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domingo, 25 de setembro de 2016

Vaticano/Papa Francisco: "Jornalismo não pode virar uma arma de destruição"

23 setembro 2016, Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)

O papa Francisco reuniu-se com jornalistas e disse como um bom jornalista tem que fazer seu ofício. Com alguns conselhos, o Pontífice quase criou um pequeno documento de ética para a profissão na reunião com o Conselho Italiano da Ordem dos Jornalistas, que aconteceu na sala Clementina com o presidente do órgão, Enzo Iacopino, e com o responsável pela Secretaria Vaticana de Comunicação, o monsenhor Dario Edoardo Viganò.

Entre as recomendações fundamentais de Mario Bergoglio para quem "faz a informação" estão as de "amar a verdade", "viver com profissionalismo", e "respeitar a dignidade humana". Assim, o jornalismo não será transformado em uma "arma de destruição" de pessoas e de povos e

terça-feira, 30 de julho de 2013

Argentina/MORRE LEÓN FERRARI, O ARTISTA QUE ENFURECEU BERGOGLIO



26 julho 2013, Pátria Latina http://www.patrialatina.com.br (Brasil)

Piero Locatelli/Carta Capital

Maior artista plástico da Argentina, León Ferrari morreu nesta quinta-feira 25, enquanto o papa Francisco, que espalhou ódio contra sua obra, passeava pelo Brasil criticando políticas progressistas, como a descriminalização das drogas.

A opinião de Bergoglio sobre Ferrari destoava daquela dada pelo resto do mundo ao seu conterrâneo. Para o New York Times, ele era um dos cinco maiores artistas vivos do mundo. Do júri da Bienal de Veneza, Ferrari recebeu seu prêmio principal em 2007, honraria única para alguém do seu país. A Arco, uma das principais feiras de arte do mundo, considerou-o o melhor artista internacional vivo em 2010.

Antes de ser o papa Francisco, porém, Bergoglio pediu aos católicos uma “jornada de jejum e orações” contra a obra de Ferrari em 2004. Quando era arcebispo de Buenos Aires, o religioso apelou para que uma retrospectiva de Ferrari no Centro Cultural Recoleta fosse fechada.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Brasil/FRANCISCO EN BRASIL: LA HORA DE LA VERDAD



22 julio 2013, La Jornada http://www.jornada.unam.mx (México)

Hoy, en Río de Janeiro, el papa Francisco inicia un viaje de siete días por su América Latina natal, en lo que constituye su primera gira fuera de Roma desde que fue nombrado pontífice, en marzo pasado, en remplazo de Benedicto XVI, quien abdicó. La circunstancia ha generado grandes expectativas, pues representa la oportunidad perfecta para que Francisco presente de manera integral su perspectiva sobre el futuro de la Iglesia católica. Más concretamente, se espera que el ex arzobispo de Buenos Aires dé a conocer los lineamientos generales de un viraje de obvia necesidad en las actitudes tradicionales del Vaticano ante numerosos temas.

Hasta ahora, el Papa apenas ha esbozado algunos deslindes con respecto a las posturas de Roma ante un mundo profundamente desigual, injusto y corrupto; ante las luchas de emancipación de pueblos, mujeres y minorías, y ante las convicciones de libertad y secularidad

EL OTRO BRASIL Y EL PAPA FRANCISCO




23 Julio 2013, TeleSUR http://www.telesurtv.net (Venezuela)

Por Adriana Sivori (@SivoriteleSUR)

Pocos minutos después de que el Sumo Pontífice se retirara a descansar, parecía que todos íbamos hacer lo mismo. Nadie vio bien cómo inició, pero se sintieron las bombas lacrimógenas, las balas de goma, gritos, siete detenidos, un periodista herido. La policía dispersó a los manifestantes.

En la plaza de Largo de Machado, en Río de Janeiro, los jubilados juegan a las cartas. Hablan o discuten sobre temas cotidianos. La paz, a la que están acostumbrados, se interrumpió de pronto. En su plaza cientos de peregrinos de diferentes partes del mundo hacían filas, cantaban músicas católicas. A la misma vez, otros cientos de jóvenes protestaban, también con cantos, aunque estos hacían referencia al dinero que invirtieron las autoridades de la provincia en la visita papal. Gran parte, dicen, salió del erario público. Para ellos esa plata debería utilizarse en la salud y la educación..

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O VATICANO E A AMÉRICA LATINA



31 março 2013, Pátria Latina http://www.patrialatina.com.br (Brasil)

Por Fernando Damasceno, no sítio da CTB

Nas últimas semanas, não foram poucas as análises que tentaram explicar os motivos que levaram o Vaticano a escolher um papa latino-americano. Um ponto de vista expressado tanto por autores mais à esquerda quanto à direita viram no gesto uma tentativa de combater dois “males” que afetam a América Latina neste começo de século: o crescimento evangélico e a ascensão de líderes políticos progressistas em diferentes países da região.

De ingênua a Igreja Católica, obviamente, não tem nada. No final dos anos 70, a escolha do papa João Paulo 2º já se dera para fortalecer o combate ao comunismo no leste europeu. Para alguns autores, o papel desempenhado pelo Vaticano, somado à política implementada por Margaret Thatcher e Ronald Reagan durante a década de 80, foi fundamental para a derrocada da União Soviética. O cenário atual, no entanto, é bem diferente.

Em meio à atual crise capitalista em todo o planeta, a América Latina é a única região que tem colocado em prática uma fórmula diferente do que pregava a cartilha neoliberal das últimas décadas, a partir de uma firme aposta na integração regional, no fortalecimento da economia interna de cada nação, na consolidação da democracia e na soberania de seus povos.

O avanço da influência das religiões denominadas evangélicas na América Latina não está ligado às mudanças políticas ocorridas no último período (mais especificamente a partir de 1998, data em que Hugo Chávez foi eleito presidente da Venezuela), mas é inegável que as mazelas sociais causadas pelo neoliberalismo na região criaram um terreno fértil para o discurso protestante baseado na Teologia da Prosperidade.

Pesquisas no Brasil e em outros países da região apontam que a escolha do papa Francisco foi muito bem recebida pela maioria da população. Partidos de direita e a mídia conservadora não têm escondido sua satisfação nas últimas semanas, esperançosos em retomar o controle da agenda política do continente. Apesar dessa euforia, a América Latina vive novos tempos, nos quais os religiosos de diferentes crenças ainda mantêm certa influência social e política, mas em dimensão bastante reduzida – a eleição de 2010, quando Dilma foi atacada por setores católicos e evangélicos, é um exemplo concreto dessa limitação.

O Vaticano precisará perceber que, na América Latina, sua influência poderá ter algum nível de recuperação se a Igreja souber como se somar às mudanças que vêm sendo colocadas em prática – o papel dos católicos na Nicarágua é emblemático nesse atual cenário político. Se ela se mantiver caminhando ao lado do que há de mais conservador na região, perderá mais uma vez o bonde da história e em nada contribuirá para combater a desigualdade.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Argentina/FRANCISCO I E A REPRESSÃO: ALGO A ESCONDER?



