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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Vaticano/SínodoAmazônico: a Igreja está comprometida em ser aliada da Amazônia




Cinco capítulos, mais uma introdução e uma breve conclusão: este é o Documento Final da Assembleia Especial para a Região Pan-amazônica, divulgado na noite deste sábado, 26 de outubro, por desejo do Papa. Dentre os temas, missão, inculturação, ecologia integral, defesa dos povos indígenas, rito amazônico, papel das mulheres e novos ministérios, sobretudo nas áreas de difícil acesso à Eucaristia.

Vatican News – Cidade do Vaticano
Conversão: esse é o tema do documento final do Sínodo Pan-amazônico. Uma conversão que tem diferentes significados: integral, pastoral, cultural, ecológica e sinodal. O texto é o resultado do “intercâmbio aberto, livre e respeitoso” desempenhado   durante as três semanas de trabalhos do Sínodo, para relatar os desafios e o potencial da Amazônia, o “coração biológico” do mundo, espalhado por nove países e habitado por mais de 33 milhões pessoas, incluindo cerca de 2,5 milhões de indígenas. No entanto, esta região, segunda área mais vulnerável do mundo devido às mudanças climáticas provocadas pelo homem, está “numa corrida frenética rumo à morte” e isso exige

terça-feira, 24 de maio de 2016

Brasil/Papa alerta para “golpe suave” na América Latina



22 maio 2016, Brasil 247http://www.brasil247.com (Brasil)


Reunido com a Presidência do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), órgão colegiado dos bispos de toda o continente, Francisco advertiu que pode ​​estar acontecendo um "golpe de estado suave” em alguns países da região, numa referência mais do que direta ao caso brasileiro após o afastamento da presidente legitimamente eleita Dilma Rousseff (PT); entre diversas questões episcopais, o papa manifestou preocupação na seara política com os problemas sociais dos países latino americanos em geral e com a eleição nos Estados Unidos, em particular, por falta de atenção mais viva à situação social dos mais pobres e excluídos.

247 - Durante reunião com a presidência do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam), órgão colegiado dos bispos de toda a América Latina,

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Abya Yala, Patria Grande/La Iglesia nombra un 'guardián' para la Amazonía


José Antonio Varela

Los pueblos amazónicos, celosos con el cuidado del medio ambiente, ya tienen a un representante de la Iglesia que interceda por ellos ante gobiernos, entidades civiles y eclesiásticas, sea en el ámbito nacional como internacional.

Se trata de monseñor Pedro Barreto Jimeno, arzobispo de la localidad peruana de Huancayo, quien fuera durante cuatro años, presidente del Departamento de Justicia y Solidaridad (Dejusol) del Consejo Episcopal Latinoamericano (Celam).

Tal como informó Aleteia,

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Brasil/José Oscar Beozzo: DOM HELDER, PASTOR DA LIBERTAÇÃO EM TERRAS DE MUITA POBREZA

IHU - Unisinos *

Reportagem de Moisés Sbardelotto

Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
12 fevereiro 2009/ADITAL http://www.adital.com.br

