26 março 2013, ODiario.info
http://www.odiario.info (Portugal)
A imagem clássica da África, difundida pela imprensa-empresa ocidental
– um saco gigante, cheio até a boca de guerras infindáveis, fome, crianças
abandonadas – cria a ilusão de um continente que dependeria existencialmente do
que lhe dê a caridade ocidental. A verdade é exaCtamente o contrário disso. O
ocidente é que depende existencialmente do que extraia da África.
O que o ocidente obtém da África é obtido de várias, muitas maneiras. Dentre
essas maneiras, os fluxos ilícitos de recursos; os lucros que, invariavelmente,
acabam nos cofres dos bancos ocidentais pelas trilhas dos paraísos fiscais,
como já está fartamente documentado no livro PoisonedWells [Poços envenenados],
de Nicholas Shaxson. Ou pelo mecanismo de extorsão do sistema das dívidas
nacionais, pelo qual bancos ocidentais emprestam dinheiro a governantes
militares, quase sempre postos no poder com a ajuda de forças ocidentais, como
Mobutu, ex-presidente do Congo; esses governantes apropriam-se do dinheiro
emprestado, quase sempre em contas privadas no próprio banco que emprestou ao
país, cabendo ao país a missão de pagar juros exorbitantes que crescem
exponencialmente.
Pesquisa recente de LeonceNdikumana e James K. Boyce descobriu que mais de
80 centavos de cada dólar emprestado deixaram o país devedor em “voos do
capital”, no período de um ano, sem jamais terem sido investidos no país
devedor; e que US$ 20 bilhões são drenados da África, por ano, como pagamento
“do serviço da dívida” desses “empréstimos” essencialmente fraudulentos.
Outra via pela qual a África serve ao Ocidente, muito mais que o contrário,
é o saque de minérios. Países como a República Democrática do Congo são
saqueados por milícias armadas que roubam recursos naturais do país e os
revendem a preços inferiores aos dos mercados a empresas ocidentais; muitas
dessas milícias são controladas de países vizinhos, como Uganda, Ruanda e
Burundi, os quais, por sua vez, são patrocinados pelo ocidente - como relatam
rotineiramente os relatórios da ONU.
E há também a via, talvez a mais importante, pela qual a África serve ao
Ocidente, muito mais que o contrário: os preços escandalosamente baixos pagos
na compra de matérias primas da África e, sempre, da força de trabalho africana
que minera minérios, cultiva o que seja cultivável ou colhe o que tenha de ser
colhido. Assim acontece que a África, de fato, subsidia os altos padrões de
vida no ocidente e as empresas e corporações ocidentais.
Esse é o papel atribuído à África pelos donos da economia capitalista
ocidental: fornecedora de recursos e de mão de obra de baixo preço. Para que o
trabalho e os recursos continuem baratos, exige-se, basicamente, que a África
continue subdesenvolvida e pobre; se prosperar, os salários crescem; se se
desenvolver em termos tecnológicos, os preços dos recursos se somarão ao valor
agregado antes da exportação; e valor agregado tem de ser pago.
Assim sendo, a extração de petróleo e de recursos minerais a baixo preço
depende de manter os estados africanos frágeis e desunidos. A República
Democrática do Congo, por exemplo - cujas minas produzem dezenas de bilhões de
dólares de minérios todos os anos - só arrecadou, em recente ano fiscal,
miseráveis US$32 milhões de impostos sobre material extraído das minas, por
causa das guerras por procuração que o ocidente mantêm ativas na região, entre
milícias patrocinadas pelo ocidente.
A União Africana (UA), criada em 2002, surgiu como ameaça nova contra tudo
isso: um continente africano mais integrado e unificado, não seria tão
facilmente saqueado. O que mais preocupou os estrategistas ocidentais foram os
aspectos financeiros e militares da unificação africana. Num nível financeiro,
os planos para a constituição de um Banco Central Africano (que criaria uma
moeda africana única, o dinar, com lastro-ouro) ameaçariam gravemente a capacidade
de EUA, Reino Unido e França para continuar a saquear o continente. Todo o
comércio africano feito mediante o dinar-ouro implicaria, em última instância,
que os países ocidentais teriam de pagar em ouro por recursos africanos que
comprassem, não mais, como até agora, em libras, francos ou dólares que, bem
feitas as contas, sempre podem ser impressos em papel podre.
