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sábado, 10 de maio de 2014

Venezuela/LA BURGUESÍA VENEZOLANA Y SU LUCHA POR RETORNAR AL PODER POLÍTICO

10 mayo 2014, Rebelión http://www.rebelion.org (México)


Desde el inicio de la Revolución Bolivariana la burguesía nacional en su afán de restablecer el poder político en Venezuela ha efectuado diversas acciones desestabilizadoras con el propósito de debilitar y acabar por completo con el proceso revolucionario que se ha venido llevando a cabo desde el año 1999.
 
Sin duda es una lucha de clases, los dos principales factores sociales predomínate en la actualidad, la burguesía y la clase trabajadora colisionan con más contundencia en todos los escenarios existentes y posibles en comparación con otras épocas, la burguesía acostumbrada al poder político en el país se siente minimizada por ausencia de dicho poder, y por la otra parte, la clase trabajadora en su lucha incansable por obtener por completo el poder político está dispuesta asumir la responsabilidad que obedece gran cambio social a pesar de los inconvenientes y obstáculos reformistas y reaccionarios que hoy en día envuelven al proceso revolucionario, dificultando el salto definitivo a la implementación del estado socialista. 

Desde el inicio del proceso revolucionario en el año 1999 tras la promulgación de la nueva carta magna se pensaba llevar a cabo un modelo social

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Brasil/NOTA DO MST SOBRE CPI PROTOCOLADA NO CONGRESSO NACIONAL

16 agosto 2009/[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
http://www.adital.com.br

MST *

A força das nossas mobilizações e o avanço das conquistas dos Trabalhadores Sem Terra causaram uma forte reação do latifúndio, do agronegócio, da mídia burguesa e dos setores mais conservadores da sociedade brasileira contra os movimentos sociais do campo, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), principalmente por conta do anúncio da atualização dos índices de produtividade da terra pelo governo Lula.

Denunciamos que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o MST é uma represália às nossas lutas e à bandeira da revisão dos índices de produtividade. Para isso, foi criado um instrumento político e ideológico para os setores mais conservadores do país contra o nosso movimento. Essa é a terceira CPI instalada no Congresso Nacional contra o MST nos últimos cinco anos. Além disso, alertamos que será utilizada para atingir os setores mais comprometidos com os interesses populares no governo federal.

A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), os deputados federais Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), líderes da bancada ruralista no Congresso Nacional, não admitem que seja cumprida a Constituição Federal de 1988 e a Lei Agrária, de fevereiro de 1993, assinada pelo presidente Itamar Franco, que determina que "os parâmetros, índices e indicadores que informam o conceito de produtividade serão ajustados, periodicamente, de modo a levar em conta o progresso científico e tecnológico da agricultura e o desenvolvimento regional".

Os parâmetros vigentes para as desapropriações de áreas rurais têm como base dados do censo agrário de 1975. Em 30 anos, a agricultura passou por mudanças tecnológicas e químicas que aumentaram a produtividade média por hectare. Por que o agronegócio tem tanto medo da mudança nos índices?

A atualização dos índices de produtividade da terra significa nada mais do que cumprir a Constituição Federal, que protege justamente aqueles que de fato são produtores rurais. Os proprietários rurais que produzem acima da média por região e respeitam a legislação trabalhista e ambiental não poderão ser desapropriados, assim como os pequenos e médios proprietários que possuem menos de 500 hectares, como determina a Constituição.

A revisão terá um peso pequeno para a Reforma Agrária. A Constituição determina que, além da produtividade, sejam desapropriadas também áreas que não cumprem a legislação trabalhista e ambiental, o que vem sendo descumprido pelo Estado brasileiro. Mesmo assim, o latifúndio e o agronegócio não admitem essa mudança.

Os setores mais conservadores da sociedade não admitem a existência de um movimento popular com legitimidade na sociedade, que organiza trabalhadores rurais para a luta pela Reforma Agrária e contra a pobreza no campo. Em 25 anos, tentaram destruir o nosso movimento por meio da violência de grupos armados contratados por latifundiários, da perseguição dos órgãos repressores do Estado e de setores do Poder Judiciário, da criminalização pela mídia burguesa e até mesmo com CPIs.

Apesar disso, resistimos e vamos continuar a organizar os trabalhadores pobres do campo para a luta pela Reforma Agrária, um novo modelo agrícola, direitos sociais e transformações estruturais no país que criem condições para o desenvolvimento nacional com justiça social.

SECRETARIA NACIONAL DO MST

Informações à imprensa
Mayrá Lima- 61-9684-6534
Igor Felippe - 11-3361-3866/ 11-9690-3614

* Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Brasil

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

Para receber o Boletim de Notícias da Adital escreva a adital@adital.com.br

terça-feira, 25 de agosto de 2009

AS PEDRAS DE TEGUCIGALPA



Honduras: a revolução nacional-libertadora tardia

por Ivan Pinheiro *

19 agosto 2009/Resistir Info http://resistir.info/

Os dias que passei em Honduras, na fraterna companhia de Amauri Soares e Marcelo Buzetto, serviram para consolidar as impressões que, desde o Brasil, expusera no artigo "Contra a manobra do pacto de elites".

Definitivamente, o golpe não só contou como ainda conta com o apoio material e político do imperialismo estadunidense, que foi obrigado a dissimular sua participação em razão dos erros cometidos na execução do golpe, sobretudo o fato de o mundo ter sido surpreendido com a prisão e a retirada à força de Manuel Zelaya do país, sem uma satanização prévia.

