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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Abya Yala, Patria Grande/POLÍTICAS COMO EL SUBSIDIO FAMILIAR SON RECONOCIDAS EN EL COMBATE A LA DESIGUALDAD EN LOS PAÍSES DEL MERCOSUR

15 octubre 2014, ADITAL, Agencia de Información Fray Tito para América Latina http://www.adital.com.br (Brasil)

Natália Fonteles, Adital

El Instituto Social del Mercosur (ISM) está divulgando el primer documento con los resultados del Sistema de Información sobre Políticas e Indicadores del Mercosur (Simpis). Señala los principales programas sociales que tuvieron avances en el combate a la pobreza en los países vinculados al bloque sudamericano: Brasil, Argentina, Paraguay, Venezuela y Uruguay.

La difusión de los resultados se muestra como importante en el fortalecimiento de políticas públicas sociales que estimulan un modelo de desarrollo democrático, participativo e inclusivo de la población en los países del Mercosur. El documento muestra que políticas públicas de asistencia social, seguridad alimentaria y nutricional, creadas por los gobiernos de los países destacados, han sido cruciales para romper el ciclo de pobreza extrema y permitir el avance en los desarrollos social y económico de la población. Bajos ingresos, falta de viviendas, carencia de alimentación y educación de calidad están entre las principales situaciones que configuran la necesidad de la implantación de los programas sociales.

En el caso de Brasil, por ejemplo, las políticas públicas sociales han sido importantes para la población más carenciada, pues a través de la implantación de programas como el Subsidio Familiar (Bolsa Família), creado en 2003, fue posible sacar a más de 22 millones de personas de la pobreza extrema en el país, según datos

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Brasil/Guaranis Kaiowás realizam marcha contra extermínio de povos indígenas


29 novembro 2011/Agência Pulsar http://www.brasil.agenciapulsar.org

Em resposta ao ataque sofrido, a comunidade Kaiowá Guarani do acampamento Tekoha Guaiviry, no Mato Grosso do Sul, realiza nesta sexta-feira (2) um protesto contra o extermínio dos povos Indígenas no estado.

A comunidade indígena foi alvo de ataque de pistoleiros no último dia 18, que culminou no assassinato do cacique Nisío Gomes. Ontem (28) o acampamento Pyelito Kue, também no Mato Grosso do Sul, foi alvo de invasão e novas ameaças.

Para acompanhar a situação, o governo federal constituiu um Comitê Gestor formado por alguns ministérios e a Secretária Geral da Presidência da República. Porém, o secretário executivo do Conselho Indígena Missionário (Cimi) Cléber Buzatto afirma que a ação “ainda é tímida e insuficiente para responder as demandas e problemas que os Guaranis Kaiowás enfrentam”.

Para ele, seriam necessárias pelos menos mais duas bases para responder às demandas da comunidade indígena, que enfrenta um forte aparato bélico dos fazendeiros da região.

Cléber considera necessário a instalação de uma delegacia especializada para tratar de questões indígenas e impedir a perpetuação da impunidade. Ele cita a existência de inquéritos sobre assassinatos de indígenas que estão com a polícia federal desde de 2007.

Outra questão importante na opinião de Cléber é a atuação do governo no sentido de resolver os conflitos fundiários na região. O secretário executivo do Cimi afirma que é necessário avançar com os procedimentos de demarcação das terras indígenas.

De acordo com documento recentemente publicado pelo Cimi, 98% da população originária do estado ocupam efetivamente menos de 75 mil hectares, ou seja, 0,2% do território estadual. Em conseqüência, mais de 1200 famílias vivem em condições degradantes à beira de rodovias ou sitiadas em fazendas.

Apesar das ameaças e da violência que têm sofrido, os indígenas Guaranis Kaiowás estão determinados a permanecer no território ancestral. O protesto vai ocorrer às 9h, na Assembleia Legislativa de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. (pulsar)

Audios disponíveis:

Cléber Buzatto, secretário executivo do Cimi, diz que atuação do governo na região é insuficiente.
28 seg. (441 Kb)
arquivo mp3

Cléber Buzatto, fala sobre a necessidade de demarcação das terras indígenas na região do Mato Grosso do Sul.
56 seg. (573 KB)
arquivo mp3


Pulsar Brasil - Rua Alvaro Alvim, 37/1322, Centro, Rio de Janeiro
CEP.: 20040-009 Tel.: +55 21 2532-9942 | brasil@agenciapulsar

terça-feira, 10 de junho de 2008

Brasil/ATY GUASU DE JAGUAPIRÉ (MS) : TERRA JÁ!

