Biografia do maior educador do país foi alterada a partir da rede do SERPRO, órgão do Estado brasileiro.
Na última quinta-feira (28.06), o verbete sobre o educador foi alterado no Wikipedia. No novo texto, Freire é apontado como
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23 junho 2008/Portal do MST http://www.mst.org.br
Da Radioagência NP
Centenas de famílias ligadas ao Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terras (MST) foram despejadas de dois acampamentos no município de Coqueiros do Sul, no Rio Grande do Sul, na última terça-feira (17/06). Barracos, plantações, criações de animais e até o posto de saúde e a escola montada pelos sem terra foram destruídos.
As famílias foram jogadas à beira da estrada em Sarandi, cumprindo ordens do Poder Judiciário. A Brigada Militar expulsou as famílias de duas áreas cedidas por pequenos proprietários. De acordo com um dos promotores responsáveis pela ação civil que determinou o despejo, Luis Felipe Tesheiner, “não se trata de remover acampamentos, e sim de desmontar bases que o MST usa para cometer reiterados atos criminosos”.
Ali não estava em debate a questão fundiária. A decisão judicial se baseia em um relatório do Ministério Público (MP) gaúcho, no qual o MST é considerado uma ameaça à segurança nacional que precisa ser dissolvida. Em tom de denúncia, o documento chega a citar a presença de livros do pedagogo soviético Anton Makarenko. Textos de Florestan Fernandes, Paulo Freire e Chico Mendes são apresentados como exemplos da “estratégia confrontacional” do movimento.
Em entrevista, o procurador do Estado aposentado e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos, Jacques Távora Alfonsin, afirmou que a ação da justiça ressuscita práticas da ditadura no Brasil. Para Alfonsin, há uma ação orquestrada no Rio Grande do Sul, baseada na perseguição ideológica.
Juridicamente, como você caracteriza essa ação da Justiça gaúcha?
Nós estamos enfrentando uma situação de violação flagrante dos direitos humanos, de uma infidelidade manifesta do MP às suas próprias finalidades. Quem lê a petição inicial vê que o MP vestiu a camisa dos latifundiários. Na Constituição Federal, a função do MP não é perseguir pobre, nem evitar pressão social de gente que está reivindicando reforma agrária. Essas ações se baseiam num sociólogo rural [Zander Navarro] magoado com o movimento. Não existe preocupação destes promotores em sustentar essas coisas em fatos, é tudo gente que não concorda ideologicamente com o movimento.
A medida seria, então, perseguição ideológica?
Na petição inicial, os promotores se baseiam no fato de que o MST é um movimento anti-capitalista e esquerdista. Quer dizer, tudo aquilo que as universidades estudam em sociologia com a maior liberdade. Qual é o crime ser anti-capitalista e esquerdista? Para acentuar essa denúncia, eles se baseiam no Estatuto da Terra votado durante o regime militar que acabou com as Ligas Camponesas [Movimento Camponês exterminado após o golpe de 1964, e que tinha como pauta “a reforma agrária na lei ou na marra”], para mostrar que o MST, então, se equipararia às ligas. Se voltou à época da ditadura para se sustentar esse ataque.
Essa seria uma ação orquestrada?
Isso é tão orquestrado que nunca se viu tanta agilidade. A petição chegou em Carazinho (RS) no dia 16 de junho. O despacho do juiz, que tem mais de 20 laudas, é de 16 de junho [mesmo dia]. Portanto, ele já sabia que a ação iria entrar e já estava até preparado com o despacho que ele iria dar. E para surpresa de todos os agricultores sem terra, a Brigada Militar com mais de 500 homens entrou de madrugada [nos dois acampamentos no município de Coqueiros do Sul], de surpresa, antes de chegar o oficial de justiça. O oficial de justiça chegou depois, tudo isso com a chancela do ouvidor da segurança pública aqui do estado, que deveria ser justamente aquele que protege os direitos humanos destas pessoas.
Existem outros indícios dessa ação organizada?
Está em curso no estado um abuso de poder e de autoridade. O relatório secreto do Conselho Superior do MP daqui [RS] estava preparando essas ações desde dezembro de 2007. E nesse relatório a expressão é a dissolução, estou repetindo: dissolução do MST. Uma reação popular organizada não é tolerada.
