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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ex-ditador revela “método” para assassinatos e desaparecimentos na Argentina

20 abril 2012/Carta Maior http://www.cartamaior.com.br (Brasil)

O ex-ditador Jorge Rafael Videla relatou ao jornalista Ceferino Reato o “método” usado pelos militares para a detenção e desaparição de pessoas durante a ditadura. Videla não expressou arrependimento pelos assassinatos e desaparecimentos, alegando que "não havia outra solução". "Eram sete ou oito mil as pessoas que deviam morrer para ganhar a guerra contra a subversão; não podíamos fuzilá-las. Também não podíamos levá-las à Justiça”, afirmou.

Francisco Luque - De Buenos Aires

Data: 16/04/2012 

Buenos Aires - O homem forte da ditadura argentina, Jorge Rafael Videla, acrescentou novas informações sobre como foram tomadas as decisões sobre os presos, a confecção das listas das pessoas que deviam ser detidas e em quê consistiu o método de extermínio de opositores políticos chamado, em vocabulário militar, “Disposição Final”.

Sem autocrítica nem arrependimento, embora sim confessando, pela primeira vez, certo “desconforto” e “um peso na alma”, o repressor relata para o livro "Disposição Final", do jornalista argentino Ceferino Reato, os passos que os militares e os aparatos de segurança do regime seguiam para ganhar “a guerra contra a subversão”: "Suponhamos que eram sete ou oito mil as pessoas que deviam morrer para ganhar a guerra contra a subversão; não podíamos fuzilá-las. Também não podíamos levá-las à Justiça”, afirma.

Videla conta que Disposição Final são “duas palavras muito militares, e significam tirar de serviço uma coisa por ser "imprestável". Quando, por exemplo, se fala de uma roupa que já não se usa ou não serve porque está gasta, passa à Disposição Final. Já não tem vida útil”.

Videla relatou ao jornalista Reato o “método” para a detenção e desaparição de pessoas e suas quatro etapas:

1. A detenção ou o sequestro de milhares de "líderes sociais" e "subversivos" seguindo listas elaboradas entre janeiro e fevereiro de 1976, antes do golpe, com a colaboração de empresários, sindicalistas, professores e dirigentes políticos e estudantis.

2. Os interrogatórios em lugares secretos ou centros clandestinos.

3. A morte dos detidos considerados "irrecuperáveis", geralmente em reuniões específicas encabeçadas pelo chefe de cada uma das cinco zonas nas quais foi dividido o país.

4. A desaparição dos corpos, que eram jogados no mar, em rios, arroios ou canaia; ou ainda enterrados em lugares secretos, ou queimados em um forno ou em uma pilha de pneus de automóveis.

Diante da pergunta de por que os chefes militares haviam chegado à conclusão de que não podiam levar os detidos diante da Justiça, Videla respondeu: "Também não podíamos fuzilá-los. Como íamos fuzilar toda essa gente? A justiça espanhola, comparou, condenou à morte três integrantes do ETA, uma decisão que Franco avalizou apesar dos protestos de boa parte do mundo: só pôde executar o primeiro, e isso que era Franco. Também existia o temor mundial que a repressão de Pinochet no Chile havia provocado”.

O ex-ditador continua pensando que "não havia outra solução. Estávamos de acordo em que era o preço a pagar para ganhar a guerra e necessitávamos que não fosse evidente para que a sociedade não percebesse. Por isso, para não provocar protestos dentro e fora do país, durante o transcurso dos fatos se chegou à decisão de que essas pessoas desapareceriam; cada desaparição pode ser entendida, certamente, como a maquilagem ou a dissimulação de uma morte".

Em vinte horas e nove entrevistas, realizadas entre outubro do ano passado e março de 2012, Videla respondeu perguntas sobre a ditadura que encabeçou durante cinco anos, entre 1976 e 1981, ano em que é substituído pelo general Roberto Viola, suspeito de haver desaparecido milhares de pessoas durante seu governo de fato.

