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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Brasil/ DOROTHY STANG, VÍTIMA DO LATIFÚNDIO -- Frei Betto

12 fevereiro 2015, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra--MST http://www.mst.org.br (Brasil)

Por Frei Betto


Quem de fato matou Dorothy Stang foi o latifúndio, conforme denúncia dos bispos católicos brasileiros reunidos em Aparecida, em abril de 2013.

Eram 7h30 da manhã de 12 de fevereiro de 2005. Irmã Dorothy Stang, religiosa estadunidense naturalizada brasileira, 73, se dirigia à área do Projeto Esperança de Desenvolvimento Sustentável, em Anapu (PA).

No caminho, Rayfran das Neves a abordou. Perguntou se estava armada. Dorothy exibiu a Bíblia: “Eis a minha arma.” E leu trechos em voz alta.

O rapaz não se intimidou. A recompensa pelo crime importava mais que a vida da missionária que defendia pequenos agricultores, posseiros e sem-terras. Sacou a arma e descarregou nela sete tiros, sendo um na cabeça.


Há tempos, Dorothy sofria ameaças. Poucos dias antes havia escrito: “Não vou fugir nem abandonar a luta desses agricultores desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar.”

Rayfran, condenado a 27 anos de prisão, teve como mandante o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, condenado, em 2013, a 30 anos. Passou por três julgamentos. O primeiro, em

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Brasil/Colóquio sobre cosmopolítica Yanomami tem início na Faculdade de Educação*



4 novembro 2013, Universidade Federal de Minas Gerais https://www.ufmg.br (Brasil)

Davi Kopenawa e o xamã Vicente de Castro

Hoje, dia 4, às 14h, tem início a programação do Colóquio Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica Yanomami, cuja programação inclui palestras sobre os 20 anos de demarcação da Terra Indígena Yanomami e sobre Conhecimento e xamanismo – além de roda de conversa a respeito do livro La chute du ciel, obra que o xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa publicou em 2010 com o antropólogo francês Bruce Albert, que trabalha junto aos Yanomami desde 1975.

Convidado do Programa de Cátedras do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), Kopenawa é uma das lideranças indígenas mais importantes da atualidade. Na conferência de abertura, o xamã fala sobre os 20 anos da Terra Indígena Yanomami na Faculdade de Educação. Já na terça, dia 5, às 9h, ele ministra a conferência O cosmo segundo os Yanomami: Hutukara e Urihi, no auditório da Reitoria. Kopenawa ainda fala nos dias 6 e 7; a programação segue até o dia 8, sexta-feira.

A programação inclui a presença de convidados como as antropólogas da USP Maria Manuela Carneiro da Cunha e Breatriz Perrone-Moisés. No dia 6, a professora Maria Manuela fará conferência sobre as bases para um programa de cooperação entre cientistas acadêmicos e conhecedores tradicionais; Beatriz Perrone-Moisés participa de roda de conversa sobre a tradução para a língua portuguesa do livro La chute du ciel.

No dia 8, às 14h, após mesa-redonda com o tema Sobre cosmopolíticas, com os professores Renato Sztutman (USP) e Eduardo Vargas (UFMG), será proposta a criação do Conselho Consultivo Indígena na UFMG, iniciativa baseada na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O catedrático
David Kopenawa já proferiu discurso na ONU e em centenas de outros fóruns internacionais. Em 1988, recebeu o Global 500 Award das Nações Unidas – o mesmo prêmio que fora concedido a Chico Mendes.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Brasil/Assassinatos expõem corrida pela Amazônia

1 junho 2011/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Economia extrativista e expansão do agronegócio na região podem estar ligadas às mortes de lideranças

Patrícia Benvenuti, da Redação

Quatro mortes em cinco dias. Esse foi o saldo da violência na região amazônica brasileira no fim de maio, que evidencia o acirramento da disputa entre os interesses de grupos econômicos e de comunidades tradicionais na mira de grandes empreendimentos.

O caso que mais chamou a atenção ocorreu no dia 24, quando os líderes extrativistas Cláudio Ribeiro da Silva, conhecido como Zé Castanha, e sua esposa Maria do Espírito Santo da Silva foram assassinados por pistoleiros em uma emboscada no município de Nova Ipixuna, no Pará.

O casal era líder dos assentados do Projeto Agroextrativista Praia Alta da Piranheira, onde cerca de 350 famílias vivem e produzem de forma sustentável em um lote de aproximadamente 20 hectares. Eles também eram integrantes do Conselho Nacional de Populações Extrativistas (CNS), ONG fundada por Chico Mendes, e lutavam pela preservação das florestas na Amazônia.

O advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) José Batista Afonso relata que, desde a criação do projeto, em 1997, os assentados sofrem pressões de carvoarias, madeireiras e grileiros de terras. “A criação do assentamento foi muito tensa, havia muitos interesses ali, de madeireiras a gente que queria expandir produção de gado”, conta.

Devido às constantes ameaças, Zé Castanha e Maria denunciaram a órgãos nacionais e internacionais que eram vítimas de perseguição. Mesmo assim, não recebiam qualquer proteção do Estado. Em um vídeo gravado em novembro de 2010, Zé Castanha alertou sobre a insegurança que o rondava. “Sou castanheiro desde os sete anos de idade, vivo da floresta. Protejo ela de todo o jeito. Por isso, eu vivo com a bala na cabeça a qualquer hora. Eu vou pra cima e denuncio os madeireiros, os carvoeiros, e por isso eles acham que eu não posso existir”, afirmou.

Testemunha

No mesmo assentamento de Nova Ipixuna, foi encontrado morto no dia 28 de maio o trabalhador rural Herenilton Pereira, de 25 anos. A vítima estava desaparecida desde o dia 26, quando teria ido, segundo familiares, comprar peixe no Porto do Barroso, localizado à beira do lago da represa de Tucuruí.

Herenilton seria uma das testemunhas dos homicídios de Zé Castanha e Maria. De acordo com a CPT, no dia do assassinato do casal, Herenilton e seu cunhado trabalhavam às margens de uma estrada a cerca de cinco quilômetros do local onde ocorreu o crime. Momentos depois, ambos presenciaram a passagem de dois homens em uma moto. As descrições coincidem com o relato de testemunhas que viram a entrada de dois pistoleiros no assentamento naquele mesmo dia.

Segundo Afonso, estão em andamento dois inquéritos que apuram as três mortes – um da Polícia Civil e outro da Polícia Federal –, mas ainda não foram divulgados resultados. “A gente não pode dizer que [os três assassinatos] estão relacionados, mas a hipótese não pode ser descartada”, aponta.

O rumo das investigações, no entanto, preocupa de antemão o advogado, que aponta a influência histórica do poder econômico dentro do Poder Judiciário no estado. “Nunca foi fácil identificar e punir mandantes no Pará”, destaca.

Rondônia

Outro assassinato ocorreu no dia 27, dessa vez em Rondônia. O agricultor Adelino Ramos, conhecido como Dinho, foi alvejado por um motoqueiro no distrito de Vista Alegre do Abunã, na capital Porto Velho, enquanto vendia verduras. Ele era sobrevivente do Massacre de Corumbiara, ocorrido em agosto de 1995, que resultou em pelo menos 11 mortes de trabalhadores sem terra.

Líder do Movimento Camponês de Corumbiara, Dinho denunciava a ação ilegal de madeireiros na fronteira entre os estados de Acre, Amazônia e Rondônia e, junto com outros trabalhadores, reivindicava uma área nessa região para a criação de um assentamento. Assim como Zé Castanha e sua esposa, Dinho havia alertado para as ameaças que sofria, mas nunca recebeu proteção do Estado.

Na manhã do dia 31, o principal suspeito do crime entregou-se à polícia. Segundo a Secretaria de Segurança de Rondônia, Ozeas Vicente trabalhava como funcionário de madeireiras da região e estaria fazendo ameaças à vítima.

O assassinato, para padre Zezinho, da CPT de Rondônia, pode estar relacionado com o endurecimento das ações de fiscalização do Ibama nos últimos meses, a fim de coibir o desmatamento. “O Ibama pressionou, e eles [madeireiros] deram uma resposta”, sugere.

Os conflitos são tão intensos na área, segundo o agente da CPT, que os pistoleiros costumam circular livremente entre os moradores. “Todo mundo sabe, mas ninguém fala nada, todo mundo tem medo. A gente faz as denúncias e não acontece nada”, lamenta.

