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terça-feira, 9 de abril de 2013

OS NÃO-CATÓLICOS DEVEM SE PREOCUPAR COM UM PAPA?



7 abril 2012, Carta Maior http://www.cartamaior.com.br  (Brasil)

Ao apontar que nomes como Frei Betto, no Brasil, Ernesto Cardenal, na Nicarágua, Hans Kung, na Alemanha, e Garry Wills, nos EUA, têm lutado para transformar a Igreja, Immanuel Wallerstein defende que não-catóticos como ele não devem 'desistir' do Vaticano, diante de sua enorme força geopolítica e de sua capacidade para mudar o comportamento humano.


Tal como toda a gente, pelo mundo afora, se preocupa com quem será o novo líder dos Estados Unidos, da Alemanha, da Rússia, da China ou do Brasil, também nos sentimos afetados pela escolha do novo Papa. Estaline terá supostamente perguntado: “quantas tropas tem o Papa?” Mas a força geopolítica é superior à força militar.

É verdade que o Papa é limitado pelos interesses de longo prazo da Igreja Católica e pela sua trajetória histórica. Mas também o são os líderes de cada estado principal. Também é verdade que faz diferença quem é o líder particular. Dentro destes limites, o líder pode inclinar as políticas numa direção ou noutra.

No caso do Vaticano, desde 1945 foram escolhidos cinco papas. As escolhas seguiram mais ou menos as expetativas – exceto uma. João XXIII foi supostamente escolhido para ser um papa idoso e interino que pouco faria, enquanto se resolviam as divergências entre os cardeais. Contudo, na sua relativamente curta carreira, ele desencadeou uma importante viragem nas políticas do Vaticano (tanto teológica quanto temporalmente) no que ele chamou um aggiornamento da Igreja no Concílio Vaticano Segundo. O seu impacto foi tão grande que se poderia dizer que o objetivo principal dos seus sucessores foi desfazer o que ele fez, ou pelo menos limitar o que consideravam serem os danos causados por ele.

Evidentemente, os debates teológicos no interior da Igreja, e eles foram variados e importantes, dizem respeito quase exclusivamente aos fiéis da Igreja. Mas os líderes da Igreja em todos os níveis – no Vaticano, ao nível das estruturas nacionais dos bispos, e localmente em cada diocese e paróquia – retiram as conclusões temporais da teologia, e por isso procuram influir no que ocorre na arena política.

Politicamente, faz uma grande diferença se os bispos e padres são adeptos da teologia da libertação ou, no outro extremo, se são partidários das visões da Opus Dei ou, ainda mais à direita, da Sociedade do Santo Pio X. A Igreja tem números variados de aderentes em diferentes zonas do mundo, mas há muitas nas quais constituem uma parte significativa das populações nacionais: nas Américas, grande parte da Europa ocidental e do sul, algumas partes da Europa do leste, vários pontos da África, algumas partes da Ásia do leste e do sudoeste, e na Austrália. É uma longa lista. Os católicos são hoje cerca de 16% da população mundial, sendo que o único grupo maior é o dos muçulmanos, que são cerca de 22%.

Nestes países, Os líderes da Igreja apoiam muitas vezes implicitamente candidatos à eleição. Regularmente assumem posições fortes sobre vários tipos de legislação afetando a moral social e a sua permissividade. Muitas vezes tomam posição sobre questões do bem-estar social. E às vezes tomam posição sobre questões de guerra e paz. No conjunto do sistema-mundo, e certamente no interior de muitos países, nós, os não-católicos, por vezes encontramos aliados em figuras da Igreja e às vezes encontramos opositores.

É óbvio quer os não-católicos nada têm a dizer acerca de quem é escolhido Papa. Mas muito poucos católicos também têm voz. O Vaticano é uma das últimas monarquias absolutas. E tem um sistema eleitoral muito especial, onde os membros do Colégio Cardinalício (todos escolhidos por algum Papa anterior) com menos de 80 anos de idade votam por voto secreto segundo a sua vontade, e repetidamente, até que um tenha a maioria.