Adital - Ao se completarem os 100 anos de nascimento de Dom Helder Camara, no sábado, 07 de fevereiro, a Igreja do Brasil tem muito a agradecer e a se inspirar na vida e na obra do querido "Dom", como ficou conhecido.
Nesta entrevista especial, concedida por e-mail a IHU On-Line, padre José Oscar Beozzo, um dos maiores historiadores da Igreja na América Latina, comenta alguns traços da vida do grande arcebispo de Olinda e Recife, um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Para Beozzo, os leigos e as leigas foram os "mestres de vida" de Dom Helder "para a atuação no mundo e para uma espiritualidade longe dos ranços clericais". O Recife e o Nordeste, segundo o coordenador-geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep), tornaram-se "sua trincheira de onde fala ao Brasil, mas também à América Latina e ao mundo". E analisa ainda a atuação internacional de Dom Helder, especialmente durante o Concílio Vaticano II, no qual, mesmo nunca tendo falado na Aula Conciliar, "tornou-se um dos mais ouvidos e respeitados padres conciliares".
José Oscar Beozzo é padre e teólogo, com mestrado em Sociologia da Religião, pela Université Catholique de Louvain (Bélgica) e doutorado em História Social, pela Universidade de São Paulo (USP). Faz parte do Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina (CEHILA-Brasil), filiado à Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina e no Caribe (CEHILA). Também é sócio fundador da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (ADITAL). É autor de inúmeros livros, entre os quais "A Igreja do Brasil" (Vozes, 1993).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Há 100 anos, nascia Helder Pessoa Câmara, o futuro arcebispo de Olinda, reconhecido mundialmente pelo seu trabalho voltado a uma igreja mais simples, em contato com os pobres e pela não-violência. Quais foram os grandes passos que levaram aquele pequeno menino a ser um bispo católico reconhecido mundialmente, tendo recebido dezenas de prêmios internacionais, com quatro indicações ao prêmio Nobel da Paz?
José Oscar Beozzo - Os passos de Dom Helder não podem ser desconectados de algumas conjunturas nacionais, latino-americanas e internacionais que o interligaram com pessoas e eventos excepcionais.
Desde os tempos do seminário, interessou-se pela imprensa, tornando-se propagandista de O Nordeste, jornal da diocese, para o qual angariava assinaturas, o que lhe valeu memorável encontro com o Pe. Cícero, no Juazeiro. Começou também a publicar artigos na imprensa de Fortaleza, escondido por pseudônimo, até ser proibido pelo reitor do seminário. Posteriormente, imprensa escrita, rádio e televisão foram sempre instrumentos que manejava com maestria para passar adiante seus ideais, valores e mensagem.
O diácono Helder é ordenado padre em 1929, no turbilhão e desmoronamento do mundo econômico liberal na crise daquele ano. No ano seguinte, com as eleições presidenciais e a revolução de 1930, é o Brasil das oligarquias que rui. Entram em cena novos atores sociais no panorama político: os Estados da federação, de modo particular do Nordeste e do Norte, mais Rio Grande do Sul, até então excluídos da partilha do poder, concentrado em São Paulo e Minas Gerais, pela aliança café-com-leite; as classes médias urbanas; a classe operária; os tenentes do Exército, mas também a Igreja Católica alijada dos jogos do poder pelo laicismo republicano. Getúlio Vargas liquidou com a república velha e seu modelo agrário exportador, dando lugar a um projeto de desenvolvimento nacionalista, apoiado na industrialização do país e num pacto populista que uniria o empresariado nacional e os operários, sob a proteção, mas também controle direto, do Estado.
No Ceará, a Liga Eleitoral Católica (LEC) funcionou quase como partido político, tendo na sua coordenação o jovem Pe. Helder Câmara, que se aproximou dos integralistas de Plínio Salgado, abraçando seu ideário político. Em 1935, foi convidado pelo novo governador para assumir uma secretaria de governo, como diretor geral da instrução pública, no que seria hoje a secretaria de educação, num claro sinal desse retorno das hostes católicas ao jogo político. No final desse ano, atritos com o governador, na condução da política educacional, levam-no a pedir demissão e partir do Ceará para o Rio de Janeiro.
Funcionário público e discípulo de Dom Leme
No Rio de Janeiro, foi acolhido pelo conterrâneo Lourenço Filho no Ministério da Educação, dirigido por Gustavo Capanema. Em 1939, passou em concurso público para funções técnicas no Ministério. Na Igreja do Rio, foi recebido pelo Cardeal Dom Sebastião Leme. O Cardeal representou, internamente para a Igreja Católica, um contraponto ao projeto político de Vargas.
Leme tentou superar a atomização da Igreja e o isolamento das dioceses entre si, buscando estabelecer uma estratégia clara de ação e uma articulação do Episcopado para implementá-la. Reuniu os bispos em torno de si em maio e outubro de 1931 e depois para o Concílio Plenário Brasileiro, em 1939, com o intuito de traçar linhas de ação comuns. Tirou a Igreja da defensiva em que fora encurralada pela República Velha, trazendo-a para uma agenda propositiva, numa jornada em que foi auxiliado pela combatividade de Jackson de Figueiredo, da revista Ordem, do Centro Dom Vital, e pela densidade cultural, capacidade de escuta e articulação de Alceu Amoroso Lima à frente das instituições fundadas por Jackson de Figueiredo, da Liga Eleitoral Católica e depois da Ação Católica Brasileira (ACB).
Leme criou ainda, em 1935, a ACB, com abrangência nacional, mobilizando o laicato para uma atuação mais aguerrida nas estruturas sociais, políticas e culturais do país. Na capital da república, Helder trabalhou ainda como técnico do Ministério da Educação, entrando em contato com todo o debate sobre os rumos da educação no Brasil e a crescente atuação governamental nesse campo. Esse trabalho rendeu-lhe preciosos conhecimentos e contatos em toda a estrutura governamental. Essas relações seriam fundamentais no campo das relações entre a Igreja e o Estado, em sua posterior trajetória como bispo auxiliar no Rio de Janeiro e como secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Os leigos e as responsabilidades nacionais e internacionais
