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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Brasil e Estados Unidos/MÉDICI E NIXON PLANEJARAM DERRUBAR ALLENDE E FIDEL

O presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon (1913-1994) e o general de turno na ditadura brasileira, Emílio Garrastazu Médici (1905-1985) conspiraram juntos na Casa Branca em dezembro de 1971 pela derrubada do socialismo em Cuba e no Chile de Allende. O relato do encontro está num arquivo secreto da Casa Branca agora desclassificado. O comportamento de Garrastazu adapta-se perfeitamente ao qualificativo: capacho do imperialismo americano.

16 agosto 2009/Vermelho http://www.vermelho.org.br

Por Bernardo Joffily

A reunião ocorreu no Salão Oval da Casa Branca, às 10h de 9 de dezembro de 1971. Do lado brasileiro, só Médici estava presente, deixando o Itamaraty de fora. Sem falar inglês, precisou da ajuda do general Vernon Walters. Agente da CIA (em breve seria nomeado seu vice-diretor), Walters fora adido militar americano no Brasil durante o golpe de 1964, falava bem o português e transitava facilmente nos círculos da direita militar brasileira.

Médici, sabujo, bajulador e servil
O relato Top Secret da conversa está agora – em inglês – no site americano The National Security Archive. Segundo o arquivo, Nixon perguntou a Médici se o exército chileno seria capaz de derrubar Allende. Médici disse que "achava que sim" e deixou claro "que o Brasil estava trabalhando para este fim".

Na parte pública dessa visita de Garrastazu a Washington, ficou famosa uma frase de Nixon: “Para onde o Brasil se inclinar, a América do Sul se inclinará". Agora, a transcrição das atas do encontro reservado no Salão Oval da Casa Branca deixa explícito qual era o sentido verdadeiro do comentário.

Vistos quase quatro décadas mais tarde, os arquivos evidenciam o quanto mudou o Brasil e a América Latina. Naquela época, como fica claro na conversação, era uma reserva direta dos EUA, merecendo integralmente o rótulo de quintal do imperialismo americano.

Ainda hoje há no vizinho do Norte quem assim pense, colaborando com os golpistas hondurenhos ou planejando bases militares na Colômbia. Mas é difícil acreditar que haja espaço para uma repetição do comportamento sabujo, bajulador e servil exibido pelo general Emílio Garrastazu Médici conforme a transcrição. O relato torna-se ainda mais repugnante quando se recorda que dentro do Brasil vivia-se em plena escalada das torturas e assassinatos de opositores da ditadura.

Conspiração para derrubar Fidel
Conforme o documento, Nixon começa por esclarecer que os movimentos de seu governo em relação à União Soviética e à china "absolutamente não significam" que "também haverá mudança em nossa política para com Cuba". O relatório descreve:

"O presidente [Nixon] repetiu que não haveria mudança em nossa atitude para com Cuba enquanto Castro estivesse no comando e continuasse a tentar exportar a subversão. O preidente Médici disse que estava muito contente de ouvir isso e que isso coincidia exatamente com a posição brasileira."

Depois de discutirem maneiras de barrar o reingresso de Cuba na OEA (Organização dos Estados Americanos) – uma posição que veio abaixo em 2009 –, Nixon e Médici concordam em estabelecer "meios de comunicar-se diretamente, fora dos canais diplomáticos normais". O ditador brasileiro indicou como seu canal privado de contato o chanceler Gibson Barbosa. Em seguida, voltou ao tema cubano.

"O presidente Médici disse então que havia grande número de exilados cubanos nas Américas em geral; ele acreditava que existiam então um milhão de cubanos nos Estados Unidos. Esses homens alegavam que tinham forças e condições de derrubar o regime de Castro. Surge a pergunta: deveríamos ajudá-los ou não? O presidente [Nixon] ponderou a questão e disse achar que devíamos, desde que não os levássemos a fazer algo que não pudéssemos apoiar, e desde que a nossa mão não aparecesse. O presidente Médici concordou, dizendo que em nenhuma circunstância uma assistência que déssemos deveria ser visível. Caso houvesse alguma coisa em que o Brasil pudesse ajudar, seria de se apreciar que obtivéssemos essas opiniões através do canal privado."

