sábado, 4 de fevereiro de 2012

Colômbia/COMANDANTE MÁXIMO DAS FARC-EP RESPONDE À CARTA DO HISTORIADOR MEDÓFILO MEDINA


2 fevereiro 2012/Odiario.info http://www.odiario.info (Portugal)


Uma luta duríssima como a que as FARC-EP travam desde 1964 não podia subsistir sem um forte apoio popular e um programa que correspondesse aos anseios da população que lhes garante apoio, cobertura e a renovação de guerrilheiros e quadros.

Nesta resposta de Timóleon Jimenez, Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP, à carta-aberta que lhes foi dirigida pelo professor e académico colombiano Medófilo Medina, pode o leitor ver - sem a intermediação das agências ao serviço do imperialismo - o que é e por que luta a heroica guerrilha colombiana.

 
Caro Professor:

Com os meus cumprimentos queria comunicar-lhe a vontade, várias vezes expressa, pelo camarada Alfonso Cano de responder à sua carta aberta. É óbvio que as circunstâncias que o assediavam tornaram impossível a materialização deste seu propósito.

Se me permite, morto o Comandante em combate, tentarei despretensiosamente satisfazer parcialmente as suas inquietações, salvo o facto de o senhor lhe ter escrito tendo em consideração a relação pessoal e política que tiveram num já longínquo passado. Por vezes assalta-me a ideia que o senhor quereria mais uma troca de ideias com o antigo camarada do que com as FARC.

É que não é fácil nas actuais condições do país relacionar-se connosco. Existe um prisma mediático estabelecido que coloca imediatamente na berlinda quem ouse assumir uma visão diferente da apregoada pelo poder. Esta coisa do pensamento único é muito mais que uma palavra de ordem. Tem consequências letais, passa pelo ostracismo e o esquecimento, a estigmatização, o fim definitivo do emprego, a intimidação, a ruína, o cárcere até, inclusive, a morte anónima.

A sua valentia merece ser reconhecida. Como académico de pensamento independente arrisca-se a passar da efémera glória concedida pelo seu franco questionamento, à irremediável condenação por se ter prestado servir-nos de incauto instrumento. Tudo dependerá do que os predadores por ofício possam obter logo que se lancem famintos sobre as nossas considerações. E isso é a única coisa que lhes interessa – um novo flanco para tentarem sangrar-nos.

O porquê da guerra
O primeiro subtítulo da sua carta diz: nós colombianos precisamos compreender o porquê da guerra, o que nos confirma que o senhor não se encontra só e que um importante sector do pensamento social espera sem reservas o que possamos dizer. O movimento que se intitula Colombianas e Colombianos pela Paz parece tê-lo decepcionado um pouco, visto que, no seu ponto de vista, terminou absorvido pelas urgências emanadas do intercâmbio humanitário.

Talvez não seja conveniente provocar esse tipo de distâncias. Talvez o que ao longo do caminho a senadora Piedad Córdoba e outras personalidades compreenderam, é que é mais frutífero para a paz na Colômbia assumir tarefas práticas concretas pela vida e a liberdade dos seus compatriotas que envolverem-se em sisudas trocas epistolares que provoquem um mar de especulações. São pontos de vista, não necessariamente contraditórios, e que bem podiam caminhar lado a lado na mesma direcção. É a questão de somar em vez de dividir.

Mas o senhor explana argumentos que são respeitáveis. O debate aberto e público de opiniões à volta da inevitabilidade da guerra e das possibilidades da paz é urgente. Cremos que ele envolve uma discussão ampla sobre as realidades económicas, sociais, políticas, culturais, e até ambientais do actual momento contemporâneo mundial, latino-americano e nacional. Nunca receámos esse debate, pelo contrário, o nosso levantamento em armas obedece ao facto de sempre nos terem sido fechadas as portas para nele participar.
O senhor não o sabe, talvez porque o tipo de vida a que a sua vocação pela investigação social e o ensino o obrigam ser muito diferente do nosso. Mas aquilo a que chama dificuldades políticas e técnicas, ou os avatares da guerra que poderiam dificultar um intercâmbio fluido, significam na realidade que ao longo das vinte e quatro horas do dia somos sobrevoados para localizar o mínimo sinal eléctrico, de rádio, telefone ou internet para nos inundarem com bombas. Isto sem falar das enormes operações terrestres que procuram exterminar-nos.

Hoje em dia, é uma verdadeira façanha conseguirmos comunicar com o resto do mundo. Não costumamos falar disto, pois de imediato ficamos expostos à furiosa matilha, sempre pronta a escarnecer de nós e a pretender passar por vítimas inocentes. Mas talvez consigam alcançar notoriedade a ponto de os nossos adversários prestarem garantias efectivas para a nossa actividade política. Valeria a pena, com vista a alcançar a paz, tentarem influenciar a consciência daqueles sobre este tema. Mas não acreditamos que as vossas cartas nesse sentido tenham a mesma difusão que as que nos são dirigidas.

Muito provavelmente tratá-los-iam como ingénuos úteis. Precisamente, este conflito é um debate armado em que uma das partes representada pelo Estado, recorre a todo o género de recursos com o propósito de impedir a expressão do pensamento da outra. No meio sempre estiveram os que inclinados para as nossas posições terminam como vítimas de perseguição (…).

Que bom seria, para a democracia e a paz, que a sua carta contribuísse para abrir uma brecha pela qual o cidadão normal pudesse conhecer a argumentação das FARC, e sopesar a nossa visão actual do país e a nossa proposta de futuro. A generalidade da sua exposição parece apostar na ideia de que consegui-lo é coisa simples, fundamentalmente ligada a uma questão de vontade pessoal. Assim se depreende da sua ilação histórica, de acordo com a qual foi justo termos surgido, mas em contrapartida hoje não há razão para persistir.

A democracia colombiana
Deve saber que no universo dos meios de comunicação circulam dicionários para uso dos redactores e apresentadores. Neles se define de modo categórico a lista dos termos que podem ser usados e o sentido imperativo em que devem empregar-se. Imperialismo e oligarquia, por exemplo, são palavras em absoluto desuso que devem ser postas no adequado lugar das ridicularias, quando algum transviado porta-voz de extremistas as traga à colação. Só existe um léxico admitido, e com a linguagem só algumas realidades são permitidas.

De acordo com estas regras, o sistema multipartidário e de eleições periódicas promovido a partir da Casa Branca é o máximo ideal democrático alcançado pela humanidade. Em seu nome pode invadir-se e bombardear-se países e povos inteiros, desestabilizar governos não afectos, ou impor pela força autoridades transitórias ou definitivas. Sempre com o são e louvável propósito de dar lugar às economias de mercado, ao milionário investimento estrangeiro, à exaustão descarada dos recursos naturais, ao enriquecimento apressado de uma elite privilegiada.

Nós vemos as coisas de forma diferente. Mais parecida com a do assassinado presidente Lincoln. Governo do povo, para o povo e pelo povo. Resta dizer que o regime colombiano se enquadra mais nas previsões difundidas pela Washington de Bush e Obama. Humilha-se perante elas. Nós acreditamos que os interesses das classes privilegiadas não são coincidentes com os dos milhões de destinatários das suas políticas. Acreditamos que os de baixo têm a sua própria visão das coisas e nós identificamo-nos com ela. Promovemos pois um regime diferente. Um regime que parta de uma premissa fundamental, a independência e a soberania nacionais. Na Colômbia deve governar um partido ou movimento que se preocupe antes de mais pela sorte dos seus habitantes, por elevar o nível de vida dos mais desfavorecidos. Para que isso se torne realidade, talvez seja necessário entrar em choque com os interesses de diversos monopólios económicos nacionais e estrangeiros. Mas as decisões políticas fundamentais, e todas as outras devem apontar para a satisfação do interesse da maioria dos colombianos.

Porque a política como tal, neste país e na maioria das economias de mercado, perdeu completamente a sua essência. Não se chega ao poder para cumprir um programa. Chega-se para executar as directrizes emanadas dos grandes poderes internacionais. As economias e os planos de desenvolvimento nacionais e locais estão condenadas a cumprir o libreto do FMI, do Banco Mundial e da OMC, entre outras instituições. Cada país e província têm o seu destino traçado numa cimeira prévia. Nenhum governo pode sair do guião fixado.

Se alguém o pretender será imediatamente etiquetado como antidemocrático e ficará exposto a perigosas sanções. Definitivamente, esse não pode ser admitido como democracia. O exemplo mais à mão está na Colômbia. Na mais recente campanha presidencial, os candidatos que quiseram ter a mínima possibilidade de vitória foram obrigados a declarar, cada um no seu estilo, que continuariam com a segurança democrática, a confiança aos investidores e a coesão social. Essa era a única linha considerada democrática.