Padre Zezinho alerta ainda para a possibilidade de novas mortes. Como exemplo, ele cita o caso da agricultora familiar Nilcilene Miguel de Lima, que já sofreu inúmeras ameaças e hoje está foragida, como foi denunciado em artigo publicano na edição 430 do Brasil de Fato.

Desenvolvimentismo

O que há em comum entre os episódios, na avaliação de José Batista Afonso, é que todos refletem a violência associada à expansão do capital e dos grandes projetos na região amazônica.

“[As mortes] não são fatos isolados, e a violência é uma consequência desse desenvolvimento ligado ao agronegócio, à exploração extrativista e à corrida desses setores em direção à Amazônia. Quem está contra esses interesses é vítima dessa ganância”, avalia.

A integrante da coordenação estadual do MST no Pará, Maria Raimunda, reitera a relação entre a escalada da violência e os megaempreendimentos na região. Em protesto contra a morte do casal de extrativistas, estudantes, professores e militantes do movimento interditaram a ponte rodo-ferroviária Carajás sobre o rio Tocantins, em Marabá, no dia 28. O objetivo era paralisar as atividades da mineradora Vale que, na avaliação dos movimentos sociais, é uma das impulsionadoras da violência na Amazônia.

“As carvoarias aqui da região existem para sustentar os projetos da Vale, porque aqui está tudo vinculado: extração de minério, siderurgia, carvoaria e madeireiras. E para garantir a implementação dos projetos, eles passam por cima de qualquer pessoa”, afirma.

E as perspectivas são ainda mais preocupantes com a aprovação do novo Código Florestal. Para padre Zezinho, as mortes já são consequência das disputas que envolvem o texto do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB). “Isso não é uma casualidade, tem a ver com o Código e com a pressão dos ruralistas. A Dilma [Rousseff] endureceu, e o pessoal [ruralistas] deu uma resposta”, ressalta.

“O novo Código vai abrir caminho para a expansão desse modelo econômico e vai fortalecer a ação do latifúndio e do agronegócio em direção à Amazônia, afetando as comunidades tradicionais”, avalia José Batista Afonso.

Medidas

Para tentar conter a violência na região, o governo federal anunciou a criação de um grupo de trabalho interministerial, coordenado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, no intuito de acompanhar a investigação dos assassinatos e acelerar ações de regularização fundiária.

Para a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a iniciativa mostra que o governo federal está empenhado em coibir os crimes contra os trabalhadores rurais. O sucesso das ações, no entanto, dependerá de uma ação conjunta com os estados. “Não poderemos agir sem que os governadores, as forças policiais dos estados, as ouvidorias, corregedorias e ministérios públicos nos estados estejam agindo”, afirmou em coletiva de imprensa no dia 31.

Na ocasião, a CPT entregou à ministra uma lista com 1.855 pessoas que foram ameaçadas nos últimos dez anos. Dessas, 207 receberam mais de uma ameaça, 42 foram assassinados e 30 sofreram tentativa de assassinato.

O advogado José Batista Afonso, no entanto, pondera que, antes de ações repressivas, o governo precisa atacar as causas da violência. “É preciso que o governo priorize algumas ações que precisam ter mais agilidade, como a demarcação de terras indígenas e a regularização das terras de remanescentes de quilombos, comunidades ribeirinhas e áreas de proteção ambiental, além da fiscalização daquelas já existentes”, pontua. (Colaboraram Vinicius Mansur e Danilo Augusto)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

BRASIL: 21 AÑOS DESPUÉS DEL ASESINATO DE CHICO MENDES



Servindi http://www.servindi.org/
Comunicación intercultural para un mundo más humano y diverso

Por Beth Begonha y Luana Lourenço*

28 diciembre, 2009 -- El 22 de diciembre de 1988, una bala mató a Francisco Alves Mendes Filho, Chico Mendes. El recolector de caucho y dirigente sindical se convirtió en un icono de la conservación de la Amazonía. Veinte años después de su muerte, sus ideas siguen influyendo en las políticas de desarrollo sostenible (Imagen Lou Gold).

Sus orígenes
Este precursor del ambientalismo brasileño nació y vivió en los bosques de Xapuri, Acre. “El siempre fue un muchacho tranquilo, de buen carácter. Era muy inteligente y un lector insaciable. El silencio era muy importante para él”, recuerda su tía, Cecilia Mendes.

Gran conocedor de la selva, Chico Mendes defendía el derecho a utilizar los recursos naturales, pero sin agotarlos. Su primo y compañero de la resistencia, Sebastiao Teixeira Mendes, recuerda su preocupación por la sostenibilidad. “Él siempre iba con la historia de preservar por el mundo, pero después siempre volvía, nunca se olvidó de su tierra”.

Lucha contra la tala de árboles
La lucha contra la transformación de la vegetación selvática en pastos para el ganado se intensificó a partir de finales de 1970. Lo que le dio visibilidad fue la lucha de los caucheros de Acre, que llegó a salir en periódicos nacionales e internacionales, cuando los trabajadores formaron barreras humanas para impedir el trabajo de las motosierras.

Su cuñada, Deusamar Mendes, recuerda que allí se reunían hombres, mujeres e incluso niños contra la deforestación. “Cuando se sabía que iban a talar, un vecino avisaba a otros, y les decía el lugar donde reunirse. Todos llegaban allí, improvisaban tiendas de campaña y avisaban que iban a impedir la tala pacifícamente. Sabíamos que eran trabajadores, pero les decíamos que aquello no era un medio de supervivencia, que trastornaban la vida de muchos otros”.

Siempre al frente de los trabajadores forestales, Chico Mendes se hizo cargo de la secretaría de la Unión de Trabajadores Rurales (STR) de Brasil, y luego fundó el STR en Xapurí. Dirigió la Central de Trabajadores de Acre, fue concejal por el MDB, y participó en la fundación del PT en el Estado, con la senadora Marina Silva y el actual gobernador de Acre, Binho Marques.

“Las cuestiones medioambientales están siendo debatidas actualmente, dentro del movimiento sindical, a partir de las acciones de Chico”, sugiere el vicepresidente del Consejo nacional de caucheros, Julio Barbosa. En 1987, fue el primer brasileño en recibir el Premio Global 500 de las Naciones Unidas.

Amenazas y asesinato
Debido a la repercusión internacional que consiguió la lucha de los pueblos selváticos para preservar la Amazonía, Chico Mendes comenzó a vivir bajo la amenaza de muchos políticos y agricultores de la región. Tanto que llegó a enviar una lista de los posibles autores de estas amenazas a las autoridades locales. Los nombres de Darly Alves y su hijo Darci, condenados después por su asesinato, estaban en esa lista.

Los pistoleros le amenazaban, le telefoneaban y le pasaban mensajes por debajo de la puerta. Uno de ellos decía así: “su fin está cerca, usted tendrá una bella Navidad”. Fue una muerte anunciada, que Chico advirtió al mundo entero”, recuerda Deusam.

El hacendado Darly Alves y su hijo Darcy fueron declarados autor intelectual y ejecutor de la muerte de Chico Mendes. En 1990, los dos fueron condenados a 19 años de prisión. Huyeron de la cárcel de Río Branco en febrero de 1993, pero fueron capturados tres años después. En septiembre de este año, el Tribunal concedió la prisión domiciliaria a Darly, que ahora tiene 71 años.

Consolidación de las reservas extractivas
Veinte años después del asesinato de Chico Mendes, la consolidación de las reservas extractivas, lugares que combinan la conservación y el desarrollo de las poblaciones tradicionales, es el resultado de su labor. Y su voz es hoy reconocida como una de las primeras que denunció la deforestación de la Amazonía. Según el presidente del Instituto Chico Mendes para la Conservación de la Biodiversidad (ICMBio), Rómulo Mello: “Hemos ampliado el sueño. Esta idea de Chico se hizo realidad. Y la idea avanzó aún más: lo que Chico Mendes plantó en el corazón de los caucheros ha llegado hasta el mar: ahora también existen reservas en el mar”.

Según Mello, la creación de áreas protegidas para un uso sostenible permite la explotación de los recursos naturales por las personas que viven en esas zonas. Más de 46.000 familias viven en estas áreas en la actualidad.

Mello sin embargo reconoce que la consolidación de las reservas extractivas ha de ir en paralelo a las acciones que efectúan los caucheros con el fin de impedir la devastación de la selva. “Tenemos que seguir la lucha que comenzó Chico. No es razonable encontrar ganado en las reservas”, dice refiriéndose a los brotes de deforestación y a la actividad agropecuaria dentro de las reservas.

