14 novembro 2012/Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)
Militares do
Comando da 23ª Brigada de Infantaria de Selva, no Pará, se exaltaram durante a
reunião do Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA), em Marabá (PA), quando começou
a exibição de um documentário com depoimentos de camponeses vítimas dos
militares durante a Guerrilha do Araguaia. Transtornado, o coronel Celso Osório
Souto Cordeiro, interrompeu a sessão aos berros, ordenando que seus
subordinados abandonassem o salão.
O oficial bateu boca com o representante da Secretaria de Direitos Humanos
(SDH) no grupo, Gilles Gomes. A discussão só não virou agressão física graças à
intervenção de integrantes do Ministério da Defesa. O fato ocorreu no dia 23 de
outubro e só agora foi divulgado.
"Militares, todos fora!", gritou na ocasião o militar que, em julho,
fora condecorado com a Medalha do Pacificador, concedida pelo Comando do
Exército.
O GTA foi criado pelo governo para cumprir a sentença judicial de buscar
informações e tentar localizar restos mortais de desaparecidos políticos na
região. O Exército tem dado apoio logístico às ações desde 2009.
Esse foi o primeiro atrito entre militares e civis desde então. O grupo é
formado por representantes dos ministérios da Defesa e da Justiça e da
Secretaria de Direitos Humanos.
Internamente, a atitude do coronel foi considerada grave, mas superável.
Oficialmente, o Ministério da Defesa e a Secretaria de Direitos Humanos
informaram que estão tratando do assunto. A cúpula da secretaria tem debatido o
assunto e chegou a redigir uma nota pública condenando o gesto do coronel. O
militar pode ser afastado das próximas expedições do GTA.
Marco Antônio Barbosa, presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos
Políticos, vinculada à SDH, criticou o coronel Cordeiro:
"Isso que ocorreu foi grave. A colaboração do Exército até agora era de
uma logística de boa qualidade. Foi surpreendente. Um gesto violento e
incompatível com os tempos de hoje. É lamentável, e o que se espera é que seja
dada uma resposta à altura", afirmou Barbosa.
Sete parentes de desaparecidos e vítimas da ditadura que estavam presentes ao
encontro elaboraram uma carta aos ministros da Defesa, da Justiça e dos
Direitos Humanos na qual repudiam o fato. No texto, eles fazem um protesto
contra a “atitude malsã e desequilibrada do oficial militar”.
Ex-vereador pelo PCdoB, Paulo Fonteles Filho, observador do grupo presente à
reunião, escreveu no seu blog: “(O coronel) esbaforido e nervoso gritou, no
meio da sessão, orientando grosseiramente que todos os seus subordinados se
retirassem dali”.
Audiência
O Comitê Paraense pela Memória, Verdade e Justiça e a Associação dos Torturados
na Guerrilha do Araguaia (ATGA) realizam na sexta-feira (16) e sábado (17),
também em Marabá, uma audiência pública da Comissão Nacional da Verdade. O
evento busca o restabelecimento da verdade em relação aos atos de torturas,
desaparecimentos e mortes praticados por agentes da ditadura militar na região durante
a repressão à Guerrilha do Araguaia (1972-1975).
Participam da audiência camponeses, indígenas, militantes de direitos humanos e
representantes da Comissão Nacional da Verdade, Maria Rita Kehl, Claudio
Fonteles e Paulo Sérgio Pinheiro. A convite dos organizadores da atividade, a
jornalista Mariana Viel, editora de Brasil do Vermelho, viaja até
a cidade paraense para acompanhar os relatos e os resultados da reunião. (Com O
Globo)