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domingo, 18 de março de 2012

Brasil/AZIS AB ´SABER, MASCATE DE BOAS CAUSAS

18 março 2012/Vermelho http://www.vermelho.org.br (Brasil) 

Seu pai era mascate libanês no interiorzão de São Paulo, no início do século passado. Sua mãe era filha da roça na pequenina São Luis de Paraitinga, no vale do Parnaíba, entre Taubaté e Ubatuba, no litoral norte paulista. Ali nasceu, em 24 de outubro de 1924, o brasileiríssimo Aziz Nacib Ab'Saber, um mascate de boas causas que partiu na semana passada, nos deixando boa carga de saber, tudo fiado.

Por Jaime Sautchuk*

Aos 17 anos, ele ingressou na Universidade de São Paulo (USP), nos cursos de Geografia e História. Virou geógrafo, para efeito de colocar uma profissão em documentos. Foi, porém, filósofo, historiador, ecólogo, arqueólogo, antropólogo, um monte de coisas, sempre com a marca de humanista, de ferrenho defensor de uma sociedade mais justa. Em seu livro “O Que é Ser Geógrafo”, por exemplo, ele ensina como é ser muito mais que geógrafo.

Além da ciência, ele abraçava as causas sociais, ambientais e políticas. Brigou com a ditadura militar e sempre esteva nos palcos e nas ruas em defesa da Anistia, das Diretas-já, mas não parou por aí. Foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da qual virou presidente de honra.

Esteve lado a lado com Luiz Inácio Lula da Silva antes e depois deste virar presidente da República. Mas virou crítico de seus governos, por considerá-los muito frouxos nas questões ambientais. Até semana passada, antes de morrer, ainda repetia que as políticas oficiais no campo do meio ambiente, no Brasil, seguem o ditame da ganância dos poderosos, sem uma visão de futuro.

Nessa linha, sempre criticou o projeto de transposição do rio São Francisco, obras que, em sua visão, irão beneficiar o grande produtor e construtoras, sem atender o sertanejo nordestino. Tampouco se cansou de apontar defeitos, que considerava graves, na proposta de Código Florestal que hoje tramita no Congresso, na bica para ser votada.

Ab'Saber apontava com exagerada e nociva a aceitação de propostas da bancada ruralista no Congresso em relação a esse tema. Mas sua crítica mais severa é em relação ao fato de que a proposta de novo Código ignora solenemente as características de dois dos biomas da flora brasileira: a Caatinga e o Cerrado.

Quanto ao Cerrado, ele era um dos cientistas brasileiros que comprovaram a presença desse bioma na maior parte do território nacional, do Rio de Janeiro e São Paulo à toda Amazônia. E isso até bem pouco tempo. Em São Paulo, por exemplo, onde esse bioma era chamado genericamente de "campos gerais", nasceram cidades com os nomes de São José dos Campos, Santo André dos Campos Belos, Campinas e por aí vai.

Na Amazônia, há perto de 60 milhões de anos, os rios da região corriam no sentido Oeste, quando houve a separação dos continentes e formação dos Andes. Tudo ali era Cerrado. Só há 20 mil anos (ontem, portanto) é que houve um movimento na crosta da Terra que atingiu a foz do rio Amazonas, fazendo com que as águas de toda sua bacia fossem espraiadas, gerando uma vegetação mais densa, que é a floresta.

Na própria Amazônia brasileira, o Cerrado é presente ainda hoje nos estados do Amapá, Roraima, Rondônia e mesmo Amazonas e Acre. Na fronteira Norte, transpondo o Sistema Parima de Serra, em Roraima, adentramos a chamada savana venezuelana, que nada mais é do que Cerrado, numa extensa área, até a foz do rio Orinoco.

Mas isso, na vasta obra de Ab'Saber, é quase um detalhe. Aos 87 anos, na quinta-feira da semana passada, véspera de sua morte, ele foi pessoalmente à USP entregar suas obras completas gravadas em CDs. Praticamente tudo já foi publicado em duas dúzias de livros e milhares de artigos, coletâneas, depoimentos e por aí afora. Mas agora ficou tudo consolidado.