“El principal instrumento para garantizar la supervivencia digna de los trabajadores es la preservación de la selva, este es el sueño de Chico Mendes”. Según Mello, hay que aprender a valorar que el buen mantenimiento de la selva conlleva más ventajas económicas que su deforestación.

El Presidente de ICMBio señala que, entre las medidas más inmediatas, debía aprobarse la fijación de precios mínimos para productos tales como caucho, nueces y aceites, el aumento de la competitividad, y desalentar la cría de ganado, que amenaza el bosque. “Tenemos que crear mecanismos para remunerar la consolidación de los servicios ambientales. Esto ayudará a que la gente deje de llamar mata a la selva, en sentido peyorativo, y que la empiece a llamar floresta.

La lucha no fue en vano
“Al principio pensé que estaba luchando para salvar los árboles de caucho, luego pensé que estaba luchando para salvar la selva amazónica, ahora me doy cuenta de que estoy luchando por la humanidad”. La sentencia del ambientalista Chico Mendes se hizo eco a través de la selva, y atrajo la atención del mundo sobre la lucha que estaban llevando a cabo para que la Amazonía no se transformase en haciendas agrarias.

Veinte años después de su muerte, familiares, amigos y compañeros de la resistencia lamentan que no viviera para ver los logros alcanzados.

“La lucha no fue en vano. Nuestra pena es que Chico no está aquí entre nosotros para verlo. Hoy en día los caucheros se ocupan de la selva para sus hijos y sus nietos”, dice su primo y también cauchero Sebastiao Teixeira Mendes. “Lo que me quedó de él fue la actitud de alentar a la gente a que respete a la naturaleza”, comenta.

El líder de la Reserva Cazumba Iracema y amigo de Chico Mendes, Raimundo Silva, indica que la creación de reservas extractivas es uno de los principales legados de su compañero de lucha. Estas reservas son espacios protegidos que permitan el uso sostenible de los recursos naturales por las personas que viven en esas zonas.

“Se hizo famoso después de su muerte, pero dejó una cosa muy importante que es alentadora. Yo defiendo muchos estas reservas porque veo que es la forma que tenemos de asegurar nuestro bienestar. Si pasas, en coche o en avión, por los sitios donde no hay reserva, puedes ver el crecimiento de la deforestación, casi no hay vegetación”, dice.

Escuela e integración
Chico Mendes también es recordado por su defensa de la integración de los pueblos de la selva – indígenas, ribereños, trabajadores.

Y por otra razón más: por la educación. Después de aprender a leer y escribir gracias a unos amigos, Chico Mendes empezó a alfabetizar a compañeros del caucho.

“Como él sabía un poco, enseñaba a los demás. Después comenzó a crear algunas escuelas en el interior. Entonces reclamábamos el derecho a tener una escuela y un puesto de salud. Hoy en día, tenemos escuelas hasta la escuela secundaria”, celebra Sebastião Mendes.

“Falta mucho, pero ya no estamos solos”
Su viuda Ilzamar Mendes, considera que después de estos 21 años, la lucha ha conseguido el reconocimiento nacional y ha cosechado victorias para los trabajadores de la selva.

“Falta mucho, pero ya no estamos solos. Ahora tenemos autoridades que nos apoyan y personas que nos ayudan a avanzar la causa del ambientalismo “, dice.

El cauchero Neto, de la Asociación de Productores del Caucho Ecuador, va más allá y compara la vida luchadora de Chico Mendes con la trayectoria de un mártir en nombre del Amazonas.

“Existe muchas personas que no creen en mi visión, pero yo he trabajado con él, y Chico Mendes hizo el papel de Jesucristo: murió para dar vida a mucha gente”.

• Con la colaboración de Mara Régia.


Fuente: 180 latitudes.org: http://www.180latitudes.org/analisis/21-anos-despues-del-asesinato-de-chico-mendes.html , tomado a su vez de Ecodebate

quinta-feira, 5 de março de 2009

Brasil/IRMÃ DOROTHY: MÁRTIR, PROFETA, MÍSTICA E SANTA PROCLAMADA PELO POVO

IHU - Unisinos *

Por Moisés Sbardelotto

[ADITAL] Agencia de Información Fray Tito para América Latina
2 março 2009/Adital http://www.adital.com.br

Relembrando alguns episódios de sua infância com a Irmã e sua irmã Dorothy, David Stang, em entrevista exclusiva por e-mail à página IHU On-Line, testemunha toda a admiração pela vida e pela entrega de Dorothy, derramando seu sangue "que corre nas terras brasileiras que ela tanto amou, levantando-se em nome dos que não têm direito e em nome da Floresta Amazônica".
Ex-missionário católico no Quênia e na Tanzânia, e hoje residente no Colorado, EUA, David Stang critica ainda a justiça e alguns setores da imprensa brasileira, por seu preconceito em retratar sua irmã como uma revolucionária e traficante de armas, uma "agente norte-americana" - sem levar em consideração a sua cidadania brasileira e o seu trabalho de mais de 30 anos no Brasil - e por insultar a sua fé católica e "a bela e simples cruz católica que ela sempre trazia ao redor de seu pescoço". E afirma que a família Stang ainda luta para que o caso seja federalizado.
Mas muito além dos limites da justiça terrena, David Stang relata a sua esperança naquilo que sua irmã, com o seu martírio, plantou na sociedade e na Igreja brasileiras. "Nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades", afirma. "Ambos sentíamos o Espírito Santo dentro de nós e o Reino de Deus em nossos corações. Com a grandeza de Deus dentro de nós, não tínhamos por que ter medo".
E é daí que surge a sua convicção em afirmar que sua Irmã Dorothy o "encorajou a estar vivo" e a dizer, sem hesitar, que Dorothy é uma mártir, uma profeta, uma mística e uma santa, tão proclamada pelo povo.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Quatro anos depois do assassinato da Irmã Dorothy, como é possível avaliar o legado que ela deixou com relação à defesa da ecologia e dos direitos humanos?

"Dorothy me encorajou a ver a terra em que vivemos como algo vivo e não apenas uma coisa morta. O martírio de Dorothy me encorajou a estar vivo"

David Stang - Os dois Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS) são legados de Dorothy. Esses PDSs estão vivos e saudáveis na área de Anapu. Seus agricultores estão plantando, colhendo e vendendo sua produção contra as ameaças dos fazendeiros e dos madeireiros ilegais locais. O Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] está trabalhando melhor com esses PDSs e começando a proteger esses programas federais.
Quando Dorothy foi assassinada, havia 35 grupos de fazendeiros que queriam trabalhar a terra de uma maneira sustentável, isto é, 80% de floresta para 20% de fazendas. Agora, há 70 grupos de agricultores que se uniram. Esses 70 grupos são independentes dos PDSs. Obviamente, esses agricultores estão se levantando contra muitos fazendeiros, madeireiros e pistoleiros que roubam ilegalmente a floresta.
Eu acredito que o martírio dessa senhora de 73 anos deu coragem a milhares de agricultores na área de Anapu, para cultivar, proteger e conservar a Amazônia, contra a influência poderosa dos madeireiros e fazendeiros que querem queimar, destruir e transformar a região em uma terra de fazendas, sendo que mais e mais cientistas afirmam que essa transformação não tem mais volta.
Em novembro de 2008, Regivaldo [Pereira] [fazendeiro acusado de pagar pelo crime] foi a um encontro em Anapu convocado pelo Incra e declarou que o Lote 55 era dele. Ele não apenas foi desmentido quanto a essa petição, mas foi também preso depois por apropriar-se ilegalmente dessa terra, especialmente desde que fora libertado da prisão, afirmando que não tinha interesse no Lote 55.
Tivemos quatro júris públicos nos quais conseguimos que Clodoaldo [Batista], Rayfran [Sales] e Tato [Amair Feijoli da Cunha] fossem sentenciados a vários anos de prisão. Também conseguimos que Bida [Vitalmiro Bastos de Moura] e Regivaldo ficassem presos por um tempo. Esses julgamentos públicos tiveram enorme publicidade, mas as pessoas foram educadas à falta de justiça para com os pobres no Estado do Pará. Apelamos por um novo julgamento de Bida e estamos pedindo um julgamento para Regivaldo. Esses julgamentos realmente dão esperança para os pobres e certamente estão provocando uma maior consciência da necessidade de um sistema judiciário honesto. Depois do novo julgamento de Bida, ele foi libertado com base em mentiras. Essa impunidade foi tão descarada que até o Presidente do Brasil declarou publicamente que o julgamento de Bida foi uma paródia. A governadora do Estado do Pará, Ana Julia Carepa, também declarou que o julgamento foi uma paródia.
"Dorothy é uma mártir, uma profeta, uma mística, por causa de sua relação próxima com Deus e com a sua grande terra. E uma santa, tão proclamada pelo povo"
Há um documentário sobre Dorothy, "Mataram Irmã Dorothy" [assista o trailer do filme aqui], que foi exibido no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília e em Belém, no Fórum Social Mundial de 2009, antes da Assembléia Geral [da Comissão Pastoral da Terra] em Brasília, nos dias 12 e 17 de fevereiro em Anapu. Esse filme está aumentando as esperanças e a consciência pela justiça em milhões de brasileiros.
Há também dois livros, "Mártir da Amazônia" (Paulus Editora, 2008), de Roseanne Murphy, e "A dádiva maior" (Editora Globo, 2008), de Binka Le Breton, escritos sobre Dorothy, ambos publicados em português.
Há novas escolas, parques melhorados e centros comunitários no Brasil que receberam o nome de Dorothy. A enorme quantidade de jornais, rádios e TVs brasileiras que cobriram o trabalho de Dorothy deu mais consciência às pessoas para se colocarem de pé por si mesmas.
Milhões de acres da Floresta Amazônica foram declarados terra pública e de preservação desde o assassinato de Dorothy. Um cientista me contou que isso nunca teria acontecido sem o clamor público em torno à sua morte.

