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sábado, 3 de setembro de 2016

Brasil/QUEDA DE DILMA FOI ORDENADA POR WALL STREET – Chossudovsky*

1º. setembro 2016, Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)

Em artigo publicado pela primeira vez em junho, mas reeditado neste 1º de setembro, um dia após a consumação do impeachment no Brasil, o renomado professor e economista canadense Michel Chossudovsky explica por que a queda de Dilma foi ordenada por Wall Street e tenta desmascarar "os atores por trás do golpe".

Fotos/Resistir.info*

"O controle sobre a política monetária e a reforma macroeconômica eram os objetivos últimos do golpe de Estado. As nomeações principais do ponto de vista de Wall Street são o Banco Central, que domina a política monetária e as operações de câmbio, o Ministério da Fazenda e o Banco do Brasil", diz o artigo, ressaltando que, desde o governo FHC, passando por Lula e Temer, Wall Street tem exercido controle sobre os nomes apontados para liderar essas três instâncias estratégicas para a economia brasileira. 

"Em nome de Wall Street e do 'consenso de Washington', o 'governo' interino pós-golpe de Michel Temer nomeou um ex-CEO de Wall Street (com cidadania dos EUA) para dirigir o Ministério da Fazenda", diz o artigo, referindo-se a Henrique Meirelles, nomeado em 12 de maio.
 

Como observa o artigo, Meirelles, que tem dupla cidadania Brasil-EUA, serviu como

sábado, 22 de agosto de 2009

Brasil/Juiz escravagista é acusado de comandar despejo violento



Juiz Marcelo nega acusações de famílias despejadas (Foto: TJ/MA)

Segundo famílias que ocupavam fazenda de Marcelo Testa Baldochi, o próprio magistrado desferiu agressões verbais e físicas contra os sem-terra em despejo (com 50 policiais e sem oficial de justiça) ocorrido em 5 de agosto

Por Bianca Pyl

20 agosto 2009/Repórter Brasil http://www.reporterbrasil.com.br

Flagrado pela exploração de 25 pessoas em condições de escravidão em 2007, o juiz estadual Marcelo Testa Baldochi, da Comarca de Pastos Bons (MA), terá de responder também à acusação de comandar pessoalmente uma ação truculenta de reintegração de posse. Relatos graves de dezenas de famílias do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que ocupavam a Fazenda Pôr do Sol, que fica em Bom Jardim (MA) e pertence ao juiz, fazem parte da representação apresentada contra o magistrado na Corregedoria-Geral da Justiça do Estado do Maranhão no início deste mês.

Segundo a representação, Marcelo Testa Baldochi desferiu agressões verbais (declarando "que eles estavam tendo era sorte, pois os tempos são outros e, se fosse em outra época, não sairiam vivios dali") e físicas (socos e pontapés) contra os sem-terra, no último dia 5 de agosto.

Denúncias divulgadas pelo Centro de Defesa dos Direitos Humanos e da Vida (CDVDH) de Açailândia (MA) trazem mais detalhes do ocorrido. A entidade conta que o juiz agrediu pessoas e "uma senhora que se encontrava com uma criança nos braços, com medo de ser agredida pelo juiz, correu e acabou caindo e por conta disso quebrou a perna da criança [que acabou internada num hospital da região]". Um dos sem-terra afirma que, além de ser espancado pelo juiz, teve sua moto destruída. Segundo a entidade, documentos pessoais foram queimados junto com os barracos.

"Em alguns casos, a polícia teve que intervir junto ao juiz para evitar danos maiores", adiciona o CDVDH. Para piorar a situação, as famílias relatam que o próprio juiz, no calor de sua fúria, gritava com os policiais, dizendo ter pagado R$ 1.000,00 (mil reais) a cada um deles para cumprir suas ordens que era capturar todas as lideranças dali e quem tivesse dado apoio aos sem-terra", emenda o comunicado do centro.

As vítimas relatam que os atos de violência se deram na segunda desocupação comandada pelo juiz. O MST ocupou a Fazenda Pôr do Sol pela primeira vez em 26 de julho. A primeira reintegração de posse ocorreu sem registros de violência mais ostensiva no dia 1º de agosto (sábado), seis dias depois da primeira ocupação, com a presença de oficial de justiça e apoio de cerca de 100 policiais militares. Mesmo assim, degundo Francisco Elias de Araújo, da coordenação estadual do MST no Maranhão, o primeiro despejo já foi irregular, pois a execução de mandados judiciais só pode se dar em dias úteis. A liminar, complementa Francisco, cita o prazo de 15 dias para contestação, que também não foi cumprido. As famílias não tiveram acesso ao mandado.