Uma maioria dos membros com menos de 80 anos do presente Colégio Cardinalício foi escolhida pelo Papa Bento XVI, e parece que o seu principal critério foi o de partilharem em grande parte a maioria das posições teológicas que ele considerou de importância primacial. Mas, dito isto, parece haver muitas diferenças de pontos de vista e de ênfase entre eles, alguns dos quais podem ter consequências políticas.

É extremamente duvidoso que venhamos a ter outro João XXIII. Mas também era extremamente duvidoso que fôssemos ter o primeiro João XXIII. Num sistema eleitoral que apresenta algumas semelhanças estruturais com o do Vaticano, isto é, o da China, todos estávamos em dúvida, e até certo ponto ainda estamos, quais serão as recentes consequências das escolhas recentes da próxima camada de líderes.

Uma coisa que vale a pena assinalar é que mesmo aqueles católicos proeminentes que foram tratados mais duramente pela Igreja ou que estão mais desiludidos com o estado da Igreja – estou a pensar em Frei Betto do Brasil, Ernesto Cardenal da Nicarágua, Hans Kung da Alemanha, ou Garry Wills dos Estados Unidos – não renegam a sua pertença à Igreja. Continuam a tentar transformá-la ou, no seu ponto de vista, a trazê-la de volta à sua original e verdadeira missão.

Nós, os restantes, não podemos “desistir” do Vaticano, como não o podemos fazer em relação à China ou aos Estados Unidos ou a qualquer outro lugar que seja uma sede de comportamento humano e de potencial transformação social.

*Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria, para o Esquerda.net

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CONGRESSO CONTINENTAL DE TEOLOGIA: UM NOVO ''SINAL DOS TEMPOS'' DO FAZER TEOLÓGICO

26 agosto 2011/ADITAL Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
http://www.adital.com.br

IHU - Unisinos *

Por Moisés Sbardelotto

Não só fazer memória da experiência teológica, mas também olhar para o futuro: foi com essa intenção que, na noite desta quinta-feira (25), representantes de diversas organizações eclesiais e teológicas se reuniram no Instituto Humanitas Unisinos - IHU para o lançamento oficial do sítio do Congresso Continental de Teologia, que será realizado em outubro de 2012, na Unisinos. O Congresso será uma ocasião especial para celebrar dois fatos significativos para a Igreja na América Latina e Caribe: os 50 anos da inauguração do Concílio Vaticano II, celebrada pelo Papa João XXIII, e os 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação. Perspectivas, de Gustavo Gutiérrez, que inaugura a trajetória da teologia no continente. Assim, olhando para o futuro, prospectivamente, o Congresso buscará refletir e debater os desafios e as tarefas futuras da teologia na América Latina, a partir do novo contexto, globalizado e excludente.

Acolhidos pelo diretor do IHU, Prof. Dr. Inácio Neutzling, SJ, estiveram presentes, entre outros, o Prof. Dr. Alfonso Carlos Larrauri Palácio, SJ, vice-presidente da Conferência de Provinciais Jesuítas da América Latina (CPAL) e provincial jesuíta do Brasil; Prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, reitor da Unisinos; Prof. Dr. Pedro Gilberto Gomes, SJ, pró-reitor acadêmico da Unisinos; Claudio Werner Pires, SJ, secretário da província jesuíta do Brasil Meridional; Attilio Hartmann, SJ, diretor da Associação Cultural e Beneficente Pe. Reus; Prof. Dr. Oneide Bobsin, reitor da Escola Superior de Teologia (EST); Ermanno Allegri, diretor-executivo da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital); Prof. Dr. Edelberto Behs, coordenador da graduação em Comunicação Social da Unisinos e membro da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC); dentre outras autoridades.

O encontro no IHU também ajudou a lançar o debate proposto pelo Congresso e vislumbrar alguns aspectos centrais da relevância do evento. Para isso, a Ir. María del Socorro Martínez (México), Pablo Bonavia (Uruguai) e Roberto Urbina (Chile), em nome da Fundação Ameríndia, membro da comissão organizadora do Congresso, ressaltaram em suas falas alguns pontos de destaque na organização prévia do evento, que já vem ocorrendo, e aquilo que é possível esperar para outubro de 2012.

