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terça-feira, 8 de julho de 2008

Portugal/Em Lisboa, índios de Roraima terminam viagem pela Europa

Lisboa, 7 jul (Lusa) - Os líderes indígenas de Roraima encerraram nesta segunda-feira, em Lisboa, na Fundação Mário Soares, uma viagem de três semanas pela Europa em que pediram apoio na defesa das suas reservas.

"Levamos daqui mais força, mais esperança e mais fé", disse à Agência Lusa a líder indígena Pierlangela Wapichana, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, após uma reunião com o ex-presidente português Mário Soares.

Durante a tarde, reuniram-se com o presidente da agência humanitária Caritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, e depois com D. Carlos Azevedo, da Conferência Episcopal Portuguesa.

"Transmitimos qual é a nossa situação e solicitamos apoio que puderem dar. Cada instituição vai dar o seu apoio conforme a sua disponibilidade, é uma decisão deles. Estamos satisfeitos. Levamos fé e esperança para o nosso povo, que há mais de 35 anos está nessa luta", disse a líder indígena brasileira.

De Mário Soares, os líderes indígenas levaram a promessa de que o ex-presidente vai escrever ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em apoio à causa.

Na base da reclamação dos indígenas está a atribuição, pelas autoridades locais, de licenças de produção de arroz dentro das suas reservas.

Apoios

O último dia da viagem iniciada em 16 de junho termina com um encontro com associações humanitárias e organizações não-governamentais, no centro de Lisboa.

Em Portugal, os líderes indígenas foram recebidos também pela Comissão de Relações Exteriores do Parlamento, a quem pediram iniciativa semelhante à ação anunciada por Mário Soares.

O padre Elísio Assunção, promotor da visita a Portugal, disse à Lusa que o pedido foi bem recebido pelo Partido Comunista e pelo Partido Socialista, mas que a iniciativa depende de um consenso entre as diversas forças partidárias.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) declarou seu apoio à causa dos indígenas de Roraima, contra uma reversão da decisão de atribuir as terras sob ocupação.

"Fator que nunca deve ser desconsiderado é o aproveitamento dos pobres por quem detém um poderio econômico e pretende aumentar as suas vantagens. Só um desenvolvimento que equacione os direitos de todos pode ser permitido", diz a declaração divulgada por D. Jorge Ortiga.

Viagem

A viagem pela Espanha, Inglaterra, Bélgica, França, Itália e Portugal acontece poucas semanas antes de o Supremo Tribunal Federal julgar 34 ações que contestam a atribuição das terras - homologada em 2005 por Lula, na seqüência de uma demarcação pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O ponto alto da visita à Europa foi uma audiência com o papa Bento 16, em 2 de julho, em que os representantes indígenas apresentaram as suas reivindicações e receberam "o compromisso de ajudar na proteção" das suas reservas.

"Nossa terra está homologada e registrada. Foi um processo longo. Sofremos muito tempo as invasões de fazendeiros, garimpeiros e agora dos grandes empresários de arroz. Mas Raposa Serra do Sol é terra indígena e qualquer outra ocupação não descrita no decreto de homologação é uma invasão que deve ser combatida", afirmou, nesta segunda-feira, o Conselho Indígena de Roraima.

Os indígenas afirmam ainda ser "fundamental que se apurem todos os casos de violência contra a vida e patrimônio dos povos indígenas, bem como os crimes cometidos durante a resistência" aos supostos invasores.

Textos anteriores

Mário Soares manifestará a Lula apoio à Raposa Serra do Sol

Portugal/Mário Soares manifestará a Lula apoio à Raposa Serra do Sol

Lisboa, 7 julho 2008 (Lusa) - Mário Soares, ex-presidente português, revelou nesta segunda-feira que vai escrever a Lula Silva em apoio à causa dos índios de Raposa Serra do Sol, em Roraima, e outras reservas que têm sido supostamente violadas por agentes econômicos.

Em declarações à Lusa após uma recepção na Fundação Mário Soares, em Lisboa, aos líderes do Conselho Indígena de Roraima, Soares afirmou que será uma carta de "apoio à posição do presidente" brasileiro, porque foi o próprio Lula da Silva quem criou oficialmente as reservas, em terras que tinham já sido delimitadas no tempo do antecessor Fernando Henrique Cardoso.

