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sábado, 20 de setembro de 2008

ESPECIAL BOLÍVIA (I)


UMA GUERRA QUE COMEÇOU HÁ MUITO TEMPO

Os conflitos que a Bolívia enfrenta hoje são uma nova etapa de uma antiga guerra. A história do país é uma história de massacres de indígenas, camponeses e trabalhadores, desde os tempos coloniais até hoje. A diferença, hoje, é que a oligarquia boliviana está sendo governada por um "índio", algo inaceitável para ela.

17 setembro 2008/Carta Maior http://www.cartamaior.com.br

Barcelona (ALAI-Amlatina) - Quem se interessa por história, descobrirá que a da Bolívia é uma história de massacres de indígenas, camponeses e trabalhadores desde os tempos coloniais até hoje. A República sustentou-se sobre a exploração da força de trabalho indígena e dos recursos naturais. A exploração consolidou uma estrutura social e institucional vinculada à produção e à exportação de matérias primas, consolidando no longo prazo uma condição de dependência que a converteu num dos países mais pobres do hemisfério ocidental. Com uma organização social extremamente estratificada e um horizonte estatal frágil, sua história é marcada por exclusão e massacres. Os povos originários nunca deixaram de manifestar seus anseios de liberdade, como provam as inúmeras sublevações, tanto as que culminaram com a grande rebelião de 1780, como as contra os fazendeiros, durante a República.

Algumas destas sublevações tiveram grande magnitude, não só pelo esforço da mobilização e a tragédia que representaram, mas pela memória e herança emancipatória transmitida de geração em geração. As de 1874 e 1899, nas terras altas e nas terras baixas do país, se desdobraram em manifestações que terminaram em novos massacres como a rebelião de Machaca, em 1921, ou a de Chayanta, em 1928. Os massacres de trabalhadores também tiveram sua marca de dramatismo como a matança de mineiros em Uncia, em 1923, Catavi, em 1942, a guerra do Chaco (1932-1935), a revolução de 1946, a de 1952, a de 1964, a matança de San Juan, em 1967, o golpe militar de Bánzer, em 1971, o massacre de trabalhadores e universitários de 1979, a marcha pela vida, em 1986, a marcha pela terra , em 1990, a guerra do gás e o massacre de El Alto, em 2003, e, agora, o massacre de Pando.

Com o tempo, consolidou-se na estrutura mental dos povos indígenas e dos movimentos populares, tanto das terras altas como das terras baixas, uma cultura política insurrecional e de resistência anticolonial que foi e é uma guerra longa e intermitente contra os invasores e seus descendentes, que cruza de forma transversal toda a história boliviana. Agora, esses movimentos populares e indígenas, liderados pelo presidente Evo Morales, converteram-se em uma real opção de poder político e construção de uma nova hegemonia política que questiona a estrutura oligárquico-clientelista e antinacional que governou o país até dois anos atrás. Os movimentos indígenas e campesinos já não são sujeitos de postais folclóricos, agora são uma real opção de poder político para o país. Essa é a dimensão deste novo paradigma.

Inclusive a esquerda tradicional, baseada em paradigmas que já não se sustentam, como o fato de assumir a “inevitável” vanguarda operária em todos os processos revolucionários, tem dificuldade em assumir a potência deste novo e, ao mesmo tempo, antigo ator social cuja estratégia de poder se sustenta na recuperação do Estado para as maiorias nacionais e que este sirva não só para assegurar a propriedade dos recursos naturais para todos os bolivianos, mas também para redistribuir as rendas obtidas com sua exploração. O conservadorismo da oligarquia boliviana, idêntica a de qualquer outra região, viu-se obrigada a aceitar ser governada por um “índio” que, segundo seus cálculos, cairia por si próprio e por sua condição de “índio”. Mas quando se questiona a estrutura da propriedade da terra, estão dispostos a tudo para não abandonar o cenário da história.

A sedição aberta da direita responde a uma estratégia planificada e coordenada de violência, bloqueios de estradas, ocupações de entidades estatais, controle e saque de instituições públicas, plano de fustigamento e ameaças, ocupação de quartéis, fechamento de válvulas de gás, desabastecimento de produtos básicos, desestabilização econômica, criação de um clima de insegurança e desgoverno. Um pano golpista que coincide, quase como uma cópia, com o que ocorreu no Chile durante o governo de Salvador Allende. Com tudo isso, ainda fica no ar uma sensação de passividade por parte do governo boliviano. Os movimentos sociais tomaram a iniciativa de conter a escalada golpista com a mobilização de suas bases, cuja decisão é frear a direita com a autoridade moral que lhes dá o sangue derramado, sua capacidade combativa e o horizonte de um modelo de país diferente.