Nenhuma outra tinha a menor esperança. Recorda-se, certamente, das últimas eleições regionais e locais, e o tão badalado ex-guerrilheiro que acabou eleito para a alcaidaria de Bogotá, que teve que romper com o movimento de esquerda de que fazia parte, declarar despudoradamente a sua vontade de se ligar ao projecto de Unidade Nacional do Presidente e até identificar-se com o cadáver político de Álvaro Gomez. Só com tão desprestigiante exemplo de sujeição aos ditames do grande capital podia contar com a sua aquiescência e assim terminar eleito.

Como consequência de tudo isto, e acredito que o senhor não se recuse a reconhecê-lo, o exercício da actividade política nos termos institucionais de hoje está totalmente despido de conteúdo ideológico. Até a noção de ideologia foi proscrita. As campanhas eleitorais reduzem-se a estratégias de marketing, onde o que conta são os capitais investidos na orgia publicitária. Capitais que terão de render os seus lucros a partir das administrações eleitas. Aspirações personalistas ligadas aos propósitos mais baixos, e escondidos por discursos floreados que nada dizem.

Perante esta realidade, os de baixo, o povo comum de que é costume ser proibido falar não conta com a possibilidade legal de exprimir os seus interesses. Pretende-se arrastá-lo para o interior de partidos e grupos nepotistas e corruptos que só lhe trarão enormes decepções. Por isso, para fazer valer os seus direitos, as pessoas não têm outra alternativa senão o apelo à ocupação das ruas das estradas, às greves, aos motins para conseguirem ser ouvidas. É nesta estreita faixa, reforçada pela violência repressiva e criminal do Estado, que se explica a resistência popular à repressão, e a existência e persistência do levantamento armado na Colômbia. 

Com o passar do tempo irá surgir de forma objectiva o conteúdo de uma solução política. Esta não pode compreender-se como a recolocação da ordem existente. Não se trata de guerrilheiros arrependidos e extremamente desacreditados entregarem as armas, submeterem-se ao escárnio mediático e jurídico, para depois, com uma espada presa por um fio pendente sobre a sua cabeça, entrarem no mercado da política partidária para fazerem coro com as mentiras oficiais. Do que se trata é de reconstruir as regras da democracia, para que se debatam ideias e programas em igualdade de oportunidades.

Sem correr o risco de ser assassinado ao chegar a casa. Ou de desaparecer e ser torturado por uma misteriosa mão negra, que já se anuncia existir, como aquelas forças obscuras que exterminaram a União Patriótica debaixo do olhar impassível da classe política colombiana. É justo abrir um debate público e livre sobre estes assuntos, que se possa falar destes temas sem ser arrolados pelos monopólios informativos concertados. Porque numa solução política, também se trata de como pôr um travão à intolerância do unanimismo mediático.

Um cepticismo fundado na experiência
Professor, acredite-me quando lhe digo que admiro a sua coragem. É imprescindível em qualquer sociedade a acção de pessoas que contraditam com elevação. Não estamos de acordo com tudo o que coloca, mas reconhecemos a sua honestidade e inspira-nos respeito. Verá que a nossa análise da sociedade colombiana não pode restringir-se ao exame das individualidades. Melhor que ninguém, o senhor sabe que uma abordagem científica implica o reconhecimento de que os interesses das classes imersas no processo histórico têm maior relevância que a actuação dos personagens.

Vários contraditores nossos, oriundos de diferentes espectros, criticam o que chamam a nossa cegueira política ante os sinais positivos vindos de Juan Manuel Santos desde a sua chegada ao governo. Falam da sua reconciliação com Chávez e Correa, da sua concertação com as cortes [1], a incorporação de Angelino [2], as piscadelas de olho à oposição, a sua disposição para aceitar os direitos humanos, a sua lei das vítimas e de restituição de terras, a sua vontade de paz. Empenham-se em convencer-nos que juntarmo-nos a Juan Santos reforça a luta contra a extrema-direita representada por Uribe, e encarreira o país na senda das reformas democráticas. No mínimo, estão confundidos.

Juan Manuel Santos não se distanciou um milímetro do interesse das grandes corporações transnacionais que patrocinou a confiança investidora de Uribe. O que nos mostram as suas locomotoras é a extrema radicalização das práticas neoliberais, a aceleração descontrolada da dívida externa, a mais vergonhosa entrega das nossas riquezas naturais, a degradação ambiental em benefício dos monopólios, a exaustão da terra pela agro-indústria exportadora em prejuízo da economia camponesa. As distâncias políticas que separam Álvaro Uribe de Juan Manuel Santos não são muito diferentes das que separam Bush de Obama ou Mariano Rajoy de Zapatero.

Tudo isso a par do aprofundamento da guerra, dos bombardeamentos e da multiplicação das operações militares nas zonas agrárias, das prisões massivas silenciadas pela imprensa em diferentes regiões do país, do assassínio de dirigentes sindicais e populares, particularmente dos que reclamam terras, da lei de segurança contra o protesto cívico, dos programas de multiplicação prisional, etc. O seu projecto de reforma da justiça entrou em choque frontal com as cortes e, em troca, ressuscitou a justiça penal militar para reforçar ainda mais a impunidade.
E já sabemos como só através de uma gigantesca mobilização estudantil se conseguiu travar o seu projecto de privatização da educação universitária. Talvez o que esteja a influenciar diferentes sensibilidades a sair em sua defesa sejam a crescente burocracia e os acordos de assessoria e assistência, isto é, os contratos proporcionados pela regulamentação da lei das vítimas e a restituição de terras, para o que se ostentam milionários orçamentos que, certamente, inspiram os bons sentimentos em muitos sectores. Por dinheiro até os cães dançam [“por la plata baila el perro”] diz o velho ditado colombiano, do qual nos sentimos sincera e radicalmente afastados. 

O senhor insiste em que expressemos uma opinião alargada sobre aquela lei. Para ser sincero, as expectativas que temos são muito parecidas às que inspirou a aprovação da lei justiça e paz, com a qual se pretendeu embrulhar o problema paramilitar e a reparação em primeira instância às vítimas. Ardilosas manobras para neutralizar a opinião internacional e cooptar opositores. Os desenvolvimentos posteriores, amplamente conhecidos, só por si, falam das suas falsas bondades. Os mesmos personagens que assumiram a Comissão de Reparação voltam a encabeçar esta nova aventura, o que é bastante esclarecedor.

Sectores sérios da esquerda, já sublinharam repetidamente em diversas publicações os seus reparos, aos quais indubitavelmente nos juntamos. Seria muito longo explaná-los aqui. Mas não basta advertir que são os interesses das multinacionais e dos grandes capitais locais os que exigem uma normalização ou legalização das terras em que avançam, ou pensam avançar, os seus projectos de investimento agro-industrial. A urgência de regras claras obriga a preferir o direito de terceiros ocupantes de boa fé, com o que os modestos despojados terão de acertar as suas quotas de participação, perdendo para sempre a posse da sua terra e o seu projecto de vida.

O direito da vítima a regressar ao seu lugar de origem ou a reinstalar-se noutra é consagrado de forma estranhamente sujeita ao quadro da política de segurança nacional, o que devia ser preocupante. Chama a atenção que a exclusão do direito às vítimas dos despojos anteriores a 1991, deixe fora do plano os camponeses desterrados em Magdalena Medio durante a investida paramilitar dos anos oitenta. Curiosamente, essa região compreende as melhores terras do país para a cultura de palma. Como diria «M. La Palisse» uma coisa são os termos judiciais previstos na lei, e outra bem diferente os reais que se gastam nos longos contenciosos perante os juízes. Em relação aos sectores extremistas do latifúndio, o paramilitarismo e o próprio empresariado que se opõem à aplicação de tal lei, é bom ter em conta que se não representam uma maioria significativa dos interessados envolvidos na normalização do direito de propriedade, acabarão isolados. Não poderão impedir a realização das urgentes exigências do grande capital. Será este o encarregado de delimitar com o tempo o verdadeiro alcance da norma, e não serão os direitos dos deslocados os que acabarão por se impor. A menos que aconteça uma reviravolta radical neste país, o que não vai acontecer, há quem julgue que Juan Manuel Santos é um santo homem.