IHU On-Line - Poderia nos contar um pouco sobre a sua relação com sua irmã Dorothy? Quais são as suas lembranças mais valiosas dela e de sua relação fraterna com Dorothy?

David Stang - Dorothy era uma das minhas irmãs mais velhas que cuidou do meu irmão gêmeo e de mim. Ela brincava, jogava futebol, basquete e patinava no gelo com o meu irmão gêmeo e comigo.
Ela também tinha um grande amor pela terra. Então, o nosso vínculo começou quando nós éramos pequenos, seis e sete anos de idade, quando cuidávamos juntos do jardim orgânico do nosso pai ou íamos a uma fazenda próxima de casa para colher frutas e ganhar um pouco de dinheiro para ajudar o nosso pai a educar todos nós, nove irmãos, durante a Depressão. Dorothy era alguém com quem nos sentíamos seguros e com quem também gostávamos de estar. Era uma pessoa feliz, amorosa. Todos comíamos juntos no entardecer, lavávamos a louça juntos e rezávamos juntos antes de ir para a cama.
"Nós da família Stang fomos insultados quando o juiz permitiu que os advogados de defesa insultassem a fé católica de Dorothy, a sua cidadania brasileira, o seu trabalho de mais de 30 anos no Brasil"
Em dezembro de 2004, ela me telefonou e disse: "Por favor, venha para Belém para participar da entrega do Prêmio dos Direitos Humanos da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] que vou receber". Quando cheguei a Belém no dia 04 de dezembro, ela estava atrás de toda a multidão [no aeroporto], pulando para cima e para baixo com o seu sorriso enorme, dando-me as boas-vindas ao Brasil. Pude passar uma semana com ela, viajando de ônibus pela cidade de Belém e falando sobre nossas vidas.
Enquanto estive com ela, senadores, advogados, irmãs e amigos se encontraram com ela e avisaram-na que havia ameaças de morte contra ela. Essa viagem de dezembro, em retrospecto, foi uma grande celebração de despedida.
No dia 11 de fevereiro, ela me telefonou novamente, contando-me que gostaria de ir para Esperança [um dos PDSs na região de Anapu, onde Dorothy foi assassinada] para ajudar as 12 famílias de agricultores que tiveram suas casas e suas colheitas queimadas intencionalmente, pois não tinham para onde ir nem o que comer. Ela disse que estava levando comida, lençóis e até mesmo martelos e pregos para reconstruir, para dar-lhes apoio e esperança. Porém, ela me disse naquele momento: "Eu estou um pouco nervosa". Eu disse para ela: "Então não vá". E ela disse: "Eu não posso fugir do povo que eu amo". Ela me mandou um beijo pelo telefone e me deu tchau. Esse telefonema me traz muito boas lembranças.
É incrivelmente ingênuo e maldoso como os advogados de defesa puderam retratar a minha irmã como uma revolucionária, uma agente dos norte-americanos, e como o júri acreditou nisso. Se os pistoleiros tinham medo de Dorothy, por que eles ficaram e esperaram por ela no dia seguinte?

IHU On-Line - O senhor também tem uma grande história pessoal de missão e trabalho pelos direitos humanos. Pode nos contar um pouco a respeito disso? Como o seu trabalho e a luta de Dorothy em defesa do povo e do Reino de Deus estão conectados?

David Stang - Eu fui às missões na África pela primeira vez em 1964. Ela foi ao Brasil em 1967. Nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres e aqueles que tinham muito pouco, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades, tanto físicas quanto espirituais. Nós dois vínhamos de uma história de ter muito pouco e de acreditar fortemente nos direitos humanos, nos nossos próprios direitos de partilhar os bens de Deus que ele livremente deu a todo o ser humano, de acreditar nas palavras de Jesus, que dizem que devemos amar os nossos próximos como a nós mesmos. "Bem-aventurados os pobres porque deles é o Reino dos Céus". Essas palavras nos tocaram muito profundamente.
"O que eu posso dizer quando vejo Bida livre, mesmo quando menos de um ano antes ele havia sido sentenciado a 30 anos? O que eu posso dizer quando Regivaldo diz ser dono do Lote 55, onde minha irmã foi assassinada?"
Eu iniciei duas cooperativas entre os Wakuria do Quênia e da Tanzânia nos anos 60, com mais de cinco mil membros. Dorothy e eu geralmente conversávamos sobre como esse trabalho junto com as pessoas protegia os pobres da ganância e do poder dos ricos. Esse trabalho em conjunto ajuda as pessoas a entrar na grande economia do Brasil.
Durante 30 anos, eu também trabalhei no Colorado, nos Estados Unidos, como administrador de uma casa de saúde, cuidando de idosos, portadores do mal de Alzheimer, doentes mentais e pessoas com problemas de comportamento. Eu fui o Administrador do Ano duas vezes no Estado do Colorado.
Nós entendíamos que, por causa desse libertar as pessoas, seríamos odiados por muitos ricos e pelos poderosos, porque eles querem escravos e pessoas sem educação. Nós também sabemos que muitos ricos e os poderosos chamam os pobres de preguiçosos e de "vidas boas". Será que eles não se dão conta que sua ganância e sua opressão ajudam a causar o lado escuro da pobreza?
A primeira escola que Dorothy construiu junto com as pessoas foi demolida por alguns fazendeiros ricos, que forçaram a todos a cortar a mesma madeira com a qual eles construíram a escola e a colocá-la na carroceria de seus caminhões. A estação de rádio que Dorothy iniciou para que as pessoas pudessem ouvir as notícias foi destruída em uma noite. O PDS como o conhecemos foi e é odiado por muitos fazendeiros e madeireiros ainda hoje.
Essa pessoa Dorothy que teve tamanha energia, que deu a eles uma grande esperança durante 30 anos, foi assassinada intencionalmente. Tínhamos grande esperança de que a humanidade cresceria em beleza e consciência. Isso não pode acontecer se nos satisfizermos com a nossa vida pessoal de oração. Não ver a pobreza, o sofrimento e a desesperança dos pobres seria contra a nossa fé cristã, espiritual. Então, Dorothy teve um grande desejo de colocar seus braços ao redor do mal que existia e que criava tanta dor e desesperança, para educá-lo e transformá-lo. Obviamente, Dorothy queria dar a sua vida por esses ideais. Sobre esses princípios, Dorothy e eu tínhamos profundo respeito e amor recíprocos.
Dorothy e eu sentíamos a presença de Deus nas nossas atividades, e essa fé nos encorajou a fazer o nosso trabalho da melhor maneira. O fato de ela ter sido convidada para o Brasil em 2004 foi um grande presente para mim. Quando ela me ligou um dia antes de ser assassinada, sabendo que ela estava em uma jornada perigosa, foi o seu beijo de despedida para mim.
"Matar uma irmã católica de 73 anos em um país tão católico é um grande choque para muitos católicos em todo o mundo. Tudo afirma claramente que há impunidade e escravidão no Pará"
Ambos respeitávamos e compreendíamos o trabalho que estávamos fazendo para ajudar a humanidade e que esse amor e compaixão pelos outros é o sentido mais verdadeiro da Igreja Católica. Ambos sentíamos o Espírito Santo dentro de nós e o Reino de Deus em nossos corações. Com a grandeza de Deus dentro de nós, não tínhamos por que ter medo.

