terça-feira, 16 de julho de 2019

Brasil/CARTA ABERTA AOS PROCURADORES DA LAVA JATO


11 de julho de 2019, 09:52 h, Brasil 247 https://www.brasil247.com (Brasil) https://www.brasil247.com/blog/carta-aberta-aos-procuradores-da-lava-jato


Impulsionados pelo furor de vis interesses, os senhores e o juiz justiceiro macularam as suas instituições: a que investiga e a que pune

Senhores Procuradores,

Nesta hora grave em que se debate o país, dirijo esta mensagem aos meus colegas do Ministério Público, sobretudo aos jovens, como um despertar para o relevante múnus público de que somos investidos por força de postulados constitucionais. Sobressalta a todos nós que lutamos pela salvaguarda da ordem jurídica, do devido processo legal e dos direitos humanos os rumos da nossa instituição.

Abram passagem à razão e à inteligência para que
este tão sofrido e desencontrado Brasil não seja, pelo ódio, o preconceito e a estupidez, arrastado ao atraso.

Egresso dos quadros do Ministério Público, participei, ao lado de devotados constituintes de larga estatura política e visão de mundo, dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte (1986-1988), da qual emanou um novo e vigoroso Fiscal da Lei.

Tento ultrapassar o meu próprio tempo para compreender aqueles que se julgam senhores da razão e da verdade. Que pobres incautos!

Face à profunda crise política e econômica que domina a nação, cabe a cada um de nós e, em especial, aos agentes do Ministério Público, assumir a desafiadora função de calar o cinismo, apontar os oportunistas, desvendar as tramas que levaram o país a este fanatismo insensato que nos lança uns contra os outros, defender a justiça tão conspurcada por preconceitos ideológicos, reanimar os fracos, que se escondem no silêncio, convocar os fortes e sábios para a cruzada em defesa da verdade contra essa marcha da insensatez que nos ameaça com um futuro imprevisível.

Cessem com investigações cinematográficas que abalam o país e desorganizam os esforços para o reencontro com o desenvolvimento. Afastem-se das vantagens de uma indústria da delação premiada para forjar provas e abrir espaço para a ambição dos oportunistas. Reneguem a busca por aplausos fáceis, combatam os interesses escusos de poderosos grupos nacionais e internacionais.

Estas palavras vêm de quem enfrentou pesados desafios e cegas ditaduras no Brasil e no mundo.

O país sofre enormes perdas econômicas e financeiras, muitas das quais provocadas por operações de indefinidos propósitos. Apenas a Operação Carne Seca causou mais de um bilhão de reais de prejuízos para as nossas receitas de exportação. Só uma lei rege os espertalhões: a do poder econômico ou político.

Onde se encontra o maquiavélico julgador da Lava Jato? No Ministério da Justiça, e os seus cúmplices investigantes na busca insana de abocanhar mais de dois bilhões de reais de uma multa arrancada da Petrobras nos Estados Unidos para a criação de uma duvidosa fundação.

Onde se encontra a esperança por justiça neste Brasil de hoje, encurralado entre a mediocridade e o lunático? Destruída pela insensatez e por uma raiva canina de apequenados personagens. Apenas se ouve o grito do condenado de Caetés, ultrajado por forjadas provas arrancadas de delatores desesperados através de um criminoso conluio entre os que investigam e os que julgam. Que grande farsa!

Na atual conjuntura do país, a idiotia exalta o fanatismo para negar a inteligência. Zomba da educação e renega a cultura. Afinal, para onde querem levar este país?

Quando os povos se domesticam e perdem a capacidade de pensar, os bufões dominam a cena e se vestem de messiânicos da sociedade, da justiça, e alguns se fazem vestais do moralismo público. Que farsantes!

A Lava Jato produziu esses tipos e um deles se investe cinicamente de Ministro da Justiça de um governo que ajudou a eleger. E, muitos ainda, como os carneiros de Pannunzio, acreditam nesse impostor. Na interminável contenda entre o idealismo que constrói e a estupidez, a imbecilidade pede passagem. O horror à inteligência e ao diálogo ata-os à mente preconceituosa e a um fanatismo que agride a racionalidade: "Amo Israel"; "Sempre admirei os EUA"; "A terra é plana"; "O cidadão precisa de armas".

Quando o destino chama um estadista para reconstruir uma nação ou um líder para guiar o seu povo, a mediocridade mancomunada e arregimentada resiste. Neste altar, onde o Escamoucho presidencial medra, a paixão do besteirol é servi-lo cegamente.
Nestes tempos, não se pensa, lançam-se chavões; não se interroga, impõem-se ideias; não se governa, faz-se apologia à tolice.

Oh, tempora! Oh, mores, clamava Cícero no Senado romano, há mais de 2000 anos.

Procuradores, exerçam a função de agentes do Estado como vigilantes impávidos da ordem jurídica e do imparcial processo legal. Jamais se façam instrumentos de ambições desenfreadas daqueles que carregam apetites pessoais e não a imparcialidade dos magistrados dignos. Na escalada de certos vultos ao poder, retratam-se os desastrados resultados de suas suspeitas condenações investigativas.