O golpe em Honduras é parte do plano imperialista para tentar travar a ALBA e os processos de mudanças sociais na América Latina. Honduras fica entre a Nicarágua e El Salvador, vizinhos hoje governados por antigos movimentos guerrilheiros de libertação nacional, agora em versão moderada, que se desmilitarizaram nos anos 90: a Frente Sandinista e a Frente Farabundo Marti.

Além disso, o país possui grandes reservas não exploradas de petróleo, minério abundante e outros recursos naturais, além da base de Soto Cano, a mais importante e estratégica para os ianques na América Central. Zelaya é o detalhe do golpe, que é muito mais contra a ALBA, contra Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e os dois vizinhos limítrofes.

Ao que tudo indica, está a ponto de se consumar o plano B que o império adotou a partir da repulsa mundial no início do golpe: a sua legitimação e, em seguida, legalização.

A cada dia que passa fica mais difícil a volta de Zelaya ao governo, ainda que apenas para presidir as eleições gerais de novembro com as mãos atadas, sem ALBA, sem Constituinte, nem mesmo o direito de se candidatar ao mais simples cargo eletivo.

Um dos mais importantes lances deste plano B se deu no dia 12 de agosto, quando os membros da Corte Suprema e do Tribunal Superior Eleitoral anunciaram oficialmente a manutenção das eleições gerais para o dia 29 de novembro próximo. Logo em seguida, simulando surpresa, o presidente golpista reconhece a decisão do judiciário, como se estivesse submetendo-se a um poder autônomo, ao "império da lei e da justiça, ao estado democrático de direito".

Tudo isso em cadeia nacional de televisão. No horário nobre, como convém a uma boa novela. Em seguida, ainda ao vivo, Honduras ganha de quatro a zero da rival Costa Rica, pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

A sinalização é óbvia: até a posse do novo Presidente, em janeiro, Micheletti preside o país, o TSE realiza as eleições, a Corte Suprema as preside, as Forças Armadas as garantem e observadores internacionais escolhidos a dedo as legitimam. Tudo para passar um ar de legalidade. Se assim for, Zelaya não volta nem para passar a faixa ao futuro Presidente.

No mesmo dia, em entrevista coletiva após uma cúpula do Nafta, entre sorridentes presidentes do Canadá e do México, Obama fez uma jogada de mestre, abandonando Zelaya à própria sorte. Aproveitando-se das ilusões alimentadas por este, de voltar ao poder por iniciativa dos EUA, Obama lavou as mãos, apontando a incoerência das pressões para que intervenha em Honduras por parte dos que pedem o fim da intervenção dos EUA nos países da América Latina.

No mesmo evento trilateral, Felipe Calderón – eleito presidente numa monumental fraude contra López Obrador – anuncia o reconhecimento do México ao governo Micheletti, seguindo o exemplo pioneiro do Canadá, cujas mineradoras transnacionais com sede no país ocupam quase um terço do território hondurenho. Para os que ainda não se deram conta de que o capitalismo brasileiro é parte do sistema imperialista, a mais poderosa dessas mineradoras tidas como canadenses (a INCO) foi recentemente comprada pela "nossa" Vale do Rio Doce.

Tudo indica que o núcleo duro da oligarquia e da cúpula militar que assumiu o governo em Honduras há mais de cinqüenta dias – agora falando grosso pelo decurso de prazo no poder – está com força para impor seu próprio projeto de pacto de elites para superar a crise e legitimar o golpe. Não só rechaçou as propostas conciliadoras feitas pelo Presidente da Costa Rica, como, em 10 de agosto, não recebeu uma delegação de chanceleres latino-americanos que, em nome da OEA, iriam a Tegucigalpa tentar mediar a crise. E olha que eram representantes apenas de governos moderados ou pró-imperialistas: Argentina, Canadá, Costa Rica, Jamaica, México e República Dominicana. Os golpistas só admitiram receber a Comissão da OEA no próximo 24 de agosto, ganhando mais duas semanas sem "mediações".

Os golpistas conseguiram unificar todas as instituições e personalidades das classes dominantes: as cúpulas das Forças Armadas, da Igreja Católica, das entidades empresariais, do Judiciário, a grande maioria do Congresso Nacional, incluindo parlamentares do próprio partido de Zelaya, aliás o mesmo de Micheletti, o centenário Partido Liberal, uma espécie de PMDB hondurenho.

Esta unificação se expressa na mídia. Estão com o golpe todos os quatro jornais diários e, com a intervenção militar no canal 36 e a repressão a jornalistas independentes, todas as emissoras de televisão. Apenas uma estação de rádio ainda resistia, mas quando escrevo, deve estar fora do ar.

Creio que presenciamos em Honduras os momentos cruciais para o desfecho desta batalha, um capítulo da luta de classes que se expressa no país. Nos dias 11 e 12 de agosto, não por coincidência, chegaram ao auge a mobilização popular e a repressão. Sinto expressar a impressão de que os golpistas saíram mais fortalecidos dessas dramáticas 48 horas.

No dia 11, os protestos em Tegucigalpa, São Pedro de Sula e outras localidades envolveram quase cem mil manifestantes. Na capital, a marcha tentou ir até a Casa Presidencial, sede do governo federal, que fica num bairro de elite afastado do centro, sendo reprimida por um aparato de milhares de soldados da Polícia Nacional e do Exército. Na dispersão, como expressão da revolta popular, as pedras das mal calçadas ruas de Tegucigalpa se transformaram em armas contra símbolos do capital: as vidraças de bancos e redes multinacionais de comida rápida.