Nela, ele trata da ocupação do Brasil, do índio ao colonizador, até os nossos dias. E das questões climáticas, mesmo no plano global, prevendo efeitos de possíveis mudanças que venham a ocorrer ao redor do Planeta e até fora dele. Por isso, seu trabalho é reconhecido e premiado no mundo inteiro.

Como pessoa, entretanto, sempre foi um homem pé na terra, simples, muito sensível às questões do cotidiano, muito paciente com todos que o cercaram nos mais diversos ambientes em que vivia. Andar num carro de governador ou num velho e empoeirado jipão, para ele, não fazia diferença alguma. Falar para um grupo de alunos no corredor da escola ou em um grande comício em praça pública também. Sempre com um humor fino, perspicaz.

Quando ingressou na universidade, virou jardineiro do campus para poder estudar. E, enquanto galgava as escalas mais altas na formação acadêmica, em meio a uma vastidão de estudos e pesquisas, encontrava tempo para lecionar em escolas públicas do ensino fundamental.

Ele viveu repassando ideias e informações, sempre ansioso para aprender mais e mais, como costumava dizer. Era um baú de conhecimento. E assim tornou-se figura admirada e muito querida por todos que o conheciam. Como todo bom mascate.

*Jornalista e escritor, colunista do Vermelho

  

sábado, 17 de maio de 2008

"ESPECULAÇÃO CAUSA CRISE DOS ALIMENTOS"

Por Igor Felippe Santos


16 maio 2008 / Portal do MST
http://www.mst.org.br

O integrante da coordenação nacional do MST, Egidio Brunetto, analisa que especulação financeira causou a elevação dos preços dos alimentos no mundo. “Os produtos agrícolas passaram a ser commodities, que agora são vendidas nas bolsas de valores em ações. Grandes especuladores controlam 60% do trigo, por exemplo. A alta do preço dos produtos agrícolas tem origem na especulação financeira”, afirma.

Egídio Brunetto avalia que existe produção de alimentos em excesso a nível internacional e discorda da avaliação do presidente Lula, que atribuiu o aumento do preço dos alimentos ao crescimento do consumo. “Como uma família que recebe a bolsa do governo de 60 reais vai aumentar o consumo se o preço do alimento duplicou? Diminuiu o consumo de alimentos. Aumentou o preço do feijão, do arroz, da carne e do óleo, como vão consumir mais?”, rebate.

Em 12 meses, houve uma disparada de preços dos alimentos no Brasil, ficando em torn de 11,2%, em média. O feijão aumentou 168,3%; o arroz, 7,7%; a farinha de trigo, 17,6%; o macarrão, 17,6%; e o pão francês, 16,9%. Os óleos cresceram em média 50%; a carne bovina, 19%; a carne suína, 10,7%; o frango, 6%; queijo provolone, 35,8%; o queijo fresco, 30,6%.

Segundo ele, o Estado precisa retomar o seu papel na agricultura e na produção, inclusive com subsídios para os agricultores, e a democratização da terra ganha peso na discussão política por ser uma saída para a crise. “Precisamos de Reforma Agrária para resolver problema da fome, das mudanças climáticas e da estratégia da soberania alimentar”.

Leia a seguir a entrevista do dirigente do MST, que atua no Mato Grosso do Sul.

Qual a avaliação do MST e da Via Campesina sobre a polêmica em torno da elevação do preço dos alimentos?

Não existe uma polêmica, mas uma desculpa do capital para justificar o aumento. Em primeiro lugar, é reflexo de um modelo de produção agrícola baseado na Revolução Verde. Houve uma industrialização da produção de alimentos baseados em insumos petroquímicos, pesticidas e agrotóxicos. Passamos depois por uma segunda fase, com a liberalização do comércio agrícola, dentro do neoliberalismo, no qual as empresas transnacionais passaram a dominar as sementes, o comércio e as grandes cadeias de supermercados. Esse modelo de produção e o novo padrão de consumo levaram os agricultores e os países a perder a sua soberania alimentar. Hoje as grandes empresas têm monopólios que controlam o comércio dos produtos alimentares. Os governos não têm o que fazer porque não controlam esse sistema, não têm o controle de preços nem políticas de controle de estoque. Nessa etapa, o grande problema é a especulação financeira.