Através da Ação Católica de Pio XI, leigos e leigas foram seus mestres de vida, para a atuação no mundo e para uma espiritualidade longe dos ranços clericais. No Rio, o então Pe. Helder Câmara prosseguiu com seu envolvimento com os leigos, iniciado no Ceará com a Juventude Operária Católica, a Legião Cearense do Trabalho e a Liga dos Professores Católicos. Em 1950, tornou-se Assistente da nova ação católica especializada, convertendo em nacional seu raio de ação até então limitado ao Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano de 1950, suas funções de assistente nacional da Ação Católica levaram-no por primeira vez a Roma, para o Congresso Internacional da Ação Católica. Essa viagem propiciou-lhe o primeiro contato com Mons. Giovanni Baptista Montini, principal auxiliar do Papa Pio XII, a quem propusera a criação da Conferência dos Bispos do Brasil.
A criação da CNBB, em 1952, replicou em nível episcopal a plataforma de atuação nacional em que havia operado em nível do laicato. O papel de articulação que havia cumprido Dom Leme, pessoalmente, como cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, até sua morte prematura em 1942, passou a ser cumprido institucionalmente, de certa maneira, pela Ação Católica, mas, sobretudo, pela CNBB. O motor era, porém, o próprio Dom Helder, recém nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro e que assumiu a Conferência como seu primeiro secretário-geral, permanecendo nessa posição estratégica durante 12 anos, até 1964. Sua amizade com o Núncio Armando Lombardi, com quem se reunia a cada sábado, permitiu que uma legião de padres envolvidos na Ação Católica, com trabalhos valiosos na pastoral e na formação, fosse promovida ao episcopado, compondo um novo rosto da Igreja brasileira, mais próxima do povo, mais comprometida em suas lutas por superação da pobreza e por justiça e dignidade.
O XXIX Congresso Eucarístico Internacional do Rio de Janeiro, em 1955, projetou Dom Helder como o grande organizador desse evento internacional e da I Conferência Geral do Episcopado Latino-americana, realizada logo em seguida. Da Conferência, resultou a criação do Conselho Episcopal Latino-americano, o CELAM. Em 1959, Dom Helder foi eleito um dos seus vice-presidentes.
O Congresso Eucarístico deu-lhe oportunidade para transformar a grande mobilização para organizá-lo, em iniciativas sociais de grande vulto, como a Cruzada São Sebastião, que pretendeu erradicar as favelas do Rio de Janeiro. Dom Helder constataria tempos depois, com certo desalento, que as favelas renasciam logo à frente, mais numerosas e esquálidas. A infra-estrutura humana do Congresso ensejou-lhe a promoção da Feira e do Banco da Providência, retaguarda para inúmeras iniciativas no campo social. O CELAM ofereceu-lhe uma plataforma continental para sua atuação e para a difusão de suas idéias e projetos, em perfeita sintonia com seu entranhado amigo, Dom Manuel Larraín, bispo de Talca, no Chile. O Concílio Vaticano II abriu para os dois - mas de modo particular para Dom Helder, com sua retórica inflamada e sua imaginação e audácia sem limites - a cena internacional.
IHU On-Line - O que caracterizou o trabalho de Dom Helder Camara como bispo e arcebispo de Olinda? Quem foi o pastor Dom Helder, tanto para a Igreja local quanto para a Igreja do Brasil?
José Oscar Beozzo - Olinda e Recife fizeram, por primeira vez de Dom Helder, o pastor com inteira responsabilidade, de uma porção concreta do povo de Deus, no coração do Nordeste, em terras de muita pobreza, mas também de tradição, lutas e esperança.
No Rio de Janeiro, como bispo auxiliar e depois como arcebispo, mas sempre auxiliar, teve sua ação cada vez mais cerceada pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara, cujas visões de Igreja e de sociedade foram cada vez mais se distanciando.
Dom Helder chega ao Recife em 11 de abril, sob o estigma de opositor do novo regime militar apenas instalado com o golpe de 31 de março de 1964. Logo depois, em outubro, é despojado da liderança institucional de secretário-geral da CNBB.
Recife e o Nordeste tornam-se então sua trincheira de onde fala ao Brasil, mas também à América Latina e ao mundo. Mantém um contato diário com seu povo, pela Rádio Olinda, com meditações diárias; anima a criação de grupos de reflexão, leitura bíblica, oração, solidariedade e ação social, apelidados de Encontro de Irmãos.
Lança a Operação Esperança, levando a reforma agrária às terras da arquidiocese e toma outras iniciativas no campo pastoral: noites de encontro com intelectuais e artistas, mas também com sindicalistas, estudantes secundários e universitários. Percorre os bairros, mocambos e favelas do Recife e do interior em contato direto com a população mais pobre.
De Recife, apoiado por um bom número de bispos do Nordeste e superiores religiosos provinciais e articulado por Dom Helder, partiu o primeiro grito mais consistente de crítica social e política ao regime militar, com o Manifesto de 1973: "Ouvi os clamores de meu povo". O documento, considerado subversivo pelo regime, só pode se espalhar clandestinamente em edições mimeografadas e prontamente recolhidas pelos militares e pela polícia quando encontradas.
Dom Helder foi calado pelo regime militar e colocado no mais rigoroso ostracismo, mormente após o AI-5, em 1968. Foi proibido pela censura que rádios, jornais e televisões de todo o país retransmitissem suas mensagens ou até escrevessem ou pronunciassem seu nome. Só no exterior podia ele falar livremente a multidões cada vez mais numerosas e entusiastas, num sem número de países, mormente na Europa, Estados Unidos e Canadá. Sua forte presença internacional incomodou alguns episcopados, regimes políticos e finalmente Roma, que também cerceou e limitou suas viagens e pronunciamentos.
Nesse sentido, valeu por uma reabilitação, o abraço do Papa João Paulo II a Dom Helder, quando de sua visita ao Brasil em 1980. Ao descer do avião no aeroporto de Guararapes no Recife, ao mesmo tempo em que abraçava o arcebispo banido, exclamou, diante de todos os meios de comunicação do país: "Dom Helder, irmão dos pobres, meu irmão"!
IHU On-Line - Qual foi o papel de Dom Helder dentro do Concílio Vaticano II? Como ele colaborou para que as discussões e mudanças ocorridas em Roma chegassem até o Brasil?
José Oscar Beozzo - No Concílio Vaticano II, Dom Helder cumpriu um duplo papel, de animador e incentivador de propostas e iniciativas corajosas e proféticas, e de articulador incansável da maioria conciliar.