É a primeira vez que Videla fala de forma concreta sobre o destino dos desaparecidos, claro que, sem arrependimento: “Se bem que não estou arrependido de nada e durmo muito tranquilo todas as noites, tenho sim um peso na alma e gostaria de fazer uma contribuição para assumir minha responsabilidade de uma maneira tal, que sirva para que a sociedade entenda o que aconteceu e para aliviar a situação de militares que tinham menos graduação que eu, e que tiveram que cumprir as ordens para continuar no Exército".

Consultado sobre o porquê de ter decidido falar agora sobre o tema dos desaparecidos, Videla sustenta que ele e outros militares acusados ou condenados por violações aos direitos humanos, confiavam no triunfo de Eduardo Duhalde nas eleições presidenciais do ano passado, de quem esperavam uma espécie de anistia. Aos 86 anos e frente a quatro anos mais de governo kirchnerista, o ditador pensa que já não tem sentido manter o silêncio que se havia autoimposto.

O repressor Jorge Rafael Videla foi processado em três processos judiciais desde a volta da democracia. Em 1985, pela Causa 13/84, foi condenado à prisão perpétua, no denominado Julgamento das Juntas Militares, no qual a promotoria o acusou formalmente por 700 casos de violação dos direitos humanos. Em 1991, foi anistiado pelo ex-presidente Carlos Menem.

Em 2010, foi condenado à prisão perpétua pelo assassinato de 31 presos políticos, a maioria deles durante simulações de fuga para encobrir os crimes. Por este processo também foram condenados mais de uma dezena de repressores, entre eles, Luciano Benjamín Menéndez.

Também foi declarado responsável pela existência de um plano sistemático para o roubo de bebês durante a ditadura e sua cumplicidade no marco da Operação Condor.

Tradução: Libório Junior

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Brasil/CAMPANHA DA OAB-RJ PELA ABERTURA DOS ARQUIVOS DA DITADURA MILITAR

23 abril 2010/Vermelho http://www.vermelho.org.br

Brasil/Osmar Prado interpreta Maurício Grabois em campanha da OAB-RJ
Diversos artistas, como Fernanda Montenegro, estão entre as celebridades que aderiram à campanha da OAB-RJ, lançada dia 16, pela abertura dos arquivos da ditadura militar.

Cada um deles interpreta um desaparecido do período e pergunta: "será que essa tortura nunca vai acabar?".

Entre eles está Osmar Prado, na pele do guerriheiro do Araguaia, Maurício Grabois. A campanha se soma ao esforço pelo direito à memória e à verdade.

Nenhum dos artistas cobrou cachê para protagonizar a campanha da OAB-RJ.


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Brasil/OAB-RJ lança campanha pela abertura dos arquivos da ditadura

17 abril 2010/Vermelho http://www.vermelho.org.br

Com o objetivo de pressionar o governo a abrir os arquivos da ditadura militar, a Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio de Janeiro (OAB/RJ), lançou ontem (16), a Campanha Nacional pela Memória e pela Verdade. Para o presidente da OAB/RJ, Wadir Damus, é incompreensível que o Brasil não tenha seguido o exemplo de países vizinhos e dado às famílias dos desaparecidos o direito de saber seu paradeiro e ao país, o de conhecer sua história.

“Esse continua sendo um tema tabu aqui no Brasil. E nós [da OAB] não conseguimos entender por que essa nova geração de militares, que nada teve a ver com aqueles episódios, não se insere nessa luta, inclusive para limpar a imagem do Exército brasileiro”.

A campanha será veiculada no rádio, na TV, em revistas e jornais. A entidade também organizará um abaixo-assinado em apoio à abertura dos arquivos. Para a campanha na TV, artistas como Fernanda Montenegro, Glória Pires, Osmar Prado e José Mayer gravaram, gratuitamente, relatos de 30 segundos em que interpretam militantes mortos e desaparecidos.

O ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, disse que o apoio da OAB fará enorme diferença na luta pela abertura dos arquivos. “São astros queridos pelo povo, pela classe artística, são formadores de opinião e se, essa campanha for bem veiculada, terá o poder de superar as dúvidas que ainda existem em torno do assunto que deveria ter 100% de aprovação nacional, pois se trata de uma campanha que reivindica apenas o resgate da memória e o direito de cerca de 140 famílias de enterrarem seus mortos”.

O advogado Modesto da Silveira, que defendeu milhares de presos políticos durante o regime militar, acredita que mesmo os advogados mais conservadores devem aderir à campanha. “Por mais reacionário que seja o advogado, ele tem um compromisso com a verdade e com a lei”. Segundo Modesto, se o governo não abrir os arquivos terá a decepção de ver esses documentos serem divulgados em outros países, devido, principalmente, à Operação Condor, uma aliança político-militar entre os vários regimes militares da América do Sul, com apoio dos Estados Unidos.

Neuza Cerveira, filha do major Joaquim Cerveira, descobriu, por meios próprios, detalhes sobre a morte do pai, que foi sequestrado na Argentina e morto em 1974, na Operação Condor, por combater a ditadura. Ela encontrou, em documentos do acervo pessoal de conhecidos argentinos, informações relevantes sobre o pai, cujo corpo nunca foi encontrado.

“O túmulo do meu pai é a nação brasileira. O que eu quero é essas pessoas que cometeram esses crimes hediondos no banco dos réus. Não importa se foram 300 ou 400 mortos aqui, enquanto na Argentina foram 30 mil. Genocídio é genocídio”.

Várias emissoras, como a TV Brasil, a TV Senado e a MTV vão veicular, gratuitamente, os depoimentos, assim como a rede de cinemas do Grupo Estação. (Fonte: Agência Brasil)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ACORDO ENTRE BRASIL E EUA NÃO PREVÊ BASES, MAS ACENTUA LAÇO MILITAR

13 abril 2010/Agência de Informação Frei Tito para a América Latina
(ADITAL) http:www.adital.com.br

Karol Assunção *

Representantes dos governos do Brasil e dos Estados Unidos assinaram, ontem (12), um acordo militar de cooperação na área de defesa. Ao contrário do que muitos temiam, o acordo não contempla a construção ou o uso de bases por militares estadunidenses em território brasileiro. No entanto, prevê o intercâmbio de informações e tecnologias no campo militar.

O acordo pretende facilitar o comércio de armamentos entre as duas nações e a realização de treinamentos e exercícios militares conjuntos. O texto prevê, ainda, a colaboração entre os dois países firmantes para o combate ao terrorismo.

De acordo com Socorro Gomes, presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), o acordo inclui a "cláusula de garantias" exigida pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul), que conserva a integridade e a inviolabilidade territorial, assim como a igualdade soberana dos Estados. Mesmo assim, Socorro mostra-se preocupada com o acordo. "A minha opinião é que Estados Unidos não é um bom parceiro", apresenta.

Para ela, o acordo com os Estados Unidos não gera confiança. Isso porque o país norte-americano vai de encontro aos projetos de integração regional da América Latina, os quais buscam eliminar as desigualdades na região. "[A integração da América Latina] vai contra os interesses imperialistas estadunidenses", explica, destacando, posteriormente, que a relação dos EUA "é uma relação de ingerência, de busca de domínio contra o progresso no processo democrático da região".

De acordo com a presidente do Cebrapaz, os Estados Unidos estão tentando retomar a influência na região latino-americana. "É uma potência que tem demonstrado que não se detém diante de nada", acredita. Prova disso são as ações realizadas pelo governo estadunidense.

Relançamento da Quarta Frota, instalação de sete bases militares em território colombiano e apoio ao Golpe de Honduras são apenas alguns exemplos de atitudes tomadas pelos Estados Unidos nos últimos anos na região latino-americana. "Estados Unidos é como uma ave agourenta na região", compara.