9 junho 2008/Conselho Indigenista Missionário (CIMI) http://www.cimi.org.br/

Noite estrelada. Corações apreensivos. Os Kaiowá Guarani que foram chegando para o isolado e calmo espaço da Terra Indígena Jaguapiré, na região de fronteira do Brasil com o Paraguai, vinham com uma certeza: fazer avançar a luta pela terra. O tempo já se estendeu demais. Minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, séculos... Não dá mais para esperar. Só a grande união das nações do Grande Povo Guarani poderá decidir esse direito a suas terras tradicionais, os tekoha, dentro do território histórico desse povo, que se encontra em cinco paises da América do Sul.

As dificuldades são enormes. Os inimigos muitos e fortes. As estratégias contrárias aos direitos Guarani à terra, paz e vida digna, são seculares. Dividir, promover conflitos e disputas internas, criminalizar as lutas e lideranças, discriminar e desfazer os valores e a cultura do diferente. Essa tem sido a fórmula colonial da invasão que perdura até hoje.

Por outro lado, a secular sabedoria Guarani e suas estratégias de enfrentamento de toda sorte de adversidades provocadas pela invasão e saque de seus territórios tradicionais é admirável, profunda e tem se revelado eficaz, na medida em que resultou na sobrevivência física e cultural desse povo que hoje é sem dúvida o maior símbolo de que é possível e necessário mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais profundas nessa América Abya Yala.

Porém as nuvens não se dissipam como por encanto, com a força dos Nhanderu (líderes religiosos) e o espírito dos guerreiros. É preciso dar forma e força a essa luta. Por isso fizeram também documento para o presidente da Funai solicitando especial empenho na viabilização com urgência da regularização das terras, garantindo efetivas condições para que isso possa ocorrer.

No decorrer da Aty Guasu, além de denúncias das violências que continuam acontecendo contra várias comunidades, como no caso de Kurussu Ambá e no caso da absurda cerca elétrica colocada pela usina de álcool em construção próxima a Jatawari (Lima Campo), também foi informado da chegada de um novo Procurador da República em Dourados e providencias com relação à Administração Regional da Funai do Cone Sul.

No final foram eleitos os representes Kaiowá Guarani para a Comissão Nacional de Política Indigenista, ficando como titular Anastácio Peralta e suplente Roberto Carlos. No ritual de conclusão e despedida foram entregues os “koatiá” (documentos) à Margarida Nicoletti, administradora regional da Funai em Dourados.

A Assembléia foi considerada mais um marco importante na luta pela Terra. Ficou articulada a Aty Guasu do batismo dos Grupos de Trabalho de identificação das terras ainda para o final deste mês.

Da tranqüilidade de Jaguapiré ecoou mais uma vez o grito Guarani Kaiowá por vida, terra, paz e justiça.

Isso ficou expresso no documento final da Aty Guasu:

ATY GUASU DE JAGUAPIRÉ

Com nossa união e sabedoria vamos vencer!

Nós Kaiowá Guarani do Sul do Mato Grosso do Sul, mais uma vez estamos reunidos em Assembléia debatendo os problemas enfrentados pelo nosso povo, fizemos nossos rituais e rezas e definimos nosso compromisso e disposição de lutar com todas as forças pelos nossos direitos, especialmente a recuperação de nossas terras.

Quando já vai fazer 20 anos da aprovação da Constituição, tendo sido nela definido claramente nossos direitos e estabelecido um prazo de cinco anos para demarcar todas as terras indígenas, e vendo que a quase totalidade de nossos territórios Kaiowá Guarani ainda precisam ser regularizados e garantidos, manifestamos nossa grande preocupação pelo não cumprimento da lei que “continua sendo assassinada”, por aqueles mesmos que a fizeram. É preciso cumprir as leis do país e também as leis internacionais que o Brasil assinou, como a Convenção 169 da OIT e a Declaração dos Direitos Indígenas da ONU.

Como todos os povos indígenas do país estamos assustados e indignados com o terrorismo que estão fazendo contra nossos povos e nossos direitos. Esperamos que o Supremo Tribunal Federal não julgue favorável aos fazendeiros e invasores da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, a Ação Popular movida pelo Estado de Roraima, que quer desfazer a homologação da terra em área contínua, bem como o Mandado de Segurança impetrado pelos fazendeiros contra a homologação da Terra Indígena Nhande Ru Marangatu.