As duas outras instituições financeiras previstas pela União Africana - o
Banco Africano de Investimentos e o Fundo Monetário Africano - também
comprometeriam fatalmente a capacidade de instituições como o Fundo Monetário
Internacional para manipular as políticas econômicas dos países africanos
mediante seu monopólio das finanças. Como o economista Jean-Paul Pougala
mostrou, o Fundo Monetário Africano, com capital inicial previsto de $42
bilhões “rapidamente suplantará as atividades africanas do Fundo Monetário
Internacional, o qual, com apenas $25 bilhões, conseguiu pôr de joelhos o
continente inteiro e obrigou a África a engolir um processo muito questionável
de privatizações, forçando os países africanos a converter-se em monopólios
privados.”
Além desses desenvolvimentos fiscais potencialmente ameaçadores, houve
também movimentos no front militar. A reunião de cúpula da União Africana em
2004 em Sirte, Líbia, decidiu elaborar uma Carta de Defesa e Segurança Comum
Africana, que incluía um artigo que estipulava que “qualquer ataque contra um
país africano é considerado ataque contra o continente como um todo” - copiada,
de fato, da Carta da Otan. Em seguida, em 2010, foi criada uma Força Reserva
Africana (FRA), com delegação para defender e fazer valer as definições da
Carta de Defesa. Bem evidentemente, se a Otan tivesse de desmontar a unidade
africana pela força das armas, quanto mais depressa agisse, melhor para a Otan.
Mas a constituição da Força de Reserva Africana representou, além de uma
ameaça, também uma oportunidade. Embora houvesse, sem dúvida, a possibilidade
de ela vir a ser força genuína para a independência, para resistir ao colonialismo
e para defender a África contra a agressão imperialista, criava-se,
simultaneamente, a possibilidade de, adequadamente manobrada e sob a liderança
adequada, aquela mesma força converter-se em seu oposto - uma força para
promover a subjugação colonial, ligada numa cadeia de comando ocidental. As
apostas eram - e são - altíssimas.
Os preparativos militares
dos ocidentais na África
O ocidente também já iniciara seus
preparativos militares para a África. O declínio econômico do ocidente, além da
ascensão da China, indicava que o ocidente já não poderia depender tão
essencialmente da chantagem econômica e da manipulação financeira para manter o
continente fraco e subjugado. Vendo claramente que isso implicava a necessidade
crescente de ação militar para manter a dominação, documento publicado em 2002
pela Iniciativa Grupo de Política para o Petróleo Africano [orig.
AfricanOilPolicyInitiativeGroup] recomendava que “um foco novo e vigoroso sobre
a cooperação militar dos EUA na África subsaariana inclua o projeto de uma
estrutura de comando militar subunificada que possa produzir dividendos
significativos na proteção dos investimentos dos EUA.” Essa estrutura veio à
luz em 2008, sob o nome de Comandos dos EUA na África, AFRICOM.
Contudo, os custos - econômicos, militares e políticos – da intervenção
direta no Iraque e no Afeganistão (só o custo da guerra do Iraque já ultrapassa
os US$ 3 trilhões) indicavam que o AFRICOM teria de depender basicamente de
tropas locais, para o serviço de guerrear e morrer. O AFRICOM teria de ser o
corpo que coordenaria (e coordenou) a subordinação de exércitos africanos
presos a uma cadeia ocidental de comando. Isso, em outras palavras, converteu
exércitos africanos em exércitos ocidentais ‘por procuração’.
