muito delicado. O Estado tem que conhecer melhor este mundo...
Not – O que quer dizer com isso, professor?
CM - Quero dizer que precisamos de trabalhar seriamente com as instituições religiosas porque estamos muito atrasados. Temos que nos abrir rapidamente. Estes números de crescimento reflectem um vazio do poder à jusante e a incapacidade das igrejas de cumprir a sua missão à montante. A igreja tem um grande manancial porque lida com o Homem. Nenhuma instituição no mundo, tanto na política como na sociologia, tem capacidade de dialogar com o ser humano como uma instituição religiosa. A Igreja tem a capacidade de fazer a pessoa revelar-se, recuar até ao ponto em que ele percebe que a sua vida começou a degradar-se. E conseguem fazer as pessoas mudar! O ponto é como é que podemos explorar este dom a bem da sociedade. O Estado tem que abrir as portas, chamar as igrejas...
Not – Já agora, como vão as relações entre a Igreja e o Estado em Moçambique?
CM - As relações entre a Igreja e o Estado são regidas pela Constituição da República, desde a de 1975, passando pela de 1990 até à actual versão, em vigor desde 2004. Também existem vários decretos que definem balizas de actuação. No entanto, apenas definem normas gerais da liberdade, mas ninguém governa um país só com a Constituição. É preciso haver leis específicas e no caso de Moçambique essa competência foi dada à direcção de assuntos religiosos. Ora, os assuntos religiosos primeiro estiveram na alçada do Ministério da Educação e Cultura, porque a preocupação da Frelimo logo após a independência era nacionalizar a educação que estava nas mãos das igrejas, sobretudo as cristãs.
Depois em 1977, com o início da escalada de agressão rodesiana, os assuntos religiosos passaram para o Ministério do Interior e só em 1983 é que passaram para o Ministério da Justiça.
Not – Professor, o envolvimento que a Igreja teve nas negociações de Paz para Moçambique acabou lhe conferindo um crédito adicional junto das comunidades, porque de repente passou a ser vista como a única instituição capaz de fazer os moçambicanos a respeitarem-se. Este raciocínio é correcto?
CM - O fim da guerra abriu espaço para as igrejas, sim, mas o Estado também abdicou, desorientou-se ou deixou que elas entrassem e passassem logo para o lado fácil da coisa que foi multiplicarem-se. Criaram muito poder. Hierarquizaram-se e agora têm muito poder sobre as pessoas...
Not – É fácil fundar uma igreja em Moçambique?
CM – Olha, eu penso que foi correcta a decisão do Governo deixar expandir as igrejas para podermos começar a reflectir internamente. O ponto é como é que vamos começar a discutir com esta elite toda? E estamos a falar apenas dos cristãos e muçulmanos. Quantas madrassas existem em Moçambique e onde se localizam? Para podermos trazer estas pessoas todas para o diálogo, precisamos fazer um mapeamento das madrassas, capelas e mesquitas, saber onde se localizam.
Not - Quer dizer que agora não há controlo sobre as igrejas?
CM - Eu não diria que esse seja o caso. Deixamos que as igrejas cobrissem o vazio que existia, mas agora podemos criar condições para conversarmos e alinhavar as coisas. As regras existem, tem que haver, sim, uma monitoria e para isso precisamos fazer aprovar um instrumento que se chama Lei da Liberdade Religiosa. Sem isso aprovado na AR não temos nenhum instrumento legal para monitorar as coisas. O regulamento de licenciamento existe, mas precisamos desse instrumento para podermos ir ter com as igrejas. A proposta está há quatro anos na AR.
Not - Esta situação não põe em causa a função do Estado enquanto protector dos cidadãos?
CM - Não. Eu até diria que é o contrário. Como cidadãos nós estamos a ter medo das igrejas, mas afinal qual é a função das igrejas? É construtiva ou destrutiva?
