Noticias, artigos e análises sobre economia, politica e cultura dos países membros do Mercosul, CPLP e BRICS | Noticiero, articulos e analisis sobre economia, politica e cultura de los paises miembros del Mercosur, CPLP y BRICS
terça-feira, 8 de outubro de 2019
Sínodo Pan-Amazônico/O Patriarca Bartolomeu e a Amazônia “fonte de vida”
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Brasil/ DOROTHY STANG, VÍTIMA DO LATIFÚNDIO -- Frei Betto
Eram 7h30 da manhã de 12 de fevereiro de 2005. Irmã Dorothy Stang, religiosa estadunidense naturalizada brasileira, 73, se dirigia à área do Projeto Esperança de Desenvolvimento Sustentável, em Anapu (PA).
O rapaz não se intimidou. A recompensa pelo crime importava mais que a vida da missionária que defendia pequenos agricultores, posseiros e sem-terras. Sacou a arma e descarregou nela sete tiros, sendo um na cabeça.
Rayfran, condenado a 27 anos de prisão, teve como mandante o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, condenado, em 2013, a 30 anos. Passou por três julgamentos. O primeiro, em
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Brasil/MASSACRE ANUNCIADO: MAIS DE 1.300 FAMÍLIAS AMEAÇADAS DE DESPEJO EM BH
14 julho 2010/ADITAL http://www.adital.com.br
Adital - 1.159 famílias de sem-teto e sem-terra, em Belo Horizonte, resolveram "por o pé no barranco" e ocupar terrenos abandonados que não cumpriam a função social. São as Ocupações-comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy. O poder judiciário tem sido insensível à causa dos sem-teto e sem-terra. Ameaçados de despejo, o povo dessas três ocupações não arredam o pé e se dizem determinados a resistir a ações de despejos.
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro, irmã religiosa da Congregação das Filhas de Jesus, advogada, membro da Rede Nacional de Advogados Populares - RENAP - e da Comissão Pastoral da Terra - CPT, acompanha as Ocupações-comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy, foi entrevistada por Gilvander Moreira.
Gilvander Moreira é frei Carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA) em Belo Horizonte e no Seminário Maior de Mariana; assessor da Comissão Pastoral da Terra - CPT -, do CEBI, SAB e Via Campesina. A IHU On-Line agradece a entrevista.
Confira a entrevista.
O que, onde estão e como se formaram as Ocupações-comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy?
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro: Estas três ocupações-comunidades estão em Belo Horizonte, MG. Com 887 famílias, a Comunidade Dandara está situada no bairro Céu Azul, região da Nova Pampulha, na capital mineira. Com 142 famílias, a Comunidade Camilo Torres está localizada na Av. Perimetral, 450, Vila Santa Rita, bairro Jatobá, no Barreiro, Belo Horizonte. Ao lado, com 120 famílias, está a comunidade Irmã Dorothy. Mais de 160 famílias que resistem há 15 anos nas Torres Gêmeas (dois prédios situados no bairro Santa Teresa, BH) estão também ameaçadas de despejo.
O nome da Comunidade Dandara foi escolhido pela organização da ocupação em homenagem à companheira de Zumbi do Palmares, grande estrategista das lutas em prol da libertação do povo negro e em homenagem a todas as mulheres, companheiras na luta pelo direito à moradia.
A comunidade Dandara é fruto de uma ocupação urbana. Desde 09 de abril de 2009, 887 famílias, sem-casa e sem-terra resistem na Comunidade Dandara. Ocuparam cerca de 400 mil metros quadrados de um terreno completamente abandonado e que há 40 anos não cumpria o princípio sagrado da função social da propriedade, como determina a atual Constituição Federal do Brasil. A ocupação foi realizada inicialmente com 150 famílias, mas com cinco dias já ultrapassava mil. Inicialmente, foi organizada pelo Fórum de Moradia do Barreiro, Brigadas Populares e MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O terreno tem 40 hectares e estava abandonado desde a década de 70, além de acumular dívidas de impostos na casa de 18 milhões de reais."
Como está a situação jurídica dessas comunidades?
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro: No dia 09 de junho de 2009, o desembargador Tarcísio José Martins Costa, da 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, cancelou a decisão de outro desembargador que tinha suspendido uma Liminar de reintegração de posse e reabilitou a Liminar de reintegração de posse em nome da construtora Modelo, autorizando assim que a Polícia fizesse o despejo das mais de quatro mil pessoas pobres que vivem na comunidade Dandara".
Um pedido liminar em um Mandado de Segurança impetrado no Tribunal de Justiça de Minas Gerais concedeu a segurança, provisoriamente, à Comunidade Dandara que em aproximadamente um ano organizou-se, fortaleceu-se como comunidade e construiu aproximadamente 95% das casas no terreno, devidamente loteado respeitando um projeto urbanístico, a legislação ambiental e todos os critérios necessários à formação de um bairro em uma cidade-capital.
Dia 09 de junho passado (2010), a Corte Superior do Tribunal de Justiça de Minas Gerais julgou o Mandado de Segurança interposto pelos moradores da Comunidade Dandara e determinou a saída das famílias do local. Sendo assim, após a publicação da decisão, passa a valer, juridicamente, a ordem de despejo dada pelo juiz Bruno Terra Dias, da 20ª Vara Cível de Belo Horizonte, que em abril do ano passado deferiu pedido liminar da Construtora Modelo, concedendo reintegração de posse embora a posse não fosse comprovada.
A Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais ajuizou uma Ação Civil Pública com pedido liminar e cuja liminar foi concedida em favor da Comunidade Dandara assegurando o direito à moradia das famílias que vivem no local. Contudo, esta ação está suspensa até o julgamento final de um recurso que foi interposto pela Construtora Modelo.
A última decisão acima referida, julgamento do Mandado de Segurança, autoriza o despejo das famílias, mas a Comunidade Dandara está mobilizada e acredita que não se trata da perda da causa dignamente por ela assumida.
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais acatou dia 05 de novembro de 2009, o recurso da Empresa Vitor Pneus para ordenar o despejo da Comunidade Camilo Torres. Mais uma equivocada decisão judicial que não considera a necessidade de compreender o sistema jurídico como integral e coerente. Não há opção possível em garantir a propriedade e negar a dignidade humana. A decisão marca uma opção que o sistema jurídico não permite: a especulação imobiliária em prejuízo da função social da propriedade e do direito à moradia.
O terreno da comunidade Camilo Torres pertencia ao Estado de Minas Gerais - CODEMIG - e foi transferido a uma pessoa física, dono de uma empresa, em 1992, por um preço 10 vezes inferior ao valor venal do imóvel. Além disso, a venda do terreno foi condicionada, em escritura pública, à realização de empreendimentos industriais na área para geração de empregos, o que jamais foi feito. Uma decisão de primeira instância reconheceu a inexistência de posse reconhecendo o direito das famílias sem-casa que ocupam a área abandonada. Foi uma importante vitória da justiça constitucional. Entretanto, a decisão foi cassada pelo Tribunal.
Em abril de 2010, a Empresa Tram Locação de Equipamentos Ltda. e outros particulares ingressaram com uma Ação de Reintegração de Posse em desfavor das famílias da comunidade Irmã Dorothy que estão em área, que, originariamente, pertencia ao Distrito Industrial de Minas Gerais. Esta área foi repassada para uma empresa de São João Nepomuceno, com o objetivo de instalar um empreendimento industrial, em vinte meses. Decorridos apenas cinco meses, a mesma empresa repassou o imóvel, como dação em pagamento, para o Banco Rural. Hoje o proprietário é o Banco Rural, com a anuência da CODEMIG. O compromisso de se construir um empreendimento industrial foi completamente esquecido. Posteriormente, o Banco Rural prometeu vender o imóvel para a Empresa Tram e outras pessoas. Assim como Dandara e Camilo Torres, a comunidade Irmã Dorothy está com mandado de despejo já ordenado.
Fica reconhecido que o Tribunal de Justiça de Minas Gerais não fez uma interpretação sistêmica dos direitos sociais fundamentais correlacionados com os princípios constitucionais envolvidos no caso Dandara. Não se levou em conta o sagrado princípio da dignidade da pessoa humana, da função social da propriedade, o princípio republicano da diminuição das desigualdades sociais, dentre outros que se pode destacar, quando se trata de uma questão social de grande relevância como é o caso da falta de moradia em Belo Horizonte e no Brasil.
Considerando o equívoco das decisões jurídicas, as famílias estão determinadas a resistir a um iminente despejo. "Morreremos na luta, mas não sairemos, porque é justo continuarmos aqui e também porque não temos para onde ir. Cadê o respeito aos nossos direitos?", indaga o povo dandarense.
Qual é o cenário das políticas públicas para habitação popular em Belo Horizonte?
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro: Segundo informações, a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte - PBH - assumiu compromisso de construir apenas 300 (trezentas) moradias populares por ano. Utilizando como base os dados da própria prefeitura que afirma existirem atualmente em Belo Horizonte aproximadamente 13.000 (treze mil) famílias cadastradas, em 175 (cento e setenta e cinco) núcleos de espera por moradia. Podemos concluir, portanto, que se formos aguardar o ritmo que a PBH impõe a esta "fila" levaria mais de 44 (quarenta e quatro) anos para chegarmos à tão sonhada "Casa Própria", isto sem falar dos 177.000 (cento e setenta e sete mil) cadastrados do "Minha casa, minha vida".
Outro dado que merece relevância é o número de imóveis na Capital que estão sem cumprir o princípio da função social da propriedade. Segundo dados do IBGE e da Fundação João Pinheiro, em Belo Horizonte hoje existem aproximadamente 75.000 (setenta e cinco mil) imóveis ociosos entre terrenos e edificações, contra um déficit habitacional de 55.000 (cinquenta e cinco mil) famílias sem casa. Através destes dados é possível ver que a falta de moradia na capital mineira também é fruto do não comprometimento do poder público em regulamentar e aplicar os instrumentos do "Estatuto das Cidades" a fim de desapropriar áreas e edificações para construção de moradia popular, demanda emergente e necessária na Capital que tem um belo horizonte.