O maior obstáculo a esse plano era a própria União Africana, que, em 2008,
categoricamente rejeitou qualquer presença de militares dos EUA em solo
africano, o que forçou o AFRICOM a instalar seu quartel-general em Stuttgart,
Alemanha, humilhação para o presidente George W. Bush, que já anunciara,
pessoalmente, sua intenção de implantar o AFRICOM em território africano. O
pior viria em 2009, quando o então líder líbio MuammarKadafi – o mais empenhado
inimigo das políticas imperialistas no continente – foi eleito para presidir a
União Africana. Sob o comando de Kadafi, a Líbia já se convertera em principal
mantenedora e financiadora da União Africana. Agora, o mesmo Kadafi propunha
processo rápido de integração africana, que incluía a constituição de exército
africano unificado, moeda única e passaporte único.
O destino de Kadafi já é de conhecimento público. Depois de montar a invasão
da Líbia a partir de um pacote de mentiras ainda maior do que o que servira de
pretexto para a invasão do Iraque, a Otan destruiu a Líbia, reduziu o país à
condição de mais um estado africano falhado e facilitou a tortura e o
assassinato de Kadafi. Assim se viu livre de seu principal opositor.
Naquele momento, tudo levava a crer que a União Africana teria sido domada.
Três de seus membros – Nigéria, Gabão e África do Sul – votaram a favor da
intervenção militar na Líbia, no Conselho de Segurança da ONU; e o novo
presidente, Jean Ping, apressou-se a reconhecer o novo governo que a Otan impôs
na Líbia e pôs-se a denegrir as realizações de Kadafi. Fez mais: proibiu a
assembleia da União Africana de fazer um minuto de silêncio, depois do
assassinato de Kadafi.
Mas esse quadro não durou. Os sul-africanos foram os primeiros a
arrepender-se do apoio à intervenção; nos meses seguintes, o presidente Zuma e
o ex-presidente ThaboMbeki fizeram sérias críticas à Otan. Zuma disse – com
razão – que a Otan agira ilegalmente ao impedir o cessar fogo e as negociações
que a Resolução da ONU exigia, já intermediados pela União Africana e com os
quais Kadafi já concordara. Mbeki foi além: disse que o Conselho de Segurança
da ONU, ao ignorar as propostas da União Africana, estava tratando “os povos da
África com absoluto desprezo”, o que fez aumentar “a sanha das potências
ocidentais para intervir em nosso continente, inclusive com força armada, para
proteger os próprios interesses, sem considerar a posição dos próprios
africanos.”
Experiente diplomata sul-africano, do Departamento de Relações
Internacionais do Ministério de Relações Exteriores da África do Sul, disse que
“muitos estados da Comunidade Sul Africana de Desenvolvimento [orig. Southern
AfricanDevelopmentCommunity, SADC], sobretudo África do Sul, Zimbábue, Angola,
Tanzânia, Namíbia e Zâmbia, que tiveram papel chave nas lutas de libertação
sul-africanas, não estavam satisfeitos com o modo como Ping conduziu a questão
do bombardeio da Líbia pelos jatos da Otan.” Em julho de 2012, Ping foi forçado
a deixar a presidência da União Africana e foi substituído – com apoio de 37
estados africanos – por NkosazanaDlamini-Zuma, ex-ministra de Relações
Exteriores da África do Sul, braço direito de Mbeki e, bem claramente,
militante do campo oposto ao dos capitulacionistas de Ping. Mais uma vez, a
União Africana estava sob comando de forças comprometidas com genuína
independência.