Not - Mas com esta concorrência entre as igrejas tudo fica diluído...
CM – Na verdade a concorrência ridiculariza as igrejas, mas não chegamos ao ponto de pensar que elas são todas promíscuas. Deixemos isso e vamos ver qual o papel que elas podem jogar. Porque é que não podemos converter o seu papel? Este medo que temos das igrejas tem a ver com a nossa fragilidade devido à falta de leigos nas igrejas... Na Igreja católica, por exemplo, quais são os leigos empenhados? Os discursos da Igreja Católica são escritos pelos bispos que num parágrafo podem dizer que o Governo faz bem, e noutros a seguir dizer que só faz mal... Aquele não é trabalho dos bispos, têm que ser os crentes quem faz. O problema é que temos medo de assumir o nosso papel na sociedade e queremos que os padres fiquem mansos. Estamos numa sociedade em revolução, sociedade do conhecimento e de economia do conhecimento.
Not – E como pensa que podemos sair dessa situação?
CM - A minha ideia é que o crente se constitua com base na melhoria do desempenho das igrejas. As intrigas de hoje já vão ao nível de tribunais. Contratam-se advogados. Há muitos casos nos tribunais. Como é possível uma Igreja ir procurar um advogado por causa de problemas do Espírito Santo?
Not – Afinal são as igrejas que precisam ser moralizadas...
CM – Não há dúvida que as igrejas precisam de aprofundar a sua função que é lidar com valores éticos e morais do cidadão e, a partir disso, de criar estruturas de funcionamento. As igrejas, sobretudo as novas, não têm estrutura. É preciso que os crentes dessas igrejas constituam-se como uma força... Têm que ser os crentes quem diz ao padre o que é que a comunidade quer que a sua igreja seja. Não podem transferir essa responsabilidade para os padres. Moçambique não tem leigos que digam que nós queremos que as coisas sejam assim. É preciso acabar com o medo porque de contrário vamos continuar nesta e a transferir as nossas responsabilidades para o poder religioso. Não vamos abandonar as igrejas e deixar que sejam elas a baterem-se com os problemas. Tirando as igrejas católica, presbiteriana, metodista e nazareno, a maior parte tem uma base de formação zero. Têm apenas o dom do Espírito Santo. Mas vais à Igreja Universal e encontras quadros superiores do aparelho do Estado... Como é que isso é possível? Não podemos contornar. Repare, por exemplo, que tipo de pessoas é que a Igreja Universal traz para os seus templos. São pessoas com problemas ou não?
Not - Que saída então?
CM - Como gestor de um órgão de soberania que lida com assuntos religiosos tenho que me organizar. Tenho que ter orientações claras sobre o que é que agora e no futuro o meu Governo quer que a igreja seja. Saber qual é a política religiosa do meu país. Para isso, é dever de todos nós criar bases suficientes para o Governo tomar decisões. Temos que ter um plano a médio e longo prazo. Ter planos estratégicos. Para fazer este exercício temos que envolver a Igreja. Precisamos dar às lideranças religiosas e o Governo ferramentas para desenharem uma política religiosa. Temos que identificar acções prioritárias a imediato, curto, médio e longo prazos. Como valorizar a riqueza que se criou durante estes anos todos nas igrejas? Precisamos de uma lei ordinária que nos permita dialogar com as igrejas, uma a uma. A partir da lei que queremos ver aprovada, vamos poder avançar com o desenho de um programa concreto de trabalho. Precisamos chamar à reflexão conjunta os leigos e todos cidadãos que partilham a fé nessas igrejas. Temos até catedráticos nas igrejas. Então é preciso envolver estas pessoas todas neste exercício... (FIM)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Moçambique/IGREJA OCUPA VAZIO EXISTENTE NA RELAÇÃO ESTADO CIDADÃO (Parte I)