"Estou a fazer o que posso por eles. Tenho simpatia, acho que é uma causa justa", disse Mário Soares.

Questionado sobre a postura que as autoridades portuguesas têm tido nesta questão, o ex-presidente recusou-se a comentar.

"Não é a mim que me compete dizer se [o governo e presidência] têm de ter um papel mais interventivo", disse Mário Soares, remetendo a resposta para o atual presidente da República e para o primeiro-ministro.

"Não tenho de estar no lugar deles. Eu estou no meu lugar, eles no deles. Eu digo a minha opinião", afirmou Soares.

Na base da reclamação dos indígenas está a atribuição, pelas autoridades locais, de licenças de produção - sobretudo de arroz - dentro das suas reservas.

Desde o início desta passagem pela Europa, em 16 de junho, os índios brasileiros estiveram em Espanha, Inglaterra, Bélgica, França e Itália.

Em Portugal, foram recebidos pela comissão de Relações Exteriores do Parlamento e pela Conferência Episcopal, entre outras entidades.

"Estão a fazer uma volta pela Europa, que é a terra dos Direitos do Homem, para que sejam respeitados os seus direitos, que são ancestrais", afirmou Mário Soares à Lusa.

"É preciso dizer que eles não vieram só a Portugal. Foram a Espanha, a Roma - onde viram o papa - a França, onde estiveram com Daniele Miterrand...", frisou.

Sobre a carta que vai escrever a Lula da Silva, Soares recusou-se a adiantar mais detalhes.

Para a líder indígena Pierlangela Wapichana, trata-se de um apoio importante, até pelas relações entre o ex-presidente português e Lula da Silva.

"Todo o apoio ao presidente Lula é importante, principalmente de amigos, porque eles são amigos. Com certeza isso vai dar mais força ao presidente", disse à Lusa a índia brasileira.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Brasil/Raposa Serra do Sol pede ajuda a Portugal em luta por terra

"No Brasil existem 220 povos, 170 línguas. Também estamos aqui para demonstrar essa grande diversidade e sublinhar que nós existimos. Não somos do passado, somos do presente e seremos do futuro" -- Pierlangela



Por Simon Kamm, da Agência Lusa

Lisboa, 3 julho 2008 (Lusa) - Portugal pode ser determinante na luta dos índios brasileiros pela sua terra, afirmaram nesta quinta-feira, em Lisboa, dois líderes indígenas da reserva Raposa Serra do Sol, apelando ao governo português para que ratifique a Convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sob direitos dos povos nativos.

"Temos a convicção de que Portugal nos pode apoiar bastante porque conhece muito bem a nossa realidade. Esperamos a solidariedade da população, das instituições e do governo português para a nossa causa", afirmou hoje numa entrevista à Agência Lusa a representante indígena Pierlangela Cunha (dir.), da tribo Wapixana, pouco depois de ter chegado a Portugal.

"É por isso que instamos Portugal a que ratifique a Convenção 169 da OIT sob Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes [que se debruça sobre a relação entre os povos indígenas e a sua terra, recursos naturais e oportunidades de desenvolvimento] para que outros povos nativos possam solicitar apoio", acrescentou.

Pierlangela Cunha e Jacir José de Souza (esq.), da tribo Makuxi, chegaram hoje a Lisboa para divulgar a campanha de defesa da sua terra "Anna Pata, Anna Yan" (Nossa Terra, Nossa Mãe)" e denunciar as violações e crimes que dizem ser alvo os povos indígenas na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima.

Esta reserva indígena - uma área de 1,67 milhões de hectares onde vivem 19.000 indígenas das tribos Macule, Wapixana, Taurepang, Patamona e Ingarikó - tem sido alvo de disputa entre os índios e seis grandes fazendeiros, que são apoiados pelo governo estadual e se recusam a deixar o território.

"A nossa terra está em perigo. O governo estadual de Roraima quer diminuir a nossa terra para uso dos empresários [agrícolas] na zona", explicou Pierlangela Cunha, lembrando que os seis grandes fazendeiros já ocupam cerca de seis mil hectares do território, que foi homologado e demarcado como reserva indígena pelo governo brasileiro em 2005.

"Aquele território é nosso há muitos anos. A vivência dos nossos antepassados e avós está gravado nas pedras, no chão, em todos os lados", afirmou.