O assassinato de Kadafi, porém, não tirou de campo apenas um poderoso membro
da União Africana; removeu também o eixo em torno do qual girava todo o sistema
de segurança regional na região do Sahel-Sahara. Usando cuidadosa e complexa
mistura de força, projeto e desafio ideológico e negociação, a Líbia de Kadafi
sempre foi a cabeça de um sistema de segurança transnacional que conseguira
impedir que milícias salafistas se implantassem na região - como reconheceu, em
2008, o embaixador Christopher Stevens, dos EUA: “O governo da Líbia empreendeu
operações agressivas para interromper o fluxo de combatentes estrangeiros,
inclusive com monitoramento cerrado dos portos e aeroportos de entrada, e
rechaçou o apelo ideológico do Islã radical (…). A Líbia coopera com estados
vizinhos no Saara e Sahel, para conter o fluxo de combatentes extremistas e
terroristas transnacionais. MuammarKadafi negociou recentemente um muito
divulgado acordo com líderes tribais tuaregues da Líbia, Chade, Niger, Mali e
Argélia, conseguindo que desistissem de suas aspirações separatistas e das
práticas de contrabando (de armas e de extremistas transnacionais) em troca de
assistência para o desenvolvimento dos seus países e apoio financeiro (…) Nossa
avaliação é que o fluxo de combatentes estrangeiros da Líbia para o Iraque e o
fluxo reverso de veteranos do Iraque para a Líbia diminuiu por causa da
cooperação entre a Líbia e outros estados” - disse Stevens.
Essa “cooperação entre a Líbia e outros estados” refere-se à CEN-SAD
(Communityof Sahel-SaharanStates / Comunidade de Estados Sahel-Saharianos),
organização lançada por Kadafi em 1998 visando ao livre comércio, livre
movimentação de pessoas e desenvolvimento regional de seus 23 estados-membros,
mas com foco principal na segurança mútua e na paz. Além de conter a influência
das milícias salafistas, a CEN-SAD desempenhou papel chave mediando conflitos
entre Etiópia e Eritreia e na região do rio Mano; e negociou solução duradoura
e sustentável para a rebelião no Chade. A CEN-SAD tinha sede em Trípoli e a
Líbia, sem dúvida, era a principal força do grupo. De fato, o apoio da CEN-SAD
foi fator determinante para a eleição de Kadafi à presidência da União Africana
em 2009.
A própria eficácia desse sistema de segurança local foi um duplo golpe
contra a hegemonia do ocidente na África: não apenas aproximou a África de uma
condição de paz, na qual a prosperidade local tornava-se possível, como,
também, simultaneamente, esvaziava o pretexto chave para todas as intervenções
militares do ocidente no continente. Os EUA haviam criado uma sua ‘Parceria de
ContraterrorismoTrans-Sahara’ [orig. ‘Trans-SaharaCounter-TerrorismPartnership’
(TSCTP)], mas, como MutassimKadafi (conselheiro de Segurança Nacional da Líbia)
explicou à ex-secretária de Estado Hillary Clinton em Washington em 2009, a
“Comunidade de Estados Sahel-saharianos (CEN-SAD) e a Força de Reserva tornam
dispensável qualquer TSCTP.”
Enquanto Kadafi esteve no poder e comandou um efetivo e poderoso sistema de
segurança regional, as milícias salafistas no Norte da África não podiam ser
usadas como “terrível ameaça” para justificar invasões e ocupação pelo
ocidente, para salvar os nativos desamparados. Ao conseguir fazer o que o
ocidente diz desejar (mas, em todos os pontos, fracassa sempre) - neutralizar o
“terrorismo islamista” – a Líbia tirou dos imperialistas um pretexto chave para
todas as guerras que fizeram contra a África. Ao mesmo tempo, impediram que as
milícias continuassem a desempenhar outra função histórica que sempre tiveram,
servindo ao ocidente como força ‘alugada’, que agia por procuração, para
desestabilizar estados seculares independentes, como Mark Curtis documentou em
seu excelente Secret Affairs. O ocidente apoiou esquadrões da morte salafistas
em campanhas para desestabilizar a URSS e a Iugoslávia, com grande sucesso; e
planejava fazer o mesmo contra a Líbia e a Síria.
A África depois de Kadafi
Com a Otan trabalhando para fazer
da Líbia estado falhado, esse sistema local foi destroçado. As milícias
salafistas não receberam só equipamento militar ultra moderno, cortesia da
Otan; receberam também carta branca para saquear os arsenais do governo líbio e
um paraíso seguro a partir do qual organizar ataques por toda a região. As
fronteiras entraram em colapso, com a aparente conivência do novo governo líbio
e de seus patrocinadores na Otan – como registra um trágico relatório da
empresa de segurança global Jamestown Foundation.