Valendo-se da posição estratégica que ocupava no terceiro maior episcopado mundial, como secretário-geral da CNBB e de sua função de vice-presidente do CELAM, que estreitava laços e de algum modo representava os 600 bispos latino-americanos e caribenhos, quase um quarto do episcopado mundial, Dom Helder mobilizou a ambos os episcopados para uma iniciativa audaciosa. Semanalmente na Domus Mariae, local de residência, durante o Concílio, dos bispos do Brasil, Dom Helder, junto com Larrain do CELAM e Etchegaray, secretário da Conferência Episcopal francesa, com o apoio do Cardeal Suenens, um dos moderadores do Concílio, passou a reunir representantes das conferências episcopais da Europa, Ásia, África, Oceania e Américas.
Essas reuniões influenciaram a agenda, as votações e os conteúdos do Concílio, por sua capacidade de refletir, avaliar, propor e articular uma ação concertada dos principais episcopados, vertebrando de certo modo a assembléia conciliar.
Dom Helder participou igualmente de algum dos grupos informais mais atuantes no Concílio, como o Grupo da Igreja dos Pobres, que reunia bispos dos vários continentes preocupados com o compromisso da Igreja com os pobres e com suas lutas para superar os males da pobreza e da miséria, por meio de maior justiça e de um desenvolvimento integral que atingisse a todos, de modo particular, os mais empobrecidos enquanto países e classes sociais.
Articulou o nascimento do Opus Angeli, grupo que acertou uma forma organizada de teólogos e especialistas nas diferentes ciências humanas e sociais de prestarem uma assessoria qualificada ao episcopado brasileiro. Essa colaboração foi estendida depois a outros episcopados e, sobretudo, às conferências episcopais articuladas entre si no Grupo da Domus Mariae.
Em relação ao episcopado brasileiro, tomou iniciativa e incalculável alcance o ciclo de Conferências, que passou a ser organizado na Domus Mariae a partir da primeira sessão conciliar e que se ampliou e a diversificou nas três sessões subseqüentes. Ali, para cada um dos temas em discussão na Aula Conciliar, foram convidados os melhores teólogos e especialistas dos vários países para falar aos bispos do Brasil, qualificando o episcopado brasileiro para uma participação cada vez mais consciente e fundamentada nos debates, propostas e votações conciliares. Fez assim, da CNBB, um verdadeiro Fórum de debates de todos os temas e assuntos conciliares, por mais difíceis e delicados que fossem.
Essa longa e enriquecedora convivência romana ao longo das quatro sessões conciliares fez da CNBB o episcopado que melhor se preparou para a recepção conciliar, o único a sair de Roma com um plano de aplicação do Concílio, pensado, debatido e votado no seu conjunto e detalhes e que foi batizado de PPP: Plano de Pastoral de Conjunto.
Dom Helder, que nunca falou na Aula Conciliar, tornou-se um dos mais ouvidos e respeitados padres conciliares. Sua voz que não se fez ouvir na Basílica de São Paulo estava quase que diariamente presente nos meios de comunicação social, com inumeráveis entrevistas e conferências, que eram retransmitidas pelas rádios e televisões de todo o mundo.
Sua grande tribuna conciliar foram os meios de comunicação social, tendo-se tornado um amigo de centenas de jornalistas que cobriram regularmente o Concílio de 1962 a 1965. Isso ajuda a explicar e enorme audiência internacional de Dom Helder, também nos anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II.
IHU On-Line - Muito se comenta sobre o "Pacto das Catacumbas", documento assinado por cerca de 40 padres, nas catacumbas de Domitila, em Roma, durante o Concílio, que teve grande influência na Teologia da Libertação. Poderia contar-nos mais detalhes sobre esse pacto?
José Oscar Beozzo - O Pacto das Catacumbas foi firmado pelos bispos pertencentes ao grupo Igreja dos Pobres. Quase 500 outros bispos aderiram ao documento, cujo título era: "O Pacto da Igreja pobre e servidora", explicando assim seu impacto em praticamente toda a Igreja, indo da Europa, passando pela Ásia, África e chegando a América Latina, onde se encontrava o grupo mais numeroso de bispos comprometidos com essa linha de pensamento e ação.
O Pacto se desdobrava em 13 compromissos assumidos conjuntamente pelos seus signatários no sentido de viverem pobremente, quanto à habitação, vestuário, alimentação e meios de locomoção.
Isso explica porque Dom Helder, assim que pode, deixou o Palácio Episcopal de Manguinhos e foi viver pobremente na sacristia da Igreja das Três Fronteiras, no Recife, ou que nunca tenha tido um automóvel ou motorista ou ainda que usasse sua surrada batina branca, com apenas uma cruz de madeira, como insígnia episcopal.
A entrega das terras da arquidiocese a camponeses pobres que ali trabalhavam, empenhando-se em dar-lhes assistência técnica, jurídica e social para que conquistassem autonomia e cidadania, enquadrava-se nos compromissos do Pacto das Catacumbas que propunha ainda:
"Achando a colegialidade dos bispos sua realização mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:
- a participar, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
- a requerermos juntos, ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não fabriquem nações proletárias num mundo, cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres, saírem de sua miséria".
O Pacto propunha também uma mudança radical das relações entre os bispos e os leigos e leigas, sacerdotes e religiosos/as:
"Comprometemo-nos a partilhar na caridade pastoral, nossa via com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosas e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço. Assim:
- esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida com eles";
- suscitaremos colaboradores para serem mais animadores, segundo o Espírito, do que chefes, segundo o mundo;
- procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
- mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião".
IHU On-Line - A partir da assinatura do Pacto, qual a relação de Dom Helder com a Teologia da Libertação?
José Oscar Beozzo - Em relação à Teologia da Libertação, Dom Helder instaurou em sua vida e em sua ação pastoral local e internacional, práticas profundamente libertadoras. Tanto no Concílio, como de modo particular em Medellín e Puebla, foi um dos inspiradores e realizadores da opção preferencial pelos pobres.
Sua prática libertadora serviu de inspiração e estímulo à reflexão teológica, e seu Instituto Teológico em Recife, o ITER, foi um dos principais laboratórios e centros de produção de uma teologia da libertação colada à prática das comunidades eclesiais de base e aos movimentos populares.
Dom Helder foi um bispo e um pastor da libertação, não se considerando ele mesmo um teólogo, e sim um inspirador e animador da reflexão teológica libertadora.