Quais as principais conquistas das três comunidades?
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro: São muitas as conquistas. A comunidade Camilo Torres resiste há 2,6 anos. A Dandara, há 1,2 ano. E Irmã Dorothy, há três meses. Além da construção das casas, de um espaço onde as pessoas possam morar e dormir de forma sossegada com suas famílias, plantarem hortaliças no quintal, saírem da tortura do aluguel ou das áreas de risco e até mesmo das ruas (temos também nessas três comunidades antigos moradores/as de rua), podemos afirmar, como um dia destacou uma das lideranças, que nessas Comunidades se constrói também pessoas. Pessoas autônomas, protagonistas de seu processo de libertação da opressão e que não mais estão na luta por uma causa individual, mas por uma causa coletiva como a construção de uma cidade onde caibam todas as pessoas e onde a dignidade humana e planetária seja respeitada.
Pessoas que viviam à base de remédios, depressivas, ameaçadas pelo sufoco do aluguel, famílias que, por colocar todo o dinheiro do final do mês no aluguel, não podiam comprar o alimento para os filhos, hoje respiram mais aliviadas, e na luta redescobriram o sentido da vida. "Aqui na Dandara, eu me curei. Não sou mais aquela velha acabada. Nasci de novo. Aqui temos alegria de viver", afirma feliz da vida dona Maria.
A Comunidade Dandara recebe apoio de estudantes de arquitetura da PUC Minas e toda a área foi devidamente loteada respeitando o projeto urbanístico, as leis ambientais e hoje conta com ruas e avenidas todas batizadas com nomes de pessoas que marcaram a história do Brasil e da Humanidade com a luta pelos direitos humanos. Av. Dandara, rua dos sem terra, rua Zilda Arns, rua Zumbi, rua dos Quilombos, rua Paulo Freire, rua Milton Santos etc.
Na área estão sendo construídos espaços coletivos como um Centro Comunitário, hortas comunitárias, espaço de lazer, assim como estão reservados espaços para Posto de Saúde e Escola.
Atualmente, em uma das salas do centro comunitário da Comunidade Dandara funciona a escola financiada e acompanhada pelo projeto MOVA Brasil, cuja educadora é uma coordenadora e moradora da comunidade. Na Comunidade Camilo Torres também funciona a escola para adultos através do projeto PET - Programa de Educação dos Trabalhadores.
As três comunidades contam com uma grande rede de apoio, inclusive internacional, pessoas das mais diferentes áreas e instituições de renome em Belo Horizonte e no Brasil que têm contribuído com a construção dessas Comunidades. Recentemente, uma instituição ligada à ONU (UNANIMA) manifestou apoio às ocupações na capital mineira e deixou espaço reservado a qualquer denúncia sobre desrespeito aos direitos humanos.
O método de trabalho com o povo visa sempre a promoção e a emancipação das pessoas moradoras da comunidade e hoje já se tem um grande número de lideranças internas que atuam de cabeça erguida e consciente dos seus direitos e dos instrumentos legais que podem utilizar-se para reivindicar tais direitos.
Como estão organizadas as comunidades Dandara,
Camilo Torres e Irmã Dorothy?
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro: A Comunidade Dandara está dividida em nove grandes grupos e cada grupo tem dois ou três coordenadores/as, além dos apoiadores que são dos movimentos sociais, religiosos/as, dentre outros. Durante a semana cada grupo se reúne para organizar-se, planejar as tarefas e partilhar a vida. Uma vez por semana toda a Ocupação se reúne em uma grande assembleia onde se oferece os informes e se discute as urgências e prioridades. O grupo de coordenadores/as se reúne duas vezes por semana além dos encontros de formação. A Comunidade conta com um Coletivo de Saúde e outro Coletivo de Educação, cuja ação principal tem sido junto às secretarias municipais de saúde e de educação na tentativa de garantir estes fundamentais direitos à população. Também atua na Comunidade a Pastoral de Criança atendendo mais de 70 crianças.
Essas comunidades têm apoio na sociedade?
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro: Uma expressiva rede de apoio tem contribuído muito na caminhada dessas três comunidades. Tem sido grande a presença de estudantes de diversas universidades públicas e privadas do Estado de Minas Gerais e do Brasil na Comunidade Dandara. Muitos projetos vêm sendo desenvolvidos junto ao povo. Outro dado importante nesta linha é o espaço de pesquisa para os estudantes que Dandara tem sido. Já são muitas as monografias de final de cursos defendidas e muitas outras pesquisas que confirmam a legitimidade da luta da Comunidade Dandara.
Também grandes doutrinadores como o professor José Luiz Quadros de Magalhães, por duas vezes já publicou artigos defendo a Comunidade Dandara como "um direito constitucional". Neste sentido, escreveu o professor:
"Pensemos, pois, em termos constitucionais: A propriedade há quase cem anos deixou de ser a base do direito constitucional; Logo, não podemos, jamais, em nome da propriedade, ameaçar a vida de quem quer que seja; Logo não pode a polícia, órgão constitucional de proteção do direito humano à segurança, ser usada para agir contra a segurança das pessoas pondo em risco a integridade e a vida das pessoas. A vida digna e livre é fundamento de toda ordem constitucional democrática atual; Podemos acrescentar ainda que ninguém está obrigado a cumprir ordens ilegais e inconstitucionais e que os responsáveis por estas ordens devem ser responsabilizados; Finalmente: qualquer ordem judicial não pode jamais escolher entre um outro direito fundamental se todos os direitos envolvidos puderem ser preservados diante do caso concreto; Em caso de escolha não há como se afastar o alicerce do direito constitucional democrático que é a vida com dignidade em nome da propriedade, ainda mais de uma propriedade não utilizada; Não há no caso das ocupações Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy nenhuma justificativa para se comprometer a VIDA de milhares pessoas em nome de um direito de propriedade que jamais cumpriu sua função social que, portanto, não existe mais".
A finalidade de nosso ordenamento legal constitucional é a liberdade com dignidade e segurança de todas as pessoas e não apenas dos proprietários ricos como foi nos séculos XVIII e XIX e boa parte do século XX. Romper com uma matriz superada teoricamente e superada na prática pelas transformações sociais, mas que ainda habita alguns discursos jurídicos, é fundamental para que finalmente sejamos capazes de construir no Brasil uma verdadeira ordem republicana fundada na igualdade perante a lei e no respeito à Constituição e logo aos direitos fundamentais de todas as pessoas iguais. Isto é a República que ainda estamos por conquistar: um espaço constitucional de respeito à vida, à dignidade e a segurança com igualdade de direitos sem privilégios relativos à origem ou posição social e econômica; cargo ou função; cor, sobrenome, etnia, gênero ou opção sexual, ou qualquer outra diferença que as sociedades historicamente produziram ou venham a produzir.""
Quais são os maiores desafios hoje?
Maria do Rosário de Oliveira Carneiro: As Comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy contribuem muito para o nosso processo de humanização. Não basta estar escrito em nossos ordenamentos jurídicos leis humanas, princípios humanos de defesa da vida. Nós precisamos nos humanizar também para podermos interpretar as leis.
Essas três comunidades têm ensinado muito aos gestores públicos na medida em que reivindicam direitos sociais e apontam alternativas para combater as injustiças sociais como propostas de políticas públicas para moradia popular que atendam um maior número de pessoas; tem ensinado o poder judiciário a interpretar as leis na ótica em que afirma o professor José Luiz Quadros de Magalhães: "Os ordenamentos constitucionais democráticos que se constroem hoje no mundo, incluindo a nossa Constituição de 1988 trazem um sistema coerente de normas jurídicas que se fundamentam nos direitos humanos constitucionais entre eles os direitos sociais ao trabalho, justa remuneração, saúde, moradia, educação, função social da propriedade rural e urbana, liberdade, igualdade jurídica, democracia popular, entre outros".
Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy vêm gritando isso de muitas maneiras, mas o grande desafio é ser ouvida, porque o diálogo em nosso país, sobretudo quando se trata do diálogo com as "minorias" (que são maiorias), fica travado e se prefere a via da repressão e da indiferença que tortura. Contudo, segue-se a luta e a organização popular. Este é o instrumento de maior força que a comunidade possui, porque a experiência vem dizendo que na medida em que se fortalece a luta empodera-se o povo e efetiva-se a soberania popular.
Chamamos todos e todas que se solidarizam com essa bandeira a fortalecer a luta das Ocupações (no campo e na cidade) na sociedade e a denunciar a posição de uma Justiça que ignora a realidade popular, o direito dos pobres!
O povo das Comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy que não tem para onde ir, permanece na posse dos terrenos que estavam abandonado há 40 anos e está disposto a resistir mesmo sabendo que isso pode causar um massacre em plena capital mineira. Resiste porque tem a clara convicção da legalidade e legitimidade de sua luta digna e por dignidade.
Para ler mais:
www.ocupacaodandara.blogspot.com
A entrevista, abaixo, está publicada no seguinte sítio na internet:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_entrevistas&Itemid=29&task=entrevista&id=34151
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil
Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br
-----------------LER TAMBEM
Brasil/ASSENTAMENTO RESISTÊNCIA (DO MST), UMA EXPERIÊNCIA QUE SINALIZA VALER A PENA LUTAR E RESISTIR
Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (ADITAL)
14 julho 2010/ADITAL http://www.adital.com.br
Frei Gilvander Luiz Moreira *
Adital - Dia 03 de julho de 2010, visitamos a comunidade do Assentamento Resistência, em Funilândia, perto de Sete Lagoas, MG. Lá celebramos com o povo. São vinte famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que conquistaram 333,3 hectares de terra, que era da Santa Casa de Belo Horizonte.
Na sede da fazenda permanecem os casarões onde existiu um convento de freiras, uma pequena capela que hoje é utilizada pelo pessoal da comunidade.
Os casarões abandonados, hoje, abrigam as vinte famílias que ocuparam os espaços há dez anos atrás. Eis um verdadeiro sinal de partilha, próprio dos pobres.
