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quarta-feira, 30 de outubro de 2019
Vaticano/SínodoAmazônico: a Igreja está comprometida em ser aliada da Amazônia
terça-feira, 24 de março de 2015
SI ME MATAN, RESUCITARÉ EN MI PUEBLO -- Monseñor Romero
Monseñor Oscar Arnulfo Romero, 15 de agosto de 1917 -- 24 de marzo de 1980
Monseñor Romero: Si me matan,
resucitaré en mi pueblo
Los mártires son semillas de vida que siembran la esperanza y fortalecen los caminos de la fe. Ellos han fecundado el continente de la Tierra Fecunda -- “Abya Yala” -- por la fuerza de la palabra profética y el testimonio de vida de quienes tuvieron el coraje y la fe de caminar junto a la Iglesia Pueblo de Dios. Sus voces se alzaron en todo el continente y el mundo. Así fue en el país hermano de El Salvador, sometido a la violencia con más de 70 mil muertos, exiliados y perseguidos. De ese dolor surgió una voz que fue guía y esperanza, denunciando la violencia y reclamando el respeto a la vida y dignidad del pueblo sometido a la guerra civil y la dictadura militar.
Fue la voz de Monseñor Oscar Arnulfo Romero, quien
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Entrevista especial: CÓMO LA CUMBRE DE LA IGLESIA OBSTRUYE EL MENSAJE DEL PAPA DESDE DENTRO DEL VATICANO
terça-feira, 6 de maio de 2014
Brasil/MORREU DOM TOMÁS BALDUÍNO, O BISPO DA REFORMA AGRÁRIA E DOS INDÍGENAS
Morreu sexta-feira, em Goiânia, aos 91 anos, o bispo emérito da cidade de Goiás, dom Tomás Balduino, o bispo da reforma agrária e dos indígenas.
Em nota divulgada neste sábado (3), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) fez um breve relato da trajetória combativa e abnegada do líder religioso -- que reproduzo abaixo na íntegra:
Dom Tomás Balduino, fundador da CPT, fez a sua páscoa
há um tempo certo para cada propósito
debaixo do céu: Tempo de nascer e tempo de morrer,
tempo de plantar
e tempo de arrancar o que se plantou...
tempo de lutar e tempo de viver em paz”.
(Eclesiastes 3:1-8)
É com grande pesar e muita tristeza que a Comissão Pastoral da Terra (CPT)
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Brasil/José Oscar Beozzo: DOM HELDER, PASTOR DA LIBERTAÇÃO EM TERRAS DE MUITA POBREZA
Reportagem de Moisés Sbardelotto
Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
12 fevereiro 2009/ADITAL http://www.adital.com.br
Adital - Ao se completarem os 100 anos de nascimento de Dom Helder Camara, no sábado, 07 de fevereiro, a Igreja do Brasil tem muito a agradecer e a se inspirar na vida e na obra do querido "Dom", como ficou conhecido.
Nesta entrevista especial, concedida por e-mail a IHU On-Line, padre José Oscar Beozzo, um dos maiores historiadores da Igreja na América Latina, comenta alguns traços da vida do grande arcebispo de Olinda e Recife, um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Para Beozzo, os leigos e as leigas foram os "mestres de vida" de Dom Helder "para a atuação no mundo e para uma espiritualidade longe dos ranços clericais". O Recife e o Nordeste, segundo o coordenador-geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep), tornaram-se "sua trincheira de onde fala ao Brasil, mas também à América Latina e ao mundo". E analisa ainda a atuação internacional de Dom Helder, especialmente durante o Concílio Vaticano II, no qual, mesmo nunca tendo falado na Aula Conciliar, "tornou-se um dos mais ouvidos e respeitados padres conciliares".
José Oscar Beozzo é padre e teólogo, com mestrado em Sociologia da Religião, pela Université Catholique de Louvain (Bélgica) e doutorado em História Social, pela Universidade de São Paulo (USP). Faz parte do Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil), filiado à Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina e no Caribe (CEHILA). Também é sócio fundador da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (ADITAL). É autor de inúmeros livros, entre os quais "A Igreja do Brasil" (Vozes, 1993).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Há 100 anos, nascia Helder Pessoa Câmara, o futuro arcebispo de Olinda, reconhecido mundialmente pelo seu trabalho voltado a uma igreja mais simples, em contato com os pobres e pela não-violência. Quais foram os grandes passos que levaram aquele pequeno menino a ser um bispo católico reconhecido mundialmente, tendo recebido dezenas de prêmios internacionais, com quatro indicações ao prêmio Nobel da Paz?
José Oscar Beozzo - Os passos de Dom Helder não podem ser desconectados de algumas conjunturas nacionais, latino-americanas e internacionais que o interligaram com pessoas e eventos excepcionais.
Desde os tempos do seminário, interessou-se pela imprensa, tornando-se propagandista de O Nordeste, jornal da diocese, para o qual angariava assinaturas, o que lhe valeu memorável encontro com o Pe. Cícero, no Juazeiro. Começou também a publicar artigos na imprensa de Fortaleza, escondido por pseudônimo, até ser proibido pelo reitor do seminário. Posteriormente, imprensa escrita, rádio e televisão foram sempre instrumentos que manejava com maestria para passar adiante seus ideais, valores e mensagem.
O diácono Helder é ordenado padre em 1929, no turbilhão e desmoronamento do mundo econômico liberal na crise daquele ano. No ano seguinte, com as eleições presidenciais e a revolução de 1930, é o Brasil das oligarquias que rui. Entram em cena novos atores sociais no panorama político: os Estados da federação, de modo particular do Nordeste e do Norte, mais Rio Grande do Sul, até então excluídos da partilha do poder, concentrado em São Paulo e Minas Gerais, pela aliança café-com-leite; as classes médias urbanas; a classe operária; os tenentes do Exército, mas também a Igreja Católica alijada dos jogos do poder pelo laicismo republicano. Getúlio Vargas liquidou com a república velha e seu modelo agrário exportador, dando lugar a um projeto de desenvolvimento nacionalista, apoiado na industrialização do país e num pacto populista que uniria o empresariado nacional e os operários, sob a proteção, mas também controle direto, do Estado.
No Ceará, a Liga Eleitoral Católica (LEC) funcionou quase como partido político, tendo na sua coordenação o jovem Pe. Helder Câmara, que se aproximou dos integralistas de Plínio Salgado, abraçando seu ideário político. Em 1935, foi convidado pelo novo governador para assumir uma secretaria de governo, como diretor geral da instrução pública, no que seria hoje a secretaria de educação, num claro sinal desse retorno das hostes católicas ao jogo político. No final desse ano, atritos com o governador, na condução da política educacional, levam-no a pedir demissão e partir do Ceará para o Rio de Janeiro.
Funcionário público e discípulo de Dom Leme
No Rio de Janeiro, foi acolhido pelo conterrâneo Lourenço Filho no Ministério da Educação, dirigido por Gustavo Capanema. Em 1939, passou em concurso público para funções técnicas no Ministério. Na Igreja do Rio, foi recebido pelo Cardeal Dom Sebastião Leme. O Cardeal representou, internamente para a Igreja Católica, um contraponto ao projeto político de Vargas.
Leme tentou superar a atomização da Igreja e o isolamento das dioceses entre si, buscando estabelecer uma estratégia clara de ação e uma articulação do Episcopado para implementá-la. Reuniu os bispos em torno de si em maio e outubro de 1931 e depois para o Concílio Plenário Brasileiro, em 1939, com o intuito de traçar linhas de ação comuns. Tirou a Igreja da defensiva em que fora encurralada pela República Velha, trazendo-a para uma agenda propositiva, numa jornada em que foi auxiliado pela combatividade de Jackson de Figueiredo, da revista Ordem, do Centro Dom Vital, e pela densidade cultural, capacidade de escuta e articulação de Alceu Amoroso Lima à frente das instituições fundadas por Jackson de Figueiredo, da Liga Eleitoral Católica e depois da Ação Católica Brasileira (ACB).