Se por desgraça forem esses sectores radicais os que têm mais peso, o nosso país vai ver-se envolvido numa nova e terrível onda criminosa de assaltos, assassínios e desterros, o que viria a demonstrar que Juan Santos não foi mais do que uma vaga ilusão de alguns, no sentido de representar sectores sociais diferentes das máfias e do lumpen que defendeu o seu antecessor. É pois muito suspeita a proclamada intenção governamental de aprofundar a guerra total contra nós em vez de contra aqueles. Pode sair-se mal quem proclamar o seu apoio a este governo. Seria melhor, acreditamos mesmo que é de uma urgência imperiosa, denunciar as suas demagógicas promessas, sobretudo a sua actuação contrária ao prometido. 

Um pouco de história
A extensão dos temas abordados na sua carta briga com as circunstâncias e o tempo que nos permite o confronto. O rigor académico exigiria, na realidade, que os argumentos em que o senhor baseia certas afirmações acerca do passado histórico fossem expostos com mais lógica e amplitude, a fim de pudessem ser sopesados na sua justa dimensão. De alguma maneira a natureza do seu texto impede-o, o que pode levar-nos a um inútil confronto de opiniões inadequadamente fundamentadas. No entanto, permito-me assinalar alguns factos que, creio, podiam enriquecer ainda mais as suas apreciações.

Sem diminuir a importância que merece o estudo da paragem cívica nacional de 1977, parece-me que a referência básica para a compreensão dos desenvolvimentos posteriores da história colombiana não deixa de ser o 9 de Abril de 1948 [3]. Daí surgiu a certeza de que qualquer alternativa política democrática, progressista, anti-imperialista e popular estava condenada à morte pelos sectores económicos e políticos dominantes no nosso país. A convicção de que um levantamento geral das multidões insatisfeitas estava condenada ao fracasso se não contasse com uma direcção séria, madura, experimentada e consequente. É a legitimação do direito do povo a levantar-se em armas quando a violência oficial e privada se assanha contra ele.

E também a inesquecível lição de que, por mais contradições que possam existir no seio das classes dominantes do país estas acabam sempre por unir-se numa frente única e brutal, quando virem que o povo cresceu corajosamente a reclamar os seus direitos. A pusilânime e ofídia atitude da direcção liberal reunida com Ospina Pérez no palácio, ocupará sempre a memória popular quando se trate de demonstrar a traição contra uma nação levantada. Mas há sobretudo um aspecto da história nacional que o senhor apenas refere para de alguma maneira o voltar contra nós: a perversa intervenção dos Estados Unidos.

Quase como um gigantesco farol que com o seu facho de luz rompe as trevas para conduzir a bom porto uma embarcação no meio da noite escura, a correcta interpretação do papel desempenhado pela IX Conferência Pan-americana no assassínio de Gaitán e o posterior apontar do Partido Comunista como autor do facto, evidenciam o trágico destino do nosso país sob a Doutrina de Segurança Nacional adoptada depois da segunda guerra mundial pelo Estado norte-americano. A teoria do inimigo interno que se encarregariam de inculcar em todas forças armadas do continente deixaria uma marca infame. São demasiadas coisas juntas para menosprezar a transcendência do acontecimento. É claro que com ele se prefigura a sorte da actual Colômbia. Até nalguns detalhes curiosos, como o de o primeiro designado para a Presidência também ter o apelido Santos. O mesmo sangue azul dos que passam e voltam a passar a dirigir o país. Havia também um Lleras, do mesmo pedigree do actual ministro do interior. E assim, na passada, valeria a pena recordar que o afã do fanático falangista Laureano por uma saída militar para a crise terminou por servir a Ospina para convencer o liberalismo da conveniência dum arranjo amigável.

Um novo episódio da rivalidade entre essas duas famílias conservadoras teve lugar durante a paragem de 14 de Setembro. O chamado ospino-pastranismo ressentido contra a tenaz Alvaro-Lopista que o excluía da burocracia, optou por juntar-se à convocatória da paragem, incitando a UTC [4] a sair à rua para se juntarem aos 3 milhões de arrependidos que tinham votado em 74 por Alfonso López. Era a sua pequena desforra pelo 9 de Abril. Quando o protesto popular se tornou incontrolável, os “godos” [5] ficaram para trás, interessados apenas como estavam em lugares e contratos. São antecedentes que se esquecem na hora avaliar a sinceridade da vontade de paz de Andrés Pastraña, quando decidiu brincar ao diálogo em Caguán.
E há essa da intervenção norte-americana se ter convertido numa atrocidade mundial nos anos sessenta do século passado. O pavor ao imaginário poderio militar soviético e a uma outra Cuba, no meio do renascer independentista de África e da Ásia sofisticou a Doutrina de Segurança Nacional até se transformar no modelo de contra-insurreição aprovado por John F. Kennedy. Dela vieram a escalada da agressão ao Vietname, a matança de meio milhão de indonésios em nome do anti-comunismo, o golpe militar contra Juan Bosh e a intervenção militar na República Dominicana, o golpe no Brasil contra o governo de João Goulart. E o Plano LASO, que envolvia, primeiro, a região agrária de Marquetália, e depois Riochito e outras zonas do nosso país.

Assim, não pode comparar-se a natureza dos conflitos agrários em Sumapaz ou em Tequendama, em defesa da vida e da propriedade da terra, contra a voracidade latifundista, com a campanha terrorista anticomunista desencadeada pelo imperialismo em toda a orbe, e aproveitada pela oligarquia liberal conservadora para eliminar a oposição à sua Frente Nacional. Os interesses em jogo eram totalmente diferentes. Quando os camponeses marquetalianos se dirigiram ao país e ao mundo pedindo solidariedade para evitar serem agredidos como se tramava, ofereceram em troca um diálogo, logo rejeitado, que se trocou por bombas e metralha. Daí brotaria o histórico Programa Agrário que definiu o carácter da luta.

Tratava-se de uma luta de índole política pelo poder para o povo. Nem nesse Programa Agrário, nem, até hoje, em nenhum documento das FARC, se colocou que como organização político militar a nossa meta era a tomada do poder depois de derrotar o Exército colombiano numa guerra de posições, como repetem, uma e outra vez, todos os que insistem em darem-nos esse objectivo. Desde o nascimento das FARC concebemos o acesso ao poder como uma questão de massas em agitação e movimento. Tal como com a táctica da combinação das formas de luta definimos que descartávamos nenhuma das vias que as classes dominantes nos permitam ou obriguem a empregar.

Diga-se que essa é outra discussão que sai do tema de que nos ocupamos. Em contrapartida, deixe-me dizer-lhe, Professor, que quando se estudam fenómenos complexos há que ter os olhos bem abertos para não incorrer no erro de ver apenas um aspecto. Se a desmobilização das guerrilhas liberais e comunistas que sucedeu no país em 1953 não levou à paz definitiva, a quem menos pode imputar-se a responsabilidade é à guerrilha comunista. Os movimentos de auto-defesa do sul de Tolima mudaram-se para oriente desse departamento, para Villarica e seus arredores, iludidos com as promessas oficiais e dispostos a converterem-se em pacífico movimento agrário.

Daí os tiraram à força os planos militares da ditadura de Rojas Pinilla, num dos dramas humanos mais terríveis e comovedores da história colombiana. A guerra de Villarica aparece em crónicas da época como um cruel testemunho do tratamento que os donos do poder conferem aos que ingenuamente confiam nas suas palavras. Dessa verdadeira diáspora terminaram surgindo as colónias agrárias de Atiari, Guayabero e Duda, perseguidas igualmente com raiva nos anos seguintes. O pequeno foco dirigido por Jacobo Prías Alape e Manuel Marulanda Vélez, que optou por entrar nas profundezas das montanhas e criar a região de Marquetalia, seria atacado uma década depois e acusado de república independente.

O senhor reconhece não ser um especialista das FARC. Ao que parece há especialidades académicas sobre nós. Que nós saibamos, nunca nenhum cá veio para nos entrevistar. É o mínimo que poderia esperar-se dos que escrevem livros ou fazem conferências sobre a nossa luta. Coisas da ciência social pós-modernista… A desconfiança no discurso do poder não é uma questão gratuita. Já se falava disso em Villarica. O que também aconteceu com Guadalupe Salcedo e outros chefes guerrilheiros desmobilizados. O senhor acredita mesmo que tem alguma credibilidade dizer que o genocídio contra a União Patriótica teria sido evitado pela reacção ética de consideráveis forças de opinião, surgidas como reacção a um nosso abandono das armas?
O extermínio da União Patriótica (UP) está marcado pela estratégia do denominado conflito de baixa intensidade, uma versão mais avançada da Doutrina de Segurança Nacional. A UP era um desses partidos antidemocráticos, que segundo o documento de Santafé devia ser neutralizado por promover o estatismo. Se puxar pela memória, talvez se recorde que não só se perseguiu implacavelmente a União Patriótica, como com ela pereceram também os mais destacados defensores dos direitos humanos, os dirigentes sindicais, camponeses, e populares mais comprometidos na luta contra as recém-aparecidas políticas neoliberais. Mais tarde, não só se assassinaram os líderes, como também foi empreendida uma diabólica operação de extermínio generalizado, deslocamentos e terror.