Palavra e profecia
A Ir. Socorro relatou um pouco do histórico da preparação do evento, que surgiu como uma intuição, a partir das duas grandes comemorações que ocorrerão no ano que vem. Assim, ainda em setembro de 2009, ocorreu uma reunião com diversas universidades e organizações, em que, entre sentimentos como cautela, receio, entusiasmo ou aversão, foi possível avaliar se aquela que era apenas uma intuição poderia ganhar corpo. "Foi um lento processo de construção conjunta", afirmou a religiosa.

A ideia, contou, era realizar o evento em Bogotá, Colômbia, por ser um lugar cêntrico no continente, mas, vendo a realidade do país e da Igreja local, avaliou-se que o Brasil tinha uma situação melhor. A Ir. Socorro agradeceu, por isso, a disposição do IHU, pela estrutura oferecida, e ressaltou a importância de se localizar em um país com maior abertura política e eclesial.

Em seguida, a religiosa também rememorou as Jornadas Regionais prévias, das quais duas já ocorreram: a da América Central e Caribe, na Guatemala, e a do Cone Sul e Brasil, no Chile. "A proposta - disse - foi a de nos mobilizarmos como comunidade teológica, em um processo que vai somando as contribuições de acordo com o contexto de cada região".

Na Jornada da Guatemala, afirmou a Ir. Socorro, fez-se uso de uma teologia narrativa, dos processos de fé locais. Assim, tiveram destaque central os migrantes, que saem da América Central rumo aos EUA, as mulheres e o seu lugar na Igreja e na sociedade, os indígenas, em sua defesa da terra e dos recursos naturais, a realidade do Caribe, com uma pequena comissão representante, manifestando também a resistência do povo do Haiti, e o testemunho dos catequistas guatemaltecos, que sofreram a tortura nos anos da repressão e da ditadura. Embasados pela teologia índia, também foram celebrados, assim, os mártires e profetas da região, que nutrem e alimentam a experiência teológica.

Além dessas, lembrou a Ir. Socorro, serão realizadas a Jornada da Região Norte, entre os dias 5 e 8 de outubro deste ano, no México, e a Jornada dos Países Andinos, nos dias 19, 20 e 21 de outubro, na Colômbia.

"As jornadas vão deixando desafios que terão que ser retomados no congresso, como a mobilização, o fato de dar luz ao tempo que estamos vivendo no meio dessa mudança de época", afirmou a Ir. Socorro. Nesse sentido, brincou, "o site do Congresso vai entusiasmar todo o continente". E fez um apelo: "Que o Espírito nutra essa intuição de 2009, sem perder a vista de Quem nos chamou primeiro, nessa tarefa de libertação dos nossos povos. Apesar do crescimento do Brasil, ainda há uma grande maioria que precisa de muitas coisas, e nesse contexto a teologia tem que dizer a sua palavra e ser profeta", resumiu.

Protagonismo reflexivo
Já o teólogo leigo Roberto Urbina relatou a experiência da Jornada do Chile, que reuniu mais de 300 pessoas, superando em muito a expectativa para o contexto chileno, e com o envolvimento de 14 instituições. Urbina também lembrou que a Jornada assumiu o nome de um teólogo muito importante e significativo para o Chile: Ronaldo Muñoz, que foi, afirmou, o "rosto e o selo da Jornada".

Para Urbina, dois aspectos foram centrais na Jornada chilena. O primeiro, os eixos temáticos escolhidos, que abordaram um conceito fundamental: "Pôr a teologia em diálogo com as outras demandas e perguntas feitas hoje pela sociedade contemporânea a respeito de Deus", afirmou. Nesse sentido, comparou essa proposta ao eixo Teologia Pública já desenvolvido pelo IHU.