Em novembro do ano passado foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta, no qual o governo, através da Funai, se comprometeu a identificar 36 terras tradicionais do nosso povo. Os Grupos de Trabalho eram para iniciar as atividades até o final de março. Por causa de problemas internos e pressões, até hoje isso ainda não aconteceu. Na Aty Guasu de Lagoa Rica, em fevereiro, nós lembramos que não poderia atrasar esse trabalho. Caso não sejam cumpridos esses compromissos assinados, fazendo aumentar a violência contra o nosso povo, vamos levar nossas denúncias aos tribunais nacionais e internacionais.

Queremos logo nossas terras, pois nós somos parte dela e nela estão nossos pais, avós e antepassados. Não devolver nossas terras é decretar nossa morte, é praticar o genocídio contra nosso povo.

Estamos juntando todas as nossas forças, construindo uma grande união, organizando com sabedoria nosso povo na certeza de que vamos vencer. Não estamos sozinhos. Contamos com amigos e aliados no Brasil e em diversas partes do mundo. Esperamos contar com a solidariedade da sociedade brasileira, com o efetivo apoio do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário.

A terra/território é para nós espaço de vida, de celebração, de liberdade, de paz. Exigimos ela de volta logo!

Com a lágrima do sentimento pelo sangue derramado neste chão, pelos que lutaram e deram sua vida fortalecendo nossa esperança, luta e futuro, queremos reafirmar nosso compromisso até a vitória da terra.

Terra Indígena Jaguapiré, município de Tacuru, Mato Grosso do Sul, 07 de junho de 2008.

Egon Heck

Cimi – MS

Campo Grande 9 de junho 2008


http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=3254&eid=352

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Terra Terena – do confinamento ao retorno
Por Egon Heck, da coordenação do Cimi no Mato Grosso do Sul

Indígenas presos não recebem apoio para visitas e assistência jurídica adequada
Seminário discutiu a situação dos indígenas presos no Mato Grosso do Sul

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Documento do seminário: o caso Guarani Kaiowá - uma história de violação de direitos humanos

Lideranças Guarani Kaiowá denunciam violências
Em evento na USP, foram abordadas a situação no Mato Grosso do Sul e em Raposa Serra do Sol

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A iniciativa busca ser uma contribuição para a defesa dos direitos territoriais, culturais e econômicos dos Povos Guarani

CPI desnutrida
Artigo de Egon Heck sobre a visita da CPI da desnutrição infantil indígena ao Mato Grosso do Sul

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Há 5 anos, a comunidade terra indígena Potrero Guasu reclama da quase total falta de água

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Entre 23 e 24/2, os Guarani se reuniram para discutir seus problemas e planejar a luta do povo

Indígenas-Brasil: Terra mãe de conflitos
Indígenas vivem no MS em acampamentos precários, enquanto seus líderes são assassinados

sábado, 20 de outubro de 2007

TESTEMUNHO I/Brasil/Índios e terroristas no Mato Grosso do Sul

Fonte: Portal do Conselho Indigenista Missionário/18 outubro 2007

“O Conselho Indigenista Missionário... quero fazer essa denuncia aqui de pronto... quero que fique aqui nos anais e quero chamar o representante do Conselho Indigenista Missionário, que são terroristas, queria chamá-lo aqui para debater conosco... não tem coragem de vir debater conosco. Por quê? Estão fazendo sem-vergonhice. Quem sabe lá o que é o Cimi, para quem está nos assistindo. É o Conselho Indigenista Missionário. Tem um nome nesse negócio, chama-se Antonio Brand, que é o cara que fica inventando aldeia indígena pra tudo que é canto...”

A fala é do deputado Paulo Correa (PR), durante sessão da Assembléia Legislativa do Mato Grosso do Sul no último dia 2 de outubro. O deputado criticou a atuação do Cimi acusando a entidade de incitar os índios a tomarem atitudes violentas contra propriedades rurais que fazem divisa com aldeias ou que são alvos de processos de demarcação. O que o deputado esqueceu foi de relatar a verdadeira situação das populações indígenas no estado.
A recente declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas aprovada pela ONU, em setembro, deve ter estragado o sono de quem quer impor sua vontade aos habitantes do planeta. Afinal de contas ali está claramente reconhecido o direito dos mais de 370 milhões de nativos em mais de 70 países do mundo às terras-territórios e aos recursos naturais neles existentes, e à livre determinação, com autonomia e dignidade, conforme seus valores, costumes e organização social. O que, aliás, o Brasil já reconheceu em sua Constituição de 1988.