O "trabalho" da ditadura brasileira no Chile
A conversa trata também das relações do Brasil com o Peru, a Bolívia, as ditaduras do Paraguai e da Argentina (esta, uma relação "de general para general", segundo Garrastazu). Entra em pauta então a questão do Chile, que vivia então a experiência do governo Salvador Allende, eleito no ano anterior por uma coligação socialista-comunista. Veja o trecho:

"O presidente [Nixon] perguntou então ao presidente Médici sua opinião sobre como se desenvolveria a situação no Chile. O presidente Médici disse que Allende seria derrubado pelas mesmíssimas razões pelas quais [o presidente brasileiro João] Goulart fora derrubado no Brasil. O presidente [Nixon] então operguntou se o presidente Médici pensava que as forças armadas chilenas seriam capazes de derrubar Allende. O presidente Médici respondeu que acreditava que eram, agregando que o Brasil estava intercambiando muitos oficiais com os chilenos, e deixou claro que o Brasil estava trabalhando para este fim. O presidente [Nixon] disse que era muito importante que o Brasil e os Estados Unidos trabalhassem muito intimamente nesse campo. Se os brasileiros sentirem que há algo que possamos fazer para sermos úteis nessa área, gostaríamos que o presidente Médici nos fizesse saber. Caso fosse preciso dinheiro, ou outra ajuda discreta, estaríamos dispostos a fornecê-la Isso deveria ser conduzido com a mais elevada reserva. Mas deveríamos tentar, evitar novos Allendes e Castros e tentar, onde possível, reverter essas tendências. O presidente Médici disse que estava contente em ver que as posições brasileiras e americanas eram tão próximas".

Médici ajudou a manipular eleição uruguaia
Outro documento secreto, relatando um encontro com o primeiro ministro britânico, Edward Heath, 11 dias mais tarde, mostra o entusiasmo de Nixon com o anticomunismo de Garrastazu. Veja esta transcrição do que ele disse, quando Heath perguntou-lhe sobre Cuba:

"O homem Castro é um radical. Radical demais até para Allende e os peruanos. Nossa posição é sustentada pelo Brasil, que é, afinal, a chave para o futuro. Os brasileiros ajudaram a manipular ["rig"] a eleição uruguaia. O Chile é outro caso – a esquerda está em dificuldades. Há forças que estão trabalhando e que nós não estamos desencorajando.

Na eleição presidencial uruguaia de novembro daquele ano, a Frente de Esquerda concorrera pela primeira vez. A coalizão de esquerda, hoje na presidência e favorita na eleição de outubro, obteve 18% dos votos na contagem oficial; ela era a principal preocupação tanto da Casa Branca como da ditadura brasileira.

Apelo a Lula: abra os arquivos da ditadura
Peter Kornbluh, diretor dos projetos sobre Chile e Brasil do The National Security Archive, considera que "os arquivos do Brasil são o elo perdido" e "um capítulo oculto da intervenção conjunta para derrubar o governo do Chile". Kornbluh fez um apelo para que o presidente Lula abra os arquivos dos militares. "A história completa da intervenção na América do Sul nos anos 1970 não pode ser contada sem acesso aos documentos brasileiros", afirmou.

Um relatório da CIA, citando fontes brasileiras, registra que Nixon e Médici concordaram em colaborar para contrarrestar a "tendência à expansão marxista/esquerdista" na América latina. Nixon prometeu "ajudar o Brasil quando e como fosse possível".

Esse relatório observa que o conteúdo do acordo secreto causou constrangimentos em alguns altos oficiais brasileiros. O general Vicente Dale Coutinho, comandante do 4º Exército, afirmou, segundo o texto da CIA, que "os EUA obviamente querem que o Brasil faça o 'trabalho sujo' na América do Sul".