Além disso, Socorro lembra outras intervenções estadunidenses na região, como a Escola das Américas - que treinava oficiais e soldados latino-americanos com cursos sobre técnicas de interrogatório, guerra psicológica, entre outros -, os golpes militares - como o ocorrido no Brasil -, e a Operação Condor - articulação multinacional dos regimes militares contra os opositores das ditaduras.

* Jornalista da Adital

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domingo, 24 de fevereiro de 2008

OPERAÇÃO CONDOR: NOVOS DOCUMENTOS DIVULGADOS

23 fevereiro 2008 / Blog Vio O Mundo / http://www.viomundo.com.br

São Paulo - A investigação italiana que mobiliza os leitores de Veja é a falcatrua patrocinada por Diogo Mainardi, Janaína Santos e assemelhados - que, como afirma Luís Nassif em sua série investigativa, são "cavalgados" por Daniel Dantas e seus interesses econômicos.
Pouco se fala, no Brasil, de uma investigação fartamente documentada, que resultou no indiciamento de 138 militares do Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Peru e Paraguai, acusados de participar da Operação Condor, que tinha como objetivo prender e sumir com militantes esquerdistas durante os anos 70. O indiciamento, apresentado em dezembro do ano passado pela juíza Luisianna Figliolia, refere-se ao desaparecimento de 25 latinoamericanos que tinham dupla cidadania, ou seja, também era italianos.
Hoje, o Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington publicou documentos detalhando a colaboração entre as polícias secretas do Peru, da Bolívia e da Argentina para seqüestrar, torturar e "permanentemente desaparecer" com militantes em Lima, em junho de 1980.
De acordo com os documentos, uma autoridade americana em Buenos Aires informou Washington que "os quatro argentinos serão detidos no Peru e depois expulsos para a Bolívia, de onde serão mandados para a Argentina". O telegrama foi enviado quatro dias depois que Esther Gianetti de Molfino, María Inés Raverta e Julio César Ramírez foram seqüestrados em Lima. Diz o mesmo texto: "Uma vez na Argentina, eles serão interrogados e permanentemente desaparecidos". O quarto acusado foi levado de Buenos Aires para Lima com o propósito de identificar os colegas e também sumiu.
A Operação Condor foi fundada por integrantes da polícia política do ditador Augusto Pinochet, do Chile. Ficou famosa quando agentes chilenos, com a ajuda do Paraguai, plantaram a bomba que matou o ex-embaixador chileno em Washington, Orlando Letelier, na capital americana, em setembro de 1976. No atentado também morreu o chileno-americano Ronni Moffitt.
O general peruano Enrique Morales Bermudez admite que autorizou o seqüestro dos integrantes do grupo armado Montoneros, mas nega o envolvimento do Peru na Operação Condor. Porém, num documento publicado hoje no site da universidade americana um relatório da CIA datado de 22 de agosto de 1978 descreve a operação como "um esforço de cooperação do serviços de inteligência e segurança de vários país sul americanos para combater o terrorismo e a subversão. Os membros originais são do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil e Bolívia. Peru e Equador recentemente se tornaram membros. Um documento da inteligência chilena confirma que o Peru formalmente se integrou à Operação Condor em março de 1978."Os brasileiros indiciados pela juíza italiana Luisanna Figliolia, acusados de participar em "desaparecimentos", são:
- General João Baptista Figueiredo — último presidente do regime militar (morto)
- General Walter Pires de Carvalho e Albuquerque — ex-ministro do Exército de Figueiredo (morto)
- General Octávio Aguiar Medeiros — ex-chefe do SNI (morto)
- General Euclydes Figueiredo Filho — irmão de João Baptista Figueiredo (morto)
- Coronel Carlos Alberto Ponzi — chefe da segunda seção do Estado-Maior (vivo)
- Agnello de Araújo Britto — ex-superintendente da Polícia Federal do Rio (não localizado)
- Edmundo Murgel — ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro (não localizado)
General Antônio Bandeira — ex-comandante do 3º Exército (morto)
- General Luiz Henrique Domingues — chefe do Estado-Maior do 3º Exército (não localizado)
- Coronel Luís Macksen de Castro Rodrigues — superintende da PF do Rio Grande do Sul (morto)
- João Leivas Job — ex-secretário de Segurança do RS (vivo)
- Átila Rohrsetzer — ex-diretor da Divisão Central de Informações (vivo)
- Marco Aurélio da Silva Reis — ex-delegado gaúcho (vivo)