Um segundo aspecto, disse, foi a metodologia da Jornada. "Não foi um congresso típico, com conferências e debates em grupo. Todos os participantes foram convidados a ser protagonistas do processo reflexivo e de um pensamento que possa contribuir com o pensamento teológico, uma contribuição que pode ser assumida pela reflexão dos teólogos/as", afirmou.

Houve, no entanto, algumas limitações, como a fraca participação ecumênica e a pouca articulação nos conteúdos. Mas um dos resultados da Jornada do Chile, comentou Urbina, foi o de reunir um bom material de reflexão que será publicado em livro, disponibilizando como aporte de preparação ao Congresso, além da notável quantidade de jovens interessados nesse olhar teológico específico.

Sinal dos tempos
O Congresso, além disso, buscará refletir e reatualizar a herança do Concílio Vaticano II para a teologia. Foi a partir dessa ideia que o teólogo e sacerdote Pablo Bonavia explicou o sentido dessa herança: "Fazer teologia é ler os sinais dos tempos, a ação do Espírito". Segundo Bonavia, "estamos vivendo o tempo dos emergentes, entre países e dentro dos países. O mapa mundial - continuou - está mudando de um mundo unipolar, centrado nos EUA, para um mundo multipolar". E, nesse contexto, "a agenda mundial está cada vez mais habitada por preocupações que vêm do Sul".

Assim, em meio a essa "distribuição diferente do poder", surge a emergência de movimentos populares como os do norte da África, o movimento estudantil no Chile, dentre outros. E a teologia também não passa imune a esse processo. "Na Igreja também estamos diante da possibilidade de viver um tempo de emergência", afirmou Bonavia.

O Vaticano II, disse, também deixou outra herança: a do "Povo de Deus como sujeito do fazer teológico e eclesial". "Todos e todas, leigos e leigas, temos o mesmo carisma profético", afirmou.

Por outro lado, o Congresso também celebrará os 40 anos da teologia da libertação. E essa modalidade de pensar Deus, segundo Bonavia, nos ensinou primeiro que a "teologia é momento segundo de dizer a experiência de Deus a partir da contemplação e da prática dos cristãos". E, em segundo lugar, a "hermenêutica dos pobres", ou seja, que "há coisas no mundo que só se veem a partir da perspectiva dos excluídos".

É por isso, afirmou Bonavia, que "o Congresso poderá dizer uma palavra muito atual, não só fazer memória, mas para olhar para o futuro", nos contextos espiritual, teológico e prático. Assim, concluiu o teólogo, o desafio "não é só interpretar melhor os sinais dos tempos, mas também fazer desse Congresso um sinal dos tempos" no contexto social, eclesial e teológico contemporâneo.

Por último, o Prof. Dr. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ, reitor da Unisinos, lembrou que o IHU busca, desde a sua origem, propôr uma reflexão acerca das gramáticas teológicas que ajudam a anunciar o Evangelho. Nesse contexto, a Unisinos se felicita por poder acolher o Congresso em seu câmpus, como forma de contribuir nesse debate e na reflexão das narrativas teológicas hoje.

Sítio
E, assim, dentro desse amplo contexto de debate, foi lançado o sítio oficial do Congresso, em versão trilíngue - português e espanhol, idiomas oficiais do evento, e inglês. Será por meio do site que os participantes poderão fazer as suas inscrições (a partir de março de 2012) e acompanhar todas as notícias e informações necessárias.

O sítio está disponível em
www.unisinos.br/congresso-de-teologia.

O Congresso Continental de Teologia é organizado pela Fundação Ameríndia (Uruguai), pela Adital (Brasil), pela Associação de Teólogos do México (ATEM, México), pela Conferencia Latino-Americana de Religiosos (CLAR, Colômbia), pelo IHU, pelo Instituto Teológico-Pastoral para América Latina (Itepal, Colômbia), pela Pontifícia Universidade Javeriana (PUJ, Colômbia), pela Rede Teológico-Pastoral (Guatemala) e pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter, Brasil). O evento irá ocorrer entre os dias 8, 9, 10 e 11 de outubro de 2012, na Unisinos.