Qual providência deve ser tomada?
Nós estamos preparando os recursos judiciais que vamos entrar e as contestações a estas infelizes ações. E não se descarta a hipótese de fazer uma petição com urgência para a comissão de direitos humanos da OEA [Organização dos Estados Americanos].
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Fonte: Movimento de Mulheres Camponesas http://www.mmcbrasil.com.br/noticias/180608_mst_rs.html
18 junho 2008
A inicial da ação civil pública apresentada pelos promotores Luís Felipe de Aguiar Tesheiner e Benhur Biancon Junior, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, pedindo a desocupação de dois acampamentos do MST, próximos à fazenda Coqueiros (região norte do Estado), parece uma peça saída dos tempos da ditadura, reproduzindo a paranóia delirante anti-comunista dos anos 50 e 60 que alimentou e deu sustentação ao golpe militar no Brasil. A Vara Cível de Carazinho deferiu a liminar requerida pelo MP. Na avaliação dos promotores, os acampamentos Jandir e Serraria são "verdadeiras bases operacionais destinadas à prática de crimes e ilícitos civis causadores de enormes prejuízos não apenas aos proprietários da Fazenda Coqueiros, mas a toda sociedade". Essa terminologia resume uma lógica de argumentação que muitos julgavam estar extinta no Brasil.
Na primeira página da inicial da ação, os promotores comunicam que seu trabalho é resultado de uma decisão do Conselho Superior do Ministério Público do RS para investigar as ações do MST que "há muito tempo preocupam e chamam a atenção da sociedade gaúcha". O documento anuncia que os promotores Luciano de Faria Brasil e Fábio Roque Sbardelotto realizaram um "notável trabalho de inteligência" sobre o tema. Uma nota de rodapé define o trabalho de "inteligência" realizado nos seguintes termos:
"O art. 1º, § 2º, da Lei nº 9.883/99, que instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência e criou a ABIN, definiu a inteligência como sendo "a atividade que objetiva a obtenção, análise e disseminação de conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre fatos e situações de imediata ou potencial influência sobre o processo decisório e a ação governamental e sobre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado".
O relatório que segue faz jus a esse conceito, apresentando o MST como uma ameaça à sociedade e à própria segurança nacional. O resultado do trabalho de inteligência inspirado nos métodos da ABIN é composto, na sua maioria, por inúmeras matérias de jornais, relatórios do serviço secreto da Brigada Militar e materiais, incluindo livros e cartilhas, apreendidas em acampamentos do MST. Textos de autores como Florestan Fernandes, Paulo Freire, Chico Mendes, José Marti e Che Guevara são apresentados como exemplos perigosos da "estratégia confrontacional" adotada pelo MST. Na mesma categoria, são incluídas expressões como "construção de uma nova sociedade", "poder popular" e "sufocando com força nossos opressores". Também é "denunciada" a presença de um livro do pedagogo soviético Anton Makarenko no material encontrado nos acampamentos.
A violência das Ligas Camponesas e o movimento político-militar de 1964
Na introdução da ação, os promotores fazem um "breve histórico do MST e dos movimentos sociais". Esse histórico se refere à organização do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Master) no Rio Grande do Sul, nos anos 1960, e à "atmosfera de crescente radicalização ideológica". As Ligas Camponesas de Francisco Julião, em Pernambuco, são acusadas de "sublevar o campo e incentivar a violência contra os proprietários de terra, criando um clima de guerra civil". Essa "agressividade", na avaliação dos promotores, contribuiu para o "movimento político-militar de 1964". O "movimento político-militar de 1964" a que os promotores se referem é o golpe militar que derrubou o governo constitucional de João Goulart, suprimiu as liberdades no país e deu início à ditadura militar.