Leme criou ainda, em 1935, a ACB, com abrangência nacional, mobilizando o laicato para uma atuação mais aguerrida nas estruturas sociais, políticas e culturais do país. Na capital da república, Helder trabalhou ainda como técnico do Ministério da Educação, entrando em contato com todo o debate sobre os rumos da educação no Brasil e a crescente atuação governamental nesse campo. Esse trabalho rendeu-lhe preciosos conhecimentos e contatos em toda a estrutura governamental. Essas relações seriam fundamentais no campo das relações entre a Igreja e o Estado, em sua posterior trajetória como bispo auxiliar no Rio de Janeiro e como secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Os leigos e as responsabilidades nacionais e internacionais
Através da Ação Católica de Pio XI, leigos e leigas foram seus mestres de vida, para a atuação no mundo e para uma espiritualidade longe dos ranços clericais. No Rio, o então Pe. Helder Câmara prosseguiu com seu envolvimento com os leigos, iniciado no Ceará com a Juventude Operária Católica, a Legião Cearense do Trabalho e a Liga dos Professores Católicos. Em 1950, tornou-se Assistente da nova ação católica especializada, convertendo em nacional seu raio de ação até então limitado ao Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano de 1950, suas funções de assistente nacional da Ação Católica levaram-no por primeira vez a Roma, para o Congresso Internacional da Ação Católica. Essa viagem propiciou-lhe o primeiro contato com Mons. Giovanni Baptista Montini, principal auxiliar do Papa Pio XII, a quem propusera a criação da Conferência dos Bispos do Brasil.
A criação da CNBB, em 1952, replicou em nível episcopal a plataforma de atuação nacional em que havia operado em nível do laicato. O papel de articulação que havia cumprido Dom Leme, pessoalmente, como cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, até sua morte prematura em 1942, passou a ser cumprido institucionalmente, de certa maneira, pela Ação Católica, mas, sobretudo, pela CNBB. O motor era, porém, o próprio Dom Helder, recém nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro e que assumiu a Conferência como seu primeiro secretário-geral, permanecendo nessa posição estratégica durante 12 anos, até 1964. Sua amizade com o Núncio Armando Lombardi, com quem se reunia a cada sábado, permitiu que uma legião de padres envolvidos na Ação Católica, com trabalhos valiosos na pastoral e na formação, fosse promovida ao episcopado, compondo um novo rosto da Igreja brasileira, mais próxima do povo, mais comprometida em suas lutas por superação da pobreza e por justiça e dignidade.
O XXIX Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955, projetou Dom Helder como o grande organizador desse evento internacional e da I Conferência Geral do Episcopado Latino-americana, realizada logo em seguida. Da Conferência, resultou a criação do Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM. Em 1959, Dom Helder foi eleito um dos seus vice-presidentes.
O Congresso Eucarístico deu-lhe oportunidade para transformar a grande mobilização para organizá-lo, em iniciativas sociais de grande vulto, como a Cruzada São Sebastião, que pretendeu erradicar as favelas do Rio de Janeiro. Dom Helder constataria tempos depois, com certo desalento, que as favelas renasciam logo à frente, mais numerosas e esquálidas. A infra-estrutura humana do Congresso ensejou-lhe a promoção da Feira e do Banco da Providência, retaguarda para inúmeras iniciativas no campo social. O CELAM ofereceu-lhe uma plataforma continental para sua atuação e para a difusão de suas idéias e projetos, em perfeita sintonia com seu entranhado amigo, Dom Manuel Larraín, bispo de Talca, no Chile. O Concílio Vaticano II abriu para os dois - mas de modo particular para Dom Helder, com sua retórica inflamada e sua imaginação e audácia sem limites - a cena internacional.
IHU On-Line - O que caracterizou o trabalho de Dom Helder Camara como bispo e arcebispo de Olinda? Quem foi o pastor Dom Helder, tanto para a Igreja local quanto para a Igreja do Brasil?
José Oscar Beozzo - Olinda e Recife fizeram, por primeira vez de Dom Helder, o pastor com inteira responsabilidade, de uma porção concreta do povo de Deus, no coração do Nordeste, em terras de muita pobreza, mas também de tradição, lutas e esperança.
No Rio de Janeiro, como bispo auxiliar e depois como arcebispo, mas sempre auxiliar, teve sua ação cada vez mais cerceada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, cujas visões de Igreja e de sociedade foram cada vez mais se distanciando.
Dom Helder chega ao Recife em 11 de abril, sob o estigma de opositor do novo regime militar apenas instalado com o golpe de 31 de março de 1964. Logo depois, em outubro, é despojado da liderança institucional de secretário-geral da CNBB.
Recife e o Nordeste tornam-se então sua trincheira de onde fala ao Brasil, mas também à América Latina e ao mundo. Mantém um contato diário com seu povo, pela Rádio Olinda, com meditações diárias; anima a criação de grupos de reflexão, leitura bíblica, oração, solidariedade e ação social, apelidados de Encontro de Irmãos.
Lança a Operação Esperança, levando a reforma agrária às terras da arquidiocese e toma outras iniciativas no campo pastoral: noites de encontro com intelectuais e artistas, mas também com sindicalistas, estudantes secundários e universitários. Percorre os bairros, mocambos e favelas do Recife e do interior em contato direto com a população mais pobre.
De Recife, apoiado por um bom número de bispos do Nordeste e superiores religiosos provinciais e articulado por Dom Helder, partiu o primeiro grito mais consistente de crítica social e política ao regime militar, com o Manifesto de 1973: "Ouvi os clamores de meu povo". O documento, considerado subversivo pelo regime, só pode se espalhar clandestinamente em edições mimeografadas e prontamente recolhidas pelos militares e pela polícia quando encontradas.
Dom Helder foi calado pelo regime militar e colocado no mais rigoroso ostracismo, mormente após o AI-5, em 1968. Foi proibido pela censura que rádios, jornais e televisões de todo o país retransmitissem suas mensagens ou até escrevessem ou pronunciassem seu nome. Só no exterior podia ele falar livremente a multidões cada vez mais numerosas e entusiastas, num sem número de países, mormente na Europa, Estados Unidos e Canadá. Sua forte presença internacional incomodou alguns episcopados, regimes políticos e finalmente Roma, que também cerceou e limitou suas viagens e pronunciamentos.
Nesse sentido, valeu por uma reabilitação, o abraço do Papa João Paulo II a Dom Helder, quando de sua visita ao Brasil em 1980. Ao descer do avião no aeroporto de Guararapes no Recife, ao mesmo tempo em que abraçava o arcebispo banido, exclamou, diante de todos os meios de comunicação do país: "Dom Helder, irmão dos pobres, meu irmão"!
IHU On-Line - Qual foi o papel de Dom Helder dentro do Concílio Vaticano II? Como ele colaborou para que as discussões e mudanças ocorridas em Roma chegassem até o Brasil?
José Oscar Beozzo - No Concílio Vaticano II, Dom Helder cumpriu um duplo papel, de animador e incentivador de propostas e iniciativas corajosas e proféticas, e de articulador incansável da maioria conciliar.
Valendo-se da posição estratégica que ocupava no terceiro maior episcopado mundial, como secretário-geral da CNBB e de sua função de vice-presidente do CELAM, que estreitava laços e de algum modo representava os 600 bispos latino-americanos e caribenhos, quase um quarto do episcopado mundial, Dom Helder mobilizou a ambos os episcopados para uma iniciativa audaciosa. Semanalmente na Domus Mariae, local de residência, durante o Concílio, dos bispos do Brasil, Dom Helder, junto com Larrain do CELAM e Etchegaray, secretário da Conferência Episcopal francesa, com o apoio do Cardeal Suenens, um dos moderadores do Concílio, passou a reunir representantes das conferências episcopais da Europa, Ásia, África, Oceania e Américas.
Essas reuniões influenciaram a agenda, as votações e os conteúdos do Concílio, por sua capacidade de refletir, avaliar, propor e articular uma ação concertada dos principais episcopados, vertebrando de certo modo a assembléia conciliar.
Dom Helder participou igualmente de algum dos grupos informais mais atuantes no Concílio, como o Grupo da Igreja dos Pobres, que reunia bispos dos vários continentes preocupados com o compromisso da Igreja com os pobres e com suas lutas para superar os males da pobreza e da miséria, por meio de maior justiça e de um desenvolvimento integral que atingisse a todos, de modo particular, os mais empobrecidos enquanto países e classes sociais.
Articulou o nascimento do Opus Angeli, grupo que acertou uma forma organizada de teólogos e especialistas nas diferentes ciências humanas e sociais de prestarem uma assessoria qualificada ao episcopado brasileiro. Essa colaboração foi estendida depois a outros episcopados e, sobretudo, às conferências episcopais articuladas entre si no Grupo da Domus Mariae.
Em relação ao episcopado brasileiro, tomou iniciativa e incalculável alcance o ciclo de Conferências, que passou a ser organizado na Domus Mariae a partir da primeira sessão conciliar e que se ampliou e a diversificou nas três sessões subseqüentes. Ali, para cada um dos temas em discussão na Aula Conciliar, foram convidados os melhores teólogos e especialistas dos vários países para falar aos bispos do Brasil, qualificando o episcopado brasileiro para uma participação cada vez mais consciente e fundamentada nos debates, propostas e votações conciliares. Fez assim, da CNBB, um verdadeiro Fórum de debates de todos os temas e assuntos conciliares, por mais difíceis e delicados que fossem.