*Instituto Humanitas Unisinos

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

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terça-feira, 17 de junho de 2008

Brasil/REFLEXÕES DE UM BISPO


Dom Clemente Isnard *


16 junho 2008 [ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
www.adital.com.br


Carta de Dom Clemente Isnard sobre as peripécias da publicação do seu livro


Quem tem medo da verdade?
Quem quer calar os Profetas?
Quem quer zerar o Concílio Vaticano II
e voltar para a Igreja-Poder e para a centralização vaticana?
(João Tavares)


No dia oito de julho do ano passado, completei noventa anos e, a convite de um grande amigo, pe. José Romero Rodrigues de Freitas, vim a Recife para festejar a data com os amigos daqui.

Celebrei a Missa na Igreja das Fronteiras, onde está bem viva a lembrança de nosso inesquecível Dom Helder Camara, com muitos concelebrantes e mais duas centenas de amigos. No meu sermão terminei, depois de narrar os quatro períodos de minha longa vida, aludindo a um projeto de futuro. Que ousadia era fazer projetos aos noventa anos! E dizia: reatando com a mocidade, lutar pelo Movimento Litúrgico, pelo Concílio Vaticano II, por uma Igreja sem Núncio Apostólico e sem Cúria Romana (entenda-se sem a Cúria Hiperatrofiada de hoje).

Ouviu esse sermão o grande teólogo José Comblin, que me animou a escrever. No segundo semestre de 2007 escrevi um livrinho com o título de "O que o Concílio não fez" e pedi ao padre Comblin para ler antes da publicação e escrever o Prefácio. O que ele fez, sugerindo uma mudança de título para "Reflexões de Um Bispo sobre as Instituições Eclesiásticas".

Em dezembro de 2007 procurei a Editora Paulus para publicar o livro. Aceitou a incumbência e conversei com muitas pessoas sobre o conteúdo do livro. Em fevereiro fui surpreendido por um telefonema da Paulus dizendo que o livro estava pronto para publicação, mas que não poderiam editar por terem recebido uma proibição do Núncio Apostólico, Dom Lourenzo Baldisseri. Não procurei diálogo com essa autoridade eclesiástica que não me procurou diretamente, mas se dirigiu por cima de minha cabeça à Editora.

No mês de março, estando em Recife, recebi uma atenciosa carta do Regional Leste 1, assinada por todos os bispos do mesmo Regional. Nessa carta pediam que eu não publicasse o livro.

Evidentemente, a opinião unânime dos bispos da região me confundiu, mas não me convenceu. Respondi a cada um dos companheiros uma carta do mesmo teor, em que estranhava que tivessem condenado o livro sem o ter lido (não sei qual dos bispos o teria lido) desprezando a opinião de um teólogo que já publicou mais de 50 obras e que tinha corrigido o livro e redigido o Prefácio, Padre José Comblin. Como sou teimoso, consegui uma editora que se interessou pelo assunto do livro e se ofereceu para publicá-lo.

A Igreja tem um organismo em Roma encarregado de examinar a doutrina dos livros que se publicam no mundo inteiro. Mas o meu livro nada tem contra a doutrina da Igreja. É um livro não de doutrina, mas de disciplina da Igreja que tem variado incessantemente nesses dois mil anos de vida, e ainda recentemente teve um Concílio Ecumênico de Reforma, o Vaticano II.

O Concílio Vaticano II foi elogiado pelo Papa Paulo VI, que o presidiu depois de João XXIII, como um dos maiores e melhores Concílios da História da Igreja pelo número de participantes, pelo número de documentos promulgados, e pela extensão de sua preocupação também com a vida da humanidade. No Concílio eu me habituei com as lutas internas da Igreja, que não terminaram. Há muitas coisas nas Instituições Eclesiásticas que deveriam ter sido corrigidas. Coisas grandes e pequenas. O Concílio fez muito mas não pode fazer tudo. Será que João XXIII teria presidido melhor que Paulo VI ? Agora é preciso abordar os temas que foram tocados pelo Concílio mas não concluídos, para que sejam resolvidos por quem de direito.