Diz bem, quando afirma que tudo isso é o produto de uma impudica aliança entre sectores das Forças Armadas, máfias do narcotráfico, caciques políticos e paramilitares. Mas repare que tudo aquilo que se constituiu numa verdadeira política de Estado, sob os auspícios e consentimento do Pentágono. Exclua os mortos da União Patriótica caídos, na sua opinião, por obra da nossa utópica e catastrófica decisão de nos sentarmos em duas cadeiras. Quantos somam? 5.000? São na realidade uma percentagem mínima do imenso holocausto a que as classes dominantes submeteram o nosso país. Tiveram algum papel de dique de contenção as forças políticas e corporativas que teriam actuado no caso de nos termos desmobilizado?
Professor, o que o nosso país sofreu durante décadas foi a sinistra prática fascista de segurança nacional mascarada de democracia. Isso não muda por o Presidente ter sido Valencia, Belisário (lembra-se do Palácio da Justiça?) Gaviria, Samper, Uribe ou Santos. Enquanto nós, colombianos, não tomarmos em conjunto e realmente a decisão de apelar a todas as nossas reservas políticas, sociais, culturais e éticas, a fim de desterrar dos cânones constitucionais e legais essa perversa concepção de Estado, a que encarnam em primeiro lugar as forças militares e policiais, o fim do conflito e a paz permanecerão distantes. Nesse contexto, a vontade de paz adquire aspectos complexos que superam de longe a decisão unilateral de entregar as armas.

Algumas precisões necessárias
Tal como sucede com o desconhecimento da situação que suporta nos cárceres do país um considerável número de colombianos presos por pertencerem às FARC, ao lado dos quais um número notoriamente maior de compatriotas paga, atrás das grades, a sua determinação para a luta social e a política, dá a impressão que para muitas pessoas deste país os guerrilheiros mortos ou feridos em combate não existiram, ou pelo menos que se tratava de seres humanos inferiores, cuja vida desprezível pode ser interrompida sem que isso importe a quem quer que seja.

Mas isso não é verdade, Professor. Dentro dos milhares e milhares de vítimas do fascismo no nosso país, há que incluir também as valorosas mulheres e homens que deram a sua vida ou a sua integridade física combatendo-o. E um raciocínio elementar obriga a fazê-lo. Trata-se de colombianas e colombianos que compreenderam a necessidade de lutar por um país melhor, e assumiram essa tarefa conscientes dos enormes riscos que enfrentavam. O levantamento armado é reconhecido como a forma mais elevada da luta política, isto é faz parte de um aluvião de formas de actividade que perseguem o objectivo do poder para o povo. Não lhe é alheio ao povo, mais, não poderia existir se não contasse com uma enorme base social de apoio.

Pode parecer engenhoso e até despertar aplausos, mas não é convincente traçar uma linha divisória que separe a guerrilha da luta popular, nem reclamar-lhe de forma independente quem pode contar como seus os êxitos conseguidos a favor das massas oprimidas. As lutas de todos os de baixo formam uma frente e as suas conquistas ou refluxos beneficiam ou atrasam a aproximação ao objectivo geral de redenção social. Desde logo, ver as coisas assim corresponde à óptica de classe dos explorados. Outras visões, muitas vezes animadas pela ideia de uma neutralidade inexistente, na realidade fazem parte e servem os interesses dos de cima, o sorriso enganador dos sectores dominantes. 

A luta popular no seu conjunto conseguiu muitas coisas e só perguntar o quê, no mínimo, destila algum veneno, seja ele de natureza nihilista ou francamente burguês. A luta armada de vinte anos que precedeu os Acordos de Uribe, provocou no país efeitos novos, verdadeiramente modernos que implicaram importantes avanços. Desde logo porque se uniram aos clamores e reclamações de muitos outros sectores, como disse atrás. Não são metas acabadas mas uma espécie de camadas sucessivas para o posterior relevo que levará as coisas para a frente.

A quem na Colômbia parece hoje tolerável que o Presidente da República designe, um a um, os governadores e depois, um a um, os alcaides? Não foram por acaso os tiros e as sonoras denúncias das guerrilhas colombianas quem pôs no centro do debate nacional o tema dos direitos humanos? Depois construiu-se toda uma lenda à volta da sétima papeleta [6] que supostamente serviu de origem à convocatória de uma Assembleia Constituinte. Não foi o clamor mil vezes repetido ao país por Jacobo Arenas, sobre a necessidade de convocar uma Assembleia Constituinte que substituísse a velha Constituição de 86?

Aos militares colombianos deve custar-lhes como uma bofetada, principalmente agora que se preparam para que o Congresso santista lhes ressuscite o foro militar, o que as FARC denunciam também com tiros, que desempenharam um papel determinante na concepção restritiva, que terminou por ser aceite no nosso país, sobre essa jurisdição especial patrocinadora de escandalosa impunidade. Plinio Apuleyo Mondoza ou José Obdulio Gaviria vivem amargurados, censurando os restantes colombianos por permitirem que a guerrilha se cole em tudo. Não é guerrilha, senhores trogloditas, são os avanços democráticos da luta popular.

E os estado de sítio? E o acantonamento [arrinconamiento] do paramilitarismo fascista? Será realmente verdade que as armas nas mãos do povo não tiveram um papel considerável nisso? A lista, que poderíamos ir acrescentando, é muito longa, professor. Inclusive, poderia tornar-se um importante tema de estudos de âmbito universitário. Novamente o tempo e o espaço me impendem de me alargar. Além de que ao fazê-lo, de boa fé e sem intenção de prejudicar ninguém, poderia aumentar o desgosto de personagens e sectores extremamente perigosos para a saúde dos heróicos compatriotas que, em diferentes momentos e lugares, levantaram tão dignas bandeiras. 

Até uma determinada etapa da luta armada, anterior à generalização da táctica estatal de nos combater com a fórmula de tirar a água ao peixe, a nossa presença e combatividade em muitas regiões do país fez com que nas altas esferas do Estado se tivessem inteirado da existência dessas pessoas e das extremas adversidades que passavam. No afã de as isolar de nós, e quase sem querer, chegaram a muitos povoados, com vias pelas quais só podia circular um carro de linhas, escolas para as crianças poderem educar-se, postos de saúde onde pelo menos uma profissional lhes prestava uma assistência elementar.

Até a consolidação actual, que as forças armadas apregoam praticar em catorze zonas do país, implicaram a atenção de algumas das necessidades angustiantes das pessoas. Mal faríamos nós se sobrestimássemos este aspecto em relação aos deslocamentos, aos encarceramentos massivos, às perseguições, aos crimes e ao terror generalizado que impõe a ocupação militar de extensas áreas, tal como o repovoamento delas com pessoas da sua confiança. A assistência social através de programas como o Famílias em Acção, que faz parte do que falámos antes, não deixa de ter o sabor amargo de que jamais teria surgido se a guerrilha não tivesse antes posto ali o pé. Isto parece indigno, mas não deixa de ser útil para dimensionar a mesquinhez dos planos oficiais.

Na sua recente viagem a Londres [N.do T.: 21 e 22 de Novembro de 2011] Juan Santos tornou-se uma presa de caça dos media por se ter atrevido a falar da despenalização das drogas. No Plenário do Estado-Maior Central de 2000, em pleno processo de Caguán, as FARC colocaram oficialmente ao povo norte-americano, ao seu Congresso e ao governo dos Estados Unidos a questão da legalização das drogas. E os camponeses deste país há décadas que falam do assunto em diferentes espaços. E se tal eventualidade se tornar um dia realidade, a historiografia oficial encarregar-se-ia de incensar o actual Presidente como o artífice de tão transcendental medida. Não seria a primeira vez que as classes dominantes colombianas se apropriam de velhos anseios populares para os apresentar como seus, e negar na passada o papel dos despojados na história.

