26 de Setembro de 2012/Irã News http://www.iranews.com.br (Brasil)
Vânia Leite Fróes*
Este é um belo livro. Alterna uma narrativa
fluida e elegante com questões bem fundamentadas em fontes, cujo manejo erudito
revela a boa formação da autora. Que prazer passear pelos intrincados caminhos
do espaço islâmico guiada pelas mãos desta Beatriz!
À oficina de historiadora, alia a velha forja
da jornalista. “Artesã” de dupla formação examina o delicado tecido
sócio-cultural da espacialidade movendo-se no campo do religioso islâmico e das
velhas heranças culturais presentes no mundo árabe medieval.
Ao longo da leitura desta obra, interrogamo-nos
valores de um mundo aparentemente distante do nosso em tempo. Um leitor mais
desavisado poderia concluir que este é apenas (o que não seria pouco) um livro
de História Medieval. Enganar-se-ia bastante.
Esta é uma obra que nos faz chegar facilmente à
contemporaneidade, que desconstrói equívocos e preconceitos que associam os
árabes ao fanatismo, ao atraso e ao bárbaro. A análise feita aqui revela outro
universo - culto, dinâmico, aberto aos mares longínquos, que valora a escrita,
o convívio harmônico entre campo e cidade e o conhecimento.
Viajar é preciso, diziam os árabes, ninguém é
sábio sem ver e experimentar o mundo, sem amar as cidades bem construídas e sem
conhecer a língua do profeta, que abre para o leitor as maravilhas dos contos
orientais e do deserto purificador.
A obra aqui apresentada é produto de densa
pesquisa acadêmica que a autora realizou para sua tese de doutoramento. O
recorte temático feito a partir da categoria de espaço é o principal eixo deste
trabalho.
Partindo do pressuposto de que a noção de
espaço não é apriorística, mas constituída e constituinte das relações sociais
e da própria cultura árabe, a historiadora mostra como o campo do religioso
islâmico fornece os elementos básicos para a ordenação e representação
espacial.
Duas grandes hipóteses (fartamente comprovadas)
nortearam o trabalho da autora: uma primeira, de que o espaço é percebido como
unitário (umma), ordenado a partir do islamismo (entendido não apenas como religião,
mas como “um modo de vida”). A noção de pertencimento estrutura-se, neste
universo, à estreita relação mundo civilizado/umma/mundo urbano e
hierarquiza-se a partir de um ponto de referência sacralizado: Meca.
Uma segunda hipótese diz respeito diretamente à
noção árabe de que viajar e narrar são, não só questões centrais para a
percepção do espaço, mas também como forma estruturante do saber. Explica a
autora que “na sociedade islâmica a viagem não conduzia a uma hermenêutica do
Outro; era uma ferramenta de exegese de si própria”.
O livro foi dividido em duas partes. A
primeira, O Islã por escrito, contém três capítulos. O primeiro, introdutório,
apresenta uma discussão teórica de espaço e arrola questões interdisciplinares,
pertinentes à antropologia, à sociologia e à história. O segundo recorta o
mundo árabe islâmico do século XIV exemplificando o Magreb do século XIV terra
de Ibn Khaldun e de Ibn Battuta. Nesta época, a região magrebina estava tomada
por lutas internas e desavenças políticas, agravadas pela peste que tomara
também o Ocidente Latino. Embora em crise, ela ainda oferece referências para
Khaldun, pois era a intermediária entre o mundo árabe e o latino.
Um terceiro capítulo, muito erudito, analisa os
principais problemas textuais, fazendo um balanço da situação atual dos
manuscritos, das diferentes traduções e edições das fontes aqui tomadas como
referência. Finalmente a autora analisa o estado atual das questões bem como as
principais vertentes da produção historiográfica relativas ao tema proposto.
A segunda parte, mais analítica e comprobatória
analisa como Khaldun nos seus Prolegômenos, define o espaço civilizacional
humano constituído de dois pólos complementares e em equilíbrio: a civilização
rural (umram badawi) e a urbana (umram hadari).
Um quinto capítulo, belíssimo, toma a questão
da viagem como forma de obtenção do conhecimento e como expressão de fé.
Viajava-se quase sempre dentro do mundo islâmico (entendido como um conjunto
unitário, a umma), para cumprir a obrigatoriedade de peregrinação à Meca, mas
também para obter conhecimento.
Os últimos capítulos apontam a construção de
uma verdadeira cosmologia que ordena o mundo a partir da cidade sagrada de
Meca, centro do mundo civilizado, expresso, sobretudo na experiência urbana,
cujo modelo ideal é sempre a cidade do profeta.
Ao longo do texto, enriquecido com belas
ilustrações, há mapas precisos e coerentes com o que se quis demonstrar, um
Apêndice com uma Cronologia que abrange todo o período pesquisado e um
glossário, suporte útil para aqueles que, não sendo especialistas, desejam
compreender passagens mais específicas do texto. Finalmente, uma Antologia de
textos das fontes que deram suporte às principais hipóteses da pesquisa.
O livro é um convite a viajar no tempo (e num
tempo) e pode dissipar muitas “verdades” montadas nos gabinetes de falcões que
fazem a guerra ao terrorista, como antes se fez ao infiel...
É preciso ler através dos olhos da autora, o
que disseram e como dialogaram com seu tempo e como dialogam com nosso tempo o
mundo de Khaldun e Ibn Battuta.
*Professora titular de História Medieval
Departamento de História da Universidade
Federal Fluminense