Em 4 de agosto, os sem-terra decidiram voltar à propriedade. Mas a ocupação durou até às 11h da manhã do dia seguinte. O juiz retornou ao local com cerca de 50 policiais militares - sem a presença de oficial de justiça e com o mesmo mandado judicial de reintegração de posse - e expulsou as famílias, conforme os envolvidos, de forma violenta. Os lavradores Cícero Martins dos Santos e Valmir Soares Silva foram presos e permaneceram na Delegacia Municipal de Santa Luzia (MA) até 11 de agosto. "Nós pagamos a fianças dos dois e vamos preparar a defesa deles, que são acusados de porte ilegal de armas", conta Maria Inez Pinheiro, do MST do Maranhão.

Na opinião de Antônio Filho, do CDVDH, que esteve no local após o segundo despejo, a diferença de postura do juiz nos dois despejos pode ser explicada. "O primeiro despejo foi acompanhado por um oficial de Justiça e o juiz Marcelo Baldochi não foi violento com os trabalhadores. Ficou observando. Na segunda vez, ele estava com um pedaço de pau na mão", conta.

Em entrevista por e-mail à Repórter Brasil, o juiz refutou as denúncias dos despejados da Fazenda Pôr do Sol. "Eu não acompanhei a desocupação. Permaneci em um imóvel vizinho. Somente após a ação, no final da tarde, com a situação já estabilizada, fui à fazenda, em companhia de um oficial de justiça e vários policiais militares para ver os estragos da invasão". Marcelo disse não ter participado "por cautela".

Sobre o segundo despejo, ele disse que tudo "transcorreu normalmente, a cargo dos oficiais da Polícia Militar do Maranhão". "Pelos registros policiais, apenas dois invasores foram presos portando armas de fogo enquanto outros fugiram pela mata levando as armas, restando, todavia outras 6 apreendidas, sem identificação dos portadores. Não houve registro de qualquer incidente. Os dois invasores presos passaram por exame de corpo de delito, sem registro de qualquer lesão".

O magistrado declarou que os sem-terra "mataram um boi, destruiram cercas, cortaram arames, quebraram uma motobomba, danificaram a casa sede, além de terem derrubado árvores e obstruído estradas". "Com esse trabalho, os invasores quebraram a cadeia de mais de 2 anos de investimentos, permitindo que cerca de 300 bovinos ficassem esparramados (ou sumidos) por fazendas vizinhas. Essa é a ressaca de uma invasão cujos prejuízos, significativos, serão cobrados, na forma da lei, dos articuladores da invasão".

Para acompanhar o caso, o MST articulou uma comissão de direitos humanos, formada por sindicatos, pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Maranhão e por organizações civis como o CDVDH. As dezenas de famílias despejadas, que são de Alto Alegre do Pindaré (MA), permanecem no Assentamento Terra Livre, que fica próximo à área de 1,1 mil hectares do juiz, onde a fiscalização encontrou escravos em setembro de 2007.

"O mais intrigante", como relata o CDVDH, "foi a eficiência do Estado para cumprir um mandado de reintegração de posse, mobilizando em curto espaço de tempo centenas de policiais, enquanto ´empurra com a barriga´ há mais de 100 dias o cumprimento de mandado de prisão de escravocratas, alegando não ter dinheiro para deslocamento dos agentes de polícia".

Escravidão
Em consequência da libertação de 25 pessoas (incluindo um jovem de apenas 15 anos) em situação análoga a escravidão, ocorrida em 2007, o juiz Marcelo Baldochi entrou em dezembro do ano passado na "lista suja" do trabalho escravo, relação de infratores que utilizaram mão-de-obra escrava mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em junho deste ano, porém, ele foi excluído do cadastro por causa de um problema no processo administrativo instaurado pelo MTE.

