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terça-feira, 19 de novembro de 2019

Abya Yala*, Chile/Pinochet reinstala-se em La Moneda


12 11 2019, Resistir.info (Portugal)

por Juan Pablo Cárdenas S.*

O fantasma do ex-ditador percorre os corredores de La Moneda. Com grande acerto jornalístico, a televisão alemã ofereceu ao mundo uma reportagem audiovisual em que reproduz a declaração de guerra de Sebastián Piñera ao protesto social, quase nos mesmos termos em que o fez Pinochet décadas atrás. A exposição de ambas as imagens é eloquente e fala de como e actual morador do Palácio Presidencial é filho dilecto do Tirano que com idênticas palavras e recursos criminais manda reprimir o clamor de justiça e equidade.

É compreensível. Sebastián Piñera deve a Pinochet a oportunidade de se ter convertido num multimilionário durante esses fatídicos anos de ditadura, assim como na sua hora final o ex-governante deve ter agradecido ao actual mandatário por ir visitá-lo a Londres e

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Brasil/Stedile encontra Papa Francisco: “LUTAREMOS JUNTOS PARA PARAR OS BANCOS E AS TRANSNACIONAIS”

6 novembro 2014, Revista Forum http://www.revistaforum.com.br (Brasil)

Por Da redação

Por Salvatore Cannavò*
Do jornal Il Fatto Quotidiano, via página do MST

João Pedro Stedile olha a primeira página do jornal Il Fatto Quotidiano em que se vê Maurizio Landini enfrentando a polícia. “Um líder sindical sem gravata? Sério?” A piada sintetiza muito o perfil e a história desse dirigente, já de nível internacional, do movimento “campesino”.

O Movimento dos Sem Terra (MST) é uma organização fundamental do Brasil, imortalizada pelas históricas imagens de Sebastião Salgado e com uma história de 30 anos feita de vitórias e de derrotas, mas sempre no primeiro plano da organização dos agricultores.

Stedile é o seu dirigente mais importante. Ele nunca usou gravata e sempre concebeu o seu papel como porta-voz de uma realidade pobre, muito em busca da sua própria emancipação.

Marxista ligado à história da teologia da libertação, ele foi um dos organizadores do Encontro Mundial de Movimentos Populares que ocorreu no Vaticano

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Brasil∕PLEBISCITO POPULAR PELA REFORMA DO SISTEMA POLÍTICO



1º. setembro 2014, Pátria Latina http://www.patrialatina.com.br (Brasil)

Coluna de Emir Sader

Entre os dias 1º e 7 de setembro será realizado um plebiscito popular por uma Assembleia Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político.

1. Está convocado um plebiscito popular, entre os dias 1 e 7 de setembro, por uma Assembleia Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político.

2. No atual sistema político, as empresas financiam mais de 90% dos recursos das campanhas eleitorais, os eleitos são controlados pelos interesses delas e não dos cidadãos que votaram.

3. Como resultado disso embora sejam apenas 3% da população, os empregadores tem 49% dos representantes na Câmara dos Deputados. Enquanto que os empregados, embora sejam 61% da população, tem apenas 19% dos representantes. Os brancos, sendo 48% da população, tem 92% dos representantes. Os pretos e pardos, sendo 51% da população, tem apenas 8% dos representantes.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Mais de meio milhão de pessoas protestam no Chile

26 de Agosto de 2011/Vermelho http://www.vermelho.org.br

Cerca de 600 mil pessoas saíram às ruas do Chile na quinta-feira (25) no segundo e último dia de greve geral no país, convocada pela Central Unitária de Trabalhadores (CUT). Ao longo da jornada, houve intensos confrontos entre policiais e manifestantes, com dezenas de feridos.

Assim como no primeiro dia de greve, após os panelaços em apoio às reivindicações sindicais e estudantis ocorridas em Santiago e em outras cidades, houve enfrentamentos entre as forças repressivas e os manifestantes.