Como isso funciona?

Os produtos agrícolas passaram a ser commodities, que agora são vendidas nas bolsas de valores em ações. Grandes especuladores controlam 60% do trigo, por exemplo. A alta do preço dos produtos agrícolas tem origem na especulação financeira. Esses produtos são vendidos a seis ou sete vezes mais caros nas bolsas, sem em muitos casos existirem. O segundo elemento é a produção de agrocombustíveis, com a utilização de terras agrícolas em várias partes do mundo, onde poderia se produzir alimentos, e com o uso de produtos agrícolas para etanol. O terceiro está relacionado à alta do preço do petróleo. O modelo atual usa petroquímicos para fertilização e faz os alimentos circularem ao redor do mundo, o que causa um custo de transporte muito alto, encarecendo os produtos. Tem outros elementos marginais, como intempéries em algumas regiões. O fundamental é que não existe um problema de produção agrícola nem de superconsumo, mas uma quantidade maior de produtos que o consumido e a especulação financeira.

Uma das teses é que o preço dos alimentos está subindo por conta do aumento do consumo. O presidente Lula disse que o preço aumentou no país por causa do elevação do número de consumidores com seus programas sociais e com o crescimento da economia.

Não concordamos com essa avaliação. É uma mentira. Em geral, não aumentou o consumo nem diminuiu a produção, existe alimento em excesso. O verdadeiro problema é a especulação financeira. O modelo de produção e consumo levou a um monopólio, controlado pelas empresas, que causaram a perda da soberania alimentar. Os agricultores não têm soberania alimentar e a população pobre não consegue comprar alimentos. Com a subida dos preços dos alimentos, o consumo vai diminuir. Como uma família que recebe a bolsa do governo de 60 reais vai aumentar o consumo se o preço do alimento duplicou? Diminuiu o consumo de alimentos. Aumentou o preço do feijão, do arroz, da carne e do óleo, como vão consumir mais? Essa é uma saída pela tangente para explicar o aumento dos preços. O modelo agroexportador é a principal causa dessa crise.

Qual a avaliação dos protestos que aconteceram no mundo, em cerca de 30 países, por conta da crise do preço dos alimentos?

Isso é uma tendência. Não são apenas protestos, mas aconteceram mortes no Haiti, na Argentina, no Paraguai, além dos países africanos, por causa da fome. O povo precisa protestar porque a fome é violenta e está levando as pessoas à morte. A tendência é que as manifestações aumentem em todos os continentes, na Ásia, África e na América Latina. A saída proposta pelos organismos internacionais é a “ajuda alimentar”. Isso significa que o capital vai ganhar ainda mais dinheiro com base na fome dos pobres. Não vão doar alimentos, mas vender a preços internacionais do mercado. O capital propõe mais do mesmo, com mais neoliberalismo. Querem mais liberalização comercial e aprofundar o modelo da transgenia, como se o problema fosse a produtividade. Isso não vai resolver, porque o problema é de renda para que as famílias possam consumir. A alternativa é a chamada soberania alimentar, com produção e comércio local e regional para evitar que os alimentos sejam transportados por grandes distâncias. O custo de exportar e importar encarece o preço dos alimentos. Com a produção regional, todos os países têm condições de produzir e alimentar seu povo.

Como fazer essas mudanças para garantir a soberania alimentar?

