6 setembro 2013, Portal
do Planalto http://www2.planalto.gov.br
São
Petersburgo – Rússia, 06 de setembro de 2013
Presidenta: Oi, gente. Tudo bom? Boa tarde.
Então vamos para a nossa entrevista.
Jornalista: Podemos começar
com três perguntas (...) assenhora avisou ao presidente Obama que não vai mais
aos Estados Unidos? O que conversou ...
Presidenta: Vamos conversar
sobre o presidente Obama. Como vocês viram, o presidente Obama marcou uma
reunião comigo, logo após a primeira sessão do G20, entre a primeira sessão do
G20 e o jantar. Nessa ocasião, nesse encontro, eu transmiti ao presidente Obama
a posição brasileira sobre a questão das denúncias de espionagem. Qual era a
posição brasileira? Primeiro, a minha indignação pessoal e a do conjunto do meu
país com as denúncias de espionagens praticadas contra o governo, contra as
embaixadas, contra empresas e cidadãos brasileiros pela Agência Nacional de
Segurança dos Estados Unidos. Fiz ver a ele que esse tipo de relacionamento que
nós tínhamos, que é baseado no fato de sermos grandes democracias nesta parte
do mundo, é incompatível com um ato de espionagem ou atos de espionagem. Portanto, que era incompatível com a convivência democrática entre países
amigos.
Ocorrer no Brasil era um fato
gravíssimo. Por que é um fato gravíssimo ocorrer no Brasil? Porque o Brasil é
uma forte, uma sólida e uma grande democracia. O Brasil vive há mais de 140
anos em harmonia e de forma pacífica com seus vizinhos lá da região. O Brasil é
um país que não tem conflitos étnicos, não tem conflitos religiosos, não abriga
grupos terroristas, e tem, na sua Constituição, expressamente, que nós vedamos
o uso e a fabricação de armas nucleares. Portanto, que todas essas
características jogavam por terra qualquer justificativa de que tais atos de
espionagem seriam uma forma de proteção contra os terroristas. E só nos
permitia uma conclusão: que essa espionagem, como não tinha nada a ver com
segurança nacional, tinha a ver com fatores geopolíticos, tinha a ver com
fatores estratégicos ou com fatores comerciais e econômicos e que isso era
inadmissível, principalmente porque se tratava de países com uma tradição de
relacionamento histórico.
E o fato de só poder ser esse
interesse jogava por terra qualquer, qualquer alegação, qualquer alegação de
segurança ou de qualquer outro aspecto ligado ao que geralmente se divulga,
que é ligada à segurança, à proteção contra o terrorismo. E, portanto, afetava
interesses econômicos brasileiros, afetava a soberania do país e afetava
direitos chamados direitos humanos ou civis, e que era estarrecedor, partindo
de um país que tinha na sua fundação, por característica principal esse
respeito à liberdade e aos direitos humanos. Privacidade é um direito
fundamental.
O presidente Obama declarou para
mim que assumia a responsabilidade direta e pessoal pelo integral
esclarecimento dos fatos, e que proporia para exame do Brasil, medidas para
sanar o problema.
Diante do meu ceticismo devido à falta de resultados do encontro entre o
ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o vice-presidente Biden, ocorrido
semana passada, o presidente Obama me reiterou que ele assumia, novamente ele
reiterou que assumia a responsabilidade direta e pessoal tanto para a apuração
das denúncias como para oferecer as medidas que o governo brasileiro
considerasse adequadas.
Como eu disse que esse processo era um processo lento, que eu não queria
esclarecimentos técnicos, não era só uma questão de desculpas, que era uma
questão de não admissão desse nível de intrusão e que era importante que fosse
solucionado com rapidez, chegou-se a uma data, quarta-feira.