* Instituto Humanitas Unisinos

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

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terça-feira, 17 de junho de 2008

Brasil/REFLEXÕES DE UM BISPO


Dom Clemente Isnard *


16 junho 2008 [ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
www.adital.com.br


Carta de Dom Clemente Isnard sobre as peripécias da publicação do seu livro


Quem tem medo da verdade?
Quem quer calar os Profetas?
Quem quer zerar o Concílio Vaticano II
e voltar para a Igreja-Poder e para a centralização vaticana?
(João Tavares)


No dia oito de julho do ano passado, completei noventa anos e, a convite de um grande amigo, pe. José Romero Rodrigues de Freitas, vim a Recife para festejar a data com os amigos daqui.

Celebrei a Missa na Igreja das Fronteiras, onde está bem viva a lembrança de nosso inesquecível Dom Helder Camara, com muitos concelebrantes e mais duas centenas de amigos. No meu sermão terminei, depois de narrar os quatro períodos de minha longa vida, aludindo a um projeto de futuro. Que ousadia era fazer projetos aos noventa anos! E dizia: reatando com a mocidade, lutar pelo Movimento Litúrgico, pelo Concílio Vaticano II, por uma Igreja sem Núncio Apostólico e sem Cúria Romana (entenda-se sem a Cúria Hiperatrofiada de hoje).

Ouviu esse sermão o grande teólogo José Comblin, que me animou a escrever. No segundo semestre de 2007 escrevi um livrinho com o título de "O que o Concílio não fez" e pedi ao padre Comblin para ler antes da publicação e escrever o Prefácio. O que ele fez, sugerindo uma mudança de título para "Reflexões de Um Bispo sobre as Instituições Eclesiásticas".

Em dezembro de 2007 procurei a Editora Paulus para publicar o livro. Aceitou a incumbência e conversei com muitas pessoas sobre o conteúdo do livro. Em fevereiro fui surpreendido por um telefonema da Paulus dizendo que o livro estava pronto para publicação, mas que não poderiam editar por terem recebido uma proibição do Núncio Apostólico, Dom Lourenzo Baldisseri. Não procurei diálogo com essa autoridade eclesiástica que não me procurou diretamente, mas se dirigiu por cima de minha cabeça à Editora.

No mês de março, estando em Recife, recebi uma atenciosa carta do Regional Leste 1, assinada por todos os bispos do mesmo Regional. Nessa carta pediam que eu não publicasse o livro.

Evidentemente, a opinião unânime dos bispos da região me confundiu, mas não me convenceu. Respondi a cada um dos companheiros uma carta do mesmo teor, em que estranhava que tivessem condenado o livro sem o ter lido (não sei qual dos bispos o teria lido) desprezando a opinião de um teólogo que já publicou mais de 50 obras e que tinha corrigido o livro e redigido o Prefácio, Padre José Comblin. Como sou teimoso, consegui uma editora que se interessou pelo assunto do livro e se ofereceu para publicá-lo.

A Igreja tem um organismo em Roma encarregado de examinar a doutrina dos livros que se publicam no mundo inteiro. Mas o meu livro nada tem contra a doutrina da Igreja. É um livro não de doutrina, mas de disciplina da Igreja que tem variado incessantemente nesses dois mil anos de vida, e ainda recentemente teve um Concílio Ecumênico de Reforma, o Vaticano II.

O Concílio Vaticano II foi elogiado pelo Papa Paulo VI, que o presidiu depois de João XXIII, como um dos maiores e melhores Concílios da História da Igreja pelo número de participantes, pelo número de documentos promulgados, e pela extensão de sua preocupação também com a vida da humanidade. No Concílio eu me habituei com as lutas internas da Igreja, que não terminaram. Há muitas coisas nas Instituições Eclesiásticas que deveriam ter sido corrigidas. Coisas grandes e pequenas. O Concílio fez muito mas não pode fazer tudo. Será que João XXIII teria presidido melhor que Paulo VI ? Agora é preciso abordar os temas que foram tocados pelo Concílio mas não concluídos, para que sejam resolvidos por quem de direito.

São grandes os problemas da Igreja hoje: A nomeação dos Bispos, os Bispos Auxiliares e os Eméritos, o Celibato Sacerdotal e a Exclusão das mulheres do Sacramento da Ordem. Desses cinco assuntos é que trata o livro que será lançado no dia 13, às 19:00hs, na Igreja das Fronteiras em Recife.

Os que se interessarem por esses problemas da Igreja devem procurar companheiros e organizar grupos de estudo, para aprofundamento dos assuntos e procura de soluções.

Dom Clemente Isnard
Bispo Emérito de Nova Friburgo, Rio de Janeiro

Leia a Reportagem e entrevista publicadas pelo Diário de Pernambuco, em 12 de junho de 2008.

Bispo lança livro e desafia leis da Igreja

Por Jailson da Paz, Diário de Pernambuco

Há temas que quase toda pessoa, seja católica ou não, gosta de se posicionar. Alimentar discussões e polêmicas. Entre eles o celibato sacerdotal e o direito das mulheres celebrarem missas. Já o Vaticano costuma tratar os assuntos com certo cuidado. E poucas vozes da Igreja, nas últimas décadas, ousaram contribuir com o debate fora das paredes dos seminários e das cúrias. O bispo emérito da Diocese de Nova Friburgo (Rio de Janeiro), dom Clemente Isnard, resolveu derrubar tais barreiras. Aos 90 anos e reconhecido internacionalmente por seu trabalho no campo litúrgico, ele lança hoje o livro - Reflexões de um bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais - que promete jogar lenha na fogueira. E não fala apenas do celibato e das mulheres, trata de um dos pontos quase intocável no Vaticano: a participação dos leigos na escolha dos bispos. Um sinal de reconhecimento ao trabalho feito por dom Helder Camara.