A rádio Bíobio informou durante a noite de quinta que, em várias zonas periféricas da capital, foram ouvidos tiros, enquanto centenas de trabalhadores tiveram de voltar para casa a pé devido à paralisação do transporte público.

Horas antes desses incidentes, o governo indicou que os protestos desta quinta-feira congregaram 175 mil pessoas em todo o país, mas a CUT cifrou em 600 mil o número de manifestantes que se mobilizaram em nível nacional.

O balanço oficial foi divulgado pelo subsecretário do Interior, Rodrigo Ubilla, no Palácio de La Moneda (sede do governo). Ele destacou que os incidentes deixaram 25 policiais e um civil ferido, mas não detalhou se todas essas vítimas correspondem aos enfrentamentos registrados na capital chilena. Em relação ao número de presos, Ubilla afirmou que a polícia prendeu 210 pessoas em todo o Chile, 140 delas na região metropolitana de Santiago.

A greve de 48 horas foi convocada pela CUT sob uma plataforma de reivindicações que vão desde reformas constitucionais até um aumento de impostos para as empresas, além de um fundo de previdência estatal e mais recursos para saúde e educação.

De manhã, os estudantes chilenos, mobilizados desde maio passado para reivindicar educação pública e gratuita e melhorias no ensino, apoiaram as passeatas organizadas pela CUT. A presença juvenil predominou de forma notória nas marchas, que em Santiago confluíram desde quatro pontos rumo a uma intersecção central da Alameda Bernardo O'Higgins, principal artéria viária da cidade, de forma pacífica e em um ambiente festivo.

As passeatas foram marcadas por situações anedóticas, como a presença de um grupo de prostitutas que carregavam um letreiro com os dizeres "Piñera não é nosso filho".

O ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter, refletindo a posição reacionária do governo direitista de Sebastian Piñera, afirmou nesta quinta-feira à imprensa: "Esta greve não significou nenhum benefício para nosso país, mas muito pelo contrário, causou muita dor e sofrimento para muitos compatriotas, um retrocesso interno na imagem externa de nosso país".

Já o presidente da CUT, Arturo Martínez, afirmou em entrevista coletiva que, como entidade sindical, os trabalhadores têm "a esperança de que o governo, depois deste golpe que recebeu, consiga refletir e se abra ao diálogo para buscar uma saída à atual situação".

Por sua vez, a presidente da Federação de Estudantes do Chile (FECH), Camila Vallejo, que também participou da passeata junto aos estudantes, disse: "se o governo quer diálogo, tem de nos reconhecer como contraparte válida".

O presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Daniel Iliescu, também participa desde a madrugada da última quinta-feira (25) da agenda de paralisação nacional chilena. Durante uma marcha que reuniu cerca de 250 mil pessoas, em Santiago, na manhã desta quinta-feira (25), o representante dos estudantes brasileiros foi convidado por Camila a discursar. Daniel ainda acompanhou a presidente da Federação dos Estudantes Chilenos durante todo o dia de mobilização.

Assembleia Constituinte
Historiadores chilenos respaldaram o chamamento a uma Assembleia Constituinte reiterado pelo povo nas mobilizações, que abriram um momento novo da história do país.

Os acadêmicos explicaram que o que nasceu como um movimento estudantil e de aparência setorial tornou-se um movimento social, de caráter revolucionário antineoliberal.

Destacaram nesse sentido como as ruas e praças ao longo do Chile se transformaram nas artérias onde fluem milhares de cidadãos demandando mudanças substanciais no paradigma econômico, no caráter e papel do Estado e na institucionalidade do país.

Os acadêmicos escreveram um manifesto defendendo a unidade do movimento de protesto e instaram a que este movimento não seja visto como algo simplificado e unicamente conjuntural com relação ao atual governo da direita no Chile. Pedem para que se tenha clareza de que o país vive um momento de um processo histórico em que a vontade popular de mudar o modelo social e político tornou-se algo transcendente.

