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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

ESCALADA FASCISTA NA UCRÂNIA

23 fevereiro 2014, ODiário.info http://www.odiario.info (Portugal)

Os Editores

A situação na Ucrânia configura a crise politica e social mais grave ocorrida no Continente Europeu desde a guerra de agressão contra a Iugoslávia.

Uma aparente dualidade de poderes oculta um real vazio de poder.

A Rada (Câmara de deputados) pretende controlar a situação. Oleksandr Turtchinov , do Partido Pátria, de Júlia Timoshenko, assumiu interinamente a presidência do país. Esse órgão legislativo destituiu o presidente Yanukovitch, restabeleceu a Constituição de 2004 e marcou eleições presidenciais para 25 de Maio.

A Ucrânia está à beira da bancarrota e muita água correrá pelo Dnieper até essa data.

Na prática os grupos extremistas da Praça Maidan que recusaram o Acordo firmado por Yanukovitch, pelos ministros dos Negócios Estrangeiros de países da União Europeia e pela oposição da Rada, forçaram o presidente (cujo comportamento foi indecoroso) a fugir para Kharkov, e emergem como poder real na

GEOPOLÍTICA DO CONFLITO UCRANIANO: DE VOLTA AO BÁSICO

22 fevereiro 2014 02:50, Pravda http://port.pravda.ru  (Rússia)

Se se olham os incontáveis vídeos que veem, não só de Kiev, mas também de outras cidades da Ucrânia, pode-se ter a impressão de que o que está acontecendo ali é caos total, que ninguém controla. É impressão muito errada, e acho que é mais que hora de examinar os atores desse conflito e o que cada um realmente quer. Só assim será possível construir alguma compreensão clara sobre o que se passa lá, sobre quem puxa os cordões por trás da cortina e sobre o que pode acontecer adiante. Assim sendo, examinemos os vários atores, um a um.

O povo ucraniano insatisfeito
Absolutamente não cabe dúvida alguma de que um grande segmento da população ucraniana está profundamente infeliz com o regime que está no poder, com o próprio Yanukovich e com o que está acontecendo na Ucrânia, há muitos anos. Como já escrevi inúmeras vezes antes, a Ucrânia está, essencialmente, em mãos de vários oligarcas, exatamente como a Rússia nos anos 1990s, só que piores. A vasta maioria dos políticos ucranianos estão à venda a quem dê mais, e isso vale para os membros do Parlamento, o Gabinete do presidente, os governadores regionais, todo o governo e, é claro, também para o próprio Yanukovich. Coletivamente, esses oligarcas também são proprietários dos jornais e televisões, dos juízes, da política, dos bancos e de tudo. Resultado direto disso, a economia ucraniana está descendo pelo esgoto há anos e, atualmente, está, pode-se dizer, em ruínas.

Não deve ser surpresa para ninguém que muitos ucranianos estejam

O QUE HOUVE NA UCRÂNIA?

23 fevereiro 2014, Carta maior http://www.patrialatina.com.br (Brasil)

Na Ucrânia houve de tudo, menos uma revolução popular. Três grandes jogadores estão assentados neste terreno: a Rússia, a União Europeia e os EUA.

NA UCRÂNIA HOUVE DE TUDO, MENOS UMA REVOLUÇÃO POPULAR.

Flávio Aguiar

Tudo começou com uma série de manifestação empilhadas umas sobre as outras: uma juventude ansiosa por se identificar com a União Europeia, uma classe média cansada pelas sucessivas vagas de corrupção dos sucessivos governos, uma insatisfação com o autoritarismo e o fechamento do governo de Viktor Yanukovitch, o desejo de maior ascendência de grupos do oeste do país em detrimento de grupos do leste do país.

A repressão que o governo desencadeou abriu caminho para uma intensificação do descontentamento, açulado pelos partidos de oposição representados no Parlamento e pelo  encorajamento internacional – da União Europeia a políticos norte-americanos, republicanos e democratas.  De todos os mais animado foi o senador republicano John McCain, em dezembro, gritando na praça da Independência (Maidan), foco e espaço das concentrações: “O mundo livre está com vocês! A América está com vocês!” Melhor lembrança da Guerra Fria e do dito “A América para os [norte-]americanos” seriam impossível. Como nos velhos “bons” tempos, o alvo continua sendo a Rússia.

