A crise de hegemonia dos EUA e
sua longa duração
Temos defendido a tese de que desde
os anos 1970 entramos em um contexto de crise civilizatória do capitalismo e da
hegemonia dos Estados Unidos. Trata-se de uma crise estrutural e não de um
colapso. A crise estrutural é longa, lenta, permite ampla margem de autonomia
para que a grande burguesia dos países centrais e seus Estados estabeleçam
estratégias de reação e contenção do descenso, podendo passar à ofensiva, ainda
que no longo prazo, o custo de manutenção de seu status quo seja cada vez mais
alto e a balança de poder lhes tenda a ser cada vez mais desfavorável.
Assim desde os anos 1970,
características estruturais profundas vêm se desenvolvendo no capitalismo
central: a financeirização da economia, a queda das taxas de investimento,
altos níveis de desemprego, o aumento explosivo da dívida pública, a presença
de importantes déficits comerciais, a transferência do dinamismo econômico e a
relocalização para o leste asiático dos fluxos interacionais de capital, a
perda de importância relativa das potências marítimas na economia mundial em
detrimento da expansão dos regionalismos e dos hinterlands nas
periferias e semiperiferias.
Estas tendências parecem estar
vinculadas à emergência e difusão da revolução científico-técnica. Esta torna o
conhecimento a principal força produtiva e eleva dramaticamente o valor da
força de trabalho, levando o capital a substituir o circuito produtivo do
capital pelo financeiro e a estender aos centros a superexploração do trabalho,
que era uma característica secular e específica das periferias, para pagar ao
trabalhador preços inferiores ao valor de sua força de trabalho.
A queda da taxa de lucro nos anos
1970, a saída de capitais dos Estados Unidos, a ruptura da paridade dólar/ouro
e a desvalorização da moeda estadunidense foram respondidas na década de 1980
com a ofensiva neoliberal dos governos Reagan e Bush pai. A drástica elevação
das taxas de juros, a criação de um mercado de títulos da dívida pública
organizado desde o Estado e a abertura comercial/financeira substituíram o pleno
emprego por um desemprego elevado, reduziram drasticamente os salários, e
duplicaram a relação da dívida pública/PIB, que saltou de 33% para 64% entre
1979-92.