A área era mais um latifúndio que estava abandonado, sem cumprir sua função social. O MST indicou e alertou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) para que avaliasse a terra e fizesse valer o princípio da função social da propriedade. As vinte famílias que ocuparam a área estavam sendo despejadas de uma outra ocupação no município de Esmeralda, MG.
Após dez anos de luta, as famílias tiveram suas terras demarcadas e legalizadas, 12 hectares para cada família e já estão terminando de construir suas casas de 42 metros quadrados: 2 quartos, cozinha, sala e banheiro. Bonito perceber a alegria de um sonho realizado, mas por outro lado, triste constatar que em nosso país, um direito fundamental como é o da moradia tem que passar por um processo de muita luta e sofrimento para ser alcançado quando se trata dos pobres. Encontramos, por exemplo, com o Sr. Miguel, uma das lideranças do assentamento, que feliz nos apresentou sua casa. Em breve, haverá festa e celebração para inauguração das 20 casas.
O INCRA liberou R$9.700,00 para a construção de cada casa. Em mutirão todas as casas estão sendo construídas. "Os homens se reúnem para construir as casas. Quando termina a de um companheiro, começa a do outro. As mulheres, em mutirão, preparam o almoço. Assim todos se ajudam." A esperança da comunidade é que chegue a energia, através do Programa "Luz para todos".
A Comunidade Resistência, através do projeto MOVA Brasil, tem Educação para Jovens e Adultos (EJA) que ajuda na alfabetização e formação do povo. As crianças e adolescentes estudam na escola do distrito Núcleo João Pinheiro.
Bonito perceber o espírito e a fé das pessoas que encontram na luta e na organização popular alternativas para superarem as dificuldades pessoais e comunitárias.
Dona Manuelina, feliz da vida, conta sua história dizendo que veio para a comunidade, sozinha, sem a família de sangue. Ao se instalar no Assentamento Resistência, comprou dois leitões que já se transformaram em cinco vaquinhas. Hoje, vive com um filho que veio com a família morar com ela.
A comunidade-assentamento Resistência sinaliza que vale a pena lutar e que a luta não pode acabar simplesmente por haver conquistado um lugar. Enquanto no mundo existir um sinal de injustiça social lutar é preciso. Lutar de forma organizada, com fé no Deus da vida, no pequeno e em si mesmo, sem perder a esperança. Resistência sinaliza que vale a pena resistir.
O Assentamento Resistência possui 80 hectares de reserva ambiental preservado pelas 20 famílias que ali vivem. Outro dado bonito é a abertura da comunidade para acolher mais cinco famílias encaminhadas pelo MST, porque não tinham onde morar. Grandes lideranças foram formadas pela luta nestes 10 anos de vida do assentamento-comunidade Resistência. As famílias, além da terra para morar, conquistaram o direito de lutar, de resistir, de se construírem com a dignidade que lhes são de direito.
Contam que quando chegaram ao local, há dez anos atrás, receberam uma forte repressão militar e de muitas maneiras tentaram expulsá-las. Hoje, capinam suas roças, cavam as minas que há quatro metros brotam águas cristalinas, constroem suas casas, vê suas crianças brincarem nos terreiros e seus animais pastarem.
Belo Horizonte, 13/07/2010.
* Paróquia N. Sra do Carmo
quinta-feira, 5 de março de 2009
Brasil/IRMÃ DOROTHY: MÁRTIR, PROFETA, MÍSTICA E SANTA PROCLAMADA PELO POVO
Por Moisés Sbardelotto
[ADITAL] Agencia de Información Fray Tito para América Latina
2 março 2009/Adital http://www.adital.com.br
Relembrando alguns episódios de sua infância com a Irmã e sua irmã Dorothy, David Stang, em entrevista exclusiva por e-mail à página IHU On-Line, testemunha toda a admiração pela vida e pela entrega de Dorothy, derramando seu sangue "que corre nas terras brasileiras que ela tanto amou, levantando-se em nome dos que não têm direito e em nome da Floresta Amazônica".
Ex-missionário católico no Quênia e na Tanzânia, e hoje residente no Colorado, EUA, David Stang critica ainda a justiça e alguns setores da imprensa brasileira, por seu preconceito em retratar sua irmã como uma revolucionária e traficante de armas, uma "agente norte-americana" - sem levar em consideração a sua cidadania brasileira e o seu trabalho de mais de 30 anos no Brasil - e por insultar a sua fé católica e "a bela e simples cruz católica que ela sempre trazia ao redor de seu pescoço". E afirma que a família Stang ainda luta para que o caso seja federalizado.
Mas muito além dos limites da justiça terrena, David Stang relata a sua esperança naquilo que sua irmã, com o seu martírio, plantou na sociedade e na Igreja brasileiras. "Nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades", afirma. "Ambos sentíamos o Espírito Santo dentro de nós e o Reino de Deus em nossos corações. Com a grandeza de Deus dentro de nós, não tínhamos por que ter medo".
E é daí que surge a sua convicção em afirmar que sua Irmã Dorothy o "encorajou a estar vivo" e a dizer, sem hesitar, que Dorothy é uma mártir, uma profeta, uma mística e uma santa, tão proclamada pelo povo.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Quatro anos depois do assassinato da Irmã Dorothy, como é possível avaliar o legado que ela deixou com relação à defesa da ecologia e dos direitos humanos?
"Dorothy me encorajou a ver a terra em que vivemos como algo vivo e não apenas uma coisa morta. O martírio de Dorothy me encorajou a estar vivo"
David Stang - Os dois Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS) são legados de Dorothy. Esses PDSs estão vivos e saudáveis na área de Anapu. Seus agricultores estão plantando, colhendo e vendendo sua produção contra as ameaças dos fazendeiros e dos madeireiros ilegais locais. O Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] está trabalhando melhor com esses PDSs e começando a proteger esses programas federais.
Quando Dorothy foi assassinada, havia 35 grupos de fazendeiros que queriam trabalhar a terra de uma maneira sustentável, isto é, 80% de floresta para 20% de fazendas. Agora, há 70 grupos de agricultores que se uniram. Esses 70 grupos são independentes dos PDSs. Obviamente, esses agricultores estão se levantando contra muitos fazendeiros, madeireiros e pistoleiros que roubam ilegalmente a floresta.
Eu acredito que o martírio dessa senhora de 73 anos deu coragem a milhares de agricultores na área de Anapu, para cultivar, proteger e conservar a Amazônia, contra a influência poderosa dos madeireiros e fazendeiros que querem queimar, destruir e transformar a região em uma terra de fazendas, sendo que mais e mais cientistas afirmam que essa transformação não tem mais volta.
Em novembro de 2008, Regivaldo [Pereira] [fazendeiro acusado de pagar pelo crime] foi a um encontro em Anapu convocado pelo Incra e declarou que o Lote 55 era dele. Ele não apenas foi desmentido quanto a essa petição, mas foi também preso depois por apropriar-se ilegalmente dessa terra, especialmente desde que fora libertado da prisão, afirmando que não tinha interesse no Lote 55.
Tivemos quatro júris públicos nos quais conseguimos que Clodoaldo [Batista], Rayfran [Sales] e Tato [Amair Feijoli da Cunha] fossem sentenciados a vários anos de prisão. Também conseguimos que Bida [Vitalmiro Bastos de Moura] e Regivaldo ficassem presos por um tempo. Esses julgamentos públicos tiveram enorme publicidade, mas as pessoas foram educadas à falta de justiça para com os pobres no Estado do Pará. Apelamos por um novo julgamento de Bida e estamos pedindo um julgamento para Regivaldo. Esses julgamentos realmente dão esperança para os pobres e certamente estão provocando uma maior consciência da necessidade de um sistema judiciário honesto. Depois do novo julgamento de Bida, ele foi libertado com base em mentiras. Essa impunidade foi tão descarada que até o Presidente do Brasil declarou publicamente que o julgamento de Bida foi uma paródia. A governadora do Estado do Pará, Ana Julia Carepa, também declarou que o julgamento foi uma paródia.
"Dorothy é uma mártir, uma profeta, uma mística, por causa de sua relação próxima com Deus e com a sua grande terra. E uma santa, tão proclamada pelo povo"
Há um documentário sobre Dorothy, "Mataram Irmã Dorothy" [assista o trailer do filme aqui], que foi exibido no Rio de Janeiro, em São Paulo, Brasília e em Belém, no Fórum Social Mundial de 2009, antes da Assembléia Geral [da Comissão Pastoral da Terra] em Brasília, nos dias 12 e 17 de fevereiro em Anapu. Esse filme está aumentando as esperanças e a consciência pela justiça em milhões de brasileiros.
Há também dois livros, "Mártir da Amazônia" (Paulus Editora, 2008), de Roseanne Murphy, e "A dádiva maior" (Editora Globo, 2008), de Binka Le Breton, escritos sobre Dorothy, ambos publicados em português.
Há novas escolas, parques melhorados e centros comunitários no Brasil que receberam o nome de Dorothy. A enorme quantidade de jornais, rádios e TVs brasileiras que cobriram o trabalho de Dorothy deu mais consciência às pessoas para se colocarem de pé por si mesmas.
Milhões de acres da Floresta Amazônica foram declarados terra pública e de preservação desde o assassinato de Dorothy. Um cientista me contou que isso nunca teria acontecido sem o clamor público em torno à sua morte.
IHU On-Line - Poderia nos contar um pouco sobre a sua relação com sua irmã Dorothy? Quais são as suas lembranças mais valiosas dela e de sua relação fraterna com Dorothy?
David Stang - Dorothy era uma das minhas irmãs mais velhas que cuidou do meu irmão gêmeo e de mim. Ela brincava, jogava futebol, basquete e patinava no gelo com o meu irmão gêmeo e comigo.