O site The National Security Archive fornece numerosos outros originais mantidos em segredo pela Casa Branca, na medida em que vão sendo desclassificados e têm sua divulgação permitida. Alguns deles, inclusive sobre as relações com o Brasil, são liberados com tarjas pretas cobrindo os trechos que ainda são considerados "sensíveis".

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BRAZIL CONSPIRED WITH U.S. TO OVERTHROW ALLENDE

The National Security Archive
http://www.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB282/index.htm

Declassified U.S. Documents Show Richard Nixon and Brazilian President Emilio Médici Discussed Coordinated Intervention in Chile, Cuba, and other Latin American nations "to prevent new Allendes and Castros"
Secret Back Channel established between Presidents
Brazilian General Accused U.S. of Asking Brazil to "do its dirty work"
National Security Archive Electronic Briefing Book No. 282
Posted - August 16, 2009
For more information contact:
Peter Kornbluh - 202/994-7116

Washington, D.C., August 16, 2009 - In December 1971, President Richard Nixon and Brazilian President Emilio Garrastazú Médici discussed Brazil’s role in efforts to overthrow the elected government of Salvador Allende in Chile, formerly Top Secret records posted by the National Security Archive today reveal. According to a declassified memorandum of conversation, Nixon asked Médici whether the Chilean military was capable of overthrowing Allende. “He felt that they were…,” Médici replied, “and made clear that Brazil was working toward this end.”

The Top Secret “memcon” of the December 9, 1971, Oval Office meeting indicates that Nixon offered his approval and support for Brazil’s intervention in Chile. “The President said that it was very important that Brazil and the United States work closely in this field. We could not take direction but if the Brazilians felt that there was something we could do to be helpful in this area, he would like President Médici to let him know. If money were required or other discreet aid, we might be able to make it available. This should be held in the greatest confidence.”

The U.S. and Brazil, Nixon told Médici, “must try and prevent new Allendes and Castros and try where possible to reverse these trends.”

During the same meeting, President Médici asked Nixon if “we” should be supporting Cuban exiles who “had forces and could overthrow Castro’s regime.” Nixon responded that “we should, as long as we did not push them into doing something that we could not support, and as long as our hand did not appear.” The two also participated in a discussion of the potential to undermine the populist Peruvian President General Velasco Alvarado by publicizing the allegation that he had a lovechild with a mistress—she was a former “Miss Peru”—in Paris, according to General Vernon Walters who also attended the Médici/Nixon meeting.

The documents were declassified in July as part of the State Department’s Foreign Relations of the United States (FRUS) series.

The memcon records Nixon telling Médici that he “hoped we could cooperate closely, as there were many things that Brazil as a South American country could do that the U.S. could not.” Indeed, the documentation reveals that Nixon believed that a special relationship with Brazil was so important that he proposed a secret back-channel between the two presidents “as a means of communicating directly outside of normal diplomatic channels.” Médici named his private advisor and foreign minister Gibson Barbosa as his backchannel representative, but told Nixon that for “extremely private and delicate matters” Brazil would use Col. Manso Netto. Nixon named Kissinger as his representative for the special back channel.

Communications between Nixon and Medici using the special back-channel remain secret.
Peter Kornbluh, who directs the National Security Archive’s Chile and Brazil projects, noted that "a hidden chapter of collaborative intervention to overthrow the government of Chile" was now emmerging from the declassified documentation.

"Brazil's archives are the missing link," he said, calling on President Ignacio Lula da Silva to open Brazil’s military archives on the past. “The full history of intervention in South America in the 1970s cannot be told without access to Brazilian documents."

Drawing on Brazilian sources, a CIA intelligence memorandum noted that Médici had proposed that Brazil and the U.S. cooperate in countering the “trend of Marxist/leftist expansion” in Latin America and that Nixon promised to “assist Brazil when and wherever possible.” The report noted that the substance of the secret talks had created concern among some officers in Brazil who believed that responsibility for these operations would fall to the Brazilian Armed forces. The memo quoted General Vicente Dale Coutinho as stating that “the United States obviously wants Brazil to ‘do the dirty work’” in South America.