Essa longa e enriquecedora convivência romana ao longo das quatro sessões conciliares fez da CNBB o episcopado que melhor se preparou para a recepção conciliar, o único a sair de Roma com um plano de aplicação do Concílio, pensado, debatido e votado no seu conjunto e detalhes e que foi batizado de PPP: Plano de Pastoral de Conjunto.
Dom Helder, que nunca falou na Aula Conciliar, tornou-se um dos mais ouvidos e respeitados padres conciliares. Sua voz que não se fez ouvir na Basílica de São Paulo estava quase que diariamente presente nos meios de comunicação social, com inumeráveis entrevistas e conferências, que eram retransmitidas pelas rádios e televisões de todo o mundo.
Sua grande tribuna conciliar foram os meios de comunicação social, tendo-se tornado um amigo de centenas de jornalistas que cobriram regularmente o Concílio de 1962 a 1965. Isso ajuda a explicar e enorme audiência internacional de Dom Helder, também nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II.
IHU On-Line - Muito se comenta sobre o "Pacto das Catacumbas", documento assinado por cerca de 40 padres, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio, que teve grande influência na Teologia da Libertação. Poderia contar-nos mais detalhes sobre esse pacto?
José Oscar Beozzo - O Pacto das Catacumbas foi firmado pelos bispos pertencentes ao grupo Igreja dos Pobres. Quase 500 outros bispos aderiram ao documento, cujo título era: "O Pacto da Igreja pobre e servidora", explicando assim seu impacto em praticamente toda a Igreja, indo da Europa, passando pela Ásia, África e chegando a América Latina, onde se encontrava o grupo mais numeroso de bispos comprometidos com essa linha de pensamento e ação.
O Pacto se desdobrava em 13 compromissos assumidos conjuntamente pelos seus signatários no sentido de viverem pobremente, quanto à habitação, vestuário, alimentação e meios de locomoção.
Isso explica porque Dom Helder, assim que pode, deixou o Palácio Episcopal de Manguinhos e foi viver pobremente na sacristia da Igreja das Três Fronteiras, no Recife, ou que nunca tenha tido um automóvel ou motorista ou ainda que usasse sua surrada batina branca, com apenas uma cruz de madeira, como insígnia episcopal.
A entrega das terras da arquidiocese a camponeses pobres que ali trabalhavam, empenhando-se em dar-lhes assistência técnica, jurídica e social para que conquistassem autonomia e cidadania, enquadrava-se nos compromissos do Pacto das Catacumbas que propunha ainda:
"Achando a colegialidade dos bispos sua realização mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:
- a participar, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
- a requerermos juntos, ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo, cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres, saírem de sua miséria".
O Pacto propunha também uma mudança radical das relações entre os bispos e os leigos e leigas, sacerdotes e religiosos/as:
"Comprometemo-nos a partilhar na caridade pastoral, nossa via com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosas e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço. Assim:
- esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida com eles";
- suscitaremos colaboradores para serem mais animadores, segundo o Espírito, do que chefes, segundo o mundo;
- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião".
IHU On-Line - A partir da assinatura do Pacto, qual a relação de Dom Helder com a Teologia da Libertação?
José Oscar Beozzo - Em relação à Teologia da Libertação, Dom Helder instaurou em sua vida e em sua ação pastoral local e internacional, práticas profundamente libertadoras. Tanto no Concílio, como de modo particular em Medellín e Puebla, foi um dos inspiradores e realizadores da opção preferencial pelos pobres.
Sua prática libertadora serviu de inspiração e estímulo à reflexão teológica, e seu Instituto Teológico em Recife, o ITER, foi um dos principais laboratórios e centros de produção de uma teologia da libertação colada à prática das comunidades eclesiais de base e aos movimentos populares.
Dom Helder foi um bispo e um pastor da libertação, não se considerando ele mesmo um teólogo, e sim um inspirador e animador da reflexão teológica libertadora.
* Instituto Humanitas Unisinos
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sábado, 4 de outubro de 2008
América Latina/D. ISNARD E PRESIDENTE LUGO, BISPOS E PROFETAS
Selvino Heck *
[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
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3 outubro 2008
Adital - A missa do 6º Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, novembro de 2007, domingo de manhã, no pátio do Centro de Formação Moquetá em Nova Iguaçu, está começando e eis que aparece D. Clemente Isnard. Com seus 90 anos (hoje 91), sobe devagar os degraus para chegar no altar onde vários bispos e padres participavam da celebração. Ao final, numa curta fala, reporta-se ao Concílio Vaticano II, no qual foi um dos principais teólogos, e ressalta o papel dos leigos na Igreja católica. Os leigos, diz D. Clemente, têm liberdade de se expressar, expressarem sua fé, suas convicções, práticas e militância política, como leigos que expressam sua fé. Depois, D. Clemente subiu ao palco do SESC, onde se realizava o Encontro, e ficou presente todo tempo no painel do qual participava Leonardo Boff.
Antes do Encontro, uma grande polêmica instalou-se no Regional Leste 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), envolvendo a diocese de Nova Iguaçu, patrocinadora do Encontro, sobre se os leigos podiam organizar um Encontro de Fé e Política e sobre a presença e participação de alguns dos painelistas convidados. Vários bispos proibiram seus padres e fiéis leigos de participarem do Encontro. A presença de D. Clemente, com sua autoridade e história na Igreja, serviu de chancela, legitimação e bênção a todos os presentes.
Em meados de 2008, D. Clemente publicou uma carta relatando as peripécias que cercaram a publicação do seu livro "Reflexões de um Bispo sobre as Instituições eclesiásticas", com prefácio de José Comblin. A Editora Paulus editaria o livro, mas o Núncio Apostólico proibiu-a de fazer a publicação. Mas escreve D. Isnard: "Como sou teimoso, consegui uma editora que se interessou pelo assunto do livro e se ofereceu para publicá-lo".
Fernando Lugo assumiu a presidência do Paraguai em agosto. Lugo é ou foi Monsenhor, bispo. Na posse não usou gravata e foi de sandálias, como sempre fez e andou em toda sua vida. Reafirmou seu compromisso com os pobres e trabalhadores, disse que vai fazer a Reforma Agrária e quer renegociar os termos do acordo com o Brasil sobre a energia produzida em Itaipu, feito pelos militares.
Dois fatos, dois momentos. Um bispo publicando um livro para discutir "a nomeação dos bispos, bispos auxiliares e eméritos, o celibato sacerdotal e a exclusão das mulheres do Sacramento da Ordem". Outro (ex)bispo assumindo a presidência de um dos países mais pobres da América do Sul, depois de sessenta anos de domínio de um mesmo e único partido, o Colorado, e dizendo: "O povo deve ser protagonista"; "desejamos um modelo econômico diferente, baseado também na economia camponesa, ou seja, fortalecer as pequenas e médias indústrias, algumas familiares, como já existem; "as mudanças na América Latina estão acontecendo, como no governo de Tabaré Vasquez, com Lula no Brasil, Evo na Bolívia".
D. Clemente Isnard, em entrevista, afirmou: "Eu acho que a discussão sobre esses temas (os do livro, citados acima) somente fará bem. A Igreja é santa e pecadora. E a história mostra que as mudanças demoram séculos para acontecer. Talvez tenhamos que esperar um milênio, mas temos que ser insistentes. Com o livro, quero apenas conscientizar as pessoas". E sobre eventuais polêmicas com o Vaticano, respondeu: "Tudo farei sob a luz do Evangelho, que pediu para não nos comportarmos como fariseus".
O Paraguai esperou 60 anos, depois de muita perseguição política, autoritarismo e ditaduras, escravidão e exclusão da maioria indígena, para ter um governo democrático e de esquerda, à frente um bispo da Teologia da Libertação. A Igreja católica, meio século depois do Concílio Vaticano II, proíbe a publicação de um livro por editora católica de um dos bispos mais reconhecidos internacionalmente no campo litúrgico. Estamos, finalmente no século XXI no Paraguai, respirando ares democráticos e de futuro. E estamos, mais uma vez, respirando os ares conservadores da Igreja católica que, em sua história milenar, tem dificuldade de aceitar o diferente e o novo, de voltar-se sobre si mesma, sua burocracia e seus arcaísmos pouco evangélicos.
Mas quando D. Isnard resolve publicar seu livro por outra editora, quando D. Lugo resolve enfrentar a Igreja e ser candidato, viu-se que há vida. E onde há vida, o novo, o inesperado e a esperança vicejam e acontecem.