IHU On-Line - Como o senhor vê o reconhecimento e a repercussão do trabalho e da morte de Ir. Dorothy nos EUA e em outros países fora do Brasil? Recentemente, ela recebeu postumamente o Prêmio de Direitos Humanos das Nações Unidas, em razão de seus trabalhos na Região Amazônica.

David Stang - Dorothy recebeu diversos títulos Honoris Causa de diversas universidades nos EUA desde a sua morte. Ela recebeu um Congressional Award do Senado e do Congresso dos EUA. O governador do Colorado, Bill Ritter, declarou, por Proclamação Honorária, o dia 25 de setembro de 2008 como o Dia Dorothy Stang. O filme "Mataram Irmã Dorothy" ganhou muitos prêmios nos EUA. Como mencionei antes, há dois livros em inglês sobre a vida de Dorothy. As editoras Orbis Books e Random House me disseram que esses livros têm sido verdadeiros best-sellers.
Então, obviamente, muitas pessoas querem saber sobre ela nos EUA. Há também muitas publicações com artigos sobre a vida de Dorothy em inglês. Há também reportagens nas TVs e nas estações de rádio acompanhando os julgamentos em Belém. Houve quatro festivais de filmes no último mês nos EUA, em que a exibição do filme sobre Dorothy teve lotação de público. A HBO irá exibir pela primeira vez o filme sobre Dorothy no próximo mês em Dayton, Ohio, a cidade natal de Dorothy, e depois será exibido em todo o país.
Milhares de pessoas estão pedindo informações sobre Dorothy. Sua popularidade está crescendo imensamente aqui no país. Dorothy é vista como uma pessoa muito espiritualizada, uma mulher muito corajosa, mesmo com sua idade de 73 anos, que amava a Amazônia, os agricultores e os pobres, e a vida espiritual que ela escolheu lhe deu essa grande força. Eu também vejo minha irmã como uma grande brasileira, pela lei brasileira e pelo seu sangue que corre nas terras brasileiras que ela tanto amou, levantando-se em nome dos que não têm direito e em nome da Floresta Amazônica para que tivéssmos um futuro. Como ela sempre dizia, "Eu não posso fugir dos pobres ou dessa grande floresta".
"Essa falação na imprensa brasileira e nos julgamentos chamando Dorothy de 'norte-americana' mostra o preconceito em aceitar uma estrangeira como brasileira"
Dorothy recebeu um Prêmio de Direitos Humanos nas Nações Unidas na Assembléia Geral. Eu recebi o prêmio com a Irmã Joan Burke, das Irmãs de Notre Dame de Namur [congregação de Dorothy], em frente a toda a imprensa mundial. Minha única frustração é que os delegados da ONU do Brasil, que estavam presentes na cerimônia de premiação, nunca vieram me dar as mãos. Então, não sei o que ele pensam sobre essa grande brasileira que entregou sua vida pelo Brasil. Esse prêmio é entregue apenas a cada cinco anos. Eu acredito verdadeiramente que os oficiais brasileiros deveriam ficar orgulhosos por um dos seus ter recebido esse prêmio. Essa falação contínua na imprensa brasileira e nos julgamentos chamando-a de "norte-americana" mostra o preconceito de alguns em aceitar uma estrangeira, independentemente de quanto tempo ela morou ou trabalhou no Brasil, como brasileira.
Eu acho que muitas e muitas pessoas em todo o mundo veem que há corrupção e escravidão dos brasileiros no Estado do Pará. Mesmo se o presidente Lula diz que o último julgamento foi uma paródia, as pessoas pensam que essas são palavras sem nenhuma ação. Matar uma velha irmã católica de 73 anos, uma mulher desarmada, em um país tão católico, sem nenhuma justiça, é um grande choque para muitos católicos de todo o mundo. Os livros, os jornais, as emissoras de TV, as estações de rádio, o filme sobre Dorothy, tudo afirma claramente que há impunidade e escravidão no Pará. O presidente Bush foi uma vergonha nos EUA e para todo o mundo, e o assassinato dessa irmã católica brasileira de 73 anos é uma vergonha mundial para o Brasil.

IHU On-Line - Existem pesquisas e estudos ou institutos acadêmicos que analisam a vida e o compromisso da Irmã Dorothy com a natureza e com a questão dos direitos humanos nos EUA ou fora do Brasil?

David Stang - As Irmãs de Notre Dame de Namur são uma congregação mundial. Elas têm escolas e universidades em todo o mundo. Todas as suas escolas e universidades assumiram a causa de Dorothy. Existem programas de estudo sobre Dorothy, sobre ecologia, sobre a vida de Dorothy em todas as escolas. A senhora [Nancy] Pelosi, presidente da Câmara de Representantes dos EUA, foi a uma universidade de Notre Dame em Belmonte, na Califórnia, onde as Irmãs de Notre Dame dão aulas. Há muitas pessoas importantes nos EUA que foram educadas pelas Irmãs de Notre Dame de Namur. Essa tragédia do assassinato de Dorothy está se tornando muito conhecida no país e fora dele.
"Eu vejo minha irmã como uma grande brasileira, pela lei brasileira e pelo seu sangue que corre nas terras brasileiras que ela tanto amou, levantando-se em nome dos que não têm direito e em nome da Floresta Amazônica"
Estudantes de mestrado de uma universidade norte-americana também entregaram uma dissertação de mestrado sobre a vida de Dorothy em 2006. A Universidade de Dayton tem uma disciplina sobre Dorothy. A Universidade Notre Dame, em Belmonte, tem um programa inteiro sobre a vida de Dorothy. Muitos estudantes do Ensino Fundamental em todo o país estudam Dorothy em programas que são chamados de "A Rainforest Unit for Primary Grades". Os programas são distribuídos pelo Sister Dorothy Stang Educational Aids, um projeto das Irmãs de Notre Dame de Namur (dotedaids@sndden.org). As irmãs católicas em todo o país abraçaram a vida dessa grande mulher brasileira.

IHU On-Line - Qual a sua opinião sobre a postura do Judiciário e do Executivo brasileiros e como o senhor avalia o processo de julgamento dos assassinos da Irmã Dorothy?