A CIA National Intelligence Estimate done in 1972 predicted that Brazil would play an increasingly bigger role in hemispheric affairs, “seeking to fill whatever vacuum the US leaves behind. It is unlikely that Brazil will intervene openly in its neighbors internal affairs,” the intelligence assessment predicted, “but the regime will not be above using the threat of intervention or tools of diplomacy and covert action to oppose leftist regimes, or keep friendly governments in office, or to help place them there in countries such as Bolivia and Uruguay.”

In 2002, National Security Archive analyst Carlos Osorio posted a declassified Top Secret memorandum of conversation of Nixon’s meeting with British Prime Minister Edward Heath dated December 20, 1971, during which the two discussed Brazil’s role in South America. “Our position is supported by Brazil, which is after all the key to the future,” states Nixon, “The Brazilians helped rig the Uruguayan election... There are forces at work which we are not discouraging."

Read the Documents
Document 1: White House Memorandum, Top Secret, “Meeting with President Emílio Garratazú Médici of Brazil on Thursday, December 9, 1971, at 10:00 a.m., in the President’s Office, the White House”, December 9, 1971.

During this meeting between President Nixon and President Médici, the two discuss the political and economic situations in several nations of mutual concern, among them Chile, Cuba, Peru, and Bolivia. Nixon asks Médici whether he feels the Chilean military could overthrow President Salvador Allende. Médici responds that he believes Allende will be overthrown “for very much the same reasons that Goulart had been overthrown in Brazil,” and “made it clear that Brazil was working towards this end.” Nixon stressed “that it was very important that Brazil and the United States work closely in this field” and offered “discreet aid” and money for Brazilian operations against the Allende government. The two also discuss mutual operations against Castro supporting exile groups that had the forces to overthrow him, and how to block Peru’s efforts to bring Cuba back into the OAS. During the meeting, Nixon raises an issue he clearly considers of major importance: establishing a highly secret back channel between the two presidents: because of the close relationship they have developed, he would like to have “a means of communicating directly outside of normal diplomatic channels when this might be necessary.” Médici agrees and names Brazilian Foreign Minister Gibson Barbosa as a representative for such communication while Nixon picks Kissinger. Médici also tells Nixon he will use Brazilian Colonel Manso Netto if the issue is particularly sensitive and discreet. Nixon notes that the two countries “must try and prevent new Allendes and Castros and try where possible to reverse these trends.” At the end of the meeting, Nixon states that he “hoped that we could cooperate closely, as there were many things that Brazil as a South American country could do that the U.S. could not.”

Document 2: Memorandum from the Senior Department of Defense Attache in France (Gen. Walters) to the President’s Assistant for National Security Affairs (Henry Kissinger), undated.

In a memo to National Security Advisory Henry Kissinger, General Vernon Walters reports on the meeting between Médici and Nixon, and on the follow-up instructions that Nixon has given. First, Nixon wants Kissinger and Secretary Connolly to ensure priority support for the Inter-American Development Bank. Nixon also wants Kissinger to know that Nixon’s special channel to Médici and the Brazilians will be through Foreign Minister Gibson Barbosa, that Col. Arthur S. Moura who presently was the Army and Defense Attache in Brazil should be promoted to Brigadier General. The President also expects Médici to tell Kissinger of the visit of Argentine president Lanusse to Brazil and then Kissinger will relay the information to Nixon. Gen. Walters is also instructed to convey to Kissinger how much Nixon enjoyed meeting Médici and establishing a close relationship with the Brazilian president.

Document 3: CIA Memorandum, from CIA Deputy Director Robert Cushman to National Security Advisor Henry Kissinger, “Alleged Commitments Made by President Richard Nixon to Brazilian President Emílio Garrastazú Médici”, December 29, 1971.