No pano de fundo destas confrontações estão as desigualdades do país. O leste e o sul – junto à Rússia e ao Mar Negro são mais desenvolvidos e industrializados do que o oeste, mais pobre. O leste, de um modo geral, tem seu foco econômico voltado para a vizinha Rússia, de que depende o abastecimento de gás do país, vital para a indústria e para o aquecimento durante o rigoroso inverno. Se a Rússia endurecer a questão do fornecimento de gás, cortando-o ou simplesmente cobrando o preço de mercado, a Ucrânia literalmente congela – em todos os sentidos. Entretanto para o oeste, mais  próximo da União Europeia, a aproximação com esta significaria em tese uma maior autonomia em relação ao governo central e às demais regiões do país, além de mais oportunidades de colher investimentos. Pelo menos em tese.

Há também a questão do histórico repúdio aos russos, maior no oeste, um repúdio cujas últimas e trágicas edições foram uma relação ambígua – para dizer o mínimo – de movimentos nacionalistas ucranianos com o regime nazista da Alemanha, e um conflito sangrento e frequentemente descrito como “inútil” com o regime soviético. No leste há também um fator étnico: o número de habitantes russos é muito grande, o que mexe com os brios dos movimentos nacionalistas. E é bom lembrar que na Europa, ao contrário da América Latina, nacionalismo é sempre coisa de direita.
Se este é o pano de fundo , deve-se levar em conta o que acontece nos bastidores e também no palco da política ucraniana. Nos bastidores pairam as sombras dos grupos econômicos – assim como na Rússia liderados pelos chamados “oligarcas” – que se formaram depois do desmanche da ex-União Soviética, dos processos de privatização de tudo, feitos a toque de caixa, e da independência. Estes grupos de oligarquias é que dão as cartas – o poder do dinheiro – para os que estão no palco, os políticos e seus partidos.

Entretanto na Ucrânia não houve, pelo menos até o momento, um Vladimir Putin que, na Rússia, digamos, “botou a casa em ordem”, oferecendo aos oligarcas a manutenção de suas fortunas recém feitas (sobretudo durante o governo de Boris Yeltsin) desde que não se metessem em política. Enfiando os principais desobedientes na cadeia ou mandando-os para o exílio – confortável, na verdade – Putin e seu neoczarismo disfarçado de república impuseram uma espécie de “pax romana” em seu território. Na Ucrânia não houve este Putin, mas uma guerra de grupos ora antangônicos, ora aliados, pelas benesses dos oligarcas e pelos espaços de poder, o que conduziu todos a uma política onde alianças ocasionais são apenas passos para uma ideal tomada total do poder, no melhor estilo do “para mim e os meus tudo, para os demais os rigores da lei”. Este foi o conflito que se estabeleceu entre o atualmente já ex-presidente  Viktor Yanukovitch e sua maior rival, Yulia Tymoschenko, que já fora primeira-ministra por duas vezes, líder do partido chamado de União de Toda a Ucrânia – Pátria Mãe, diríamos em português, embora em ucraniano seja “Pátria Pai”.

Yanukovitch, chegando à presidência em 2010, ensaiou e pôs em prática uma reforma consitucional para aumentar a concentração de poderes em torno da presidência, alijando os demais partidos – inclusive o do Tymoschenko – até mesmo das suas franjas. E através de denúncias de corrupção e de um julgamento carregado de suspeitas botou Yulia na cadeia. Aqui pode-se ter uma ideia das complicações da política ucraniana. Yanukovitch é visto em geral como próximo da Rússia e Tymoschenko como aliada da União Europeia. Pois o primeiro processo aberto contra ela acusava a ex-primeira ministra de abuso de poder e super-faturamento no contrato de fornecimento de gás para Gazprom, a principal empresa russa do setor e uma das maiores do mundo que, como a Petrobrás, reúne capitais privados mas tem seu controle acionário e de fundos nas mãos do Estado.

Entrementes, o pró-Rússia Yanukovitch se aproximava da União Europeia e aprestava-se a assinar um acordo de livre-comercio com ela. Nesta altura, Moscou acendeu a luz vermelha. Para se entender isto precisamos sair do teatro da política ucraniana e olhar o terreno em volta onde ele está localizado. Três grandes jogadores estão assentados neste terreno, como os bispos de um jogo de xadrez, mais um cavalo que joga com dois deles, contra o terceiro. Os jogadores são a Rússia, a União Europeia e os Estados Unidos, e o cavalo é a OTAN, a aliança militar que teve como principal inimiga a antiga União Soviética e que agora, além de policiar o norte da África  e áreas próximas, continua, nem que seja por força do hábito, a cercar seu adversário  histórico, atraindo para si os ex-satélites deste.