17 março 20013,  Carta Maior http://www.cartamaior.com.br (Brasil)

Amy Goodman

Jornalista argentino que investigou relações entre ditadura e Igreja revela papel real de Bergoglio. Também prevê: Papa será um “conservador-populista”

Entrevista a Amy Goodman e Juan González, em Democracy Now | Tradução: Gabriela Leite
No início desta semana, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito por seus pares como novo Papa da Igreja Católica. Assumiu o posto sob o título de Francisco. Imediatamente, vieram à tona os laços de cumplicidade mantidos entre a cúpula eclesiástica argentina e a ditadura militar, no poder entre 1976 e 83. Qual teria sido o papel de Bergoglio nestas relações perigosas?

Um dos principais jornalistas investigativos da Argentina, Horacio Verbitsky (hoje no diário “Pagina 12”) escreveu extensivamente sobre a carreira do Cardeal Bergoglio e suas ações no período, em que mais de 30 mil pessoas foram sequestradas e assassinadas. Uma ação judicial de 2005 acusou Jorge Bergoglio de estar conectado aos sequestros de dois padres jesuítas em 1976, Orlando Yorio e Francisco Jalics. A ação foi protocolada após a publicação do livro de Verbitsky, “O Silêncio: De Paulo VI a Bergoglio: As Relações Secretas entre a Igreja e a ESMA”. ESMA é a antiga Escola Superior de Mecânica da Marinha argentina, transformada em um centro de detenção onde prisioneiros eram torturados pela ditadura militar.

Bergoglio negou as acusações. Ele invocou duas vezes seu direito, sob a lei argentina, de recusar-se a depor no processo aberto para apurar os fatos. Quando finalmente o fez, em 2010, os ativistas de direitos humanos caracterizaram suas respostas como evasivas. Na última quarta-feira (13/3), Verbitsky falou a “Democracy Now” sobre o passado do novo Papa, e também sobre seu perfil.

Amy Goodman: Para começar, gostaria que você nos contasse o que acha importante para entendermos o perfil do novo Papa, Francisco.
O principal a se entender sobre Francisco I é que ele é um conservador populista, ao mesmo estilo de João Paulo II. É um homem de posições conservadoras fortes em questões de doutrina, mas com um toque popular. Prega em estações de trem, nas ruas. Vai até os bairros pobres para rezar. Não espera as pessoas irem até a igreja, vai até elas. Mas a mensagem é absolutamente conservadora. Ele opôs-se ao aborto, à lei do casamento homoafetivo. Lançou uma “cruzada contra o mal”, quando o Congresso estava aprovando esta lei, exatamente no mesmo estilo de João Paulo II. Isso é o que considero ser a característica principal do novo papa.

Juan González: Bem, talvez este conservadorismo seja característica comum de muitos cardeais consagrados nos dois últimos papados. Mas no caso de Bergoglio, existe também a questão de seu papel, ou das acusações sobre seu envolvimento na “Guerra Suja”, na Argentina. Você, que fez diversas reportagens investigativas sobre o tema, poderia nos dizer algo a respeito?
É claro. Ele foi acusado por dois padres jesuítas de tê-los denunciado aos militares. Faziam parte de um grupo sob direção de Bergoglio. Ele tornou-se o superior provincial da ordem, na Argentina, quando ainda muito jovem. Foi o provincial jesuíta mais novo da história: aos 36 anos [em 1972]. Durante um período de grande atuação política na Companhia de Jesus, ele estimulou o trabalho social dos jesuítas. Mas quando o golpe militar derrubou o governo de Isabel Perón, ele mantinha contato com os militares e pediu aos jesuítas para interromperem a ação social. Como recusaram-se a fazê-lo, deixou de protegê-los, e permitiu que os militares soubessem que eles não estavam mais sob proteção da Companhia de Jesus. Eles foram sequestrados e o acusam por esta ação. Ele nega. Ele disse a mim que tentou libertá-los, que falou com os ex-ditadores Videla e Massera para libertá-los.

Durante um longo período, ouvi duas versões: a versão dos dois padres sequestrados, que foram soltos depois de seis meses de tortura e cativeiro, e a versão de Bergoglio. Essa foi uma questão controversa e divisiva no movimento de direitos humanos a que pertenço, o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS). O presidente fundador do CELS, Emilio Mignone, afirmou que Bergoglio era cúmplice dos militares. Uma advogada do CELS, Alicia Oliveira, que era amiga de Bergoglio, conta outra parte da história, que Bergoglio os ajudou. Essas são as duas versões.

Mas durante a pesquisa para um dos meus livros, encontrei, no arquivo do ministério de Relações Exteriores da Argentina, documentos que, segundo entendo, encerram o debate e mostram o duplo padrão que orientou Bergoglio. O primeiro documento era uma nota na qual ele pedia ao ministro a renovação do passaporte de um desses jesuítas, sem que tivesse necessidade de voltar à Argentina. O segundo, é uma nota do oficial que recebeu a petição, recomendando a seu superior, o ministro, a recusa da renovação do passaporte. E o terceiro documento é uma nota do mesmo oficial, dizendo que esses padres tinham ligação com a subversão – era assim que os militares caracterizavam qualquer pessoa envolvida com a oposição do governo, política ou armada –; que ele havia sido preso na ESMA; e que essa informação fora dada pelo Padre Jorge Mario Bergoglio, provincial superior da Companhia de Jesus.
Isso significa, no meu entendimento, um duplo padrão. Ele pediu o passaporte para o padre em uma nota formal, com sua assinatura; mas, em privado, disse o oposto, e repetiu as acusações que fizeram os padres ser sequestrados.
Amy Goodman: Você pode explicar o que aconteceu a estes padres, Orlando Yorio e Francisco Jalics?
Ambos, quando soltos, estavam drogados, confusos. Foram transportados de helicóptero para a periferia de Buenos Aires e abandonados. Quando encontrados, dormiam sob efeito de drogas, em péssima condição. Haviam sido interrogados e torturados. Um dos interrogadores aparentava ter conhecimento de questões teológicas, o que levou um dos padres, Orlando Yorio, a pensar que seu próprio provincial, Bergoglio, estivesse envolvido no interrogatório.
O cardeal Bergoglio, que costumava usar o metrô de Buenos Aires. Para Verbitsky, “ele vai aos bairros pobres, mas mensagem é absolutamente conservadora”.

Amy Goodman: Segundo este padre, o próprio Bergoglio teria feito parte de seu interrogatório?
Ele me disse que teve a impressão de que seu próprio provincial, Bergoglio, estava presente durante o interrogatório, no qual um dos interrogadores sabia bastante sobre questões teológicas. Quando solto, ele foi a Roma, onde viveu sete anos, antes de voltar à Argentina. Ao regressar, ligou-se à diocese de Quilmes, na Grande Buenos Aires, cujo bispo era um dos líderes do ramo progressista da igreja argentina, oposto ao de Bergoglio. Então, Orlando Yorio denunciou Bergoglio. Eu recebi seu testemunho quando Bergoglio foi eleito arcebispo de Buenos Aires. E também entrevistei Bergoglio, que negou as acusações, dizendo que defendeu os padres.
Orlando Yorio colocou-me em contato com o outro padre, Francisco Jalics, que vivia na Alemanha. Ele confirmou a história, mas não quis ser mencionado em minha matéria, porque preferia, segundo disse, não lembrar dessa triste parte de sua vida e perdoar. Acrescentou que havia passado muitos anos ressentido com Bergoglio, mas estava disposto a perdoar e esquecer. Quando publiquei meu livro sobre o caso, um jornalista argentino que havia sido discípulo de Jalics falou com ele e pediu que contasse a verdadeira história. Jalics respondeu que não iria nem afirmá-la, nem negá-la.