After word of the discussion between Nixon and Médici leaks to the Brazilian military, the CIA transmits intelligence on the reaction among several officers. A memo from CIA Deputy Director Robert Cushman to National Security Advisor Henry Kissinger, asserts that the talks between Brazilian President Medici and President Nixon resulted in the two countries forming a pact to combat Latin American communism. Cushman also reports that General Vicente Dale Coutinho, commander of the fourth army, and other field grade officers in the Northeast, “have learned from a “Cabinet leak” that secret talks between the two Presidents were of great importance in the formulation of Brazilian foreign policy.” According to CIA intelligence, the military officers believe that the focus of the talks centered on hemisphere security, and Nixon reportedly asked support from Medici “in safeguarding the internal security and status quo in the hemisphere, including the governments of Bolivia and Uruguay.” Medici agreed to the request and “personally believes the Brazilian government must assume a greater role in defending neighboring, friendly governments.” According to the report, General Coutinho takes offense to this notion and feels that the U.S. wants Brazil “to do the dirty work” and he believes the Brazilian military will be significantly disadvantaged because of it.

Document 4: National Intelligence Estimate 93-73, Secret, “The New Course in Brazil”, January 13, 1972.

This National Intelligence Estimate on Brazil predicts that the Brazilian military intends to “dominate Brazilian politics for years to come.” The assessment of the intelligence community is that there is no opposition capable of overthrowing the government, but if political division grows within the ranks of the military it could throw the country into chaos. The NIE says Brazil’s economy has a positive outlook for the next five years, and although the government will have recurring problems with the balance of payments over that time, it will “probably be able to deal with them.” The NIE reports that the reputation of the Brazilian military will reflect on the strength of its economy, and the growing social problems within in the country will grow even if the economy does. The NIE says that more Brazilians are becoming educated and realizing what their country lacks, which could affect the control of the military government. The report reasons that Brazil will continue to see itself as an ally of the U.S., but further nationalistic opinion within the country and trade issues will make the relationship rockier. The NIE concludes stating that Brazil will not hesitate to intervene in its neighbors’ affairs, using covert action “to oppose leftist regimes, to keep friendly governments in office, or help place them there in countries such as Bolivia and Uruguay.”

In the news
"Memos Show Nixon’s Bid to Enlist Brazil in a Coup"
By Alexei Barrionuevo
New York Times
August 16, 2009

"Brazil played role in U.S.-backed overthrow of Chile's Allende, document shows"
By Andrew Zajac
Los Angeles Times
August 15, 2009

Related Posting
Nixon: "Brazil Helped Rig the Uruguayan Elections," 1971

quarta-feira, 29 de julho de 2009

AS DITADURAS PODEM VOLTAR

O recente golpe coloca o governo Obama frente à hora da verdade. Ao receber a notícia, Hillary Clinton vacilou