Segundo esse relatório, “Al-Wigh era importante base estratégica do regime
Kadafi, localizada em região próxima das fronteiras com Niger, Chade e Argélia.
Depois da queda de Kadafi, a base passou a ser controlada por combatentes da
tribo Tubu, sob comando nominal do Exército Líbio, mas sob comando local de um
comandante tubu, SharafeddineBarkaAzaiy, que reclamou que “durante a revolução,
controlar essa base era assunto de máxima importância estratégica. Conseguimos
ocupar a base. Agora nos sentimos abandonados. Não temos equipamento
suficiente, nem viaturas nem armas para proteger a fronteira. Embora sejamos
parte do exército nacional, ninguém nos paga soldo.”
O relatório conclui que “o Conselho de Governo Nacional Líbio (GNC) e o que
havia antes dele, Conselho Nacional de Transição (TNC), falharam na segurança
de importantes instalações militares no sul e permitiram que a segurança de
vastas porções de fronteira no sul fossem de fato ‘privatizadas’ nas mãos de
grupos tribais, conhecidos há muito tempo pela prática, ali tradicional, de
contrabando. Isso, por sua vez, põe em risco a segurança da infraestrutura do
petróleo líbio e a segurança das regiões vizinhas. Com a venda e o transporte
de armas líbias já convertidos em mini-indústria na era pós-Kadafi, as imensas
quantidades de dinheiro com que conta a Al-Qaeda no Maghreb Islâmico conseguem
abrir muitas portas, em região empobrecida e subdesenvolvida. Ainda que a
invasão francesa no norte do Mali consiga desalojar os militantes islamistas,
nem assim haverá o que impeça os mesmos grupos de estabelecer novas bases nas
áreas mal controladas do deserto selvagem no sul da Líbia. Enquanto não houver
estruturas de segurança controladas por autoridade central na Líbia, o interior
desse país continuará a ser ameaça de segurança para todas as demais nações na
região.”
A vítima mais óbvia dessa desestabilização foi o Mali. Não há analista sério
que não saiba que a tomada do Mali pelos ossalafistas é consequência direta da
ação da Otan na Líbia. Um dos resultados do avanço da desestabilização
promovida pela Otan no Mali é que a Argélia – que perdeu 200 mil cidadãos numa
guerra civil contra os islamistas nos anos 1990 – está hoje cercada por
milícias salafistas pesadamente armadas em duas fronteiras: ao leste (fronteira
com a Líbia) e ao sul (fronteira com o Mali). Depois da destruição da Líbia e
da derrubada de Hosni Mubarak no Egito, a Argélia é hoje o único estado do
norte da África ainda governado pelo partido anticolonialista que conquistou a
independência contra a tirania das forças coloniais europeias.
Esse postura de independência ainda está bem evidente na atitude da Argélia
em relação à África e à Europa. No front africano, a Argélia é forte apoiadora
da União Africana, contribuindo com 15% do orçamento da organização; e tem 16
bilhões de dólares empenhados na constituição do Fundo Monetário Africano, o
que faz dela o maior contribuinte do FMA. E nas relações com a Europa, a
Argélia tem-se recusado repetidamente a fazer o papel de nação subordinada que
a Europa espera dela. Argélia e Síria foram os dois únicos países da Liga Árabe
que votaram contra o bombardeio da Otan contra a Líbia e a Síria. E, como se
sabe, a Argélia deu abrigo a membros da família Kadafi que fugiam de ser
massacrados pela Otan.