Logo em seguida, a ação apresenta uma caracterização do MST, toda ela baseada na visão de uma única pessoa, o sociólogo Zander Navarro. O trabalho de inteligência dos promotores também se baseia, em várias passagens, em uma "revista de circulação nacional" (Veja) e em matéria críticas ao MST publicadas em jornais como Folha de São Paulo, Zero Hora e Estado de São Paulo, entre outros. Após apresentar um "mapa" dos movimentos sociais no campo brasileiro, os promotores questionam, em tom de denúncia, as fontes de financiamento público desses movimentos. Eles revelam que "o Ministério Público encaminhou um questionamento ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, acerca da existência ou não de alguma fonte de financiamento ou ajuda, direta ou indireta, aos participantes do MST acampados no Rio Grande do Sul".
Os promotores citam ainda o relatório da CPMI da Terra, realizada no Congresso Nacional, sustentando que há malversação de verbas públicas, "pelo repasse de dinheiro público efetuado diretamente pelo Incra, na forma de distribuição de lonas, cestas básicas e outros auxílios". Além disso, citam a "doação de recursos por entidades estrangeiras, notadamente organizações não-governamentais ligadas a instituições religiosas, como a organização Caritas, mantida pela Igreja Católica". E identificam, em tom crítico, a rede de apoio internacional ao MST que mostraria ao público estrangeiro "uma visão do Brasil frontalmente crítica à atuação do Poder Público e inteiramente de acordo com os objetivos estratégicos do MST". Citando o jornal Zero Hora, os promotores apontam que a Escola Florestan Fernandes (do MST) foi construída "com vendas do livro Terra, com texto do escritor português José Saramago, fotografias de Sebastião Salgado e um disco de Chico Buarque, além de contribuições do exterior".
Mídia, PM 2 e Denis Rosenfield as fontes da argumentação dos promotores do MP
Ao falar sobre a estratégia do MST, os promotores valem-se de relatórios do serviço secreto da Brigada Militar (a PM2). O relatório do coronel Waldir João Reis Cerutti, de 2 de junho de 2006, afirma que os acampamentos do movimento são mantidos com verbas públicas do governo federal, recursos de fontes internacionais e até das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O coronel Cerutti não apresenta qualquer comprovação da existência do "dinheiro das FARC" e segue falando da suposta influência da guerrilha colombiana sobre os sem-terra. Segundo ele, o MST estaria planejando instalar um "território liberado" dentro do Estado: "Análises de nosso sistema de inteligência permitem supor que o MST esteja em plena fase executiva de um arrojado plano estratégico, formulado a partir de tal "convênio", que inclui o domínio de um território em que o governo manda nada ou quase nada e o MST e Via Campesina, tudo ou quase tudo".
Em seguida é apresentado um novo relatório do Estado Maior da Brigada Militar sobre as ações do MST no Estado. Esse documento pretende analisar a "doutrina e o pensamento" do MST, identificando, entre outras coisas, as leituras feitas pelos sem-terra. Identifica um "panteão" de ícones inspiradores do movimento, "a maior parte ligada a movimentos revolucionários ou de contestação aberta à ordem vigente" (onde Florestan Fernandes e Paulo Freire estão incluídos, entre outros). E fala de "uma fraseologia agressiva, abertamente inspirada nos slogans dos países do antigo bloco soviético ("pátria livre, operária, camponesa")". A partir dessas informações, os promotores passam a discorrer sobre o caráter "leninista" do MST, invocando como base argumentativa o livro "A democracia ameaçada – o MST, o teológico-político e a liberdade", de Denis Rosenfield, que "denuncia" que o objetivo do movimento é o socialismo.
Para os promotores, "já existem regiões do Brasil dominadas por grupos rebeldes" (p. 117 da ação). A prova? "A imprensa recentemente noticiou...." (uma referência as ações da Liga dos Camponeses Pobres, no norte do Brasil). Em razão da "gravidade do quadro em exame", concluem os promotores, "impõe-se uma drástica mudança na forma de trato das questões relativas ao MST e movimentos afins". A conclusão faz jus às fontes utilizadas no "notável trabalho de inteligência": "o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não constitui um movimento social, mas, isso sim, um movimento político". O MST, prosseguem os promotores, "são uma organização revolucionária, que faz da prática criminosa um meio para desestabilizar a ordem vigente e revogar o regime democrático adotado pela Constituição Federal". Em nenhum momento da ação, o "notável trabalho de inteligência" dos promotores trata de problemas sociais no campo gaúcho.