"Os processos foram anulados pelo próprio MTE por incorrerem em nulidade absoluta, os quais deverão ser reexaminados. Portanto, não há julgamento de mérito, seja reconhecendo ou rejeitando os autos de infração e, por óbvio, decidindo qualquer fato alusivo ao reconhecimento (ou não) de trabalho escravo", comentou o juiz Marcelo na entrevista à Repórter Brasil.

O julgamento da denúncia feita pelo Ministério Público Estadual (MPE) contra o magistrado por conta do flagrante de escravidão foi adiado pelo Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ/MA), no final do último mês de julho. "Alguns documentos foram juntados pela minha defesa. O Ministério Público deve tomar conhecimento destes documentos a fim de que seja garantido o devido processo legal e não ocorra nulidade", explica o próprio Marcelo, que também promoveu intervenções como juiz no caso de outro escravagista (Miguel de Souza Rezende). Segundo a Raquel Chaves Duarte Sales, a interferência de favorecer do juiz estadual pode favorecer o outro réu.

Em maio de 2008, o processo de vitaliciamento do juiz Marcelo foi retirado de pauta do TJ/MA. Na ocasião, ele questionou o direito de voto no processo dos desembargadores que possuem filhos na magistratura. "É lamentável, se for verdade que ele declarou isso e, pior ainda, se ele tem conhecimento de atos ilícitos promovidos pelos desembargadores do TJ, e não denuncia quais são esses fatos", declara Aníbal Lins, presidente do Sindicado dos Servidores da Justiça do Maranhão (Sindjus-MA). A entidade protocolou um mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) avalie o caso do juiz escravagista.

"O Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) tem uma longa e larga tradição de corporativismo, de proteger os magistrados denunciados e invetsigados. O processo contra desembargadores não anda, isso é um fato público e comprovado pela própria corregedoria do CNJ. Contraditoriamente, o TJ-MA tem uma prática de banalizar de processos administrativos disciplinares contra os servidores para intimidar a organização independente dos trabalhadores, um verdadeiro assédio moral institucionalizado", ressalta Aníbal.

O MST entrou com um pedido de desapropriação da Fazenda Pôr do Sol no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária do Maranhão (Incra/MA). Segundo assessoria do Incra-MA, o órgão fica impedido de realizar a vistoria na área para desapropriação do imóvel para fins de reforma agrária pelo prazo de dois anos após a ocupação. O impedimento foi imposto por Medida Provisória (MP 2.109-47), de 27 de dezembro de 2000, assinada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

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sábado, 8 de agosto de 2009

VOLTAR ÀS RUAS PELA REFORMA AGRÁRIA E POR UM BRASIL SEM LATIFÚNDIO

[ADITAL] Agência de Informação Frei Tito para a América Latina

7 agosto 2009/http://www.adital.com.br

MST *

Neste mês de agosto a classe trabalhadora brasileira sairá às ruas para protestar e dialogar com a população sobre a crise econômica e suas consequências para os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade. Nós do MST lá estaremos marchando e debatendo sobre nossa proposta de Reforma Agrária Popular, como projeto sustentável de desenvolvimento social para o país, e denunciando o total abandono da Reforma Agrária por parte do Governo Lula.
Montaremos um Acampamento Nacional pela Reforma Agrária em Brasília, e lá ficaremos de 10 a 21 de agosto. Queremos debater com o governo e com a sociedade nossas propostas para melhorar a vida da população do campo e da cidade. Sairemos em marcha em vários estados e vamos nos somar às diversas forças organizadas no dia 14 em atos nas capitais.
Não são novidade para ninguém as críticas do MST ao Programa de Reforma Agrária do atual governo executado pelo Incra e pelo MDA. Essa posição política só é possível porque nos últimos anos, além de mantermos nossa autonomia em relação ao governo, não paramos de fazer luta contra o latifúndio e contra as grandes empresas transnacionais.
Frustrando as expectativas de quem acreditava em mudanças, o governo Lula manteve a mesma política agrária do governo tucano de FHC, fortalecendo o agronegócio, com incentivo às monoculturas e à exportação. Em relação à pequena agricultura e à Reforma Agrária continuamos com políticas centrais como o crédito Pronaf, que tem como resultado uma média de inadimplência de 60% das famílias assentadas, e a prioridade de assentamento de famílias na região da Amazônia legal - 52 % de todas as famílias assentadas nos dois governos foram nessa região.
E com isso, mais de 90 mil famílias continuam sofrendo acampadas, muitas delas há mais de 4 anos, ou sem infra-estrutura básica nos assentamentos que lhes permitam levar uma vida digna e produzir na terra.
O momento exige que saiamos dos acampamentos e assentamentos e caminhemos até às cidades. Queremos cobrar os compromissos que governo assumiu com os sem terra quando realizamos a Marcha de 2005: o assentamento imediato das 90 mil famílias acampadas e a regularização das mais de 40 mil famílias que estão em cima da terra sem crédito, infra-estrutura e moradia.
Reivindicamos a atualização dos índices de produtividade - medidas que permitem saber se as fazendas são ou não produtivas - que segundo a Constituição deveriam ser atualizados a cada 10 anos e vergonhosamente desde 1974 não o são, favorecendo assim apenas o agronegócio.
Exigimos o urgente descontingenciamento de todos os recursos destinados à Reforma Agrária e que seja feita suplementação dos recursos necessários para o assentamento de todas as famílias acampadas.
Sabemos que não estaremos sozinhos, esse é o momento de construir alianças políticas com todos os setores da classe trabalhadora e protestar contra a retirada de direitos conquistados pelo nosso povo de um modo geral.
E neste momento tão importante de luta e de avançar nas conquistas, Florestan Fernandes se faz mais atual que nunca quando nos lembra que não podemos nos deixar cooptar, nem esmagar, mas que temos que lutar sempre! Sempre!