O Profeta, em qualquer época, já no Antigo Testamento, não esperou ser abençoado previamente ou receber louvores. Ele veio para proclamar a verdade e a verdade muitas vezes dói. Ele fala na radicalidade da mensagem e da palavra. Ele destrói preconceitos e estruturas viciadas. Ele aponta o amanhã, cria a esperança.
Mudar a sociedade e a cultura política paraguaia exige coragem, compromisso e visão de futuro. Mudar a estrutura da Igreja católica exige profetismo, coragem e testemunho. Mas é assim que a história avança e oferece o inusitado. Quebram-se barreiras, limites, trava-se o bom combate, permanece a fé.
A autoridade e a sabedoria de D. Clemente Isnard permitem a ousadia, e permite a todos os leigos e leigas discutir sua voz, seu espaço, presença e participação na Igreja. A determinação de Fernando Lugo abre a possibilidade do Paraguai, junto com os irmãos dos povos sul e latino-americanos, dar, finalmente, vez e voz aos índios, esses que resistiram e resistem falando guarani, e a todos/as humilhados/as e ofendidos/as da história.
Os profetas existem e acontecem. Viva os profetas!
* Assessor Especial do Presidente
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terça-feira, 17 de junho de 2008
Brasil/REFLEXÕES DE UM BISPO

Dom Clemente Isnard *
16 junho 2008 [ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
www.adital.com.br
Carta de Dom Clemente Isnard sobre as peripécias da publicação do seu livro
Quem tem medo da verdade?
Quem quer calar os Profetas?
Quem quer zerar o Concílio Vaticano II
e voltar para a Igreja-Poder e para a centralização vaticana?
(João Tavares)
No dia oito de julho do ano passado, completei noventa anos e, a convite de um grande amigo, pe. José Romero Rodrigues de Freitas, vim a Recife para festejar a data com os amigos daqui.
Celebrei a Missa na Igreja das Fronteiras, onde está bem viva a lembrança de nosso inesquecível Dom Helder Camara, com muitos concelebrantes e mais duas centenas de amigos. No meu sermão terminei, depois de narrar os quatro períodos de minha longa vida, aludindo a um projeto de futuro. Que ousadia era fazer projetos aos noventa anos! E dizia: reatando com a mocidade, lutar pelo Movimento Litúrgico, pelo Concílio Vaticano II, por uma Igreja sem Núncio Apostólico e sem Cúria Romana (entenda-se sem a Cúria Hiperatrofiada de hoje).
Ouviu esse sermão o grande teólogo José Comblin, que me animou a escrever. No segundo semestre de 2007 escrevi um livrinho com o título de "O que o Concílio não fez" e pedi ao padre Comblin para ler antes da publicação e escrever o Prefácio. O que ele fez, sugerindo uma mudança de título para "Reflexões de Um Bispo sobre as Instituições Eclesiásticas".
Em dezembro de 2007 procurei a Editora Paulus para publicar o livro. Aceitou a incumbência e conversei com muitas pessoas sobre o conteúdo do livro. Em fevereiro fui surpreendido por um telefonema da Paulus dizendo que o livro estava pronto para publicação, mas que não poderiam editar por terem recebido uma proibição do Núncio Apostólico, Dom Lourenzo Baldisseri. Não procurei diálogo com essa autoridade eclesiástica que não me procurou diretamente, mas se dirigiu por cima de minha cabeça à Editora.
No mês de março, estando em Recife, recebi uma atenciosa carta do Regional Leste 1, assinada por todos os bispos do mesmo Regional. Nessa carta pediam que eu não publicasse o livro.
Evidentemente, a opinião unânime dos bispos da região me confundiu, mas não me convenceu. Respondi a cada um dos companheiros uma carta do mesmo teor, em que estranhava que tivessem condenado o livro sem o ter lido (não sei qual dos bispos o teria lido) desprezando a opinião de um teólogo que já publicou mais de 50 obras e que tinha corrigido o livro e redigido o Prefácio, Padre José Comblin. Como sou teimoso, consegui uma editora que se interessou pelo assunto do livro e se ofereceu para publicá-lo.
A Igreja tem um organismo em Roma encarregado de examinar a doutrina dos livros que se publicam no mundo inteiro. Mas o meu livro nada tem contra a doutrina da Igreja. É um livro não de doutrina, mas de disciplina da Igreja que tem variado incessantemente nesses dois mil anos de vida, e ainda recentemente teve um Concílio Ecumênico de Reforma, o Vaticano II.
O Concílio Vaticano II foi elogiado pelo Papa Paulo VI, que o presidiu depois de João XXIII, como um dos maiores e melhores Concílios da História da Igreja pelo número de participantes, pelo número de documentos promulgados, e pela extensão de sua preocupação também com a vida da humanidade. No Concílio eu me habituei com as lutas internas da Igreja, que não terminaram. Há muitas coisas nas Instituições Eclesiásticas que deveriam ter sido corrigidas. Coisas grandes e pequenas. O Concílio fez muito mas não pode fazer tudo. Será que João XXIII teria presidido melhor que Paulo VI ? Agora é preciso abordar os temas que foram tocados pelo Concílio mas não concluídos, para que sejam resolvidos por quem de direito.
São grandes os problemas da Igreja hoje: A nomeação dos Bispos, os Bispos Auxiliares e os Eméritos, o Celibato Sacerdotal e a Exclusão das mulheres do Sacramento da Ordem. Desses cinco assuntos é que trata o livro que será lançado no dia 13, às 19:00hs, na Igreja das Fronteiras em Recife.
Os que se interessarem por esses problemas da Igreja devem procurar companheiros e organizar grupos de estudo, para aprofundamento dos assuntos e procura de soluções.
Dom Clemente Isnard
Bispo Emérito de Nova Friburgo, Rio de Janeiro
Leia a Reportagem e entrevista publicadas pelo Diário de Pernambuco, em 12 de junho de 2008.
Bispo lança livro e desafia leis da Igreja
Por Jailson da Paz, Diário de Pernambuco
Há temas que quase toda pessoa, seja católica ou não, gosta de se posicionar. Alimentar discussões e polêmicas. Entre eles o celibato sacerdotal e o direito das mulheres celebrarem missas. Já o Vaticano costuma tratar os assuntos com certo cuidado. E poucas vozes da Igreja, nas últimas décadas, ousaram contribuir com o debate fora das paredes dos seminários e das cúrias. O bispo emérito da Diocese de Nova Friburgo (Rio de Janeiro), dom Clemente Isnard, resolveu derrubar tais barreiras. Aos 90 anos e reconhecido internacionalmente por seu trabalho no campo litúrgico, ele lança hoje o livro - Reflexões de um bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais - que promete jogar lenha na fogueira. E não fala apenas do celibato e das mulheres, trata de um dos pontos quase intocável no Vaticano: a participação dos leigos na escolha dos bispos. Um sinal de reconhecimento ao trabalho feito por dom Helder Camara.
"Fala-se tanto na falta de sacerdotes, nas paróquias sem padres, nos padres que se secularizaram deixando o ministério. E não se pensa nos padres de valor e que se casaram e que poderiam ter continuado no ministério se a Igreja lhes tivesse concedido matrimônio", argumentou o bispo emérito. Dom Isnard encontra justificativa para seu posicionamento na experiência. Foram mais de 30 anos à frente da Diocese Nova Friburgo. E também no conhecimento histórico. Ele lembra que a exigência do celibato apareceu pela primeira vez por volta do ano 300, mas que ainda hoje as igrejas orientais católicas permitem que padres se casem. Segundo o religioso, a multiplicação dos diáconos permanentes é um sinal de que o padre casado seria bem aceito em muitos lugares. Os diáconos são homens casados ou celibatários que podem pregar, mas não estão autorizados a consagrar a hóstia e o vinho.
Dom Isnard recorre ao olhar de pastor para se posicionar em defesa das mulheres. "Em minha longa vida conheci padres incapazes de ser párocos e conheci também religiosas e leigas consagradas com capacidade de dirigir comunidades", testemunhou. Para o monge beneditino, a dispensa do celibato não é uma mudança teológica, mas disciplinar. E sugere a necessidade de se analisar a Bíblia, quando São Paulo afirma que todos - judeu e grego, servo e livre, homem e mulher - são iguais perante Deus. "Esse me parece um poderoso argumento bíblico em favor da ordenação de mulheres", acredita.
As análises do autor se voltam também para a eleição dos bispos. "Em nossos dias o povo não é ouvido na eleição, mas pode se manifestar na hora do enterro", afirma, lembrando que a participação dos leigos nas eleições era comum no primeiro milênio de existência da instituição. Essa a prática foi caindo em desuso com a crescente interferência dos reis. Diante do que viveu e conhece, o bispo emérito defende que o ideal seria voltar ao regime do primeiro milênio, onde bispos, clero e povo participavam das escolhas.