Ela também tinha um grande amor pela terra. Então, o nosso vínculo começou quando nós éramos pequenos, seis e sete anos de idade, quando cuidávamos juntos do jardim orgânico do nosso pai ou íamos a uma fazenda próxima de casa para colher frutas e ganhar um pouco de dinheiro para ajudar o nosso pai a educar todos nós, nove irmãos, durante a Depressão. Dorothy era alguém com quem nos sentíamos seguros e com quem também gostávamos de estar. Era uma pessoa feliz, amorosa. Todos comíamos juntos no entardecer, lavávamos a louça juntos e rezávamos juntos antes de ir para a cama.
"Nós da família Stang fomos insultados quando o juiz permitiu que os advogados de defesa insultassem a fé católica de Dorothy, a sua cidadania brasileira, o seu trabalho de mais de 30 anos no Brasil"
Em dezembro de 2004, ela me telefonou e disse: "Por favor, venha para Belém para participar da entrega do Prêmio dos Direitos Humanos da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] que vou receber". Quando cheguei a Belém no dia 04 de dezembro, ela estava atrás de toda a multidão [no aeroporto], pulando para cima e para baixo com o seu sorriso enorme, dando-me as boas-vindas ao Brasil. Pude passar uma semana com ela, viajando de ônibus pela cidade de Belém e falando sobre nossas vidas.
Enquanto estive com ela, senadores, advogados, irmãs e amigos se encontraram com ela e avisaram-na que havia ameaças de morte contra ela. Essa viagem de dezembro, em retrospecto, foi uma grande celebração de despedida.
No dia 11 de fevereiro, ela me telefonou novamente, contando-me que gostaria de ir para Esperança [um dos PDSs na região de Anapu, onde Dorothy foi assassinada] para ajudar as 12 famílias de agricultores que tiveram suas casas e suas colheitas queimadas intencionalmente, pois não tinham para onde ir nem o que comer. Ela disse que estava levando comida, lençóis e até mesmo martelos e pregos para reconstruir, para dar-lhes apoio e esperança. Porém, ela me disse naquele momento: "Eu estou um pouco nervosa". Eu disse para ela: "Então não vá". E ela disse: "Eu não posso fugir do povo que eu amo". Ela me mandou um beijo pelo telefone e me deu tchau. Esse telefonema me traz muito boas lembranças.
É incrivelmente ingênuo e maldoso como os advogados de defesa puderam retratar a minha irmã como uma revolucionária, uma agente dos norte-americanos, e como o júri acreditou nisso. Se os pistoleiros tinham medo de Dorothy, por que eles ficaram e esperaram por ela no dia seguinte?
IHU On-Line - O senhor também tem uma grande história pessoal de missão e trabalho pelos direitos humanos. Pode nos contar um pouco a respeito disso? Como o seu trabalho e a luta de Dorothy em defesa do povo e do Reino de Deus estão conectados?
David Stang - Eu fui às missões na África pela primeira vez em 1964. Ela foi ao Brasil em 1967. Nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres e aqueles que tinham muito pouco, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades, tanto físicas quanto espirituais. Nós dois vínhamos de uma história de ter muito pouco e de acreditar fortemente nos direitos humanos, nos nossos próprios direitos de partilhar os bens de Deus que ele livremente deu a todo o ser humano, de acreditar nas palavras de Jesus, que dizem que devemos amar os nossos próximos como a nós mesmos. "Bem-aventurados os pobres porque deles é o Reino dos Céus". Essas palavras nos tocaram muito profundamente.
"O que eu posso dizer quando vejo Bida livre, mesmo quando menos de um ano antes ele havia sido sentenciado a 30 anos? O que eu posso dizer quando Regivaldo diz ser dono do Lote 55, onde minha irmã foi assassinada?"
Eu iniciei duas cooperativas entre os Wakuria do Quênia e da Tanzânia nos anos 60, com mais de cinco mil membros. Dorothy e eu geralmente conversávamos sobre como esse trabalho junto com as pessoas protegia os pobres da ganância e do poder dos ricos. Esse trabalho em conjunto ajuda as pessoas a entrar na grande economia do Brasil.
Durante 30 anos, eu também trabalhei no Colorado, nos Estados Unidos, como administrador de uma casa de saúde, cuidando de idosos, portadores do mal de Alzheimer, doentes mentais e pessoas com problemas de comportamento. Eu fui o Administrador do Ano duas vezes no Estado do Colorado.
Nós entendíamos que, por causa desse libertar as pessoas, seríamos odiados por muitos ricos e pelos poderosos, porque eles querem escravos e pessoas sem educação. Nós também sabemos que muitos ricos e os poderosos chamam os pobres de preguiçosos e de "vidas boas". Será que eles não se dão conta que sua ganância e sua opressão ajudam a causar o lado escuro da pobreza?
A primeira escola que Dorothy construiu junto com as pessoas foi demolida por alguns fazendeiros ricos, que forçaram a todos a cortar a mesma madeira com a qual eles construíram a escola e a colocá-la na carroceria de seus caminhões. A estação de rádio que Dorothy iniciou para que as pessoas pudessem ouvir as notícias foi destruída em uma noite. O PDS como o conhecemos foi e é odiado por muitos fazendeiros e madeireiros ainda hoje.
Essa pessoa Dorothy que teve tamanha energia, que deu a eles uma grande esperança durante 30 anos, foi assassinada intencionalmente. Tínhamos grande esperança de que a humanidade cresceria em beleza e consciência. Isso não pode acontecer se nos satisfizermos com a nossa vida pessoal de oração. Não ver a pobreza, o sofrimento e a desesperança dos pobres seria contra a nossa fé cristã, espiritual. Então, Dorothy teve um grande desejo de colocar seus braços ao redor do mal que existia e que criava tanta dor e desesperança, para educá-lo e transformá-lo. Obviamente, Dorothy queria dar a sua vida por esses ideais. Sobre esses princípios, Dorothy e eu tínhamos profundo respeito e amor recíprocos.
Dorothy e eu sentíamos a presença de Deus nas nossas atividades, e essa fé nos encorajou a fazer o nosso trabalho da melhor maneira. O fato de ela ter sido convidada para o Brasil em 2004 foi um grande presente para mim. Quando ela me ligou um dia antes de ser assassinada, sabendo que ela estava em uma jornada perigosa, foi o seu beijo de despedida para mim.
"Matar uma irmã católica de 73 anos em um país tão católico é um grande choque para muitos católicos em todo o mundo. Tudo afirma claramente que há impunidade e escravidão no Pará"
Ambos respeitávamos e compreendíamos o trabalho que estávamos fazendo para ajudar a humanidade e que esse amor e compaixão pelos outros é o sentido mais verdadeiro da Igreja Católica. Ambos sentíamos o Espírito Santo dentro de nós e o Reino de Deus em nossos corações. Com a grandeza de Deus dentro de nós, não tínhamos por que ter medo.
IHU On-Line - Como o senhor vê o reconhecimento e a repercussão do trabalho e da morte de Ir. Dorothy nos EUA e em outros países fora do Brasil? Recentemente, ela recebeu postumamente o Prêmio de Direitos Humanos das Nações Unidas, em razão de seus trabalhos na Região Amazônica.
David Stang - Dorothy recebeu diversos títulos Honoris Causa de diversas universidades nos EUA desde a sua morte. Ela recebeu um Congressional Award do Senado e do Congresso dos EUA. O governador do Colorado, Bill Ritter, declarou, por Proclamação Honorária, o dia 25 de setembro de 2008 como o Dia Dorothy Stang. O filme "Mataram Irmã Dorothy" ganhou muitos prêmios nos EUA. Como mencionei antes, há dois livros em inglês sobre a vida de Dorothy. As editoras Orbis Books e Random House me disseram que esses livros têm sido verdadeiros best-sellers.
Então, obviamente, muitas pessoas querem saber sobre ela nos EUA. Há também muitas publicações com artigos sobre a vida de Dorothy em inglês. Há também reportagens nas TVs e nas estações de rádio acompanhando os julgamentos em Belém. Houve quatro festivais de filmes no último mês nos EUA, em que a exibição do filme sobre Dorothy teve lotação de público. A HBO irá exibir pela primeira vez o filme sobre Dorothy no próximo mês em Dayton, Ohio, a cidade natal de Dorothy, e depois será exibido em todo o país.
Milhares de pessoas estão pedindo informações sobre Dorothy. Sua popularidade está crescendo imensamente aqui no país. Dorothy é vista como uma pessoa muito espiritualizada, uma mulher muito corajosa, mesmo com sua idade de 73 anos, que amava a Amazônia, os agricultores e os pobres, e a vida espiritual que ela escolheu lhe deu essa grande força. Eu também vejo minha irmã como uma grande brasileira, pela lei brasileira e pelo seu sangue que corre nas terras brasileiras que ela tanto amou, levantando-se em nome dos que não têm direito e em nome da Floresta Amazônica para que tivéssmos um futuro. Como ela sempre dizia, "Eu não posso fugir dos pobres ou dessa grande floresta".
"Essa falação na imprensa brasileira e nos julgamentos chamando Dorothy de 'norte-americana' mostra o preconceito em aceitar uma estrangeira como brasileira"
Dorothy recebeu um Prêmio de Direitos Humanos nas Nações Unidas na Assembléia Geral. Eu recebi o prêmio com a Irmã Joan Burke, das Irmãs de Notre Dame de Namur [congregação de Dorothy], em frente a toda a imprensa mundial. Minha única frustração é que os delegados da ONU do Brasil, que estavam presentes na cerimônia de premiação, nunca vieram me dar as mãos. Então, não sei o que ele pensam sobre essa grande brasileira que entregou sua vida pelo Brasil. Esse prêmio é entregue apenas a cada cinco anos. Eu acredito verdadeiramente que os oficiais brasileiros deveriam ficar orgulhosos por um dos seus ter recebido esse prêmio. Essa falação contínua na imprensa brasileira e nos julgamentos chamando-a de "norte-americana" mostra o preconceito de alguns em aceitar uma estrangeira, independentemente de quanto tempo ela morou ou trabalhou no Brasil, como brasileira.