Juan González: Gostaria de indagar sobre outro padre que se envolveu com a Guerra Suja, Christian von Wernich, um antigo capelão do Departamento de Polícia na Argentina.
Ele foi condenado, e ele está na cadeia, em prisão comum. Mas a igreja argentina, durante o mandato de Bergoglio, não o puniu, em termos canônicos. Ele foi condenado pela justiça humana mas, pelos padrões da igreja, continua a ser um padre. Isso também diz algo sobre Bergoglio e a igreja argentina.

Juan González: Von Wernich estava envolvido em assassinatos, torturas e sequestros. Você poderia detalhar alguns dos crimes pelos quais foi condenado?
Von Wernich era parte ativa nas torturas e assassinatos. Foi condenado não apenas como cúmplice, mas como participante dos crimes. Estava presente durante sessões de tortura. E não há apenas um capelão envolvido, existem alguns outros que estão sob julgamento nesse momento. O capelão Regueiro está sob prisão domiciliar, por ser idoso. O capelão Zitelli, da província de Santa Fé, esteve presente em sessões de tortura. Vários capelões foram parte da Guerra Suja.

Amy Goodman: Gostaria de ler parte de um despacho do Departamento de Estado dos EUA, revelado pelo WikiLeaks, que faz referências ao padre Christian von Wernich, condenado em 2007 por cumplicidade em muitos casos de assassinato, tortura e prisões ilegais na Argentina durante o período militar. O texto observa que a condenação deu-se, cito, “no momento em que alguns observadores consideraram o Cardeal Primaz Católico Romano Bergoglio um líder da oposição ao governo de Kirchner, devido a seus comentários sobre questões sociais; o caso von Wernich poderia também ter efeito, alguns acreditam, de minar a autoridade moral de Igreja (e, por extensão, do Cardeal Bergoglio), ou sua capacidade de comentar questões políticas, sociais ou econômicas”. Horacio, você poderia comentar?
Podemos analisar este documento por partes. Primeiro, o Departamento de Estado considerou Bergoglio o chefe da oposição ao governo Kirchner. Eu concordo com esta avaliação. O Departamento de Estado também fala sobre a condenação do padre von Wernich ter, como possível objetivo, o de minar a posição de Bergoglio. Isso não é verdade, no meu entendimento. A condenação do padre von Wernich é uma consequência de um movimento que começou muito antes dos Kirchner chegarem ao poder e tem sua própria lógica judicial, não se subordina a um calendário político.

Amy Goodman: Gostaria de perguntar sobre o tema do ocultamento de prisioneiros políticos, quando uma delegação de direitos humanos foi à Argentina. Você pode relatar o episódio, as alegações e o eventual papel de Bergoglio?
Não, neste episódio Bergoglio não teve intervenção alguma. Quem agiu foi o cardeal que chefiava a igreja em Buenos Aires. À época, Bergoglio não era arcebispo. Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos veio à Argentina, para investigar alegações de violação de direitos humanos, a marinha retirou 60 prisioneiros da ESMA e os levou a uma vila, usada pelo Cardeal Aramburu nos fins de semana. Este imóvel, na periferia de Buenos Aires, era também o local onde se celebrava, a cada ano, o final dos estudos, no seminário católico. A Comissão Interamericana visitou a ESMA, e não encontrou os prisioneiros que supostamente estariam lá.
Bergoglio não teve intervenção alguma no episódio. Na verdade, ele ajudou-me a investigar o caso. Deu-me a informação precisa sobre onde estavam os documentos atestando que a vila era propriedade do Arcebispado de Buenos Aires.

sábado, 23 de março de 2013

Vaticano/“HABEMUS PAPAM”: FRANCISCO

16 de Março de 2013, Patria Latina http://www.patrialatina.com.br (Brasil)
Frei Beto*

É a primeira vez na história que um papa adota o nome daquele que sonhou que a Igreja desabava e cabia a ele reconstruí-la. O tempo dirá a que veio

O papa Francisco – nome adotado pelo cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio - ao ser eleito novo chefe da Igreja Católica terá pela frente difíceis desafios. O maior deles, imprimir colegialidade ao governo da Igreja e reformar a Cúria Romana.

Para mexer nesse ninho de cobras, terá de remover presidentes de congregações (que, no Vaticano, equivalem a ministérios) e nomear para dirigi-las prelados que, hoje, vivem fora de Roma e são, portanto, virtualmente imunes à influência da “famiglia curiale”, a que, de fato, exerce o poder na Igreja.

Para modificar a estrutura monárquica da Igreja, Francisco terá de repensar o estatuto das nunciaturas, valorizar as conferências episcopais e o sínodo dos bispos e, quem sabe, criar novas instituições, como um colégio de leigos capaz de representar a Igreja como Povo de Deus, e não como sociedade clericalizada pretensamente perfeita.

Não será surpresa se, em breve, o novo papa promover o seu primeiro consistório, elevando ao cardinalato bispos e arcebispos dos cinco continentes (e talvez até padres e leigos, os chamados “cardeais in pectore”, que não são de conhecimento público).

Tal iniciativa deverá incluir o atual arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. Paira certa incongruência no fato de a arquidiocese carioca não ter, há anos, cardeal titular, como há em São Paulo. Sobretudo considerando que o Rio acolherá, em julho próximo, a Jornada Mundial da Juventude, à qual o novo pontífice estará presente.

A imagem da Igreja Católica está manchada, hoje, por escândalos sexuais e falcatruas financeiras. Não se espere do novo papa atitudes ousadas enquanto Bento XVI lhe fizer sombra na área do Vaticano. Mas seria uma irresponsabilidade o papa Francisco não abrir, no interior da Igreja, o debate sobre a moral sexual.

Nesse tema, são muitas as questões a serem aprofundadas, a começar pela seleção dos candidatos ao sacerdócio. Já há uma instrução de Roma aos bispos para que não sejam aceitos jovens notoriamente afeminados – o que me parece uma discriminação incompatível com os valores evangélicos. Equivale a impedir o ingresso na carreira sacerdotal de candidatos heterossexuais dotados de uma masculinidade digna de Don Juan.

O problema não é questão de aparência, e sim de vocação. Se a Igreja pretende ampliar o número de padres terá que, necessariamente, retomar o padrão dos seus primeiros séculos e distinguir vocação ao sacerdócio de vocação ao celibato.

Aqueles que se sentem em condições de se abster de vida sexual (já que apenas aos anjos é dado prescindir da sexualidade) devem abraçar a via monástica, religiosa, ainda que alguns se tornem sacerdotes para o serviço comunitário. Já ao clero diocesano seria facultado escolher a vida matrimonial, como ocorre hoje nas Igrejas ortodoxa e anglicana, e com os pastores de Igrejas protestantes.

O caminho mais curto e mais sábio seria o papa admitir a reinserção de padres casados no ministério sacerdotal. Eles são milhares. No mundo, calcula-se cerca de 100 mil; no Brasil, 5 mil. Muitos gostariam de voltar ao serviço pastoral com direito a administrar sacramentos e celebrar missa.