Assinam o manifesto os historiadores Karen Alfaro, Fabián Almonacid, Pablo Artaza, Mario Garcés, Sergio Grez, Angélica Illanes, Alexis Meza, Ricardo Molina, Julio Pinto, Gabriel Salazar y Verónica Valdivia. (Com agências)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O CARÁTER INOVADOR DA REVOLUÇÃO EM MARCHA NA BOLÍVIA

Vermelho/30 janeiro 2008

A Bolívia constituinte de Evo Morales e Álvaro García Linera concentra o conjunto dos processos de transformação democrática que atravessam e revolucionam a América do Sul, seus movimentos sociais e as experiências dos “novos governos” de Brasil, Argentina, Equador e Venezuela.

Por Antonio Negri e Giuseppe Cocco *

Em meados dos anos 90, quando as lutas históricas em defesa dos "recursos naturais" (gás, minérios etc.) pareciam varridas pela derrota da marcha dos mineiros pela vida, um novo e potente ciclo de movimentos as renovava, generalizando as lutas, para que incluíssem os temas da água e dos serviços públicos. Isso levou ao desastre as políticas neoliberais.

Os novos movimentos, dos quais Evo é a expressão, não só renovaram as lutas a favor do controle público do fogo, do ar, da água e da terra, dando nova força aos tradicionais projetos de "independência" nacional e desenvolvimento, mas foram eles mesmos fato inovador, que mostrou sujeitos de tipo novo, em particular, a multiplicidade das comunidades indígenas.

A reivindicação do controle público sobre recursos naturais se articulou assim com a redefinição das próprias características do Estado em direção a um Estado pós-nacional, fundado na multiplicidade dos sujeitos. Ainda mais interessante, tudo isso visa também uma gestão democrática das empresas públicas: democracia e desenvolvimento devem andar juntos.

Depois da retórica neoliberal sobre a função democrática da propriedade e da empresa, estamos, na Bolívia, na situação de poder experimentar uma revolução democrática da economia.

O processo constituinte é a conseqüência de tudo isso: construção da cidadania dos índios e construção dos direitos pelos movimentos indígenas.

Na Bolívia, diferentemente da Venezuela e de modo mais eficaz, os movimentos são diretamente o motor do processo de transformação do Estado. O caráter inovador da revolução boliviana está no fato de o poder constituinte se inserir no sistema das fontes do direito. Ele não é apenas um momento constitutivo (puramente inicial) da legitimidade constitucional, mas fonte continuamente produtiva do direito. Disso derivam transformações fundamentais propostas pela nova carta constitucional: a descentralização do Estado, as autonomias, o Estado plurinacional, a multiplicidade das instâncias de poder etc.

Por isso, o enfrentamento contra o bloco do biopoder se concentra na Constituinte. Ao mesmo tempo, o enfrentamento tem duas dimensões: de um lado, o retorno do tradicional racismo neocolonial; de outro, o uso "separatista" pelo bloco do biopoder da abertura democrática representada pela proposta das autonomias.

O separatismo reintroduz assim a privatização dos recursos naturais (é exatamente sobre a renda dos hidrocarbonetos que se concentra o conflito). A chantagem separatista se dá, pois, sobre duas questões estratégicas: a relação entre multiplicidade e comum; e a relação entre poder constituinte boliviano e transformação latino-americana mais em geral. A Carta aprovada pela Assembléia Constituinte, a relação que nela se estabelece entre ingresso fiscal e direitos universais de cidadania – em particular com a Renda Dignidade – é resposta clara: a singularidade das autonomias só poderá se desenvolver a partir da construção do comum.

No que diz respeito às questões da transformação continental, a resposta se define dentro do próprio processo sul-americano de integração.

Primeiro, as contradições internas às relações com Brasil, Argentina e Chile se desenvolvem no marco do apoio diplomático dos novos governos desses países ao processo constituinte boliviano e do isolamento continental do separatismo quase fascista dos departamentos da "media-luna" (liderados por Santa Cruz).