A sincera vontade de paz
Falando de Caguán, convido-o Professor a realizar um despreconceituoso estudo histórico dos Acordos que possibilitaram a zona de evacuação e os diálogos ali realizados. À luz das regras acordadas com Pastrana, fazendo caso omisso das mal-intencionadas campanhas da imprensa, não pode encontrar um só facto da nossa parte que signifique uma violação das mesmas. Foi o Estado quem fez valer a sua tese de dialogar no meio do conflito, o que queria dizer que fora da zona de evacuação a guerra continuaria com toda a sua crueldade. A própria Defesa do Povo [7] se encarregou de declarar que as supostas pistas, que Pastrana mostrou em fotografias para justificar o fim da zona de evacuação, eram na verdade antigas estradas.

Mas a investida mediática contra nós adquiriu tal dimensão que Osama Bin Laden ou Hussein seriam figuras angelicais se comparadas connosco. O que nenhum analista objectivo se deteve a analisar foi a atitude do governo, que na Mesa falava uma linguagem e fora dela dizia o contrário. Um dos Acordos fundamentais chamou-se Agenda Comum para a Mudança para uma Nova Colômbia, a relação precisa dos temas que ocupariam as discussões na Mesa de Conversações: o conteúdo dos acordos de paz, a doutrina militar, as reformas democráticas no sistema político, o modelo de desenvolvimento económico, o regime tributário, o emprego e os cuidados sociais, a terra, a política de exploração dos recursos naturais, as relações internacionais e o tratamento social do problema do narcotráfico.

Em três anos de conversações, o governo teve o descaramento de nem sequer um desses pontos ser abordado nos diálogos. Na meia centena de audiências públicas em que participaram mais de 30.000 colombianos com as suas propostas sobre os temas específicos das convocatórias, e num sem número de formais Mesas Redondas com sectores da produção e da academia, foram debatidos temas de transcendência para a vida e o futuro do país. Era de supor que a Mesa de Diálogos se encarregasse do exame do que se concluiu. Nisso consistia o processo de conciliação com as regras previamente acordadas. Nem uma só vez, rigorosamente nem uma, o governo possibilitou a inscrição na ordem do dia das reuniões desse assunto.

Contrariamente aos compromissos assumidos na Mesa, publicamente declarava constantemente que temas como o Plano Colômbia, os acordos com o FMI, o Plano Nacional de Desenvolvimento, as reformas constitucionais do tipo regime de transferências, ou legais como o novo código mineiro não faziam parte de nenhum debate com a guerrilha. Ou seja, não cumpria os compromissos assinados com Manuel Marulanda Vélez, amplamente difundidos pela imprensa nacional. E no entanto ninguém falava disso. Era como se não estivesse a acontecer. O que se dizia todos os dias ao país era que as FARC não tinham a menor vontade de paz, que estavam constantemente a violar os acordos.

Assim ficava evidente a verdadeira intenção oficial, a única coisa que nos reservava era a rendição incondicional. O governo estava consciente que mesmo que o não conseguisse, pelo menos ganhava o tempo que precisava para reorganizar as forças armadas para a guerra de extermínio. Nenhum estudioso do tema pode deixar passar em claro as muito significativas expressões do então Comissário da Paz, Victor G. Ricardo, ao jornalista Hollman Morris, no seu documento sobre o encontro O DIÁLOGO É O CAMINHO feito em Barranca, em Agosto passado: Se as FARC nesse momento tivessem sabido que o Estado não tinha com que comprar um cartucho, não se teriam sentado para dialogar em Caguán.

É o reconhecimento de que se enganava não só a nós mas a comunidade nacional e internacional que acompanhava o processo. A grande imprensa desempenhava com profusão de detalhes o seu nefasto papel nessa conspiração contra a Colômbia. Do que se tratava era, na realidade, de aniquilar, de uma vez por todas, a oposição à radicalização das políticas neoliberais impostas pela banca transnacional e aceites de bom grado pela oligarquia governante. Basta ver os que integravam a equipa governamental de Pastrana e os que a integram hoje. É o mesmo grupo de tecnocratas formados e devotos da Escola de Chicago, cujas realizações fazem hoje correr a água em todo o mundo. É por isso que não se encontram diferenças entre o que se nos exigia por baixo da mesa uma década atrás e o que hoje se nos intima a fazer com a famosa chave oculta de Juan Santos. Há dez anos, além disso, falava-se com admiração do claro domínio dos falcões no governo norte-americano. A reconhecida aliança entre o poderio militar desse país e as grandes corporações industriais e financeiras, que são normalmente chamadas de complexo militar industrial do Pentágono, abriam as suas fauces belicosas ansiosas de mais negócios por conta da guerra em qualquer rincão da terra onde tal for possível. 

Vale a pena perguntar como se contabilizam aqui as centenas, os milhares de milhões de dólares de ajuda norte-americana à guerra. Farão parte do superávit na balança de pagamentos? Influirão na cifra de crescimento do investimento estrangeiro? Reflectem-se no aumento do PIB? O que estudiosos muito sérios defendem é que tão grande avalanche de recursos provenientes dos impostos pagos pelos cidadãos dos Estados Unidos constitui, na realidade, um escandaloso chorrilho de subsídios às grandes empresas ligadas ao sector bélico. Os dinheiros nunca entram na Colômbia, mas com eles pagam-se todas as armas e equipamentos que fabricam esses polvos empresariais e que se transferem para aqui com o angélico nome de ajuda.

Mais que ninguém e animados pela satânica ideia de guerra contra o terrorismo, esses polvos pressionavam a escalada do conflito colombiano. A guerra total contra as guerrilhas serviria, na concepção de segurança nacional, para atacar indistintamente o movimento social e popular que enfrenta decidido as medidas neoliberais de privatização, flexibilização laboral e livre comércio. Como é cada dia mais evidente, todas elas nos condenam cada vez mais ao saque descarado dos nossos recursos naturais, à eterna corda na garganta do crescimento da dívida e, sobretudo, à diminuição acelerada dos serviços públicos e direitos conquistados pelos trabalhadores em tempos passados, sem possibilidade de andar para a frente.

Não anunciam já um novo regime de reformas que eleva ainda mais a idade para ter direito a uma pensão?Como vê Professor, isso que o senhor e muitos colombianos interiorizaram como o síndroma de Caguán, e que os levou num arroubo emocional a tombarem para a extrema-direita que representava Uribe, não passa de uma fábula, se a examinarmos objectivamente, ligando-a com os outros aspectos da realidade. Apontar-nos o dedo como responsáveis directos, sobretudo a partir da respeitável posição de intelectualidade bem pensante, é um despropósito tão bem elaborado que seria merecedor de um galardão de ouro atribuído aos publicistas e propagandistas da globalização neoliberal.

Vou dizer-lhe uma coisa que a muita gente parecerá inadmissível. Se o vencedor das eleições de 2002 na Colômbia tivesse sido Horacio Serpa [8], teria sido ele o encarregado de desenvolver, com ligeiras diferenças de matiz, o Plano Colômbia, o Patriota e a consolidação. Teria sido ele a assinar o Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos e percorrido com afã o mundo por mais acordos de comércio livre e seria apontado, tal como Juan Santos, como um campeão da democracia. Estes nossos Estados encontram-se condenados a desempenhar um papel subordinado no meio dos interesses do grande capital transnacional. É por isso que reassume toda a urgência a recuperação da soberania e independência nacionais, tal como a necessidade de integração sul-americana que nos permita enfrentar com sucesso o monstro.

Uma breve olhadela à nossa volta
Não creio que valha a pena debater a sua apreciação sobre o que está a acontecer na América Latina. É justa e acertada. Apenas poderia acrescentar-lhe uma referência. É sobre a sua abordagem aos modelos de esquerda que se implementam no nosso continente. Um, o do Brasil, decididamente inclinado para a assistência social, enquanto em tudo o mais se cinge a cartilha ditada pelos poderes internacionais do capital, e o outro, o de Cuba e Venezuela, que aponta para a construção de um modelo socialista de acordo com as suas realidades nacionais, mas completamente autónomo no que respeita a políticas económicas. Como sabe, Lula recebeu inclusive o título de personagem do ano em 2010, enquanto Castro e Chávez recebem dos círculos económicos dominantes o tratamento de demónios.

Fidel e Chávez são considerados os piores ditadores internacionais pelas agências de imprensa norte-americanas e europeias. Na Colômbia, entre as classes dominantes e os grandes meios de comunicação, o processo revolucionário venezuelano é visto com a mesma raiva e repúdio com que o olha a catorze vezes derrotada oposição daquele país. A imperiosa necessidade económica impôs o acordo de Juan Santos com Chávez, no qual um se comprometia a respeitar o que o outro fazia no seu país. Mas todos nós, colombianos, sabemos o que na realidade pensam Juan Santos e a sua corte. Todos, em uníssono, se juntaram ao coro de felicidade pelo golpe de 11 de Abril de 2002. A atitude continua a mesma. Não nos enganemos.