RS URGENTE por Marco Aurélio Weissheimer - http://www.rsurgente.net/
(Terça-feira, 17 de Junho de 2008)
http://www.mmcbrasil.com.br/noticias/180608_mst_rs.html

La coordinadora de prensa de la MST, Marina Dos Santos, explicó que este movimiento dirige sus programas de formación a la producción agroecológica, organización de la juventud, de las mujeres, la comunicación y los derechos humanos.
Actualmente la Brigada Polonio de Carvallo de la MST, que está conformada por 19 personas, realiza una experiencia de capacitación para la producción e intercambio de experiencias con campesinos en el estado Barinas.
Otro de los proyectos que se llevan a cabo en conjunto con Venezuela es la creación del Instituto Agroecológico Latinoamericano Paulo Freire, que está orientado hacia la educación técnica y profesional, y donde actualmente 150 personas se están formando en diversas áreas relacionadas con el sector rural y agrícola.
Dos Santos recordó que el MST es un movimiento social autónomo que reúne a los trabajadores agrarios de Brasil que luchan por la reforma agraria y por la tierra.
“Estamos presentes en 24 estados de Brasil, donde realizamos las luchas por la tierra, organizamos asentamientos y organizamos también un sistema educacional en diversas áreas y para la producción a través del sistema de cooperativas”, explicó.
La dirigente de la MST destacó el avance del gobierno bolivariana en la democratización de los derechos de los trabajadores y de los recursos naturales, lo cual representa un ejemplo para latinoamerica.
Naiady Piva
O principal debate foi protagonizado pelo ministro da educação da Venezuela, Abrahan Toro, que trouxe a experiência do país, o segundo na América Latina a tornar-se território livre do analfabetismo, depois de Cuba. O debate proporcionou várias contribuições de forma oral e escrita, ressaltando a importância da disciplina e o papel do movimento social na construção de uma educação e sociedade realmente libertadora, além de levantar questões como o papel da juventude inserida nessa questão.
Também participaram da mesa a Secretária da Cultura do estado do Paraná, Vera Mussi; a presidente do comitê de centenário do dia das mulheres da Venezuela, Miriam Meza de Acuña; uma pesquisadora das questões de gênero da Universidade de Carabobo, Luzmila Marcano e o coordenador do IALA (Instituto de Agroecologia Latino-americano Paulo Freire), Alexandre Conceição - o Instituto é uma parceria do governo Venezuelano com o MST.
Abrahan Toro ressaltou a importância de o IALA representar um acordo de cooperação com um movimento social e não com países, principalmente se considerado a importância do MST. Ele pontuou também que para combater a desintegração na América Latina é preciso que os povos conheçam sua história e daqueles que lutaram por ela, como Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Simón Bolívar, Apolônio de Carvalho, Che Guevara, entre outros. Além disso, Abraham lembrou que é fundamental que haja educação básica, combate ao analfabetismo, e citou os brasileiros Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e Paulo Freire como importantes teóricos para colaborar na questão educacional.
Portal do MST / 30 janeiro 2008 / http://www.mst.org.br
Por Andrea Dip
"Sem-terrinha, sim senhor, com orgulho e muito amor!" O entoar do "grito de guerra" acontece logo após a mística, uma dramatização feita por crianças do Movimento Sem Terra acampadas em Arroio dos Ratos, Rio Grande do Sul.
"Só aqui no acampamento são 130 crianças!", diz Evandro, professor acampado que divide a tarefa de ensinar com mais seis pessoas. "Educador", corrige. A mística é montada através de um tema gerador, que trata de assuntos atuais próprios da realidade das crianças. Não se assuste se um garotinho da altura de seus 5 anos de idade der uma verdadeira aula sobre a ALCA e a reforma agrária. "Se a ALCA é boa para alguém eu não sei, mas para a gente não é! Os americanos querem quebrar os pequenos agricultores."
