Publicamos a intervenção de Margarida Tengarrinha na recente sessão de
homenagem a Isabel Aboim Inglez promovida pela União dos Resistentes
Antifascistas Portugueses (URAP). É a necessária evocação de uma das mais
notáveis figuras de resistente ao fascismo, uma mulher que enfrentou as
perseguições e a repressão salazarista – a si e à sua família – com a mais
exemplar coragem e dignidade cívica, intelectual, moral e política.
Em 8 de Março de l952, há exactamente sessenta e um anos, numa sessão
comemorativa deste dia promovida pela Associação Feminina Portuguesa para a
Paz, Maria Isabel Aboim Inglês desenvolveu brilhantemente as suas ideias sobre
a guerra e a paz. Ao seu lado, e um pouco intimidada, fiz a minha primeira
intervenção pública e devo confessar que a improvisação me correu muito mal.
Com dificuldade em terminá-la, optei por apelar à subscrição dos dois
abaixo-assinados que no MUD Juvenil andávamos a recolher: o Apelo de Estocolmo
contra o armamento atómico e o Apelo para um Pacto de Paz entre as Cinco
Grandes Potências.
Como me viu triste pelo meu fraco desempenho, no fim da sessão a Dra. Maria
Isabel aconselhou-me: “É sempre melhor trazer a intervenção escrita, mas mais
importante do que um bom discurso é ter a coragem de apelar à luta, como o
fizeste!”
Ora sobre a Dra. Maria Isabel Aboim Inglez há uma característica que regista a
unanimidade dos seus companheiros de luta e de todos aqueles que a admiravam e
admiram: é a sua extraordinária coragem de combatente antifascista.
A ferocidade implacável com que a perseguiu o seu inimigo, o ditador fascista
Salazar, é outra forma de confirmação que via nela uma mulher que lhe fazia
frente com uma coragem sem vacilações e uma firmeza de caracter baseada em
convicções fundamentadas em princípios teóricos que adoptara e a que era fiel.
Essa perseguição constante e sem tréguas para a fazer vergar e desistir das
suas convicções não a envolveu só a ela, mas aos próprios filhos.
Contudo. nem a família nem os amigos mais chegados lhe ouviram nunca uma
palavra de desalento, um queixume ou um momento de desânimo. Por isso o poeta
José Gomes Ferreira lhe chamou “A Indomável” e muitos a classificaram como “A
Mulher sem Medo”, naquela época em que em Portugal o medo era a arma que a
ditadura fascista lançava como uma rede paralisante sobre o país, tirando não
só a liberdade, mas também o pão aos adversários. Esta última ameaça não era
menos eficaz do que a repressão violenta, as prisões, torturas e assassínios,
pois o medo de perder o pão atemorizava e incapacitava para a acção uma parte
importante dos portugueses revoltados contra o regime. (Note-se que esta forma
de tentar dominar as consciências não é exclusiva de regimes fascistas, mas é
utilizada por muitas outras entidades com os mesmos propósitos de intimidação.)
Salazar usou contra Maria Isabel Aboim lnglez essas duas formas de repressão:
não só a prisão, mas muito particularmente a retirada, por todas as formas, dos
meios de ganhar a vida profissionalmente, quando já era viúva e mãe de cinco
filhos.
Foi presa pela primeira vez pela PIDE em 13 de Dezembro de 1946, sendo
libertada no dia seguinte, juntamente com outros membros da Comissão Central do
Movimento de Unidade Democrática (MUD), mediante uma caução obtida pela
oposição através de uma recolha pública. Dois anos depois, em Janeiro l948,
voltou a ser presa por causa da distribuição de 1500 exemplares de propaganda
do MUD, sendo libertada dois meses depois. A terceira prisão, efectuada em
pleno Tribunal Plenário onde, como muitas outras vezes, foi testemunha de
defesa de presos políticos, deveu-se à firmeza com que enfrentou o juiz
presidente, que ordenou a sua prisão por três dias alegando “falta de respeito
ao tribunal” e enviando-a para as Mónicas, prisão comum de onde saiu dizendo
que “até tinha aprendido alguma coisa com as outras reclusas. tendo feito ali
um estudo sociológico”, como afirmou a uma jornalista a sua filha Isabel.