Eis um exemplo significativo do que significam as políticas neoliberais que Cuba e a Venezuela não admitem. Encontra-se em Guajira e chama-se Cerrejón. Há quase três décadas que se anunciava a milagrosa redenção que seria a exploração, a céu aberto, da maior mina de carvão do mundo. A realidade vale mais que mil palavras. Os milhares e milhares de milhões de dólares foram para outro lado. E os Wayú? E o aqueduto de Riohacha? E a miséria galopante na região? No princípio até tivemos uma empresa mineira carbonífera associada com a transnacional. Também a engoliram. A estória das locomotoras é mais do mesmo. Seria bom perguntar-lhe sobre a sua pela guerra total em vez da paz.

O eterno sambenito [9]
Não o culpo. Fizeram-nos muito mal com isso. É mais cómodo estigmatizar-nos e lançarem bombas sobre nós que deixar que falemos e exponhamos o nosso pensamento e a nossa proposta de país em igualdade de condições. É a sua vantagem competitiva, como eles dizem. Terem o apoio dos meios imperiais e locais para construírem o que quiserem. A cooptação da inteligência. A prisão e a cova para os que sustentam o contrário. Revejo-me sem hesitações no que expressou o Camarada Alfonso Cano sobre as FARC e o narcotráfico. Sem manhas de prestidigitador. Vou apenas acrescentar uma coisa, dada a gentileza de nos ter escrito. Imagino os adjectivos que isso me acarretará.

Se há ofício ingrato e malquerido é o de agente do fisco. Criar um imposto que incida sobre os compradores de pasta de coca significa cobrá-lo. Sucede que quem envia os seus emissários a buscar a mercadoria, palavra do jargão deles, é a máfia que cresceu à sombra do Estabelecido. Trata-se de pessoas que escolheram uma decisão de vida, a de fazer a maior quantidade de dinheiro no menor tempo possível, seja a que preço for. Para passar uma vida tão boa como os capitalistas que vêem no cinema e na televisão. Àqueles também os salvam os capitais em tempos de crise económica. Tratar com gente assim não é fácil. Os seus emissários terão sempre o propósito oculto de nos enganar. Não restava outro remédio senão sair-lhes ao caminho com algumas medidas, como fixar os locais exclusivos de venda, entre outros.

Sobre propostas deste tipo é que os nossos inimigos edificaram a lenda. Na realidade nós cobrávamos às máfias por entrarem a comerciar nas áreas sob nossa influência. Esse tipo de relação, que não precisamente a de bons amigos, converte-nos em demónios. A outros, com relações de propósitos muito mais reprováveis, corre-lhes melhor a carreira económica, política e militar. O governo dos Estados Unidos sim, esses sabem fazer a coisa, como se viu no famoso escândalo Irão-Contras. O problema connosco tem motivações muito diferentes. O semear e colher folha de coca obedecem a situações suficientemente explicadas neste país. O resto são cantigas, como disse Alfonso.

Antes de me despedir queria expressar-lhe os meus agradecimentos. Ainda que com muitas interrupções, o esforço para responder de algum modo às suas prementes inquietações, que honradamente espero não terminar de modo algum numa ofensa, foi para mim um enorme prazer. No meio das nossas diferenças, que não creio sejam tantas como poderia pensar-se à primeira vista, vejo-me obrigado a reconhecer no senhor um homem francamente preocupado pela realidade e o futuro do nosso país, um colombiano farto da violência que faz enormes esforços para contribuir que se abram as portas do diálogo e a saída civilizada do conflito. Só este facto torna-o credor do nosso fraterno abraço,

Cordialmente

Timoleón Jimenez

Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP
Montanhas da Colômbia, Dezembro de 2011.

Notas do Tradutor:
[1] As cortes são a entidade judicial encarregada de zelar pelo cumprimento da Constituição.
[2] Ex-secretário-geral da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) entre 1981 e 1990; vice-presidente da União Patriótica até 1990; depois de um período de nojo aceitou, em 2000, ir para ministro de Andres Pastraña… Continuou a deslizar no plano inclinado e em 7 de Agosto de 2010 tomou posse como vice-presidente da Colômbia, apoiado por Juan Manuel Santos.
[3] Foi a data do assassínio de Gaitán (Jorge Eliecer Gaitán), o que provocou uma grande revolta popular conhecida como o Bogotazo.
[4] União dos Trabalhadores Colombianos fundada pelos Jesuítas em 1946…
[5] Godos é como, depreciativamente, se designam os espanhóis em alguns países da América Latina.
[6] Movimento estudantil que fez uma proposta em 1990 para que governadores e alcaides passassem a ser eleitos.
[7] Organismo criado pela Constituição de 1991 para defender os direitos humanos
[8] Político colombiano, candidato à Presidência da República em 1998, 2002 e 2006 pelo Partido Liberal Colombiano.
[9] «Hábito, em forma de saco, de baeta amarela, que se enfiava pela cabeça e que se vestia aos condenados que iam ser queimados nos autos-de-fé».

Tradução de José Paulo Gascão

Este texto foi originalmente publicado dia 17 de Janeiro de 2012 em www.farc-ep.co/?p=1005</em>


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Brasil/O HAITI QUE PAROU PARA VER E FOI VISTO POR DILMA


2 fevereiro 2013/Carta Maior http://cartamaior.com.br (Brasil)

Dois anos após terremoto, Haiti ainda convive com escombros e caos de veículos e pessoas nas ruas. Palácio oficial tem tendas da Defesa Civil brasileira e sede improvisada para gabinete do presidente-cantor Michel Martelly. Capital Porto Príncipe pára para ver Dilma, que vistoria QG brasileiro, bota boné azul da missão de paz da ONU e encontra ator hollywoodiano ongueiro.



Porto Príncipe – Dilma Rousseff pousa com o avião presidencial Santos Dumont às 9h45 (12h45 em Brasília) no aeroporto internacional que leva o nome de um herói da independência do Haiti, Toussaint Louverture. É recebida pelo presidente Michel Martelly, um ex-cantor que tomou posse em maio de 2011, com honras de chefe de Estado no próprio aeroporto, já que o Palácio Nacional, sede do governo, ainda está sendo reconstruído do terremoto de dois anos atrás.

No aeroporto, o prédio para autoridades está enfeitado com cartazes a dizer, em português e francês, a língua oficial local, “Bem vinda, Dilma, a casa é sua”, ao lado das bandeiras de ambos os países – a do Haiti é vermelha e azul e leva a inscrição “A União faz a força”.

Dali, o cortejo oficial com autoridades brasileiras e haitiana segue até o Palácio com caminho aberto pelas forças de paz da ONU. Sem a providência, levaria bem mais do que 15 minutos para vencer as ruas estreitas, cheias de curvas e apinhadas de veículos (numerosos para um país pobre) e de pessoas a ocupar calçadas vendendo de tudo – roupas, ferragens, móveis, colchões, livros.

As comitivas são vistas passar com interesse pela população, já acostumada ao intenso calor caribenho mesmo no inverno e aos escombros com que ainda dividem ruas e calçadas.

Apesar de a recepção a Dilma ter ocorrido no aeroporto, há também uma mini cerimônia, com nova execução do hino brasileiro, quando ela chega ao complexo do Palácio Nacional – um conjunto de prédios e jardins.

Cerca de dez metros à frente de Dilma e Martelly, três barracões beges da Defesa Civil brasileira montados em pleno Palácio, sugerem como ainda vai levar tempo para o país mais miserável do hemisfério ocidental reerguer-se da tragédia de janeiro de 2010.

A reunião particular de Dilma com Martelly realiza-se em um prédio simples localizado dentro do complexo palaciano, que teve a sorte de escapar do terremoto e, depois, foi adaptado para acolher o gabinete presidencial.

Dilma viaja ao Haiti acompanhada de um tradutor para o francês, mas pouco recorre ao auxiliar, já que fala o idioma e conversa diretamente com Martelly, bastante popular entre os haitianos, mas com dificuldades políticas em um Congresso dominado pelos aliados de um dos antecessores, Jean-Bertrand Aristide.