Eu acho que muitas e muitas pessoas em todo o mundo veem que há corrupção e escravidão dos brasileiros no Estado do Pará. Mesmo se o presidente Lula diz que o último julgamento foi uma paródia, as pessoas pensam que essas são palavras sem nenhuma ação. Matar uma velha irmã católica de 73 anos, uma mulher desarmada, em um país tão católico, sem nenhuma justiça, é um grande choque para muitos católicos de todo o mundo. Os livros, os jornais, as emissoras de TV, as estações de rádio, o filme sobre Dorothy, tudo afirma claramente que há impunidade e escravidão no Pará. O presidente Bush foi uma vergonha nos EUA e para todo o mundo, e o assassinato dessa irmã católica brasileira de 73 anos é uma vergonha mundial para o Brasil.
IHU On-Line - Existem pesquisas e estudos ou institutos acadêmicos que analisam a vida e o compromisso da Irmã Dorothy com a natureza e com a questão dos direitos humanos nos EUA ou fora do Brasil?
David Stang - As Irmãs de Notre Dame de Namur são uma congregação mundial. Elas têm escolas e universidades em todo o mundo. Todas as suas escolas e universidades assumiram a causa de Dorothy. Existem programas de estudo sobre Dorothy, sobre ecologia, sobre a vida de Dorothy em todas as escolas. A senhora [Nancy] Pelosi, presidente da Câmara de Representantes dos EUA, foi a uma universidade de Notre Dame em Belmonte, na Califórnia, onde as Irmãs de Notre Dame dão aulas. Há muitas pessoas importantes nos EUA que foram educadas pelas Irmãs de Notre Dame de Namur. Essa tragédia do assassinato de Dorothy está se tornando muito conhecida no país e fora dele.
"Eu vejo minha irmã como uma grande brasileira, pela lei brasileira e pelo seu sangue que corre nas terras brasileiras que ela tanto amou, levantando-se em nome dos que não têm direito e em nome da Floresta Amazônica"
Estudantes de mestrado de uma universidade norte-americana também entregaram uma dissertação de mestrado sobre a vida de Dorothy em 2006. A Universidade de Dayton tem uma disciplina sobre Dorothy. A Universidade Notre Dame, em Belmonte, tem um programa inteiro sobre a vida de Dorothy. Muitos estudantes do Ensino Fundamental em todo o país estudam Dorothy em programas que são chamados de "A Rainforest Unit for Primary Grades". Os programas são distribuídos pelo Sister Dorothy Stang Educational Aids, um projeto das Irmãs de Notre Dame de Namur (dotedaids@sndden.org). As irmãs católicas em todo o país abraçaram a vida dessa grande mulher brasileira.
IHU On-Line - Qual a sua opinião sobre a postura do Judiciário e do Executivo brasileiros e como o senhor avalia o processo de julgamento dos assassinos da Irmã Dorothy?
David Stang - Eu estive no Brasil dez vezes desde o seu assassinato. Quatro anos se passaram, e Bida e Regivaldo, os fazendeiros que são acusados de pagar pelo seu assassinato, ainda estão livres. Um dos prisioneiros foi espancado violentamente para alertá-lo para não testemunhar durante um dos julgamentos. Outro prisioneiro afirmou claramente que os ricos e os poderosos não vão para a cadeia. Tato, Clodoaldo e Rayfran modificaram seus testemunhos muitas vezes ao longo desses julgamentos. O filme "Mataram Irmã Dorothy" mostra claramente a falta de justiça no Estado do Pará.
Os advogados de defesa mentiram e tentaram retratar a minha irmã como uma revolucionária, que vendia armas. Dorothy era muito conhecida pelos oficiais do governo, pela Polícia Federal, pela polícia estatal e assim por diante. Nunca antes ela havia sido acusada, durante seus 39 anos no Brasil, flagrada ou provou-se o seu envolvimento com armas, exceto pelos falsos rumores dos fazendeiros e dos madeireiros.
Felício Pontes, um procurador federal do Estado do Pará, era um amigo próximo de Dorothy, assim como muitos outros oficiais do governo. Ele chamou essas acusações sobre a Irmã Dorothy, nos dois julgamentos de Bida, de falsas e sem mérito. A única vez em que ela foi acusada falsamente, disse o procurador federal Felício Pontes, a acusação foi montada pela polícia local corrupta e pelos fazendeiros.
O presidente Lula enviou os seus assessores ao funeral e houve muitos senadores e brasileiros famosos no enterro da minha irmã. Será que o presidente do Brasil, que comparou Dorothy a Chico Mendes, teria sido tão incentivador se tivesse qualquer dúvida de que ela era uma traficante de armas ou uma agente da América do Norte?
"Ambos sentíamos o Espírito Santo dentro de nós e o Reino de Deus em nossos corações. Com a grandeza de Deus dentro de nós, não tínhamos por que ter medo"
A imprensa sempre me perguntou se eu achava que haveria justiça, e eu sempre disse: "Dorothy amou o Brasil. Ela era uma brasileira e tinha uma grande esperança no Brasil". Eu ainda espero que haja justiça. Eu também amor o Brasil e vejo grandes promessas e muitas pessoas lutando pela causa de Dorothy. Eu encontrei muitos advogados brasileiros que estão aterrorizados e envergonhados pela falta de justiça no Pará.
O que se pode dizer quando a Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, afirma que há mais de 800 agricultores que foram assassinados no Pará e nenhum deles está preso por esses crimes? O que eu posso dizer quando vejo Bida livre, mesmo quando menos de um ano antes ele havia sido sentenciado a 30 anos? O que eu posso dizer quando Regivaldo participa de um encontro com o Incra em Anapu, em novembro do ano passado, e diz ser dono do Lote 55, onde minha irmã foi assassinada? Ele foi libertado da prisão com base em sua declaração de não ter interesse no Lote 55. O que eu posso dizer quando, depois de quatro anos, Regivaldo ainda não foi julgado? O que eu posso dizer quando, no julgamento do ano passado, o júri libertou Bida, e então, no tribunal, eu e muitos outros fomos cercados por tropas como se fôssemos perigosos? Por que Bida e sua família não foram cercados por policiais no antigo julgamento em que ele foi indiciado a 30 anos?
Nós, a família Stang, estamos novamente pedindo a federalização desse caso, pois fomos profundamente insultados no último julgamento, quando o juiz leu os resultados e libertou Bida, quando a defesa disse que os pistoleiros estavam com medo e mataram Dorothy em legítima defesa e que não havia provas de que os fazendeiros pagaram pelo seu assassinato. Nós da família Stang fomos insultados quando o juiz permitiu que os advogados de defesa insultassem a sua fé católica, a bela e simples cruz católica que ela sempre trazia ao redor de seu pescoço, a sua cidadania brasileira, o seu trabalho de mais de 30 anos com o governo brasileiro e a Igreja Católica.
IHU On-Line - Dadas as hesitações judiciais no caso Dorothy, qual é a perspectiva que se apresenta para os outros defensores dos direitos humanos do Brasil, como os três bispos e demais lideranças que receberam ameaças de morte?
"Não ver a pobreza, o sofrimento e a desesperança dos pobres seria contra a nossa fé cristã"
David Stang - É uma barbárie ameaçar qualquer pessoa de morte, e ainda mais bispos católicos que amam os pobres. Muitos católicos, porém, me disseram que estão perplexos por um país católico como o Brasil ter seus próprios bispos ameaçados. Esse terrorismo vai contra qualquer crença espiritual que tenhamos e talvez nos indique que o governo também é fraco para proteger o seu próprio povo.
Minha irmã Dorothy teve que sobreviver durante anos com ameaças de morte. Por quê? Bida e Regivaldo tem histórias públicas e bem conhecidas de posse ilegal de terras. Mesmo no primeiro julgamento de Bida, ele foi acusado pelo juiz de ser um criminoso. Será que o governo não sabe quem são essas pessoas que fazem essas ameaças de morte? Se há impunidade, o que claramente existe no Estado do Pará, por quê existe? Por que são permitidos a destruição das terras públicas e o assassinato de brasileiros?
IHU On-Line - O senhor ainda acredita no sonho da Irmã Dorothy no que se refere à Amazônia e ao seu povo?
David Stang - Os PDSs ainda estão indo muito bem, e muitos outros agricultores na área de Anapu estão se levantando contra os pistoleiros, os madeireiros ilegais e aqueles que se apossam das terras. Tivemos quatro julgamentos, e eu acredito que ainda haverá mais.
Os brasileiros amaram o filme "Mataram Irmã Dorothy". Eles sentem que o filme tem relação com eles e com o medo ao qual se referem como "impunidade", a falta de justiça no Estado do Pará. Assim como Dorothy dizia: "David, todos temos esperança na Amazônia". Muitas pessoas do governo, advogados, brasileiros me disseram: "David, não há justiça no Estado do Pará", e mesmo assim essas pessoas continuam a ser grandes cidadãos. Todos temos uma grande esperança. Quando os assassinos, aqueles que destroem o futuro do Brasil, serão detidos e julgados?
IHU On-Line - Como o senhor vive e experimenta a presença da Irmã Dorothy hoje? O que você faz e se sente impulsionado a fazer em sua memória?
"Nós dois tínhamos o desejo de ajudar os pobres e aqueles que tinham muito pouco, os desejos do Vaticano II de que abríssemos os nossos corações às pessoas e descobríssemos com elas as suas necessidades"
David Stang - Dorothy foi uma pessoa muito espiritualizada. Essa espiritualidade tocou muitos e muitos brasileiros, incluindo eu. Dorothy nos apresentou uma forma de vida humana, pessoal, compassiva. Ela demonstrou como os seus assassinos e muitas outras pessoas a viam como um objeto, assim como a terra, a ser subjugado e destruído por dinheiro.
Como é possível matar uma pessoa espiritualizada e não sentir remorso ou medo de que Deus não viu o que foi feito?
Dorothy acreditava que o divino está em todo o lugar, que Deus nos deu esta grande terra para ser compartilhada por todos nós. Dorothy é uma mártir, uma profeta, tão proclamada por Dom Erwin [Kräutler], uma mística, por causa de sua relação próxima com Deus e com a sua grande terra. E uma santa, tão proclamada pelo povo.