O povo, exemplifica, seria homens e mulheres engajados na Igreja, idosos e jovens, em número que expressasse as duas categorias E conclui, de maneira incisiva que a "descentralização das nomeações episcopais traria um alívio notável para as finanças da Sé Apostólica, uma vez que o pessoa da nunciatura não precisaria ser tão numeroso". Coincidência ou não, dom Isnard contou que uma cópia do seu livro foi entregue ao núncio apostólico no Brasil antes da publicação. E esse teria pedido a Editora Paulus, com quem estava outra cópia do texto, para não publicar o livro.
Ainda sobre os bispos, dom Isnard se pergunta como recuperar um episcopado zeloso, culto e avançado. Ele mesmo responde que na situação atual seria necessário um novo concílio ecumênico para completar o Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965 e responsável por mudanças na Igreja. Uma delas foi permitir a celebração das missas em diversas línguas, acabando com a ditadura do latim. Mesmo apontando o caminho, o bispo emérito acredita que dificilmente haveria mudanças hoje. Isso porque a Cúria Romana prepara e redige tudo.
Leia a Entrevista com D. Clemente Isnard:
'Não nos comportemos como fariseus'
A dedicação de dom Clemente Isnard à Igreja Católica se aproxima de sete décadas. Nesse tempo, ele assumiu diversas funções. Foi o primeiro bispo de Nova Friburgo, vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), além de ter participado como padre conciliar de todas as etapas do Vaticano II e integrado comissões junto à Santa Sé. O bispo emérito conhece bem os caminhos da Igreja, especialmente no campo litúrgico. Parte desse conhecimento está no livro Viver a liturgia também a ser lançado hoje, no qual reúne uma série de reflexões. Na obra, dom Isnar afirma que, à medida que a idade vai chegando, sente-se mais livre para escrever o que pensa. "Gozando de plena liberdade, posso elogiar ou criticar também autoridades eclesiásticas sem considerar cargos ou pessoas", salienta. Essa firmeza pode ser vista na entrevista abaixo:
Por que escrever sobre temas polêmicos como o celibato e a escolha dos bispos?
- Para dar meu testemunho como bispo para o povo.
E como surgiu a idéia da publicação?
- Depois da missa de meus 90 anos, na Igreja das Fronteiras, no ano passado. Na homilia, falei dos meus sonhos para a Igreja e depois da celebração. O padre José Comblin, da Paraíba, pediu para eu escrever. O livro é o resultado.
O senhor recebeu alguma pressão para não publicar o livro?
- Quando o texto estava pronto, uma cópia foi tirada do meu computador sem minha autorização indo parar nas mãos do núncio apostólico, dom Lourenzo Baldisseri, que pediu a Editora Paulus para não publicar o trabalho. O livro está saindo por outra editora, a Olho d'Água.
Alguma autoridade chegou a pedir diretamente para que o senhor desistisse?
- Todos os bispos do Regional Leste 1, que reúne as dioceses do Rio de Janeiro, fizeram uma carta me pedindo para não publicar o livro. Eles alegavam que os assuntos poderiam ser mal interpretados e isso seria ruim para a Igreja.
Não teme repercussões negativas?
- Meu Deus! Eu acho que a discussão sobre esses temas somente fará bem. A Igreja é santa e pecadora. E a história mostra que as mudanças na Igreja demoram séculos para acontecer. Talvez tenhamos que esperar um milênio, mas temos que ser insistentes. Com o livro, quero apenas conscientizar as pessoas.
E se o Vaticano chamar o senhor como fez com Leonardo Boff nos anos 80?
- Já estou velho, mas vou lá. Repito o que está no livro e outras coisas mais. Tudo farei sob a luz do Evangelho, que pediu para não nos comportarmos como fariseus.
O senhor pensa escrever outros livros desse tipo?
- Sim. E penso em incluir um capítulo que, a princípio, seria publicado nas reflexões atuais, mas retirei por sugestão de um padre que fez análise do livro.
E de que tratava?
- Nesse capítulo, eu abordava a questão dos bispos auxiliares, tendo como fundamento experiências vividas em dioceses brasileiras.
* Bispo Emérito de Nova Friburgo, Rio de Janeiro
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quinta-feira, 5 de junho de 2008
BRASIL - MARTÍRIO E MISSÃO A PARTIR DAS CEBS
[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina www.adital.com.br
4 junho 2008
RM * Por Dirceu Benincá
Sacerdote, doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP e mestre pela mesma universidade. É coordenador dos cursos online no CESEP/SP, membro da equipe nacional de CEBs e co-autor do livro CEBs: nos trilhos da inclusão libertadora. São Paulo, Paulus, 2006.
Com maior ou menor intensidade, ao longo da história do cristianismo sempre houve batismo de sangue por causa da fé. Em tempos mais recentes, na América Latina e Caribe, os mártires se multiplicaram. Isso evidencia, por um lado, o aprofundamento das injustiças e desigualdades sociais e, por outro, a resistência e a luta do povo na defesa dos diversos direitos, da vida e da dignidade humana. O mártir é alguém consciente da conjuntura sócio-histórica; da ordem que produz a desordem; das forças que geram a fraqueza. É portador de um projeto coletivo. Pensa para além das contradições do presente; enxerga através da noite escura e ousa ajudar o dia a clarear. Doa-se aos poucos ou tudo de uma vez, ancorado em uma espiritualidade profético-libertadora.
CEBs: uma Igreja martirial
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) têm suas raízes no movimento desencadeado por Jesus de Nazaré. Surgidas no contexto do Concílio Vaticano II (1962-1965), ao longo de sua história foram vistas com suspeita, questionadas e até perseguidas. Alguns as rotularam de subversivas e comunistas. Porém, elas significam uma nova expressão eclesial; um espaço de evangelização, de vivência fraterna e tomada de consciência da realidade.
Em 1979, na Conferência de Puebla, os bispos disseram: "Está comprovado que as pequenas comunidades, sobretudo as Comunidades Eclesiais de Base criam maior inter-relacionamento pessoal, aceitação da Palavra de Deus, revisão de vida, reflexão sobre a realidade, à luz do Evangelho; nelas acentua-se o compromisso com a família, com o trabalho, o bairro e a comunidade local [...]. Elas constituem ambiente propício para o surgimento de novos serviços leigos..." (DP 629).
As CEBs procuram ser ecumênicas, abertas ao diálogo, inculturadas e inclusivas. Articulam fé-vida e religião-política; promovem a solidariedade e valorizam a diversidade, buscando a libertação integral das pessoas. São espaços de formação da consciência crítica, de construção de relações democráticas, ecológicas, étnicas, de gênero. São comunidades que não se acomodam diante da realidade, mas procuram transformá-la.
Desde o início da colonização, a América Latina vem sendo regada pelo sangue de muitos mártires. "Esse martírio de nossa América tem, já desde as origens da evangelização no continente, duas peculiaridades: é um martírio pelo "pobre" e pelo "outro". Entre nós o conceito de martírio se alargou. Nossos mártires são mártires pelo Reino, não somente pela estrita confissão de um artigo de fé cristã. Nossos mártires não só deram o sangue "pela Igreja"; deram-no também "pelo povo" [...]. Em sua oblação pela causa maior do Reino, nossos mártires são testemunhas de sangue de causas específicas, novas em certa medida e bem nossas. Mártires pelo Reino da Vida, vidas dadas pela vida. Contra todos os deuses da morte que nos espreitam, tão atualizados pelo lucro, pela prepotência, pela marginalização". (CASALDÁLIGA, Pedro. Cartas marcadas. São Paulo, Paulus, 2005, p.185.)
Nos últimos 25 anos, mais de duas mil lideranças sem-terra foram assassinadas no Brasil, na luta por dignidade e direitos. Para as CEBs, os mártires têm um relevante significado místico, teológico e sócio-político. Eles atualizam a memória do mártir Jesus Cristo, que foi processado e linchado como malfeitor pelo sistema da época.
Missão das CEBs hoje
No atual mundo globalizado e mercantilizado, somos induzidos a esquecer a memória, renunciar a cruz e desacreditar na utopia do Reino. Entretanto, as CEBs entendem que o resgate permanente da história, o cultivo da espiritualidade libertadora e o fortalecimento do sonho de uma sociedade mais justa e igualitária são condições indispensáveis para seguir a caminhada.
Através de sua práxis, os mártires expressam sua consciência crítica sobre o contexto em que atuam e sua decisão radical pela transformação da realidade. Veja-se o testemunho de Dorothy Stang: "não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar".