Foram eles que carregaram sobre seus ombros os vexames e a marginalização a que os submeteram a colônia e o estado republicano oligárquico. O governo popular tem a obrigação de fazer respeitar o Estado de Direito em todo o país e levar para a Justiça os criminosos, sediciosos e paramilitares fascistas que executaram um novo massacre. O que eles pensaram que seria um elemento que incendiaria os sentimentos regionalistas autonomistas da direita fascista, acabou gerando uma reação contrária. O crime e a barbárie desta ação expôs essa direita. As Forças Armadas e a Polícia Nacional, historicamente, atenderam aos interesses da oligarquia a qual pertencem seus principais oficiais. Isso explica em parte sua posição de “braços cruzados” e inoperância frente às ações ameaçadoras da classe social com a qual se identificam.

Na história dos massacres, os militares sempre foram os atores inconfundíveis da repressão e da morte. Em todos os casos, atuaram como sicários a serviço das oligarquias. Exceto no último massacre campesino de Pando. Isso não é sinal de nada, só que devem cumprir a lei que lhes assinala a responsabilidade de serem “garantidores da unidade da pátria” e de obedecerem ao seu comandante geral, o presidente Evo Morales. Mas é preciso não cair na ingenuidade de pensar que estejam de acordo com o novo projeto de país que se constrói na Bolívia. A maior debilidade do campo popular é sua extrema diversidade e as lutas setoriais. A maior vantagem, a capacidade e tradição de luta revolucionária. O país está chegando a um ponto de bifurcação, a um ponto de inflexão e ruptura. A saída “democrática” foi esgotada com os resultados do referendo revocatório.

A violência provocada pelas oligarquias deve enfrentar as conseqüências da resposta popular. A guerra civil que muitos temem, na verdade, já começou há muito tempo, só que agora adquire uma dinâmica diferente, uma liderança distinta. O projeto emancipatório que devemos apoiar é o da “Revolução democrática e cultural”. O presidente Evo Morales assume com uma fortaleza grave a liderança desta nova etapa. Definindo que sua posição está ao lado do povo que hoje decide assumir o desafio que lhe impõe a história. A principal tarefa dos movimentos sociais e indígenas é tomar a iniciativa e passar da resistência à ofensiva. O seguinte passo é aprovar a Nova Constituição Política do Estado.

* Economista boliviano, professor da Universidade Autônoma de Barcelona.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15239&editoria_id=6


terça-feira, 16 de setembro de 2008

Brasil/Apesar do editor, repórteres mostram drama do Plán 3000

14 de setembro de 2008/Vermelho http://www.vermelho.org.br

Nem tudo está perdido no jornalismo que se pratica na mídia hegemônica. Laura Capiglione e Marlene Bergamo, por exemplo, enviadas a Santa Cruz pela Folha de

S.Paulo para cobrir a queda-de-braço boliviana, pintaram um vivo retrato da favela Plán 3000, enorme reduto pobre, indígena e pró-Evo Morales na periferia de Santa

Cruz. Mesmo castigada pela edição, a reportagem ajuda a mostrar a contradição social profunda nas entranhas desse departamento supostamente fechado com o ''autonomismo'' oligárquico.


Por Bernardo Joffily


A deformação editorial ficou por conta do título – Índios se enfrentam em reduto evista –, que ao que tudo indica não é culpa das repórteres. A chamada na capa do caderno Mundo do jornal reforça o equívoco: ''Confrontos em reduto de Morales na periferia de Santa Cruz expõem oposição entre indígenas''.

Basta ler com atenção a reportagem para constatar que o editor entendeu tudo errado. Ou, pior, fez um esforço para que o leitor desavisado entenda tudo errado.

A reportagem não descreve um ''conflito entre indígenas''. Pinta o drama inacreditável do Plán 3000, um bairro de 250 mil moradores – homens, mulheres, muitas crianças –, atacado todas as noites pelas milícias da oligarquia cruzenha, em nome do racismo e do ''amor ao capitalismo''.

A crueldade oligárquica só fica mais realçada pelo fato dos soldados das milícias serem tão índios como suas vítimas. A classe dominante cruzenha ''terceirizou'' sua violência, assalariando gente pobre para fazer o serviço sujo.

Está tudo na reportagem. Não é um texto ''evista'' ou ''antievista'', só um trabalho de duas jornalistas brasileiras, com olhos e ouvidos na Santa Cruz convulsionada. Só uma amostra de que apesar de todos os pesares ainda sobram brechas na grande imprensa por onde se pode infiltrar um jornalismo que mereça este nome.

