segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Campanha Nacional pela Anulação do Leilão da Vale do Rio Doce - A VALE É NOSSA!

A conta do bilhão

O jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto denuncia que o crescimento da Companhia Vale do Rio Doce não gerou melhoras para a população local.

LÚCIO FLÁVIO PINTO / Agência Chasque 24 agosto 2007

A Companhia Vale do Rio Doce começou a comemorar, no mês passado, uma façanha que só se completará em outubro: a produção de um bilhão de toneladas de minério de ferro na mina de Carajás, no Pará. A marca foi alcançada com menos de 23 anos de operação, graças a uma extração média de 45 milhões de toneladas por ano. Se a mina tivesse funcionado durante esse período com a capacidade máxima de projeto, de 25 milhões de toneladas, o primeiro bilhão só seria alcançado em 40 anos.

Há, portanto, motivo para tanta comemoração. Haverá ainda mais razões quando o segundo bilhão for atingido. Se a escala atual de produção, em vigor a partir deste ano, que passará de 85 milhões para 100 milhões de toneladas, fosse mantida, Carajás chegaria a 2 bilhões em 10 anos. Acontece que a partir de 2010 a mina já estará funcionando na bitola de 130 milhões de toneladas, respondendo por metade de toda produção de minério de ferro da CVRD, a maior vendedora desse produto no mundo.

São números espantosos. As jazidas de Carajás, com 18 bilhões de toneladas, podiam durar 800 anos se o máximo de produção que era previsto inicialmente se mantivesse. Na média do primeiro bilhão, o tempo de vida útil cairia à metade. No ritmo que a mina terá a partir de 2010, esse prazo baixará para 180 anos. Ou seja, mais 130 anos a partir do momento em que começasse a produzir 130 milhões de toneladas a cada ano.

Em toda a sua história, podemos ver que o minério de Carajás chegou barato ao Japão, garantindo 15% da demanda dos altos-fornos da sua siderurgia. Quando o gigante chinês despertou, provocando o maior impacto mundial da era moderna (a China produz um terço do aço do mundo), a CVRD já dispunha de um esquema afinado para se habilitar a fornecer volumes crescentes, numa escala que já chega a 40 milhões de toneladas, superando o Japão.

Por causa dessa fome de minério para atender à desenfreada expansão da produção de aço, em 2003 a Vale deu um golpe antes impensável: reajustou sua principal mercadoria em 71,5%. E todos tiveram que pagar. Os aumentos seguintes não foram tão notáveis assim, para não dar um nó no mercado, mas continuaram a ser impressionantes.

O resultado foi que a Vale fechou seu balanço quebrando recordes de produção, faturamento, lucro líquido e distribuição de dividendos. Em 2005, foi a empresa que mais dividendos distribuiu no mundo inteiro. Quem aplicou em papéis da Vale ganhou quase 10 vezes mais do que quem investiu em caderneta de poupança nos últimos 10 anos.

A CVRD, há seis anos sob o comando forte de Roger Agnelli, está cada vez mais forte embora razoavelmente endividada, mais internacionalizada e mais diversificada. Mas e o Pará?

O Pará, ao que parece, é um detalhe nessa história, apesar de que sem ele não houvesse parte dessa história. O Pará está à margem, está fisicamente atrás da porteira que controla ou simplesmente veda o acesso às minas de ferro, manganês, cobre, níquel e ouro.

O caos humano – social, étnico, fundiário, policial – fica do lado de fora. Do lado de dentro, a ordem, o compromisso, a determinação. Um universo protegido pelas unidades de conservação que circundam as minas, criadas pelo governo federal, por inspiração da CVRD, que não pôde comprar a superfície do solo que contém as rochas mineralizadas. A empresa proclama que o Pará está muito bem e ficará ainda melhor. Seu plano de investimento é várias vezes superior ao do governo do Estado, que se encolheu comparativamente ao porte da mineradora.

A empresa está disposta a esticar sua imaginação e seu capital até o limite extremo para colocar mais minério paraense no mercado mundial. No entanto, não move uma palha no sentido de transformar minério de ferro em aço dentro do Estado. Não só agregaria mais valor ao produto como teria menos volume a transportar nos comboios, que terão sua capacidade atual aumentada de 220 para 320 vagões no próximo ano, constituindo o maior trem de minério do mundo. Quase um terço do minério transportado é estéril, descartado somente na siderurgia.

É certo que com uma tonelada de ferro de aproximado 90 dólares, é mais atraente vender minério. Mas por quanto tempo? Em que nível de dependência de dois clientes, China e Japão, responsáveis pela compra de mais da metade da produção de Carajás, principalmente da China? E por que privar o Pará de usufruir essa fase de vacas gordas?

Se a Vale só pensa nela, está na hora de o Pará pensar na parte que lhe cabe nessa sucessão de festas de recordes, como uma compensação honesta e devida como numa sobretaxa sobre o lucro, a partir de certo limite. Já está na hora de os paraenses se perceberem de uma coisa: essa enorme e valiosa riqueza que está indo embora, numa escalada crescente, não voltará. Nunca mais.

Lúcio Flávio Pinto é jornalista e sociólogo. É editor do jornal Pessoal, de circulação quinzenal no Pará.

http://www.agenciachasque.com.br/conteudoimpresso2.php?idtitulo=1834b384d71500e5e2b25166bfcace6f

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