Celebrar a memória de alguém que foi martirizado é, em primeiro lugar, valorizar seu espírito e sua atitude de entrega da vida. Nisso consiste a grande diferença entre um santo tradicional e um mártir que morreu na luta pela justiça social. Normalmente, pede-se para o santo tradicional uma graça ou um milagre pessoal. O mártir, no entanto, suscita em nós o desafio de continuar lutando na mesma causa pela qual ele derramou seu sangue.
Na Conferência de Aparecida, o tema do martírio esteve presente. O Documento Final incentiva a assumir o projeto de Jesus Cristo, defendendo a vida das pessoas e da natureza até o martírio, se for preciso. Também retoma o método ver-julgar-agir consagrado pelas CEBs. Os bispos declaram: "queremos decididamente reafirmar e dar novo impulso à vida e missão profética e santificadora das CEBs, no seguimento missionário de Jesus. Elas foram uma das grandes manifestações do Espírito na Igreja da América Latina e do Caribe depois do Vaticano II" (DA 194).
Em nosso continente sofrido, as Comunidades Eclesiais de Base deram importante contribuição na formação de discípulos e missionários do Senhor. Muitos de seus membros chegaram, inclusive, a derramar o próprio sangue em gesto de entrega generosa pelo Reino de Deus. "Elas arrancam da experiência das primeiras comunidades, como estão descritas em Atos dos Apóstolos (cf. At 2, 42-47). Enraizadas no coração do mundo, são espaços privilegiados para a vivência comunitária da fé, mananciais de fraternidade e solidariedade, alternativa à sociedade atual, fundada no egoísmo e na competição" (DA 193).
Em meio à diversidade de ofertas religiosas e espiritualistas, as CEBs mantêm vivos a dimensão e o espírito profético da Igreja. Seu projeto e método seguem tendo um papel fundamental na luta pela libertação dos pobres e excluídos. Esse jeito de ser Igreja não perderá sua importância enquanto houver fome, miséria, opressão, exclusão, violência, injustiça, corrupção, agressão à dignidade, depredação do meio ambiente etc. Longe de estarem superadas, elas são mais atuais e necessárias do que nunca!
[Publicado na edição Nº05 - Junho 2008 - Revista Missões].
* Revista Missões
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sábado, 31 de maio de 2008
Brasil - CARTA MANIFESTO DOS PADRES NA POLÍTICA PARTIDÁRIA*
[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina www.adital.com.br
Adital - VI Encontro Mineiro dos Padres na Política - 13 e 14/05/2008
"Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados."
Nos dias 13 e 14 de maio de 2008, na Igreja do Carmo, em Belo Horizonte, aconteceu o VI ENCONTRO MINEIRO DOS PADRES NA POLÍTICA PARTIDÁRIA, com a participação de 20 padres e alguns leigos/as.
Nas últimas eleições, mais de cem padres participaram das disputas. Em Minas Gerais, nove deles foram eleitos prefeitos. E alguns foram eleitos vereadores e deputado. Outros se candidataram à (re)eleição e perderam. Uns fizeram campanha mesmo sem se candidatar a nenhum cargo eletivo.
Os bispos do Brasil, obedecendo ao Vaticano, estão tendo dificuldade em compreender a participação de padres na política partidária. Alguns deles já disseram que o padre que se candidatar será suspenso do ministério sacerdotal durante a campanha e, se eleito, durante o exercício do mandato. Isso revela um fechamento da Igreja Instituição. Suspender o ministério sacerdotal de padres que disputam eleições, mas tolerar políticos profissionais que usam as comunidades eclesiais para seduzir o povo é contraditório.
Sob a inspiração do Vaticano II, das Comunidades Eclesiais de Base, da Opção pelos Pobres e da Teologia da Libertação, muitos padres abraçaram a evangelização com inserção no mundo da Política. A história mostra a participação de inúmeros padres na vida política do Brasil: Pe. Cícero, Pe. Ibiapina, Frei Caneca, Pe. Lage (em Belo Horizonte), Hugo Paiva (no RJ) etc. Muitos sacerdotes foram perseguidos por denunciar tantas injustiças contra as pessoas e muitos foram martirizados. Só para citar alguns: Pe. Ezequiel Ramin, Pe. Gabriel, Pe. Josimo, Dom Oscar Romero Os anais da história política dos pequenos municípios mostram padres que participaram ativamente na política partidária com mandatos no executivo e legislativo e que contribuíram muito para a melhoria de vida do povo. Até um bispo salesiano, Dom Aquino Correia, chegou a ser governador do Estado do Mato Grosso.
Uma espiritualidade bíblica libertadora mostra-nos a íntima relação existente entre fé e política. Não dá para ficar de braços cruzados diante da injustiça estrutural que está triturando a vida de grande parte da população. O Papa Paulo VI recordou-nos que fazer política é a forma mais nobre de amar o próximo. O Documento de Aparecida também insiste muito na participação política dos cristãos, entre os quais estão os padres.
O povo, cansado de políticos clientelistas e assistencialistas, quando percebe que um padre está fazendo um bom trabalho à frente de uma igreja, animando as comunidades, estimulando a participação popular, consolando os aflitos, mas também denunciando injustiças, começa a pedir ao padre que assuma o governo da cidade. Assim, em um mutirão de cidadania, o povo desafia o poder econômico e, com consciência política, elege padres que já se revelaram bons pastores de comunidades cristãs. Após serem eleitos, alguns desses padres sofrem perseguições de líderes da própria Igreja Instituição, na pessoa do bispo, ou superiores e dos próprios colegas de sacerdócio que não conseguem entender que é possível trabalhar a dimensão político-partidária como instrumento de construção de vida e liberdade para todos e tudo.
Há padres que são advogados, diretores de escola, professores, operários, .... Por que um padre não pode assumir um cargo político? "Divide a comunidade", dizem muitos. Engano! Muitas vezes a unidade preconizada é só espiritual e aparente, não é uma unidade real e concreta, pois continuam comungando na mesa da eucaristia pessoas que são solidárias aos oprimidos, ao lado de pessoas que, no dia-a-dia, estão em estruturas de opressão. Se o padre ou o pastor se posiciona politicamente, corre o risco de perder alguns fiéis, mas a comunidade ganhará em qualidade. Explicita as divisões internas na comunidade e faz vir à tona as opções que negam a postura evangélica. O ministério sacerdotal não se restringe ao âmbito interno da Igreja, mas, em regime de exceção, pode incluir a administração pública, no exercício de cargos administrativos.
É questionável o princípio ético que diz: "Para não dividir a comunidade, padre não deve se candidatar, não deve indicar candidatos, não deve se posicionar politicamente".
Considerando que a Mídia está nas mãos de oligarquias econômicas e que mais manipula do que informa, o compromisso dos padres políticos contribui para ajudar o povo a discernir qual projeto apoiar e em quem votar. A grande parte dos melhores candidatos é, geralmente, os que têm menor poder aquisitivo para investir em campanha eleitoral. Como cidadãos temos responsabilidades, direitos e deveres. Política é osso duro de roer, se não roermos esse osso, seremos roídos pelos corruptos da política profissional.
Religião e Política não se separam. O nosso mestre Jesus de Nazaré foi condenado à pena de morte por um complô dos poderes político-econômico e religioso. Não participar da Política, omitir-se, é a pior forma de fazer Política. A sabedoria popular diz: "A pior política é a política dos braços cruzados". Política é uma das melhores formas de amar o próximo, pois encaminha a resolução dos problemas a partir da raiz.
Se os padres que são realmente comprometidos com os processos de transformação social demonstrarem sua identidade política, sugerindo nomes para as eleições, ou se candidatando, contribuem mais com o projeto de Deus, via qualidade de vida das pessoas. Grande parte dos eleitos na democracia capitalista compra o direito de ser representante do povo - não são seus legítimos representantes.
A unidade verdadeira é a construída com base em uma grande diversidade, é fruto da superação de conflitos e não do escamoteamento de tensões. Respeitar o outro como semelhante e parceiro é sinal de grandeza. O uniformismo empobrece. Se como regra não dá para defender que a maioria dos padres deva se candidatar, como exceção, acreditamos ser fundamental respeitar o direito de uma minoria de padres que se sentem vocacionados, assumindo ou não mandatos políticos, para participar ativamente da política partidária. .
Não é verdade também dizer que "padre que assume mandato político está desistindo do sacerdócio". Muitos padres, após assumirem mandatos políticos, continuam amando o ministério sacerdotal e dando um bonito testemunho de compromisso ético no meio da podridão da política partidária. Sentem que, com uma missão política, o desempenho do sacerdócio é qualificado. Muitas vezes a desistência ocorre por falta de apoio.