Direção Nacional do MST

Acompanhe a Jornada por nossa página: www.mst.org.br

* Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Brasil

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Brasil/Ato em evento empresarial pede vetos à "MP da Grilagem"

Participantes apoiaram apelo da senadora Marina Silva (PT-AC) para que o presidente Lula vete "os dispositivos mais danosos" da MP 458/09. Atmosfera de contradições caracterizou plenária sobre impacto de cadeias produtivas

Por Maurício Hashizume*

18 junho 2009/Reporter Brasil www.reporterbrasil.org.br

São Paulo (SP) - Entre plenárias, mesas redondas, estandes publicitários de grandes corporações privadas e muita gente alinhada, o ato público contra o desmonte da legislação ambiental brasileira conferiu ares de mobilização de caráter cidadão à Conferência Internacional Ethos 2009.
Realizada na tarde desta quinta-feira (18), a manifestação mobilizou agentes corporativos, organizações da sociedade civil, parlamentares e membros do governo para protestar contra a Medida Provisória (MP) 458/09 - a "MP da Grilagem" -, que legaliza terras públicas na Amazônia com até 1,5 mil hectares, sem licitação, aprovada no Congresso Nacional.

Os participantes apoiaram os apelos da senadora Marina Silva (PT-AC) ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que "os dispositivos mais danosos" da MP 458/08 sejam vetados (leia especial: "Fazenda Amazônia").
Ex-ministra do Meio Ambiente (2003-2008), Marina Silva pede que pelo menos três artigos da "MP da Grilagem" não sejam sancionados: a regularização de imóveis amazônicos de ocupação e exploração indiretas, isto é, por terceiros que não sejam os próprios ocupantes (incisos II e IV do art. 2º); o direito de preferência estendido às pessoas jurídicas, a quem já possui terras e para ocupantes indiretos (art. 7º); e a dispensa da vistoria prévia para a regularização de imóveis de até quatro módulos fiscais (art. 13).
"A aprovação, no Congresso Nacional, da MP 458, conhecida como MP da Grilagem - que, entre outras medidas, promove a legalização de terras ilegais, é a mais recente demonstração de que há um projeto em andamento para desmontar a agenda ambiental, duramente conquistada nos últimos anos e que dá ao Brasil posição privilegiada para enfrentar as conseqüências das mudanças climáticas", pontua o texto da carta aberta à sociedade que emergiu do ato e foi encaminhada à Presidência da República.
A carta divulgada realça ainda a "enorme importância" do Brasil no mundo "por ser um dos países com maior patrimônio ambiental ainda preservado e, portanto, com maior potencial de desenvolvimento econômico e social sustentável". Além dos vetos, o ato ainda conclamou: o presidente Lula a assumir a liderança da agenda ambiental como central na estratégia do desenvolvimento social e econômico do Brasil; o Congresso Nacional a assumir sua responsabilidade frente à agenda ambiental brasileira; as empresas a incorporar a agenda ambiental como estratégia de seus negócios.
O documento frisa a "enorme perplexidade" com a existência, "no início de um novo século, com os desafios que temos", de "políticos e empresários descomprometidos que se apropriam do Estado para benefício particular, privilegiando o lucro imediato à custa do interesse maior da nação brasileira".
Manifestações