Frei Betto

24 julho 2009/Brasil de Fato http://www.brasildefato.com.br

Todos os ditadores – de Hitler a Médici, de Batista a Stalin, de Franco a Somoza – passam à história como figuras execráveis, cujos nomes, estigmatizados, se associam às vitimas de seus governos tirânicos.
Aliás, Tirano era o comandante da guarda do rei Herodes. Seu nome tornou-se sinônimo de crueldade por se atribuir a ele a execução da ordem real de decapitar, em Belém, todos os bebês, entre os quais estaria Jesus se José e Maria não tivessem fugido com ele para o Egito.
A América Latina carrega em sua história longos períodos de supressão do regime democrático. No século XX, o Brasil conheceu dois: sob o governo Vargas (1937-1945) e sob o regime militar (1964-1985), sem falar dos que governaram sob Estado de Sítio.
O paradoxo é que todas as ditaduras latino-americanas foram suscitadas, patrocinadas, financiadas e armadas pelo governo dos EUA. Até o mandato de George W. Bush, para a Casa Branca, democracia, consistia numa panacéia, mera retórica política. Fala-se que nos EUA nunca houve golpe de Estado porque não há, em Washington, embaixada americana...
O recente golpe em Honduras, que resultou na deposição do presidente Zelaya, democrática e constitucionalmente eleito, coloca o governo Obama frente à hora da verdade. Ao receber a notícia, Hillary Clinton, secretária de Estado, vacilou. Talvez tivesse manifestado apoio aos golpistas se o presidente Obama, em viagem à Rússia, não houvesse reagido em defesa de Zelaya como legítimo mandatário.
Ainda assim, os EUA não suspenderam sua ajuda financeira e militar às Forças Armadas hondurenhas, que sustentam o ditador de plantão.
A política externa da Casa Branca trafega sobre o fio da navalha. Sabe que Zelaya está mais próximo de Chávez que dos falcões usamericanos que ainda comandam a CIA. Esta agência, especializada em terrorismo oficial, não foi devidamente saneada por Obama. E, agora, tenta justificar o golpe sob o pretexto, infundado, de que o presidente da Venezuela estaria prestes a remeter comandos militares a Honduras para derrubar os golpistas e devolver o mandato ao presidente Zelaya.
A América Latina conheceu significativos avanços políticos nas últimas duas décadas. Após destronar as ditaduras militares e rechaçar presidentes neoliberais – Collor no Brasil, Menem na Argentina, Fujimori no Peru, Caldera na Venezuela – demonstra preferência eleitoral por candidatos oriundos de movimentos sociais, dispostos a disputar o espaço das esferas de poder com os tradicionais grupos oligárquicos.
É verdade que o uso do cachimbo entorta a boca. Alguns mandatários, em nome da governabilidade, não têm escrúpulos em fazer concessões a velhos caciques políticos notoriamente corruptos, representantes de feudos eleitorais marcados pela mais extrema pobreza.
Quando um líder político de origem progressista se deixa cooptar pela oligarquia conservadora o que está em jogo, de fato, não é a propalada governabilidade. É a empregabilidade. Perder eleição significa o desemprego de milhares de correligionários que ocupam a máquina do Estado. Nesses tempos de crise financeira não é fácil inserir órfãos do Estado na iniciativa privada. Seria, para muitos, atroz sofrimento perder o cargo e, com ele, as mordomias, tanto materiais - transporte e viagens pagos pelo contribuinte -, como simbólicas - a aura de autoridade que desencadeia em torno ondas concêntricas de bajulação.
Todos sabemos que, hoje, no centro da vida política se sobressai a questão ética. A maioria dos políticos teme a transparência. Por isso, muitos, descaradamente, agem por baixo dos panos, promulgam decretos secretos, cumpliciam-se em maracutaias, tratam como de somenos importância o fato de o deputado do castelo usar verba pública em benefício próprio, ou um senador, ex-presidente da República, incluir sua árvore genealógica na folha de pagamento custeada pelo contribuinte.
Se não se estancar essa deletéria convivência e conivência de lideranças outrora progressistas com velhos e corruptos caciques, não se evitarão a descrença na democracia, a deterioração das instituições políticas, a perda do senso histórico na administração pública. O que constitui excelente caldo de cultura para favorecer o retorno de ditadores salvadores da pátria.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

quarta-feira, 18 de março de 2009

CARTAS PARAGUAIAS 2: UM TRATADO DE DUAS DITADURAS

Na segundo texto da série sobre Itaipu, Colman trata do clima político do Paraguai na época da assinatura do Tratado

Roberto Colman *

13 março 2009/Brasil de Fato

Ao defender o"status quo" em Itaipu, alguns porta-vozes do governo brasileiro defendem tudo o realizado nos últimos 35 anos desde a assinatura do Tratado que viabilizou essa obra. Vejamos o absurdo que isso significa para um governo democrático e popular.

O Tratado de Itaipu foi assinado pelos governos do Brasil e Paraguai em 26 de abril de 1973. Não precisamos explicar para o povo braileiro o que era o governo de Emílio Garrastazu Médici, que encabeçou o período mais repressivo da ditadura militar brasileira.

