27 junho
2016, Carta Maior http://cartamaior.com.br (Brasil)
Andrea Dip, Marina Amaral, Natalia
Viana, Vera Durão, da Agência Pública
Dilma Rousseff falou à Pública sobre machismo,
impeachment, América Latina, PSDB, governo Temer e polêmicas -- de aborto a
Lava Jato.
(Foto: José Cícero da
Silva/Agência Pública)
Uma van
nos conduz do portão ao imponente Palácio da Alvorada, fincado no cerrado de
Brasília. Subimos alguns lances de escada, entramos em uma sala de enorme
pé-direito, colorida por uma tapeçaria do chileno Kennedy Bahia, ao lado do
quadro “Colhendo Café”, de Djanira, sobre a parede de madeira. É ali, no
ambiente mais acolhedor da sala, em um sofá branco ladeado de poltronas, que a
presidente, afastada do cargo em 12 de maio passado até que o processo de
impeachment seja julgado pelo Senado, tem dado entrevistas, a maioria delas
para a imprensa internacional. A entrevista para a Agência Pública é
a primeira concedida a um grupo de jornalistas mulheres.
Ela chega com meia hora de
atraso, sorridente para além do protocolo. Dilma Rousseff e Vera Saavedra Durão
– jornalista econômica tarimbada que compõe a equipe de entrevistadoras da Pública –
se conhecem há exatos 50 anos, como constata a presidente, depois de checar com
a amiga a data em que se conheceram: 1966. As duas mineiras já eram militantes
de esquerda antes mesmo de se unirem à VAR-Palmares, a organização fundada em
1969 para travar a luta armada contra a ditadura militar (1964-1985).
Mas a conversa agora é sobre os
netos da presidente, Gabriel e Guilherme. “Neto ainda é melhor, tem mais calma
pra olhar que filho. E nunca falaram pra gente que era importante ter filho,
né, Vera?” Ambas riem, lembrando-se do tempo em que a revolução vinha em
primeiro lugar. “Eu lembro você de vestidinho rosa esperando a Paula”, diz
Vera, referindo-se ao primeiro encontro das duas mulheres depois da prisão.
Elas foram companheiras de cela no final dos quase três anos que a presidente
passou na cadeia, depois de apanhada pela Oban – Operação Bandeirante –, a
unidade de tortura e aniquilação de presos políticos do II Exército, em