Júlio Manjate

8 dezembro 2008/Notícias

O Ministério da Justiça registou entre 1990 e 2008 um total de 619 novas igrejas em todo o país, que se juntam a tantas outras que vinham jogando o seu papel no esforço de construção de uma consciência humana à imagem divina. Olhando para a função da Igreja enquanto instituição inspiradora de modelos de correcção, de ética e da moral
pública torna-se difícil estabelecer uma relação causa-efeito entre o crescimento numérico das igrejas e a crescente degeneração dos padrões de moral na sociedade moçambicana. Ou seja, ocorre uma relação inversa entre a expansão da igreja e a atitude do Homem em relação à vida e ao “Mestre Divino”. Para discutir os contornos deste paradoxo e perceber a visão do Governo sobre o assunto, conversámos com o Prof. Dr. Carlos Machili, Director de Assuntos Religiosos no Ministério da Justiça. Da conversa com o Professor Machili, fica uma ideia clara dos erros e omissões cometidos ao longo do tempo, que propiciaram a multiplicação de confissões religiosas, muitas das quais têm o domínio do mundo da fé, sem nenhum conhecimento sólido sobre o mundo da razão. Na entrevista, que incluiu uma viagem pela Antropologia Teológica, Carlos Machili faz um olhar sobre o papel da Igreja em Moçambique, e avança a sua opinião sobre as razões do crescimento exponencial do número de instituições religiosas no país:

NOTÍCIAS (Not) – É comum olhar-se para a Igreja como uma instituição que inspira modelos de correcção, de moral e ética nas crianças, jovens e adultos. Nos últimos anos assiste-se à multiplicação de igrejas em Moçambique, fenómeno que, paradoxalmente, não está a ser acompanhado pela desejável elevação dos padrões de moral pública. Professor, como explica este fenómeno?

CARLOS MACHILI (CM) - As instituições religiosas, por vocação, lidam com o fórum da consciência da pessoa humana, o fórum mais íntimo, mais profundo do ser humano. A Igreja é uma organização social que trabalha para os Homens e que é organizada pelos Homens. Foi criada para atender assuntos divinos no Homem e por isso a sua responsabilidade é enorme. Agora, como é que ao longo do tempo as instituições religiosas se multiplicaram e como é que à nossa vista a imoralidade, o desvio dos cânones da moral e da ética parecem as coisas mais banalizadas? O que é que conduziu ao desfasamento de tudo aquilo que parece o fundamental da consciência do Homem, que é respeitar a si mesmo, respeitar o próximo, respeitar a natureza e respeitar Deus? A questão aqui é afinal o que fazem as Igrejas?

Not - ... ou talvez, como fazem...

CM - Repare que ao ter a função de educar ética, moral e civicamente os cidadãos, a Igreja também tem a obrigação de educar o indivíduo para o patriotismo, porque o Homem realize-se num contexto, ao lado de outro Homem. A esse contexto nós chamamos soberania, nação. Ora, como é que estes valores todos parecem estar espezinhados? Na minha opinião existem dois grandes factores: Primeiro, estamos num mundo de grande desenvolvimento tecnológico. Somos uma sociedade de consumo onde há uma grande expansão de ideias, onde discutimos muito e relativizamos tudo. O conhecimento está em todo lado, flutua e cada um capta e consome o que pode ter a qualquer momento. Isto choca. O nível de desenvolvimento da educação e da consciência, da religião e dos valores de ética está muito atrasado em relação ao impacto que este desenvolvimento e consumo das conquistas da humanidade alcançou. Este é o meu ponto de vista como professor…

Not – Isto por um lado...

CM – Sim... Aliás, deixa-me acrescentar que estamos desfasados! Consumimos como pessoas de um determinado nível quando é fraca a nossa educação para utilizar os meios de que dispomos. Falo da educação moral, ética, do conhecimento, das relações humanas, dos valores culturais, daquilo a que chamamos autoconfiança e dignidade multirracial como um ecossistema cultural. Ora, todo este dinamismo que existe à volta do mundo contemporâneo é forte. Entrou! Não podemos impedir ninguém de assistir à televisão. E na televisão encontramos tudo. A pornografia está na Internet, em todo o lado. Na verdade, estamos atrasados em termos de educação para valores. É isto que provoca o desfasamento das instituições religiosas.