Na noite do dia 11, o governo retoma o toque de recolher. Na madrugada, veículos sem placa percorrem a capital com atiradores em trajes civis metralhando os dois principais locais de reunião da direção da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado: as sedes do Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e da Via Campesina.

Na manhã do dia 12, quando nova manifestação pacífica se dirigia ao centro da cidade, para um protesto diante do Congresso Nacional, a repressão já havia montado um aparato impressionante, destinado a evacuar todo o centro da cidade com violência contra quem estivesse nas ruas, fossem ou não manifestantes.

Sou testemunha ocular de que o pretexto para justificar a violenta repressão foi montado por agentes provocadores que, numa ação combinada, simularam uma agressão e logo em seguida a proteção do Vice-Presidente do Congresso Nacional, um dos principais articuladores do golpe. Exatamente na hora em que passavam os manifestantes, ele saíra sozinho à porta do Parlamento em plena sessão legislativa. Estas cenas, algumas horas depois, foram exibidas à exaustão em todas as emissoras de televisão hondurenhas e possivelmente no mundo todo.

Na dispersão desordenada, grande parte dos manifestantes se dirigiu ao quartel general da resistência desde o início das mobilizações, o até então inviolável campus da Universidade Pedagógica, onde se realizam as Assembléias da resistência e se alojavam os militantes que moram fora da capital. Mas o campus já estava tomado pelas tropas, que sequer permitiram aos alojados retirarem seus pertences pessoais, cuja apreensão ainda serviu para manipular a "descoberta" de coquetéis molotov.

É impressionante a combatividade, a coragem e a determinação do povo hondurenho. É digna de registro a unidade das forças que impulsionam até aqui a resistência, organizadas na Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, apesar das debilidades políticas, materiais e organizativas dos movimentos sociais e grupos de esquerda. Não fossem estas debilidades, a história poderia ser outra. Nos momentos seguintes ao golpe havia um conjunto de fatores que poderiam configurar uma situação pré-revolucionária.

Os sindicatos ainda não têm a força desejável, sobretudo na iniciativa privada, onde a greve geral não vicejou. Os agrupamentos revolucionários só agora estão se reorganizando, recuperando-se da desarticulação das décadas de 80 e 90, em função da derrota da luta armada, da repressão e da crise na construção do socialismo. Para se ter uma idéia, dois partidos que se reivindicavam comunistas se dissolveram naquele período e só agora alguns comunistas estão refundando o Partido.

Mas as classes dominantes, para além do Estado, possuem uma arma decisiva numa batalha como esta: a mídia, sobretudo a televisão. É por este meio que os golpistas conseguiram calar, enquadrar e cooptar a grande maioria da pequena burguesia, restringindo a resistência aos setores proletários e parte minoritária das camadas médias.

Com muita competência, diuturnamente, todos os canais de televisão legitimam o golpe e satanizam a resistência. Jogam com o medo, mostrando cenas de violência nas ruas, em que as tropas só atacam para se defender dos "violentos" manifestantes, chamados de bárbaros e terroristas. Jogam com o risco de se perderem empregos e negócios, por conta da paralisação de parte importante da economia do país. Jogam com o sentimento de autodeterminação, acusando a resistência de ser dirigida e financiada pela Venezuela e pela Nicarágua.

Todos os meios de comunicação se utilizam do mesmo padrão de manipulação. Os manifestantes são "vândalos, terroristas"; o golpe é uma "sucessão constitucional". Não há qualquer debate na mídia eletrônica, em que haja espaço para o contraditório. Como aqui no Brasil, todos os "especialistas" chamados a comentar os fatos têm a mesma visão de mundo. A manipulação midiática não é apenas o que noticiam, mas também o que não noticiam. A solidariedade internacional não é conhecida pelo povo hondurenho. Zelaya tem sido satanizado como um meliante político, que queria rasgar a Constituição, a serviço de Hugo Chávez. Nesta fase de legitimação do golpe, o noticiário sobre Honduras vai sumindo na mídia mundial.

Confesso que foi impossível resistir à atração de vivenciar pessoalmente os confrontos do centro da cidade, ao lado dos manifestantes e do povo, para ajudar no que fosse possível. Confesso que foi difícil reprimir o impulso que as mãos suplicavam, quando as pedras me olhavam do chão.

A ofensiva da direita pode levar a um natural refluxo do movimento de massas, sobretudo face ao cansaço, à falta de resultados, ao isolamento social e, de uns tempos para cá, a uma certa desconfiança sobre a determinação de Zelaya. Ainda por cima, a mídia legitimou a repressão, o que dá ao governo golpista mãos livres para radicalizar mais nas próximas escaramuças.

Há muitos indícios de que o imperialismo já selou o destino de Zelaya: a possibilidade de uma volta ao país, "anistiado", após a posse do novo Presidente. Não há qualquer sinal da saída de Micheletti antes disso, nem com a assunção de um tertius para disfarçar o golpe. Se um fato novo não ocorrer, Micheletti passa a faixa para o novo Presidente, em janeiro, certamente um cidadão "ilibado, acima das classes, de união nacional", ou seja, da absoluta confiança do imperialismo e das classes dominantes locais.

Sinceramente, gostaria de trazer de Honduras avaliações diferentes.

Um exemplo deste plano é que, em 13 de agosto, partiu de Honduras para os EUA uma comissão de "notáveis" indicados pelo governo golpista, para explicar as razões do golpe ao Departamento de Estado, a convite deste. Lembram-se do compromisso de Obama de não receber delegações do governo golpista?