"O que é que nós vamos poder passar aos nossos filhos? Como é que vamos conseguir viver em paz na reserva quando somos forçados a conviver com pessoas que invadiram o nosso território, que estão a destruir o ambiente, que afetam a nossa cultura e nos ameaçam constantemente através de atos de violência", questionou Pierlangela Cunha.

"Ali é a nossa vida, a nossa convivência. Já não temos para onde mais fugir", lembrou por sua vez Jacir José de Souza.

Convencidos de que os índios "apenas atrapalham o progresso", os agricultores interpuseram uma ação no Supremo Tribunal Federal brasileiro (STF) para contestar o decreto de homologação, e exigem que a demarcação do território seja feita em área descontínua para que possam ficar com as suas terras e propriedades.

A anulação do decreto de homologação abriria "um precedente jurídico a todos as outras terras indígenas no Brasil", destacou Pierlangela Cunha, lembrando que "todos os povos indígenas no Brasil vão depender da decisão que for tomada".

Essa decisão pode pôr em causa outras terras indígenas, já demarcadas, homologadas e registradas.

A responsável indígena lamentou que apesar de os direitos indígenas, como o direito à terra, estarem estipulados na Constituição brasileira e em convenções internacionais assinadas pelo Brasil, os interesses econômicos se sobreponham a esses direitos.

"No Brasil existem 220 povos, 170 línguas. Também estamos aqui para demonstrar essa grande diversidade e sublinhar que nós existimos. Não somos do passado, somos do presente e seremos do futuro", afirmou.

"Vamos resistir até ao último índio. Vamos resistir a todas essas pressões econômicas dentro dos nossos territórios", frisou.

"O presidente Lula da Silva tem-se batido pela questão das terras indígenas no país. No caso da Raposa Serra do Sol afirmou que não iria abrir a mão. O que nós pedimos aos países como Portugal é que mandem uma carta a pedir-lhe isso", afirmou Jacir José de Souza.

Os indígenas - que foram nomeados pelo Conselho Indígena de Roraima como representantes dos seus povos, e desde 16 de junho viajam pela Europa para sensibilizar os governos e organizações para a sua causa - exigem que o STF ratifique e faça cumprir o decreto de homologação e finalmente determine a retirada dos agricultores.

No decorrer da sua viagem, eles foram recebidos pelo Papa Bento 16 e outras instituições políticas de países da UE.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Mea culpa: Papa admite genocídio indígena na América Latina

O Papa Bento XVI admitiu nesta quarta-feira (23) que períodos "sombrios" acompanharam a evangelização na América Latina, dez dias depois de ter afirmado no Brasil que esta mesma evangelização não havia sido imposta aos índios.

Como já havia feito depois de Auschwitz (Polônia) e Regensburg (Alemanha), o chefe da Igreja católica tentou suavizar a controvérsia provocada pelo discurso pronunciado no dia 13 de maio passado em Aparecida diante dos bispos da América Latina. Bento XVI também já havia sido infeliz ao qualificar o islamismo como uma religião violenta, entre outros insultos.


A recordação do "passado glorioso" da Igreja católica na América Latina "não pode ignorar o período sombrio que acompanhou o trabalho de evangelização do continente", declarou o Papa alemão nesta quarta-feira.


"Não se pode esquecer o sofrimento e as injustiças infligidas pelos colonizadores às populações indígenas, cujos direitos humanos fundamentais foram muitas vezes desrespeitados", acrescentou.


Em Aparecida, Bento XVI havia afirmado que "o anúncio de Jesus e de seu Evangelho não significou em nenhum momento a alienação das culturas pré-colombianas, e não impôs uma cultura estrangeira", ignorando dessa forma os massacres e as sevícias que acompanharam esta evangelização.


Representantes das comunidades indígenas latino-americanas e dirigentes religiosos expressaram logo em seguida seu desacordo com esta versão peculiar da História.


"A evangelização foi uma imposição ambígua, violenta, um choque de culturas que prejudicou totalmente os índios", lembrou a teóloga católica Cecilia Domevi.


O presidente da Venezuela,
Hugo Chávez, havia pedido ao Papa que apresentasse desculpas aos índios da América Latina por ter negado "o holocausto indígena".