Os interesses dos Estados Unidos e da UE não são coincidentes na região, pois na atual conjuntura interna de Washington não interessa atiçar o confronto – a não ser na retórica – com a Rússia, devido às necessidades de acertos na Síria, no Irã, etc. Já a UE tem interesse em desembarcar seus avatares dentro do teatro ucraniano, ampliando sua área de influência econômica, seu mercado e suas ‘reformas de austeridade’. Outro fator que complica este movimento é o temor histórico dos EUA de que, mesmo com rivalidades marcantes, a proximidade entre Alemanha e Rússia termine por forjar  uma aliança estável  e poderosa que desenvolva um outro núcleo regional de poder. Na base de um movimento destes estaria novamente o gás russo, de que a Alemanha já depende e vai depender mais quando – e se – cumprir a promessa de desativar suas usinas nucleares.

De um modo ou de outro, o fato é que a Rússia colocou um sinal de “Pare!” nos movimentos de Yanukovitch: prometeu 15 bilhões de euros em empréstimos quase a fundo perdido – coisa que a UE, às voltas com suas próprias quebradeiras, não tem condições de oferecer à quebrada Ucrânia – baixou ainda mais o preço do gás e pôs à disposição um acordo de livre-comércio consigo mesma, mais outros países da região, ex-repúblicas, como a Ucrânia, da antiga URSS. Yanukovitch, que já estava com a caneta na mão e embarcando para Bruxelas, tampou aquela e desceu do avião. Junto aos projetos de novos capitalistas e da classe média do oeste ucraniano (onde o desemprego também é grande entre os jovens), que já sentiam o doce odor dos euros ao alcance da mão, este recuo foi a gota d’água.

Voltando ao cenário político, a gôta d’água acabou se transformando num mar de sangue. É verdade que as manifestações foram reprimidas duramente pela polícia. Mas rapidamente sua linha de frente e também seu espaço foram ocupados por movimentos de extrema-direita, nacionalistas xenófobos, antirrussos, anti-direitos humanos, anti-imigrantes, antissemitas, anti-etc., tradicionais na Ucrânia. São grupos de combate, armados, que fizeram frente a uma polícia que progressivamente foi se tornando caótica e desorganizada. Estes grupos são ligados, mas não necessariamente subordinados, ao Partido Svoboda, de extrema-direita, que tem representação no Parlamento. Na última semana os confrontos chegaram ao paroxismo.

Na frente de negociação assentaram-se à mesa três ministros de Relações da União Europeia (Alemanha, França e Polônia), Yanukovitch, três partidos de oposição e mais um representante da Rússia. Enquanto isto, na praça em frente, o conflito de agudizou, com armas de fogo de parte a parte, e franco-atiradores que provavelmente eram de ambos os lados, embora a polícia tivesse ainda maior poder de fogo. O resultado foi de centenas de feridos e muitas dezenas de mortos; as cifras destes últimos variavam entre cerca de 50 a mais de 70, com pelo menos 11 policiais. A certa altura o noticiário chegou a informar que 70 policiais tinham sido “sequestrados” pelos “manifestantes”.

Coloquei “manifestantes” agora, logo acima, entre aspas, porque houve um movimento constante por parte da mídia do Ocidente de idealizar o que ocorria na praça principal de Kiev, apresentando os acontecimentos como um confronto desproporcional entre a brutal repressão do governo e os “amantes da liberdade”.

Apesar desta cortina de fumaça, logo começaram a vazar as informações de que estes últimos eram na maioria e na verdadeira verdadeiras gangues neo-fascistas que não aceitavam nenhuma negociação nem nada , a não ser a queda de Yanukokovitch e o afastamento da arqui-inimiga Rússia.

Na mesa de negociação chegou-se a um acordo, envolvendo um recuo nas reformas constitucionais promovidas pelo presidente, eleições em dezembro deste ano e a formação de um governo provisório de coalizão. Mas na praça a força policial vinha recuando cada vez mais diante dos “manifestantes”, a tal ponto que estes ampliaram os espaço sob seu controle, chegando inclusive a tomar as entradas do palácio presidencial. Sentindo-se sem condições de segurança, Yanukovitch deixou a capital em direção ao nordeste do país.