Eu converso com a minha irmã em minhas meditações, alguém a quem amei. Eu tenho 71 anos e sei que o meu tempo é limitado, e eu também quero estar diante de Deus no momento certo. Por que eu não quereria me encontrar com uma amiga de Deus como ela? Por que eu quereria entrar em contato com a mesquinharia, com a crueldade, com o mal, exceto para transformá-los em algo bonito? Ela me ajudou a olhar o meu estilo de vida e ver como eu sou amável com os outros, como eu vivo de maneira simples, para que outros possam viver e denunciar os violentos, os assassinos e aqueles que nos destroem e destroem a terra que nos dá vida.
Ela me encorajou a ver os demais como pessoas, não como objetos, e a ver a terra em que vivemos como algo vivo e não apenas uma coisa morta. O martírio de Dorothy me encorajou a estar vivo e a ser uma pessoa melhor.
* Instituto Humanitas Unisinos
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil
Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Brasil/IRMÃ DOROTHY STANG RECEBE PRÊMIO PÓSTUMO DA ONU

1 dezembro 2008/Portal do MST http://www.mst.org.br
A missionária Dorothy Stang recebeu na semana passada, a título póstumo, o Prêmio de Direitos Humanos das Nações Unidas, por sua luta pelos direitos de comunidades da Amazônia e por justiça.
Dorothy foi morta por pistoleiros em 2005, aos 73 anos, com seis tiros nas costas, em Anapu, no Pará. A religiosa pertencia à Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, com sede no Estado de Ohio (EUA).
Além de Dorothy Stang, o prémio contemplou a ex-primeira-ministra do Paquistão Benazir Bhutto, assassinada em dezembro de 2007.
O prêmio é entregue em reconhecimento ao trabalho excepcional na área de direitos humanos e à contribuição para a promoção e protecção dos direitos e das liberdades fundamentais.
O presidente da Assembléia-geral da ONU, Miguel d'Escoto Brockmann, disse que as vencedoras representam um símbolo de persistência e valores na resistência às autoridades públicas e privadas responsáveis por violações aos direitos humanos.
http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=6086
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Brasil/Dom Erwin é homenageado com o prêmio Verde das Américas

Conselho Indigenista Missionário http://www.cimi.org.br
27/11/2008 - 14:12 - Informe nº. 844: Dom Erwin é homenageado com o prêmio Verde das Américas
Informe nº. 844
• Dom Erwin é homenageado com o prêmio Verde das Américas
• Cimi lança livro "Povos indígenas e a Constituinte (1987/88)"
***
DOM ERWIN É HOMENAGEADO COM O PRÊMIO VERDE DAS AMÉRICAS
O presidente do Cimi e bispo da Prelazia do Xingu (PA), Dom Erwin Kräutler, recebeu na manhã de hoje (27) o prêmio Verde das Américas, na categoria direitos humanos. Ele foi homenageado por sua atuação na defesa da Amazônia e dos povos que lá habitam, dentre eles os povos indígenas.
O prêmio foi entregue no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília, e, na ocasião, Marcos Terena, diretor do memorial, elogiou o trabalho de D. Erwin ao longo de todos esses anos em Altamira, no Pará. “Mesmo distantes acompanhamos a sua luta e as ameaças que vem sofrendo na defesa da Amazônia e dos povos indígenas”, destacou.
Tito, pajé do povo Xavante, presenteou D. Erwin com uma borduna e um cordão e falou na sua língua originária “esse é o reconhecimento dos próprios indígenas ao nosso guerreiro. Esses presentes são pra que continue a luta a favor dos povos indígenas, porque somos povos sofridos”. O pajé realizou ainda um ritual de proteção para “aumentar o espírito do guerreiro para que ele continue com a luta”.
Na platéia, secretários, assessores e coordenadores dos diversos regionais do Cimi prestigiaram a entrega do prêmio recebido por Dom Erwin das mãos de todos os presentes, de forma simbólica. Também prestigiaram o evento o secretário de Cultura do Distrito Federal, José Silvestre Gorgulho, o Cônsul da Áustria, Rainhard Kogler, o representante da Nunciatura Apostólica, Monsenhor Marco Sprizzi, entre outros políticos, religiosos e representantes de organizações sociais.
O bispo agradeceu a indicação e, em Kayapó, retribuiu a homenagem do pajé Xavante “eu devoto a minha vida aos povos indígenas”, disse. Ele denunciou a situação de violência em que se encontram muitos povos e destacou a situação no Mato Grosso do Sul, além dos casos de Raposa Serra do Sol e dos Pataxó Hã-hã-hãe que esperam decisão do Supremo Tribunal Federal.
Lembrou os assassinatos de irmã Dorothy Stang, Ademir Alfeu Federicci (Dema), Mozeni Truká e Marçal Guarani, cujos assassinos continuam impunes. Dom Erwin dedicou o prêmio àqueles que constituem a razão de sua luta, os povos indígenas, “pois são eles os responsáveis por conservar verde as selvas deste continente”.
***
CIMI LANÇA LIVRO “POVOS INDÍGENAS E A CONSTITUINTE (1987/88)”
Hoje, 27 de novembro, o Cimi lança o livro “Povos Indígenas e a Constituinte – 1987-1988”. A publicação reúne documentos, fotos e histórias para registrar a intensa mobilização dos indígenas e de seus aliados para garantir os direitos dos povos na Carta Magna promulgada há 20 anos. O lançamento acontece no SESC Ceilândia (DF), como parte das atividades do Seminário ”Constituição 20 anos: Estado, democracia e participação popular”.
O evento acontece entre hoje (27) e amanhã (28), no auditório Nereu Ramos, na Câmara dos Deputados, em Brasília. O livro será apresentado ao público durante a exposição sobre a Constituinte, organizada pela Câmara, que será inaugurada no SESC Ceilândia.
A autora da publicação, a advogada Rosane Lacerda, era uma das assessoras jurídicas do Cimi durante a Constituinte. Ela destaca que “a participação dos povos indígenas na constituinte e os novos direitos conquistados marcaram a ruptura com um modelo de cinco séculos de dominação colonial.”.
Hoje pela manhã, na abertura do seminário, também foi exaltada a mobilização de diversos segmentos na Constituinte. Irma Passoni, ex-deputada constituinte, afirmou que a participação da sociedade civil organizada foi fundamental para a inscrição de diversos direitos na Constituição.
O deputado Adão Pretto (PT/RS), presidente da Comissão de Legislação Participativa da Câmara, reforçou a opinião de Passoni e ressaltou que muitos direitos constitucionais, como o acesso à terra, só são efetivados por pressão dos movimentos sociais. Pretto também lembrou que ainda há grande articulação de setores conservadores para tentar derrubar direitos constitucionais, por exemplo, dos povos indígenas e quilombolas. Ele acredita que se a Constituição fosse feita nos dias de hoje ela seria mais conservadora, no entanto, ela foi elaborada num momento de auge das lutas sociais.
O deputado Pedro Wilson (PT/MS) também esteve na mesa de abertura do evento que fez um balanço crítico da Constituição, avaliando seus avanços, mas também os limites do texto e a falta de efetivação de vários direitos.
À tarde, Nailton Muniz, do povo Pataxó Hã Hã Hãe, falará da participação indígena durante à Constituinte durante o painel sobre o protagonismo social no período. Ao fim do painel, às 18h30, os participantes seguirão para o SESC Ceilândia, onde ocorrerá a exposição e o lançamento do livro.
O Seminário foi organizado pela CLP e por diversos movimentos sociais e entidades.
(SESC - Ceilândia - QNN 27, lote B, Ceilândia Norte)
Brasília, 27 de novembro de 2008
Cimi - Conselho Indigenista Missionário
http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=3556&eid=274
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Brasil/CPT denuncia fraude em documentos de fazendeiro acusado pela morte de missionária
Agência Brasil http://www.agenciabrasil.gov.br
13 novembro 2008
Belém (PA) - Representantes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e religiosas da Congregação Notredame, que atuam no município de Anapu, onde foi assassinada a missionária americana Dorothy Stang, apresentaram hoje (13), em Belém (PA),novos documentos sobre o caso.
Segundo eles, os registros podem comprovar que o fazendeiro Regivaldo Pereira Galvão - acusado de ser um dos mandantes do crime - teria utilizado "laranjas" e fraudado documentação de posse do lote onde funciona o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Esperança - criado pela missionária.
De acordo com o agente pastoral da CPT Ronaldo Pantoja, Regivaldo tem fraudado comprovantes de compra e venda desse lote desde 2000.
“Queremos que a Polícia Federal e o Ministério Público investiguem esses documentos. Desde 2000, eles vêm fraudando documentos para fugir da Justiça”, afirmou Pantoja. “Uma hora ele diz que é dono, em outro momento ele nega ser dono”, completou o agente referindo-se ao fato de que Regivaldo alegou à Justiça que não tinha relação com o lote, por isso, não teria interesse na morte da missionária.
Já no último dia 28, em reunião realizada entre representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e agricultores, Regivaldo disse, segundo ata do encontro, que é dono do lote e possui documentos que comprovam a titularidade.
Hoje, as religiosas apresentaram novos documentos, descobertos durante a investigação policial, que contradizem as alegações do fazendeiro. Até o momento, o único documento de conhecimento público era de abril de 2004 no qual o fazendeiro Regivaldo repassava os 3 mil hectares por R$ 1,6 milhão para Viltamiro Bastos de Moura, o Bida - também acusado de ser mandante do assassinato da missionária.
Dois novos contratos, entretanto, apresentam um novo cenário com relação à posse do local. Em outubro de 2002, de acordo com os documentos, a área havia sido comprada por Valdivino Felipe Andrade Filho, funcionário do fazendeiro Regivaldo. Os cheques utilizados para o pagamento do terreno, entretanto, eram do fazendeiro.