O Mato Grosso do Sul não está fora do planeta Terra, nem do Brasil. Portanto as leis e normas nacionais e internacionais deveriam ser cumpridas. Ou seja, os povos indígenas deveriam ter suas terras já demarcadas e garantidas há muito tempo, pois a Constituição determinou que isso fosse feito até 1993. Por que não se cumpriu a lei maior do país? As conseqüências estão aí. Entre os Kaiowá Guarani se instaurou um verdadeiro processo de genocídio.

E para piorar a situação agora vem a gigante onda verde da cana e do dólar para instalar mais de 50 novas usinas, plantar mais de 850 mil hectares de cana, quase tudo na região dos Guarani, e muitos em “tekoha”, ou seja, terras tradicionais Guarani. Para se ter uma idéia do descalabro da estrutura fundiária e suas conseqüências perversas, a Terra Indígena Dourados, com uma população de mais de 12 mil Kaiowá Guarani e Terena, tem uma população maior do que 32 municípios do estado, conforme publicação do IBGE no Diário Oficial de 5/10/2007. Portanto a terra do gado, da soja e agora da cana, não tem lugar para índios, quilombolas, trabalhadores rurais sem terra...

As estratégias e conseqüências estão claramente demonstradas no caso de Kurusu Ambá, no município de Coronel Sapucaia. Os índios foram brutalmente expulsos, lideranças assassinadas, outras presas e rapidamente condenadas a 17 anos e meio de prisão. Tudo isso por estarem buscando o que a Constituição, Convenção 169 da OIT e a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas da ONU lhes garantem, que é sua terra para viver em paz.

Cabe então perguntarmos onde está o terrorismo? Quem são os verdadeiros terroristas?

Egon Heck

Cimi MS

Campo Grande, 18 de outubro de 2007

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Direitos Humanos Derechos Humanos

Brasil/ Comissão de Direitos Humanos da Câmara vai a aldeia em Dourados, Mato Grosso do Sul


www.cimi.org.br / 23 agosto 2007


"Aqui existe uma realidade em que na Terra Indígena de Dourados possui 0,3 hectares de terra para cada indígena Kaiowá Guarani, enquanto cada cabeça de gado possui uma média de 07 hectares de terra" (Tetila – Prefeito de Dourados – Audiência Pública 20 de agosto de 2007).

"Não vamos mais deixar que pisem em nós. Estamos recebendo a Comissão com carinho. Kaiowá está morrendo de suicídio, de homicídio, de assassinato. Nossas crianças continuam morrendo de desnutrição. Aqui já passou muita Comissão. Será que vão respeitar o Kaiowá, devolver nossa terra? Estamos lutando com todas as nossas forças" (Getulio, cacique Kaiowá Guarani, Terra Indígena de Dourados, 20 de agosto 2007).

A poeira vai levantando, enchendo os olhos dos indígenas que caminham na Terra Indígena de Dourados, ou andam em suas carrocinhas ou bicicletas. Os ipês amarelos floridos teimam em ostentar sua beleza em meio a uma paisagem marcada por intenso sofrimento. Os olhares curiosos e indignados dos Kaiowá Guarani, se perguntam sobre as razões de mais essa repentina movimentação em sua terra.

Terra ou morte

Quando o Presidente Lula passou em Campo Grande recentemente, ele chamou alguns políticos e o prefeito de Dourados e ordenou: "Comprem terra para os índios de Dourados!". Certamente o Presidente estava cansado de ser cobrado nacional e internacionalmente com as estatísticas reveladoras de um drama de genocídio. Isso estava denegrindo a imagem do país e talvez até dificultando alguns caminhos de investimento.

O Presidente poderia ter anunciado: – Ordenei à Funai que demarque as terras indígenas do MS! Isso, porém, significaria contrariar cabalmente os agentes do agronegócio que estavam ao seu redor e compõe, em grande parte, a sua base de sustentação. Era então conveniente ordenar, reservadamente, a compra de um pedaço de chão para aquela população.

Porém, com a Comissão veio a Diretora do Departamento de Assuntos Fundiários – DAF, da Funai, com a determinação de anunciar a decisão do órgão de partir efetivamente para a identificação e demarcação das terras indígenas conforme determina a Constituição Federal. Maria Auxiliadora certamente sentiu de perto que não existe mais dúvida e tempo a perder. Demarcação urgente, ou a situação de violência e morte se agravará.