Seguiu-se nesta altura um verdadeiro golpe de estado no novo estilo “legalizado” corrente em várias ocasiões neste século XXI (Honduras, Paraguai, Grécia, Itália...): o Parlamento declarou que Yanukovitch “abandonara o cargo” e destituiu-o da presidência, com vários ex-membros de seu partido bandeando-se para o lado da oposição, antecipando as eleições para maio e libertando Tymoschenko, que já declarou-se candidata.

Que acontecerá no futuro? É uma boa pergunta. Antes de conjeturar, um parêntese: e as Forças Armadas da Ucrânia? Trata-se mesmo de um parêntese. Depois da independência em relação à ex-União Soviética, as FFAA abriram mão do arsenal nuclear que estava acantonado em seu território, passando-o à nova Rússia emergente, e diminuiram seu contingente de quase 800 mil para pouco mais de 300 mil homens. Estão entre a cruz e a caldeirinha, realizando manobras tanto com a Rússia quanto com a OTAN, que já se declarou de braços abertos para receber este novo aliado quando ele quiser aderir. O namoro está no ar, e só não se concretizou por causa da vigilância do chá-de-pera Rússia. Até o momento, pelo menos, as FFAA ucranianas parecem estar olhando para o lado – pois nem mesmo a segurança do presidente foram capazes de garantir.

A este caldo complicado junta-se a ameaça do país rachar em dois (pelo menos): a Criméia já manifestou desejos de se separar do restante do país e pedir sua reintegração à Rússia. E no oeste também há manifestações de separatismo e aproximação com a UE, à revelia das outras regiões.

O que vai acontecer vai depender das mensagens que estarão neste momento sendo trocadas entre Moscou, Washington, Bruxelas, Berlim, Paris e em menor grau outras capitais europeias, como Londres e Varsóvia. Qual será o novo arranjo entre os partidos políticos ucranianos? É uma boa pergunta. Tymoschenko vai mesmo recuperar seu antigo espaço na oposição  que liderava, hoje ocupado por Vitali Klitschko, do Partido Democrático Aliança pela Reforma? O Svoboda vai aumentar seu poder de fogo? O que fará Yanukovitch? Os movimentos de trabalhadores, sobretudo no leste, ainda se mantinham a seu favor, embora no momento, com seu enfraquecimento,  isto não tenha significado muito no tabuleiro enxadrístico ucraniano. E o que farão os grupos neofascistas que mantém Kiev sob seu controle?

O que estes farão ainda não se sabe. Mas já se sabe o que estão fazendo. No domingo pela manhã (23), enquanto eu redigia estas notas, corria a notícia – em tom discreto, ao lado da retumbância triunfal dada ao discurso de Yulia Tymoschenko na praça da Independência – de que a Embaixada de Israel na Ucrânia emitira um comunicado pedindo que todos os judeus se abstivessem de sair às ruas de Kiev ou até mesmo deixassem a capital, se pudessem, diante dos ataques contra eles que vem se sucedendo e intensificando nas ruas, com espancamentos, perseguições e outras coisas deste tipo.

Como em velhos mas nada bons tempos, brinca-se com fogo por aqui.

Fonte: Carta Maior

*Publicado originalmente no Blog do Velho Mundo, na Rede Brasil Atual.