"Fala-se tanto na falta de sacerdotes, nas paróquias sem padres, nos padres que se secularizaram deixando o ministério. E não se pensa nos padres de valor e que se casaram e que poderiam ter continuado no ministério se a Igreja lhes tivesse concedido matrimônio", argumentou o bispo emérito. Dom Isnard encontra justificativa para seu posicionamento na experiência. Foram mais de 30 anos à frente da Diocese Nova Friburgo. E também no conhecimento histórico. Ele lembra que a exigência do celibato apareceu pela primeira vez por volta do ano 300, mas que ainda hoje as igrejas orientais católicas permitem que padres se casem. Segundo o religioso, a multiplicação dos diáconos permanentes é um sinal de que o padre casado seria bem aceito em muitos lugares. Os diáconos são homens casados ou celibatários que podem pregar, mas não estão autorizados a consagrar a hóstia e o vinho.

Dom Isnard recorre ao olhar de pastor para se posicionar em defesa das mulheres. "Em minha longa vida conheci padres incapazes de ser párocos e conheci também religiosas e leigas consagradas com capacidade de dirigir comunidades", testemunhou. Para o monge beneditino, a dispensa do celibato não é uma mudança teológica, mas disciplinar. E sugere a necessidade de se analisar a Bíblia, quando São Paulo afirma que todos - judeu e grego, servo e livre, homem e mulher - são iguais perante Deus. "Esse me parece um poderoso argumento bíblico em favor da ordenação de mulheres", acredita.

As análises do autor se voltam também para a eleição dos bispos. "Em nossos dias o povo não é ouvido na eleição, mas pode se manifestar na hora do enterro", afirma, lembrando que a participação dos leigos nas eleições era comum no primeiro milênio de existência da instituição. Essa a prática foi caindo em desuso com a crescente interferência dos reis. Diante do que viveu e conhece, o bispo emérito defende que o ideal seria voltar ao regime do primeiro milênio, onde bispos, clero e povo participavam das escolhas.

O povo, exemplifica, seria homens e mulheres engajados na Igreja, idosos e jovens, em número que expressasse as duas categorias E conclui, de maneira incisiva que a "descentralização das nomeações episcopais traria um alívio notável para as finanças da Sé Apostólica, uma vez que o pessoa da nunciatura não precisaria ser tão numeroso". Coincidência ou não, dom Isnard contou que uma cópia do seu livro foi entregue ao núncio apostólico no Brasil antes da publicação. E esse teria pedido a Editora Paulus, com quem estava outra cópia do texto, para não publicar o livro.

Ainda sobre os bispos, dom Isnard se pergunta como recuperar um episcopado zeloso, culto e avançado. Ele mesmo responde que na situação atual seria necessário um novo concílio ecumênico para completar o Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965 e responsável por mudanças na Igreja. Uma delas foi permitir a celebração das missas em diversas línguas, acabando com a ditadura do latim. Mesmo apontando o caminho, o bispo emérito acredita que dificilmente haveria mudanças hoje. Isso porque a Cúria Romana prepara e redige tudo.

Leia a Entrevista com D. Clemente Isnard:

'Não nos comportemos como fariseus'

A dedicação de dom Clemente Isnard à Igreja Católica se aproxima de sete décadas. Nesse tempo, ele assumiu diversas funções. Foi o primeiro bispo de Nova Friburgo, vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), além de ter participado como padre conciliar de todas as etapas do Vaticano II e integrado comissões junto à Santa Sé. O bispo emérito conhece bem os caminhos da Igreja, especialmente no campo litúrgico. Parte desse conhecimento está no livro Viver a liturgia também a ser lançado hoje, no qual reúne uma série de reflexões. Na obra, dom Isnar afirma que, à medida que a idade vai chegando, sente-se mais livre para escrever o que pensa. "Gozando de plena liberdade, posso elogiar ou criticar também autoridades eclesiásticas sem considerar cargos ou pessoas", salienta. Essa firmeza pode ser vista na entrevista abaixo:

Por que escrever sobre temas polêmicos como o celibato e a escolha dos bispos?

- Para dar meu testemunho como bispo para o povo.

E como surgiu a idéia da publicação?

- Depois da missa de meus 90 anos, na Igreja das Fronteiras, no ano passado. Na homilia, falei dos meus sonhos para a Igreja e depois da celebração. O padre José Comblin, da Paraíba, pediu para eu escrever. O livro é o resultado.

O senhor recebeu alguma pressão para não publicar o livro?

- Quando o texto estava pronto, uma cópia foi tirada do meu computador sem minha autorização indo parar nas mãos do núncio apostólico, dom Lourenzo Baldisseri, que pediu a Editora Paulus para não publicar o trabalho. O livro está saindo por outra editora, a Olho d'Água.

Alguma autoridade chegou a pedir diretamente para que o senhor desistisse?

- Todos os bispos do Regional Leste 1, que reúne as dioceses do Rio de Janeiro, fizeram uma carta me pedindo para não publicar o livro. Eles alegavam que os assuntos poderiam ser mal interpretados e isso seria ruim para a Igreja.

Não teme repercussões negativas?

- Meu Deus! Eu acho que a discussão sobre esses temas somente fará bem. A Igreja é santa e pecadora. E a história mostra que as mudanças na Igreja demoram séculos para acontecer. Talvez tenhamos que esperar um milênio, mas temos que ser insistentes. Com o livro, quero apenas conscientizar as pessoas.

E se o Vaticano chamar o senhor como fez com Leonardo Boff nos anos 80?

- Já estou velho, mas vou lá. Repito o que está no livro e outras coisas mais. Tudo farei sob a luz do Evangelho, que pediu para não nos comportarmos como fariseus.