Em segundo lugar, outro terreno importante – que, pela novidade, exige cuidado e prudência – é o das decisões de Petrobras e BNDES de multiplicar os investimentos na Bolívia.

O que temos aí é realmente uma bela novidade: algumas multinacionais não estão mais na contramão do processo de libertação. Uma boa notícia, enfim, depois das muitas notícias ruins que as multinacionais latino-americanas sempre nos deram.

Mas é preciso que a novidade continue como surgiu. Esses investimentos proporcionam, por enquanto, as bases materiais para o desenvolvimento do projeto democrático boliviano, dando-lhe os meios que permitem negociar e evitar a guerra civil. O Estado plurinacional é também pós-soberano: mergulhado nas dinâmicas horizontais da interdependência.


* Antonio Negri, filósofo italiano, é professor titular aposentado da Universidade de Pádua (Itália) e professor de filosofia do Colégio Internacional de Paris (França).

* Giuseppe Cocco, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo (30/01/08)

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=31759

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Ecuador/A NOVA CARTA E OS DESAFIOS PARA O GOVERNO DE CORREA

Vermelho/21 janeiro 2008

Em menos de um ano, Rafael Correa impôs-se em quatro eleições. Enquanto toda a direita fazia campanha contra o movimento de Rafael Correa agitando a ameaça comunista, o movimento Aliança País obteve entre 70 e 80 lugares sobre 130, o que lhe dá uma cômoda maioria para a redação e aprovação da nova constituição. Além disso, o MDP e Pachakutik, movimentos políticos de esquerda, deveriam poder constituir uma aliança com o movimento de Rafael Correa com o fim de conseguir reformas de fundo, de modo democrático, na estrutura política do país.

Por Eric Tossaint*

O resultado das eleições para a constituinte é claramente mais favorável para a mudança que na Bolívia, onde o movimento político do presidente Evo Morales e seus aliados não reúne os dois terços dos lugares necessários para a aprovação de uma nova constituição. Isso explica o beco sem saída político atual desse outro país andino.


Por outro lado, nos grandes meios de comunicação, que em sua grande maioria tomaram claramente partido contra Rafael Correa durante a campanha eleitoral, percebe-se uma evolução prudente. A desaprovação por parte do eleitorado dos partidos que os meios tinham apoiado é tal, que estes moderam, pelo menos de forma provisória, as suas críticas ao presidente e ao seu movimento político. É necessário assinalar que os partidos de direita assim como os de centro direita (democratas cristãos — UDC — e sociais democratas — ID —)foram esmagados. O PRIAN, o partido do magnata da banana, Álvaro Noboa, que tinha sido derrotado no ano passado na segunda volta das presidenciais por Rafael Correa só terá uns 5% de lugares na Constituinte. O Partido Social Cristão, pilar da direita, está em queda. O ex presidente Lucio Gutierrez apenas se separou dos perdedores, com uns resultados bastante pobres (o seu partido terá entre 15 e 18 lugares). Estes resultados apanharam desprevenidos os partidos mencionados já que as sondagens davam resultados modestos aos candidatos mantidos por Correa. A evolução prudente dos grandes meios de comunicação é no entanto limitada: quase nunca dão a palavra a Rafael Correa nem aos dirigentes do seu movimento político. O presidente fala pela rádio num programa semanal todos os sábados. Várias rádios privadas e comunitárias retransmitem ao vivo a sua intervenção. Dentro de algumas semana vai reaparecer uma cadeia pública de rádio e televisão...