quinta-feira, 23 de julho de 2009

Brasil/AVIGDOR: UM FASCISTA ENTRE NÓS

23 julho 2009/Vermelho http://www.vermelho.org.br

por Lejeune Mirhan*

Esteve entre nós brasileiros uma figura asquerosa, nefasta, um fascista e racista, que atende pelo nome de Avigdor Liebermann. Ele é o Chanceler de Israel, na coligação governista mais conservadora e direitista em 61 anos de existência. Pertence a um partido político que defende a subordinação dos palestinos ao estado de Israel, que estes jurem fidelidade e subserviência ao estado judeu! Pois, essa figura, passou pelo Brasil em um giro pela América Latina nos dias 21 e 22 de julho. Sobre essa visita é que quero falar hoje.
Omerttá: o pacto de silêncio da mídia
Todos nós sabemos que na máfia italiana, em especial na Sicilia existe um conceito chamado de omerttá. É um pacto de silêncio feito entre os mafiosos, em especial os que são presos. Não podem nunca abrir a boca, contar nada. Devem se calar para proteger a organização criminosa. O rompimento desse pacto do silêncio implica na morte, na execução sumária ou mesmo, se preso, em mortes na família.
A chegada de Liebermann ao Brasil foi cercada do maior silêncio, do maior sigilo jamais visto com a visita de um chefe de estado ao nosso país. Mas – atentem bem – ele não é chefe de estado. É um ministro de um governo apenas. As informações foram as mais desencontradas possíveis. Parece que – de forma proposital – a grande mídia escondeu ao máximo essa viagem para que manifestações de repúdio não fossem organizadas em nenhuma capital, em especial SP e Brasília.
Um silêncio profundo. Até se ele iria primeiro para Brasília para ser recebido por Lula e viria à Sampa primeiro e depois DF. Passamos – eu e várias outras pessoas – o dia 21 de julho, terça, o dia todo, desde cedo, na Internet, sites de notícias e de pesquisa na rede, procurando algo que nos indicasse a agenda dessa pessoa em nosso país. Nenhuma linha.
A primeira notícia, porém, nos chega ás 16h38, dando conta que Liebermann já tinha chegado a Sampa, sido recebido pelo governador Serra, almoçado na FIESP com empresários e a mesma noticia dava conta que ele havia chegado a Cumbica, Guarulhos, ás 6h30. Ora, dez horas se passaram e nenhum site noticioso deu uma linha sequer da sua agenda, cercada do maior mistério. Não posso conceber que jornalistas não cobriram a sua chegada desde o aeroporto e esperaram dez horas para fazer a primeira nota para a Internet, para os jornais on line.
Isso sem falar no aparato de segurança mobilizado pelo governo brasileiro em seu favor. Se os esquemas da polícia federal mobilizam de dois a quatro agentes para proteger chefes de estado – veja bem, chefes de estado – para Liebermann a PF destacou 15 agentes federais, nove carros da comitiva oficial, sendo que dois blindados. Mas a chefia das operações ficou à cargo do Shabak, Serviço de Inteligência e Segurança de Israel (diferente do Mossad, Serviço Secreto).
Agentes desse órgão de espionagem e repressão de Israel chegaram já desde o domingo – fala-se em pelo menos quatro – que vasculharam todos os locais onde ele cumpriria agenda em SP e DF. Na véspera, segunda, dia 20, chegaram outros quatro. Ou seja, o governo brasileiro e toda a mídia, tinha conhecimento do roteiro, da visita, dos locais de reuniões etc. Mas, sistematicamente, esconderam isso dos brasileiros. E o que é pior: é uma clara violação de nossa soberania, entregar a segurança de um ministro estrangeiro, à agentes policiais de outro país como foi o caso. Uma verdadeira aberração diplomática.
Essa figura, além de asquerosa e perniciosa, anti-semita (pois é, ser contra palestinos, que também são semitas, é ser anti-semita!), vai ficando cada vez mais isolado e criando problemas cada vez maiores ao primeiro Ministro Benjamin Netanyahu, conhecido como Bibi. Ele vem sendo investigado por diversos órgãos na sua própria terra, Israel, por fraude e lavagem de dinheiro.
Possíveis objetivos da visita
Não se sabe ao certo. A grande mídia e a própria entrevista que o chanceler concedeu no dia 22 de julho, após a visita ao presidente Lula, o discurso oficial é de que ele viria para “alertar o Brasil sobre a aproximação com o Irã”, ao qual, como os EUA, Israel considera “terrorista”. E isso vale para os países da América Latina que ele pretende visitar depois do Brasil. Tudo cortina de fumaça.
Isso é dizer uma coisa para esconder outra. Mostrar o Irã como o maior perigo hoje é tática de Israel para não negociar com os palestinos o direito inalienável de seu Estado. Não há um pais no mundo hoje que não apoie essa proposta, da solução de dois estados. Na verdade, Israel veio para esse giro para quebrar o profundo isolamento político e diplomático a que estão submetidos desde a posse de Bibi há alguns meses.