David Stang - Eu estive no Brasil dez vezes desde o seu assassinato. Quatro anos se passaram, e Bida e Regivaldo, os fazendeiros que são acusados de pagar pelo seu assassinato, ainda estão livres. Um dos prisioneiros foi espancado violentamente para alertá-lo para não testemunhar durante um dos julgamentos. Outro prisioneiro afirmou claramente que os ricos e os poderosos não vão para a cadeia. Tato, Clodoaldo e Rayfran modificaram seus testemunhos muitas vezes ao longo desses julgamentos. O filme "Mataram Irmã Dorothy" mostra claramente a falta de justiça no Estado do Pará.
Os advogados de defesa mentiram e tentaram retratar a minha irmã como uma revolucionária, que vendia armas. Dorothy era muito conhecida pelos oficiais do governo, pela Polícia Federal, pela polícia estatal e assim por diante. Nunca antes ela havia sido acusada, durante seus 39 anos no Brasil, flagrada ou provou-se o seu envolvimento com armas, exceto pelos falsos rumores dos fazendeiros e dos madeireiros.
Felício Pontes, um procurador federal do Estado do Pará, era um amigo próximo de Dorothy, assim como muitos outros oficiais do governo. Ele chamou essas acusações sobre a Irmã Dorothy, nos dois julgamentos de Bida, de falsas e sem mérito. A única vez em que ela foi acusada falsamente, disse o procurador federal Felício Pontes, a acusação foi montada pela polícia local corrupta e pelos fazendeiros.
O presidente Lula enviou os seus assessores ao funeral e houve muitos senadores e brasileiros famosos no enterro da minha irmã. Será que o presidente do Brasil, que comparou Dorothy a Chico Mendes, teria sido tão incentivador se tivesse qualquer dúvida de que ela era uma traficante de armas ou uma agente da América do Norte?
"Ambos sentíamos o Espírito Santo dentro de nós e o Reino de Deus em nossos corações. Com a grandeza de Deus dentro de nós, não tínhamos por que ter medo"
A imprensa sempre me perguntou se eu achava que haveria justiça, e eu sempre disse: "Dorothy amou o Brasil. Ela era uma brasileira e tinha uma grande esperança no Brasil". Eu ainda espero que haja justiça. Eu também amor o Brasil e vejo grandes promessas e muitas pessoas lutando pela causa de Dorothy. Eu encontrei muitos advogados brasileiros que estão aterrorizados e envergonhados pela falta de justiça no Pará.
O que se pode dizer quando a Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, afirma que há mais de 800 agricultores que foram assassinados no Pará e nenhum deles está preso por esses crimes? O que eu posso dizer quando vejo Bida livre, mesmo quando menos de um ano antes ele havia sido sentenciado a 30 anos? O que eu posso dizer quando Regivaldo participa de um encontro com o Incra em Anapu, em novembro do ano passado, e diz ser dono do Lote 55, onde minha irmã foi assassinada? Ele foi libertado da prisão com base em sua declaração de não ter interesse no Lote 55. O que eu posso dizer quando, depois de quatro anos, Regivaldo ainda não foi julgado? O que eu posso dizer quando, no julgamento do ano passado, o júri libertou Bida, e então, no tribunal, eu e muitos outros fomos cercados por tropas como se fôssemos perigosos? Por que Bida e sua família não foram cercados por policiais no antigo julgamento em que ele foi indiciado a 30 anos?
Nós, a família Stang, estamos novamente pedindo a federalização desse caso, pois fomos profundamente insultados no último julgamento, quando o juiz leu os resultados e libertou Bida, quando a defesa disse que os pistoleiros estavam com medo e mataram Dorothy em legítima defesa e que não havia provas de que os fazendeiros pagaram pelo seu assassinato. Nós da família Stang fomos insultados quando o juiz permitiu que os advogados de defesa insultassem a sua fé católica, a bela e simples cruz católica que ela sempre trazia ao redor de seu pescoço, a sua cidadania brasileira, o seu trabalho de mais de 30 anos com o governo brasileiro e a Igreja Católica.

IHU On-Line - Dadas as hesitações judiciais no caso Dorothy, qual é a perspectiva que se apresenta para os outros defensores dos direitos humanos do Brasil, como os três bispos e demais lideranças que receberam ameaças de morte?

"Não ver a pobreza, o sofrimento e a desesperança dos pobres seria contra a nossa fé cristã"

David Stang - É uma barbárie ameaçar qualquer pessoa de morte, e ainda mais bispos católicos que amam os pobres. Muitos católicos, porém, me disseram que estão perplexos por um país católico como o Brasil ter seus próprios bispos ameaçados. Esse terrorismo vai contra qualquer crença espiritual que tenhamos e talvez nos indique que o governo também é fraco para proteger o seu próprio povo.
Minha irmã Dorothy teve que sobreviver durante anos com ameaças de morte. Por quê? Bida e Regivaldo tem histórias públicas e bem conhecidas de posse ilegal de terras. Mesmo no primeiro julgamento de Bida, ele foi acusado pelo juiz de ser um criminoso. Será que o governo não sabe quem são essas pessoas que fazem essas ameaças de morte? Se há impunidade, o que claramente existe no Estado do Pará, por quê existe? Por que são permitidos a destruição das terras públicas e o assassinato de brasileiros?

IHU On-Line - O senhor ainda acredita no sonho da Irmã Dorothy no que se refere à Amazônia e ao seu povo?

David Stang - Os PDSs ainda estão indo muito bem, e muitos outros agricultores na área de Anapu estão se levantando contra os pistoleiros, os madeireiros ilegais e aqueles que se apossam das terras. Tivemos quatro julgamentos, e eu acredito que ainda haverá mais.
Os brasileiros amaram o filme "Mataram Irmã Dorothy". Eles sentem que o filme tem relação com eles e com o medo ao qual se referem como "impunidade", a falta de justiça no Estado do Pará. Assim como Dorothy dizia: "David, todos temos esperança na Amazônia". Muitas pessoas do governo, advogados, brasileiros me disseram: "David, não há justiça no Estado do Pará", e mesmo assim essas pessoas continuam a ser grandes cidadãos. Todos temos uma grande esperança. Quando os assassinos, aqueles que destroem o futuro do Brasil, serão detidos e julgados?

IHU On-Line - Como o senhor vive e experimenta a presença da Irmã Dorothy hoje? O que você faz e se sente impulsionado a fazer em sua memória?

"Nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres e aqueles que tinham muito pouco, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades"

David Stang - Dorothy foi uma pessoa muito espiritualizada. Essa espiritualidade tocou muitos e muitos brasileiros, incluindo eu. Dorothy nos apresentou uma forma de vida humana, pessoal, compassiva. Ela demonstrou como os seus assassinos e muitas outras pessoas a viam como um objeto, assim como a terra, a ser subjugado e destruído por dinheiro.
Como é possível matar uma pessoa espiritualizada e não sentir remorso ou medo de que Deus não viu o que foi feito?
Dorothy acreditava que o divino está em todo o lugar, que Deus nos deu esta grande terra para ser compartilhada por todos nós. Dorothy é uma mártir, uma profeta, tão proclamada por Dom Erwin [Kräutler], uma mística, por causa de sua relação próxima com Deus e com a sua grande terra. E uma santa, tão proclamada pelo povo.
Eu converso com a minha irmã em minhas meditações, alguém a quem amei. Eu tenho 71 anos e sei que o meu tempo é limitado, e eu também quero estar diante de Deus no momento certo. Por que eu não quereria me encontrar com uma amiga de Deus como ela? Por que eu quereria entrar em contato com a mesquinharia, com a crueldade, com o mal, exceto para transformá-los em algo bonito? Ela me ajudou a olhar o meu estilo de vida e ver como eu sou amável com os outros, como eu vivo de maneira simples, para que outros possam viver e denunciar os violentos, os assassinos e aqueles que nos destroem e destroem a terra que nos dá vida.
Ela me encorajou a ver os demais como pessoas, não como objetos, e a ver a terra em que vivemos como algo vivo e não apenas uma coisa morta. O martírio de Dorothy me encorajou a estar vivo e a ser uma pessoa melhor.

* Instituto Humanitas Unisinos

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Brasil/FORUM SOCIAL MUNDIAL

De volta ao Brasil, encontro deve reunir 120 mil em Belém

Luana Lourenço, repórter

18 janeiro 2009/Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br

Brasília - O Brasil vai voltar a ser palco do maior encontro da sociedade civil e movimentos sociais do planeta. A partir do próximo dia 27, Belém, capital do Pará, vai abrigar a nona edição do Fórum Social Mundial e deve reunir 120 mil participantes, de acordo com a organização do evento. Os investimentos na cidade para a reunião devem chegar a mais de R$ 100 milhões.

Realizado em Porto Alegre em 2001, 2002, 2003 e 2005, o FSM passou pela Índia, em 2004, pela Venezuela, em 2006, pelo Quênia, em 2007, e no último ano não teve um epicentro, com a realização de eventos simultâneos em 82 países.

Até a última sexta-feira (16), as inscrições para a edição de Belém passavam de 82 mil, segundo um dos articuladores do Fórum e organizador da etapa 2009, Cândido Grybowski. “Acredito que vamos chegar aos 120 mil. As pessoas que moram na cidade fazem a inscrição na hora. Belém já está no clima do Fórum. É um espaço aberto, nós não queremos muralhas como nas reuniões do G8, que nos protege do lugar onde estamos. Nós queremos integração com a cidade.”

Estão previstas mais de 2,6 mil atividades, a maioria auto-gestionadas – organizadas pelos próprios participantes. As assembléias, oficinas, cerimônias, atividades culturais e os seminários serão concentrados nas Universidades Federal do Pará (UFPA) e Federal Rural da Amazônia (UFRA), mas devem tomar as ruas de Belém, como na caminhada de abertura, prevista para a tarde do primeiro dia do Fórum.

Considerado o principal contraponto ao Fórum Econômico Mundial, que acontecerá paralelamente em Davos, na Suíça, o FSM não deverá concentrar a discussão apenas sobre a crise financeira internacional. Também estarão na ordem do dia as crises ambiental e de segurança alimentar, que justificam inclusive a escolha de uma sede amazônica para o Fórum, segundo Grzybowski.