Crimes injustificados


Nesta quarta-feira, Bento XVI destacou que estes "crimes injustificados" haviam sido "condenados em seu tempo por missionários como Bartolomeu de Las Casas e teólogos como Francesco da Vitória", e que eles não deviam ocultar "a obra maravilhosa construída pela graça divina nestas populações ao longo dos séculos".


Em 13 de outubro de 1992, em Santo Domingo, o Papa João Paulo II, predecessor de Bento XVI, pediu aos descendentes das populações indígenas latino-americanas que perdoassem os conquistadores espanhóis. Ele qualificou então sua viagem de "ato de expiação por tudo que foi marcado pelo pecado, pela injustiça e pela violência" na época da evangelização da América.


Ao contrário de João Paulo II, Bento XVI "é insensível ao efeito que suas palavras podem ter nas pessoas que não pertencem a sua esfera intelectual e cultural", notou o vaticanista americano do jornal National Catholic Reporter John Allen.


Em setembro de 2006, em Regensburg, o discurso do Papa sobre a relação entre fé e razão havia provocado uma onda de indignação no mundo muçulmano, por ter estabelecido implicitamente uma ligação entre o Islã e a violência. Bento XVI negou em seguida que sua intenção tivesse sido estabelecer esta ligação e corrigiu o discurso, mas não pediu desculpas.


Em maio do mesmo ano, durante sua visita ao campo de exterminação de Auschwitz, Bento XVI, havia acrescentado na última hora, segundo a orientação de seus conselheiros, a palavra "Shoah" a seu discurso, mencionando as seis milhões de vítimas polonesas sem especificar que metade delas eram judias.
Ele havia corrigido suas declarações em seguida, evocando os "cerca de seis milhões de judeus" exterminados nos diversos campos nazistas. (Fonte: France Presse/ Vermelho / 23 de maio de 2007)

terça-feira, 15 de maio de 2007

Índios se dizem ofendidos por comentários de Bento 16

Por Raymond Colitt

Segunda, 14 Maio, 04h00


BRASÍLIA (Reuters) - Líderes indígenas disseram na segunda-feira ter ficado ofendidos pelas declarações "arrogantes e desrespeitosas" do papa Bento 16 de que a Igreja Católica os havia purificado, e que retomar suas religiões originais seria um retrocesso.

Num discurso para os bispos latino-americanos e do Caribe no encerramento de sua visita ao Brasil, o pontífice afirmou que a Igreja não havia se imposto aos povos indígenas das Américas. Segundo o papa, os índios receberam bem os padres europeus, já que "Cristo era o salvador que esperavam silenciosamente".

Acredita-se que milhões de índios tenham morrido no continente americano em consequência da colonização européia, depois da chegada de Cristóvão Colombo, em 1492.

"É arrogante e desrespeitoso considerar nossa herança cultural menos importante que a deles", disse Jecinaldo Satere Mawe, coordenador-chefe da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

Vários grupos indígenas escreveram uma carta para o papa na semana passada pedindo o apoio dele na defesa de suas terras e de sua cultura. Eles disseram que os índios vêm sofrendo um "processo de genocídio" desde a chegada dos colonizadores europeus.

Os conquistadores contavam com a bênção dos sacerdotes católicos, embora alguns destes depois tenham defendido os índios e muitos hoje estão entre os mais eloquentes aliados dos índios.


"O Estado usou a Igreja para fazer o trabalho sujo na colonização dos índios, mas eles já pediram perdão ... quer dizer que o papa está voltando atrás com a palavra da Igreja?", questionou Dionito José de Souza, líder da tribo Makuxi, de Roraima.


Em 1992, o papa João Paulo 2o falou dos erros na evangelização dos povos nativos das Américas.

As declarações do papa Bento 16 não desagradaram só aos índios, mas também aos padres católicos que os apóiam em sua luta, disse Sandro Tuxa, que comanda o movimento das tribos do Nordeste.


"Repudiamos as declarações do papa. Dizer que a dizimação cultural de nosso povo representa uma purificação é ofensivo e, francamente, assustador", disse Tuxa. "Acho que (o papa) tem sido mal assessorado", acrescentou.


O próprio grupo católico que defende os índios no Brasil, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), distanciou-se do papa. "O papa não entende a realidade dos índios daqui, sua declaração foi equivocada e indefensável", disse à Reuters o padre Paulo Suess. "Eu também fiquei aborrecido".