Outro documento, datado de 28 de abril de 2004, aponta que Bida comprou metade da área - que estava em nome de Valdivino - por R$ 633 mil. O surgimento desse contrato mostra que Bida teria comprado o mesmo local duas vezes em um período de menos de um mês.
Com os documentos, as religiosas e a CPT querem reacender novamente a tese de que foi formado um “consórcio”, liderado por Regivaldo e Bida, para assassinar Dorothy.
“Apesar de todos os documentos constarem nos autos do processo, eles não foram analisados com o devido cuidado e atenção. Então queremos que as autoridades voltem a investigar”, disse a religiosa Julia Depwe, que veio para o Brasil há 30 anos com Dorothy Stang.
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/11/13/materia.2008-11-13.7259598040/view
Ler também
Procurador quer reabrir processo sobre assassinato
quarta-feira, 14 de maio de 2008
OFENSIVA CONSERVADORA
Conflitos por terra atentam contra direitos humanos no Brasil
Atentado contra indígenas, absolvição de mandante do assassinato de Dorothy Stang e humilhação e destruição de acampamentos de trabalhadores sem-terra sinalizam retomada de onda radical de violações de direitos humanos.
Ana Claudia Mielki, especial para a Carta Maior
Data: 9 maio 2008 http://www.cartamaior.com.br
SÃO PAULO – Essa semana o Brasil se chocou com a absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do assassinado da missionária Dorothy Stang em 2005. Dorothy era conhecida por seu trabalho em defesa da reforma agrária, pelo reflorestamento de áreas degradadas e pelo trabalho na minimização dos conflitos do campo no estado do Pará. A absolvição de Vitalmiro acontece na mesma semana em que indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol são atacados e baleados por capangas supostamente contratados por outro fazendeiro, Paulo César Quartieiro, desta vez do estado de Roraima. Quartieiro, que também é prefeito de Pacairama, foi preso pela Polícia Federal.
A absolvição de Vitalmiro contrariou as expectativas de organizações não-governamentais, movimentos sociais e representantes políticos que acreditavam na condenação. Bida havia sido condenado em primeiro julgamento realizado em maio de 2007 a uma pena de 30 anos, mas foi absolvido pelo júri no segundo julgamento realizado na última terça-feira, 6 de maio. O fazendeiro teve direito a novo júri porque a pena anterior ultrapassou os 20 anos.
A morosidade da Justiça em processar os responsáveis e ouvir as testemunhas foi preponderante para o desfecho do caso e para a construção da impunidade. É o que aponta Sandra Carvalho, da organização Justiça Global, uma das principais entidades de defesa dos direitos humanos no país. “Houve tempo para que os mandantes cooptassem os pistoleiros, oferecendo vantagens financeiras e também com advogados”. Só para se ter uma idéia, o pistoleiro Rayfran das Neves, o Fogoió, - condenado a 28 anos de prisão - mudou seu depoimento 14 vezes ao longo do processo.
Segundo acompanhamento feito pela Justiça Global, já há indícios suficientes que comprovam a existência de um “consórcio de fazendeiros para encomendar este tipo de crime”. Para Sandra, estamos vivendo “momentos difíceis em que há um acirramento dos conflitos por terras”, causado, sobretudo, por políticas econômicas voltadas ao fortalecimento do agronegócio e à morosidade da Justiça em fazer demarcação de terras para a reforma agrária e titulação de terras indígenas e quilombolas.
Defensores dos direitos humanos no Pará temem pela naturalização da violência ocasionada pela impunidade. O assassinato da irmã Dorothy não é um caso isolado de assassinato de trabalhadores sem-terra e defensores dos direitos humanos no país.
Segundo o relatório dos Conflitos no Campo do Brasil, promovido pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2007 foram mortas 28 pessoas em conflito por terra no país, em 2006 foram 39 mortes, sendo 24 somente no estado do Pará. De acordo com a CPT, existem hoje 75 pessoas (com nomes listados) sofrendo algum tipo de ameaça no estado. Além de trabalhadores rurais, a lista conta com lideranças sindicais e comunitárias e religiosos, como o caso do Padre Amaro, coordenador da CPT em Anapu, Dom Erwin Krautler e Frei Henri Roziers, esses dois últimos com proteção policial 24 horas.
Em Roraima, os conflitos se intensificaram com o atentado contra os indígenas ocorrido no dia 5 de maio. Nesta quinta-feira (08), foram suspensas as aulas em todas as escolas indígenas do estado. Os indígenas também realizaram protestos, com o trancamento da Rodovia BR- 318, principal via de escoamento de arroz e insumos. Eles alegam que o governo de Roraima usou argumentos falsos para conseguir a liminar no Supremo Tribunal Federal (STF) que suspendeu a Operação Upatakon 3, realizada pela Polícia Federal para retirar não-índios da reserva - incluindo arrozeiros proprietários de terras.
A liminar foi concedida sob a justificativa de que a reserva indígena, por se tratar de uma área continua em região de divisa com Venezuela e Guiana, poderia dificultar a fiscalização das fronteiras. De acordo com o líder indígena Jaci José de Souza Macuxi, do Conselho Indigenista de Roraima (CIR), a demarcação da reserva em área contínua não representa risco à soberania nacional. Para ele, a ação do governador José de Anchieta Júnior (PSDB) tem como objetivo beneficiar os grandes fazendeiros. A Terra Indígena Raposa Serra do Sol foi demarcada em 1998 e teve sua homologação assinada em 2005 pelo presidente Lula, mas apenas no início deste ano teve início a operação para retirar os não-indígenas. Atualmente, há 18.992 indígenas, de cinco povos, que vivem a região da Raposa Serra do Sol há mais de 4 mil anos.
De acordo com Darci Frigo, coordenador da Terra de Direitos, o Judiciário, nesse momento, “passa a ter um papel de novo de guardião dos interesses patrimonialistas”. “Me preocupam as declarações dadas recentemente pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, quando ele criticou a ocupação de prédios públicos por movimentos sociais”. Para Frigo, trata-se de uma tese conservadora, que aponta para os movimentos sociais, mas não diz nada sobre os verdadeiros invasores de terras indígenas, quilombolas, sobre os grileiros que invadem terras públicas, nem para os que utilizam trabalho escravo em suas fazendas. “O papel do Judiciário é conservador, reforça a desigualdade que existe no país, quando deveria ser o de um grande árbitro para garantir a igualdade e a justiça”, completa.
A violência não pára
Em janeiro deste ano a organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) divulgou relatório em que afirmava que a violência no Brasil tem migrado dos grandes centros urbanos para o interior dos estados. Cidades como Tailândia, no estado do Pará, e Colniza, em Mato Grosso, estão se tornando bastante violentas. A impunidade é a principal causa da violência no campo, observa o relatório.
Para Frigo, da Terra de Direitos, há também uma articulação nacional, pautada, sobretudo, por uma ofensiva da bancada ruralista no Congresso, para impedir a demarcação de terras tanto para a reforma agrária, quanto para povos originários. Aliado a isso, a escolha de um modelo econômico baseado no agronegócio tem contribuído para o aumento dos conflitos por terra, aponta Sandra, da Justiça Global.
Na quinta-feira, um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que fica na Fazenda São Paulo II, em São Gabriel (RS), foi invadido por cerca de 1.200 policiais da Brigada Militar. Cinco integrantes do movimento foram presos. Alguns acampados informaram que sofreram humilhação, tendo ficado por mais de 8 horas seminus, sem água ou alimentação. Durante a madrugada, no Paraná, uma milícia armada invadiu um acampamento do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), localizado na BR 369, entre os municípios de Cascavel e Corbélia, no estado do Paraná. Com uma espécie de “caveirão” – um caminhão com carroceria blindada com pequenas janelas de onde os pistoleiros atiravam –, eles destruíram a estrutura do acampamento, inclusive uma igreja e uma escola.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14983
segunda-feira, 12 de maio de 2008
BRASIL - O RISCO À AMAZÔNIA
Janete Capiberibe *
[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
Adital - A inocência dada ao fazendeiro acusado de mandar matar a religiosa Dorothy Stang, cujo assassinato aconteceu em 12 de fevereiro de 2005, deixa transparecer a tendência de criminalizar, punir e eliminar aquelas populações que ainda hoje carecem dos direitos básicos e seus defensores. O comportamento ignora os direitos do conjunto social.
Da mesma maneira, a morte da Irmã Dorothy e a inocência aos mandantes de crimes contra aqueles que defendem o Estado democrático de direito mostram a disposição de se manter, na região Amazônica, - a qualquer preço - um modelo de desenvolvimento destruidor e provocador de violência e injustiça social.
Irmã Dorothy Stang foi morta por defender as populações tradicionais da floresta - índios, quilombolas, coletores, ribeirinhos..., as levas de lavradores e pequenos proprietários de terra, os despossuídos, a justiça social e a democracia na ocupação das terras e no acesso às riquezas naturais, o respeito ao meio ambiente, ao povo e às peculiaridades da Amazônia.
O assassino da Irmã Dorothy (cujo chefe foi considerado inocente), não deu à freira de 73 anos armada com uma Bíblia a possibilidade de defesa, nem o direito de recurso. Executou-a a tiros. No mesmo ato, pretendeu - atendendo a uma determinação maior - condenar à morte, no Pará, na Amazônia, no Brasil, a sustentabilidade ambiental, a reforma agrária e a justiça social.
Lembrarei do 06 de maio passado como símbolo do desequilíbrio e da injustiça promovidos pelo modelo de desenvolvimento predatório da Amazônia. Na mesma data em que se ratificou, no Pará, a pena de morte à irmã Dorothy e suas bandeiras de luta, debatíamos, na Comissão da Amazônia, Integração Nacional e Desenvolvimento Regional, em Brasília, a absoluta urgência de um novo modelo de desenvolvimento para a região. O atual modelo faz a Amazônia, a Oriental, especialmente, penar com a criminalidade (contrabando, biopirataria, tráfico, grilagem, exploração sexual de crianças e adolescentes, empobrecimento das populações tradicionais, eliminação da floresta...) com o patrocínio de uma organização criminosa forte e rica - no Pará, a extração de madeira rendeu cerca de $ 800 milhões de dólares, ano passado -, paralela ao Estado e, em muitos casos, com a conivência de quem deveria reprimi-los.