A medida mais inovadora seria permitir o acesso de mulheres ao sacerdócio. Não há precedente na história da Igreja, exceto em países socialistas onde, clandestinos, bispos despreparados ordenaram mulheres cujo sacerdócio, ao vir à lume, não foi reconhecido por Roma.
Nos evangelhos há mulheres notoriamente apóstolas, embora não figurem na lista canônica dos doze apóstolos. Em Lucas 8, 1, constam os nomes de mulheres pertencentes à comunidade apostólica de Jesus: Maria Madalena, Joana, Susana “e várias outras”.

A samaritana (João 4) foi apóstola, no sentido rigoroso do termo – a primeira pessoa a anunciar Jesus como o Messias. E Maria Madalena, a primeira testemunha da ressurreição de Jesus.

Facultar às mulheres o acesso ao sacerdócio implica modificar um dos pontos mais anacrônicos da ortodoxia católica, que ainda hoje considera a mulher ontologicamente inferior ao homem. É a famosa pergunta em aula de teologia: pode o escravo se tornar padre? Sim, desde que liberto, pois como homem goza da plenitude humana. Já a mulher, ser inferior ao homem, está excluída desse direito, pois não goza da plenitude humana.



Outros desafios se apresentam ao novo papa, como o diálogo inter-religioso. Nos últimos pontificados Roma deu passos significativos para melhorar as relações do catolicismo com o judaísmo, levando o papa a visitar o Muro das Lamentações, em Jerusalém, e isentando os judeus da pecha de assassinos de Jesus.

No entanto, retrocedeu quanto à relação com os muçulmanos. Em sua visita à Universidade de Regensburg, na Alemanha, em 2006, Bento XVI cometeu a infelicidade de citar uma história do século XIV em que o imperador bizantino pede a um persa que lhe mostre "o que Maomé trouxe de novo, e você só encontrará coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar pela espada a fé que pregava". Embora a intenção do papa fosse condenar o uso da violência pela religião – no qual a Igreja da Inquisição foi mestra – a comunidade islâmica, com razão, se sentiu ofendida.

Ao visitar os EUA, em 2008, Bento XVI esteve numa sinagoga de Nova York, sem no entanto dirigir-se a uma mesquita, o que teria demonstrado sua imparcialidade e abertura à diversidade religiosa, além de combater o preconceito estadunidense de que muçulmano rima com terrorista.

Há que aprofundar o diálogo com as religiões do Oriente, como o budismo e as tradições espirituais da Índia. E buscar melhor aproximação com os cultos animistas da África e os ritos indígenas da América Latina.

É chegada a hora de a Igreja Católica admitir a pertinência das razões que provocaram sua ruptura com as Igrejas Ortodoxas e a de Lutero com Roma. E, num gesto ecumênico, buscar a unidade na diversidade, de modo a testemunharem uma única Igreja de Cristo.

Convém reconhecer, como propõe o Concilio Vaticano II, que as sementes do Evangelho vigoram também em denominações religiosas não cristãs, ou seja, fora da Igreja Católica há sim salvação.

O papa Francisco terá que optar entre os três dons do Espírito Santo oferecidos aos discípulos de Jesus: sacerdote, doutor ou profeta. A ser um sacerdote como João Paulo II, teremos uma Igreja voltada a seus próprios interesses como instituição clerical, com leigos tratados como ovelhas subservientes e desconfiança frente aos desafios da pós-modernidade.

A ser um doutor como Bento XVI, o novo pontífice reforçará uma Igreja mais mestra do que mãe, na qual a preservação da doutrina tradicional importará mais do que encarnar a Igreja nos novos tempos em que vivemos, incapaz de ser, como São Paulo, “grego com os gregos e judeu com os judeus”.

Assumindo seu múnus profético, como João XXIII, o papa Francisco se empenhará numa profunda reforma da Igreja, para que nela transpareça a palavra e o testemunho de Jesus, no qual Deus se fez um de nós.

“Habemus papam!” Já sabemos quem: Francisco. É a primeira vez na história que um papa adota o nome daquele que sonhou que a Igreja desabava e cabia a ele reconstruí-la. O tempo dirá a que veio.
*Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. http://www.freibetto.org/> twitter:@freibetto.


quinta-feira, 21 de março de 2013

Argentina/WIKILEAKS: O papa Bergoglio e os Kirchner

14 março 2013, Agência Pública http://www.apublica.org (Brasil)

Por Marcus V F Lacerda

Telegramas da embaixada americana em Buenos Aires mostram a influência do novo papa na política argentina e sua ligação com a oposição

Despachos oriundos da embaixada de Buenos Aires, vazados pelo Wikileaks, revelam que o novo papa da Igreja Católica, o argentino Jorge Bergoglio, era um nome bastante citado pela oposição argentina em conversas com diplomatas americanos.

Embora não haja nenhuma conversa direta entre o líder religioso e os diplomatas dos Estados Unidos, os oito cables que citam o cardeal no período de 2006 a 2010 mostram que a oposição do país vizinho, assim como os americanos, via nele um agente político poderoso contra os Kirchner.

O atual papa Francisco I é citado em um documento do final de outubro de 2006 que trata do revés político sofrido pelo aliado de Néstor Kirchner, então presidente, na província de Missiones, no nordeste do país. Carlos Rovira, tentara um plebiscito para alterar a constituição da província e tornar possível sua própria reeleição por indefinidas vezes. Mas foi batido pela oposição liderada pelo bispo emérito de Puerto Iguazú, Monsignor Piña.

“O Cardeal Jorge Mario Bergoglio, líder da Arquidiocese Católica de Buenos Aires, ofereceu seu apoio pessoal aos esforços de Piña, mas também desencorajou qualquer envolvimento oficial da Igreja em política”, relata o documento. O engajamento de outros religiosos na política é descrito neste mesmo telegrama. “A lista de candidatos da oposição era constituída principalmente de líderes religiosos, incluindo ministros católicos e protestantes, que eram amplamente vistos como líderes morais livres de qualquer bagagem política”, apontaram os diplomatas.

E se Bergoglio descartava o envolvimento “oficial” da Igreja, outros documentos revelam que ele não se mantinha longe da política. Em um documento de maio de 2007, a relação entre a Igreja Católica e o governo Néstor Kirchner é descrita como “tensa”: “Bergoglio recentemente falou de sua preocupação com a concentração de poder de Kirchner e o enfraquecimento das instituições democráticas na Argentina”. Além disso, reportam os documentos, Bergoglio agia fortemente nos bastidores, provocando a irritação dos partidários de Kirchner. “O prefeito de Buenos Aires, Jorge Telerman, e sua parceira de coalizão e candidata a presidência, Elisa Carrio, supostamente encontraram-se com Bergoglio em abril, e a inclusão do líder muçulmano Omar Abud na lista de candidatos ao legislativo de Telerman foi supostamente ideia de Bergoglio”, reportaram os diplomatas. O religioso também era muito próximo de Gabriela Michetti, então ex-vice prefeita de Buenos Aires e atualmente deputada federal da oposição, segundo outro telegrama, de 26 de janeiro de 2010.