Há certamente muito o que aprender com os educandos "sem terrinha". O que impressiona à primeira vista é o asseio e a organização das escolas itinerantes (chamadas assim porque mudam junto com o acampamento feito de barracos de lona preta) e das escolas dos assentamentos (estabelecidas em terras já conquistadas). Não se vêem um papel no chão, um rabisco nas paredes. As crianças do Movimento são incentivadas a tratar a escola como extensão de sua casa – elas sabem o valor da escola –, limpam, embelezam com flores e cartazes, plantam sua merenda.
Juarez Cornelli, assentado orientador da escola em Nova Ramada, diz que dessa forma as crianças valorizam e facilitam o trabalho – muitas vezes voluntário – do pessoal da limpeza.
A idéia de fazer essa reportagem surgiu quando eu pesquisava a respeito do ensino no Brasil. Já meio ressabiada, desesperançosa com tantos números desanimadores, descobri a escola de Nova Ramada, Rio Grande do Sul. Gerida pelo Movimento Sem Terra, essa escola seria um modelo em educação, onde as crianças aprendem até a calcular hectares, cuidar da terra etc. Contrastando com conjuntura atual do ensino, essa iniciativa merecia ser divulgada.
Quando chegamos no primeiro acampamento, foi inevitável um certo receio (de ambas as partes). Nosso, por não sabermos de que forma seríamos recebidos, dos acampados por não conhecerem nossas intenções.
Mas, à medida que íamos sendo apresentados – "esse é o pessoal da revista Caros Amigos, estão fazendo uma reportagem sobre a nossa gurizada" –, o olhar fixo, apreensivo, dava lugar a um sorriso acolhedor, aprovando nossa visita, logo nos apresentando o lugar.
"Chega mais, as crianças querem mostrar uma mística a vocês." E a criançada, curiosa, começava a fuçar no equipamento, fazer pose para a câmara, e explicar como era a vida ali. Após um quarto de hora, já era impossível cotejar que aquele seria um suposto "campo de batalha". Há parques de diversões montados com pneus e troncos de eucalipto feitos pelos próprios acampados – que o fazem mesmo sabendo que a estadia é provisória e logo poderão partir para outras terras.
O acampamento do Arroio dos Ratos, assim como o "Seguindo o Sonho de Rose" e tantos outros, está montado na beira da estrada, mas para as crianças isso não faz muita diferença. Há brincadeiras e tarefas comunitárias, sempre respeitando a faixa etária da criançada.
Em Júlio de Castilhos está a primeira escola conquistada pelo movimento no Rio Grande do Sul e a pioneira da "pedagogia do Movimento". Não existem as tradicionais séries que dividem os anos letivos, mas o que eles chamam de ciclos. "Cada idade tem seu momento, pretendemos trabalhar isso", diz Bernadete Schwaab, uma das idealizadoras da pedagogia do MST e coordenadora da escola. Até chegar ao que seria a 8a série, os ciclos se dividem em infância, pré-adolescência e adolescência.
Há também o "Encontro Sem Terrinha", quando as crianças do Brasil se unem para trocar experiências, aprender e – nada mais justo – brincar.
Enquanto estabelecimentos de ensino da rede pública, as escolas são supridas pelo governo do Estado, que manda cadeiras, mesas e uma verba mensal. Mas logo se vê a diferença: cartazes com frases de Che Guevara, fotos de Sebastião Salgado e a bandeira do movimento são unanimidade até nas "paredes" dos barracos de lona preta.
Elói, um dos responsáveis pelo departamento de ensino do Rio Grande do Sul e grande colaborador desta reportagem, diz que as cartilhas tradicionais tiveram de ser abolidas por ser "muito burguesas, elitistas e de valores capitalistas". "Vem escrito: ‘Papai comprou tantos bombons para seu filho’. E nos acampamentos nossas crianças não tinham acesso ao açúcar."
Essas diferenças levaram o MST a criar um projeto pedagógico formador de educadores, o Instituto de Educação Josué de Castro, dentro do Iterra (Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária), e seus próprios livros e cartilhas pedagógicas, fundamentados em Paulo Freire, Makarenko (professor ucraniano, fundador da pedagogia marxista, voltada especificamente ao coletivismo) e principalmente no cotidiano da comunidade, na busca da cidadania desde cedo.