Os golpistas estão trocando os representantes diplomáticos hondurenhos no mundo todo, como a Cônsul Gioconda Perla, do Rio de Janeiro, que ficou fiel a Zelaya. Salvo os que aderiram ao golpe. Preencheram todos os cargos federais. O governo funciona a pleno vapor. As estradas estão sendo desobstruídas, para escoar a circulação de bens e a exportação, reativando a economia. Os defensores de Zelaya na elite política se calaram, com raras exceções. O caso mais emblemático do oportunismo político é do Embaixador hondurenho no Brasil, que havia sido nomeado por Zelaya. Como já sentiu para onde os ventos sopram, simulou uma internação por problema cardíaco no dia da chegada de Zelaya em Brasília, quando este foi recebido pelo Presidente Lula.

Como se vê, vai de vento em popa a tática da legitimação do golpe, ajudada pelo quase fim do mandato de Zelaya e, agora, por uma agenda eleitoral que dominará a cena política hondurenha daqui a poucos dias. Para se ter idéia do processo eleitoral, haverá mais de 20.000 candidatos a cerca de 2.850 cargos (Presidente, Deputados, Prefeitos, Vereadores), inclusive do único Partido considerado de esquerda entre os cinco registrados, o social democrata UD (Unificación Democrática), que tem seis Deputados - nem todos participando publicamente da resistência - numa Câmara de pouco mais de cem.

A partir deste 31 de agosto, os partidos e os candidatos registrados já poderão divulgar suas campanhas em matérias pagas, inclusive na televisão. Isto mudará a pauta nacional.

Aliás, a participação ou não no processo eleitoral pode ser um fator de divisão da Frente contra o golpe, que reúne a Unificación Democrática e o Bloque Popular, em que se encontram as organizações sociais e políticas mais à esquerda. A UD já lançou publicamente um candidato a Presidente, enquanto o Bloque Popular defende a não participação nas eleições, com o argumento de não legitimar o golpe.

Enquanto isso, Zelaya, num comportamento pendular, abandonou seu posto em território nicaragüense, em Ocotal, na fronteira com seu país, de onde anunciara que iria comandar pessoalmente a resistência popular, exatamente nos dias 11 e 12 de agosto, para os quais estava convocada a jornada de luta. Nesses dias, Zelaya optou por um giro pela América do Sul, visitando o Brasil e o Chile, para sinalizar uma inflexão do eixo Chávez/Ortega para Lula/Bachelet.

Mas já ontem o presidente deposto havia voltado ao seu posto na fronteira, de onde divulgou ao povo hondurenho um comunicado conclamando à manutenção da luta de resistência contra o golpe e ao não reconhecimento do processo eleitoral convocado, nem dos seus resultados. E as manifestações continuam, ainda que com participação menor. Neste domingo, haverá um grande concerto musical contra o golpe.

Em verdade, mesmo assim, parece chegar ao fim um dos últimos capítulos da ilusão da revolução nacional-libertadora, que já há algumas décadas passou do prazo de validade.

Zelaya, eleito por um partido da ordem, representava o que ainda resta de setores da burguesia hondurenha, pequenos e médios empresários, que têm algum nível de contradição com o imperialismo. Sua aproximação com a ALBA e a Petrocaribe não tinha um sentido de transição ao socialismo, ainda que o difuso "socialismo do século XXI". Tratava-se do interesse desses setores não monopolistas da burguesia hondurenha de fazer crescer o mercado interno e ter acesso ao mercado dos países da ALBA. Para isso, precisavam nacionalizar algumas riquezas nacionais, participar de uma integração não imperialista para importar petróleo e outros insumos mais baratos e mitigar as injustiças para aumentar o poder de consumo popular, através de políticas compensatórias e aumento do salário mínimo.

A realidade está mostrando que estes setores residuais da burguesia não têm a mínima condição de disputar com os setores monopolistas. Na fase imperialista do capitalismo, ainda mais em meio à sua crise, a hegemonia no Estado burguês pertence aos segmentos associados aos grandes monopólios. Quem manda em Honduras são os bancos, o agronegócio, os exportadores de matéria prima, e as indústrias maquiadoras voltadas, como no caso da Nike, para o mercado externo.

Mas em Honduras, nada será como antes, principalmente a esquerda e sua vanguarda. Amadurecem e formam-se nesta legendária luta milhares de militantes e quadros. O comando da Frente, em especial do Bloque Popular, já ajustou corretamente a linha política e a organização popular às necessidades desta nova fase da luta. A bandeira da convocação da Constituinte, livre e soberana, com ou sem Zelaya, é um dos eixos políticos principais. Em Assembléia neste domingo, a resistência resolveu priorizar a organização popular, a partir das bases.

A grande lição que os militantes hondurenhos aprenderam é que os proletários só podem contar com eles próprios. Para grande parte desta heróica vanguarda, acabaram-se as ilusões em alianças com a burguesia, nas possibilidades de humanização do capitalismo e de transição ao socialismo nos marcos da institucionalidade burguesa.

E a certeza de que não bastam as pedras de Tegucigalpa.