Mas pode ser esclarecedor para o leitor e leitora do Brasil saber o que estava acontecendo no Paraguai por esses anos. Nosso país vivia sob a ditadura do general Alfredo Stroessner, que tomou o poder em maio de 1954 e somente seria derrubado por um golpe militar, em 1989, liderado por generais até então seus aliados.

Durante o período que aqui estamos tratando, houve sucessivas vagas repressivas. Em 1969, atingiu a juventude que se manifestou contra a presença do enviado dos Estados Unidos, Nelson Rockefeller. Sucessivas tentativas de organizar a resistência à ditadura foram dizimadas entre 1970 e 1975. Nesse último ano, dois dos principais dirigentes comunistas foram mortos sob tortura. Em 1976, foram centenas de presos, dezenas de torturados e um total de 18 mortos (muitos camponeses assassinados diante de suas comunidades como forma de amedrontá-las).

Em 1977, foram perseguidos e presos intelectuais críticos. Desde o final dos anos 1960, houve uma série de ataques à liberdade de imprensa, com o fechamento de meios de comunicação e a imposição de censura prévia. Vários jornalistas foram presos entre 1974 e 1979. Um dos alvos prioritários da ditadura foi a Igreja: entre 1967 e 1976, um total de 17 padres católicos
foram expulsos do país.

A assinatura do Tratado de Itaipu aconteceu bem no meio desse período. No Paraguai, a juventude, os partidos de oposição à ditadura e alguns meios de comunicação questionaram seus termos. Mas não houve debate democrático, nem poderia haver nessas circunstâncias.

Depois de Stroessner, governaram o Paraguai seus "herdeiros" nos negócios e na política. Somente no passado 20 de abril, com a vitória da candidatura de Fernando Lugo, aqueles setores que resistiram à ditadura e questionaram o Tratado de Itaipu chegaram ao governo do Paraguai, vinte anos depois de iniciada a "transição democrática"!.

Em Paraguai, então, há claramente duas épocas diferentes. E, desde 15 de agosto passado, com o início do governo Lugo, começou finalmente o período democrático. Acreditamos que no Brasil também ocorre algo assim com o governo Lula em relação a seus antecessores. No entanto, alguns funcionários do governo brasileiro agem em sentido oposto e defendem "tudo o realizado
nos últimos 35 anos" em Itaipu como uma obra da "genialidade diplomática" e um exemplo de transparência e honestidade a ser seguido etc. Assim, o ministro Lobão (Minas e Energia) argumentou recentemente que não houve "ditadura militar" no Brasil, mas um "regime de exceção" e que o Tratado é um "monumento jurídico" (O Globo, 13/10/2008). Como iremos mostrar, por
detrás desse discurso em defesa do"status quo" em Itaipu estão apenas alguns grandes interesses econômicos (em geral, privados) e não o "interesse nacional brasileiro".

Creio que seria hora de também o Brasil resgatar aqueles que no seu momento questionaram a política da ditadura militar em Itaipu e continuaram defendendo as mesmas posições depois. Entre eles, tem um lugar de destaque Paulo Schilling. Somente assim, a opinião pública brasileira entenderá corretamente as reivindicações do povo paraguaio.

* Roberto Colman, sindicalista eletricitário paraguaio, integra a Frente Social e Popular (FSP) e a Coordenação Nacional pela Soberania e a Integração Energética (CNSIE) do Paraguai.

* Para saber mais sobre a ditadura de Stroessner ver, entre outros livros: "Diccionario usual del stronismo", de Alfredo Boccia Paz. Asunción: Ed. Servilibro, 2004.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/analise/cartas-paraguaias-2-um-tratado-de-duas-ditaduras

Leia mais:
Cartas paraguaias 1: Um agradecimento e nosso projeto comum
Cartas paraguaias 3: Uma usina que primeiro gerou corrupção