17 março 20013,
Carta Maior http://www.cartamaior.com.br (Brasil)
Amy Goodman
Jornalista argentino que investigou relações entre ditadura e Igreja
revela papel real de Bergoglio. Também prevê: Papa será um
“conservador-populista”
Entrevista a Amy Goodman e Juan González, em
Democracy
Now | Tradução: Gabriela Leite
No início desta semana, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito
por seus pares como novo Papa da Igreja Católica. Assumiu o posto sob o título
de Francisco. Imediatamente, vieram à tona os laços de cumplicidade mantidos
entre a cúpula eclesiástica argentina e a ditadura militar, no poder entre 1976
e 83. Qual teria sido o papel de Bergoglio nestas relações perigosas?
Um dos principais jornalistas investigativos da Argentina, Horacio Verbitsky (hoje
no diário “Pagina 12”) escreveu extensivamente sobre a
carreira do Cardeal Bergoglio e suas ações no período, em que mais de 30 mil
pessoas foram sequestradas e assassinadas. Uma ação judicial de 2005 acusou
Jorge Bergoglio de estar conectado aos sequestros de dois padres jesuítas em
1976, Orlando Yorio e Francisco Jalics. A ação foi protocolada após a
publicação do livro de Verbitsky, “O Silêncio: De Paulo VI a Bergoglio: As Relações
Secretas entre a Igreja e a ESMA”. ESMA é a antiga Escola
Superior de Mecânica da Marinha argentina, transformada em um centro de
detenção onde prisioneiros eram torturados pela ditadura militar.
Bergoglio negou as acusações. Ele invocou duas vezes seu direito, sob a lei
argentina, de recusar-se a depor no processo aberto para apurar os fatos.
Quando finalmente o fez, em 2010, os ativistas de direitos humanos caracterizaram
suas respostas como evasivas. Na última quarta-feira (13/3), Verbitsky falou a
“Democracy Now” sobre o passado do novo Papa, e também sobre seu perfil.
Amy Goodman: Para começar, gostaria que você nos contasse o que acha
importante para entendermos o perfil do novo Papa, Francisco.
O principal a se entender sobre Francisco I é que ele é um conservador
populista, ao mesmo estilo de João Paulo II. É um homem de posições
conservadoras fortes em questões de doutrina, mas com um toque popular. Prega
em estações de trem, nas ruas. Vai até os bairros pobres para rezar. Não espera
as pessoas irem até a igreja, vai até elas. Mas a mensagem é absolutamente
conservadora. Ele opôs-se ao aborto, à lei do casamento homoafetivo. Lançou uma
“cruzada contra o mal”, quando o Congresso estava aprovando esta lei,
exatamente no mesmo estilo de João Paulo II. Isso é o que considero ser a
característica principal do novo papa.
Juan González: Bem, talvez este conservadorismo seja característica comum
de muitos cardeais consagrados nos dois últimos papados. Mas no caso de
Bergoglio, existe também a questão de seu papel, ou das acusações sobre seu
envolvimento na “Guerra Suja”, na Argentina. Você,
que fez diversas reportagens investigativas sobre o tema, poderia nos dizer
algo a respeito?
É claro. Ele foi acusado por dois padres jesuítas de tê-los denunciado aos
militares. Faziam parte de um grupo sob direção de Bergoglio. Ele tornou-se o
superior provincial da ordem, na Argentina, quando ainda muito jovem. Foi o
provincial jesuíta mais novo da história: aos 36 anos [em 1972]. Durante um
período de grande atuação política na Companhia de Jesus, ele estimulou o
trabalho social dos jesuítas. Mas quando o golpe militar derrubou o governo de
Isabel Perón, ele mantinha contato com os militares e pediu aos jesuítas para
interromperem a ação social. Como recusaram-se a fazê-lo, deixou de
protegê-los, e permitiu que os militares soubessem que eles não estavam mais
sob proteção da Companhia de Jesus. Eles foram sequestrados e o acusam por esta
ação. Ele nega. Ele disse a mim que tentou libertá-los, que falou com os
ex-ditadores Videla e Massera para libertá-los.