A relação desgastada entre a Casa Rosada e a Arquidiocese de Buenos Aires chegou ao rompimento entre as duas instituições. Os laços institucionais entre a presidência argentina e o cardeal só seriam retomados por Cristina Kirchner em 2008, quando ela se encontrou com Bergoglio, segundo telegrama de abril daquele ano. Dias depois, os americanos especulam sobre a possibilidade do Cardeal negar-se a celebrar a missa de 25 de maio – data nacional na Argentina – em decorrência da mudança das festividades de Buenos Aires para Salta.

Um líder manchado pela relação com a ditadura

Outro telegrama que cita Bergoglio, de outubro de 2007, narra a condenação de Christian Von Wernich, padre e ex-capelão da polícia de Buenos Aires durante a ditadura na Argentina. Wernich foi considerado cúmplice em sete assassinatos, 31 casos de tortura e 42 sequestros.

Após o veredito, a arquidiocese de Buenos Aires publicou uma nota em que convocava o sacerdote a se arrepender e pedir perdão em público. “A Arquidiocese disse que a Igreja Católica Argentina estava transtornada pela dor causada pela participação de um dos seus padres nestes crimes graves”, relata o despacho.

Para os americanos, este evento acabaria impactando na imagem de Bergoglio. “Entretando, numa época em que alguns observadores consideram o primaz católico romano Cardeal Bergoglio ser um líder da oposição à administração Kirchner por conta de seus comentários sobre questões sociais”, comenta o documento, “o caso Von Wernich pode ter o efeito, alguns acreditam, de minar a autoridade moral ou capacidade da Igreja (e, por conseguinte, do Cardeal Bergoglio) de comentar questões politicais, sociais ou econômicas”.


VATILEAKS: UMA MÁQUINA DO TEMPO QUE EXPÔS PRÁTICAS ANTIGAS DO VATICANO

12 março 2013, Carta Maior http://www.cartamaior.com.br (Brasil)


À Carta Maior, o jornalista Gianluigi Nuzzi, autor do livro que revelou segredos incômodos do Vaticano, fala sobre a crise moral mais profunda que a igreja já conheceu. “Os vatileaks são como uma máquina do tempo. Estas histórias sempre existiram dentro do Vaticano, mas hoje temos uma fotografia nítida, uma reconstrução documentada”, diz Nuzzi. Por Eduardo Febbro, de Roma.



Eduardo Febbro

Roma – O nome de Gianluigi Nuzzi desperta um desconforto visível nos arredores do Vaticano. Este jornalista investigativo é autor do livro que revelou os assuntos sujos do Vaticano, os “vatileaks”: Sua Santidade, as Cartas Secretas de Bento XVI. Ali estão compiladas todas as cartas, as notas, mensagens e telegramas que fornecem do Vaticano a imagem de um inferno governado por disputas de poder, conspirações, conjurações e, sobretudo, percorrido por uma densa trama onde personagens lutam nas sombras pelo controle do dinheiro, ou seja, do IOR, mais conhecido como o Banco do Vaticano.



Em Roma, Nuzzi tem um apelido: “correio dos monsenhores e cardeais descontentes”. É preciso reconhecer que suas informações são sólidas. Em seu livro precedente, Vaticano SPA, Nuzzi desnudou o lado mais obscuro das finanças vaticanas. Agora foi mais longe. Os Vatileaks que tornou públicos provocaram a crise moral mais profunda que a igreja já conheceu. Seu resultado está na eleição de um novo papa e na renúncia de Bento XVI ao pontificado.



Carta Maior – Se buscarmos uma síntese do que foi revelado pelo caso do vazamento dos documentos privados do papa que você publicou em seu livro “Sua Santità, le carte segrete di Benedetto XVI”, como você a definiria?

Gianluigi Nuzzi – Os vatileaks mostram pela primeira vez a filigrana e a história do Vaticano não já com o enfoque espiritual do trabalho ou da mensagem do pastor que é o papa, mas sim como Estado. O Vaticano é um pequeno Estado e dentro dele há muitos poderes e muito dinheiro, conspirações, denúncias de corrupção. Os vatileaks são como uma máquina do tempo. Estas histórias sempre existiram dentro do Vaticano, mas hoje temos uma fotografia nítida, uma reconstrução documentada. Até agora, a informação que emanava do Vaticano estava sempre muito controlada com um tipo de ideia que encontramos nos Evangelhos. Os Evangelhos observam que “o que se diz ao ouvido se predica em segredo”. Este livro sobre os vatileaks provocou uma ruptura com o passado.



CM – Quando se mergulha em seu livro e no conjunto dos vatileaks fica a sensação de que houve e há uma guerra entre a fé, o poder e o dinheiro.

GN – Sim, pode-se dizer isso. Joseph Ratzinger falava da ambição do poder e do carreirismo, do individualismo. Ratzinger foi um grande pastor que assumiu o desafio de reformar a cúria romana e mudá-la.



CM – Mas, resumindo a questão, a grande ruptura que atravessa todo o escândalo que desembocou na renúncia do papa é o dinheiro e, particularmente, todos os assuntos ligados a OIR, o chamado Banco do Vaticano. O controle dessa instituição deu lugar a uma guerra de alta intensidade entre vários bandos da cúria romana. O Vaticano parece uma espécie de paraíso fiscal oculto.

GN – Esta é uma parte da história. Falta muito para que o IOR, o Banco do Vaticano, responda aos critérios de transparência da União Europeia. Mas, efetivamente, houve um confronto muito forte em torno do controle e dos mecanismos de transparência desse banco. Seus atores foram Gotti Tedeschi, o ex-presidente do Vaticano partidário da transparência, e o Secretário de Estado, Monsenhor Bertone, partidário da opacidade. Tedeschi assumiu como sua a missão que o papa encomendou par limpar as contas do banco, mas foi impedido de levá-la adiante.



CM – Monsenhor Bertone emerge como o grande vilão dessa história. O Secretário de Estado é, segundo suas revelações, um operador que desfaz o que o papa faz. Que setor ele representa?

GN – Bertone é um salesiano e é o primeiro Secretário de Estado que não vem da escola diplomática do Vaticano. Bertone reuniu contra si uma enorme quantidade de críticas e controvérsias. De fato, ele defendeu seus próprios interesses e nada mais. É um homem que colocou seus aliados em todos os postos chave da economia do Vaticano. Muitos o acusam de ser o centro das conspirações e das operações de lavagem de dinheiro.



CM – Você revela questões delicadas como, por exemplo, a existência no Banco do vaticano de contas sem nome e outras sutilezas desse tipo.

GN – Bom, isso não é novo. Na década de 70 e de 80 houve fortes somas de dinheiro da Cosa Mostra que foram, digamos, branqueadas pelo IOR. Basta lembrar o assassinato de Roberto Calvi, em 1982. Calvi era o presidente do Banco Ambrosiano e sabia como circulava o dinheiro mafioso através do Banco do Vaticano.

Nos anos 90, o IOR criou uma espécie de rede de contas em nome de fundações flasas por trás das quais havia empresários, empreiteiros e mafiosos. A máfia se servia do Banco do Vaticano para gerir parte do dinheiro de seus assuntos políticos e industriais. O IOR esteve também implicado na história da maior comissão oculta da história da Itália, o caso do grupo Enimonte. Na verdade, funcionou uma espécie de Banco do Vaticano paralelo que serviu para limpar o dinheiro da corrupção. O problema de hoje está nestas contas que pertencem aos religiosos que emprestam seu nome para que sirvam para outras coisas.