O MST conta hoje com 1.350 escolas do ensino fundamental e com 3.900 educadores de crianças e adultos. São em média 150 mil educandos em nível nacional. As aulas são elaboradas pelos professores que passam o dia na escola pesquisando e se relacionando com os alunos. O processo de ensino não é estático, muda conforme as necessidades.
O alfabeto é discutido em assembléia com alunos e pais que chegam a um consenso sobre qual palavra deve ser atribuída a qual letra: "A" de acampamento, "R" de reforma agrária. "Dessa forma, além de fixar melhor o conteúdo, as crianças ajudam com os problemas da comunidade", explica Vilma Marinho, educadora do assentamento da Coopac. Na matemática somam alqueires, hectares, e a porcentagem é vista sobre a produtividade da colheita dos assentamentos.
Mas como ensinar os princípios do socialismo e a causa das lutas a crianças de 4, 5 anos de idade? Segundo a diretora Elaine da Rocha, da escola Nova Esperança, base das escolas itinerantes, a política do Movimento é ensinada através de hábitos solidários, estimulando o coletivismo: "Criança é criança, não adianta você querer formar um militante na pré-escola!"
Ao final de cada explicação sobre a pedagogia do Movimento (como eles definem) vem a frase: "Tudo foi conquistado com muita luta até aqui, mas ainda estamos aprendendo". Para conseguir a primeira escola, do – na época – acampamento Anone, onde havia cerca de seiscentas crianças, os pais, acampados que já eram professores e as próprias crianças fizeram visitas periódicas à prefeitura, falaram com o governo do Estado, participaram de marchas. A prefeitura dizia que não colocaria uma escola "em local de conflito". "Os senhores não conhecem o Brasil, então!" diziam os pais.
Apesar de hoje o governo do Rio Grande do Sul estar colaborando com a implantação dessas escolas, ainda há lugares em que as prefeituras relutam em dar autonomia na área pedagógica ao Movimento, mesmo em assentamentos. Viamão, onde aconteceu a Jornada pela Reforma Agrária, é um desses lugares.
"A escola aqui é tradicional. Os professores não conhecem e não querem conhecer o Movimento. Eles querem apenas receber o deles no final do mês! Incentivam as crianças a ir para a cidade. Queremos que elas valorizem a terra! Tínhamos professores formados em pedagogia e magistério aqui no assentamento e não foi permitido que lecionassem aqui. Eles ensinam em outras escolas tradicionais. A administração pública ainda não entendeu a pedagogia do movimento. Os professores reclamam que as crianças não ficam quietas, não obedecem, mas aqui não é essa a relação de obediência, as crianças têm de questionar, perguntar o que está acontecendo!", diz Leonildo Zang, assentado que cuida da farmácia alternativa (ervas e chás).
A Jornada pela Reforma Agrária cuida – entre outras coisas – da vistoria dessas escolas, escuta a reclamação das crianças, discute as possíveis soluções. Em um galpão desativado no próprio assentamento de Viamão, onde fazia muito frio apesar do sol forte, frei Laodino celebrava o término do evento, num breve e coerente sermão comparativo entre Moisés e a peregrinação no deserto e a luta pela terra.
Alguns hinos à reforma agrária tocados na viola eram acompanhados pelos presentes. Uma mulher se emociona contando sobre o terrível caso em que os capangas de uma fazenda envenenaram a água de um rio que supria um dos acampamentos, matando oito crianças. O silêncio toma conta do galpão.
Certa hora, o frei nos chama para explicar o que fazíamos ali. Com algumas tímidas palavras nos apresentamos, e por sermos da Caros Amigos fomos abençoados. "Se vocês fossem de outro jornal, expulsaríamos vocês! Os repórteres costumam entrar sem ser convidados, ficam cinco minutos, depois massacram a gente!", brinca o frei.
A jornada pela reforma agrária é feita periodicamente nos assentamentos. No de Viamão, em especial, o que se nota é que grande parte das dificuldades reside no fato de não trabalharem em conjunto; cada família tem seu pedaço de terra, planta e vive de forma independente, divergindo da principal proposta do Movimento Sem Terra, que é a vida socialista.