Durante um longo período, ouvi duas versões: a versão dos dois padres
sequestrados, que foram soltos depois de seis meses de tortura e cativeiro, e a
versão de Bergoglio. Essa foi uma questão controversa e divisiva no movimento
de direitos humanos a que pertenço, o Centro de Estudos Legais e Sociais (
CELS).
O presidente fundador do CELS, Emilio Mignone, afirmou que Bergoglio era
cúmplice dos militares. Uma advogada do CELS, Alicia Oliveira, que era amiga de
Bergoglio, conta outra parte da história, que Bergoglio os ajudou. Essas são as
duas versões.
Mas durante a pesquisa para um dos meus livros, encontrei, no arquivo do
ministério de Relações Exteriores da Argentina, documentos que, segundo
entendo, encerram o debate e mostram o duplo padrão que orientou Bergoglio. O
primeiro documento era uma nota na qual ele pedia ao ministro a renovação do
passaporte de um desses jesuítas, sem que tivesse necessidade de voltar à
Argentina. O segundo, é uma nota do oficial que recebeu a petição, recomendando
a seu superior, o ministro, a recusa da renovação do passaporte. E o terceiro
documento é uma nota do mesmo oficial, dizendo que esses padres tinham ligação
com a subversão – era assim que os militares caracterizavam qualquer pessoa envolvida
com a oposição do governo, política ou armada –; que ele havia sido preso na
ESMA; e que essa informação fora dada pelo Padre Jorge Mario Bergoglio,
provincial superior da Companhia de Jesus.
Isso significa, no meu entendimento, um duplo padrão. Ele pediu o passaporte
para o padre em uma nota formal, com sua assinatura; mas, em privado, disse o
oposto, e repetiu as acusações que fizeram os padres ser sequestrados.
Amy Goodman: Você pode explicar o que aconteceu a estes padres, Orlando
Yorio e Francisco Jalics?
Ambos, quando soltos, estavam drogados, confusos. Foram transportados de
helicóptero para a periferia de Buenos Aires e abandonados. Quando encontrados,
dormiam sob efeito de drogas, em péssima condição. Haviam sido interrogados e
torturados. Um dos interrogadores aparentava ter conhecimento de questões
teológicas, o que levou um dos padres, Orlando Yorio, a pensar que seu próprio
provincial, Bergoglio, estivesse envolvido no interrogatório.
O cardeal Bergoglio, que costumava usar o metrô de
Buenos Aires. Para Verbitsky, “ele vai aos bairros pobres, mas mensagem é
absolutamente conservadora”.
Amy Goodman: Segundo este padre, o próprio Bergoglio teria feito parte de
seu interrogatório?
Ele me disse que teve a impressão de que seu próprio provincial, Bergoglio,
estava presente durante o interrogatório, no qual um dos interrogadores sabia
bastante sobre questões teológicas. Quando solto, ele foi a Roma, onde viveu
sete anos, antes de voltar à Argentina. Ao regressar, ligou-se à diocese de
Quilmes, na Grande Buenos Aires, cujo bispo era um dos líderes do ramo
progressista da igreja argentina, oposto ao de Bergoglio. Então, Orlando Yorio
denunciou Bergoglio. Eu recebi seu testemunho quando Bergoglio foi eleito
arcebispo de Buenos Aires. E também entrevistei Bergoglio, que negou as
acusações, dizendo que defendeu os padres.
Orlando Yorio colocou-me em contato com o outro padre, Francisco Jalics, que
vivia na Alemanha. Ele confirmou a história, mas não quis ser mencionado em
minha matéria, porque preferia, segundo disse, não lembrar dessa triste parte
de sua vida e perdoar. Acrescentou que havia passado muitos anos ressentido com
Bergoglio, mas estava disposto a perdoar e esquecer. Quando publiquei meu livro
sobre o caso, um jornalista argentino que havia sido discípulo de Jalics falou
com ele e pediu que contasse a verdadeira história. Jalics respondeu que não
iria nem afirmá-la, nem negá-la.