CM – Na sua avaliação, foi a guerra financeira que precipitou a renúncia do papa?

GN – Este foi um dos elementos fundamentais ao qual se somaram outros que precipitaram essa situação. O cansaço, os problemas internos, a situação da igreja no mundo, a não implementação de uma série de decisões. Os elementos são vários e, combinados, conduziram à situação que vivemos hoje. O dinheiro não explica tudo.



Tradução: Marco Aurélio Weissheimer



EN LATINOAMÉRICA DUDAN DE LA AGENDA DEL NUEVO PAPA

18 marzo 2013, Rebelion http://www.rebelion.org (Mexico)

Fuente: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20130316/156641508.html

Vicky Peláez, Ria Novosti


“Que siempre por señales o razones se suelen descubrir las intenciones”

(Alonso de Ercilla y Zúñiga, 1533–1594)



El humo blanco que emanó de la Capilla Sixtina, anunciando la elección del nuevo Papa, en este caso al arzobispo de Buenos Aires, jesuita Jorge Mario Bergoglio quien eligió el nombre de Francisco como expresión de humildad y sencillez que supuestamente caracterizará su pontificado, llenó de júbilo a Latinoamérica.



Sus primeros gestos y palabras revivieron una esperanza entre los creyentes sobre la posibilidad de renovación de la institución. Sin embargo, es demasiado temprano para hacer pronósticos hacia el futuro teniendo en cuenta la trayectoria de la Iglesia católica en casi dos mil años de existencia.



La historia de la Iglesia Católica ha estado ligada implícita y tácitamente con los poderes económicos, políticos y financieros de cada época para así cumplir su función ideológica – espiritual y mantener a la población disciplinada y obediente al orden establecido por la clase dominante de turno. De esta manera se ubicaba hábilmente en cada espacio y tiempo que le tocaba.



En la historia moderna es harto conocido el rol del Papa Pío XII, que lideró el Vaticano de 1939 a 1958, en la lucha contra los países llamados comunistas. Esto explica su colaboración con el régimen nazi durante la Segunda Guerra Mundial y simultáneamente con los aliados, convirtiéndose en el Papa de la Guerra Fría al finalizar la guerra.

En el año 1948 Pío XII anunció que cualquier católico italiano que apoyara a los candidatos comunistas en las elecciones parlamentarias de ese año, sería excomulgado e instó a Azione Cattolica para que apoyara al Partido Demócrata Cristiano creado financiado por los norteamericanos en los primeros años de postguerra.



Su sucesor Juan XXIII llamado “el Papa Bueno” tuvo que contestar a otros desafíos durante su papado que duró de 1958 a 1963. Era la época del despertar del Tercer Mundo cuyo resultado fue el surgimiento de un fuerte movimiento anticolonialista en África y la diseminación de las ideas revolucionarias en América Latina inspiradas por la revolución cubana. Juan XXIII tuvo que asumir el rol de un papa transitorio, tratando de adaptar a la iglesia a las necesidades de ese tiempo. Nombró cardenales africanos y dio su propósito de no perder futuras generaciones de creyentes.



En realidad, lo que sabemos ahora como las Organizaciones No Gubernamentales (ONG) nacieron en su papado cuando los sacerdotes y laicos, que creyeron inocentemente en la sinceridad de la Iglesia, se identificaron con los pobres y entraron a vivir en los barrios populares y los pueblos campesinos formando sindicatos y organizaciones populares.



No sabían que fue una maniobra del Vaticano de desviar el movimiento guerrillero que tomaba la fuerza. Precisamente en este período el capellán auxiliar de la Universidad Nacional de Colombia, Camilo Torres Restrepo unió el fusil y evangelio enrolándose en el movimiento guerrillero colombiano Ejército de Liberación Nacional.



El Papa Pablo VI que dirigió el Vaticano de 1963 a 1978 reabrió el Concilio de Vaticano II pero ya en condiciones del avance de la contrarrevolución y golpes de Estado en América Latina. Los jerarcas de la Iglesia Católica asumieron entonces una posición dubitativa, conciliadora y frecuentemente colaboradora con las dictaduras militares.

Los partidarios de la Teología de la Liberación fueron perseguidos por los gobiernos dictatoriales mientras la Iglesia Católica no se atrevía a pronunciarse en defensa de los derechos humanos.



El siguiente Papa Juan Pablo I tuvo solamente 33 días al cargo del papado pero ya en este corto período su frase, “Dios es padre y más aún la madre”, produjo revuelo en el Vaticano.



Murió misteriosa y repentinamente llegando al poder eclesiástico Juan Pablo II, uno de los más destacados luchadores contra el socialismo en Europa. La elección del polaco Karol Wojtyla como pontífice se debió a la importancia estratégica de la región para los que empezaron a llamarse los globalizadores.



Dio por terminada la Teología de la Liberación y silenció a sus más destacados representantes. Nadie olvida en Latinoamérica que en este tiempo, Juan Pablo II le dio la espalda a Monseñor Arnulfo Romero quien murió baleado durante la misa en El Salvador, junto a él docenas de sacerdotes y monjas que abrazaban la Teología de la Liberación en Centro América fueron muertos y desaparecidos.



El presidente de los Estados Unidos Ronald Reagan coordinó con este papa el plan del desmantelamiento del bloque socialista y suministró dinero necesario para hacerlo. El pontífice hizo alianza con los más ricos y poderosos del planeta y cerró los ojos a la corrupción y a la pedofilia que llegaron a los extremos durante su papado entre 1978 y 2005. Entre otros, todavía está presente la bendición que le dio públicamente al dictador Augusto Pinochet.



Benedicto XVI fue elegido por la jerarquía católica como un pontífice transitorio para que diera continuidad al pontificado de Juan Pablo II y para que tomara medidas necesarias para mantener el “status quo” de la iglesia, postergando la modernización y la apertura, que era el clamor de los creyentes.



No pudo cumplir con esta tarea como tampoco parar las intrigas, malversación de fondos, lavado el dinero, lujuria y el abuso sexual de los clérigos denunciado en Vatileaks.



La crisis de la Iglesia obligó a la curia romana a buscar un nuevo Papa transitorio para dar una imagen de austeridad y humildad en la institución católica.



La designación del cardenal argentino Jorge Bergoglio como el Papa Francisco también es una necesidad del Vaticano, parte del poder mundial globalizado, para solidificar su posición en América Latina que cada año está adquiriendo una mayor importancia estratégica en el planeta.



Y no se trata solamente de sus abundantes recursos naturales y su capacidad de tomar medidas para no contagiarse de la crisis que está sumergiendo en la desesperación a la Unión Europea y a los Estados Unidos, sino de sus procesos de integración y transformaciones sociales y económicas que hacen peligrar el actual Orden Mundial Globalizado establecido por las transnacionales.