No entanto. não é nestas prisões que reside a mais terrível e feroz perseguição
de que a Dra. Maria Isabel foi vítima, mas sim no cerceamento e proibição final
da sua condição de pedagoga, para a qual tinha um talento excepcional, reconhecido
ao mais alto nível nos meios universitários e pelos alunos para os quais foi
uma professora inesquecível.
Ao recordarmos o percurso de vida desta mulher excepcional, destaco alguns
traços marcantes: o seu casamento aos vinte anos com Carlos Aboim Inglez,
engenheiro químico e de minas, que no dizer de Henrique de Barros “…foi um
combatente sem tréguas contra a ditadura, a tudo disposto para a derrubar,
mesmo a pegar em armas, como posso testemunhar pessoalmente” (H.de B. num
artigo de opinião ao Diário de Lisboa).
Depois da morte prematura do marido Maria Isabel, que era uma pessoa muito
contida e de grande sobriedade na expressão dos sentimentos, diria num desabafo
nada habitual nela, que estava profundamente apaixonada por ele. Foi decerto um
casamento de grande entendimento e apoio mútuo, entre duas pessoas com uma
inteligência acima do vulgar, o que se reflectiu no estímulo do marido para que
retomasse os estudos. Ela própria, depois do nascimento do quinto filho, sentiu
(cito): “o prazer de aprender, de me cultivar, aliado ao desejo de preparar bem
os meus filhos e de ser útil”, como afirmou Maria Luísa Silva Bastos, com quem
trabalhou na AFPP. (”Capital” 9/3/83)
Assim, matriculou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras
de Lisboa. Terminado o curso em 1936, Maria Isabel foi logo convidada pelo
professor Matos Romão para assistente de Psicologia Experimental, que não
aceitou por razões familiares, pois os filhos eram ainda muito pequenos. Em
1938 apresentou a tese de licenciatura sobre a influência dos descobrimentos na
sociedade portuguesa, que defendeu brilhantemente. Munida do diploma, fundou
com o marido o Colégio Fernão de Magalhães na Rua dos Lusíadas em Alcântara
que, pela qualidade do ensino ministrado, adquiriu um enorme prestígio.
Foi esse prestígio, a grande frequência e os princípios pedagógicos ali
desenvolvidos, nada frequentes nessa época, que desencadearam as primeiras
perseguições do regime. Talvez porque o ensino do Colégio fosse laico, mesmo no
prédio ao lado foi fundado um colégio religioso, o Avé Maria. Este foi o
primeiro confronto.
O Dr. Matos Romão, que tinha enorme consideração pela Dra. Maria Isabel, voltou
a convidá-la em 1941 como assistente para a cadeira de Psicologia Experimental,
o que ela aceitou. No ano seguinte, com 39 anos, perdeu o marido, o que para
ela foi um enorme golpe. Mas continuou; e poucos meses depois o seu nome foi
aprovado pelo Conselho da Faculdade de Letras como assistente de Psicologia e
também para ensinar Filosofia Antiga e História da Filosofia Medieval. Mas em
Dezembro de 1942 foi afastada por veto do ministro da Educação, Mário
Figueiredo.
Manteve-se ainda como assistente de Psicologia Experimental por insistência do
Dr. Matos Romão, que a defendeu junto do ministro. Mas as imposições que
limitavam a sua actividade docente eram tão contrárias aos seus princípios e à
dignidade que a caracterizava que acabou por abandonar o ensino universitário
em 1943.
Esta foi uma segunda fase das perseguições de que foi vítima.
Já então tinha iniciado alguma actividade política ligada à oposição
antifascista onde se encontravam amigos de longa data do casal. Seu filho
Carlos Aboim Inglez contou-me que em casa dos pais conheceu, como visitantes
assíduos, o professor Bento de Jesus Caraça e Ramos da Costa, que eram membros
do Partido Comunista (Ramos da Costa passou mais tarde para o Partido
Socialista) e ainda o professor Dias Amado e Manuel Mendes, entre outros
intelectuais com os quais conviveu quando era muito jovem.