Segundo Alberto Acosta, o calendário da nova Constituinte é muito apertado. Uma vez reunida, deverá emitir uma proposta de nova Constituição em seis meses. A seguir, o projeto apresentar-se-á em referendo 45 dias mais tarde. No final de 2007 e durante o ano de 2008 haverá uma série de novas eleições: referendo sobre o conteúdo da Constituição e, provavelmente, eleição de um novo Parlamento, e nova eleição presidencial. Na realidade teria a intenção de renunciar antes do termo do seu mandato (que normalmente seria em finais de 2010), para reforçar ainda mais a sua base popular e exercer a sua presidência no marco da nova Constituição. Se este cenário se confirmar, se a democracia equatoriana não for enterrada por um golpe de Estado militar, em fins de 2008 o Equador poderia ter uma nova Constituição democrática, com um novo Parlamento (no qual, ao contrário de hoje, o movimento político de Rafael Correa seria maioria) e um presidente eleito para um novo período. Isso abre caminho a reformas econômicas e sociais que poderiam ser profundas.


O economista Alberto Acosta, um dos ex dirigentes da campanha para a anulação da dívida, presidirá provavelmente à nova Assembléia Constituinte. Proporá a esta trabalhar em comissões temáticas e Plenários. Quanto à dívida pública, a sua intenção é associar a Comissão de Auditoria Integral de Crédito (CAIC) nos trabalhos da comissão econômica da Constituinte. A nova constituição poderia conter uma definição clara das condições nas quais o Estado e os poderes públicos locais possam contrair dívidas públicas, prescrevendo as dívidas odiosas e fixando um limite máximo no reembolso da dívida. Por exemplo, a constituição poderia prever que a parte do orçamento do Estado dedicada ao reembolso da dívida nunca possa superar a soma dos gastos em educação e saúde.


Alguns dias depois da vitória eleitoral de 30 de Setembro de 2007, o Governo de Rafael Correa anunciou que no futuro as empresas petrolíferas que operam no país deveriam pagar ao Estado uma proporção maior dos seus lucros. Quantia que traria ao Estado uma entrada suplementar de um pouco mais de mil milhões de dólares, que poderá ser utilizada no aumento dos gastos sociais.


Esta medida foi muito apreciada pela população. Além disso, o Governo de Rafael Correa quer conseguir que os bancos baixem os tipos de juros, que são atualmente muito elevados. Há poucos meses, o Parlamento que tem uma maioria de direita recusou o projeto de lei para reduzir os tipos de lucro. A popularidade do Parlamento caiu de chofre. As sondagens realizadas depois das eleições de 30 de Setembro indicam que a maioria da população é favorável à demissão do atual Parlamento com o fim de deixar o lugar à Constituinte.


O povo espera muito de Rafael Correa. O seu discurso radical convenceu a maioria dos equatorianos que é necessária e possível uma mudança fundamental, na condição de dar uma clara maioria ao presidente. O presidente Rafael Correa quer reduzir radicalmente a parte do orçamento destinada ao reembolso da dívida pública. Simultaneamente a sua intenção é aumentar as despesas sociais. Chegará até à suspensão do pagamento de certas dívidas em 2008? Decidirá repudiar as numerosas dívidas odiosas e ilegítimas? Não há a certeza por várias razões. A principal, é a seguinte: as importantes receitas petrolíferas do Estado permitiriam ao governo continuar a pagar a dívida, enquanto, ao mesmo tempo, se aumentam progressivamente os gastos sociais. Para levar a cabo esta política, como já dissemos, aumentam-se as deduções aos lucros das empresas petrolíferas e reestruturam-se as dívidas antigas com novos empréstimos obtidos no mercado interno e externo. Esta política não é prudente já que não leva em conta os perigos que ameaçam o Equador e a maioria dos países em desenvolvimento: um possível aumento da taxa de juros (uma parte importante dos novos empréstimos contraem-se com tipos de juros variáveis) e um abaixamento no preço do petróleo e outras matérias primas. Por outro lado, é muito provável que o CAIC identifique com toda a clareza as dívidas odiosas e ilegítimas. O Estado equatoriano continuará a reembolsá-las sob o pretexto de evitar tensões internacionais com os credores e tensões internas com os grandes grupos privados que controlam uma boa parte da economia do país? Este debate fundamental terá lugar em 2008. Rafael Correa tomará o caminho para uma solução soberana e justa à dívida ilegítima? É isso que esperamos mas não se pode garantir.