http://www.viomundo.com.br/denuncias/operacao-condor-novos-documentos-divulgados/

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Brasil/Neiva Moreira: Jango estava em listas da Condor


Foto: O ex-presidente João Goulart (1918-1976) discursa no comício da Central do Brasil, em 1964, acompanhado da primeira-dama, Maria Tereza Goulart

Claudio Leal

Terra Magazine/28 janeiro 2008

Em entrevista a Terra Magazine, o ex-exilado político e ex-deputado federal Neiva Moreira, 90 anos, rememora seu primeiro contato com a Operação Condor e oferece um testemunho: o nome do ex-presidente brasileiro João Goulart, deposto em 1964, estava em uma lista de inimigos das ditaduras sul-americanas a serem assassinados. Ele conheceu a relação através de um diplomata hispano-americano, na Argentina.

- Circulava profusamente essa relação onde constavam dois senadores do Uruguai e militares bolivianos e brasileiros democratas e opostos às ditaduras, assassinados depois. (...) O que se pode afirmar, porque se tornou público, é que o nome de João Goulart freqüentava aquela lista sinistra - afirma Neiva Moreira.

A morte de João Goulart, no exílio argentino, em 1976, saiu do campo das teorias conspiratórias e ganhou este mês a esfera jurídica.

Baseada no depoimento do ex-agente da inteligência do governo do Uruguai Mario Neira Barreiro - preso no Rio Grande do Sul por roubo e formação de quadrilha - e nos rastros da Operação Condor, a família de Jango entrou com uma ação na Procuradoria Geral da República para apurar as denúncias de envenenamento do líder trabalhista.

Em entrevista à repórter Simone Iglesias, na Folha de S. Paulo de ontem, Barreiro reafirmou a história e informou que a ordem para matar veio do governo Ernesto Geisel (1974-1979).

No relato do uruguaio, comprimidos envenenados foram postos nos frascos dos remédios de Jango, numa operação identificada como "Escorpião". O escritor e jornalista Carlos Heitor Cony entrevistou o ex-agente para o livro O beijo da morte (2003), em parceria com Anna Lee. Em recente crônica na Folha, Cony definiu a personalidade de Barreiro:

"É um sujeito perigoso (estava algemado quando o entrevistamos), com uma tendência ao delírio. Mas seu delírio tem uma espinha dorsal que supera os detalhes assombrosos de seu relato."

A Operação Condor era um acordo de cooperação militar entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Peru, na perseguição aos inimigos políticos no exílio. Voltou à cena em dezembro de 2007, com o pedido de prisão de 140 militares desses países, expedido pela justiça da Itália (25 cidadãos de origem italiana estão "desaparecidos").

Neiva Moreira sentiu no exílio as movimentações da Condor. Jornalista ainda atuante, trabalhou nos Diários Associados - lidando com uma serpente chamada Assis Chateaubriand - e fundou a revista internacional Cadernos do Terceiro Mundo. Entrevistou de Yasser Arafat a Saddam Hussein. Nascido no Maranhão, em 10 de outubro de 1917, é uma das referências éticas do parlamento brasileiro.