Até os Estados Unidos já ordenaram que cessassem as ampliações e as construções de novas moradias e assentamentos nos territórios ocupados. Há dezenas de resoluções da ONU nesse sentido. Mas, Israel não cumpre nenhuma. E não há força política hoje no mundo que os obrigue a tanto. Nem a retórica e o discurso de Barak Obama. Aliás, se mostrando cada dia mais um governo de retórica do que de ações práticas e concretas.
De meu ponto de vista, há outros objetivos na “missão” do chanceler racista e fascista. Um deles seria contatar líderes da comunidade e empresários, de origens judaicas ou não, par que invistam em Israel, que enviem recursos para lá, pois a economia israelense vem sofrendo muito mais do que a maioria dos países, coma crise econômica.
Por fim, acho também que houve pedidos expressos para que o Brasil se empenhe em aprovar no Senado a proposta de Tratado de Livre Comércio do Mercosul com Israel. Tal tratado tem apoio mais explícito da Argentina e há pedidos do governo desse país para que o Brasil aceite o acordo. Todas as entidades representativas da sociedade brasileira condenam a assinatura desse acordo. Um dos poucos pontos de unanimidade entre estas entidades.
O governo Lula
Não me cabe dizer o que o governo Lula deve fazer ou não fazer com relação ao Estado de Israel. O pouco que sabemos é que o presidente desse país, Shimon Peres, chega ao Brasil em novembro e que Lula visitará Israel até o final do ano. Sabemos bem a força e as pressões que fazem os judeus sionistas em todo o mundo sobre todos os governos. Isso vale para os Estados Unidos como vale para o Brasil. Sabemos até mesmo a força que possuem na mídia em geral, grande imprensa, partidos políticos, parlamento no país. Assim, entendo até como natural que Lula receba essa figura controversa que, apesar de tudo, representa um governo legítimo eleito.
O Estado de Israel comercializa pouco com o Brasil. Não chega a dois bilhões de dólares. Os países árabes, com mais de 300 milhões de habitantes, comercializam cinco vezes mais, mas esse é um movimento que cresce a cada dia. O mais importante nesse processo é que o Brasil deixou claro a sua posição ao chanceler. De que apoia com firmeza a criação do Estado palestino e que não aceitará nenhuma pressão para que alguém de fora venha nos dizer como devemos nos relacionar com o Irã, um país amigo do Brasil, com quem temos boas relações e interesses comerciais.
Agora diversos outros países e chefes de estado e de governo se recusaram a receber o polêmico chanceler. Barak Obama foi um deles, tal qual Nicolas Sarkozi, na França. Claro que não podemos comparar a força desses países com a do nosso país. No caso dos Estados Unidos, quem recebeu Avigdor foi a secretária de Estado, Hilary Clinton. A coletiva que deram juntos foi emblemática. Ela falava uma coisa ele desdizia de outro lado, contestando a posição da chefe da diplomacia estadunidense, que ficou muito irritada com isso. Ao término do evento, Hilary acabou tropeçando e caindo, quebrando o braço. Nos bastidores dizia-se que Liebermann a havia empurrado. Hoje a sua figura é tão controversa que o governo de Netanyahu resolveu ele próprio representar Israel na Assembleia da ONU em setembro, tamanha a rejeição mundial a essa pessoa.
Essa visita de Liebermann ocorre em momento delicado e especial. No mundo e no Oriente Médio. O clima segue tenso na região, pois não há perspectivas de paz. Os palestinos nem negociam mais, pois não há propostas concretas de solução para os seus problemas e suas reivindicações mais do que justas. A colonização esta em franca atividade. Agora mesmo o ex-primeiro Ministro, Ehud Barak, escreveu artigo no The Washington Post (1) defendendo abertamente a continuidade dos assentamentos e afirma que sempre teve apoio dos Estados Unidos para essas atitudes.
Acho que a diplomacia brasileira adotou uma posição extremamente pragmática ao receber persona tão não grata como essa controversa figura, que chegou a defender o uso de armas nucleares contra os palestinos na Faixa de Gaza nos ataques de dezembro e janeiro passado. E isso deve ter sempre limites. Essa atitude pode irritar parceiros muito mais importantes e estratégicos, como os países árabes e ficarmos isolados da imensa comunidade árabe e seus descendentes no Brasil.
Também quero registrar que lamento que apesar do pacto de silêncio da mídia acerca da agenda da visita, nós, participantes de entidades representativas de partidos políticos e de todos os segmentos sociais no Brasil não tenhamos conseguido fazer sequer uma manifestação, ainda que pequena, de protesto contra essa visita.