Cessem as suas ações audaciosas e temerárias. Só os tipos humanos amesquinhados vivem sempre no joguetear das artimanhas, contanto que as suas ambições sejam saciadas. Repilam o moralismo de Tartufo que envolve uma simbologia repugnante. No momento das decisões difíceis e necessárias, encontram-se os verdadeiros homens. Saramago, certa vez me disse: "Quão difícil é encontrar um Homem".

Que horas sombrias atravessa o país. A bestialidade fez-se horda e pulula pelos poderes e estende tentáculos por toda a sociedade. Entidades que estiveram sempre na vanguarda em defesa dos direitos humanos e da ordem democrática, como a OAB, a ABI, a CNBB e tantas outras, hoje quedam-se cúmplices de um silêncio condenável e se posicionam naquela grotesca postura de Pilatos
. 
Procuradores, os senhores não se inebriem diante das luzes dos holofotes televisivos, nem se agachem aos aplausos fáceis das multidões frenéticas. Jamais sirvam de pau-mandados de carreiristas e oportunistas. Olhem a história dos povos e do próprio Brasil. Onde estão aqueles que se fizeram algozes de Frei Caneca, de Vargas, de Juscelino e de Brizola? No esquecimento e na lata de lixo da história.

A que calvário infame os senhores arrastam o ex-presidente Lula! A quem os senhores serviram para esta nefasta e aberrante aventura judicante? A quem os senhores serviram quando interferiram na Venezuela e fizeram divulgação contra o governo desse país, instrumentalizando-se de uma delação premiada da Odebrecht? Na primeira interrogação, a espertalhões que hoje se desmandam à frente do poder. Saibam que cada passo na busca da verdade e da justiça é fruto de uma investigação serena e digna, custa muito sacrifício e impõe desafios, ao contrário de decisões inconsistentes e ilegais.

Por esta senda os pregadores do moralismo público se agigantam e berram: "O Brasil está mergulhado na corrupção"; "Acabaram a Petrobras". Que cretinos! Mentem em nome dos grandes acionistas desta empresa petrolífera, de banqueiros e de grandes exportadores. 
Basta, senhores procuradores!

Este teatrão tragigrotesco de mais de cinco anos arrastou o nosso país a uma depressão enorme e à destruição de empresas nacionais, sobretudo das grandes construtoras, com prejuízos por volta de 300 bilhões de reais.

Procuradores, quo vadis, quo vadis, para onde ides com a ordem jurídica que ultrajastes?

Que monumental farsa processual os senhores, em conluio com o Torquemada da Lava Jato, armaram contra a sucessão presidencial de outubro de 2018.

O site The Intercept Brasil, o jornal A Folha de São Paulo e a revista Veja escancararam ao país e ao mundo os porões de uma justiça de fancaria e mergulharam fundo num mar de lama que pulula no poder judicante de Curitiba, comandada pelos senhores e o justiceiro Moro. O que estarrece a nação em face deste gigante iceberg, do qual aparecem as primeiras pontas?

Ali, naquela selva de ilegalidade, autoritarismo e insensatez, o direito e a justiça são pisoteados e renegados. De prisioneiros e centenas de desesperados pelo medo os senhores extorquiram, por torturas psicológicas, os mais vis e fantasiosos depoimentos e delações premiadas. Nesta escuridão medieval em que se sangra a justiça, as suas vidas serão pinceladas como aqueles figurantes do quadro de Picasso em Guernica, Espanha. Apodrecidos tipos humanos.

Impulsionados pelo furor de vis interesses, os senhores e o juiz justiceiro macularam as suas instituições: a que investiga e a que pune. Sob a estratégia de uma mídia comprometida, inebriaram o povo brasileiro e anestesiaram a consciência da sociedade com prisões cinematográficas, longas prisões preventivas e delações premiadas extraídas por tortura psicológica, como caracteriza Raul Zaffaroni. Que horas graves e sombrias vivemos. Os lacaios da justiça se glorificam e os condenados, vários deles, carregam injustamente a pecha de corruptos.

Os incapazes sempre se insurgiram contra os grandes vultos: deram a Sócrates veneno, crucificaram Cristo, apunhalaram César, desterraram Dante, aprisionaram Alfred Dreyfus na Ilha do Diabo, lançaram no cárcere Mandela, mataram Vargas, degradaram Juscelino e, hoje, arrastam o ex-presidente Lula a um monstruoso martírio. É o pesado tributo que pagam aqueles que marcaram o destino humano. Nesta época de lunáticos, os palácios se povoam de sequazes que comandam o espetáculo do cinismo por fraudes processuais e injustas condenações.

Basta, Senhores Procuradores! Ponham na consciência de cada um o dever a ser cumprido. Lembrem-se: viver não é preciso, ter fibra moral é preciso.

Atenciosamente,


Foi constituinte em 88 e um dos principais artífices do fortalecimento do Ministério Público na Constituição. Recebeu a máxima comenda da Associação Nacional do Ministério Público pelos relevantes serviços prestados ao MP. É escritor brasileiro e ativista dos direitos humanos

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