19/Agosto/2009/Rio de Janeiro

[*] Secretário Geral do PCB

sábado, 14 de março de 2009

Bolivia/Diversidade em igualdade de condições: uma Constituição do século 21

Vice-presidente do Estado plurinacional boliviano fala sobre a Nova Constituiçao do país e a correlação de forças que a gerou

12 março 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Júlio Delmanto e Juliana Sada, de La Paz (Bolívia)

Como ato inaugural de uma série de debates sobre as modificações que a Bolívia sofrerá após a aprovação da nova Constituição Política do Estado, Álvaro García Linera, vice-presidente do Estado plurinacional boliviano, discursou nesta terça-feira, (10) sobre os rumos institucionais do país e o “desenho do novo Estado”.
Sob olhar atento e absolutamente silencioso dos cerca de 300 militantes e simpatizantes do Movimento Ao Socialismo – Instrumento Político Para Soberania dos Povos (MAS-IPSP, partido no poder desde a posse de Evo Morales em 2006), o intelectual e ex-guerrilheiro falou por duas horas acerca de suas concepções teóricas de organização estatal e das movimentações políticas e econômicas que alçaram outro “bloco histórico” ao posto de detentor da “hegemonia política, intelectual e moral” do país.
Trajando sobretudo e terno pretos, além de gravata e cabelo impecavelmente alinhados, Linera dividiu sua didática exposição em duas partes, uma mais teórica - com a definição de Estado e seu papel - e outra calcada na atual conjuntura boliviana, marcada pela ascensão de novos atores políticos ao poder, depois de quase duas décadas de um neoliberalismo devastador socialmente, responsável pelo desmanche do Estado pensado pelos nacionalistas da Revolução de 1952.
Segundo ele, cada Estado apresenta três “eixos transversais” que o definem: a institucionalidade (conjunto de normas, procedimentos, acordos e burocracias), arcabouço teórico e, principalmente, a correlação de forças que gera e sustenta a estes outros dois eixos. No caso boliviano, essa correlação estaria mudando de alguns anos para cá, em favor do movimento popular.
Além de detentor do “monopólio da coerção legítima”, o Estado possui o monopólio da capacidade “de representar a vontade geral da sociedade”, explica Linera. Mas como se daria esse processo em uma sociedade dividida em classes? “Esse é o grande desafio do Estado, converter a divisão em unidade, em biocoletivo”, o que só aconteceria quando uma classe ou bloco possuem a capacidade de “incorporar demandas e interesses do resto da sociedade”, constituindo o que Antonio Gramsci definiu como hegemonia.
Depois de cerca de 30 anos de “hegemonia pequeno burguesa”, representada pelo nacionalismo revolucionário triunfante em 1952, e de outros 20 nos quais a burguesia agroindustrial nacional, aliada ao capital estrangeiro, controlou o cenário político sob o ideário neoliberal, configura-se agora outra hegemonia na Bolívia, “articulada por um núcleo nacional popular”, segundo seu vice-presidente.
Ela começou a se formar em torno de sindicatos agrários, que depois incorporam juntas urbanas de vizinhos e movimento operário; a partir daí agrega-se a esse “bloco histórico” um setor intelectual urbano de classe média, formando o grupo hegemônico da Bolívia de hoje. Ao assumir o poder, esse bloco passa articular-se também com “outros setores médios urbanos” e “setores empresariais”, deixando de fora setores ligados ao investimento estrangeiro. Para Linera, “o núcleo desse bloco é campesino e vicinal urbano, é de natureza de classe distinta” ao que tradicionalmente dirigia o país.
Segundo García Linera, é essa mudança no bloco dirigente da Bolívia que explica as mudanças pelas quais o país tem passado nos últimos anos, especialmente após a chegada do MAS ao governo federal, com 54% dos votos. “Revolução não é invenção de movimento social ou partido político, é resultado dos desdobramentos de forças acumuladas por décadas na sociedade”, afirma.
Na época de hegemonia militar-nacionalista, “nao havia índios, somente bolivianos”; já no período neoliberal os indígenas tinham seu papel apenas no lado folclórico, turístico, diferentemente do presente momento, no qual “são a força motriz do novo Estado”. E com um detalhe muito importante: força motriz nao homogênea. Se nacionalistas revolucionários e neoliberais constituíam-se enquanto núcleos minimamente homogêneos entre si, o mesmo não se passa no atual bloco hegemônico, conformado por diferentes grupos políticos e étnicos, com suas respectivas tradições, culturas e visões de mundo.
É essa hetereogeinedade que explica a nova Constituição boliviana, segundo o vice-presidente. O texto anterior reconhecia idiomas e culturas distintos, mas “reconhecia a sociedade como plurinacional, não o Estado”, o que seria fundamental para “superar a colonização”, na opinião de Linera. Como exemplo, compara sua própria história de vida –intelectual, branco, proveniente da classe média – com a de Evo Morales, para mostrar como há diferentes tradições e concepções, pessoais e coletivas, conformando o bloco dirigente. Desta maneira, a configuração plurinacional do novo Estado “nao é impertinência teórica ou capricho intelectual, é demanda histórica. Como sentar-se juntos sem que um se sinta superior? Plurinacionalidade!”.
De acordo com o vice-presidente boliviano, esse novo bloco traz em si uma diversidade de práticas políticas, que o coloca como representante de uma “civilização distinta”, a “comunitária associativa”, apresentada em oposição à “mercantil moderna”. Dessa maneira, é essa diversidade política que gera a necessidade de novas alternativas institucionais, que prevejam, para além da democracia representativa, mecanismos de democracia participativa e comunitária. Linera aponta novas práticas educacionais como exemplo de tradução prática dos conceitos de um Estado plurinacional; assim, o fato do poder público propiciar educação primária e superior em línguas indígenas, além de abarcar tradições, mitos e heróis desses povos, representaria um passo importante na consolidação de uma igualdade substantiva entre os diferentes povos bolivianos.
Quanto ao argumento recorrentemente utilizado pela direita boliviana, de que MAS e o discurso de afirmação indígena estariam dividindo a Bolívia, Álvaro García Linera responde que não é a plurinacionalidade que irá dividir o país: “Toda sociedade do mundo está dividida, a pergunta é como construimos unidade. Uma opção é a colonial, valorando um só em detrimento da diversidade. Mas é uma unidade imposta, falsa”, por outro lado, há opção que ele acredita ter sido tomada atualmente no pais, a opção pela “diversidade em igualdade de condições e em enriquecimento mútuo”.
Com esta exposição, Linera define o que seriam as bases do Estado plurinacional que foi instaurado na Bolívia após a promulgação da constituição em sete de março. Em primeiro lugar, um novo bloco popular nacional está no poder e diferentemente de todos os outros já existentes no país traz dentro de si a diversidade social, transferindo-a ao Estado. Isto se traduz no reconhecimento estatal a diferentes instituições como, por exemplo, a justiça comunitária, e a coexistencia destas com as já existentes. Sendo fundamental para este processo que o funcionalismo publico esteja apto a falar ao menos outra língua além do castelhano.
Segundo o vice-presidente, é a coexistencia de diferentes instituições que difere a constituição boliviana de outras que já reconhecem idiomas distintos e ou originários como a canadense, belga ou indiana. Para ele, a Bolívia está na vanguarda porque reconhece também a diversidade quanto à matrizes organizativas: “É uma constituiçao do século 21”, resume.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/agencia/internacional/diversidade-em-igualdade-de-condicoes-uma-constituicao-do-seculo-21