La Iglesia católica, igual como la única superpotencia en el mundo, ha descuidado a Latinoamérica donde está creciendo cada vez más la simpatía y el apoyo al proyecto del Socialismo del Siglo XXI como alternativa al neoliberalismo impuesto por los globalizadores iluminados. Ahora llegó el momento para hacer todo lo posible y parar este proceso, les es urgente hacer retornar a las ovejas descarriadas del ALBA, UNASUR y CELAC hacia su antiguo amo que está añorando recuperar el poder sobre su “patio trasero” perdido.



Un Papa jesuita es ideal para esta misión. Durante el pontificado de Juan Pablo II y del Benedicto XVI, el Vaticano fue dominado por el poder financiero del Opus Dei que sin embargo no tuvo el poder político internacional de la Compañía de Jesús.



En los Estados Unidos, varios directores de la CIA y del Departamento de Defensa han sido jesuitas: William Casey (director de la CIA 1981-1987), Robert Gates (CIA 1991-1993, Secretario de Defensa 2006-2011), George Tenet (CIA 1997-2004), Leon Panetta (CIA 2009-2011, Secretario de Defensa 2011-2013), John Brennan- el actual director de la CIA. En realidad esta lista podría ser infinita pero esto pertenece a otro tema.



Lo que nos interesa es hacia donde irá en su gestión el Papa Francisco. Es considerado como un sacerdote serio, austero y humilde. Ha vivido siempre en un modesto departamento, el mismo cocinaba su comida, tomaba el transporte público en Buenos Aires. Lavaba pies a los leprosos y a los enfermos de la SIDA. También hablaba de la necesidad de poner fin a la pobreza, pero al mismo tiempo no escatimó sus esfuerzos para oponerse a los programas sociales progresistas de los presidentes Néstor Kirchner y Cristina Fernández pero al mismo tiempo defendió ardorosamente las reformas neoliberales de Carlos Menem que llevaron al país a un colapso económico.



Retornando al pasado, el archivo fotográfico lo muestra junto con el ex presidente Rafael Videla durante la dictadura militar (1976-1983) dándole comunión al hombre acusado en desaparición de 30,000 personas. El periodista argentino Horacio Verbitsky pone en duda en su libro “La mano izquierda de Dios. La última dictadura (1976-1983)” las actuales declaraciones de Francisco sobre su desconocimiento sobre la represión durante la dictadura militar.



El sacerdote Bergoglio fue acusado inclusive de ser colaboracionista de la represión militar a los sacerdotes Orlando Yorio y Francisco Jalics quienes le imputan haberlos entregado a los militares así como la desaparición de varios catequistas que trabajaban en la villa miseria de Flores en 1976. Debido a esta denuncia el cardenal fue llamado a declarar en la “Causa ESMA” ante el Tribunal Federal № 5. Yorio y Jalics sostienen que Bergoglio les quitó la protección de la Compañía de Jesús al negarse ellos su orden de abandonar el trabajo social. Los dos fueron secuestrados en 1976 al perder el apoyo eclesiástico y fueron torturados en la ESMA durante seis meses. Posteriormente les drogaron y dejaron en un descampado en afueras de Buenos Aires. Los dos lograron sobrevivir su martirio pero nunca perdonaron al provincial de la Compañía de Jesús su traición.



Las Madres de la Plaza Mayo, organización que luchó durante décadas para dar con el paradero de miles de desaparecidos, pidiendo ayuda entre otras muchas a la iglesia, declararon hace unos días que para ellas era difícil aceptar que un “hombre de esa naturaleza este sentado en la silla papal”.



Por supuesto, todos estos antecedentes del Papa Francisco, de modales finos y de actuar duro contra sus adversarios serán ignorados y tapados por los medios globalizados de comunicación pero quedarán sin duda alguna en la conciencia de la curia romana y en la del pontífice que es de acuerdo a Víctor Hugo, “la presencia de Dios en el hombre” y que es a la vez testigo, fiscal y juez.





O JORNAL QUE INCOMODA FARDAS E BATINAS

16 março 2013, Carta Maior.http://www.cartamaior.com.br (Brasil)



Na manhã seguinte ao anúncio de um Papa argentino, o jornal ‘Página 12’ sacudiu Buenos Aires com a manchete: ‘!Dios, Mio!’



Na 6ª feira, dois dias depois, como relata o correspondente de Carta Maior, Eduardo Febbro, direto do Vaticano, o porta-voz da Santa Sé reclamou do que classificaria como ‘acusações caluniosas e difamatórias’ envolvendo o passado do Sumo Pontífice.



Em seguida atribui-as a ‘elementos da esquerda anticlerical’.



Alvo: o ‘Página 12’ .



Com ele, seu diretor, o jornalista Horácio Verbitsky, autor de um livro sobre o as suspeitas que ensombrecem a trajetória do cardeal Jorge Mário Bergoglio, durante a ditadura argentina.



A cúpula da Igreja acerta ao qualificar o ‘Página 12’ como ‘de esquerda’ – algo que ostenta e do qual se orgulha praticando um jornalismo analítico, crítico, ancorado em fatos.



Mas erra esfericamente ao espetá-lo como ‘anticlerical’.



O destaque que o jornal dispensa ao tema dos direitos humanos não se restringe ao caso Bergoglio.



Fundado ao final da ditadura, em maio de 1987, o ‘Página 12’ é reconhecido como o grande ponto de encontro da luta pelo direito à memória na Argentina.



Não foi algo premeditado.



No crepúsculo da ditadura militar, um grupo de jornalistas de esquerda vislumbrou a oportunidade de criar um veículo enxuto, no máximo 12 páginas (daí o nome), mas dotado de densa capacidade analítica.



E, sobretudo, radicalmente comprometido com a redemocratização e com os seus desafios.



A receita das 12 páginas baseava-se num cálculo curioso.



Era o máximo que se conseguiria produzir com qualidade naquele momento; e o suficiente para a sociedade reaprender a refletir sobre ela mesma.



A fidelidade a essa diretriz (hoje o total de páginas cresceu e a edição digital tem mais de 500 mil acessos/dia) levou-o, naturalmente, a investigar os crimes da ditadura.



Seu jornalismo tornou-se um acelerador da transição que os interesses favorecidos pelo regime militar gostariam de maquiar.



Não apenas interesses econômicos.



Lá, como cá, existe um núcleo de poderosas empresas de comunicação, alvo agora da ‘Ley de Medios’, no caso da Argentina, que, por interesse financeiro, identidade ideológica ou simples covardia integrou-se ao aparato repressivo.



Usufruiu e desfruta vantagens dessa intimidade. Até hoje. O quase monopólio das comunicações é uma delas – combatida agora pelo governo de lá.



Naturalmente, a pauta dos direitos humanos dispunha de um espaço acanhado e ambíguo nessa engrenagem.



Não por falta de familiaridade com o assunto.



Mais de uma centena de jornalistas foram presos e muitos desapareceram na ditadura argentina.



A principal fábrica de papel de imprensa do país foi praticamente expropriada de seus donos.



Eles estavam presos, foram torturados. E então a transferência de propriedade se deu.



A sociedade compradora tinha como participantes o próprio governo militar e os principais jornais apoiadores do regime. Entre eles o ‘El Clarín’, de oposição frontal ao governo Cristina, atualmente.



O ‘Página 12’ não se deteve diante das conveniências. E vasculhou esses impérios sombrios.