Aos tanques e palanques

Como não transformar uma vez mais a situação de extrema gravidade, em palanques eleitorais ou disputa de interesses políticos e econômicos. Essa preocupação esteve visivelmente presente para vários membros da delegação. Ela ficou explicitada cada vez que se tinha que decidir os caminhos a seguir, o que visitar, com quem falar. Uma disputa em cada esquina.

No caminho, algumas improvisações e até surpresas. A caravana acabou entrando até no cenário de um filme documentário que está sendo gravado dentro da terra indígena. E a temática do filme não poderia ser outra – A luta dos Guarani por suas terras. Com a súbita e inesperada invasão oficial, alguns dos diretores chegaram reagir: "Será que não sabem quanto nos custa uma hora de gravação? Essa interrupção custa caro!". O cenário foi criado em torno de uma casa de reza, algumas casas tradicionais, e a placa indicativa de "Terra Protegida", os trilhos para o deslocamento da câmera e outros aparatos estavam lá para falar por si. A revolta e cobrança dos índios foi feita dentro da casa de reza, após breve ritual. "Estamos cansados de Comissão, de invasão...".

Ao 'Centrinho' da questão

Foi até constrangedor. Aquele batalhão circulando entre os corredores da construção que outrora foi um antigo espaço de cura de indígenas com tuberculose. "Quando transformei isso no centro de recuperação de crianças desnutridas, há seis anos, assinei meu atestado de óbito" - chegou a desabafar o prefeito Tetila, visivelmente transtornado e injuriado com o que considerava 'exploração sensacionalista e política de seus adversários'.


A imprensa pareceria ávida por registrar as criancinhas esqueléticas ou alguma situação ou fala que desse alguma manchete. Enquanto isso, o Pe. e Deputado Luiz Couto, parecia caminhar tranqüilo, sem pressa, de quando em vez parando para dar uma entrevista. Anastácio, liderança Kaiowá Guarani, achou até um momento de sensibilidade e beleza ao tomar ao colo uma das crianças indígenas que estava um pouco perdida no meio daquela multidão de curiosos.

Muitas armas e poucos argumentos

"Estou assustada com o aparato policial. Isso é um contra-senso. Enquanto não tem segurança para os índios na área, uma comissão está escoltada com mais de uma dúzia de agentes federais armados com fuzis, revolveres e com gás lacrimogêneo", desabafou uma das representantes de entidade nacional preocupada com a questão dos direitos humanos e segurança alimentar.

É claro que não existe possibilidade de entender uma das realidades indígenas mais complexas do país, sem um tempo hábil para o entendimento das razões, do histórico do esbulho e do confinamento, sem entender a dinâmica social e cultural do povo. Sem saber dos fortes elementos culturais que dão consistência às estratégias de luta e resistência do povo Guarani Kaiowá.

Enfim, seriam necessários talvez, em vez de dias, meses e quiçá muito mais do que isso para ter uma real dimensão e compreensão do que se passa. Como esse não é o caso, deve ter sido necessário uma atenção muito especial por parte do Presidente e integrantes da comissão para entenderem e terem uma leitura correta da realidade.

Onde foi que eu errei?

Certamente quem mais sofreu com a presença de mais uma Comissão foi o prefeito de Dourados. Foi várias vezes cobrado por indígenas, políticos e imprensa. Logo ele, que sempre demonstrou sua preocupação e carinho para com os povos indígenas. Chegou a trabalhar por eles antes de ser político. Foi amigo de Marçal Tupã'y, tendo escrito um livro sobre ele.

Ali estava ele tentando dizer não apenas de sua boa intenção, mas para mostrar seu empenho concreto e real em favor daquela população profundamente impactada pela cidade e civilização de necrófilas. "E 400 casas não valem nada? Estou fazendo mais duzentas. Luz elétrica em todas as casas não vale nada? Água para as casas não vale nada? Tanques de peixe, roças, não valem nada?" E assim o prefeito desfilou seu rosário de feitos, com um investimento de 40 milhões de reais. Em vários momentos citou as iniciativas que são únicas em terras indígenas no continente.

Esqueceu-se apenas de mencionar que se tudo isso não foi em vão, deixou de ir à raiz, ou seja, conseguir a demarcação de uma dezena de tekoha (terra tradicional Guarani) dessa região de Dourados.