Nota

(1) “Discussão sobre assentamentos é inútil”, publicada domingo no Estadão do dia 19 de julho, domingo, página A18.

*Lejeune Mirhan, Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Escritor, Arabista e Professor Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa, Membro da International Sociological

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Brasil/ANIVERSÁRIO DE OLGA BENARIO PRESTES


Foto: Olga Benario Prestes

Osvaldo Bertolino

16 fevereiro 2009/Outro Lado da Noticia

Nascida em Munique no dia 12 de fevereiro de 1908, Olga Benario foi deportada do Brasil pela ditadura do Estado Novo, após o levante comunista de 1935.
De origem judaica, ela foi vítima do Holocausto em 1942.
No início dos anos de 1920, os arquivos policiais da República de Weimar já a classificavam como “agitadora comunista”.
Juntamente com Otto Braun, ela se mudou aos 17 anos para Berlim-Neukölln, onde ingressou na Juventude Comunista.
Olga Benario e Otto Braun ocuparam um apartamento na Innstrasse 24 em Neukölln, tradicional bairro proletário berlinense.
Foi nesse endereço que foram presos.
Logo libertada, Olga organizou a ação espetacular que resgatou seu companheiro Otto Braun da prisão de Moabit.
Em abril de 1928, Olga e camaradas de Otto Braun disfarçados de estudantes de direito invadiram a sala de audiências para onde Braun era levado.
Subjugaram os policiais e libertaram o preso.
Após a operação, Olga e Braun fugiram para Moscou.
Com Luís Carlos Prestes, Olga Benario partiu de Moscou para o Rio de Janeiro, em 1935.
Durante a viagem, os dois se apaixonaram e tornaram-se um casal.
Após o levante de 35, Olga e Prestes foram presos e, apesar de protestos internacionais, ela foi entregue, em 1936, grávida de sua filha, à Gestapo.
Em setembro do mesmo ano, Olga foi enviada à Alemanha.
Em 27 de novembro de 1936, nascia Anita Prestes na maternidade da prisão feminina berlinense da Barnimstrasse.
No começo de 1938, Olga foi separada de sua filha e enviada para o campo de concentração feminino de Lichtenburg.
OIga Benario Prestes teve ainda que passar três anos no campo de concentração de Ravensbrück, antes de ser enviada para a câmara de gás em Bernburg, em 1942.
O endereço da Innstrasse 24, em Neukölln, foi sua última morada como cidadã livre na Alemanha.
Em comemoração aos 100 anos da revolucionária e aos seus 24 anos de existência, a Galeria Olga Benario, em Berlim-Neukölln, convidou Anita Prestes, filha de Olga Benario e Luís Carlos Prestes, para inaugurar a “pedra de tropeço” na calçada do último endereço berlinense de sua mãe, Olga Benario Prestes.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Brasil/INTELECTUAIS CRITICAM DESOBEDIÊNCIA DE ISRAEL ÀS LEIS INTERNACIONAIS

Documento conjunto assinado pela Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos defende a "retirada completa das tropas de Israel, a reabertura dos pontos de acesso para a entrada da ajuda humanitária e a pronta retomada do diálogo pacífico". Para o jurista Fábio Konder Comparato, Israel comete crimes contra a humanidade em Gaza. "Nosso programa mínimo tem que ser a constituição de dois estados na Palestina", defende Marilena Chauí.

Tadeu Breda

13 janeiro 2009/Agência Carta Maior http://www.cartamaior.com.br

O permanente desrespeito ao Direito Internacional e ao Direito Internacional Humanitário por Israel em relação aos territórios e à população palestina esteve no centro do debate promovido nesta terça-feira (13) pela Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos no Memorial da América Latina.

A conferência contou com a presença de intelectuais e políticos que expressaram o desejo da sociedade civil brasileira em assistir ao fim imediato dos ataques sobre a Faixa de Gaza. Outro objetivo do encontro foi instar o Itamaraty a posicionar-se de maneira contundente em favor de uma solução definitiva para a disputa. Mais de 900 palestinos já morreram vítimas da ofensiva israelense iniciada no dia 27 de dezembro. O número de feridos gira em torno de 4 mil.