Diversos integrantes de entidades empresariais e de organização não-governamentais (ONGs) reforçaram a manifestação. A importância da priorização do "desmatamento zero" para a região, a necessidade de exigência de contrapartidas (como planos de manejo) dos beneficiados pela MP 458, a urgência na busca por alternativas econômicas ao desmatamento, a existência de normas legais para impedir a legalização de terras em que crimes foram flagrados e a contradição entre o discurso internacional brasileiro e as políticas internas que devastam "em nome do progresso" foram algumas das questões levantadas durante o ato público em ambiente empresarial.
Júlio Barbosa, da Confederação Nacional dos Seringueiros (CNS), afirmou que as comunidades locais e os povos tradicionais da floresta são os principais atingidos por essa ofensiva à legislação ambiental. De acordo com ele, a MP da Grilagem influencia diretamente no aumento da pressão sobre ribeirinhos e na ação de novos "grileiros". A coincidência entre a "grilagem" de terras na Amazônia e a ocorrência de casos de trabalho escravo foi realçada por Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil. Leonardo lembrou ainda de outros projetos importantes que estão parados à espera de votação no Parlamento - como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 438/2001, que determina o confisco de terras onde houver trabalho escravo.
A senadora Marina Silva - que criticou os "setores arcaicos do empresariado" e a atuação de congressistas segundo interesses próprios e não em prol da população em geral - e o ministro Carlos Minc - que preferiu enfatizar os aspectos de "avanço" do governo no campo ambiental - gravaram depoimentos que foram transmitidos durante a manifestação.
A ofensiva do bloco ruralista, salientou Ivo Bucaresky, chefe de gabinete do Ministério do Meio Ambiente (MMA), se intensificou a partir do momento em que o Código Florestal passou a ser exigido na prática, por meio de medidas como a Resolução 3.545 do Conselho Monetário Nacional (CMN) - que impõe restrições de crédito a produtores que não dispõe de documentos fundiários e ambientais - e a edição de decretos presidenciais mais severos. A aprovação de um conjunto de leis mais flexíveis no âmbito estadual em Santa Catarina pode provocar uma crise do pacto federativo, emendou Ivo. "Defender o Código [Florestal] é defender a unidade do país", completou.
Cadeias produtivas
Os riscos da MP da Grilagem já tinham sido tratados na plenária acerca da relação das cadeias produtivas com os biomas brasileiros, em especial o amazônico, que fez parte da programação da Conferência Internacional Ethos 2009 (convocada sob o tema "Rumo a uma Nova Economia Global: a Transformação das Pessoas, das Empresas e da Sociedade").
"Brasília não é a capital dos ambientalistas. É a capital dos lobbies", comentou Samyra Crespo, secretária de Articulação Social e Cidadania Ambiental do MMA, que foi uma das palestrantes da atividade realizada na última terça-feira (16). "Estamos medindo forças com um gigante", completou.
Para Samyra, os embates relativos aos impactos sociais e ambientais de grandes obras que fazem parte do Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC), coordenado pela Casa Civil, são provas da contradição que reina entre os diferentes ministérios. Nesse sentido, ela declara que "o que o MMA faz com uma mão" no sentido da sustentabilidade, muitas vezes é desfeito "com outra mão" por outros setores do governo. "Não somos nós que sustentamos essa política agrária equivocada".