Confira o trabalho de Laura e Marlene:

''Oposição no departamento mais rico da Bolívia paga a indígenas assimilados para que, todo dia desde piora da crise, confrontem migrantes''

'''São uma gente horrorosa. As collas [índias] fazem cocô nas ruas e se limpam nas próprias saias. O cheiro é horrível. É um povo de não-cristãos. Não compartilham conosco os valores ocidentais e o amor ao capitalismo.'

A descrição quem faz é Andrés Gómez, 22, editor, branco, morador na zona central do departamento de Santa Cruz, o mais rico e um dos mais aguerridamente anti-Evo Morales. O objeto da descrição são os moradores do Plán 3000, periferia de Santa Cruz, favelão com população majoritariamente imigrante do altiplano (La Paz, Cochabamba, Oruro, Potosí, entre outros), a voz do gueto indígena e miserável no meio da próspera Santa Cruz.

Há uma semana, os quase 250 mil moradores de Plán 3000 têm sido obrigados a trocar o dia pela noite. or volta as 18h, a praça central do bairro começa a se encher de gente que sai de suas casas para passar a noite ao relento. Forma-se um formigueiro humano, espécie de rua 25 de Março enlameada. É para se defender.

Desde que os departamentos da chamada meia-lua -as terras baixas na parte oriental da Bolívia cujos governos fazem oposição ao presidente- iniciaram o novo ciclo de desafios ao governo central, gangues de até mil autonomistas (o pessoal anti-Morales), assim que o sol se põe, começam a guerra psicológica: cercam o Plán 3000, soltam rojões, sobrevoam o local com aviões de pequeno porte, empunham paus, arremessam pedras.

'Para nós é questão de honra vencer esses índios sujos que insistem em apoiar Morales', afirmou à Folha Carlos Ortiz Cizendo, 15, que vive longe dali. O menino diz ter recebido 200 bolivianos, ou R$ 40, para atuar durante toda a noite de sexta-feira e madrugada de sábado como soldado da tropa de choque autonomista. 'Também recebi comida e um cassetete preto', diz, e mostra, todo orgulhoso, o instrumento.

Homens, mulheres e crianças correm de um lado para o outro nas quatro entradas do bairro, tão logo espalha-se mais um boato de invasão.

Ateiam fogo a pneus e lançam rojões enquanto seus meninos posicionam-se para a batalha. Essa rotina dura até por volta das 23h, quando começam os ataques de verdade e os choques entre os dois grupos. A polícia não intervém.
Como o pessoal do bairro, Ortiz tem a tez escura, os olhos puxados e os cabelos lisos. É indígena, mas se diz um 'camba'. 'Sou católico, uso banheiro, sou limpo e ocidental.'

O grupo de choque de Ortiz tem 300 jovens índio-descendentes como ele. Uma van Mitsubishi cheia de jovens universitários brancos distribui porretes, rojões e alimentos. Suprimentos para os invasores.

Em Santa Cruz, existe profunda rivalidade entre os índios que se chamam de 'collas' e os que se denominam 'cambas'. 'Collas' são os que vêm do altiplano, majoritariamente pró-Evo Morales. 'Camba', que um branco também pode ser, significa pertencer ao mundo moderno, da produção e do consumo capitalistas.

Rastro de fogo


Na quarta-feira, a milícia pró-autonomia conseguiu penetrar na rotatória que dá acesso ao Plán 3000. Saqueou o mercado local. Autonomistas fugiram com nacos de carne crua, verduras, arroz e batatas e deixaram um rastro de fogo e destruição.

A 'Casa do Povo' – sede do MAS (Movimento ao Socialismo), partido do presidente –, no coração da favela, tornou-se foco da resistência. Lá, na sexta-feira, cozinhava-se a alimentação coletiva (canja de galinha com verduras, arroz, milho e tomate), preparavam-se coquetéis molotov, paus com pregos, fundas, estilingues e escudos de papelão e madeira. Parece uma guerra de meninos, apesar da gravidade da situação.

Plán 3000 ama Morales. Ele foi o primeiro presidente a visitar o local, desde que, nos anos 80, transformou-se uma antiga fazenda em alojamento para 3.000 famílias de flagelados de uma enchente do rio Piraí.

Morales, que mal consegue pôr os pés no centro insurgente de Santa Cruz, já foi a Plán 3000 uma dezena de vezes, desde sua eleição, há dois anos e nove meses. Inaugurou o primeiro hospital, a primeira universidade do local, o sistema de esgoto, escola, praça, a pedra fundamental do novo mercado.

Jenrry Martínez Román, 43, é uma das principais lideranças de Plán 3000. A mãe e o pai, um dirigente dos trabalhadores em minas de estanho de Potosí, ele perdeu, assassinados pelo Exército, quando ainda era criança. O avô morreu durante a guerra do Chaco (que opôs a Bolívia ao Paraguai, entre 1932 e 1935).