São grandes os problemas da Igreja hoje: A nomeação dos Bispos, os Bispos Auxiliares e os Eméritos, o Celibato Sacerdotal e a Exclusão das mulheres do Sacramento da Ordem. Desses cinco assuntos é que trata o livro que será lançado no dia 13, às 19:00hs, na Igreja das Fronteiras em Recife.

Os que se interessarem por esses problemas da Igreja devem procurar companheiros e organizar grupos de estudo, para aprofundamento dos assuntos e procura de soluções.

Dom Clemente Isnard
Bispo Emérito de Nova Friburgo, Rio de Janeiro

Leia a Reportagem e entrevista publicadas pelo Diário de Pernambuco, em 12 de junho de 2008.

Bispo lança livro e desafia leis da Igreja

Por Jailson da Paz, Diário de Pernambuco

Há temas que quase toda pessoa, seja católica ou não, gosta de se posicionar. Alimentar discussões e polêmicas. Entre eles o celibato sacerdotal e o direito das mulheres celebrarem missas. Já o Vaticano costuma tratar os assuntos com certo cuidado. E poucas vozes da Igreja, nas últimas décadas, ousaram contribuir com o debate fora das paredes dos seminários e das cúrias. O bispo emérito da Diocese de Nova Friburgo (Rio de Janeiro), dom Clemente Isnard, resolveu derrubar tais barreiras. Aos 90 anos e reconhecido internacionalmente por seu trabalho no campo litúrgico, ele lança hoje o livro - Reflexões de um bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais - que promete jogar lenha na fogueira. E não fala apenas do celibato e das mulheres, trata de um dos pontos quase intocável no Vaticano: a participação dos leigos na escolha dos bispos. Um sinal de reconhecimento ao trabalho feito por dom Helder Camara.

"Fala-se tanto na falta de sacerdotes, nas paróquias sem padres, nos padres que se secularizaram deixando o ministério. E não se pensa nos padres de valor e que se casaram e que poderiam ter continuado no ministério se a Igreja lhes tivesse concedido matrimônio", argumentou o bispo emérito. Dom Isnard encontra justificativa para seu posicionamento na experiência. Foram mais de 30 anos à frente da Diocese Nova Friburgo. E também no conhecimento histórico. Ele lembra que a exigência do celibato apareceu pela primeira vez por volta do ano 300, mas que ainda hoje as igrejas orientais católicas permitem que padres se casem. Segundo o religioso, a multiplicação dos diáconos permanentes é um sinal de que o padre casado seria bem aceito em muitos lugares. Os diáconos são homens casados ou celibatários que podem pregar, mas não estão autorizados a consagrar a hóstia e o vinho.

Dom Isnard recorre ao olhar de pastor para se posicionar em defesa das mulheres. "Em minha longa vida conheci padres incapazes de ser párocos e conheci também religiosas e leigas consagradas com capacidade de dirigir comunidades", testemunhou. Para o monge beneditino, a dispensa do celibato não é uma mudança teológica, mas disciplinar. E sugere a necessidade de se analisar a Bíblia, quando São Paulo afirma que todos - judeu e grego, servo e livre, homem e mulher - são iguais perante Deus. "Esse me parece um poderoso argumento bíblico em favor da ordenação de mulheres", acredita.

As análises do autor se voltam também para a eleição dos bispos. "Em nossos dias o povo não é ouvido na eleição, mas pode se manifestar na hora do enterro", afirma, lembrando que a participação dos leigos nas eleições era comum no primeiro milênio de existência da instituição. Essa a prática foi caindo em desuso com a crescente interferência dos reis. Diante do que viveu e conhece, o bispo emérito defende que o ideal seria voltar ao regime do primeiro milênio, onde bispos, clero e povo participavam das escolhas.