A conversa analisa a reconstrução do Haiti. As possibilidades de investimentos brasileiros, públicos e privados, no país. A imigração ilegal de haitianos que entraram em grande quantidade no Brasil, situação que levou o governo a criar um visto especial só para eles, com cinco anos de validade e sem necessidade de comprovação de vínculo empregatício.

Do Palácio Nacional, Dilma segue, depois do almoço, até a Brabatt, o quartel-general do batalhão de 2,2 mil brasileiros das forças de paz da ONU, situado perto da embaixada dos Estados Unidos, prédio salmão que passou intacto pelo terremoto, sem um vidro trincado sequer – a brasileira foi destruída.

Na base, Dilma é apresentada às tropas, faz do alto de um palanque um discurso de agradecimento e encorajamento, presta homenagens aos mortos no terremoto. Depois, desce do palanque, bota um boné azul da Minustah na cabeça e percorre as fileiras com cerca de 300 soldados ali perfilados.

Antes de partir de volta ao Brasil, uma viagem de seis horas de avião, Dilma ainda reúne-se na Brabatt com representantes de ONGs que prestam ajuda humanitária ao Haiti. Entre elas, a entidade do ator hollywoodiano Sean Pean, que se encontra com a presidenta e conversa sobre está sendo feito em favor da população local.

Dilma encerra a visita ao Haiti, que foi acompanhada por cerca de 25 jornalistas do Brasil que viajaram para lá a partir de Cuba em avião cedido pela Presidência da República, por volta das 17h30.

*Matéria alterada para correção de informação. Jean-Bertrand Aristide não é antecessor de Michel Martelly, mas um deles (governou de 2001 a 2004).
                                

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Haïti-Brésil/Les organisations de femmes s’entretiennent avec la ministre brésilienne des droits humains 

 

2 février 2012/Alter Presse http://www.alterpresse.org (Haiti)

 

P-au-P, 2 fév 2012 [AlterPresse] --- Des représentantes d’une dizaine d’organisations de femmes ont rencontré, ce 2 février, la ministre des droits humains du Brésil, Maria do Rosário, autour des violation des droits des femmes en Haiti.

Cette rencontre qui a eu lieu au local de la Solidarité des Femmes Haitiennes (SOFA), a réuni, entre autres, des déléguées de « Fanm Yo La » (Les femmes sont présentes) et « Kay fanm » (La maison des femmes), selon les témoignages obtenus par AlterPresse.

Les échanges ont tourné autour des préoccupations des organisations féministes sur les violences faites aux femmes par les agents de la Mission des Nations Unies pour la Stabilisation d’Haïti (Minustah), la responsabilité de la MINUSTAH dans l’épidémie de choléra en Haïti et la situation des ressortissantes et ressortissants haïtiens coincés à la frontière Pérou/Bresil.

Ces organisations souhaitent un élargissement de la coopération entre le Brésil et Haïti, capable de prendre en compte les mouvements sociaux, notamment ceux des femmes, afin d’appuyer l’autonomie économique des femmes ainsi que la lutte contre la violence faite à leur endroit.

Les participantes ont fait état de différents cas de viols perpétrés sur les filles, femmes, et jeunes garçons par les brigades sri-lankais, pakistanais et uruguayens.

« Malgré les résultats accablants de cinq enquêtes dont deux commanditées par les Nations Unies [en rapport au choléra], cette dernière refuse de reconnaître les torts et dommages causés sur la vie des haïtiennes et haïtiens », selon la coordonnatrice de la SOFA, Lise Marie Déjean (ancienne ministre à la condition féminine).

Plus 7.000 personnes sont mortes et 50.000 infectées suite au choléra, rappellent les organisations de défense des droits des femmes, qui réclament que justice soit faite à la population haïtienne.

Les organisations de femmes espèrent du Brésil, par ailleurs, un traitement humain aux 484 migrantes et migrants haïtiens bloqués à la frontière entre le Pérou et le Brésil et le respect de leurs droits de migrants. [emb gp apr 02/02/12 15 : 30]

Portugal/“OS NOSSOS GOVERNANTES VÃO ALÉM DOS SACRIFÍCIOS IMPOSTOS PELA TROIKA" -- D. Januário Torgal


D. Januário Torgal acusou o governo de tratar os trabalhadores por conta de outrem como se fossem “os assassinos do país", defendendo que essa ideia "é uma calúnia e um aproveitamento, porque na crise revelam-se oportunidades para explorar os explorados". O Bispo das Forças Armadas defendeu a renegociação da dívida.

2 fevereiro 2012/Esquerda.net http://www.esquerda.net (Portugal)


Foto de Paulo Novais, Lusa.

"As medidas da troika são duras mas não me deixam surpreso, mas depois descubro que os nossos governantes vão além dos sacrifícios impostos pela troika e fico atónito", sublinhou D. Januário Torgal em entrevista ao Dinheiro Vivo.

"Não acredito que quando começarem a morrer pessoas à fome, quando começar tudo numa barafunda, se continue a achar que vale a pena puxar a manta", reforçou o Bispo das Forças Armadas, defendendo que se deve proceder à renegociação da dívida.

D. Januário Torgal acusou o governo de uma “grande insensibilidade social”, de privar o povo “dos recursos que tem" ao implementar políticas que "exageram as medidas da troika" e de não tomar medidas para conter a escalada da taxa de desemprego, que já ascende a 13,6%.

O Bispo das Forças Armadas criticou também medidas concretas, como o fim dos feriados, frisando que  "não são os trabalhadores por conta de outrem os assassinos do país", ideia que é “uma calúnia e um aproveitamento, porque na crise revelam-se oportunidades para explorar os explorados".

D. Januário frisou ainda que não tem dúvidas de que, quando chegar a altura de eleições, "vai ser ver dinheiro a jorros" e de que,"nessa altura, todos vão ser bestiais".

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Portugal/D. Januário Torgal: “TENHO VERGONHA DO MEU PAÍS”
O bispo das Forças Armadas acusa o governo de falta de sensibilidade e de incompetência diante da multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade e do respeito por elas próprias. E diz que não quer ser cúmplice.

17 setembro 2011//Esquerda.net http://www.esquerda.net (Portugal)

D. Januário Torgal: não devo dormir tranquilo perante toda esta multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade. (Foto da Lusa) 

Numa entrevista ao jornalista Manuel Vilas Boas, da TSF, o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, diz não querer ser cúmplice com “esta multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade, do respeito por elas próprias”, elogia a esquerda e acusa o governo de falta de sensibilidade e de incompetência.

“Tenho vergonha porque numa casa onde os mais pequenos não se podem sentar à mesa e comer do mesmo pão, que é o pão dos direitos e da dignidade, quem estiver a presidir à mesa deve sentir-se cúmplice”, disse D. Januário. “E se nos dizemos Igreja, servidores do mundo, devo sentir-me cúmplice e não devo dormir tranquilo perante toda esta multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade, do respeito por elas próprias e a quem as promessas vão no pior sentido”.

Januário recorda o passado e diz ter tido vergonha da Igreja quando esta se calou e se ajoelhou diante de Salazar. Lembra que homens da Igreja foram educados no medo e não na liberdade e no à vontade de dizer o que pensam.

E afirma que hoje em dia, uma pessoa que toca em aspectos sociais é alguém que é de esquerda. “Mas então honra seja feita à esquerda”, afirma, apontando que há muitos comunistas que são mais católicos que muitos católicos”. E questiona: “porque é que só em momentos eleitorais se vai para as feiras? Se vai para os banhos de multidão e se dá beijinhos em gente mais simples?”

Quanto ao actual governo, D. Januário nota falta de sensibilidade nuns casos e noutros perfeita incompetência. “A gente vai dizer para o governo se sentar e nos ouvir”. Não fomos educados na arte do diálogo”, diz, referindo-se também aos que fazem críticas à Igreja.

O bispo das Forças Armadas aponta a falta de cultura democrática que ainda existe, “As pessoas não estão habituadas a quem vem manifestar oposição”. E dá como exemplo a coluna dominical de domingo de Frei Bento Domingues no Público. “Para a mentalidade de muitas pessoas, ele não é nada meigo, diz uma palavra que tem uma originalidade única. Mas há pessoas que ficam incomodadas...”

D. Januário alerta que “há muita gente que gostaria do regresso de Salazar. Isso é uma tragédia”. Mas, na sua opinião, devemos tratar essas pessoas como o Salazar nunca ousou tratar quem diferia dele. “Tratar as outras pessoas de forma diferente que essas pessoas, nas suas fontes culturais, trataram as outras”, isto é, com democracia.