Not – E qual é o segundo grande factor a que se referiu?

CM – O segundo factor são as próprias instituições religiosas, sobretudo as moçambicanas, que não estão à altura. Na minha opinião, o seu nível de reflexão está muito aquém deste tipo de desenvolvimento. Estão ultrapassadas. Por isso não têm receitas sólidas. Dominam bem o mundo da fé, mas não dominam o mundo da sociedade e da cultura. Em Moçambique temos um défice de Antropologia teológica entendida como todos os valores humanos, materiais etc., resumidos como um valor-conquista do Homem na sua relação com Deus. Com este desenvolvimento todo, a sociedade perdeu a noção de pecado. Quer dizer eu já não tenho fronteiras. Quando perco a consciência do que é mau para o meu corpo, para o corpo do outro, para a minha família, para o meu bairro, para a minha tribo, para a nação, vivo assim… uso e abuso de tudo e de todos. Este é o mal.

Not – Mas qual deve ser o papel das igrejas perante este cenário?

CM - As igrejas têm que fazer uma reflexão profunda. Todas são obrigadas a reflectir sobre o impacto das suas práticas na vida e na consciência das pessoas. Bem feito este trabalho, sairemos todos a ganhar no patriotismo, na consciência política e social, na educação do cidadão. Mas é preciso que todas as igrejas tenham consciência disso.

Not – Nas condições actuais, em que as igrejas praticamente concorrem entre si, o professor acha que isso seria exequível?

CM - Temos que fazer um grande esforço de chamar as igrejas a esta reflexão. Note que este marasmo é de 1990 para cá. O boom de igrejas aconteceu de 1990 para cá… Só em 2007 é que começámos a colocar travão à situação.

FRAGMENTAÇÃO DAS IGREJAS DIMINUI TENSÃO ENTRE FIÉIS

Desacordos, intrigas e ambição pela liderança são algumas das razões apontadas como estar por detrás da cisão de muitos grupos e associações que, muitas vezes, perseguem objectivos nobres. No caso das igrejas, onde em nome do dom individual vão surgindo novas seitas a cada dia, fica a ideia de que tal acaba sendo positivo na medida em que reduz os riscos de intolerância e irascibilidade que, de outro modo, poderiam conduzir à violência entre os fiéis...

Not – Mas o que é que motivou este boom de igrejas?

CM - Se fores a ver as igrejas que se multiplicaram são as mesmas. É, por exemplo, a igreja zione que se multiplicou em centenas de outras. Qual é a razão? São “guerrinhas” internas e intrigas entre os fiéis. Muitos dizem que é o Espírito Santo. Cada um pensa que tem um dom especial que já não cabe na sua comunidade e então parte para criar a sua comunidade. Ainda não estudamos as causas deste fenómeno em profundidade, mas a razão que está escrita é que se multiplicam por causa do dom. E nós não podemos ir contra o dom do Homem. Uma coisa é certa: esta situação acantonou a irascibilidade, a violência que iria acontecer se não tivesse havido esta divisão. É verdade que há situações de violência, mas haveria mais se não tivesse havido esta oportunidade de as pessoas se libertarem e se expandirem.

Not – E qual tem sido o papel do Estado perante esta situação?

CM - Na minha opinião vem aí um problema mais complicado sobre o qual ainda não pensamos devidamente. Um problema sociológico e político para o Estado. Repare, quem é que lida mais com o povo? Quem tem mais relações em profundidade com o povo? É o secretário do bairro, o chefe do quarteirão, o grupo dinamizador ou são os padres? Qual é a liderança que toca a vida dos moçambicanos mais constantemente? Brevemente vou publicar um livro que se chama “As elites religiosas moçambicanas” onde discuto este problema. A meu ver estas igrejas vieram ocupar um vazio político na relação entre o cidadão e a estrutura política. Pensando bem verás que cada igreja que nasce traz um novo líder para a comunidade, um líder que tem acesso, condiciona e manipula o íntimo das pessoas. Se um padre disser aos fiéis da sua igreja “não votar no fulano irmãos, Amen!” Acabou. Eles não vão votar...