Reconhecemos o testemunho profético de Dom Fernando Lugo que abriu mão do ministério episcopal e aceitou ser eleito presidente do Paraguai. Com Dom Demétrio Valentini dizemos: "O significado desta eleição não se limita ao fato raro e singular de um bispo concorrer à presidência de república e ser eleito por expressiva maioria. Estamos diante de um dos verdadeiros "sinais dos tempos", que precisa ser bem interpretado, pois aponta para muitas direções. A eleição de Fernando Lugo significa a afirmação da identidade de um povo, desejoso de assumir sua história, e ansioso por ver respeitada sua dignidade e sua capacidade de participar, em pé de igualdade, na construção da solidariedade latino-americana. A eleição de um bispo católico como presidente da república traz consigo uma clara proposta patriótica, ética e política. No seu novo presidente, o povo paraguaio quer expressar sua capacidade de construir uma nação baseada em valores morais que servem de fundamento, tanto para a convivência interna como para a externa. Posso imaginar o que se passa agora na cabeça de Fernando Lugo, recordando os encontros que fazíamos como bispos do CELAM, sonhando com a integração fraterna dos povos latino-americanos. Ele carregava uma inquietação política, que o levou a renunciar à própria diocese, para colaborar na caminhada do seu povo como cidadão comum. De repente, o povo paraguaio lhe confiou a enorme tarefa de resgatar a dignidade do seu país, sacudindo equívocos internos e postulando justiça e respeito internacional. Lugo, vá em frente! Estamos torcendo por você. Seu nome expressa urgência. Lugo e "logo" carregam a mesma insistência. Pode contar com nosso apoio. Que Deus o ajude a cumprir esta nova missão que a Providência lhe confiou!"
Repudiamos, com indignação, a postura de quem pretende ser dono das pessoas e do poder e faz o que quer sem pelo menos escutar o outro. O problema não é padres participarem da Política. Problema é muitos padres abandonarem o mundo da Fé-Política.
O nosso MANIFESTO é em defesa de todos que assumiram de verdade o Evangelho de Jesus Cristo em sua vida, todos os que são capazes de se indignar contra qualquer tipo de injustiça. Provavelmente, o engajamento de padres na Política e na política partidária, questão controvertida para muitos setores eclesiásticos, expresse o que os evangelhos fizeram questão de registrar sobre o testemunho de Jesus ameaçado de morte (e de ressurreição): "Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas a divisão". (Mat 10,34; Lc 12,51). O Galileu enfrentou os conflitos, tomou partido do lado dos oprimidos e, por isso, foi condenado à pena de morte. Não se contentou com uma paz de cemitério, nem com uma unidade aparente.
*Assinam pelo Grupo Mineiro de Padres na Política:
Padre Henrique de Moura, de Belo Horizonte/MG, e-mail: hmourafaria@uai.com.br
Frei Gilvander Luís Moreira, de Belo Horizonte, e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
Padre José Geraldo de Melo, de Itabira/MG, e-mail: panosa@terra.com.br
Padre Dimas de Paulo Ferio, Mogi das Cruzes/SP, e-mail: padredimas@terra.com.br
Padre Roberto Moreira, de St. Antônio da Vargem Alegre/MG, e-mail: silvavkl@oi.com.br
Padre Alírio Bervian, Altamira/PA, tel.: (93) 3515-1761
Padre João Carlos Siqueira, dep. estadual/PT de MG, e-mail: dep.padre.joao@almg.gov.br
Padre José Geraldo Magela Vidal, de Guaraciaba/MG, tel.: (31) 3893-5128
Dílson Alves Paiva, e-mail: dilsonpaiva@gmail.com.br
Padre Adelar Pedro de David, (São João do Meriti - RJ), e-mail: padreadelar@ig.com.br
Padre Ernesto de Freitas Barcelos, de Riacho dos Machados/MG, 038 3823 1203
Padre Geraldo João Lima, de Nova Iguaçu/RJ, e-mail: geraldojoaolima@ig.com.br
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sábado, 26 de abril de 2008
MAIS UMA VITÓRIA DOS SETORES POPULARES SUL-AMERICANOS
Com figuras bem diferentes, mas em grandes linhas numa mesma direção, temos uma equipe de governantes inédita, no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela a agora no Paraguai, ainda que possamos fazer reparos aqui ou ali a um ou outro.
Data: 22/04/2008
Faz alguns meses escrevi que o protagonismo popular ia ameaçando cada vez mais as elites latino-americanas retrógradas. Temos uma nova vitória dos setores populares, fechando o cerco no Mercosul e quase cobrindo o mapa da América do Sul. A alegria pela eleição de Fernando Lugo é semelhante à que sentimos com Lula em 2002 e, mais adiante, com Evo Morales na Bolívia. Com figuras bem diferentes, mas em grandes linhas numa mesma direção, temos uma equipe de governantes inédita, no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela e agora no Paraguai, ainda que possamos fazer reparos aqui ou ali a um ou outro. Peru é um caso mais complexo, onde o partido no governo, o APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana), que nascera em 1924 com uma vocação continental, foi perdendo suas intuições originais. Mas não podemos esquecer que, nas últimas eleições peruanas, um mestiço, Ollanta Humala, ainda que de perfil político pouco nítido, chegou a ameaçar o poder branco tradicional.
Fica isolada a Colômbia, com uma violência que vem de longe, prisioneira de uma guerrilha anacrônica, dos para-militares seus inimigos complementares e de um narco-tráfico em alianças com ambos. Mas a região sul-americana, com exceções que não invalidam a regra, adquire um rosto novo, com o povo pobre entrando como sujeito determinante do processo político. Já meses atrás, Lugo declarou: “o povo deve ser protagonista”. Tão diferente da União Européia que, se por um lado reelegeu Zapatero, por outro deu a vitória ao histriônico Sarkozy ou, recentemente, ao magnata Berlusconi.
O Paraguai esteve em mãos de uma oligarquia autoritária, voraz e corrupta desde sempre, ou pelo menos desde os tempos da chamada “guerra grande”, quando a tríplice aliança praticamente o destruiu. A vitória de Lugo sinaliza um novo e profundo processo histórico de construção, ou refundação do país. E começa logo com a exigência de recuperar uma plena soberania energética diante de seus visinhos Brasil e Argentina. “Yacyretá e Itaipu são tratados leoninos, injustos”, declarou meses atrás.
Provavelmente veremos novamente, pela imprensa, ex-chanceleres e outros arautos de uma linha dura, denunciar sinais de debilidade do governo de Lula e de seu ministro Celso Amorim. Todos eles aceitavam docilmente serem suseranos dos Estados Unidos e, num mecanismo de transferência compensatória, só se sentiam cômodos diante da doutrina golberiniana do “satélite privilegiado”, pela qual havia que tratar os menores como fazia conosco o poder imperial.
Nosso torneiro mecânico presidente e o índio cocalero, iniciaram uma diplomacia totalmente diferente, às vezes com momentos ásperos e difíceis, mas sempre respeitadora dos direitos dos mais fracos. Agora se abrirá certamente um período de discussões, para a revisão do tratado de Itaipu Binacional ou, pelo menos, chegar logo a uma remuneração adequada da energia comprada pelo Brasil ao Paraguai, como indicou Celso Amorim. Este tratado foi negociado a partir de 1966 e assinado em 1973, em pleno governo autoritário entre nós e com políticos venais e autoritários no país vizinho. Aliás, em 1979, houve um acordo tripartite entre Brasil, Argentina e Paraguai sobre água e energia, os três com ditaduras militares.
Para Lugo, não há que esperar 2027, data prevista para a revisão do tratado com o Brasil, mas o fará por via diplomática, num estilo possivelmente diferente do que teve Evo Morales com o gás e o petróleo.
Lugo indica que não seguirá nenhum modelo alheio: “Creio que hoje, na América Latina, não há paradigmas comuns unificados... Temos de fazer nosso próprio caminho para nos integrar e não ser uma ilha entre governos progressistas” (entrevista ao jornal espanhol El País, publicada em 18 de abril). Ao mesmo tempo, tem declarado sua estima plural tanto por Lula, Evo Morales, Rafael Correa, ou Michelle Bachelet, quanto por Hugo Chávez. Temos diante de nós um tempo fecundo e criativo, não isento de tensões normais e indispensáveis, nas novas relações entre o Brasil e o Paraguai.
A escolha de Fernando Lugo
Gostaria, numa segunda parte, de refletir sobre o caso de Fernando Lugo, que trocou o episcopado por uma ação política, fundando a Aliança Patriótica para a Mudança e, depois, por uma candidatura a presidente. Um jornalista da grande imprensa, logo no momento da vitória, insistiu em chamá-lo religioso ou bispo, ao que parece sob o pretexto de que o Vaticano não aceitou seu pedido de secularização ao sacerdócio. Como se as decisões relevantes fossem apenas as que vêm unilateralmente de cima.