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Brasil/O 2008 para os Movimentos Sociais e os desafios desse ano

Qual será a capacidade dos movimentos sociais de apresentar saídas para essa crise?

2009 8 janeiro 2008/Editorial do Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Certamente, para os movimentos sociais, não há muito o que comemorar em 2008. Os seis anos do governo Lula, são merecedores de uma boa reflexão. A continuidade da política econômica de FHC, como mencionou seguidas vezes o então ministro da Fazenda Antônio Palocci, e suas políticas estruturantes em favor do capital – como a liberação dos plantios transgênicos –, motivam as críticas de uma parte da esquerda dos movimentos sociais e partido políticos. Do outro lado, as políticas assistencialistas, responsáveis pela melhoria das condições vida de uma fração da população mais pobre e o melhoramento dos índices de emprego, servem de combustível para uma outra parte da esquerda, defensora da estratégia política adotada pelo atual governo. É um governo que atendeu todas as exigências do grande capital, e mesmo assim é criticado e ridicularizado pela mídia burguesa. Esse mesmo governo, que destina migalhas com suas políticas assistencialistas aos pobres, obtêm sucessivos recordes nos índices de aprovação junto à população brasileira. A complexidade dessa situação ainda não é compreendida pelo conjunto dos movimentos sociais. Ou, pelo menos, passado já a metade do segundo mandato, os movimentos sociais ainda não lograram construir uma análise unitária desse governo.
Houve, no decorrer de 2008, várias iniciativas para fortalecer alguns instrumentos que pudessem sinalizar para uma unidade maior dos movimentos sociais e da forças progressistas da sociedade brasileira. A Assembléia Popular, a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) e a Conlutas são, talvez, as mais significativas dessas iniciativas. Bem intencionadas, todas com a disposição de fortalecer a classe trabalhadora, mas nenhuma delas proporcionou uma unidade maior do movimento social e sindical. A sensação, chegado o término do ano, é que estamos ainda mais fragmentados.
Houve decisão política, disposição e trabalho para construirmos jornadas nacionais de lutas. As mobilizações em 8 de Março e a jornada de lutas em junho exemplificam as tentativas de mobilizar a sociedade. Jornadas importantes para manter acessa a chama da necessidade de lutar. Mas, restringiram-se à mobilizações de militantes sociais. Não conseguimos sensibilizar a sociedade e motivá-la para que se somasse às lutas. Não fomos além de nós mesmos.
Ainda, em 2008, houve poucos avanços, quase inexistentes. no debate sobre a necessidade de termos um projeto popular de desenvolvimento para o país. Aqui, novamente, parece haver barreiras instransponíveis para se buscar uma unidade maior. Para parte da esquerda, basta reafirmar o projeto socialista. Para outra parte, o projeto popular é imprescindível para acumular forças e sinalizar para sociedade uma alternativa de desenvolvimento oposta à apresentada pela burguesia. E, infelizmente, há também a parte que sucumbiu aos ditames do grande capital. As eleições municipais, de 2008, atestaram essa ausência de debates sobre a necessidade de um projeto popular.
Por último, passado mais um ano, os movimentos sociais precisam renovar seus métodos de trabalho de base. Aumentou a distância entre as organizações populares e a sociedade em geral. Isso é válido para os movimentos estudantis, sindicais, urbanos e rurais e pastorais sociais. É preciso chegar até as pessoas, fazê-las conhecer a mensagem política e motivá-las a participarem de alguma forma de organização social e política. Infelizmente, os movimentos sociais perderam essa capacidade nas duas últimas décadas. Aperfeiçoaram-se os discursos de grandes análises, refinada elaboração teórica e radical combatividade, ao mesmo tempo que se perdeu a capacidade de procurar e falar individualmente com as pessoas ou pequenos grupos.
Todos esses percalços de 2008, servem para constar que há muito o que fazer em 2009. A classe trabalhadora deve sim resgatar suas capacidade de pensar um projeto popular de desenvolvimento, de buscar a unidade, de recuperar a força do trabalho de base e de formação política dos seus militantes e de promover jornadas nacionais de lutas. São objetivos permanentes das forças populares que se dispõem ir além da retórica e realmente querem fazer a transformação da nossa realidade.
Essa crise financeira, gerada pelo próprio desenvolvimento do capitalismo, joga um papel instigante para os movimentos sociais. Qual será a capacidade dos movimentos sociais de apresentar saídas para essa crise? A burguesia brasileira, sem um projeto de desenvolvimento nacional para o país e totalmente subordinada aos interesses do capital internacional, é incapaz de apresentar saídas para crise. Se restringirá à medidas paliativas, que visam apenas amenizar seus efeitos e repassar os custos para a classe trabalhadora.
No entanto, os movimentos sociais apenas se farão ouvir se lograrem uma maior unidade das forças populares e progressistas e, realmente, conseguirem colocar o povo nas ruas com jornadas nacionais de lutas. Os desafios são grandes. Por isso mesmo, há sim perspectivas de grandes vitórias em 2009. Que os movimentos sociais tenham a capacidade de dar respostas à alturas desses desafios.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/o-2008-para-os-movimentos-sociais-e-os-desafios-desse-ano