A seguir ao fim da guerra aderiu ao então criado Movimento de Unidade
Democrática (MUD) e em 1946 foi a primeira mulher a fazer parte da sua comissão
central. A tomada dessa clara posição acarretou-lhe novas perseguições.
Porque era reconhecidamente pioneira no ensino da Sociologia em Portugal, o Dr.
Gentil Martins, director do IPO, convidou-a para leccionar um curso de
Sociologia Geral na Escola Técnica de Enfermagem do instituto Português de
Oncologia. Só conseguiu dirigir esse curso nos anos de 1947 e 1948, pois foi
proibida pelo governo de continuar a dar essas aulas em 1949.
Mais uma perseguição, esta sem dúvida ligada ao facto de nesse ano fazer parte
da comissão central da candidatura do general Norton de Matos.
De resto, já nessa altura tinha um longo cadastro na PIDE. E a sua intensa
actividade na candidatura do general Norton de Matos, com conferências,
documentos de que foi autora e abaixo-assinados, levou ao encerramento e
cassação do alvará do Colégio Fernão de Magalhães e ainda, por decisão do
Conselho de Ministros, foram-lhe retirados todos os diplomas que lhe permitiam
leccionar.
A política fascista de tirar o pão aos adversários roubava a esta mulher, viúva
e com cinco filhos, os meios de ganhar a vida profissionalmente.
Verdadeiramente indomável, ela não vergou e montou um atelier de costura, ao
mesmo tempo que começou a dar explicações e a fazer traduções.
Mas as perseguições não se limitaram a ela própria e posteriormente
alargaram-se também às filhas, pois foi retirado à filha Maria Luísa, pintora,
o diploma que lhe permitia dar aulas de desenho na Escola Marquês de Pombal e a
filha Margarida, engenheira agrónoma, que ficara em primeiro lugar num concurso
público, foi impedida de manter-se na função pública.
Em 1953 foi convidada a reger uma cátedra numa universidade brasileira, dado o
seu grande prestígio e também porque no Brasil estavam já vários amigos e
conhecidos, que faziam parte dos muitos professores universitários demitidos
por Salazar, numa razia que foi uma autêntica perda nacional. Entre eles
contavam-se os professores catedráticos Zaluar Nunes, Pereira Gomes, Rodrigues
Lapa, Agostinho da Silva e Jaime Cortesão, todos no Brasil. Mas a Maria Isabel
foi recusado o passaporte, quando ela já tinha feito o leilão do recheio da
casa e de grande parte dos livros e se preparava para partir.
Estas perseguições não a demoveram, talvez lhe tivessem dado mais força para a
luta, pois a sua actividade política até parece ter aumentado a partir dai,
para além do grande e constante apoio que deu sempre ao seu filho Carlos, militante
destacado do Partido Comunista Português, no decurso das numerosas prisões e
dos anos que este passou nos cárceres fascistas.
As posições de Maria Isabel Aboim lnglez em relação ao Partido Comunista, a
única força política organizada da Oposição, foram sempre muito claras: nunca
foi membro do Partido Comunista, mas acompanhou sempre as posições do Partido
nos vários movimentos da Oposição antifascista. Quer no MUD, em que fez parte
da direcção central, quer depois apoiando o MND em que, por divergências, já
não participaram anteriores membros da direcção do MUD. Teve também um
importante papel na Associação Portuguesa Feminina para a Paz e na luta pela
Paz.
Com uma grande independência de pensamento e forte personalidade, dava sempre a
sua opinião com frontalidade quando discordava, discutia muitas vezes com uma
forte argumentação, como dizia dela Joaquim Pires Jorge, dirigente do Partido
Comunista que com ela contactava.