Audiência Pública é reservada da Terra

"O mérito dessa Comissão foi em ter conseguido um consenso: ou terra ou continuam as mortes, as CPI´s. As Comissões, as comissões. Uma faixa no auditório da Câmara dos Vereadores expressava bem a única saída "Sem demarcação não há solução para a desnutrição", "Os professores indígenas estão preocupados com a violência e falta de terra".

As falas indígenas e não indígenas todas convergiram para a necessária e urgente ação de demarcação e garantia das terras indígenas aliadas à busca de autonomia na produção de alimentos e vivência em paz, conforme seus projetos de vida.

Ficou decidido também que o presidente da comissão se dispunha a ouvir de forma reservada, as lideranças indígenas que assim o desejassem. E isso aconteceu respeitando o desejo de alguns que já haviam sofrido mais discriminação ou ameaças em função da exposição de sua realidade e reivindicações.

A audiência foi aberta pelo deputado Pedro Teruel, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, que fez o apelo para que mais esse momento não caísse no vazio, e que para tanto se teria que assumir a questão da demarcação das terras como medida imediata como única forma de começar a diminuir a violência e as mortes de crianças por desnutrição.

O presidente da Comissão ouviu atentamente todos os depoimentos e falas e se comprometeu a transformar todas as sugestões em documentos a serem enviados a todas as instâncias de poderes, em que deverão ser consideradas e encaminhadas as soluções.

O deputado Pedro Kemp, presidente da Comissão de Assuntos Indígenas, concluiu a Audiência pública, sobre o importante consenso criado em torno da demarcação urgente das terras indígenas. "O Mato Grosso do Sul e o Brasil tem que pagar essa dívida com os Kaiowá Guarani". E pediu que a representante da Funai levasse esse clamor ao presidente do órgão. Terminou dizendo "Certamente a visita não foi em vão".

A Comissão passou. E agora?

Uma estranha sensação de frustração e descrença paira no ar como a poeira levantada pela caravana. Os Kaiowá Guarani tem razões de sobra para descrer da eficácia de levantamentos, cpis, comissões especiais, comícios,forças tarefa, documentários, invasões de toda ordem, promessas, visitas, intervenções,prisões...

Diante disso tudo desenvolveram suas estratégias seculares. Resistiram. Sobreviveram. Confiam que amanhã não apenas será outro dia, mas poderá ser um dia diferente, melhor.

Dezenas de charretes vão se deslocando dentro da terra indígena. Concentram-se no campo de futebol. É o jogo da vida. Uma carreta e um caminhão baú estão posicionados dentro da reserva, guarnecidos por soldados. Estarão se deslocando em breve, ao encontro da fome, da espera, da dependência de um povo que já viveu séculos de fartura e autonomia nesse chão.

A Comissão passou. E agora? Espera-se que o visto e ouvido , resumido na unanimidade de que sem a demarcação da terra nada adiantará, se transforme não apenas em mais um relatório com boas recomendações, mas numa agenda concreta, com data e recursos para a demarcação da terra dos mais de 30 mil Guarani Kaiowá e Nhandeva dessa região.

Essa é uma luta que não tem cor, religião ou partido. Deve ser um compromisso de todo cidadão desse país. Não existe tempo a perder. Ou reverteremos de imediato esse quadro de genocídio ou seremos julgados pela história como cúmplices do mesmo.

Alguns dados reveladores

"Vai ser construída uma 'Vila Olímpica' na terra indígena de Dourados. Já tem um milhão de reais empenhados" (Benjamim Bernardes, Diretor do Centrinho – O progresso 21/08/07).

"Terra Indígena de Dourados, com mais de 12 mil habitantes tem uma população superior à de vários municípios do Estado" (Prefeito de Dourados, Laerte Tetila).

A terra indígena de Dourados, com quase 4 mil eleitores, tem forte influência sobre a eleição de um prefeito e poderia eleger alguns vereadores indígenas. Atualmente não tem nenhum indígena na câmara.

Ironias à parte, os opositores não perderam a oportunidade de se referir ao Padre Deputado L. Couto.

O representante do Cimi, em sua fala insistiu em que "somos todos cínicos e co-responsáveis do genocídio, se não lutarmos com todas as forças para mudar logo os rumos, garantindo a demarcação das terras".

Egon Heck - Cimi MS

Campo Grande, 22 de agosto de 2007