O senhor pensa escrever outros livros desse tipo?

- Sim. E penso em incluir um capítulo que, a princípio, seria publicado nas reflexões atuais, mas retirei por sugestão de um padre que fez análise do livro.

E de que tratava?

- Nesse capítulo, eu abordava a questão dos bispos auxiliares, tendo como fundamento experiências vividas em dioceses brasileiras.


* Bispo Emérito de Nova Friburgo, Rio de Janeiro

Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para: Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil

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sábado, 2 de fevereiro de 2008

Brasil/D. ALOÍSIO LORSCHEIDER, LÚCIDO E VALENTE

D. Aloísio foi um teólogo que entendeu a caminhada do povo de Deus e ficará como um marco numa Igreja que terá que se renovar e superar simplismos e medos de certos temas, para saber enfrentar os desafios deste século XXI.

Agência Cartamaior / 24 dezembro 2007 / http://www.agenciacartamaior.com.br

Eu trabalhava com D. Hélder, numa daquelas salas escuras do Palácio São Joaquim, quando ele nos anunciou: “quero apresentá-los o jovem bispo de Santo Ângelo, da zona missioneira do Rio Grande, importante teólogo, que será uma figura central na Igreja do Brasil”. Tínhamos diante de nós um bispo alto, fala com sotaque forte da região alemã e, por que não dizê-lo, um tom de voz meio estranho. Creio que foi no meio do Vaticano II. Logo se faria entender na Conferência dos Bispos, com intervenções lúcidas, a ponto de ser eleito secretário geral da CNBB. Tempos da ditadura e da repressão. Sua fala mansa escondia uma firmeza e uma precisão que deixavam os presidentes militares irritados. Outro gaúcho, este de poucas luzes, que não via além das cavalariças, Médici, o expulsou irritado de sua sala. D. Aloísio passou depois a presidente da CNBB, em dobradinha com seu primo, Ivo Lorscheiter, como novo secretário geral. Sobrenomes quase iguais, um com d, outro com t, eram da mesma família. Nunca foi tão apropriada essa combinação de parentesco, idéias e complementariedade. Ivo era mais explosivo, Aloísio falava manso. Entendiam-se sem precisar falar um com o outro. Dois valentes em tempos de chumbo.
Ivo recebeu o patriarca de Veneza, Albino Luciano, em sua casa em Santa Maria e quando morreu Paulo VI, este votou várias vezes, no conclave, no primo dele, Aloísio. Estava no ar seu nome para papa. Alegavam alguns, que pensavam em italianos, que tinha problemas de coração, passara por um enfarto. Queriam afastar a ele e ao Cardeal Arns , dois franciscanos, como possíveis e perigosos papas. Foi eleito o patriarca, que viveu 33 dias em Roma. Nova eleição e voltou o nome de Aloísio. Novamente levantaram o pretexto de saúde, agora agravado pela morte fulminante de João Paulo I. Preferiram um polonês jovem que era esquiador e que instalou-se no papado por mais de um quarto de século. Mas a verdade é que partiu antes de D. Aloísio e seu pontificado foi, como disse alguém, a volta à grande disciplina.
Os dois se encontraram na reunião dos bispos em Puebla, janeiro de 1979. O novo papa chegou falando duramente em seu discurso. Lembro como vários de nós, que estávamos ali, do lado de fora, assessorando oficiosamente bispos amigos, ficamos desalentados e pessimistas. Foi o grande teólogo Gustavo Gutiérrez quem deu ânimo. O texto do papa tinha três partes, duas negativas e a terceira abrindo caminhos. Nosso peruano, com a resistência índia diante de tantos anos de dominação, deu a chave: ler as duas primeiras partes à luz da terceira! Mas o grande momento estava por vir, no dia seguinte. D. Aloísio, nesse momento, era presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Fez um discurso curto e claro, abrindo os trabalhos. Era hora, disse ele, de pensar com liberdade e ousadia os graves problemas de nossa região. Liberou a assembléia e entrou uma luz que abriu portas e janelas.
Alguns bispos mais conservadores, depois do discurso do papa, chegaram a dizer que agora bastava tomar seu texto e publicá-lo como documento da assembléia. O plenário não aceitou e Puebla, confirmando a reunião anterior de Medellín, denunciou o pecado social do continente, fez a opção pelos pobres. e anunciou as comunidades eclesiais de base como instrumentos de evangelização e de transformação. Graças em boa parte ao clima que D. Aloísio criou e a um grande bispo que iria ser seu sucessor na CNBB anos mais tarde, Luciano Mendes de Almeida, na comissão coordenadora dos debates.
Pela política vaticana, nunca foi nomeado para Rio ou São Paulo, mas ficou em Fortaleza, que pela primeira e talvez única vez teve um cardeal. Depois, o mandaram para Aparecida, diocese mais honorífica que importante. Seu primo também nunca chegou a arcebispo de Porto Alegre, preterido por bispos anodinos e morreu bispo em Santa Maria. As cúrias temem figuras fortes. D. Hélder , como mais tarde D. Luciano, não veio ao Rio, nem foi cardeal, ainda que, ao que parece, João XXIII o chamou uma vez de “il mio cardinalletto.”
Nos últimos anos, D. Aloísio partiu para o convento franciscano de Porto Alegre, onde morreu. Mereceria uma biografia, como algumas que foram surgindo, do Cardeal Arns, Hélder Câmara, Waldyr Calheiros e vários outros. Através delas podemos reconstituir uma época gloriosa da Igreja Católica brasileira. Não sou pessimista, achando que as grandes figuras ficaram no passado. Alguns se referem às nomeações de bispos conservadores. O que esquecem é que vários bispos, como D. Hélder ou D. Romero, vieram de posições tradicionais e o trabalho pastoral e o povo de Deus os converteram. Tenho feito reparos a uma posição política de D. Cappio, misturando Fé e posições de cidadania, valentes sem dúvida, ao mesmo tempo que insisto em seu carisma, junto com valentes bispos hoje aposentados e outros como Erwin Keutler, Demetrio Valentini ou Mocyr Grecchi, que aí estão para sinalizar posições significativas.
Mas o importante não são apenas bispos, o que seria uma visão de cima para baixo, mas a ação eclesial de pastorais, CEBs e movimentos, renovando e abrindo caminhos. Esse trabalho nas bases tem aberto os olhos de pastores e clero. D. Aloísio foi um teólogo que entendeu a caminhada do povo de Deus e ficará como um marco numa Igreja que terá que se renovar e superar simplismos e medos de certos temas (sacerdócio de mulheres e casados, sexualidade, reprodução, ecumenismo), mantendo a opção pelo pobre e excluído, para saber enfrentar os desafios deste século XXI. Isso sem misturar planos, mas aceitando que vivemos numa sociedade secular laica, onde a Igreja tem de renunciar a ressaibos de velhas cristandades e, humildemente, dar testemunho aos lado de tantos “homens e mulheres de boa vontade”, para usar a expressão de João XXIII, que também anunciou primaveras pela frente.