Precisamos da volta do papel do Estado na agricultura e na produção, e sim aos subsídios para os agricultores, diferente do que defende o governo. Por que o presidente Lula dá subsídios para as grandes empresas, para as papeleiras, para os exportadores agrícolas com a Lei Kandir? Esses recursos deveriam ir para a produção de alimentos. O Estado precisa criar uma legislação que proteja a produção de alimentos, assistência técnica e políticas de garantia de preços para que cheguem de forma barata para os consumidores, porque o salário não permite comprar alimentos suficientes e diversificados. Nem os acordos da OMC (Organização Mundial do Comércio) nem o aumento das exportações vão resolver esses problemas. A resolução da Rodada de Doha, da OMC, vai significar mais liberalização comercial da agricultura. A nossa proposta é a saída da agricultura e dos alimentos dos tratados comerciais, porque devem obedecer a uma política interna de cada um dos países. O governo precisa estar voltado para uma política forte de produção de alimentos diversificados, de qualidade e baratos para a população. Precisamos também distribuir renda para que as famílias possam comprar alimentos. É necessário também uma política de interiorização da produção agrícola e das agroindústrias locais para garantir o abastecimento regional. Não precisa o arroz sair do Rio Grande do Sul e ir para a Amazônia, agregando custo. Em todas as regiões, podemos produzir arroz, feijão, milho, mandioca e carne. Para isso, o governo precisa ter programas. No entanto, deram prioridade para a agricultura de exportação. Assim, tanto faz se o povo come ou não come. Se importam apenas com indicadores gerais, porque o povo que tem acesso alimentos come mal.

Não há problema de falta de alimentos no mundo. Diante disso, a tese de que o Brasil pode produzir alimentos para o mundo inteiro é propaganda para justificar o avanço no agronegócio no país?

O Brasil é uma potencia agrícola e pode produzir produtos que possam faltar em algumas regiões do mundo, mas o problema fundamental não é esse. A África não tem problema de capacidade de produção. As terras, os solos e o clima são suficientes, assim como no Haiti, que precisa de recursos para garantir a produção de alimentos. Eles têm condições e mandar alimentos não vai resolver o problema. Precisam de recursos e estrutura. Dentro do livre comercio, não há solução e pode-se exportar a quantidade de comida possível. O Brasil tem uma visão arrogante. São poucos os países que hoje não têm condições de produzir seus alimentos, a não ser os países árabes pela falta de terras agricultáveis. O problema é a política agrícola.

Qual deveria ser a prioridade do governo?

O Brasil deveria ter uma política de produção de alimentos para o seu povo porque, se 11 milhões de famílias recebem uma bolsa do governo, é uma vergonha para um país arrogante que se coloca para resolver o problema do mundo. Ainda não foi resolvido nem o problema do povo brasileiro. Mais de 70% das famílias que recebem assistência de programas sociais estão na faixa de insegurança alimentar. Mais de 30% estão no nível de pobreza. O Brasil deveria se envergonhar de ser uma potência agrícola, querer alimentar o mundo sem resolver o problema do seu povo.

Qual o potencial da Reforma Agrária para resolver a crise alimentar?

Não podemos resolver o problema da crise alimentar e dos preços dos alimentos sem a Reforma Agrária e uma política de agricultura para agricultores, não uma agricultura industrial, que vai gerar crises porque produz o que dá dinheiro. Nem sempre é alimento. Podem plantar eucalipto, soja, fumo, laranja, enquanto o povo compra alimentos caros. Reforma agrária significa distribuição das terras com capacidade de produção de alimentos para o mercado local. Assim, volta a ser a pauta do dia em diversos países, especialmente na América Latina e no Caribe. Precisamos de Reforma Agrária para resolver problema da fome, das mudanças climáticas e da estratégia da soberania alimentar. O debate é entre o agronegócio, a agricultura industrial, ou uma agricultura com agricultores. Não há saída para esses problemas sem passar pelos agricultores, porque a agricultura industrial aumenta o aquecimento global, destrói o meio ambiente, a biodiversidade e a base da soberania alimentar.

Os assentados sofrem com a falta de crédito, investimento e infra-estrutura. Quais as políticas necessárias para garantir a sustentação e desenvolvimento dos assentamentos?