Martínez Román grita palavras de ordem em quéchua e aymará (línguas indígenas tradicionais) em um megafone instalado no meio da praça. De todo o fraseado, só se entende um 'Evo Morales', no fim.

Homens e mulheres respondem, também nessas línguas. O discurso é transmitido pela rádio Integración, 102,3 MHz, que convoca a favela e o conjunto residencial Primeiro de Maio, vizinho, para a vigília, enquanto entremeia toda a locução por jingles que são músicas de protesto.
Estão todos prontos para a batalha.''

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=43338

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Após sucessivos golpes e guerras, paraguaios ainda não consolidaram democracia

Ana Luiza Zenker/Agência Brasil

Brasília, 14 abril 2008 - Um país que ainda busca consolidar um regime democrático, depois de passar por sucessivos golpes de Estado, revoluções e guerras. É assim que o historiador e diretor do Instituto de História e Museu Militar do Ministério da Defesa Nacional do Paraguai, Hugo Ramon Mendoza Martinez, descreve o momento histórico vivido no país vizinho ao Brasil, que elege um presidente para substituir Nicanor Duarte no próximo domingo (20).
Primeiro país latino-americano a conseguir independência do Império Espanhol, em 1811, e primeiro a se declarar uma república, em 1813, o Paraguai conheceu logo o que é uma ditadura. De 1814 a 1840, foi governado por Gaspar Rodríguez Francia, seguido pelos também ditadores Antônio López e Solano López. Apesar do regime, Martinez diz que “o Paraguai seguiu um processo de desenvolvimento econômico e social muito importante no contexto latino-americano.
Em 1865, veio a Guerra do Paraguai, contra a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai. O conflito deixou o país “devastado e tutelado pela Aliança” e criou uma "cicatriz profunda na alma popular, pois interrompeu um processo muito importante do Paraguai", diz o historiador. "Perdemos muito da nossa auto-estima com a derrota”, acrescenta. Dois terços da população morreram (300 mil pessoas) e "ficaram somente as crianças, os velhos e as mulheres”.
Após a Guerra do Paraguai, seguiu-se um período de disputas políticas entre os dois principais partidos, o Liberal e o Colorado. Este último prevaleceu até 1904. Daí até a Revolução Febrerista de 1936, que derrubou o governo liberal e colocou o coronel Rafael Franco na Presidência, com um governo populista e nacionalista, os liberais estiveram no poder, e voltaram logo em seguida, em 1937. Nesse período, além de guerras civis e revoluções, houve mais uma guerra contra um país vizinho, a Bolívia.
Na Guerra do Chaco, de 1932 a 1935, estava em jogo o controle do território do Chaco, no norte do Paraguai. Apesar de pouco preparado para o confronto, uma vez que em 1922 o país passou por mais uma guerra civil de disputa pelo poder, o exército paraguaio venceu. “Essa vitória contra a Bolívia nos devolveu um pouco a confiança, a auto-estima. A partir dali, o Paraguai teve um pouco de política externa relativamente independente”, lembra Martinez.
Em uma nova revolução, em 1947, a Aliança Nacional Republicana (Partido Colorado) chega ao poder, e dá as cartas por um período ainda instável politicamente, até 1954. “As pessoas estavam cansadas de tanta instabilidade, porque de 1904 até 1954 houve uma grande quantidade de revoluções, golpes de Estado e guerras civis, então praticamente apoiaram a ditadura do general Stroessner”, afirma o historiador.
O colorado Alfredo Stroessner ficou no poder até 1989, quando foi deposto por um novo golpe de Estado, liderado pelo também colorado Andrés Rodríguez. Desde então, os presidentes são eleitos. Mas todos eles até agora são do Partido Colorado, que este ano completa 62 anos seguidos na Presidência paraguaia.
Apesar desse domínio do partido, Martinez destaca que “continuamos a ser uma democracia”. “Temos o processo democrático mais longo de toda a nossa história, são 18 anos de democracia, praticamente inéditos no país”, diz. No entanto, ele lembra que falta a alternância no poder, condição necessária para a consolidação da democracia. “Isso não ocorreu ainda no Paraguai”, conclui.
Quando a democracia estiver consolidada, alguns milhões de paraguaios viverão nela, já que a população, devastada na Guerra do Paraguai, hoje passa dos 6 milhões. Houve um salto a partir da década de 1980, quando o número de habitantes praticamente dobrou por causa do início das atividades da Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu.

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/04/12/materia.2008-04-12.6464035279/view

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