No âmbito da integração regional latino-americana, a criação do Banco do Sul que se tinha anunciado para Junho de 2007 atrasou-se devido às reticências do Brasil. Com este objetivo realizou-se no Rio de Janeiro uma reunião ministerial importante nos dias 9 e 10 de Outubro de 2007. Foram superados alguns obstáculos. Apesar da vontade do Brasil e da Argentina de rever a fórmula — um país um voto (ratificada em Maio-Junho de 2007) – que tinha sido proposta pelo Equador, parece que a reunião concluiu a favor deste princípio democrático.


O caminho das reformas sociais está semeado de obstáculos. Vários presidentes de esquerda foram eleitos na América Latina nestes últimos anos, que tentaram romper com a política neo-liberal dos seus antecessores mas muito poucos cumpriram as suas promessas. Esperemos que Rafael Correa não duvide e realize uma política democrática de justiça social. Na realidade, até agora a sua estratégia permitiu aumentar e consolidar o apoio popular a favor da mudança. Permitiu também criar as condições de uma mudança democrática das instituições. Reforçou a independência do país perante os Estados Unidos consolidando ao mesmo tempo um planejamento de integração latino-americano. Devemos considerar que foi dado um grande passo. (Fonte: Diário.info)


* Economista belga

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=31300

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Equador/Constituinte discutirá continuidade do Congresso

Vermelho/31 outubro 2007

A continuidade do Congresso no Equador, questionado pelo presidente Rafael Correa, será um dos primeiros temas que serão discutidos pela Assembléia Constituinte, segundo declarou nesta quarta-feira (31) Alberto Acosta, do partido da situação, maioria na Assembléia.
Acosta disse que o primeiro dia da Assembléia discutirá o alcance e os limites dos plenos poderes que o organismo terá, como ficou estabelecido no estatuto aprovado por cerca de 80% da população em uma consulta popular realizada em abril deste ano.

Acosta disse que "o poder constituinte está sobre o poder constituído", referindo-se ao Congresso do país. "A partir desse ponto definimos com absoluta clareza que acreditamos que não é conveniente que o Congresso Nacional continue funcionando enquanto está ativa a Assembléia Constituinte", disse ele.

O membro da Assembléia disse ainda que não é ela, mas sim o povo o portador dos "plenos poderes" e rechaçou a possibilidade de que o Tribunal Constitucional coloque limites para o organismo que reformará a Constituição.

O presidente do Equador insistiu que a Assembléia deve dissolver o Congresso e que em seu lugar deve operar uma comissão legislativa, até que a Assembléia termine seus trabalhos.

Acosta disse que a comissão deve assumir "as tarefas de legislar e fiscalizar", enquanto os constituintes estariam "dedicados à elaboração de uma nova Constituição". (Fonte: Ansa Latina)


http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=27622

terça-feira, 2 de outubro de 2007

El País: Equatorianos votam por um Estado forte

Vermelho/2 outubro 2007-10-02

A vitória do movimento do presidente Rafael Correa foi esmagadora. Na última hora de segunda-feira (1º/10), o partido governante havia conseguido 72 dos 130 lugares da Assembléia Constituinte, com 88% dos votos apurados na contagem eletronica da Participación Ciudadana. Ao mesmo tempo, os primeiros resultados oficiais confirmavam a tendência do governo à maioria absoluta.

Os equatorianos apoiaram a proposta de criar um Estado forte através de uma profunda reforma política e econômica, de acordo com os princípios do socialismo do século 21 que Correa defende: solidariedade, eqüidade e ética. A pedra fundamental do projeto é a nova Carta Magna que a Assembléia eleita domingo terá de redigir em um prazo máximo de oito meses.