Esperamos que o governo tome vergonha e garanta questões básicas. O primeiro é o crédito especial para Reforma Agrária, que faz mais de dois anos que está sendo discutido. Precisamos de um crédito que viabiliza a produção de alimentos e o aumento de renda das famílias. Precisamos de recursos suficientes na Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), que são bastante reduzidos, para a compra desses produtos e doação simultânea. Estamos pedindo R$1 bilhão, que não é muito dinheiro para o governo, para que se possa comprar mais produtos agrícolas, pagar um preço justo e garantir o abastecimento das populações em situação de insegurança alimentar, de forma doada ou mais barata. O terceiro ponto é assistência técnica, porque até hoje está muito complicado todos esses programas, em função da legislação. O quarto ponto é a infra-estrutura. Esperamos que o programa de habitação se desenvolva. O quinto ponto é o programa de agroindústria, porque durante o governo Lula nada foi feito. É impossível industrializar e conservar os alimentos sem ter um apoio estrutural para a criação de agroindústrias nas regiões para beneficiar, conservar e armazenar os produtos.

http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=5381

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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

As alternativas energéticas ameaçam o futuro

Leonardo Boff *

Adital / 12 setembro 2007

Pertence aos que se dedicam ao pensamento, refletir sobre os destinos da sociedade em que vivem e, ousadamente, também sobre os destinos do planeta e da humanidade. Digo isso a propósito do novo estado da Terra produzido pelo aquecimento global, a esta altura irrefreável. A grande maioria não se dá conta das conseqüências que advirão de tal verificação empiricamente comprovada.

A primeira constatação que importa fazer é: o aquecimento precisa ser qualificado. Não basta dizer que é andrópico; vale dizer produzido pelo ser humano. Que ser humano? Pelos índios, pelos esquimós? Precisamos dizer com todas as letras: o aquecimento foi produzido por aquela porção de homens que introduziram a produção industrial já há três séculos, aceleraram o consumo energético, inventaram a tecno-ciência que agride ecossistemas (ecologia ambiental), indutora de uma perversa desigualdade social (ecologia social) e devastadora do planeta como um todo (ecologia integral) e projetaram a cultura do consumo ilimitado (ecologia mental). Hoje são corporações industriais globalizadas, gigantes da bioquímica e do agro-negócio e instituições afins. São eles que mais poluem (só os USA 25%) e que mais resistem às mudanças paradigmáticas. Se eles não se alfabetizarem ecologicamente e não mudarem o rumo do mundo poderão levar a biosfera para um impasse desastroso.

A segunda constatação, por mais desafiadora que seja, é singelamente esta: como está não dá mais para continuar. Somos obrigados, se queremos salvar o planeta e a humanidade, a imaginar e a inventar um outro modo de conviver, de produzir para toda a comunidade de vida, de distribuir os bens necessários, de consumir responsável e solidariamente e de tratar os dejetos. Precisamos, como enfatiza a Carta da Terra, de "um modo sustentável de viver" porque o vigente, como foi comprovado matematicamente, não é mais sustentável para 2/3 da humanidade. Isto quer dizer: todas as alternativas energéticas que se estão tomando na construção de uma Arca de Noé salvadora do sistema imperante, escamoteiam o cerne da questão. Elas, tomadas em si, não nos salvarão do dilúvio. Dentro de dezenas de anos vão mostrar sua ineficácia o que vai provocar a maldição da humanidade sobre a nossa geração. Dir-se-á: "vocês foram alertados e sabiam, mas preferiram a cegueira voluntária e a nossa perdição para garantir o curso que lhes dava vantagens".

O memorando Bush-Lula prevê uma produção massiva de etanol seja de cana (Brasil) seja de milho (USA). Atualmente o Brasil produz 17,5 bilhões de litros de álcool. Com a utilização de 90 milhões de hectares agricultáveis poderá chegar a produzir 110 bilhões, podendo controlar 50% do mercado mundial. É incompleta a afirmação que é uma energia limpa. É limpa apenas no uso em carros. Mas em seu processo de produção é poluente porque inclui os fertilizantes, o transporte, a estocagem, as máquinas e a liberação de nitrogênio que contamina poderosamente as águas e, transformado em ácido nítrico, produz chuvas ácidas, danosas para as florestas. Oxalá não ocorra no Brasil o que ocorreu na Malásia: 87% de desflorestamento, expulsões de camponeses e terras roubadas à produção de alimentos.

Para nos salvar importa redesenhar todo o processo produtivo, adequado a cada ecossistema, valorizando tudo o que a humanidade inventou para sobreviver, dos sistemas agropastoris e agroecológicos até à moderna nanotecnologia com sua imensa possibilidade de resfriar o planeta.

* Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=29475