“Por causa da crise climática, decidimos realizar o Fórum no lugar que é grande patrimônio mundial. A Amazônia está no centro desse debate e não pode ser vista como um poço de gás carbônico. Queremos mostrar que é um território humanizado, cheio de alternativas. Assim como Chico Mendes mostrou o lado social da Amazônia ao mundo, vamos expressar o socioambiental, que é o grande desafio”, apontou.

Definido como um evento apartidário e sem ligação com governos, o FSM não deixa de ser uma oportunidade política, e não será diferente em Belém, principalmente para as lideranças regionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já confirmou a ida ao Fórum, e deve encontrar os colegas de continente Hugo Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Fernando Lugo, do Paraguai, e a chilena Michele Bachelet.

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Participante do Fórum é jovem e com alto grau de instrução

Amanda Cieglinski, repórter Agência Brasil

18 janeiro 2009/Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br

Brasília - Mais de 90 mil já se inscreveram para participar da nona edição do Fórum Social Mundial (FSM) em Belém (PA). O evento que começa no próximo dia 27 terá como um dos temas principais a Amazônia. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), o participante do Fórum tem um perfil específico: a maioria é jovem e com alto grau de instrução.

A pesquisa foi feita entre as edições de 2003 (Porto Alegre) e 2007 (Nairóbi) com 14 mil participantes. Nesse período, pelo menos 56% dos participantes tinham até 35 anos. O índice mais alto de participação da juventude foi em Porto Alegre, em 2003, com 70% dos participantes com até 35 anos.

Outra característica do público verificada na pesquisa foi o alto nível de escolaridade. Em todas as edições pesquisadas, a parcela de participantes com curso superior completo foi no mínimo de 73%. A edição de 2007, no Quênia, registrou o maior número de participantes com nível superior: 81%.

Para um dos fundadores do FSM, o sociólogo e diretor do Ibase Cândido Grzybowski, a edição de Belém será a “mais popular” de todas.

“Nunca teve tanto indígena, quilombola, ribeirinho, extrativista, pescador. Vai ter uma mudança de perfil, na verdade sempre há, mas dessa vez será mais radical. A elite da militância vai continuar vindo, talvez caiam os grupos intermediários e vem esse grupos de base da Amazônia”, espera.

O Fundo de Solidariedade do Fórum vai financiar a vinda de participantes que não podem arcar com os custos da viagem. A prioridade são os povos originários e tradicionais da região, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos e minorias. Esse fundo é financiado por organizações nacionais e internacionais.

Outra conclusão do estudo do Ibase é que a maioria dos participantes são do próprio país em que foi realizado o Fórum ou de regiões vizinhas. Em todas as edições pesquisadas, entre 69% e 92% dos participantes eram do país-sede ou de nações vizinhas.

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Crise mundial, meio ambiente e minorias devem ser assuntos mais debatidos em evento

Amanda Cieglinski, repórter

18 janeiro 2009/Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br

Brasília - A crise econômica mundial, os problemas ambientais e a situação das minorias que habitam a Amazônia devem dominar as discussões do Fórum Social Mundial (FSM), que começa no próximo dia 27 em Belém (PA). Essa é a nona edição do evento que acontece anualmente desde 2001.

O FSM é realizado sempre em janeiro na mesma data em que na Suíça ocorre o Fórum Econômico Mundial de Davos. É por essa razão que no início era conhecido com anti-Davos. A Carta de Princípios do Fórum define o evento como "um espaço aberto de encontro para o aprofundamento da reflexão, voltado para o debate democrático de idéias e a formulação de propostas para superar o processo de empobrecimento gerado pela globalização”.

A primeira edição foi realiza em 2001, em Porto Alegre (RS). A capital gaúcha foi sede do FSM também em 2002, 2003 e 2005. Em 2004, a quarta edição do evento ocorreu na Índia. Em 2006, o Fórum foi realizado em três países simultaneamente: Mali (África), Paquistão (Ásia) e Venezuela (América). Em 2007, voltou a ser centralizado, dessa vez no Quênia (África). Em 2008, o Fórum foi transformado em um Dia de Ação de Mobilização Global, realizado em 26 de janeiro em mais de 80 países, com cerca de 800 atividades e manifestações auto-gestionadas.

O número de participantes cresce a cada edição. A expectativa para esse ano é que Belém receba 120 mil participantes. Na primeira edição, em 2001, foram 20 mil participantes. Nas duas seguintes o evento reuniu respectivamente 50 mil e 100 mil pessoas. O recorde foi em 2005, em Porto Alegre, com 155 mil participantes.

O Fórum Social Mundial é organizado por um comitê internacional formado por organizações da sociedade civil e movimentos sociais de todo o planeta. Sob o slogan “um outro mundo é possível”, o evento é considerado “altermundista”, já que busca uma nova ordem econômica e social para todo o planeta.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Brasil/20 ANOS SEM CHICO MENDES



28 novembro 2008/Portal do MST http://www.mst.org.br

Na próxima quarta-feira (3/12), a partir das 10h, o Congresso Nacional e várias entidades da sociedade civil realizam um ato em homenagem a Chico Mendes. Neste ano de 2008, o assassinato deste que foi um grande lutador completa 20 anos.

Guardião da floresta e combatente da opressão

Francisco Alves Mendes Filho nasceu no Seringal Porto Rico no município de Xapuri em 15 de dezembro de 1944, filho de pais nordestinos que migraram para a Amazônia. Desde os 11 anos já trabalhava como seringueiro partilhando o destino comum àquelas famílias que em vez de ir à escola trabalham para extrair o látex.

Chico Mendes teve a fortuna de encontrar aquele que seria seu grande mestre, Fernando Euclides Távora, que não só lhe ensinou a ler e a escrever, mas o caminho que o levaria a se interessar pelos destinos do planeta e da humanidade.

Em 1975, já militando nas comunidades eclesiais de base - as Cebs - funda o primeiro sindicato de trabalhadores rurais no Acre, em Brasiléia, junto com seu amigo Wilson Pinheiro. Em março de 1976 organiza junto com seus companheiros, o primeiro Empate no Seringal Carmen.

O Empate consistia na reunião de homens, mulheres e crianças, sob a liderança dos sindicatos, para impedir o desmatamento da floresta, prática que se tornaria emblemática da luta dos seringueiros. Nos Empates alertavam os ´peões` a serviço dos fazendeiros de gado, geralmente de fora do Acre, que a derrubada da mata significava a expulsão de famílias de trabalhadores, convidava-os a se associar à sua luta oferecendo 'colocações` e 'estradas`de seringa para trabalhar e, firmes, expulsava-os dos seus acampamentos de destruição impedindo seu trabalho.

Os Empates tiveram um papel decisivo na consolidação da identidade dos seringueiros e essa forma de resistência acabou por chamar a atenção de todo o Brasil, sobretudo após o assassinato de seu amigo Wilson Pinheiro em 21 de julho de 1980.

http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=6084

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Brasil/NOTA DA COORDENAÇÃO NACIONAL DA COMISSÃO PASTORAL DA TERRA


Avança a criminalização dos Movimentos Sociais e de suas lideranças

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra vem a público para manifestar sua preocupação diante das tentativas de criminalização dos movimentos sociais, sobretudo do campo, e de suas lideranças. Tudo o que cheire a oposição ao progresso e desenvolvimento que as atividades ligadas ao agronegócio e à mineração dizem trazer, tem que ser rechaçado com veemência, pois a economia é mais valorizada do que os direitos humanos e a defesa do meio ambiente. Os meios de comunicação e o judiciário prestam este serviço ao poder econômico.

É neste contexto que entendemos a condenação de José Batista Gonçalves Afonso, advogado da CPT e nosso companheiro na Coordenação Nacional da CPT e que tem destacada atuação na defesa dos direitos humanos na região de Marabá, PA, e de Raimundo Nonato Santos da Silva, ex-coordenador regional da Fetragri, condenados a dois anos e cinco meses de prisão pelo juiz Federal de Marabá, Carlos Henrique Haddad. A sentença ainda lhes nega o direito a pena alternativa, prevista no Código Penal para penas até quatro anos. O processo se refere à ocupação da Superintendência do Incra em Marabá, em abril de 1999, por mais de 10 mil trabalhadores rurais de acampamentos e assentamentos da Fetagri e do MST. Quando, 20 dias depois de iniciado o acampamento, o governo decidiu negociar com os trabalhadores, estes, cansados de esperar por alguma resposta, à noite, entraram nas dependências do Incra, impedindo a saída da equipe oficial de negociação do prédio durante o resto da noite e início da manhã do dia seguinte. Os condenados foram responsabilizados por este ato, sabendo-se que o advogado José Batista cumpria apenas o papel de assessor do MST e da Fetagri nas negociações.