Not – Mas, de alguma forma, há uma componente positiva nessa relação dos padres com o povo...

CM – Naturalmente. Sociologicamente eu digo que estas igrejas todas vieram ocupar um espaço feito pela distância entre o Estado, as suas instituições e os cidadãos. Temos o multipartidarismo, houve uma fragmentação partidária e as igrejas ocuparam o espaço que era ocupado pela Frelimo durante a revolução e que foi ficando em branco ao longo do tempo...

Not- Este cenário não preocupa o Estado? Não o fragiliza?

CM - Para mim este fenómeno é rico e ao mesmo inquietante. O Estado não se deve eximir-se das suas responsabilidades. O Estado agiu correctamente ao criar esta abertura. O Estado gere a soberania. E esta estende-se a todos os moçambicanos que estão no território. A Igreja lida com a consciência. O Estado tem as leis, tem o poder que é extensivo a todos moçambicanos, muçulmanos, hindus, hebreus, etc. Eles obedecem. O Estado obriga-os a cumprir com a lei se querem fazer religião no país. Mas por respeito do fórum de consciência o Estado criou este órgão para lidar com assuntos da religião...

ABERTURA DO VATICANO ESTIMULOU NACIONALISMO

Nalgum momento da história de Moçambique, a Igreja foi conotada com o sistema colonial, entendida como a instituição que foi abrindo caminho para que, através do Evangelho, se amordaçasse a ira dos moçambicanos contra a dominação. Com novos factos a chegar à superfície, ficam ilações sobre o papel que a Igreja jogou na formação e consolidação de ideias do nacionalismo...

Not – Há alguma diferença na maneira como o Estado actual lida com a Igreja em relação à forma como procedia o Estado colonial?

CM - Antes da independência quem lidava com as igrejas era o Estado português, e tinha o catolicismo como religião oficial. Estabelecia relações com a cúpula da Igreja Católica. Numa primeira fase era através de despachos do Vaticano sobre assuntos de relação entre a Igreja e o Governo português, as chamadas Bulas pontifícias, que era uma espécie de decretos, documentos operacionais. Na década de 40 chegou a necessidade de se fazer as chamadas concordatas que definiam novas formas de relação Igreja-Estado. A grande preocupação nestes acordos era a relação com as antigas colónias... Este acordo com o Vaticano era acompanhado de um regulamento chamado estatuto missionário. Nesta altura já se fazia sentir o impacto da sociedade das nações e da doutrina de 1920 sobre a autodeterminação dos povos, criada pelos Estados Unidos da América. Nesta altura as elites instruídas africanas já começavam a piscar. A resistência à dominação colonial ganhava uma dimensão mais pensada, organizada. O Vaticano queria a Igreja nas mãos, e propôs a criação de um Cardeal para Moçambique, o Cardeal Gouveia. O Vaticano entendeu o perigo que Moçambique corria por ficar muito isolado e então criou um Cardeal para contornar o controlo exagerado de Lisboa...

Not – Em que medida este processo terá contribuído para a eclosão do movimento nacionalista em Moçambique?

CM - Fugindo do controlo directo da hierarquia de Portugal, o Cardeal Dom Clemente de Gouveia foi permitindo que as missões, sobretudo as protestantes, fossem fazendo alguma coisa, nomeadamente a Igreja Presbiteriana que foi autorizada a operar em 1875 e a Igreja Anglicana que começou a operar em 1881, antes da conferência de Berlim. Portanto foi esta abertura que permitiu a criação dos seminários na Namaacha, Maputo, Manica etc. Esta acção foi pensada pelo Vaticano e não pela igreja portuguesa. (A seguir: Parte II)