quarta-feira, 28 de maio de 2008

ESCRAVIDÃO EM PLENO SÉCULO XXI, O REINO DO TERROR DA BURGUESIA DA BOLÍVIA

Guaranís da região do Chaco boliviano são Escravos em pleno século XXI

Naimi Núñez para a TeleSUR

24 maio 2008/Fonte: Tirem as Mãos da Venezuela

http://tirem-as-maos-da-venezuela.blogspot.com/

Por trabalhos forçados a mais de doze horas diárias, as mulheres ganham a metade que os homens, e os meninos e os idosos pelo geral não ganham nada. (Foto: Abi)

Mais de mil famílias vivem escravizadas na região do Chaco, na Bolívia. Os indígenas, entre eles idosos e meninos, trabalham mais de doze horas diárias sem receber pagamento algum. A situação é vista com preocupação pela Comissão Inter-americana de Direitos Humanos.

Historicamente a nível mundial, a problemática da escravatura e da servidão, supõe-se que é um assunto resolvido à vários séculos. Mas na Bolívia o problema está mais vigente que nunca. Na região do Chaco boliviano, que abarca os departamentos (do sul da Bolívia) de Chuquisaca, Tarija e Santa Cruz, desde à várias décadas, centenas de famílias guaranís que residem nesta região, vivem sob um sistema de servidão e semi-escravidão baseado na super-exploração da força de trabalho familiar. Estas pessoas, pertencentes às chamadas comunidades cativas, realizam trabalhos forçados em fazendas por mais de doze horas diárias, sem pagamento algum ou acesso a direitos básicos como a educação, a segurança social, a liberdade de movimentos e à propriedade da terra.

A comunidade guaraní, a terceira mais numerosa dos povos indígenas de Bolívia, actualmente conta com uma população de 170 mil pessoas, das quais mais de mil famílias vivem registadas em situação de escravatura em fazendas das províncias de Luis Calvo e Hernando Siles, no departamento de Chuquisaca; Grande Chaco e O'Connor, departamento de Tarija, e na cordilheira do Alto Parapetí, departamento de Santa Cruz. "É uma vergonha que na Bolívia do século XXI continue existindo a escravatura", disse o Capitão Grande do Conselho de Capitães Guaranís de Chuquisaca, Efraín Balderas, ao lamentar que ainda existam comunidades cativas de seu povo em pelo menos cinco províncias de três departamentos do país planáltico e que em seu conjunto abarcam a 15 municípios.

Balderas, alto e moreno, é um líder indígena que até à adolescência trabalhou como peão numa das fazendas chuquisaqueñas sob um regime de exploração laboral. Mas que teve a sorte de estudar e conseguir através da educação essa liberdade que centenas de famílias de seu povo ainda anseiam. A situação dos guaranís no sul de Bolívia é vista com preocupação por organismos internacionais como a Comissão Inter-americana de Direitos Humanos (CIDH), a Organização de Estados Americanos (OEA) e Organizações Não Governamentais (ONG).

A realidade
O número total concreto de guaranís no Chaco boliviano é difícil de contabilizar, e ainda mais o é o número daqueles que estão em situação de escravatura. O certo é que, sem dúvida, as suas vidas são muito precárias e as relações laborais com os donos das fazendas nas quais trabalham, ainda na contra mão de sua vontade, são pouco claras já que os pagamentos em sua maioria se fazem em géneros e não em dinheiro, com contas que se transmitem de geração em geração. Estes indígenas e as suas famílias trabalham mais de doze horas diárias sem receber salário, senão retribuições irregulares em géneros.

Rogelio Molina, empregado da fazenda Iguembito, localizada no município de Huacareta, na província Hernando Siles do departamento de Chuquisaca, conta que está à "trinta e três anos" trabalhando "para Federico Reynaga (proprietário), como meu pai trabalhou para o pai desse fazendeiro".

Com o tempo o mundo dos meninos torna-se igual ao dos adultos. Mas o mais assombroso, é que muitos latifundiários levam as meninas (indígenas) a partir dos 7 anos às cidades e as fazem regressar à propriedade com filhos para que também trabalhem para eles, segundo denunciou Justo Molina, presidente do Conselho de Capitães de Chuquisaca, quee defende os direitos dos guaranís.