A sentença contém contradições visíveis. Afirma com relação a José Batista que...é possível que não tenha incitado a invasão da sede do Incra pelos trabalhadores rurais e parece crível que não teria condições de controlar a multidão exaltada, mas mesmo assim agravou a pena em mais três meses sob a alegação de que os acusados teriam instigado ou determinado a cometer o crime alguém sujeito à sua autoridade.

Neste contexto da criminalização dos movimentos sociais vemos estarrecidos que o Conselho Superior do Ministério Publico do Estado do Rio Grande do Sul, por unanimidade, aprovou relatório que propõe: designar uma equipe de Promotores de Justiça para promover ação civil pública com vistas à dissolução do MST e declaração de sua ilegalidade (...) e ainda... intervenção nas escolas do MST. O movimento que o próprio Ibope, em recente pesquisa sobre os movimentos sociais encomendada pela Vale, considera como uma das instituições nacionais é tratado como uma organização criminosa, com ligações com as FARC e grupos terroristas. Ainda mais preocupante é ver que o Conselho se baseou num relatório de procuradores que apresenta textos de Florestan Fernandes, Paulo Freire e Chico Mendes como exemplos da estratégia confrontacional do movimento. Não se via nada semelhante desde os tempos da ditadura!

Com base em relatórios como este, o poder Executivo do estado do Rio Grande do Sul decidiu colocar a Brigada Militar para promover violentíssima repressão contra as agricultoras que protestavam em março em defesa do meio-ambiente, em Rosário do Sul, RS; contra os acampados em área de terra já desapropriada pelo Incra, no município de São Gabriel, RS, no início de maio; e para despejar centenas de famílias acampadas em áreas cedidas por pequenos proprietários, no município de Coqueiros do Sul, no dia 17/06. São ações muito bem orquestradas entre Ministério Público, Judiciário e Executivo. No caso de Coqueiros do Sul a petição datada em 16 de junho recebeu no mesmo dia despacho favorável de mais de 20 laudas do juiz de Carazinho e já na madrugada seguinte mais de 500 homens da Brigada Militar entravam nos acampamentos, de surpresa, antes da chegada do oficial de justiça. Um dos promotores fez questão de deixar explícitos os objetivos desta ação: não se trata de remover acampamentos, e sim de desmontar bases que o MST usa.

Ao mesmo tempo em que os movimentos são atacados e depreciados e que mais de 30 lideranças dos movimentos sociais são investigadas pela Polícia Federal ou tem processos, só na Justiça Federal de Marabá os crimes contra os trabalhadores rurais e seus aliados continuam impunes. O único mandante preso no Pará, Vitalmiro Bastos de Moura, Bida, condenado pelo assassinato de Irmã Dorothy foi libertado por decisão de novo julgamento no tribunal do júri. E as suadas conquistas dos povos tradicionais enfrentam barreiras cada vez maiores como é o caso da suspensão pelo STF da retirada dos arrozeiros da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e os constantes ataques de graduados militares do Exército Brasileiro contra a demarcação em área contínua desta área, sob o argumento de defesa da soberania nacional. O mesmo se pode falar dos ataques que acabaram praticamente paralisando as ações de reconhecimento de áreas quilombolas.

A Coordenação Nacional da CPT sente que infelizmente a elite econômica, o agronegócio e a mineração conseguem ditar as ações do Executivo e do Judiciário e em alguns casos do próprio Ministério Público. Repudia veementemente todos os ataques que pretendem deturpar a imagem dos movimentos sociais e manifesta sua solidariedade incondicional de modo especial ao companheiro José Batista, irmão de fé e de luta, ao MST e aos indígenas da Raposa Serra do Sol.

Goiânia, 26 de junho de 2008

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra

http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=5535


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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Brasil/"JUSTIÇA RESSUSCITA PRÁTICAS DA DITADURA"

23 junho 2008/Portal do MST http://www.mst.org.br

Da Radioagência NP

Centenas de famílias ligadas ao Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terras (MST) foram despejadas de dois acampamentos no município de Coqueiros do Sul, no Rio Grande do Sul, na última terça-feira (17/06). Barracos, plantações, criações de animais e até o posto de saúde e a escola montada pelos sem terra foram destruídos.

As famílias foram jogadas à beira da estrada em Sarandi, cumprindo ordens do Poder Judiciário. A Brigada Militar expulsou as famílias de duas áreas cedidas por pequenos proprietários. De acordo com um dos promotores responsáveis pela ação civil que determinou o despejo, Luis Felipe Tesheiner, “não se trata de remover acampamentos, e sim de desmontar bases que o MST usa para cometer reiterados atos criminosos”.

Ali não estava em debate a questão fundiária. A decisão judicial se baseia em um relatório do Ministério Público (MP) gaúcho, no qual o MST é considerado uma ameaça à segurança nacional que precisa ser dissolvida. Em tom de denúncia, o documento chega a citar a presença de livros do pedagogo soviético Anton Makarenko. Textos de Florestan Fernandes, Paulo Freire e Chico Mendes são apresentados como exemplos da “estratégia confrontacional” do movimento.

Em entrevista, o procurador do Estado aposentado e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos, Jacques Távora Alfonsin, afirmou que a ação da justiça ressuscita práticas da ditadura no Brasil. Para Alfonsin, há uma ação orquestrada no Rio Grande do Sul, baseada na perseguição ideológica.

Juridicamente, como você caracteriza essa ação da Justiça gaúcha?

Nós estamos enfrentando uma situação de violação flagrante dos direitos humanos, de uma infidelidade manifesta do MP às suas próprias finalidades. Quem lê a petição inicial vê que o MP vestiu a camisa dos latifundiários. Na Constituição Federal, a função do MP não é perseguir pobre, nem evitar pressão social de gente que está reivindicando reforma agrária. Essas ações se baseiam num sociólogo rural [Zander Navarro] magoado com o movimento. Não existe preocupação destes promotores em sustentar essas coisas em fatos, é tudo gente que não concorda ideologicamente com o movimento.

A medida seria, então, perseguição ideológica?

Na petição inicial, os promotores se baseiam no fato de que o MST é um movimento anti-capitalista e esquerdista. Quer dizer, tudo aquilo que as universidades estudam em sociologia com a maior liberdade. Qual é o crime ser anti-capitalista e esquerdista? Para acentuar essa denúncia, eles se baseiam no Estatuto da Terra votado durante o regime militar que acabou com as Ligas Camponesas [Movimento Camponês exterminado após o golpe de 1964, e que tinha como pauta “a reforma agrária na lei ou na marra”], para mostrar que o MST, então, se equipararia às ligas. Se voltou à época da ditadura para se sustentar esse ataque.

Essa seria uma ação orquestrada?

Isso é tão orquestrado que nunca se viu tanta agilidade. A petição chegou em Carazinho (RS) no dia 16 de junho. O despacho do juiz, que tem mais de 20 laudas, é de 16 de junho [mesmo dia]. Portanto, ele já sabia que a ação iria entrar e já estava até preparado com o despacho que ele iria dar. E para surpresa de todos os agricultores sem terra, a Brigada Militar com mais de 500 homens entrou de madrugada [nos dois acampamentos no município de Coqueiros do Sul], de surpresa, antes de chegar o oficial de justiça. O oficial de justiça chegou depois, tudo isso com a chancela do ouvidor da segurança pública aqui do estado, que deveria ser justamente aquele que protege os direitos humanos destas pessoas.

Existem outros indícios dessa ação organizada?

Está em curso no estado um abuso de poder e de autoridade. O relatório secreto do Conselho Superior do MP daqui [RS] estava preparando essas ações desde dezembro de 2007. E nesse relatório a expressão é a dissolução, estou repetindo: dissolução do MST. Uma reação popular organizada não é tolerada.

Qual providência deve ser tomada?

Nós estamos preparando os recursos judiciais que vamos entrar e as contestações a estas infelizes ações. E não se descarta a hipótese de fazer uma petição com urgência para a comissão de direitos humanos da OEA [Organização dos Estados Americanos].

http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=5516


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