4 abril 2012, Carta Maior http://www.cartamaior.com.br
(Brasil)
O banco
de investimento estadunidense Goldman Sachs, protagonista do desastre
financeiro global de 2008, começou a operar neste ano a partir de uma base no
Chile. O que os banqueiros desejam por lá? A resposta não é complicada:
aproveitar este paraíso da desregulamentação financeira latino-americano.
Paul Walder – Punto Final
No final
de fevereiro, o banco de investimento estadunidense Goldman Sachs começou suas
operações no Chile com um capital de modestos 289 milhões de pesos. A notícia,
embora a boa recepção que a imprensa financeira local concedeu, refrescou a
memória de não poucos leitores: o Goldman Sachs não só é um dos maiores bancos
de investimento do mundo, mas também foi um dos causadores do desastre
financeiro dos Estados Unidos em 2008. O estado atual da economia mundial não é
alheio às corruptas e obscuras operações desta instituição.
O Goldman Sachs já realizava atividades no Chile através da sua filial em
Buenos Aires. Mas é compreensível o passo dado ao transpor a cordilheira. Sob a
tramoia dos negócios globalizados no marco do neoliberalismo ultrarradical, o
Chile, embora seja um mercado pequeno, leva a dianteira na América Latina. As
declarações do gerente da empresa para suas operações na região, reproduzidas
pela imprensa especializada, corroboram esta afirmação: “A banca de
investimento pode se desempenhar muito bem no Chile, assim como a colocação de
ações e gestão de riqueza privada. Mas o mais interessante é que nos últimos
anos vimos o capital chileno desempenhar um papel muito mais proeminente,
enquanto a financiamento, na América Latina”.
Vale lembrar algo deste protagonista do desastre financeiro de 2008. Como banco
de investimento, tem um verdadeiro prontuário e não só na crise das subprimes,
mas também como detonador da crise grega, que neste momento tem boa parte da
Europa pendendo por um fio. Um documentário titulado Inside Job (Trabalho
Confidencial, completo no Youtube) desenreda a ensebada trama entre o poder
político e financeiro: como responsáveis pelo Departamento do Tesouro dos
Estados Unidos estavam altos executivos do Goldman Sachs, que iam e vinham dos
salões da Casa Branca aos escritórios financeiros. Assim vem se dirigindo a
economia mundial durante as últimas décadas. O documentário narra que Ronald
Reagan nomeou como secretário do Tesouro Donald Regam, ex-diretor geral do
Merrill Lynch, apenas poucos anos depois, durante a administração de Bill
Clinton, nesse mesmo cargo foi sucedido por Robert Rubin, que vinha do Goldman
Sachs. Após sua passagem pelo governo, voltou ao setor financeiro, desta vez ao
Citigroup. Uma verdadeira porta giratória do ouro e dos milhões.
O caso mais recente, e certamente o mais escandaloso, é o de Henry Paulson,
ex-presidente do Goldman Sachs e mais tarde secretário do Tesouro de Bush. Em
meio à catástrofe e durante a administração de Obama, o Congresso dos Estados
Unidos vazou um relatório sobre os responsáveis da crise. Entre bancos e outras
agências, o Goldman Sachs aparece com papel protagônico. Esta empresa, diz,
“especialmente sob a presidência de Henry Paulson (pouco antes de ser nomeado
por Bush) aliviou os efeitos da queda do mercado das subprimes” potencializando
a criação e difusão de produtos tóxicos, com a cumplicidade das agências de
qualificação. Como resultado destas operações, a economia estadunidense
expressa hoje todo o contraste neoliberal, com um aumento histórico da pobreza
e concentração da riqueza.
Em suma, no dia 16 de abril de 2010 a Comissão do Mercado de Valores dos
Estados Unidos acusou a Goldman Sachs de fraude pelas hipotecas subprime.
Trata-se de uma informação pública. Até a Wikipédia corrobora: “A Comissão
considera que estão no centro da fraude Fabrice Tourre, vice-presidente do
Goldman, e aponta também Paulson, gestor principal do fundo de investimento
livre (hedge fund) Paulson & Co. A Goldman Sachs é considerada um dos
atores principais na ocultação do déficit da dívida grega”.
Que interesse pode ter este banco no Chile? Muito. Bem sabemos que este é o
paraíso da desregulamentação financeira, o que significa que os fluxos de
capitais entram e saem com muita intimidade. Mas não só é a utopia do mercado
transformada em realidade, também é hoje um paraíso para videntes e
especuladores financeiros, o combustível atual do forte crescimento no consumo
e a economia, o que deveria, como em bom ano eleitoral, prolongar-se pelo menos
até novembro.
A máquina financeira está que arde, fenômeno celebrado pelo empresariado, o
consumidor e, como não, pelo governo. Um processo febril que pouco tem que ver
com o cauteloso e também angustioso passo do capitalismo mundial, em franca
deterioração. Existem fluxos especulativos que ingressam para fazer seus
negócios na Bolsa, na construção, no mercado cambiário em um processo complexo
e arriscado - uma clássica bolha especulativa - que tem já as características
de um cassino financeiro, o cenário perfeito para o Goldman Sachs.
*Publicado em “Punto Final”, edição Nº 777, 22 de março, 2013.
**Tradução: Liborio Júnior