* Luis Alberto Gómez de Sousa, sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.

http://www.agenciacartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14769&alterarHomeAtual=1

sábado, 18 de agosto de 2007

El papa recibe adulterado un documento elaborado por el episcopado de América Latina

Juan Arias / El País / Redes Cristianas 17 Agosto 2007

El texto presenta, al menos, 200 enmiendas con respecto al original

El Papa Benedicto XVI ha recibido, adulterado con más de 200 enmiendas, un importante documento elaborado y aprobado el pasado 11 de junio por el Episcopado de América Latina, resultado de la V Conferencia del CELAM, según informa el diario O Estado de São Paulo. La Conferencia se convoca una vez cada cinco años y, en esta ocasión, se celebró en el Santuario de Nuestra Señora de Aparecida, en Brasil.


“No sé quién alteró el texto, pero quiero saberlo, ya que no es la primera vez que eso ocurre. Yo creí que estaba leyendo el original”, aseguró el presidente de la Conferencia Episcopal de Brasil y arzobispo de Salvador, el cardenal Geraldo Majella Agnelo. Según el purpurado, en base a las informaciones que le han llegado, “no fue en Roma” donde tuvo lugar la adulteración del importante documento.

Las sospechas recaen sobre el cardenal chileno Francisco Javier Erráruriz y sobre el obispo argentino Andrés Stanovnik, presidente y secretario respectivamente en aquella fecha del CELAM. El cardenal Majella ha pedido que se reestablezca inmediatamente el texto original. Una larga lista de teólogos y religiosos han pedido lo mismo.

En respuesta a las reclamaciones, el cardenal chileno envió una carta en la que sugiere que “no se hable más del asunto”. En dicha carta se escribe: “Seguramente daríamos una gran alegría al demonio, si nos ocupásemos de los cambios que han tenido lugar en el texto final, de modo que el malestar acabase eclipsando la maravillosa experiencia de Aparecida y sus grandes orientaciones pastorales”.

El Papa Benedicto XVI fue el encargado de hacer el discurso de apertura de la Conferencia, a la que asistieron más de mil obispos de América Latina y Caribe. La Conferencia del CELAM traza cada cinco años la línea pastoral del episcopado latinoamericano. Otras Conferencias famosas, en el pasado, fueron la de Medellín (Colombia), inaugurada por Pablo VI, y la de Puebla (México), por Juan Pablo II. Todas ellas estuvieron siempre rodeadas de polémicas.

Las alteraciones

Los cambios realizados ilegalmente en el texto ya aprobado por los obispos se refieren en buena parte al espinoso tema de las llamadas “comunidades de base”, en la iglesia latinoamericana, generalmente de corte progresista y animadas por la teología de la liberación. Las alteraciones consisten a veces en suprimir una parte del texto. Refiriéndose a las comunidades de base se suprimió por ejemplo, el siguiente párrafo: “Después del camino recorrido hasta ahora, con ganancias y dificultades, ha llegado el momento de una profunda renovación de esta rica experiencia eclesial en nuestro continente, para que no pierda su eficacia, sino que se perfeccione y amplíe de acuerdo con las nuevas exigencias de los tiempos”.

En otras ocasiones, la adulteración consiste en añadir nuevos párrafos no aprobados por los obispos como el siguiente, referido también a las comunidades de base. Después de subrayar el compromiso social de las mismas, se añade que “también se ha constado que no faltaron miembros de comunidades o comunidades enteras que, atraídas por instituciones puramente laicas o radicalizadas ideológicamente, fueron perdiendo el sentido eclesial”.

Hasta hoy no ha habido reacción alguna del Vaticano a las revelaciones sobre la adulteración del importante documento. (Redes Cristianas)

http://www.redescristianas.net/2007/08/17/el-papa-recibe-adulterado-un-documento-elaborado-por-el-episcopado-de-america-latina-juan-arias/

Comentários

- Los cambios al documento de Aparecida. Ronaldo Muñoz

- ¿Quién violó el texto de Aparecida? Eduardo de la Serna

- Las Comunidades Eclesiales de Base en el texto de Aparecida. Francisco Signorelli