Para entender um pouco o tema, temos de examiná-lo nas reflexões dos teólogos dos últimos anos, mas também na história concreta. Uma visão piramidal da Igreja Católica, que vigorou no segundo milênio, desce do episcopado (e ali no alto a primazia do bispo de Roma), passa ao sacerdócio mais abaixo, depois vêm a vida religiosa e os institutos seculares, para chegar finalmente aos chamados leigos e leigas, que curiosamente, nesse elenco tradicional, são a clara maioria, especialmente estas que, numa Igreja machista, vão colocadas em último lugar. Tudo muda se invertermos essa pirâmide, na linha do que o concílio Vaticano II chamou “o povo de Deus”.
Como ponto de partida, somos todos iguais, cristãs e cristãos batizados, do papa à mais simples e humilde fiel. Mas dentro da estrutura eclesial há vários serviços, ou em linguagem católica, ministérios. Uns tem uma missão específica na sociedade, outros missões próprias na instituição eclesiástica.
Porém as fronteiras não são fechadas nem rígidas. Valem alguns exemplos do caso brasileiro. Nos anos 50 e 60, alguns membros da Ação Católica aceitaram trabalhar na estrutura eclesial interna durante alguns anos, organizando e coordenando movimentos de apostolado leigo, a quem a Igreja conferia um “mandato”, isto é, um reconhecimento especial. Os que aí participamos, éramos conhecidos, na linguagem da época, como “permanentes”, por uma dedicação temporária, mas quase exclusiva, a essas tarefas.
Fui, naqueles anos, dirigente nacional e internacional da Ação Católica. Mas nunca deixamos de ser estudantes, operários ou profissionais, seguimos sendo cristãos comuns, leigos como se diz até agora, numa expressão que não me agrada, por ser negativa, igual a não-clérigo. Nessa condição, casamos e constituímos nossas famílias. Entretanto, alguns sentiram uma vocação especial para a vida religiosa ou para o sacerdócio.
Da antiga Associação dos Universitários Católicos (AUC), que precedeu a Juventude Universitária Católica (JUC), Jorge Dale tornou-se Frei Romeu, frade dominicano, por muitos anos admirável assistente nacional da JUC. Outros jovens profissionais se fizeram beneditinos, como José Carlos Isnard, depois D. Clemente, hoje bispo emérito (aposentado) de Nova Friburgo; um médico se tornou monge no Rio e abade em Olinda, D. Basílio Penido, outro, depois de viúvo, também monge no Rio e logo abade na Bahia, D. Timóteo Amoroso Anastácio. Maria de Lourdes Ribeiro de Oliveira passaria a ser Dona Luzia, monja e abadessa em Belo Horizonte, Lia Amoroso Lima, dona Maria Teresa, monja e abadessa em São Paulo, Maria Sílvia Penido, irmã Letícia, beneditina em João Pessoa.
Para não ficar só de um lado do espectro das opções e sensibilidades ideológicas, o jovem Lauro Barbosa seria o monge poeta D. Marcos e Flávio Bittencourt, que acaba de falecer, o inflexível D. Estêvão. Os homens normalmente, mas não necessariamente, acediam ao sacerdócio. Carlos Alberto Libânio Cristo, da equipe nacional da Juventude Estudantil Católica, seria o dominicano Frei Betto, que não quis receber o sacramento da ordem. São alguns exemplos de militantes do “laicato” católico que se fizeram sacerdotes, religiosos ou religiosas.
Em sentido contrário, vários sacerdotes, assistentes eclesiásticos dos movimentos, pediram a secularização, isto é, voltar a ser cristãos comuns. Isso se deu também com figuras importantes do episcopado, em vários países, como Jerônimo Podestá, valente defensor dos direitos humanos em Avellaneda, na Argentina, que deixou o episcopado e se casou. Os processos de secularização foram relativamente ágeis com Paulo VI, lentos e difíceis com João Paulo II. Assim, as situações no mundo laical e no religioso ou sacerdotal, tiveram diferentes vias e direções em dois sentidos.
A Igreja Católica não teve problemas quando alguns sacerdotes assumiram mandatos políticos. Viu com bons olhos Monsenhor Arruda Câmara fundar o PDC e lutar no Legislativo, por anos, para impedir uma lei do divórcio. Não levantou dificuldade em aceitar o direitista padre Godinho como senador. A situação foi diferente quando o monge e poeta Ernesto Cardenal e seu irmão, o jesuíta Fernando, se tornaram ministros do primeiro governo sandinista. Receberam fortes reprimendas, Ernesto em público, com o papa João Paulo II invetivando-o dedo em riste, com nosso monje sorridente, sem entender o que se passava.
Fernando Lugo teve, sob esse ponto de vista, uma atitude clara e exemplar. Fôra por alguns anos, desde 1994, bispo em San Pedro e ali esteve sempre a serviço dos setores populares mais pobres, como Leônidas Proaño, em Rio Bamba, no Equador, bispo dos indígenas, que conheceu de perto e a quem tanto admirou. Entre nós, podemos mencionar, entre outros, Pedro Casaldáliga, Erwin Krautler ou Tomás Balduíno, na linha da teologia da libertação latino-americana e dos encontros de Medellín (1968) e de Puebla (1979).
Mas Lugo, num certo momento, sentiu que poderia servir melhor a seu país entrando para a política. Entretanto, não quis embaralhar funções. Referindo-se à experiência centro-americana, declarou no jornal El País, citado acima, em entrevista publicada dois dias antes de sua vitória eleitoral: “Quando a Igreja, como instituição, optou por identificar-se com um modelo temporal, equivocou-se. Isso aconteceu com os padres nicaragüenses durante o sandinismo”.
No seu caso, não quis confundir sua situação anterior de bispo com a de futuro candidato a presidente. Claro que o episcopado fica na sua história e nas raízes de sua experiência. Sabemos também que, na Igreja Católica, a ordem sacerdotal e a episcopal permanecem como sacramentos (“sacerdos in aeternum”). Mas o sacerdote ou bispo pode perfeitamente ser dispensado de seu exercício. Foi nessa direção que agiu Lugo, solicitando dispensa do episcopado em 2005, quando se tornou bispo emérito e do sacerdócio em 2006, para servir seu país em outro lugar social e eclesial, como simples cristão.
A reação romana, nesse último caso, foi de irritação, ao seu entender, pelo inusitado da demanda. Como renunciar à dignidade de um poder eclesiástico, por um simples poder temporal? Suspendeu Lugo indefinidamente de suas funções (“a divinis”), mas sem lhe conceder a dispensa do sacerdócio. Agiu como uma burocracia defendendo corporativamente os poderes internos de sua instituição, apoiando-se em regulamentos e códigos e não com sensibilidade pastoral. Faltou-lhe abertura para entender a importância do gesto de um cristão até então clérigo, mas que desejava exercer seu serviço em outro domínio, com o extremo cuidado de não confundir papeis, por profunda convicção, lealdade e transparência para com sua Igreja.
Fernando Lugo seguiu adiante, deixou o sacerdócio e agora se tornou o novo presidente paraguaio. Depois de ter votado, diz a imprensa, foi à missa dominical como simples cristão. Não foi mencionado se participou da comunhão. Possivelmente não, estando suspenso sem prazos.
O importante é que temos de deixar de vê-lo, de uma vez por todas, como ex-bispo, como gostam de proclamar os meios de comunicação, numa atitude no fundo clerical. Há um clericalismo de direita que se escandaliza, como há um subreptício clericalismo progressista que se alegra com a vitória do que consideram um ex-bispo.
Lugo é agora simplesmente um cristão que se elegeu presidente e que, num gesto pessoal de liberdade, suspendeu definitivamente suas antigas prerrogativas eclesiásticas, sem esperar uma autorização de cima que certamente não viria. Estas prerrogativas e o poder inerente ficaram para trás. Ao ser eleito declarou: “sou um homem de fé e de espiritualidade”, agora como um simples fiel. E noutra ocasião: “se minha atitude e minha desobediência às leis canônicas causaram dor, peço perdão” (Folha de São Paulo, 22-4-2008). Como não alegrar-nos com um presidente que deixou no passado sua situação de bispo e agora é apenas um cristão, mas acima de tudo um cristão e um cidadão cuidadoso e responsável?
Trata-se de um presidente de pertença cristã, em diálogo pluralista com outros estadistas cristãos, de outras religiões ou sem religião. O cristianismo, como para qualquer fiel, poderá ajudá-lo a discernir, a iluminar sua consciência, mas as decisões serão tomadas como um homem livre e com a enorme responsabilidade que tem, a partir de agora, de refazer, com sua equipe, a vida paraguaia.
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