A aluna Edinéia Padilha, de 11 anos, diz que os professores e diretores da escola onde estuda (tradicional da rede pública) tratam mal os filhos dos assentados (apesar de a escola estar em terreno do assentamento, crianças dos lugares vizinhos freqüentam as aulas) e deixam qualquer pessoa se matricular ali.
E completa: "Eu já sei de tempos o que estou aprendendo lá! A gente só vê televisão, passa de ano mas passa burro! Quando tiver 18 anos, o que vai ser? Teve um dia que a gente colou cartazes escrito: ‘Menos cafezinho, mais atenção aos alunos e funcionários!’"
A expressão muda quando ela fala da época em que tinha aulas na escola itinerante do acampamento: "Lá, os professores eram legais, conversavam com a gente! A gente não tinha mesa, cadeira, sentava debaixo de uma árvore, apoiava o caderno no chão e aprendia muito mais!"
Segundo as educadoras (orgulhosas), as crianças que passaram pelas escolas do Movimento são ótimas alunas quando vão estudar na cidade. "Dão um pouco mais de trabalho para os professores... pois questionam, debatem, mas tiram de letra as matérias da escola tradicional."
Porém – e sempre há algum –, as crianças vivem um verdadeiro impasse quando têm de ir para a cidade completar os estudos, já que a maioria das escolas do Movimento educa só até a 8a série. Sofrem preconceito por parte dos demais alunos, que os chamam de "camponesezinhos sem terra ", e até por parte dos professores.
Isso resulta em uma mudança no comportamento de alguns adolescentes. "Fazendo uma comparação, nós somos como uma mulher que luta de estilingue contra o soldado com a metralhadora! O trabalho que a mídia, a televisão e as novelas fazem acaba com tudo o que plantamos neles! O aluno chega em um lugar diferente onde não conhece ninguém, e já é discriminado só pelo fato de ser do campo, imagine então sendo sem-terra! Para fazer amigos, ele ignora seus valores e incorpora uma outra cultura. Os valores que a gente levou anos para plantar na cabeça deles, a mídia tira em segundos", lamenta Juarez Cornelli, da Ramada.
Outros jovens acabam por desistir dos estudos na cidade e esperam ter idade para fazer um curso técnico em agronomia, ou se formar educador (quatro anos de curso) pelo próprio Movimento.
O que não se nega é a forte ênfase da filosofia do Movimento no ensino das crianças acampadas, que têm o orgulho de ser sem-terra, a revolta de ver "tanta terra para uma vaca, sendo que tem um monte de trabalhador passando fome", o amor à terra e o viver em conjunto. Tudo se pensa em conjunto e se vive em conjunto. Às crianças que já nasceram no assentamento, os pais contam histórias de sua luta, levam-nas para visitar os acampamentos e até montam barracas onde passam alguns dias lembrando da peregrinação pela terra.
"Muitos pais não agüentam e caem no choro!", diz Loa, assentado na Coopac, um modelo de assentamento em cooperativa onde mulheres, crianças e homens, independentemente da função, têm igual remuneração por hora de trabalho.
Quem convive, ainda que por um breve período, com essas crianças não consegue não se apaixonar. São doces, conversam de igual para igual, têm consciência crítica, opinião, mas ainda assim são crianças. Sem "Walt Disney", sem a erotização precoce, a sede de consumo, a malemolência dos videogames ou os "midiotóxicos globais" aos quais as crias urbanas são submetidas.
A "moral da história", a conclusão a que se chega a respeito do Movimento e do tratamento com as crianças é a de que – puxa ! – o socialismo existe e funciona mesmo! Claro que não vivem em um jardim encantado. Claro que são privadas dos luxos que o dinheiro compra; e que são filhos de uma desigualdade social, de uma reforma agrária que ainda não aconteceu. Mas, se elas próprias não se mostram assim, não reclamam, não se vitimam, quem o pode fazer? A mídia, com a comercialização e espetacularização de uma miséria virtual?
Os "sem-terrinha" são crianças na melhor definição de "projeto de gente em execução". A diferença é que não querem balas. Querem terra.
Andréa Dip é estudante de jornalismo.
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