A secretária do MMA cita outro exemplo. Documento de 250 páginas sobre "como sair da crise", elaborado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), colegiado com representantes da sociedade civil ligado à Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, traz apenas um tópico dedicado à agroenergia, mais especificamente sobre etanol. E mais nada sobre temas relacionados à agenda ambiental.
Nesse oceano de contradições, comentou Hélio Mattar, do Instituto Akatu, "resistir é extraordinariamente importante". Hélio fez o papel de mediador da plenária, que contou ainda com as apresentações de Marcio Santilli, sócio-fundador do Instituto Socioambiental (ISA), e Luiz Fernando Furlan, presidente do Conselho de Administração da Sadia (que se fundiu com a Perdigão na Brasil Foods) e da Fundação Amazonas Sustentável.
Como subsídio ao debate, Hélio Mattar destacou o trabalho Conexões Sustentáveis São Paulo - Amazônia: Quem se beneficia com a destruição da Amazônia?, elaborado pela Repórter Brasil e pela Papel Social, em outubro do ano passado. Os resultados das investigações deram base para a assinatura de três pactos setoriais com vistas a compras que impliquem na redução de impactos nos setores da soja, da madeira e da carne bovina, além de um compromisso assinado pelos candidatos à Prefeitura de São Paulo.
A edição de junho da publicação Observatório Social em Revista apresenta desdobramentos dessas investigações e revela as ligações entre madeireiras flagradas cometendo crimes ambientais e o mercado internacional. Para se ter uma idéia, existem elos comerciais entre empresas acusadas de fraude no Pará com companhias estrangeiras que fornecem madeira para programas televisivos de reconstrução de moradias nos Estados Unidos.
Chapéus
A presença do ex-titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Luiz Fernando Furlan, foi a síntese da atmosfera contraditória que se espalhou pela plenária. De início, ele brincou com os "dois chapéus" (um de empresário e outro de representante do terceiro setor) que tinha sobre a cabeça. Ao longo da plenária, foi cobrado a respeito do terceiro chapéu (como ex-integrante do governo Lula) que também já utilizou.
Mesmo diante das inúmeras responsabilidades referentes à empresa que atualmente dirige e ao cargo público que ocupou, Luiz Fernando Furlan concentrou suas falas na função que exerce como presidente da Fundação Amazonas Sustentável. A iniciativa desenvolvida no estado do Amazonas, em parceria com o governo estadual e com outras empresas como o Banco Bradesco, visa preservar as 35 Unidades de Conservação (UCs) do território do Amazonas, que soma cerca de 16,5 milhões de hectares, e atende cerca de 10 mil famílias de ribeirinhos que vivem na floresta.
Depois de reiterar resultados de pesquisas recentes - como a de que os índices de desmatamento acompanham os preços do boi gordo e da soja e a de que os benefícios sociais do desmatamento são efêmeros, ambas do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) -, o ex-ministro não pôde negar a relação do agronegócio com o desmatamento, mas fez imediatamente uma ressalva de que "a maioria do agronegócio não é amazônico".
Sobre os possíveis impactos diretos e indiretos da empresa que dirige, Luiz Fernando disse apenas que dos dez estados em que a Sadia atua diretamente, apenas um ocupa a faixa de transição para a Amazônia (Mato Grosso). Destacou ainda o trabalho junto a 12 mil pequenos produtores em programas de reflorestamento, de tratamento de água, de reciclagem de resíduos e de geração de energia por meio do biogás. Existe um vínculo estreito entre o segmento alimentício da Brasil Foods e a produção de soja.
Longe da Esplanada dos Ministérios, ele chamou o Bioma Amazônia de "tesouro" e disse que água e ar deveriam ser considerados "ativos". Defendeu ainda alternativas econômicas como o financiamento da "extratoindústria". Segundo ele, são necessários recursos para que os moradores busquem o equilíbrio em atividades perenes e deixem de optar pelo desmatamento. Levantamento realizado pela Fundação Amazonas Sustentável identificou que apenas 12% dos homens da região atendida pela iniciativa tinham emprego fixo. Nas contas apresentadas pelo ex-ministro, é possível preservar um hectare de Floresta Amazônica com apenas R$ 20 por ano.
Mais especificamente sobre a sua participação no primeiro escalão do governo federal, Luiz Fernando Furlan se limitou a dizer que a composição ministerial corresponde a uma coalizão plural e que Lula "estimula o contraditório". "É uma ilusão achar que o governo pode resolver tudo", admitiu. "A agenda que anda é a do urgente, não a do importante", emendou. De fato, é provável que o I (de Indústria) e o C (de Comércio), que já estiveram sob sua responsabilidade quando ele era ministro, sempre sejam "urgentes", enquanto o D (de Desenvolvimento) nunca tenha passado de "importante".

*Colaborou Verena Glass

Leia especial:
Fazenda Amazônia

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