Mas, do ponto de vista dos estrategistas europeus, muito mais preocupante
que tudo isso é, provavelmente, que a Argélia – com o Irã e a Venezuela –
constituem o que eles chamam de uma “[Organização dos Países Produtores de
Petróleo] OPEC linha dura”, empenhados em vender caro o acesso aos seus
recursos nacionais. Como se lia recentemente em furibundo artigo publicado no
London Financial Times, “o nacionalismo dos recursos” impera. Resultado disso,
“as Grandes do Petróleo padecem muitas dificuldades na Argélia; as empresas
reclamam da burocracia que as esmaga, dos controles fiscais duríssimos e do
comportamento abusivo da Sonatrach, a empresa estatal de energia, que participa
de quase todos os contratos de petróleo e gás.” Na sequência, o artigo observa
que a Argélia implementou “um controverso imposto monstro” em 2006, e cita um
executivo de petroleira ocidental em Argel, que disse que “as empresas [de
petróleo] estão fartas da Argélia.”
É instrutivo observar que o mesmo jornal também acusou a Líbia de
“nacionalismo dos recursos” - ao que parece, o crime mais hediondo, na
avaliação daqueles leitores -, apenas um ano antes da invasão da Otan.
Evidentemente, “nacionalismo dos recursos” significa precisamente que os
recursos de uma nação sejam usados, em primeiro lugar, para promover o
desenvolvimento em benefício da própria nação, não em benefício de empresas
estrangeiras e, nesse sentido, a Argélia bem merece a ‘acusação’. A Argélia
exporta mais de cerca de $70 bilhões em petróleo por ano, e muito desse
dinheiro tem sido usado em investimentos massivos em moradia e saúde pública,
além de um financiamento recente de $23 bilhões, num programa de estímulo para
pequenos comerciantes. De fato, esses altos níveis de investimentos sociais são
considerados por muitos como a principal razão pela qual não se viram levantes
da “Primavera Árabe” na Argélia, em anos recentes.
A mesma tendência de “nacionalismo dos recursos” também aparece anotada em
recente material distribuído por STRATFOR, empresa de inteligência global, que
escreveu que “a participação estrangeira na Argélia sofreu, em larga medida,
por causa de políticas protecionistas aplicadas pelo governo militar fortemente
nacionalista.” Seria evento particularmente preocupante, diz STRATFOR, em
momento em que a Europa aproxima-se de situação em que se tornará muito mais
dependente do gás argelino, com as reservas no Mar do Norte em processo de esgotamento.
“Desenvolver a Argélia como grande exportador de gás natural é imperativo
econômico e estratégico para os países da União Europeia, em momento em que a
produção da commodity entra em declínio terminal na próxima década. A Argélia
já é importante fornecedor de energia para o continente, mas a Europa precisará
de acesso expandido àquele gás natural, para suprir o declínio de suas reservas
indígenas” – diz STRATFOR.
Os planos das Grandes do
Petróleo para a África
Prevê-se que as reservas britânicas
e holandesas de gás no Mar do Norte estarão esgotadas no final dessa década; e
que as da Noruega entrarão em acentuado declínio a partir de 2015. Com a Europa
temerosa de tornar-se superdependente do gás da Rússia e da Ásia, o relatório
anota que a Argélia - com reservas de gás natural estimadas em 4,5 trilhões de
metros cúbicos, e reservas de gás de xisto de 17 trilhões de metros cúbicos –
tornar-se-á fornecedora essencial. Mas o maior obstáculo para que a Europa
controle esses recursos ainda é o governo da Argélia – com suas “políticas
protecionistas” e seu “nacionalismo dos recursos”.
Sem dizê-lo abertamente, o relatório conclui sugerindo que uma Argélia
desestabilizada e convertida em “estado falido” seria sempre preferível a uma
Argélia sob governo “protecionista”. E sugere que “o envolvimento que se vê
hoje das majors de energia da União Europeia em países de alto risco, como
Nigéria, Líbia, Iêmen e Iraque, indica saudável tolerância à instabilidade e a
problemas de segurança.”
Em outras palavras: em tempos de segurança privada, o BigOil já não carece
de estabilidade ou da proteção do estado para seus investimentos. Zonas de
desastre são toleráveis. Intoleráveis, só estados fortes e independentes.