Fez o equivalente em relação aos direitos humanos em outros países. Não raro, com a mesma mordacidade que incomoda agora o Vaticano.



Quando Pinochet morreu em 2006, a manchete indagava: ‘Que terá feito o inferno para merecer isso?’



A condenação do ditador Videla à prisão perpétua, em 2010, mereceu letras garrafais: ‘Deus existe!’



Foi com essa ironia, debochada, às vezes, mas sempre intransigente em defesa dos direitos humano, que o ‘Página 12’ tornou-se um espaço apropriado pelos familiares dos desaparecidos políticos.



Por solicitação de Estela Carlotto, atual dirigente das Abuelas de Plaza de Mayo, passou a publicar, desde 1988, pequenas atualizações da trajetória familiar de vítimas da ditadura.



Os anúncios sugerem uma espécie de prosseguimento da vida dos que foram precoce e violentamente apartados dela.



Filhos que perderam os pais ainda crianças, mencionam os netos que esses avós jamais viram; avós falam dos bisnetos.



O efeito é tocante. Ao se deparar com a foto de um jovem desaparecido, sabe-se que hoje ele poderia estar brincando com os netinhos, filhos dos filho que agora tem a idade com a qual ele morreu.



Em 2007, o ‘Página 12’ recebeu na Espanha o prêmio da Liberdade de Imprensa, instituído pela Casa da América, junto com a Chancelaria espanhola e o governo da Catalunha.



Motivo: a seriedade na defesa dos direitos humanos e o compromisso com o rigor da informação, requisito da liberdade de expressão.



No momento em que pairam sombras sobre o Vaticano, o que deve fazer essa cepa de jornalismo?



O ‘Página 12’ faz o que, em geral, desagrada aos poderes terrenos e celestiais: investiga, pergunta, rememora.



Ao contrário do que sugere o porta-voz da Santa Sé, não se trata de um cacoete anticlerical.



O assunto extravasa o campo religioso e envolve uma questão de interesse político de toda a sociedade.



Trata-se de uma responsabilidade ecumênica e universal, da qual o ‘Página 12’ não abre mão: o dever de todos, sobretudo das autoridades, de zelar e fazer respeitar os direitos humanos e democráticos dos cidadãos.



Sob quaisquer circunstancias; mas principalmente quando são ameaçados. Como na ditadura dos anos 70/80.



Há dúvidas se o passado do cardeal Mario Jorge Bergoglio nesse campo honra o manto santo que agora envolve Francisco, o desenvolto sucessor do atormentado Bento XVI.



As dúvidas estão marmorizadas em um lusco-fusco de pejo, silêncios e versões contrastantes.



É preciso esclarecer.



Há nomes, testemunhos, relatos, datas e um cenário dantesco: os anos de chumbo vividos pela sociedade argentina, entre 1976 e 1983.



O país do então líder dos jesuítas, Mario Jorge Bergoglio, vivia o inferno na terra, sob a ação genocida de uma ditadura cujos atos confirmam a indiferença aterrorizante dos aparatos clandestinos em relação à vida e à dor.



O que se ouve ainda arrepia.



A mesma sensação inspira o rosto endurecido e gasto dos líderes militares, julgados e condenados. Um a um; em grande parte, graças a pressão inquebrantável das denúncias e investigações ecoadas nas edições do 'Página 12'



Em sete anos, o aparato militar montou e azeitou uma máquina de torturar, matar e eclipsar corpos que operou de forma infatigável.



Nessa moenda 30 mil pessoas foram liquidadas ou desapareceram.



Mais de 4 mil e duzentos corpos por ano.



Filhos de militantes de esquerda foram sequestrados, entregues a famílias simpáticas ao regime.



Muitos permanecem nesse limbo.



No dia em que a ‘fumata bianca’ do Vaticano anunciou o ‘habemus papam’ e em seguida emergiu a figura do cardeal argentino, no balcão do Vaticano, Graciela Yorio esmurrou as paredes de seu apartamento, a 11.200 quilômetros de distancia, em Buenos Aires.



O relato está nos jornais argentinos e também na Folha de São Paulo.



A revolta deve-se a uma certeza guardada há 36 anos na memória dessa sexagenária.



Em maio de 1976, seu irmão, padre Orlando Yorio, foi delatado à ditadura sedenta e recém-instalada.



Juntamente com o sacerdote Francisco Jalics, este vivo, na Alemanha— Yorio ficou cinco meses nas mãos dos militares.



Incomunicáveis, na temível Escola Mecânica da Marinha, adaptada para ser a máquina de moer ossos do regime.



O delator dos dois religiosos teria sido o cardeal Bergoglio -- o Papa, então com cerca de 40 anos, líder conservador dos jesuítas argentinos.



Essa é a convicção de Graciela, baseada no que ouviu do irmão, falecido em 2000, militante da Teologia da Libertação, como Jalics.



Jalics não se pronunciou. Alegando viagem, emitiu uma nota na Alemanha em que se diz em paz e reconciliado com Bergoglio.

A nota compassiva não nega a dor que leva Graciela ainda a esmurrar paredes.



A estupefação tampouco é apenas dela.



Ainda que setores progressistas argentinos optem por uma certa moderação em público, muitas vozes não se calam.



Estela Carlotto, a dirigente das Abuelas de Mayo, em entrevista ao ‘Página 12’ deste sábado, procura manter a objetividade num relato que adiciona mais nuvens às sombras.



Carlotto afirma que o Cardeal Bergoglio nunca fez um gesto de solidariedade para ajudar a luta mundialmente reconhecida das mães e avós de desaparecidos políticos argentinos.



Poderia, mas não facilitou a reunião do grupo com o Papa. Ao contrário.



O primeiro encontro, em 1980, no Brasil, só aconteceu por interferência de religiosos brasileiros.



As abuelas só seriam recebidas em Roma três anos mais tarde; de novo, graças a contatos alheios ao cardeal Bergoglio.



Prossegue Estela Carlotto.



O cardeal teria sido conivente com o sequestro de pelo menos uma criança nascida na prisão.



Procurado por familiares da desaparecida política, Elena de la Quadra, teria aconselhado: ‘Não busquem mais por essa criança que está em boas mãos’.



E desfechou sentença equivalente em relação às demais.



O ‘Jornal Página 12’ tem sido o principal eco desses relatos e dessa revolta, que muitos relativizam e gostariam de esquecer.



O que o jornal faz ao investigar as dúvidas que pairam sobre Francisco é coerente com o 'manual de redação' sedimentado na prática da democracia argentina nesses 25 anos de existência: não sacrificar a memória ao conforto das conveniências.



Pode soar anticlerical a setores da Igreja que gostariam de esquecer o que já se cometeu neste mundo, em nome de Deus.



Mas é um reducionismo improcedente, que se dissolve na trajetória reconhecidamente qualificada do 'Página 12'.



Na Argentina, graças à persistência de vozes como a de seus jornalistas, a memória deixou de ser o espaço da formalidade.



Hoje ela é vista como um pedaço do futuro. Um mirante poderoso para se entender o presente e superar as forças, e a lógica, que esmagaram a sociedade no passado.

Carta Maior orgulha-se de ser parceira do jornalismo criterioso e corajoso de ‘Página 12’ no Brasil.