Em um muro próximo ao Palácio de Carondelet, sede do Executivo equatoriano, podia-se ler há alguns dias: "Está chegando o 'correaço' final". Na segunda-feira haviam acrescentado outra frase: "Já chegou". Correa não pode estar mais exultante. O controle da Assembléia que redigirá uma nova Constituição era o que lhe faltava para dar o pontapé final em seu projeto de "refundar" o Equador. Em um ano, desde que ganhou a presidência em novembro de 2006, Correa conseguiu o apoio popular para fazer uma nova lei fundamental e agora não só a tem, como também a fará na sua medida. Quer um Estado forte e com uma grande presença na economia. "Ganhamos a mãe de todas as batalhas", afirmou o presidente.


Assim que soube da vitória, Correa mostrou-se disposto a dialogar com outras forças políticas, com os empresários e com todos os setores que pretende atrair. Mas nega-se a conversar com os outros dois partidos mais votados no domingo: o Prian, do magnata das bananas e ex-candidato presidencial Álvaro Noboa, e a Sociedade Patriótica, do ex-presidente golpista e destituído Lucio Gutiérrez. "Só vou dialogar com aqueles interessados no bem-estar da população, no progresso da pátria. Para que vou falar com Gutiérrez, alguém que só pensa em defender seus interesses? Com Noboa, para que, se ele se diz um grande empresário e não paga impostos ao Estado porque diz que suas empresas não obtêm lucros suficientes?", disse Correa.


Tanto nas comemorações de domingo como na segunda-feira o presidente insistiu na idéia de afastar dois dos maiores temores de muitos equatorianos, inclusive daqueles que votaram em seu projeto: a influência do chavismo venezuelano e seu caráter autoritário. "Chega de tentar satanizar [este governo], chega de tentar imobilizar o país por meio do medo. Aqui ninguém quer projetos totalitários, muito menos projetos estrangeiros", declarou Correa em seu discurso de vitória.


Além disso, nesta segunda-feira, diante da mídia estrangeira, ele se estendeu sobre como será sua política em relação às empresas estrangeiras, especialmente as do setor energético. Disse que "absolutamente" não é contra o investimento estrangeiro em seu país. "A única condição é que seja respeitada a Constituição vigente, que diz que os recursos do subsolo são do Estado, entre eles o petróleo e as minas. Aqui não é preciso nacionalizar como na Bolívia; aqui os recursos já são públicos."


"Os contratos de petróleo estão sendo revisados, alguns são muito prejudiciais para o Estado", explicou. "Mas a negociação é amigável. Já estamos conversando com quatro petroleiras, não lembro se entre elas está a Repsol. Elas sabem perfeitamente os ganhos extraordinários que estão obtendo com um recurso que é do Estado", acrescentou. E, falando concretamente das empresas espanholas, Correa disse que são "das boas".


"Com a Telefónica será preciso negociar as concessões de telefonia celular. ... Quero lhes dizer sinceramente que a Movistar foi muito mais cumpridora do que a outra grande transnacional que temos aqui. A Movistar tem um terço de um mercado dominado pela companhia Porta e paga três vezes mais impostos", explicou.


Correa salientou que seu governo é "pragmático", que há "dez economistas no gabinete" que sabem o que fazem. "O investimento estrangeiro é bem-vindo, com todo o entusiasmo. Aquele que cumpre com seus trabalhadores, com seus clientes, com o Estado, pagando impostos, com o meio ambiente. Mas o investimento estrangeiro que ainda nos considera uma colônia, que infringe os princípios legais, não é bem-vindo e terá uma resposta clara de um país soberano e de um governo soberano", enfatizou. Correa também disse que abrirá o setor bancário ao investimento estrangeiro. "Há setores que precisam de proteção, como o agrícola, e outros que se devem abrir à concorrência, como os bancos", disse. (Fonte: El País)

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=26046