Três bispos do Pará ouvidos pela Comissão estão ameaçados de morte por denunciarem crimes que todo mundo vê, todo mundo conhece, mas ninguém combate. Dom José Luís Azcona, de Marajó, Dom Flávio Giovenale, de Abaetetuba, e Dom Erwin Kräutler, do Xingu, estão na mesma mira em que estava Irmã Dorothy e onde estão outros 300 sindicalistas, religiosos, advogados, militantes dos direitos humanos.
Confio. Nem a sociedade do Pará, nem a do Brasil podemos aceitar a fragilidade do Estado, a omissão, a tolerância e a conivência que apenas servem para agravar a confusão, a desordem e a anarquia, o desenvolvimento apoiado na criminalidade e o enriquecimento de poucos com a injustiça. O Estado democrático de direito está sendo sistematicamente confrontado. A sobrevivência da Amazônia e dos seus habitantes depende de tornar soberanos os direitos da maioria da sociedade e não os interesses de poucos criminosos que se sobrepõem ao coletivo ao afrontarem impunemente a lei.
* Foi exilada política durante a ditadura militar, é deputada federal eleita pelo PSB/AP e presidenta da Comissão da Amazônia, Integração Nacional e Desenvolvimento Regional da Câmara dos Deputados
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=32932
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil
Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br
terça-feira, 4 de março de 2008
Brasil/Livro-denúncia sobre assassinatos políticos está disponível na internet
29 fevereiro 2008
Jair Antônio da Costa, Anderson Amaurílio, Iraguiar Ferreira da Silva, Josenilson José dos Santos, Anderson Luís e Dorothy Stang compõem uma extensa lista de vítimas de uma modalidade de violência que se considerava extinta no Brasil: os assassinatos políticos. Este é o tema do livro-reportagem Plantados no Chão, da jornalista Natalia Viana, que a editora Conrad está lançando para download pela internet.
Se esse tipo de crime era uma forma de terrorismo de Estado, agora eles envolvem situações mais complexas - onde militantes de movimentos sociais batem de frente com interesses particulares, que resolvem silenciar a luta legítima por direitos sociais com as próprias mãos ou com o apoio de setores corruptos do Estado - por vezes mesmo a polícia e o Judiciário.
Correspondente da Bandnews em Londres e colaboradora da revista Caros Amigos, a autora escolheu seis casos que, dentro dessa perspectiva, podem ser considerados de natureza política e servem para ilustrar como o Estado brasileiro tem tratado os assassinatos de motivação política.
O livro pode ser baixado no sítio: http://www.conradeditora.com.br/plantadosnochao.html.
A nota é da editora Conrad.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
HOMILIA DE DOM ERWIN KRÄUTLER POR OCASIÃO DOS TRÊS ANOS DE MORTE DE IRMÃ DOROTHY

Caríssimos irmãos e irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo,
Celebramos o terceiro aniversário da morte de nossa Irmã Dorothy. Em 12 de fevereiro de 2005 ela foi brutalmente executada. Durante esses três anos muitas vezes fui perguntado por que uma Irmã que consagrou sua vida aos pobres e acompanhou sua luta por mais dignidade, por justiça e pelos mais elementares direitos de ter um chão para plantar e colher, por que essa Irmã dos pobres sofreu uma morte tão cruel. A resposta é simples e todos nós sabemos qual é. Ao colocar-se decididamente ao lado dos desfavorecidos, excluídos por um sistema capitalista selvagem que reina em nossa região, ela contrariou os interesses e as ambições de uma oligarquia que quer apoderar-se da Amazônia para usufruir de suas riquezas sem nenhuma preocupação pelas conseqüências para as futuras gerações. O lema é "aproveite-se enquanto puder" e quem esboçar uma reação contra esta investida, corre risco de vida porque os representantes deste sistema agressivo à Amazônia reagem e conspiram imediatamente contra quem não rezar por sua cartilha. Dorothy foi vítima de seu amor à Amazônia. Por causa deste amor perdeu a vida.
Nos meses passados fomos sempre de novo alertados para o risco que a Amazônia corre, de sofrer danos sem precedentes. O ambicioso Plano de Aceleração do Crescimento, PAC, visa melhorar a infra-estrutura de transportes, comunicação e energia na região. À primeira vista o plano parece favorável à região. No entanto traz no bojo a ameaça de destruição da maior floresta tropical do mundo. Ao lado das investidas da parte de fazendeiros que mesmo multados insistem nas queimadas, ao lado da exploração por parte de madeireiros que, apesar de terem sido confiscados milhares de toras, continuam a derrubar, serrar e transportar clandestinamente madeiras de lei, ao lado desta depredação já em curso, a construção de barragens e de extensos linhões para transmissão de energia elétrica levará fatalmente a um desmatamento generalizado.
Irmã Dorothy foi morta porque denunciou essas agressões ao meio-ambiente que já a médio prazo prejudicarão o lar (oikos) habitado pelos povos da Amazônia.
Causa-nos revolta e indignação que o segundo julgamento do réu confesso Rayfram foi anulado, alegando-se que, "ao executar a freira, estaria potencialmente sob ameaça de cinquenta homens armados, os posseiros de Dorothy Stang". É incrível até que ponto um advogado de defesa chega e mais incrível ainda é que não foi preso por ter levianamente acusado os agricultores do PDS de "pistoleiros", equiparando-os ao criminoso que matou a Irmã. E pior, graças a essa intervenção o júri é anulado!
Que Justiça é essa que de repente inverte os papéis, imputando a criminalidade à pobre Irmã que derramou seu sangue e alegando legitima defesa para o assassino que disparou cinco tiros em cima da vítima indefesa, cuja única arma fora a Bíblia Sagrada?
Que Justiça é essa que depois de três anos não conseguiu ainda completar os inquéritos ou então os encerrou por motivos que nunca conseguem convencer-nos?
Que Justiça é essa que adia de ano em ano o processo contra pessoas altamente suspeitas de ter encomenado o crime?
Que Justiça é essa que nunca levou a sério a existência do "consórcio do crime" nesta terra?
O Evangelho proclamado neste dia (Mt 6,5-14) faz parte do Sermão da Montanha. Jesus ensina a seus discípulos e discípulas a rezar. É a oração por excelência da Igreja e de todos os cristãos e cristãs. Cada versículo merece uma meditação especial, cada palavra é sacrossanta e toca o nosso coração.
No contexto desta Santa Missa em que lembramos o terceiro aniversário de morte da Irmã Dorothy, escolhemos o pedido "Venha nós o vosso Reino!"
Nascemos neste mundo, mas somos cidadãos, cidadãs de outro mundo. Somos chamados a colaborar na construção de um Reino que não é deste mundo, mas é para este mundo. Essa missão não é nada fácil. Somos enviados "como ovelhas entre lobos" (Mt 10,16; Lc 10,3). Muitos rejeitam a mensagem que queremos anunciar. Não a rejeitam apenas, mas querem eliminar a mensagem e a quem a anuncia. Mas também nesta realidade conflitiva ouvimos as palavras de Jesus: "o servo, a serva não é maior que o seu senhor. Se eles me perseguiram, também a vós perseguirão" (Jo 15,20). O Reino é dádiva divina, é graça de Deus, mas não dispensa nosso empenho. O que caracteriza mesmo o cristão, a cristã, é a perseverança em meio a adversidades e frente ao ódio e à violência.
Tombam irmãos e irmãs, sacrificados, executados pelos asseclas de um sistema iníquo, mas quem acredita no Reino de Deus e em sua justiça, não vacila nem treme. O sangue derramado de Irmã Dorothy, de Dema, de Brasília e de tantos outros por esta Amazônia afora é semente fecunda que se multiplica em inúmeros irmãos e irmãs que continuam no Caminho, apostam na utopia do Reino, acreditam no triunfo final de Cristo Senhor, não recuam e, se preciso for, estão dispostos a dar até a própria vida.
"Venha a nós o Vosso Reino!" "Reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz” (Prefácio de Cristo Rei). Amém.
Anapu, 12 de fevereiro de 2008
Erwin Krautler, Bispo do Xingu
http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=3035&eid=367
--------------------------------------------------
IRMÃ DOROTHY E SUA TRÍPLICE CIDADANIA
Frei Lourenço M. Papin. OP
Todo cidadão brasileiro sincero, cristão ou não, certamente indignou-se e comoveu-se diante do brutal assassinato de Irmã Dorothy Mae Stang, religiosa missionária no Oeste do Pará, pertencente à Congregação de Nossa Senhora (Notre Dame de Namur), fundada em 1804 na França. Cidadã norte-americana, nasceu em Dayton, nos Estados Unidos, no dia 7 de junho de 1931. De 1956 a 1966 foi professora em várias escolas de sua Congregação em seu país.
http://www2.uol.com.br/debate/1247/cadd/cadernod04.htm
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Brasil/Justiça mantém pena a assassino de Dorothy Stang
Agência Chasque/23 outubro 2007
Após quatorze horas de julgamento, a Justiça manteve a pena aplicada no primeiro julgamento, em dezembro de 2005.
Como a primeira condenação excedeu vinte anos, o réu teve direito a novo júri.
De acordo com o Ministério Público, Rayfran recebeu cinqüenta mil reais pagos de fazendeiros da região para matar a missionária.
No julgamento, Rayfran confirmou a autoria do crime, mas negou que tenha sido contratado para matar Stang.
No entanto, a promotoria avalia que o réu tenha tentado inocentar os fazendeiros mandantes do crime.
Um deles, Regivaldo Pereira Galvão, ainda não foi julgado.
Dorothy Stang foi morta com seis tiros em Anapu em 2005.
Ela trabalhava com a Comissão Pastoral da Terra e defendia a reforma agrária e os indígenas da região.