Destacou-se sempre como uma personalidade de primeiro plano na defesa da unidade
das forças democráticas e pela sua lealdade para com o Partido Comunista e os
compromissos assumidos, quer nas várias campanhas democráticas, quer em todos
os momentos eleitorais da época. Acentuo que, por exemplo em 1957 foi membro da
Comissão Central da candidatura de Arlindo Vicente, que era o candidato apoiado
pelo PCP. e só depois da fusão das duas candidaturas é que apoiou a de Humberto
Delgado, o que diz muito sobre as suas opções.
Também serviu muitas vezes de testemunha nos julgamentos políticos. A sua
força, coragem e convicções são claramente reveladas na afirmação que fez em
pleno Tribunal Plenário fascista:-”Todos os indivíduos que não prestam
declarações na polícia são dignos de admiração porque são amantes da
liberdade”. E terminou dizendo: “é de louvar o Partido Comunista Português por
assim proceder”.
Afirmações como esta. mas particularmente algumas das suas conferências, como a
que proferiu durante a campanha eleitoral de Norton de Matos com o tema
“Conceitos de igualdade, liberdade e democracia”`, publicada pelos serviços da
candidatura, o artigo intitulado “A Ética e a Política” publicado pela
“República” quando do acto eleitoral de Novembro de 196l para o qual só não foi
candidata pela CDE porque verificou ter sido riscada dos cadernos eleitorais e
que é um completo desenvolvimento programático antifascista, a própria tese de
licenciatura, entrevistas e muitos outros documentos da sua autoria, mereciam
ser estudados para melhor conhecermos a orientação e a profundidade de
pensamento desta mulher.
Num debate em que criticava artigos da “Seara Nova” marcou a sua firme oposição
critica à teoria da cultura pela cultura, afirmando: “Duma elite de
intelectuais nunca poderá esperar-se a realização das transformações
necessárias para uma verdadeira democracia. Ela tem de ser a obra de todo um
povo”,
Há também por exemplo uma conferência importante, proferida em l950 em
homenagem a Bento Caraça. de que citarei alguns excertos:
“Os destinos da humanidade preocuparam-no mais do que o seu próprio destino. Os
destinos do mundo tanto como os da sua pátria.
Quanto o seu espírito estaria atormentado pela evolução destes dois últimos
anos. Em que abertamente se tem caminhado para uma nova tentativa de fascização
do mundo capaz de conduzir pela terceira vez numa só geração a uma criminosa
terceira guerra imperialista. Através de uma chamada guerra-fria - termo que
deixará tristemente celebre o povo que a inventou - friamente se preparam os
meios científicos da morte de populações inteiras, de verdadeiras destruições
em massa.”
Estas são afirmações que mantêm hoje plena actualidade. No fim dessa mesma
conferência, contrariando as imposições políticas do governador civil de Lisboa
ao permitir a sessão, leu uma moção recebida na mesa que exigia a imediata
libertação do professor Rui Luiz Gomes e dos democratas presos com ele. E
afirmou que, como presidente dessa assembleia, o fizera porque queria manter a
sua honra e dignidade.
No dia seguinte recebeu de Maria Lamas uma carta emocionada em que esta
afirmava:
“Considero histórica a sessão de ontem, A sua extraordinária coragem moral foi
a melhor e maior homenagem que era possível prestar à memória do Professor
Bento Caraça. (…) Não me surpreendeu a sua decisão e nobre altivez, pois de há
muito admiro a sua personalidade, a sua inteligência e firmeza. Mas o que se
passou ontem, na modesta sala da Sociedade Instrução e Beneficência José
Estevão, foi qualquer coisa excepcional e inesquecível.”
Também para nós, hoje, esta é uma grande lição, pois na luta que travamos não
só contra o inimigo principal, que é o capitalismo e o imperialismo, contra o
governo seu lacaio, mas também dentro das nossas próprias fileiras, é
indispensável manter a coragem de afirmar com firmeza as nossas posições, mesmo
quando discordantes. Pois a unidade de combate só se consegue com a discussão
franca e livre dos problemas. Que promova a unidade de pensamento indispensável
à unidade consciente da acção para a vitória dos nossos ideais.
* Na sessão de homenagem a Maria Isabel Aboim Inglez - 8 de Março de
2013