Já aparece, portanto, no radar dos interesses estratégicos da segurança
energética do ocidente, uma Argélia reduzida a estado falhado, exatamente como
o Iraque, o Afeganistão e a Líbia um dia apareceram no mesmo radar.
Com isso em mente, é fácil ver como a política aparentemente contraditória
de armar milícias salafistas num primeiro momento (na Líbia) e imediatamente
depois passar a bombardeá-las (no Mali) faz, de fato, perfeito sentido. A
missão francesa de bombardeio visa, nas próprias palavras dos franceses, à
“total reconquista” do Mali. Na prática, implica empurrar os rebeldes
gradualmente para o norte do país. Quer dizer: diretamente para a Argélia.
Vê-se afinal que a deliberada destruição do sistema de segurança que a Líbia
coordenava em toda a região do Sahel-Sahara trouxe vastos benefícios para os
que contam com que a África permaneça presa no papel de fornecedora
subdesenvolvida de matéria prima barata. O processo já armou, treinou e
assegurou território para milícias que, em seguida, serão usadas na destruição
da Argélia - o único grande estado rico em recursos naturais do norte da África
ainda empenhado numa genuína unidade africana, com independência. A operação
também persuadiu alguns africanos de que - diferente da rejeição unânime contra
o AFRICOM, há pouco tempo - eles realmente precisam, hoje, de que o ocidente os
“proteja” daquelas milícias.
Como a clássica venda de proteção à moda das máfias, o ocidente cuida de
tornar sua proteção “necessária”: arma e atiça ele mesmo as forças contra as
quais, adiante, as pessoas terão de ser protegidas.
Agora, a França está ocupando o Mali; os EUA estão montando uma nova base de
drones no Niger; e o primeiro-ministro britânico David Cameron fala de seu
compromisso com uma nova “guerra ao terror” que se alastrou sobre seis países e
durará décadas.
Mas nem tudo caminha bem, no front imperialista. Longe disso, porque o
ocidente, sem dúvida alguma, contava com não ter de mobilizar seus próprios
soldados. O objetivo inicial era sugar a Argélia e colhê-la exatamente na mesma
armadilha já usada com sucesso contra a União Soviética nos anos 1980 – exemplo
anterior de Reino Unido e EUA, patrocinando violenta insurgência sectária nas
fronteiras do território inimigo, para atrair o inimigo-alvo para guerra
destrutiva de retaliação. A guerra da URSS no Afeganistão, no final, não apenas
fracassou: ela também, no processo, destruiu a moral e a economia do país e foi
fator chave por trás da autodestruição do estado soviético em 1991.
Mas a armadilha para pegar a Argélia não funcionou. A jogada de Clinton e
François Hollande, fazendo a cena do ‘policial bonzinho’ e ‘policial durão’ –
uma “pressionando para a ação” em Argel, em outubro; e as ameaças dos
franceses, dois meses depois – deu em nada.
Simultaneamente, em vez de se manterem fiéis ao roteiro, os imprevisíveis
salafistas, na função de simulacros locais do ocidente, optaram por expandir
sua base no norte do Mali, não na direção da Argélia, como previsto, mas para o
sul, rumo a Bamako, ameaçando desestabilizar um regime aliado do ocidente, ali
instalado, por golpe, menos de um ano antes. Os franceses foram obrigados a
intervir, para mandar os salafistas de volta para o norte, de volta contra o
estado que, desde o início, deveria ter sido seu alvo real.
Até aqui, essa invasão parece contar com certo nível de apoio entre os
africanos que temem os salafistas simulacros do Ocidente, ainda mais do que
temem os próprios soldados ocidentais. Mas, à medida que a ocupação se
aprofunde, desconstruindo a credibilidade dos salafistas e ultrapassando-os em
número de soldados ocupantes, ao mesmo tempo em que se for conhecendo a
brutalidade dos ocupantes e de seus aliados… então, veremos. Veremos quanto
tempo durará tudo isso.
(*no Al-AhramWeekly, 26.02.2013)
Fonte Redecastorphoto. Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu