Em 2010 o mundo foi surpreendido pela divulgação de uma série de
documentos comprobatórios de que muitos governos e autoridades dizem uma coisa
e fazem outra. A máscara caiu. Todos viram que o rei estava nu.
26 agosto 2012/Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil)
Por Frei Betto, na Adital
O site WikiLeaks, monitorado pelo
australiano Julián Assange, publicou documentos secretos que deixaram governos
e autoridades envergonhados, sem argumentos para justificar tantos abusos e
imoralidades.
Maquiavel já havia afirmado, no século 16, que a política tem pelo menos duas
caras. A que se expõe aos olhos do público e a que transita nos bastidores do
poder.
Bush e Obama admitiam torturas no Iraque, no Afeganistão e na base naval de
Guantânamo, enquanto acusavam Cuba, na Comissão de Direitos Humanos da ONU, em
Genebra, de maltratar prisioneiros...
O WikiLeaks nada inventou. Apenas se valeu se fontes fidedignas para coletar
informações confidenciais, em geral constrangedoras para governos e
autoridades, e divulgá-las. Assim, o site desempenhou importante papel
pedagógico. Hoje, as autoridades devem pensar duas vezes antes de dizer ou
fazer o que as envergonhariam, caso caísse em domínio público.
Apesar da saia justa, o cinismo dos governos parece não ter cura. Em vez de
admitirem seus erros e tramoias de bastidores, preferem bancar a raposa da
fábula de Esopo, divulgada por La Fontaine. Já que as uvas não podem ser
alcançadas, melhor alegar que estão verdes...
Acusam Julián Assange – não de mentir ou divulgar documentos falsos – mas de
haver praticado estupro de prostitutas, na Suécia.
Ora, com todo respeito à mais antiga profissão do mundo, sabemos todos que
prostitutas se entregam a quem lhes paga. E por dinheiro – ou ameaça de
extradição quando são estrangeiras - algumas delas podem ser induzidas a fazer
declarações inverídicas, como a esdrúxula acusação de estupro.
Estupro?
Muito estranho, considerando que relações com prostitutas muitas vezes parecem
um estupro consentido. O cliente paga pelo direito de usar e abusar de um corpo
desprovido de reciprocidade – sem afeto e libido. Daí a sensação de fraude que
o acomete quando deixa o prostíbulo. Perdeu o sêmen, o dinheiro... e não
encontrou o que procurava – amor.
De fato, governos e autoridades denunciados pelo WikiLeaks é que estupraram a
ética, a decência, a soberania alheia, acordos e leis internacionais. Assange e
seu site foram apenas o veículo capaz de tornar mundialmente transparentes
documentos contendo informações mantidas sob rigoroso sigilo.
Punidos deveriam ser aqueles que, à sombra do poder, conspiram contra os
direitos humanos e a legislação internacional. No mínimo, deveriam fazer
autocrítica pública, admitir que abusaram do poder e violaram princípios
áureos, como foi o caso de ministros brasileiros que se deixaram manipular pelo
embaixador dos EUA, em Brasília.
Assange se encontra refugiado na embaixada do Equador, em Londres. O governo de
Rafael Correa já lhe concedeu o direito de asilo no país latino-americano.
Porém, o governo britânico, do alto de sua majestática prepotência, ameaça
prendê-lo caso ele saia da embaixada a caminho do aeroporto, onde embarcaria
para Quito.
Nem a ditadura brasileira na Operação Condor chegou a tanto em relação a
centenas de perseguidos refugiados em embaixadas de países do Cone Sul. Por
isso, a OEA, indignada, convocou uma reunião de seus associados para tratar do
caso Assange. Este teme ser preso ao deixar a embaixada e entregue ao governo
sueco que, em seguida, o poria em mãos dos EUA, que o acusam de espionagem –
crime punido, pelas leis estadunidenses, inclusive com a pena de morte.
Assange não se nega a comparecer perante a Justiça sueca e responder pela
acusação de estupro. Teme apenas ser vítima de uma cilada diplomática e acabar
em mãos do governo mais desmoralizado pelo WikiLeaks – o que ocupa a Casa
Branca.
O caso Assange já prestou inestimável serviço à moralidade global: demonstrou
que, debaixo do sol, não há segredos invioláveis. Como diz o evangelho de Lucas
(12, 2 e 3) "nada há encoberto que se não venha a descobrir; nem oculto,
que se não venha a saber. Por isso o que dissestes nas trevas, à luz será
ouvido; o que falastes ao ouvido no interior da casa, será proclamado dos
telhados”.
*Frei Betto é escritor, autor de "A obra do Artista – uma visão
holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros. www.freibetto.org -
Twitter:@freibetto.