Líder da Frente Parlamentar Nacionalista, Neiva se exilou, depois do golpe de 1964, no Uruguai. Por pressões políticas, partiu para a Argentina e o Peru. Sua experiência como político e repórter está no livro de memórias O Pilão da Madrugada - Um depoimento de Neiva Moreira a José Louzeiro. Leal amigo e companheiro do ex-governador Leonel Brizola (1922-2004), permanece filiado ao PDT. Guarda a história dos embates políticos brasileiros desde os anos 30.

Em abril de 2001, Neiva Moreira depôs na comissão da Câmara que investigou a morte do ex-presidente. À época, lembrou que a lista incluía ainda o general boliviano Juan Torres, o senador uruguaio Wilson Ferreira Aldunate e o general Prates.

Nesta entrevista, o ex-deputado volta a defender a apuração dos fatos:

- É óbvio que a maioria esmagadora do povo brasileiro repudia os métodos utilizados pela ditadura e é natural que se espere que o governo e a justiça brasileira (tenham) a posição da justiça italiana como referência.

A seguir, a entrevista com Neiva Moreira. Respondeu por escrito às questões.


Terra Magazine - A família de João Goulart entrou com uma ação na Procuradoria Geral da República para pedir a investigação da morte do ex-presidente no exílio, que pode estar vinculada à Operação Condor. O senhor acredita que há razões para levantar a possibilidade de envenenamento?
Neiva Moreira - No período posterior à morte de João Goulart, circulou intensamente nos países latino-americanos, sobretudo na Argentina, a suspeita de assassinato. Considero importante e oportuna a iniciativa da família, visando esclarecer a morte do Presidente.

No exílio, como o senhor tomou conhecimento da cooperação entre as ditaduras militares da América do Sul?
Vários meios confiáveis e confidenciais nos fizeram crer naquela cooperação e foram inúmeras as precauções que tomamos para escapar da repressão continental. Aquilo nos deixava profundamente indignados e nos levou a denunciar tal fato nos meios de comunicações dos diversos países onde estivemos exilados.

O senhor teve acesso a uma lista secreta com os inimigos a serem eliminados pelas regimes militares do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Peru? O presidente João Goulart figurava nessa lista? Quem estava nela?
Circulava profusamente essa relação onde constavam dois senadores do Uruguai e militares bolivianos e brasileiros democratas e opostos às ditaduras, assassinados depois. Pessoalmente, todas as vezes que uma figura importante da ditadura brasileira ia a Montevidéu, eu era preso previamente e um hotel que diziam pertencer ao presidente João Goulart, vasculhado. A última operação mobilizou mais de uma centena de soldados, que não encontraram nada que confirmasse tais boatos terroristas.

Em 2001, numa comissão da Câmara que investigou a Condor, o senhor disse que ainda não poderia revelar o nome do diplomata hispano-americano que lhe forneceu a lista secreta. Sete anos depois, já é possível?
Por motivos óbvios, a precaução continua e eu acho que vai perdurar por muito tempo. O que se pode afirmar, porque se tornou público, é que o nome de João Goulart freqüentava aquela lista sinistra.

Brizola esteve na mira da Operação Condor?
Era freguês de carteirinha de todas as ações das ditaduras latino-americanas. É importante afirmar que nunca e nem por nada ele se afastou um milímetro de seus ideais de liberdade e sua incansável capacidade de luta.

Como avalia a decisão da justiça italiana, que expediu 140 pedidos de prisão contra os envolvidos na "Operação Condor"?
Não só essa decisão merece todo apoio e aplauso, como todas as iniciativas que denunciem as ditaduras latino-americanas e outras da época carecem de aprofundamento com a denúncia e a punição dos envolvidos.

Qual deve ser a ação do governo e da justiça brasileira?
É óbvio que a maioria esmagadora do povo brasileiro repudia os métodos utilizados pela ditadura e é natural que se espere que o governo e a justiça brasileira (tenham) a posição da justiça italiana como referência.

Terra Magazine

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2265725-EI6578,00.html

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Em depoimento, agente diz que Jango foi envenenado
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