O povo, exemplifica, seria homens e mulheres engajados na Igreja, idosos e jovens, em número que expressasse as duas categorias E conclui, de maneira incisiva que a "descentralização das nomeações episcopais traria um alívio notável para as finanças da Sé Apostólica, uma vez que o pessoa da nunciatura não precisaria ser tão numeroso". Coincidência ou não, dom Isnard contou que uma cópia do seu livro foi entregue ao núncio apostólico no Brasil antes da publicação. E esse teria pedido a Editora Paulus, com quem estava outra cópia do texto, para não publicar o livro.

Ainda sobre os bispos, dom Isnard se pergunta como recuperar um episcopado zeloso, culto e avançado. Ele mesmo responde que na situação atual seria necessário um novo concílio ecumênico para completar o Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965 e responsável por mudanças na Igreja. Uma delas foi permitir a celebração das missas em diversas línguas, acabando com a ditadura do latim. Mesmo apontando o caminho, o bispo emérito acredita que dificilmente haveria mudanças hoje. Isso porque a Cúria Romana prepara e redige tudo.

Leia a Entrevista com D. Clemente Isnard:

'Não nos comportemos como fariseus'

A dedicação de dom Clemente Isnard à Igreja Católica se aproxima de sete décadas. Nesse tempo, ele assumiu diversas funções. Foi o primeiro bispo de Nova Friburgo, vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), além de ter participado como padre conciliar de todas as etapas do Vaticano II e integrado comissões junto à Santa Sé. O bispo emérito conhece bem os caminhos da Igreja, especialmente no campo litúrgico. Parte desse conhecimento está no livro Viver a liturgia também a ser lançado hoje, no qual reúne uma série de reflexões. Na obra, dom Isnar afirma que, à medida que a idade vai chegando, sente-se mais livre para escrever o que pensa. "Gozando de plena liberdade, posso elogiar ou criticar também autoridades eclesiásticas sem considerar cargos ou pessoas", salienta. Essa firmeza pode ser vista na entrevista abaixo:

Por que escrever sobre temas polêmicos como o celibato e a escolha dos bispos?

- Para dar meu testemunho como bispo para o povo.

E como surgiu a idéia da publicação?

- Depois da missa de meus 90 anos, na Igreja das Fronteiras, no ano passado. Na homilia, falei dos meus sonhos para a Igreja e depois da celebração. O padre José Comblin, da Paraíba, pediu para eu escrever. O livro é o resultado.

O senhor recebeu alguma pressão para não publicar o livro?

- Quando o texto estava pronto, uma cópia foi tirada do meu computador sem minha autorização indo parar nas mãos do núncio apostólico, dom Lourenzo Baldisseri, que pediu a Editora Paulus para não publicar o trabalho. O livro está saindo por outra editora, a Olho d'Água.

Alguma autoridade chegou a pedir diretamente para que o senhor desistisse?

- Todos os bispos do Regional Leste 1, que reúne as dioceses do Rio de Janeiro, fizeram uma carta me pedindo para não publicar o livro. Eles alegavam que os assuntos poderiam ser mal interpretados e isso seria ruim para a Igreja.

Não teme repercussões negativas?

- Meu Deus! Eu acho que a discussão sobre esses temas somente fará bem. A Igreja é santa e pecadora. E a história mostra que as mudanças na Igreja demoram séculos para acontecer. Talvez tenhamos que esperar um milênio, mas temos que ser insistentes. Com o livro, quero apenas conscientizar as pessoas.

E se o Vaticano chamar o senhor como fez com Leonardo Boff nos anos 80?

- Já estou velho, mas vou lá. Repito o que está no livro e outras coisas mais. Tudo farei sob a luz do Evangelho, que pediu para não nos comportarmos como fariseus.

O senhor pensa escrever outros livros desse tipo?

- Sim. E penso em incluir um capítulo que, a princípio, seria publicado nas reflexões atuais, mas retirei por sugestão de um padre que fez análise do livro.

E de que tratava?

- Nesse capítulo, eu abordava a questão dos bispos auxiliares, tendo como fundamento experiências vividas em dioceses brasileiras.


* Bispo Emérito de Nova Friburgo, Rio de Janeiro

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