“Julgamos urgente e imperativo o cessar-fogo imediato, a suspensão dos bombardeios e dos ataques por terra a Gaza e a proibição do lançamento de foguetes do Hamas sobre território israelense”, diz o documento conjunto assinado pela Comissão. “Deve ainda haver a retirada completa das tropas de Israel, a reabertura dos pontos de acesso para a entrada da ajuda humanitária e a pronta retomada do diálogo pacífico.”

Nesta segunda-feira (12) o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou por 33 votos a favor e um contra – proferido pelo Canadá – uma resolução em que “condena fortemente” as operações militares israelenses por empreenderem “violações massivas” dos direitos humanos e destruírem “sistematicamente” a infra-estrutura palestina. Coréia do Sul, Japão e mais 11 países europeus se abstiveram da votação.

“Ficamos decepcionados pela resolução não ter sido aprovada por consenso”, diz Sílvio Albuquerque, chefe da divisão de Temas Sociais do Itamaraty. O diplomata demonstra preocupação com a aplicação dos pontos aprovados pelas Nações Unidas, uma vez que Israel desqualificou as novas exigências do Conselho de Direitos Humanos da mesma maneira que fez com as anteriores. Na semana passada o governo israelense desconsiderou o pedido de cessar-fogo enviado pelo Conselho de Segurança.

“O périplo do ministro Celso Amorim pelo Oriente Médio faz parte de um esforço diplomático para a realização de uma convenção pela paz com a participação de países que extrapolem o quarteto Estados Unidos, União Européia, ONU e Rússia”. Albuquerque acredita que as negociações realizadas apenas com as principais potências mundiais até agora não conseguiram promover avanços permanentes na questão palestina.

Impunidade
O jurista Fábio Konder Comparato acredita que Israel comete crimes contra a humanidade em Gaza e que se beneficia do fato de não estar vinculado ao Tribunal Penal Internacional. “Isso não pode ser admitido. Gostaria que o Brasil apresentasse uma proposta ao Tribunal para que os Estados que não fazem parte do estatuto possam ser alvo de um inquérito criminal preliminar que apure suas responsabilidades”, explica o jurista.

Caso o governo israelense siga descumprindo a legislação humanitária e as exigências da ONU, Comparato acredita que a comunidade internacional deve agir da mesma maneira como procedeu com o regime do apartheid na África do Sul. “Uma medida que nos resta é o boicote econômico. E isso diz respeito diretamente ao Brasil, uma vez que Israel é parceiro preferencial do Mercosul.”

O deputado federal Fernando Gabeira, membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, acredita que o governo brasileiro deve ouvir tanto os parlamentares como a sociedade civil no momento de posicionar-se sobre os ataques israelenses. “Como deputado, quero ajudar na evacuação de brasileiros residentes em Gaza, além de estimular a continuidade da ajuda humanitária que o Brasil tem enviado à Palestina e intervir da melhor maneira possível nas longas negociações de paz que virão.”

Gabeira lembra que o mundo deve estar atento ao surgimento de um novo ator político internacional no dia 20 de janeiro: Barack Obama, que assume a presidência dos Estados Unidos dizendo-se “preocupado” com a morte de civis no conflito.

Paulo Sérgio Pinheiro, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, concorda com a avaliação e acredita que “não haverá nenhuma mudança relevante na postura israelense antes da posse de Obama”.

Teocracias
A filósofa Marilena Chauí analisa que o mundo assiste no Oriente Médio à perda do referencial republicano, laico e democrático na política. “Existe uma forte concepção teológica em ambas as partes envolvidas na questão palestina.”

Segundo a professora da USP, quando a política é vista como extensão de uma divindade, não há nada que os homens possam fazer senão matar e morrer em seu nome. “A disputa para saber quem é o verdadeiro eleito por deus para ocupar a Palestina é uma ideia que justifica razões militares, econômicas e sociais”, analisa.

Marilena Chauí cita o pensador judeu Baruch de Espinoza – excomungado em 1656 devido a seus escritos sobre deus – para dizer que a paz não é a ausência de guerra, mas a virtude política por excelência. “Toda paz unilateral é na verdade a imposição da vontade do vencedor sobre o vencido.”

Chauí acredita que a idéia mesma de “território ocupado” e de “refugiados” tem que desaparecer porque não pode haver paz entre ocupante e ocupado. “Nosso programa mínimo tem que ser a constituição de dois estados na Palestina.”

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