Neste tempo, Rogelio começou ganhando três bolivianos (0,3 dólares) como vaqueiro ou cuidador de gado bovino. Para sustentar os seus 13 filhos conseguia um rendimento de 200 ou 150 bolivianos (cerca de 20 dólares ao mês): "Me descontavam algum arrozito, que lhes comprávamos, isso era anotado", diz, e recorda que os trabalhos domésticos realizados por sua esposa na fazenda nunca mereceram reconhecimento algum. "Nem um centavo, nunca lhe pagaram".

Os chamados "ajustes" são o resultado da soma na qual se incluem ítems como "progressos" ou "pedidos" de víveres para comer, pelo que geralmente resultam em saldos negativos para os empregados guaranís, pelo que terminam com dívidas em lugar de ganhos. E é que os termos trabalhistas que se conhecem obedecem a "arranjos" por um pagamento salário incompreensivelmente saldado uma vez ao ano. Situação que não só varia de acordo com a fazenda, senão de acordo com condições de género e etárias: as mulheres ganham menos metade que os homens, e os meninos e os idosos a maior parte das vezes não ganham nada. Fortunato Silva e Vitória Méndez, pais de oito filhos, por sua vez recebem por suas lidas um ou dois quilos de arroz na fazenda de Crispín Pérez, também localizada em Huacareta.

Em Chuquisaca, onde há mais casos de guaranís escravizados, assombrosamente reproduz-se uma situação que se acreditava desaparecida. É aí que há relatos de que os trabalhadores recebem chicotadas se não cumprem com a sua tarefa. Apesar de isto não ser generalizado, existem casos documentados com vídeos que provam que sim ocorrem. Alguns "cativos", inclusive, dormem em celeiros e não podem sair da fazenda. "Os patrões proíbem que as famílias que vivem nas suas fazendas se comuniquem com organismos e lhes restringem a educação ou as condições sanitárias mínimas", afirma Justo Molina, presidente do Conselho de Capitães de Chuquisaca, que denunciou a "violação dos direitos humanos" das numerosas pessoas que vivem na sua comunidade e explicou que 90 por cento desta população é analfabeta.

Precisamente, o analfabetismo é a principal causa da opressão dos latifundiários sobre os indígenas guaranís, já que, ao não saber ler nem escrever, não só estão impedidos de aceder ao conhecimento e informação sobre seus direitos, como também não podem exercer nenhum controle sobre as suas contas e livros de dívidas que são levados pelos patrões. Ao analfabetismo soma-se o desconhecimento dos seus direitos que lhes assiste e não lhes permite deliberar com os patrões as suas condições laborais, nem nenhuma outra situação que lhes afecte. As condições precárias de trabalho e — portanto — de vida das famílias guaranís submetidas a uma situação laboral marcada historicamente pelo abuso, pela servidão e pelo paternalismo, que as fez cativas em sua própria terra, são práticas ainda vivas no Chaco boliviano, como se o tempo, e a modernidade, nunca tivessem passado por essas terras.

Escravos desde a infância
A escravatura no Chaco também se estende aos meninos. As meninas começam como domésticas nas fazendas e depois ficam como cozinheiras, enquanto os meninos iniciam-se como moços de recados, isto é, realizam tarefas menores para os fazendeiros e depois, de adultos, trabalham a terra. Na maioria dos casos, não recebem pagamentos por seus trabalhos. A "criação" dos meninos implica o início precoce da lida nas fazendas, como Virginia Parar, filha de trabalhadores da propriedade Iguembito, em Chuquisaca, que começou de menina como doméstica e aos 15 anos tornou-se cozinheira. Um exemplo mais evidente é o de Rosi Silva, empregada da fazenda Voyguazú, de Juan Ortiz; ela e seu irmão menor foram "cedidos ao patrão": "Minha mamãe entregou-nos aos dois, meu irmão entendeu-se com o patrão e tem 12 anos". Ao ser consultada sobre se desejam sair da fazenda comentou, com ar de desesperança, que "ele também – igualmente a ela – quer sair mas não o deixam, ele quer estudar". E isto porque a escola está proibida para estas crianças, bem como sair das fazendas. A situação jurídica dos meninos e menores de idade é incerta, pois muitos encontram-se sujeitos aos patrões mediante estranhas ligações de familiares (de padrinhos).

Em muitos casos, os guaranís dirigem-se ao fazendeiro como "papi" ou "mami", e muitos deles, segundo estudos executados pela administração de Justiça, levam o apelido dos patrões. "Eu os criei, os pais deles morreram, e eles se entenderam com nós", explica Humberto López, proprietário da fazenda "El Vilcar", que assegura que essa é a razão de que tenha uma família de guaranís a seu serviço. As relações de servidão disseminam-se com as relações de parentesco: "Já me acostumei a eles (aos patrões) como papai, como mamãe, como abuelitos", comentou Eriberta Montes. "Aqui ficarei com os abuelitos (avós) até que eles morram", acrescentou resignada a guaraní que cresceu na fazenda e que agora tem seis filhos, que talvez sejam outro elo mais na cadeia perpetua de trabalho da sua mãe e dos seus avós.

No entanto, a amabilidade do trato entre empregador e empregado tem limites concretos, quando se vê o lugar onde Eriberta e seus pequenos dormem: num pátio traseiro da fazenda onde os couros de ovelha lhes servem de camas. Com o tempo o mundo dos meninos torna-se o dos adultos. Mas o mais assombroso, é que muitos latifundiários levam as meninas a partir de 7 anos às cidades e as fazem regressar à propriedade com filhos para que também trabalhem para eles, segundo denunciou Justo Molina.