O bispo das Forças Armadas alerta que “há quem não defenda a ditadura, mas que defenda que uma ditadurazinha de algum tempo, que uns safanõezinhos faziam muito bem. Eu digo, os safanões, o prender, o bater só faz mal.”

O que o leva à crítica à guerra do Iraque. “Houve jornalistas que me chamaram 'fundamentalista do Iémene' quando eu disse que estava em total desacordo com a guerra do Iraque”, recorda. D. Januário defende a Primavera dos países árabes e nota que não houve tiques religiosos, o que houve foi tiques de cidadania.

“São islâmicos, e portanto o Islão é compatível com a liberdade e até com a democracia. Ao contrário do sr. Bush, que queria impor a democracia com as armas, pode-se chegar à democracia através da razão”.

Perú/Misión de Observadores monitoreará Gran Marcha Nacional del Agua



Natasha Pitts, periodista de Adital 

Un grupo formado por más de 30 investigadores, estudiosos e integrantes de movimientos sociales de Suecia, España, Brasil, Australia, Chile, México, entre otros países, formó una Misión de Observadores Internacionales con el objetivo de realizar el seguimiento de la Gran Marcha Nacional del Agua, que comenzó ayer (1º), en Cajamarca, Perú.

La Misión, liderada por Pedro Arrojo, Doctor en Ciencias Físicas de la Universidad de Zaragoza (España) y profesor emérito del Departamento de Análisis Económicos de la misma institución, observará de manera independiente las razones que motivan los conflictos abiertos en Perú e informará sobre el desenvolvimiento de la Marcha. 

Se creó un blog (http://observacionenperu.blogspot.com/) para enviar las informaciones que la Misión recogerá durante los días de acompañamiento. En él, se postearán informes parciales y, posteriormente, un informe final orientado a todas las organizaciones, entidades y medios de comunicación internacionales vinculados con la Misión de Observadores. 

UNA RÁPIDA MIRADA GENERAL AL COLONIALISMO CHILENO CONTRA LOS MAPUCHE


2 febrero 2012/Mapuexpress - Informativo Mapuche http://www.mapuexpress.net (Chile)

Si hubiera sido un natural, entonces ¡sí que lo habrían tomado preso y lo habrían azotado!”. Una rápida mirada general al colonialismo chileno contra los mapuche


Por Claudio Alvarado Lincopi *
 
Revista Hoja de Ruta
 
Imaginarias intertextualidades entre Marx, Fanon y Carileu

Karl Marx en El Capital analiza la etapa denominada acumulación originaria, que “no es más que el proceso histórico de disociación entre el productor y los medios de producción”(1), es decir cuando las poblaciones rurales son despojadas de sus tierras, las cuales son controladas ahora por nuevos terratenientes, quienes utilizan a los campesinos expropiados como fuerza de trabajo. Este proceso de expropiación, señala Marx, se nos pretende explicar como una anécdota en donde “había, de una parte, una minoría trabajadora, inteligente y sobre todo ahorrativa, y de la otra un tropel de descamisados, haraganes, que derrochaban cuanto tenían y aún más”(2), pero “sabido es que en la historia real desempeñan un gran papel la conquista, la esclavización, el robo y el asesinato; la violencia, en una palabra. En la dulce economía política, por el contrario, ha reinado siempre el idilio. Las únicas fuentes de riqueza han sido desde el primer momento la ley y el ‘trabajo’, exceptuando siempre, naturalmente, ‘el año en curso’. Pero, en la realidad, los métodos de la acumulación originaria fueron cualquier cosa menos idílicos”(3). 

Franz Fanon, en su libro Los Condenados de la Tierra, escribe “para el pueblo colonizado, el valor más esencial, por ser el más concreto, es primordialmente la tierra: la tierra que debe asegurar el pan y, por supuesto, la dignidad. Pero esa dignidad no tiene nada que ver con la dignidad de la ‘persona humana’. Esa persona humana ideal de la que jamás ha oído hablar. Lo que el colonizado ha visto en su tierra es que podían arrestarle, golpearle, hacerle morir de hambre hambrearlo impunemente; y ningún profesor de moral, ningún cura, vino jamás a recibir los golpes en su lugar ni a compartir con él su pan”(4)

Galiza e PALOP/Aline Frazão e o projeto Cacimbo achegam as crianças galegas à Lusofonia africana - Cultura e desportos

31 janeiro 2012/Diário Liberdade http://www.diarioliberdade.org http://www.diarioliberdade.org (Galiza)
PGL - A relatora usará a sua variante angolana num formato de língua próximo, em termos lexicais, ao das crianças.


A equipa de ateliês e cursos da AGAL lança um novo projeto: Cacimbo. Cacimbo é uma viagem pelos países que falam português na África, detendo-se nas suas músicas, a sua paisagem, a sua fauna e suas gentes e onde os conteúdos áudio-visuais terão um especial destaque.

A relatora dos ateliês é Aline Frazão, cantora angolana e estudante de jornalismo a morar em Santiago de Compostela, e que em 2010 participou nos Cantos da Maré. Acaba de lançar o seu primeiro álbum, Clave Bantu.

Os destinatários do ateliê são as crianças de ensino primário, entre os 9 e 12 anos. O objetivo é mostrar a África de expressão lusófona para que os alunos e alunas se podam achegar a essa cultura por meio da variante galega, o que tornará esta uma vantagem, redundando num reforço para o seu estatuto e o dos seus falantes.

A relatora usará a sua variante angolana num formato de língua próximo, em termos lexicais, ao das crianças. O ateliê terá uma duração de 50 minutos e a metodologia será ativa a procurar o envolvimento das miúdas e dos miúdos.

Mais informações:

Entrada na portuguesa REN abre o mercado de Moçambique à China State Grid

30 janeiro 2012/Macauhub (China)

Lisboa, Portugal, 30 Jan – A China State Grid está bem posicionada para se tornar no maior accionista do grupo português Redes Energéticas Nacionais (REN) e, por esta via, vir a deter uma participação na Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), em Moçambique.

De acordo com a folha de informação Africa Monitor, está previsto que metade dos 15% do Estado Português na HCB sejam cedidos à REN, mas a transacção carece do acordo do Estado moçambicano, que controla a empresa.

“O NEOPROGRESSISMO PODE TER VÁRIOS ANOS PELA FRENTE NA AL” -- Ignacio Ramonet



3 fevereiro 2012/Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)  

O jornalista e escritor Ignacio Ramonet diz, em entrevista ao jornal argentino Página/12 que a maioria dos governos da América do Sul cumpre a função dos social-democratas europeus nos anos 50 e que, se não cometerem erros, podem aspirar a um ciclo longo de governo. "A construção do Estado de bem-estar e o aumento do nível de vida acaba com qualquer tipo de recurso para as oposições tradicionais conservadoras. Agora, a população está percebendo como os seus países estão reconstruindo sociedades arrasadas".

Por Martín Granovsky, no Página/12


Nascido em Pontevedra e emigrado com sua família para a França, Ignacio Ramonet dirige o Le Monde Diplomatique em espanhol. Foi um dos animadores do primeiro Fórum em 2001 e é um dos jornalistas que mais percorrem o mundo, observando suas diferentes realidades.

Página/12: Sobre o final do Fórum temos direito de perguntar se foi útil e o que mudou com respeito ao primeiro encontro, de 2001.
Ignácio Ramonet: Quando o fórum foi criado não havia outro governo dos que eu chamo neoprogressistas na América Latina que não fosse o de Hugo Chávez, que inclusive veio ao fórum. No ano seguinte, em 2002, pela primeira vez Chávez se declarou socialista. Também veio Lula quando ainda não era presidente, mas candidato. Agora, ao contrário, os governos neoprogressistas estão implementando as políticas de inclusão social e, ao mesmo tempo, o fórum é menos um fórum dos movimentos sociais. É um fórum no qual se discutiu a crise européia, o movimento dos indignados em geral (os chilenos, Wall Street, etc.) e a questão da memória. A jornada da Flacso na sexta-feira (27/1), o dia do Holocausto, foi uma das atividades centrais, organizada pelo Fórum Social Temático e o Fórum Mundial da Educação.

Até agora esses não eram assuntos do fórum. Os indignados são um tema que não tem mais de um ano, e o debate sobre a memória não havia sido proposto dessa maneira. Dominavam o anti-imperialismo e a denúncia das guerras dos Estados Unidos no Iraque ou no Afeganistão. Está se chegando a um nível diferente. Os governos aqui na América do Sul estão agindo bem em seu conjunto. Mas, cuidado, chega uma nova etapa e é preciso melhorar certos aspectos qualitativos.