Juan González: Gostaria de indagar sobre outro padre que se envolveu com
a Guerra Suja, Christian von Wernich, um antigo capelão do Departamento de
Polícia na Argentina.
Ele foi condenado, e ele está na cadeia, em prisão comum. Mas a igreja
argentina, durante o mandato de Bergoglio, não o puniu, em termos canônicos.
Ele foi condenado pela justiça humana mas, pelos padrões da igreja, continua a
ser um padre. Isso também diz algo sobre Bergoglio e a igreja argentina.
Juan González: Von Wernich estava envolvido em assassinatos, torturas e
sequestros. Você poderia detalhar alguns dos crimes pelos quais foi condenado?
Von Wernich era parte ativa nas torturas e assassinatos. Foi condenado não
apenas como cúmplice, mas como participante dos crimes. Estava presente durante
sessões de tortura. E não há apenas um capelão envolvido, existem alguns outros
que estão sob julgamento nesse momento. O capelão Regueiro está sob prisão
domiciliar, por ser idoso. O capelão Zitelli, da província de Santa Fé, esteve
presente em sessões de tortura. Vários capelões foram parte da Guerra Suja.
Amy Goodman: Gostaria de ler parte de um despacho do Departamento de
Estado dos EUA, revelado pelo WikiLeaks, que faz referências ao padre Christian
von Wernich, condenado em 2007 por cumplicidade em muitos casos de assassinato,
tortura e prisões ilegais na Argentina durante o período militar. O texto
observa que a condenação deu-se, cito, “no momento em que alguns observadores
consideraram o Cardeal Primaz Católico Romano Bergoglio um líder da oposição ao
governo de Kirchner, devido a seus comentários sobre questões sociais; o caso
von Wernich poderia também ter efeito, alguns acreditam, de minar a autoridade
moral de Igreja (e, por extensão, do Cardeal Bergoglio), ou sua capacidade de
comentar questões políticas, sociais ou econômicas”. Horacio, você poderia
comentar?
Podemos analisar este documento por partes. Primeiro, o Departamento de
Estado considerou Bergoglio o chefe da oposição ao governo Kirchner. Eu
concordo com esta avaliação. O Departamento de Estado também fala sobre a
condenação do padre von Wernich ter, como possível objetivo, o de minar a
posição de Bergoglio. Isso não é verdade, no meu entendimento. A condenação do
padre von Wernich é uma consequência de um movimento que começou muito antes
dos Kirchner chegarem ao poder e tem sua própria lógica judicial, não se
subordina a um calendário político.
Amy Goodman: Gostaria de perguntar sobre o tema do ocultamento de
prisioneiros políticos, quando uma delegação de direitos humanos foi à
Argentina. Você pode relatar o episódio, as alegações e o eventual papel de
Bergoglio?
Não, neste episódio Bergoglio não teve intervenção alguma. Quem agiu foi o
cardeal que chefiava a igreja em Buenos Aires. À época, Bergoglio não era
arcebispo. Quando a Comissão Interamericana de Direitos Humanos veio à Argentina,
para investigar alegações de violação de direitos humanos, a marinha retirou 60
prisioneiros da ESMA e os levou a uma vila, usada pelo Cardeal Aramburu nos
fins de semana. Este imóvel, na periferia de Buenos Aires, era também o local
onde se celebrava, a cada ano, o final dos estudos, no seminário católico. A
Comissão Interamericana visitou a ESMA, e não encontrou os prisioneiros que
supostamente estariam lá.
Bergoglio não teve intervenção alguma no episódio. Na verdade, ele ajudou-me
a investigar o caso. Deu-me a informação precisa sobre onde estavam os
documentos atestando que a vila era propriedade do Arcebispado de Buenos Aires.